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Fevereiro/2021

CAMINHOS
PARA EDUCAR
FILHOS HOJE
com Luiz Hanns
Luiz Hanns
É psicólogo clínico, graduado em psicologia pela
USP, doutor e mestre em psicologia clínica pela
PUC-SP. Professor convidado da Sigmund Freud
Universität de Viena, foi também professor convidado
da USP, consultor do Conselho Federal de Psicologia
e presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia.
Tradutor de Freud e autor de diversos livros sobre
psicoterapia aplicada, incluindo “A Arte de Dar Limites:
Como mudar atitudes de crianças e adolescentes”,
publicado pela Companhia das Letras. Atende em
consultório há mais de trinta anos.
AULA 1

Educar é preparar
para a vida
Quais as principais metas e tarefas para se educar um filho? Como pais devem
lidar com mentiras, preguiça, situações de malcriação e outras questões?

É importante entender que cada contexto possui uma relação muito específica
com o desenvolvimento da autonomia das crianças, bem como a forma como
esta autonomia será obtida. No Japão educa-se de forma diferente do que na
França, que é diferente da forma como se educa no Brasil e assim por diante.

Em uma sociedade adultocêntrica, como a francesa, a criança percebe desde


cedo a necessidade de se inserir no fluxo da vida adulta, de forma que os pais
não circulam em torno dela, mas é ela quem vai aprendendo a entrar neste universo,
percebendo as punições e corretivos, mas também a ordem e a regra. Em locais
mais coletivistas, como a sociedade japonesa, ensinar por exemplo é uma forma
bem conhecida de se desenvolver a reflexão, em que a atitude demonstra um
Norte. Na sociedade americana prevalece uma ideia de educação positiva,
demonstrando a ideia de decisão, apresentando os direitos e os deveres de
forma transparente, com as crianças lidando diretamente com as consequências
de seus atos.

Para além de diferenças culturais, famílias por si só já são completamente distintas


entre si, levando em conta suas culturas, tradições e ritos. Mais do que isso,
há diferenças entre os membros da própria família. Neste sentido, é fundamental
entender a diferença entre os filhos e entender que não se deve seguir receitas
ou fórmulas prontas, mas conceitos, pontos a serem trabalhados e não ideias absolutas.

É fundamental saber o que esperar e ter expectativas com relação à idade destas
crianças, de forma que cada idade corresponde a uma expectativa, sobretudo até
o quinto ano de vida da criança, momento em que as variações são mais amplas.
Cada criança possui um temperamento próprio (podendo ser percebida de forma
mais fácil em famílias que possuem mais de um filho). Procure entender as características
de seu(ua) filho(a) para melhor calibrá-las e adaptá-las a um mundo integrado.
Para isso são necessárias ferramentas para calibrar e lidar com as diversas idades.
• A primeira é o diálogo, em sua prática que é o diálogo em conexão com
as emoções e os pensamentos.
• A segunda ferramenta são os limites, demonstrando que existem situações
e atitudes que não serão aceitas;
• A terceira ferramenta são os projetos de mudança, uma espécie de assessoria
para filhos, em que pais utilizam seus conhecimentos e vivência para tutorar
a criança em situações determinadas.

Uma educação planejada visa empoderar os pais para que eles consigam trabalhar
com estas ferramentas, entender a personalidade dos filhos e realizar estes eventuais
ajustes – inclusive em si mesmos. Essas orientações devem ser feitas desde a infância,
mas nada impede que sejam feitas com filhos mais velhos. O objetivo é desenvolver
uma educação balanceada e não simplesmente reagir às situações e se preocupar
apenas com limites.

Outras ferramentas podem ser entendidas como competências essenciais de vida


tanto para crianças, como para adolescentes e adultos. Dar limites não é a meta
da educação, pelo contrário: dar limites é o ponto de partida da educação, sendo
as competências abaixo o objetivo. Cada aspecto é complementar aos outros e
é preciso atentar para que não haja insuficiência em algum deles.

SEIS COMPETÊNCIAS FUNDAMENTAIS PARA A VIDA

1. O desejo de experimentar e a vontade de conhecer;

2. A autonomia, a proatividade, a vontade de ser independente,


de forma genuína, driblando esquemas de dependência;

3. Competências interpessoais, englobando a inteligência emocional,


diplomacia, a percepção dos próprios sentimentos, compreender
o que o outro está pensando e passando;

4. A resiliência e a garra, e como seu(ua) filho(a) se relaciona com os


próprios erros e dificuldades;

5. A tolerância a frustrações e a capacidade que a criança tem de ser


flexível com soluções alternativas;

6. Capacidade de análise e planejamento, que seria a capacidade de


se organizar e vislumbrar um planejamento a curto, médio e longo
prazo e eventualmente realizar.
AULA 2

Os três pactos entre


mães, pais e filhos
Há três pressupostos que devem ser assumidos pelos pais e que firmam um
pacto no projeto de educação e crescimento dos filhos. Eles configuram o espírito
das leis do ambiente familiar, a essência de todo o projeto, como a Constituição
de um país.

O primeiro pressuposto é o pressuposto dos mandatos. Se você é pai ou mãe,


automaticamente está incumbido de sustentá-los na educação de seus filhos.
Os mandatos, assim como os pressupostos, são três:

PRIMEIRO MANDATO: SAÚDE E SEGURANÇA


O primeiro mandato é o de não ser omisso com a saúde e segurança dos filhos,
duas questões inegociáveis. Seja intransigente com o que colocar em risco a saúde
e segurança de seus filhos e assuma a tarefa de educá-los sobre como mantê-las
íntegras por conta própria.

SEGUNDO MANDATO: AUTONOMIA


Garanta que cada evento superado ensine uma lição, estimulando que eles busquem
desenvolver a própria autonomia nas atitudes, reflexões e nas diversas situações em
que se requer uma imposição, mesmo que preveja conflito.

TERCEIRO MANDATO: ÉTICA E ETIQUETA


Insista em formar e desenvolver a honestidade de seus filhos e exija deles uma postura
íntegra, especialmente frente a conflitos e adversidades. A etiqueta tem a ver com as
formas de se portar e a contribuição para refinar comportamentos. Falta de etiqueta
é não se adaptar ao contexto em que se está e não respeitar os hábitos praticados
em diferentes grupos e ambientes.

O segundo pressuposto se refere à relação entre amor, admiração e apoio. Apesar


de o amor pelos filhos ser incondicional, ele e admiração não necessariamente andam
junto, sendo possível “amar mas não admirar”. A admiração deve ser conquistada
e deve existir apenas quando os filhos tiverem atitudes admiráveis. No caso do apoio,
se não receberem apoio dos filhos, os pais irão apoiar até certo ponto que não entre
em conflito com os mandatos. Apoio deve sempre ser recíproco. Filhos precisam
aprender e compreender que alguns sacrifícios praticados pelos pais devem, sim,
ser retribuídos em momentos oportunos, sendo o apoio é mútuo, não unilateral.
O terceiro pressuposto é a relação entre regra e poder. Ensine seus filhos que
diferentes ambientes têm regras impostas por quem detém o poder e que há
três opções: segui-las, tentar argumentar pela mudança ou chegar ao poder
para mudá-las por conta própria. O que é proibido é burlar as regras, ser antiético,
querendo apenas o bônus, sem o ônus.

O ambiente familiar é o único lugar em que se pode questionar as regras impostas


e articular mudanças em sua estrutura, sempre em conjunto com os pais, que
devem estimular essa capacidade de argumentação. Boa parte dos direitos dos
filhos nesse ambiente não são adquiridos, mas existem por concessão.

Um bom exemplo educa?


Não é verdade. Um bom exemplo é ótimo, mas pode ser insuficiente para ensinar
alguém. Alguns casos requerem treinamento, demandam ajuda, persuasão ou mesmo
imposição. É importante ressaltar que o fato de não dar um bom exemplo não retira
sua legitimidade de ensinar as coisas do jeito certo. A autoridade dos pais é garantida
pelas suas funções e suas posições como pais e mães.

“Te dou a regra, mas te dou espaço para argumentar”

Ensine a razoabilidade – e a pratique também. Em casa deve haver o espaço para


dialogar e o direito a essa prática, em que se praticam também competências como
argumentação, articulação de ideias e escuta. No entanto, a contestação de regras
deve ser feita sem desrespeito ou desafio – quando ocorrerem, é necessária uma
intervenção mais firme, pois dentro de casa quem manda são os pais e mães.
AULA 3

Como dar limites?


Dar e impor limites são exercícios desafiadores e devem ser trabalhados para que
s crianças possam reconheçam o que é e o que não é permitido e aceitável.

Por lidarem muitas vezes com situações de desobediências, desafios à autoridade


e outros tipos de situações, a questão dos limites é uma das maiores preocupações
de mães e pais.

Nem todos os limites são iguais. Há a diferença entre limites situacionais e os limites
transformacionais. O limite situacional é um limite de contenção, aplicado, por exemplo,
em um cenário de desobediência, algum desafio que coloca em xeque a autoridade
dos pais de maneira definitiva e insurgente e que requer uma ação rápida, podendo
ser na forma de uma bronca ou de um castigo, com o intuito de conter naquele
instante algum comportamento ou ação. É um tipo de imposição de limite que não
educa ou muda comportamentos, sendo essa atribuição dos limites transformacionais.

O limite transformacional está associado ao diálogo em conexão com as emoções


e pensamentos e aos projetos de mudança, mas não pode ser aplicado em um
momento de tensão, estresse ou crise. Reflexões que provoquem mudanças
devem ocorrer em momentos verdadeiros de conexão, numa aproximação dos
pais em uma linguagem entendida pelos filhos e que estimule uma transformação
nas relações deles com as regras e a ordem.

Punições e repreensões devem acontecer a partir de intenções, não necessariamente


de atos em si – quando há desrespeito, por exemplo, que questione sua legitimidade
e autoridade. Quando não há intenção da falta, punir pode inclusive ser desleal de
sua parte. Há de se ensinar comportamentos melhores e não simplesmente punir
comportamentos que não vão de acordo com os interesses dos pais.

O castigo é um dos principais limites de contenção. É uma forma de punição e retaliação


sem vínculo direto com o ato da transgressão e que provoca certo “trauma”. Por via da
associação, a criança aprende que tal comportamento gerou uma consequência negativa.
O castigo deve privar os filhos de algo que lhes seja caro (não precisando ter, portanto,
vínculo direto entre o teor do ato e a punição), reforçando a noção de que tais atitudes
que geraram o castigo devem ser evitadas. Outro fator importante do castigo é que
a sua eficácia está intimamente vinculada à idade, ao momento e algumas circunstâncias.
A não banalização do castigo é importante também para sua eficácia. Devem ser poucos
ao longo do projeto de educação, mas contundentes: saiba dosar tanto o momento ideal
quanto a intensidade do castigo.
A gestão de consequências, por sua vez, é uma habilidade interpessoal importantíssima
para o desenvolvimento dos filhos. Ela nada mais é do que a apresentação de uma regra
condicionada, em que um comportamento A leva a uma consequência B. É fundamental
que os filhos entendam que seus atos geram consequências no mundo, e o que eles
fazem traz a responsabilidade de arcar com os próprios atos de maneira autônoma.

Diferente do castigo, a gestão de consequências tem vínculo direto com o teor


do ato. Por isso, a maior ferramenta nesse caso é o diálogo e ela deve ser praticada
sempre com calma. Diálogos e gestão de consequências devem compor, idealmente,
a quase totalidade de suas intervenções na educação dos filhos. A vivência e a
repetição são os principais aliados para a eficácia da gestão de consequências,
podendo muitas vezes demorar meses para surtir efeito. Por isso deve se tornar
um recurso do dia a dia, que vai se implementando e incrementando.

A repreensão e a bronca, por sua vez, são necessárias, pois nem sempre os
outros métodos são suficientes para reprimir certos comportamentos negativos.

As broncas pode ser leves, moderadas ou fortes, e funcionam para condicionar


o comportamento. Há técnicas de broncas que podem ser implementadas, como,
por exemplo, a do “não-crescente”, em que as diferentes entonações da palavra
“não” – cada vez mais incisivas - representam o limiar da paciência para uma punição,
lembrando que a eficácia dos mecanismos e das ferramentas está intimamente ligada
a precisão do seu uso, como no castigo.

Se você quiser abusar de alguma técnica, escolha abusar do diálogo em conexão


com os pensamentos e as emoções e da gestão das consequências. Elas ajudarão
ao criar um ambiente mais harmônico, de abertura, escuta e troca de ideias, propenso
ao encontro de soluções e à resolução pacífica de conflitos.
AULA 4

O futuro dos seus filhos em


duas competências
Como vimos ao longo dos encontros, as seis competências fundamentais que
são pontos-chave do projeto de educação dos filhos, que os prepara para enfrentar
tanto os próprios desafios, quanto os desafios propostos pelo mundo, são:

• O desejo de experimentar e a vontade de conhecer;

• A autonomia, a proatividade, a vontade de ser independente, de forma


genuína, driblando esquemas de dependência;

• Competências interpessoais, englobando a inteligência emocional,


diplomacia, a percepção dos próprios sentimentos, compreender
o que o outro está pensando e passando;

• A resiliência e a garra, e como seu(ua) filho(a) se relaciona com os


próprios erros e dificuldades;

• A tolerância a frustrações e a capacidade que a criança tem de ser


flexível com soluções alternativas;

• Capacidade de análise e planejamento, que seria a capacidade de se


organizar e vislumbrar um planejamento a curto, médio e longo prazo
e eventualmente realizar.

O trabalho de duas competências específicas – a autonomia e a tolerância à frustração


– pode ser realizado por meio da transmissão de vivências e conhecimentos em diálogos
que aproximem a realidade dos pais da realidade da criança.

Uma forma possível é criar histórias que transmitam ensinamentos adaptados à


realidade da criança, confrontando-a com questões que ela terá de enfrentar pela
vida. Essas fantasias, de início, podem estimular o aprendizado e a transformação
de atitudes, oferecendo exemplos mais lúdicos e abrindo margem para que as crianças
participem também do desenrolar das histórias.

Tente evitar que a pressa imposta pelo cotidiano ou mesmo a preguiça impeçam
esse tipo de contato com seus filhos. É possível realizar esse contato em qualquer
oportunidade e o impacto dessas interações para a formação e aprofundamento
de vínculos é inestimável.
Com o passar do tempo, as histórias podem se tornar cada vez mais complexas,
tratando de questões do seu cotidiano e até mesmo de conceitos mais filosóficos,
estimulando em seus filhos o desenvolvimento de habilidades cognitivas, a construção
de uma identidade e, sobretudo, a formação de um espaço lúdico e instigante,
demonstrando suas formas de aceitação, entendimento e flexibilidade.

O importante é estimular uma imaginação com contraste, liberando a possibilidade


desta criança de pensar nas possibilidades, conjecturar cenários, se imaginar no
meio das histórias, criar suas hipóteses, construí-las e reconstruí-las.

Os pais devem servir de referencial para orientar os filhos. É fundamental uma


boa combinação entre momentos de divertimento, de seriedade, de reflexão,
de aprofundamento, compartilhamento e estreitamento de laços. Uma vez que
estas relações e processos se estabeleçam, este vínculo abre espaço para diálogos
transformadores e para um ambiente acolhedor, em que seus filhos também possam
participar do seu próprio processo de educação desenvolvimento.
Aviso

Este material foi elaborado pela Casa do Saber e é referente ao curso gratuito
“Caminhos Para Educar Filhos Hoje”, com Luiz Hanns, realizado em fevereiro
de 2021. Ele não substitui o acompanhamento das aulas ou a fala do professor.
Este material é exclusivo para participantes do curso e sua reprodução ou
compartilhamento de forma parcial ou completa é proibida sem a expressa
autorização de seus autores. Todos os direitos são reservados à Casa do Saber
e ao professor Luiz Hanns.

Quem produziu o material

GUILHERME PERES
Curador

DANILO KOVACS
Monitor

DEBORAH KUTNIKAS
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