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livro relata a vida do vis- um brasileiro que viveu fora do seu


conde de Mauá (1813- tempo. Ao percorrermos com o autor
89), também chamado o passos da vida do personagem, per-
“empresário do Império”. O autor pu- cebemos claramente como foi possí-
blicou uma obra que, de um lado, apre- vel a Mauá, nascido em uma colônia,
senta um rico depoimento histórico e, escravocrata, de família humilde,
de outro, mostra facetas admiráveis do transformar-se em um empresário ad-
homem que, de muitas maneiras, aba- mirador do trabalho, empreendedor,
lou a sociedade brasileira do Império. com visão internacional e um dos ho-
É muito interessante perceber quão mens mais ricos do seu tempo em todo
atuais são os comentários que o o mundo.
autor faz em relação ao com- Ao percorrermos o livro, torna-se
portamento de Mauá, quan- difícil acreditar que na sociedade
do transportamos os fatos escravocrata do Império pudesse
para os dias de hoje. De- prosperar um homem com visão em-
cididamente Mauá foi presarial tão larga como a de Mauá.

Irineu Evangelista
de Sousa, o visconde
de Mauá;
ao fundo, o ponto
de desembarque
do largo do Paço
no início da

MA
década de 1830
(aquarela de
William
Smyth, 1832).

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CARLOS AMÉRICO
MORATO DE
ANDRADE é diretor
do Instituto de
Eletrotécnica e
Energia da USP.

Mauá, Empresário do Império,


de Jorge Caldeira, São Paulo,
Companhia das Letras, 1995.

A CARLOS AMÉRICO MORATO DE ANDRADE


A locomotiva da
primeira ferrovia
brasileira

BIOGRAFIA
DE

AUA´
UÁ
R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 31 ) : 2 2 8 - 2 3 0 , S E T E M B R O / N O V E M B R O 1 9 9 6 229
Mauá foi inicialmente um comerciante, de- oposição muito forte dos bem-situados e da mai-
pois um banqueiro e por fim um empreendedor oria dos gabinetes conservadores e liberais do
internacional, com negócios e empresas no Uru- Império. Poucos foram aqueles que compreende-
guai, Argentina e até na Inglaterra, o centro ram seus ideais desenvolvimentistas e seus planos
mundial do capitalismo na época. de uso de capitais internacionais no crescimento
Fica bem claro no livro que os recursos finan- nacional. Sofreu perseguição constante dos deten-
ceiros coletados por ele visavam em primeiro tores do poder, chegando até a ser desconsiderado
lugar o uso do dinheiro na produção de bens e pelo próprio imperador que, mais tarde, quando
serviços, na direção do progresso. Sempre lutou Mauá já tinha perdido boa parte do seu poder eco-
contra juros elevados, já que desejava lucros com nômico, outorgou-lhe o título de visconde.
a produção e não com a manipulação do dinhei- A falta de apoio oficial lhe valeu, no fim de
ro. Foi um banqueiro desenvolvimentista, jamais sua vida, a decretação judicial de falência, apesar
um usurário. Mauá chegou a criar e dirigir o maior de detentor de enorme fortuna pessoal. Com um
banco da época, o Banco do Commercio e da esforço gigantesco pagou todas as suas dívidas;
Indústria do Brasil que, ao ser autorizado o seu todos aqueles que participaram de seus empreen-
funcionamento, passou a se denominar Banco dimentos como sócios tiveram seus recursos res-
do Brasil. sarcidos. Usou seus bens pessoais para liquidar
Mauá participou dos grandes acontecimen- as dívidas de suas empresas, mesmo não sendo
tos políticos internacionais do Brasil imperial, legalmente obrigado a fazê-lo.
sempre por solicitação dos governantes, já que O livro de Caldeira mostra que, se tivesse
possuía recursos e empresas capazes de sustentar havido uma compreensão do governo brasileiro
até as guerras que envolveram o país. Teve, por para com as idéias inovadoras de Mauá, o Brasil
décadas, posição de destaque no Uruguai, atra- poderia ter se tornado, ainda no Império, uma
vés de seu banco, ajudando com empréstimos, na potência industrial semelhante ao que se deu na
maioria das vezes nunca pagos, o esforço de guerra América do Norte.
desse país. Auxiliou o exército brasileiro na guerra Infelizmente a sociedade brasileira apostou
do Paraguai, tendo sido amigo próximo do então no tráfico de escravos, após 1851, na força de
marquês de Caxias. Quando a navegação no rio trabalho dos negros que aqui viviam e na ativida-
Amazonas foi ameaçada de ser internacionaliza- de agrícola através da cana-de-açúcar e do café.
da por pressão dos Estados Unidos, montou uma Condenou-se ao obscurantismo que só 50 anos
empresa de navegação, a pedido dos governantes depois começaria a ser mudado.
brasileiros, que passou a operar na região amazô- O homem que acreditava no trabalho, que na
nica, dessa forma garantindo a soberania nacio- inauguração da sua primeira estrada de ferro
nal na área. entregou orgulhosamente ao imperador uma pá,
Mauá criou o primeiro estaleiro da América simbolizando o trabalho de seus construtores,
do Sul na cidade do Rio de Janeiro e, também, a não foi compreendido pela sociedade da época,
companhia de gás da capital federal, sendo res- nem mesmo pelos seus governantes. Fez quase
ponsável pela iluminação pública da cidade. tudo sem apoio oficial, muitas vezes condenado
Ciente de que o centro econômico e financei- e perseguido pelas autoridades. Perdeu suas em-
ro do mundo localizava-se em Londres, criou aí presas e morreu um homem rico, com grande
um empreendimento bancário, captando recur- patrimônio pessoal, porém deixou um país atra-
sos internacionais para aplicar na América do sado, voltado para a agricultura de poucos produ-
Sul, principalmente no Brasil. Esteve diretamen- tos e estigmatizando o trabalho livre e remunera-
te envolvido na construção das primeiras estra- do. Essa visão do Brasil deve ter gerado em Mauá
das de ferro nacionais, a Rio-Petrópolis e, depois, um sentimento de profunda dor, pois era o oposto
a Santos-Jundiaí. Foi sua empresa que trouxe o do que sempre pregou e agiu nos seus 60 anos
primeiro cabo submarino para a comunicação como Empresário do Império.
telegráfica com a Europa. Envolveu-se, também, O livro de Caldeira é muito bem ordenado,
na agroindústria e na pecuária de grande escala. cativa e prende o leitor, realizando um dos prin-
Uma personagem tão diferente da média da cipais objetivos do autor, creio, exaltar a figura
sociedade em sua época teve certamente uma ímpar de Mauá.

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