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18/05/2019 Eleições Brasil 2018: Como resistir em tempos brutos | Opinião | EL PAÍS Brasil

S CANDIDATOS ANÁLISE PRIMEIRO VOTO PESQUISAS BRASIL DESIGUAL NO TWITTER WHATSAPPS CHAVES

ELEIÇÕES BRASIL 2018 › COLUNA

Como resistir em tempos brutos


Um manual para enfrentar as próximas três semanas e transformar luto
em verbo
ELIANE BRUM

9 OUT 2018 - 12:30 BRT

Bolsonaro após deixar o hospital em 29 de setembro. / As frases controversas de Bolsonaro. REUTERS / EPV

Cubro eleições como jornalista desde que elas voltaram a existir no Brasil. Minha estreia
como repórter, junto com o Brasil que recém havia emergido do longo e tenebroso
inverno da ditadura, foi em 1988, nas eleições para prefeito. A primeira eleição
presidencial foi em 1989. Fernando Collor de Mello, segundo a capa da revista Veja, “o
caçador de marajás”, foi eleito. O filho do coronelismo de Alagoas proclamava que Lula,
o filho do sertão nordestino, tinha um aparelho de som maior que o dele em casa. As
pessoas acreditavam que Lula era mais rico que Collor, porque muita gente gosta
mesmo é de acreditar, em qualquer coisa que lhe convém. Na época, Edir Macedo, o
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poderoso dono da Igreja Universal do Reino de Deus, já se chamava de bispo e era o feliz
proprietário de um império religioso. Mas bem mais modesto do que hoje, quando seu
império tornou-se religioso-político-midiático. Naquela época Edir já conversava
diretamente com o Estado Maior do Céu e anunciou aos fiéis que o próprio Espírito
Santo havia lhe informado que Collor era o cara. Ou Edir foi enganado pelo Espírito
Santo, os mais estudados em temas bíblicos podem nos dizer se isso é possível, ou ele
ouviu sussurros mais terrenos e se confundiu. Ou então ele simplesmente mentiu. Entre
a possibilidade de o Espírito Santo ter mentido ou Edir Macedo ter mentido usando o
nome do Espírito Santo, me parece mais prudente apostar na idoneidade do Espírito
Santo. Mas as pessoas evangélicas, as realmente evangélicas, que me digam se meu
pensamento tem lógica ou não. Nesta eleição, Edir declarou que Jair Bolsonaro (PSL) é
o cara. É acompanhado na preferência por outros coronéis da religião, como Silas
Malafaia, que me chamou de “vagabunda” em 2011, em entrevista ao The New York
Times. Um exemplo do tratamento destinado às mulheres por esses homens que dizem
falar em nome de Deus enquanto contam o dinheiro suado dos fiéis. E uma perfeita
identificação com seu candidato a presidente, que afirmou não estuprar uma deputada
porque ela não mereceria por ser “muito feia”, assim como afirmou que as mulheres são
produto de uma “fraquejada” do macho no ato sexual.

Me dou a licença deste primeiro parágrafo porque completo, neste primeiro turno de
2018, 30 anos cobrindo eleições. Acompanhei todas as campanhas eleitorais da
redemocratização do Brasil, do que se convencionou chamar de Nova República. E
nunca, em 30 anos, vi o que vi nesta eleição de 2018.

Vi as pessoas adoecendo, estranguladas por uma espécie de pânico


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DE ELIANE BRUM › paralisante. Vi amigos combativos, acostumados à dureza da luta,
prostrados pelo sentimento de impotência diante da possibilidade
de um homem como Jair Bolsonaro, um homem que diz o que ele é
capaz de dizer, vencer. Vi pessoas chorando dia após dia. Recebi
centenas de mensagens no WhatsApp com as mesmas quatro
frases, a maioria delas vindas de mulheres.

#EleNão. #NósSim
“Estou em pânico.”
Mulheres contra a
opressão

“Estou assustada.”

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“Estou com medo.”

“Estou apavorada.”

1) Na eleição determinada pelo fenômeno da autoverdade, a


melancolia adoece o corpo

Jair Bolsonaro, aquele que é chamado de “coiso” nas redes sociais,


ganhou esta eleição mesmo antes da votação no primeiro turno. O
Brasil está mergulhado numa crise ampla, complexa, que é muito
mais do que uma crise econômica e política. É uma crise também de
Profissionais da
violência identidade e de palavra, como tantas vezes já escrevi aqui nos
últimos anos. A pobreza está aumentando, a mortalidade infantil
voltou a crescer, doenças que estavam erradicadas são novamente
ameaças, por falta de cobertura vacinal eficiente. A malária retornou com toda a força
na região amazônica. E a febre amarela ressurgiu no Sudeste do país. A violência no
campo aumentou, e a Amazônia e o Cerrado estão ainda mais ameaçados pelo
desmatamento. O Brasil tem ainda 13 milhões de desempregados e um número
crescente de pessoas que parou de procurar uma vaga porque sequer tem esperança de
voltar a ter trabalho.

A campanha de Bolsonaro reduziu a eleição a uma batalha de


memes e de ameaças “bíblicas” pelo WhatsApp

Jair Bolsonaro venceu mesmo antes deste domingo, 7 de outubro, porque, num cenário
tão grave, sua candidatura conseguiu impedir qualquer debate sério. Sua candidatura
interditou a discussão das ideias, a criação de um projeto para o Brasil. A campanha
eleitoral ficou reduzida a uma batalha de memes e a ameaças “bíblicas” pelo WhatsApp,
onde cheguei a receber uma mensagem que dizia o seguinte: “Já está encomendado
daqui de Novo Hamburgo-RS, 100 touros para serem sacrificados para Satanás em
favor do babuê Luiz Inácio Lula da Silva, bruxo, pela perturbação das eleições, e para
favorecê-lo. Crianças também serão sacrificadas no altar de Belzebu”. E as pessoas do
grupo de evangélicos, ligado à Assembleia de Deus, pareciam acreditar seriamente

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nisso. Várias pessoas deste grupo têm dificuldades para escrever, mas o português
deste post era corretíssimo. Em áudios e vídeos amplamente disseminados pelo
WhatsApp, líderes religiosos desenhavam o apocalipse caso Bolsonaro fosse derrotado
—ou caso o PT vencesse. Sem serem incomodados pelas instituições que têm a
obrigação de preservar a lisura das eleições.

Jair Bolsonaro venceu porque em vez de usarmos o momento da campanha para


debatermos projetos, o tempo foi gasto em explicar o autoexplicável: explicar por que
razão não é aceitável votar num candidato que diz que negros de quilombos não servem
nem para a procriação, que é melhor ter um filho morto num acidente de trânsito do que
namorando “um bigodudo” (certamente ele nunca perdeu um filho para dizer algo
assim), que seus filhos jamais vão namorar uma negra porque “são muito bem
educados”, que as mulheres têm que ganhar menos porque engravidam, que é a favor
da tortura e que a ditadura civil-militar deveria ter matado pelo menos uns 30 mil e que
se morrerem inocentes tudo bem (desde, claro, que não sejam da sua família). Alguém
que é vítima de um ataque à faca e, em vez de convocar o país para a paz, como cabe a
um líder responsável em momentos de gravidade, faz sinal de atirar da cama de hospital
como se tivesse cinco anos de idade. Alguém que diz uma coisa e depois disse que não
disse o que está gravado em áudio e vídeo que disse. Alguém que os apoiadores têm que
começar o discurso dizendo: “Ele não é o mais inteligente... nem o mais preparado,
mas...”.

Jair Bolsonaro ganhou mesmo antes de ser o mais votado no primeiro turno porque,
mesmo defendendo a barbárie, foi o escolhido de quase 50 milhões de brasileiros. E,
quando é preciso explicar por que não é possível escolher um candidato que faça essas
declarações e acredite nelas, esta batalha já está perdida. Explicar que uma mulher não
nasce de uma fraquejada de um homem nem deve ganhar menos porque engravida?
Explicar que não é melhor ter um filho morto em acidente do que gay? Explicar que não
é possível falar que um negro nem para procriar serve? Explicar que não é possível
matar e torturar? Não faz sentido ter que explicar isso. Nenhum sentido.

Se, nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump foi marcada pela
pós-verdade, a eleição do Brasil, liderada por Jair Bolsonaro, é a
eleição da autoverdade

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Por não fazer nenhum sentido, também não faz nenhuma diferença explicar. Vivemos o
que tenho definido como “autoverdade”: o conteúdo não importa, importa o ato de
dizer. Assim, checar os fatos também não importa, porque os fatos não importam. O ato
de dizer é confundido com “autenticidade”, com “sinceridade”, com “verdade”. Não
importa o que seja dito. A estética foi colocada no lugar da ética. A “verdade” tornou-se
uma escolha pessoal. É o indivíduo levado à radicalidade. Se, nos Estados Unidos, a
eleição de Donald Trump foi marcada pela pós-verdade, a eleição do Brasil, liderada por
Jair Bolsonaro, é a eleição da autoverdade. E, tanto quanto a pós-verdade, ela ecoa a
lógica das redes sociais na internet e suas bolhas.

A democracia pode ser uma grande festa em que cabem todas as diferenças. A
democracia só é democracia, aliás, quando cabem todas as diferenças. Projetos que não
acolham as diferenças, que querem eliminar —e inclusive exterminar— as diferenças e
executar aqueles que encarnam as diferenças, estes não cabem na democracia. Porque
defender a eliminação dos diferentes, dizendo que não deveriam existir ou que valem
menos que os outros, não é uma opinião, mas um crime. Um crime previsto pela
legislação brasileira, mas curiosamente este crime persistente nesta campanha não tem
sido identificado como crime e punido pelas instituições responsáveis.

Bolsonaro ganhou mesmo antes de ganhar porque não apenas


ampliou o ódio, mas também sequestrou o debate

Jair Bolsonaro ganhou mesmo antes de ficar em primeiro lugar no primeiro turno da
eleição porque todos os debates importantes para o Brasil foram suspensos, todas as
discussões em andamento se perderam, e o cotidiano foi reduzido a espasmos. Ele não
apenas ampliou o ódio, ele também sequestrou o debate. Este tempo já foi perdido por
quem aposta na democracia. Mas o tempo não foi perdido para os que apostam no caos,
porque o ódio foi ampliado e os muros ficaram ainda maiores e mais difíceis de serem
atravessados por qualquer diálogo.

Jair Bolsonaro vem ganhando há muito tempo porque nem mesmo precisou explicar
como seu guru econômico e futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, o ultraliberal
que é desprezado pelos liberais moderados, propõe uma mudança que cobrará mais
impostos dos pobres e menos dos ricos. Ou como seu vice, Hamilton Mourão, chama o
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décimo-terceiro salário do trabalhador de “jabuticaba”. Nem isso ele precisou explicar,


até porque o médico teria desaconselhado debates na Globo mas permitido entrevistas
no mesmo horário para a Record.

Jair Bolsonaro ganhou mesmo antes de ter ganhado um número expressivo de votos no
primeiro turno porque conseguiu mergulhar uma parte das pessoas numa paralisia
amedrontada, como se estivessem estragadas por dentro. Jamais se esqueçam que a
primeira vitória da opressão é sobre a subjetividade. É o que faz uma mulher
cotidianamente espancada ficar calada. Ou uma mulher estuprada não denunciar o
estuprador. Há algo que a amarra por dentro. É como se perdesse a voz mesmo tendo
voz, perdesse a força mesmo tendo força. Esse é o efeito de ser violentada ou
violentado. Vi muita gente assim no final da campanha de primeiro turno, vivendo a
campanha violenta de Bolsonaro e de seus apoiadores como uma violência sobre o
próprio corpo, sobre sua mente e sobre seu espírito. Mulheres, principalmente, mas
também homens.

É o seguinte.

Jair Bolsonaro ganhou, mesmo antes de ganhar, mas não pode continuar ganhando. E a
primeira luta acontece dentro de cada um. Não renunciem à sua subjetividade. Não
permitam que roubem a sua voz e a sua força. Não deixem a vida ser tomada pelo medo.
É preciso lutar neste segundo turno para o autoritarismo não se instalar no Brasil pelo
voto, mais uma contradição da democracia. E é preciso resistir primeiro nas pequenas
coisas do cotidiano. No amor, na amizade, no sexo, no prazer de ver um filme ou ouvir
uma música, num café bem coado. No que uma amiga minha chama de “cotidianices”.
E, principalmente, no prazer de estar junto. Como disse alguém na minha página do
Facebook: “Mesmo se tudo der errado, o que me interessa agora é que meus filhos
saibam que a mãe deles lutou contra o horror”.

Não permitam que “o coiso” corrompa seu espírito. Aprendam com as crianças que
leram Harry Potter: se os dementadores (criaturas que controlam, oprimem e derrotam
roubando a alegria) se aproximarem, comam chocolate para combatê-los. Parece uma
referência demasiado infantil, mas J. K. Howling sabia o que escrevia: a comida e a
música são o que faz a maioria dos refugiados conseguirem viver longe das suas pátrias
e mátrias, porque acionam lugares da mente que a opressão não alcança. Só com a
batalha ganha dentro de cada um, é possível ter mais força no que o poeta do Xingu Élio
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Alves da Silva refere-se como “Eu+ Um”. Sozinhos nós contamos apenas como um.
Como Um+Um+Um... nós somos milhões.

2) Democracia, autoritarismo e a omissão das instituições que deveriam combater


os crimes

Há muitos desafios neste segundo turno de Jair Bolsonaro com Fernando Haddad (PT).
Se Lula fosse um estadista, ele teria apoiado um nome fora do PT. Alguém que pudesse
aglutinar a esquerda e o centro, como Ciro Gomes (PDT). E Haddad poderia ter sido o
vice. Mas Lula, infelizmente para o país, não é um estadista. Lula é um grande líder, mas
não um estadista. Moveu-se nesta eleição por vingança, não pelo bem do Brasil. Quis
mostrar que, mesmo de dentro da cadeia, poderia dominar a campanha.

É possível entender a sua raiva, já que estava em primeiro lugar nas pesquisas e foi
impedido de ser candidato. Nem mesmo dar entrevista pode. Como jornalista, já fiz
entrevistas com dezenas de presos, essa proibição é uma arbitrariedade. É possível
entender a sua raiva, mas de uma liderança se espera que domine a raiva e seja capaz de
pensar nos interesses do país acima dos seus. Lula não foi capaz. E cá estamos.

A eleição do contra vai se acirrar no segundo turno – e muito

Essa eleição, desde o início, foi a eleição “do contra”. E a eleição do “contra” vai se
acirrar no segundo turno. Contra Bolsonaro X Contra o PT. O país inteiro sabe que há
uma avalanche antipetista. Que se manifesta como ódio. Os motivos são variados. Uma
parte concentra, inclusive, ódio pelas virtudes do PT no poder, como as cotas raciais nas
universidades e a ampliação dos direitos das empregadas domésticas.

Estas duas ações do PT no governo explicam grande parte do ódio, sem que assim ele
seja nomeado. Foram essas duas políticas que alteraram as relações de poder e
confrontaram de fato privilégios, já que Lula jamais mexeu na renda dos mais ricos. Mas
ele e Dilma Rousseff mexeram, sim, no equilíbrio de poder, concreto e simbólico, quando
os negros entraram nas universidades e quando as domésticas deixaram de ser uma
versão contemporânea da escravidão para se tornar mais uma categoria explorada de

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trabalhadores, entre tantas outras. Essas políticas, não concessões do governo, mas
reconhecimento de lutas históricas, geraram mudanças que são imparáveis e seguiram
confrontando privilégios mesmo depois que o PT foi afastado do poder pelo
impeachment de Dilma Rousseff.

Uma parte, na qual me incluo, terá que segurar o estômago para votar num partido que
reeditou o projeto da ditadura civil-militar na Amazônia, reduzindo a floresta a objeto de
exploração, evidenciado nas grandes hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo
Antônio, e na expulsão dos povos da floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo,
terá que tampar o nariz para votar num partido que assinou a lei antiterrorismo e que
usou a Força Nacional para perseguir e reprimir manifestantes e trabalhadores nas
cidades e na floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo, terá pesadelos para
votar num partido que até hoje não se manifestou contra a ditadura assassina de
Nicolás Maduro na Venezuela (Nem isso, PT, nem isso...). Uma parte, na qual eu
também me incluo, sofrerá para votar num partido que consumiu os esforços de pelo
menos duas gerações de brasileiros com a promessa de que seria diferente dos outros
e, como os outros, se corrompeu no poder e se aliou ao que havia de mais nefasto na
política nacional. E sofrerá também porque o PT fez tudo isso e nenhuma autocrítica.
Nem uma autocrítica bem pequenina, uma autocriticazinha. Nada que mereça esse
nome.

Uma parte dos eleitores de Bolsonaro usa o ódio contra o PT para


justificar o injustificável: é um truque

Mas uma parte, na qual de jeito nenhum eu me incluo, usa o ódio contra o PT para
justificar o injustificável. É um truque. E esse truque precisa ser desmascarado. Se você
votou e votará em Bolsonaro, não é porque é contra a corrupção. Havia outros
candidatos que não eram suspeitos de corrupção e você não votou neles no primeiro
turno. Você votou em Bolsonaro porque compartilha de suas ideias e compartilha do seu
ódio. E se você compartilha com quem afirma o que ele afirma — ser contra negros,
contra mulheres, contra LGBTQ, contra indígenas, contra camponeses e a favor das
armas e do autoritarismo e da tortura e do atirar para matar —então é isso que você
defende. E, principalmente, é esse tipo de pessoa que você é.

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Ou então você estava muito furioso e muito triste com o país e votou com raiva, votou
como quando dá aquela vontade de quebrar tudo e ver o circo pegar fogo. Acontece. E
em geral a gente se arrepende do que faz nestes momentos quando a respiração volta
ao normal, mas as consequências se estendem, às vezes pela vida toda. Mas agora tem
outra chance, e essa é definitiva. É preciso deixar a raiva de lado e votar com a razão,
escolher com consciência. Porque se a dupla de “profissionais da violência”, como o
próprio Hamilton Mourão definiu, assumir o poder, será muito grave para o país. Quando
se vota em profissionais de violência é preciso saber o que esperar.

Quem defende a violência contra outras pessoas apenas porque são diferentes ou
porque confrontam seus privilégios é um corrupto. Mesmo que nunca tenha se
corrompido pelo dinheiro, é a alma que é corrompida. Então, não é possível se esconder
atrás da corrupção. Nem começar nenhum discurso com “Ele não é inteligente nem
preparado, mas...”. Neste caso, é preciso assumir o real desejo de exterminar os que são
diferentes. Não dá para votar num racista sem ser racista, num homofóbico sem ser
homofóbico, num machista sem ser machista. Este é um limite. Ao fazê-lo, se você não
era, se torna um. Mesmo que você for mulher ou homossexual ou negro. E este voto fará
parte de sua história. É também o seu legado para os que virão.

O fato de a eleição ser “do contra” não autoriza a imprensa e outros espaços de
documentação, análise e interpretação da realidade a igualar o inigualável. Não se trata
de dois iguais. Não é isso o que acontece hoje no Brasil. Há um projeto autoritário para o
país, que está negando a própria democracia. Jair Bolsonaro efetivamente disse que só
aceitaria o resultado da eleição se fosse o vencedor. Depois voltou atrás, mas voltar
atrás não elimina aquilo que disse quando exerceu sua tão propagada “sinceridade”.
Seu vice, Hamilton Mourão, efetivamente disse que era possível, depois de eleito, em
caso de “anarquia”, dar um “autogolpe”, com o apoio das Forças Armadas.

Bolsonaro já deixou claro, mais de uma vez, que só aceitará o


resultado das eleições se vencer, e mesmo assim as instituições não
tomam providências à altura da gravidade dessa campanha contra a
democracia

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A primeira declaração de Bolsonaro, logo após o resultado do primeiro turno, foi


justamente questionar a lisura do sistema de apuração dos votos: “Se tivesse confiança
no sistema eletrônico, já teríamos o nome do novo presidente”. Mais uma vez ele ataca o
avançado sistema de apuração do Brasil, uma das poucas coisas que dão inveja em
países muito mais ricos, de não funcionar. E deixa claríssimo que, se não ganhar no
segundo turno, é porque as urnas eletrônicas foram fraudadas. É uma ameaça nada
velada ao processo democrático, a de que não aceitará o resultado de eleição, a não ser
em caso de vitória. E é um ataque persistente com o objetivo de corroer a confiança do
eleitor nas urnas eletrônicas, para tê-lo do seu lado caso o resultado do segundo turno
não lhe dê a vitória. Isso é gravíssimo. E as instituições não tomam providências à altura.

E há o outro projeto que disputa este segundo turno, que tem vários problemas que
precisam ser apontados e radiografados, mas que não está confrontando a democracia.
O PT confrontou a democracia, quando foi governo, na sua atuação na Amazônia e na
repressão aos manifestantes e às manifestações contra as grandes hidrelétricas e
contra a Copa do Mundo. Mas o projeto de Fernando Haddad não é um projeto
antidemocrático nem o candidato ameaça se rebelar contra o resultado das urnas ou
contra a própria democracia, como faz seu oponente. Haddad precisa esmiuçar muito
mais o seu projeto durante o debate do segundo turno, e se comprometer muito mais
com os direitos dos povos da floresta, mas não representa um projeto autoritário como
seu adversário.

Estes são os fatos.

3) Parte da imprensa e do judiciário atuam partidariamente, mas se declaram


imparciais

A cobertura —ou a não cobertura— do movimento #EleNão serviu de alerta para um


problema que pode se agravar neste segundo turno. Uma mulher negra, de origem
periférica e anarquista iniciou um protesto autônomo pelo Facebook: Mulheres Unidas
Contra Bolsonaro. Hoje, a página, que só aceita mulheres, tem quatro milhões de
seguidoras. A partir deste espaço, foi gerado um movimento com a hashtag #EleNão.
Este movimento levou às ruas do Brasil e do mundo, em 29 de setembro, centenas de
milhares de pessoas para protestar contra o que a candidatura de Bolsonaro
representa. Só essa história já é extraordinária, além do grande potencial simbólico de
que são as mulheres pobres, a maioria negras, que se colocaram no caminho do projeto
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autoritário de Jair Bolsonaro. #EleNão realizou a maior manifestação organizada por


mulheres da história do Brasil.

O que a TV fez? Quase ignorou as manifestações. Qualquer um pode lembrar com


riqueza de detalhes como a Globo cobriu ao vivo as grandes manifestações pelo
impeachment e contra o PT. Nunca poderemos saber com precisão o quanto a própria
cobertura influenciou o número de pessoas nas ruas. Em qualquer manual de
jornalismo, centenas de milhares de pessoas nas ruas do Brasil e do mundo, pela
primeira vez não a favor de um candidato ou de ideias, mas contra um candidato e suas
ideias, é uma tremenda notícia. Mas a manifestação foi quase ignorada. E, quando foi
abordada, em alguns casos os movimentos pró e contra foram apresentados como se
tivessem tido a mesma proporção.

Os grandes jornais deram fotos na capa, mas preferiram outras manchetes. A maioria
também se limitou a dizer que houve manifestações contra e houve manifestações a
favor, como se tivesse sido tudo igual. A quem isso ajuda? Não ao país, e certamente
não ao bom jornalismo. A cobertura que dá o mesmo peso a dois lados com pesos
diferentes lembrou muito a cobertura da mudança climática durante vários anos: meia
dúzia de cientistas, parte deles financiada por grandes emissores de CO2, defendendo
que o aquecimento global não era causado por ação humana, ganhavam o mesmo
espaço nos jornais que o consenso de mais de 95% dos cientistas mais respeitados do
mundo, afirmando que a o aquecimento global é causado por ação humana. Essa
distorção da realidade era chamada de “isenção”. E cá estamos, o planeta corroendo-se
a cada dia mais.

A Polícia Militar, que costuma dimensionar o número de pessoas nos eventos e nas
manifestações, desta vez preferiu não fazer a contagem. Simples assim. Um movimento
histórico ficou sem números porque a força de segurança do Estado serviu a seus
próprios interesses privados ( e à sua própria escolha eleitoral), sem maiores
contestações. Como se isso pudesse ser de alguma forma normal ou aceitável.

A Record já deixou claro que abandonou qualquer pretensão de


fazer jornalismo depois da entrevista chapa-branca com Bolsonaro

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Será preciso observar com toda a atenção como o que se chama de “grande imprensa”
ou “mídia tradicional” se comportará neste segundo turno, especialmente as TVs. A
Record já deixou claro que abandonou qualquer pretensão de fazer jornalismo ao
colocar a entrevista chapa-branca com Jair Bolsonaro no horário do debate da Globo
entre os presidenciáveis, em 4 de outubro. Eram só perguntas para Bolsonaro chutar
para o gol. Um assessor de imprensa de Bolsonaro não faria melhor.

O candidato disse-que-não-disse-o-que-disse-e-que-está-gravado-que-disse e não


houve nenhuma contestação por parte do entrevistador. Sem contar a edição apelativa.
Em nenhum outro momento da história, Edir Macedo, comandante da Igreja Universal
do Reino de Deus e do grupo Record, fundiu tão completamente o projeto de poder,
mídia e religião como nesta entrevista, ocorrida dias depois de ele ter apoiado Bolsonaro
publicamente. Ao contrário. A Record, por vários anos, fez um visível esforço para
separar as esferas, pelo menos para o público ver, com o objetivo de ganhar
credibilidade como um grupo sério de comunicação. Essa farsa acabou. E o fato de Edir
acreditar que não é preciso mais fazer de conta é um forte indicativo do que está por vir.

Por outro lado, a Globo continua cada vez mais perto do outro lado do paraíso. Apostou
todas as suas fichas no impeachment de Dilma Rousseff. Conseguiu, articulada a várias
outras forças. Apostou todas as suas fichas na renúncia de Michel Temer após as
denúncias de corrupção que divulgou com exclusividade. Não conseguiu, porque as
outras forças seguiam achando que era melhor continuar com ele, já que a corrupção,
se importou para o povo, nunca importou para os articuladores do impeachment. A
aposta num candidato de centro, que poderia reacomodar as forças que sempre
estiveram no poder, falhou.

A Globo vive o inferno de ser odiada pelos dois candidatos que


disputam o segundo turno

A Globo encontra-se no momento entre duas oposições que têm em comum apenas o
ódio à Globo: Bolsonaro e o PT. Em resumo: o próximo presidente, que determinará o
destino das grandiosas verbas publicitárias do governo, odiará a Globo. Mas este é
apenas o retrato do momento. As forças sempre tendem a se reacomodar para manter
seu poder ou o que é possível manter dele. No governo Lula, o então presidente
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esqueceu até a edição fraudulenta do debate de 1989, decisiva para a sua derrota, e
empreendeu uma espécie de namoro sério com o maior grupo de comunicação do
Brasil.

Para que lado será acomodado —e a que preço— é o que será preciso acompanhar.
Contra a acomodação da Globo com Bolsonaro há um adversário poderoso: esta é a
grande chance da Record e do projeto de poder de Edir Macedo. A divulgação da
entrevista com Bolsonaro na Record, na mesma hora do debate na Globo, a que o
candidato em primeiro lugar nas pesquisas disse que não poderia comparecer por
razões de saúde, deverá ser só o primeiro confronto. Quem assistiu ao debate esvaziado
da Globo, com aqueles candidatos engravatados, exceção para Marina Silva e para
Guilherme Boulos, e aquele formato sonolento de sempre, com aquela descontração de
maquete, comprovou mais uma vez que esta foi a campanha do WhatsApp. O ritmo
agora é outro —e a linguagem também.

Sergio Moro é o que mais envergonha o judiciário, mas está longe de


ser o único

Como se comportará a parcela da imprensa que apostou numa saída de centro (e não
levou) deverá ser observado de muito perto neste segundo turno. Este também será o
grande desafio para o jornalismo ou se fortalecer, mostrando o quanto é insubstituível
numa democracia, ou então descer pelo ralo da irrelevância como nunca antes. Se a
pauta jornalística servir para rearranjar os projetos de poder das empresas de mídia,
acabou. Ainda falta uma autocrítica profunda de parte da imprensa sobre o seu papel no
impeachment e já vem outro desafio muito mais intrincado. Vamos torcer para que a
maior parte da imprensa se mostre à altura, porque o Brasil precisa muito de jornalismo
sério.

Outro protagonista que precisa ser observado com muita atenção é o judiciário que não
faz justiça, mas faz muita política partidária. A liberação de Sergio Moro de parte da
delação de Antonio Palocci, uma delação feita em abril, sem novidade e escassas
provas, a seis dias da eleição, é uma afronta ao Brasil. E já não é a primeira afronta ao
Brasil feita por Moro. Esse personagem acredita que é herói, mas corre o risco de entrar
para a história como um vilão. As palavras usadas por Tasso Jereissati para definir o que
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aconteceu com o PSDB servem para Moro: “engolido pela tentação do poder”. O juiz se
comporta como se a lei fosse a sua vontade, transformando-se não num xerife, como
gostam de chamá-lo, mas num coronel pago por dinheiro público.

Moro é o que mais envergonha o judiciário, seguido de pertíssimo por Gilmar Mendes, e
agora também por Luiz Fux e Dias Toffoli. Mas está longe de ser o único. Toda essa crise
é também a história de uma longa série de abusos de juízes, de todas as instâncias,
incluindo os do Supremo Tribunal Federal, que esqueceram que são servidores públicos,
o que significa servir à população cumprindo à Constituição, não aos seus projetos
privados de poder e aos seus egos mais inflados que boneco de manifestação. É preciso
ficar muito atento a como o judiciário vai se comportar no segundo turno mais
complicado da jovem democracia brasileira.

Há ainda o que se chama de “Mercado”. Quem é este “Mercado”, algo que é


pronunciado como se não se tratasse de gente. Basta ver as manchetes dos jornais da
Europa e dos Estados Unidos, para constatar que uma vitória de Bolsonaro é vista como
a vitória de um ditador. Como isso ajudaria o Brasil nas relações econômicas e políticas
internacionais? A própria The Economist, a bíblia dos liberais, definiu Bolsonaro “como a
maior ameaça da América Latina”. Mas os porta-vozes do “Mercado” no Brasil estão
eufóricos com a possibilidade de um homofóbico, racista, misógino defensor da
ditadura assumir o poder. Bolsonaro cresce nas pesquisas, a Bolsa sobe e o dólar cai.
Como disse um destes iluminados, Felipe Miranda, da Empiricus, em entrevista ao El
País Brasil, ao avaliar uma “situação hipotética”: caso o Congresso fosse fechado e uma
reforma da previdência aprovada na marra, a bolsa subiria.

É autoexplicativo.

4) Como tornar a eleição do contra uma eleição a favor

A corrosão do cotidiano no Brasil é uma imagem explícita nas ruas de cada dia. Nos
últimos anos, as calçadas voltaram ser habitadas por vivos que parecem cadáveres. E
nós, que não perdemos nossas casas, passamos por esses seres humanos como mortos
que parecem vivos. Porque fingir que não vemos a dor dos outros também mata. Esse
Brasil precisa mudar. E não será com as pessoas apontando armas umas para as outras
que isso vai acontecer.

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Nem será com o medo. Quando sinto que a opressão me estrangula, e o medo tenta se
infiltrar nos meus ossos, recorro à literatura. A arte conversa com o mais profundo da
gente, por isso foi tão atacada pelas milícias da internet. A arte conversa com a
liberdade que resiste dentro de nós.

Recorro especialmente a uma autora que viveu a repressão de uma forma muito intensa,
uma alemã que viveu a ditadura comunista de Nicolae Ceausescu, na Romênia. Em um
livro de ensaios, Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio (Companhia das Letras),
Herta Müller, ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, escreve sobre a resistência, a
resistência nas pequenas coisas, naquilo que chama de “naturalidade”. E que a minha
amiga chama de “cotidianices”.

“Todos aqueles que não se viravam contra essa política eram parte
dela”

Compartilho um trecho com vocês, em que ela fala da infiltração do nazismo nos
corações e mentes dos “cidadãos de bem”:

“A naturalidade, aprendi a partir dos poemas de Theodor Kramer, é a coisa menos


extenuante que temos. Ela está no momento e não tem um nome, para existir ela
precisa se manter despercebida, porque nós também precisamos nos deixar
despercebidos dela. Os poemas mostram de uma maneira agudamente clara como a
naturalidade pode se extraviar quando é cassada pela arbitrariedade política.

Os poemas de Kramer mostram que o escândalo não começa pelo extermínio dos
judeus nos campos de concentração, mas anos antes, com o roubo da naturalidade nas
casas, cafés, lojas, bondes ou parques pela maioria dos correligionários. Que, no
nazismo, a política era feita não somente pelos convictos, mas também pelos ignorantes
subservientes. (...) Todos aqueles que não se viravam contra essa política eram parte
dela”.

Todos aqueles que não se viraram contra essa política eram parte dela.

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Herta conta que os judeus viviam neste tempo o roubo diário da naturalidade. Me parece
que, neste primeiro turno, com a ameaça concreta do domínio da opressão, ainda que o
projeto autoritário alcance o poder pelo voto, parte dos brasileiros, os mais frágeis
muito antes, viveram o roubo diário da naturalidade de uma outra maneira. A ameaça de
perder a possibilidade já foi vivida como perda da possibilidade. E então a possibilidade
dos pequenos atos deixou de existir. E, vale repetir: esta é a primeira vitória do opressor.

Mais uma vez, a tessitura do presente foi suspensa por um projeto autoritário. A
democracia, no Brasil, vive aos soluços, interrompida pela exceção. Tem sido essa a
nossa história. Quando começamos a discutir um projeto original de país, quando os
indígenas e os negros e as mulheres começam a ocupar novos espaços de poder, o
processo é interrompido. Quando começamos a ter paz, a guerra recomeça. Porque, de
fato, a guerra contra os mais frágeis nunca parou. Arrefeceu, algumas vezes, mas nunca
parou. Desta vez, a perversão é que, até agora, o projeto autoritário vem se
estabelecendo com a roupagem da democracia.

Mesmo votando contra, é preciso jamais perder de vista do que


somos favor

Bolsonaro define esse momento: aparentemente ele disputa dentro da democracia, mas
realizando crimes previstos na legislação desta democracia, como racismo, sem ser
punido; aparentemente ele disputa dentro da democracia, mas se perder no segundo
turno é porque o sistema de apuração foi fraudado, se perder não aceitará a derrota;
disputa dentro da democracia, mas só aceita um resultado, o da sua vitória. Essa
deslógica é a lógica dos perversos. E enlouquece. Viemos sendo adoecidos – e
enlouquecidos – desde que Eduardo Cunha (MDB) afirmava os maiores absurdos e nada
acontecia, porque ele só podia ser afastado e preso depois de fazer o serviço sujo do
impeachment.

Mais uma vez o tecimento do presente foi suspenso. Mas não podemos permitir que
nossos dias sejam devorados, porque, no banquete dos perversos, nossas almas é que
são comidas. Há que se resistir ao devoramento das almas.

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Essa eleição foi sequestrada pelo “contra”. Ser contra é —e foi— muito importante. E
será. Em momentos de tanta gravidade, como já viveram outros países ao longo da
história, tudo o que se pode fazer é ser contra. Contra o autoritarismo. Contra a
opressão. Contra a ameaça da ditadura. Contra o extermínio das minorias. Contra o
sequestro da liberdade. Mas, mesmo fazendo campanha e votando contra, é preciso
jamais perder de vista do que somos a favor. Ou as almas se envenenam. E a gente
adoece por dentro, o estrago interno que Freud chama de melancolia.

Temos que ser contra e ao mesmo tempo ir tecendo um projeto de futuro, tanto no
plano pessoal como no coletivo. Um projeto de futuro onde possamos viver. O presente
no Brasil não será possível sem voltar a imaginar um futuro. É preciso compreender que
criar um futuro serve muito mais ao presente do que ao próprio futuro. Não dá para viver
vendo pela frente apenas horror ou vazio. Tem que sonhar fazendo. Sonhar com um
país, sonhar com uma vida. É pelo desejo que nos humanizamos. Resistir nas próximas
três semanas é principalmente desejar uma vida viva – vivendo uma vida viva. Se
conseguirmos, voltaremos a ganhar mesmo antes de ganhar.

Aprendi com os povos da floresta amazônica, que tiveram suas vidas destruídas junto
com a floresta mais de uma vez, e que resistem e resistem e resistem, que o principal
instrumento de resistência é a alegria. Oswald de Andrade dizia que a alegria é a prova
dos nove. Mas eles já sabiam disso muito antes. Metem o dedo na cara do opressor, que
continua lá, e riem por gostar de rir. Riem só por desaforo.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o
Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e
do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:
@brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Adere a

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