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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Carnelutti, Francesco
As misérias do processo penal / Francesco Carnelutti ; tradução da versão espanhola do
original italiano por Carlos Eduardo Trevelin Millan. -- 2. tiragem -- São Paulo : Editora
Pillares, 2009.

Título original: Le miserie del processo penale.


ISBN 978-85-8183-026-1

1. Processo penal I. Título.

06-5995 CDU-341.1
Índices para catálogo sistemático:
1. Processo penal : Direito penal 341.1
© Copyright 2009 by Editora Pillares Ltda.

Conselho Editorial:
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Gaetano Dibenedetto
Ivan de Oliveira Silva
Ivo de Paula
José Maria Trepat Cases
Luiz Antonio Martins
Wilson do Prado

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Editoração e capa:
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Produção do e-book:
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diversas (Lei no 9.610, de 19-02-98).
Prefácio

A Voz de São Jorge parte do Centro de cultura e civilização da Fundação Giorgio Gini, que
tem sua sede em Veneza, cidade maravilhosa, nessa ilha situada defronte da praça de São
Marcos e do Palácio Ducal, os quais as arquiteturas de Buora, de Palladio e de Longhena,
hoje ressurgidas em seu antigo esplendor, têm circundado de tanta maravilha.
O Centro propõe-se a fazer servir a cultura à civilização, ou seja, em simples palavras, o
saber à bondade. Deveria ser este o destino do saber; mas nem sempre as coisas seguem
como deveriam. Também o saber, para dar o exemplo da energia atômica, pode servir ao
bem como ao mal, ou fazer com que os homens passem a ser piores ou melhores, ou fazer
com que possa levantar a cabeça em atitude de soberba ou incliná-la em ato de humildade.
O que, para tal objetivo, dever-se-ia fazer neste ano é pensar algo em torno do processo
penal. Um tema científico, à primeira vista, pouco adequado para uma conversação com o
grande público, o qual, especialmente na rádio, tem vontade de se divertir. Mas aqui está
precisamente o cerne da questão, em tema de civilização. Divertir-se quer dizer escapar da
vida cotidiana, a qual é tão monótona, tão difícil, tão amarga, que faz com que resulte
irresistível a necessidade de evasão. Não estou fora da realidade ao extremo de não
reconhecer, ou de não experimentar esta modesta necessidade. Porém, existe outra saída para
evadir-se, além da diversão. É a saída oposta; diz o provérbio que os extremos se tocam. Esta
saída é o recolhimento. Ao final de tudo, não há evasão mais completa que a prece, que é a
forma esquisita de recolhimento. Muitas pessoas não o sabem porque não o provam. Mas
aqueles que têm experimentado o consolo da prece sabem o que se tem de pensar a respeito
da diversão e do recolhimento.
Um pouco em todos os tempos, porém na época atual cada vez mais, interessa o
processo penal à opinião pública. Os jornais ocupam uma boa parte de suas páginas com a
crônica dos delitos e dos processos. Quem os lê tem consigo a impressão de que neste mundo
se produzem muito mais delitos do que boas ações. O que ocorre é que os delitos
assemelham-se às papoulas, que quando há uma em um campo, todos se dão conta dela; e as
boas ações se ocultam, como as violetas entre as ervas do prado. Se os jornais se ocupam com
tanta assiduidade dos delitos e dos processos penais, é porque a gente se interessa muito por
eles; sobre os processos penais chamados célebres, lança-se avidamente a curiosidade do
público. E é também esta uma forma de diversão; evade-se da própria vida ocupando-se da
vida das demais pessoas; e a preocupação não é nunca tão intensa como quando a vida dos
outros assume o aspecto de drama. O mal é que se assiste ao processo da mesma maneira que
se goza do espetáculo num cinema, o qual, pelo mais, imita com muita frequência tanto o
delito como o correspondente processo. Contudo, posto que a atitude do público a respeito
dos protagonistas do drama penal é a mesma que tinha há um tempo a multidão diante dos
gladiadores que combatiam no circo, e todavia tem, em certos países do mundo, diante das
corridas de touros, o processo penal não é, infelizmente, outra coisa senão uma escola de
incivilidade.
O que com estes colóquios se desejaria é fazer do processo penal um motivo de reflexão
em lugar de diversão. Não vale opôr a isto o fato de que em torno desse processo reúnem-se
os homens da ciência; e que nada tem a fazer o público em geral. Os juristas, é certo,
estudam-no e, todavia, deveriam estudá-lo melhor para conseguir que seu mecanismo,
delicado como nenhum outro, aperfeiçoe-se; este é um problema com muito mais
semelhança do que aquela que se supõe a respeito dos problemas de mecânica que os
engenheiros resolvem; e também dessa semelhança as pessoas deveriam se dar conta.
Contudo, posto que o público também se interessa pelo processo penal, faz-se necessário que
não o confundam com um espetáculo cinematográfico, ao qual se assiste para alcançar
emoções. Poucos aspectos da vida social afetam tanto como este a civilização.
Não é a primeira vez que me ocorre advertir que a civilização (com palavras muito
simples que raras vezes se leem nos livros, porque os homens infelizmente são e querem ser
ainda mais terrivelmente complicados) não é outra coisa senão a capacidade dos homens de
amarem-se, e, por isso, de viver em paz.
Muito bem, o processo penal é uma pedra de toque da civilização, não só porque o delito,
com tintas mais ou menos fortes, é um drama da inimizade e da discórdia, mas também
porque representa a relação entre quem o tenha cometido, ou se diz tê-lo cometido, e aqueles
que assistem a ele. A propósito dos exemplos recordados, faz-se uma pausa, é necessário
refletir acerca do que ocorria nas arenas do Circo Máximo, nos tempos de Roma, ou que
ocorre, todavia, nas praças dos touros da Espanha, do México ou do Peru. Pensava nisto num
dia de setembro passado, durante a projeção de um filme mexicano, no qual estava
admiravelmente representado o estado de ânimo do público embrutecido contra o toureiro
porque não demonstrava suficiente desprezo pelo perigo; quem era mais bestial, o público ou
o touro? Aquela atitude não se pode explicar senão mediante uma separação entre quem
assiste e quem atua, de tal maneira que o gladiador, mais que um homem, é considerado
uma coisa. Considerar o homem como uma coisa: pode haver uma fórmula mais expressiva
de incivilidade? No entanto, é o que ocorre, infelizmente, em nove de cada dez vezes no
processo penal. Na melhor das hipóteses, os que se vão ver trancados numa cela como
animais no jardim zoológico parecem homens fictícios ao invés de homens de verdade. E se
alguém se dá conta de que são homens de verdade, parece a si que se tratam de homens de
outra raça ou, poderíamos dizer, de outro mundo. Este que pensa dessa maneira não lembra,
quando assim sente, a parábola do publicano e do fariseu, e não suspeita que sua
mentalidade é propriamente a do fariseu: eu não sou como este.
O que se necessita, pelo contrário, para merecer o título de homem civilizado, é inverter
tal comportamento; somente quando chegarmos a dizer, sinceramente, eu sou como este,
então seremos verdadeiramente dignos da civilização. No intento de provocar esta inversão,
trataremos juntos de compreender o que é um processo penal. Ao trabalhar dessa maneira,
não faço, depois de tudo, mais do que percorrer de novo o meu caminho. Também eu, como
a maior parte de vocês, quando era pequeno, sentia a curiosidade, uma vez que não fosse
verdadeiramente apaixonado por este espetáculo. Contarei a vocês, a respeito, dentro de
pouco, um episódio. Na Universidade, no entanto, uma série de circunstâncias, das quais
compreendi mais tarde o devido significado, desviou-me do direito penal para o direito civil.
Assim, durante longos anos, fui um melhor civilista do que penalista; também minha
atividade científica se desenvolveu mais amplamente no terreno do direito civil. Mas
conservou-se em mim uma atração secreta pelo direito e processo penal. Existia uma espécie
de corrente subterrânea que, ao chegar a um certo ponto, saía à superfície da terra. Seria
inadequado recordar detalhadamente todas as ocasiões que a vida me proporcionou: é fato
que, um dia, da cátedra de processo civil passei à de direito e depois à do processo penal. E
ocorreu o mesmo que ocorre numa montanha quando, depois de um longo caminho entre as
rochas, alcança-se o topo e se abre, por fim, ante os olhos, o panorama iluminado pelo sol.
Alguém se admirou com esta comparação? Não está o direito penal no vale, ao invés de
no topo? Não é o direito da sombra, ao invés do direito do sol?A verdade é que, segundo uma
admirável intuição de São Paulo, nós vemos as coisas no espelho e, por isso, vemo-las
invertidas. O direito penal sim, é o direito da sombra; mas é necessário atravessar a sombra
para chegar à luz. Ao menos para mim, assim penso. Cada um faz seu caminho; e o
caminho, como a face de cada um, é diferente do caminho dos outros. Eu, enquanto me
dediquei a lidar com os denominados homens de bem, considerava-me um homem de bem;
e não dei um passo adiante. Foi o conhecimento dos infames que me fez saber que não sou
de forma alguma melhor que eles e que estes não são em absoluto piores que eu; era o que
necessitava, para um homem como eu, mais inclinado ao orgulho senão, propriamente, à
soberba. Quero dizer que também estive por muito tempo nas arenas do circo olhando de
cima a baixo os gladiadores como se não fossem meus irmãos. Se os que estão ali no meio,
arriscando a vida, fossem nossos irmãos, não é certo que se correria para separá-los e salvá-
los? Não poderia dizer com precisão como ocorreu e como, pouco a pouco, de estranhos se
converteram em irmãos. Mas, definitivamente, isso ocorreu, e é o que importa. Desde aquele
dia, abriu-se diante de mim um magnífico panorama, iluminado pelo sol.
Certamente, não tenho ilusões em torno da eficácia de minhas palavras. Mas não duvido
que, segundo o ensinamento daquele sensacional filósofo que todos deveríamos ver em
Cristo, mesmo querendo considerá-lo somente como filho do Homem, as palavras são
semelhantes. Ainda que com minhas sementes se misture, infelizmente, muitas de joio,
algum daqueles grãos pode ser capaz de germinar. Por isso, sem presunção, mas com
devoção, semeio-o. Não pretendo que a colheita me remunere com cem, nem com sessenta,
nem com trinta por um. Ainda que um só dos grãos germinasse, não teria semeado em vão.
Sumário

Prefácio

I. A Toga
II. O Preso
III. O Advogado
IV. O Juiz e as Partes
V. Parcialidade do Defensor
VI. Das Provas
VII. O Juiz e o Imputado
VIII. O Passado e o Futuro no Processo Penal
IX. A Sentença Penal
X. O Cumprimento da Sentença
XI. A Libertação
XII. Fim: Mais Além do Direito
I

A Toga

A primeira coisa que impressiona aquele que se apresenta a uma sala em que se debate um
processo penal é que certos homens, que ali atuam, vestem um uniforme, uma “divisa”. Esta
tem sido a primeira impressão da justiça, todavia, nos anos de minha infância, quando, ao
presenciar um certo cortejo desde as janelas do palácio que tem sua sede na Corte de
apelação de Florença, na rua Cavour, vi sair de uma sala de aula um magistrado com toga, e
fiquei de boca aberta.
Por que os magistrados e os advogados usam a toga? Não parece uma veste de trabalho,
como é para os médicos o avental branco. Por ela se relacionar ao que têm de fazer, os juízes
e os defensores poderiam não se trocar, ou não cobrir a vestimenta comum. Há, com efeito,
países nos quais a toga não é usada; o mesmo ocorre entre nós em relação aos graus
inferiores da hierarquia judicial. Então, de que se trata? Só de um obséquio à tradição. Porém,
por que foi estabelecida tal tradição?
Creio que a resposta pode vir da mesma palavra. Certamente, como dito, a toga é uma
divisa como a dos militares; com a diferença de que os magistrados e os advogados a usam
somente em serviço, e até em certos atos do serviço particularmente solenes; na França e,
sobretudo, na Inglaterra, onde a tradição se observa mais precisamente, um advogado deve
usá-la sempre dentro do palácio da justiça.
Pergunto-me por que o traje dos militares se chama divisa. Divisa vem, manifestamente,
de dividir; que tem a ver com o traje militar a ideia de divisão? A surpresa se desvanece
imediatamente se o verbo dividir se substitui por outro, mais afim, discernir ou distinguir. Há
necessidade de se separar os militares dos civis, não é certo? A “divisa” é o signo da
autoridade.
Teria razão para dizer que a observância das palavras nos teria orientado imediatamente:
na sala de justiça se exerce, por excelência, a autoridade; compreende-se que os que a exercem
têm de se distinguir daqueles sobre os quais se exercem. É a mesma razão pela qual também
os sacerdotes vestem uma “divisa”; e, sobretudo, quando celebram as funções litúrgicas,
usam as vestes sagradas.
A “divisa” se chama também uniforme. O significado desta outra palavra parece
contradizer, sem dúvida, a primeira, posto que alude a uma união em lugar de uma divisão.
Mas são, no fundo, dois significados complementares: a toga, verdadeiramente, como o traje
militar, desune e une; separa os magistrados e os advogados dos profanos para uni-los entre
si. União que, observemos bem, tem um grandíssimo valor.
União dos juízes entre si, em primeiro lugar. O Juiz, como se sabe, não é sempre um
homem solitário; com frequência, para as causas mais graves, está integrado a um colégio;
sem dúvida, disse “o juiz”, também quando os juízes são mais que um, precisamente, porque
se unem um com outro, como as notas que emite um instrumento se fundem nos acordes. A
toga dos magistrados não é, pois, somente o signo da autoridade, mas também o da união;
ou seja, o signo do vínculo que os liga conjuntamente. Há no fundo disso uma ideia coletiva,
que faz o ambiente, todavia, mais solene. Se vemos, por exemplo, a corte de cassação em
seções conjuntas, onde atuam, togados, ao menos quinze magistrados, vem-nos à mente uma
reunião de frades, quando cantam as Completas ou as Maitines, encaixados nos bancos do
coro. Quem souber como opera a justiça colegiada não achará muito atrevida esta imagem
do acordo e do coro.
O conceito do uniforme serve, todavia, para aclarar o motivo pelo qual vestem a toga
não somente os juízes, mas também o Ministério Público e os advogados. Dentro de pouco
cuidaremos de compreender a necessidade destas outras figuras ao lado dos juízes; de
qualquer forma, é bem sabido de todos que eles não pertencem àqueles que julgam, senão
que, pelo contrário, também eles são julgados: o acusador e o defensor ouvem o que lhes é
dito, ao final, pelo juiz, se tiveram razão ou não; isto não é ser julgado? Estão eles, pois, em
relação ao juiz, do outro lado da barricada. Dir-se-ia, então, se a toga é o símbolo da
autoridade, que não a deveriam usar; e, ainda mais, se é o símbolo da união, por que
enquanto o acordo reina entre os juízes, o desacordo, pelo contrário, não só separa senão que
deve separar o acusador do defensor? Numa palavra, enquanto o juiz está ali para impor a
paz, o Ministério Público e os advogados estão para fazer a guerra. Precisamente, no processo,
é necessário fazer a guerra para garantir a paz. Agora bem, este enunciado pode conter um
certo sabor de paradoxo; mas chegará o momento em que poderemos apreciar a verdade dele.
A toga do acusador e do defensor significa que o que fazem é feito a serviço da autoridade;
aparentemente estão divididos, mas na realidade estão unidos no esforço que cada um realiza
para alcançar a justiça.
Em conjunto, estes homens de toga dão ao processo, e especialmente ao processo penal,
um aspecto solene. Se a solenidade resulta obscurecida, como desgraçadamente ocorre não
poucas vezes, por negligência dos advogados e dos próprios magistrados, que não respeitam
como deveriam a disciplina, isto redunda em desprestígio da civilização. No tribunal se
deveria permanecer com igual devoção como na igreja. Os antigos reconheciam um caráter
sagrado ao imputado porque, diziam, estava consagrado à punição dos deuses; teriam assim
eles a intuição de uma verdade profunda. O juízo, o verdadeiro, o justo juízo, o juízo que não
falha, está somente nas mãos de Deus. Se os homens, no entanto, colocam-se na necessidade
de julgar, devem ter ao menos a consciência de que fazem, quando julgam, as vezes de Deus.
A afinidade entre o juiz e o sacerdote não passa despercebida nem sequer aos ateus, os quais
consideram o assunto como um sacerdócio civil.
A toga, sem dúvida, induz ao recato. Infelizmente hoje em dia, e cada vez mais, por
debaixo deste aspecto, a função judicial se encontra ameaçada pelos perigos opostos da
indiferença ou do clamor: indiferença quanto aos processos menores, clamor quanto aos
processos célebres. Naqueles, a toga parece uma armadura inútil; nestes se assemelha,
infelizmente, a um disfarce teatral. A publicidade do processo penal, à qual corresponde não
só a ideia do controle popular sobre o modo de administrar a justiça, como também, e mais
profundamente, ao seu valor educativo, degenerou-se desgraçadamente numa situação de
desordem. Não somente o público que enche as salas até um limite inverossímil, senão
também a intervenção da imprensa, que antecede e segue o processo com indevida falta de
prudência, e não raras vezes, imprudências, contra as quais ninguém ousa reagir, têm
destruído qualquer possibilidade de meditação para aqueles aos quais incumbe o terrível
dever de acusar, de defender, de julgar. As togas dos magistrados e dos advogados se perdem
atualmente entre a multidão. São cada vez mais raros os juízes que têm severidade suficiente
para reprimir essa desordem.
Faz quase 50 anos, celebrando-se em Veneza um juízo por homicídio, sobre o qual
convergia a mórbida curiosidade de todo o mundo, na sala da Corte de Assises,
inacreditavelmente abarrotada, quando se levantou para ser interrogada, surgindo da cela sua
espantosa figura, Maria Nicolaevna Tarnovskij, e uma centena de senhoras, que ocupavam os
lugares reservados, postas por sua vez de pé, dirigiram sobre ela suas impertinências e seus
olhares. Ângelo Fusinato, presidente insigne, exclamou indignação contida: “amanhã este
espetáculo incivil não se repetirá mais”. Além das medidas, que ele entendeu tomar e
inflexivelmente manter durante longo transcorrer do processo, recordo agora, como as ouvi
pronunciar, suas memoráveis palavras: “este espetáculo incivil!”. Era o mesmo presidente, o
que não tolerava que um advogado não se comportasse no falar, no vestir, no gesto, de modo
adequado à dignidade de seu ofício e, por outro lado, quando se deu conta de, decidindo uma
causa civil, ter cometido um erro, não teve sossego até o instante em que lhe foi possível fazer
pública correção. Eis aqui um magistrado, o qual compreendera o valor que tem o processo
penal para a educação de um povo. Os advogados de Veneza, para comemorar seu exemplo
de firmeza, de dignidade, de abnegação, ornaram com seu busto o grande átrio superior da
Corte de apelação, e eu quis lembrar então sua figura para amparar sob sua proteção o que
estou dizendo acerca desta mais alta experiência de civilização, que deveria ser o processo
penal.
II

O Preso

À solenidade, para não dizer à majestade dos homens em toga, contrapõe-se o homem na
cela. Nunca esquecerei a impressão que me produziu a primeira vez em que, adolescente
ainda, entrei na sala de uma sessão penal do Tribunal de Turim. Aqueles, poderia dizer,
acima do nível do homem; este, por baixo deste nível, trancado na cela, como um animal
perigoso. Só, pequeno, ainda que seja de elevada estatura, perdido, ainda quando tente
parecer desenvolto, necessitado, necessitado, necessitado...
Cada um de nós tem suas preferências, inclusive em matéria de compaixão. Os homens
são diferentes entre si, incluindo o modo de sentir a caridade. Também este é um aspecto de
nossa carência. Há os que concebem o pobre com a figura do faminto, outros com a do
vagabundo, outros com a do enfermo; para mim, o mais pobre de todos os pobres é o preso,
o encarcerado.
Digo o encarcerado, observe-se bem, não o delinquente. Digo o encarcerado, como o
disse o Senhor, naquele famoso discurso citado no capítulo vigésimo quinto do Evangelho de
São Mateus, que exerceu sobre mim uma fascinação imensurável; e até ontem, poderia dizer,
cri que preso se pronunciasse como sinônimo de delinquente, mas me equivocava e o
equívoco foi um de tantos episódios, aptos a demonstrar que nunca se meditam o bastante os
discursos de Jesus.
O delinquente, enquanto não está preso, é outro ser. Confesso que o delinquente me
repugna; em certos casos me produz horror. Entre outras coisas, a mim, o delito, o grande
delito, ocorreu-me vê-lo, ao menos uma vez, com meus próprios olhos: os que renhiam
pareciam duas panteras; fiquei absolutamente horrorizado; e, sem dúvida, bastou que eu visse
um dos homens que havia derrubado o outro com um golpe mortal, enquanto os guardas,
que acudiram providencialmente, colocavam-no as algemas, para que do horror nascesse a
compaixão: a verdade é que, apenas algemado, a fera se converteu em um homem.
As algemas, também as algemas são um emblema do direito; quem sabe, pensando bem,
o mais autêntico de seus emblemas, embora mais expressivo que a balança e a espada. É
necessário que o direito nos ate as mãos. E precisamente as algemas servem para descobrir o
valor do homem, o qual é, segundo um grande filósofo italiano, a razão e a função do direito.
Quidquid latet apparebit, repete ele a este respeito com o Dies irae: tudo o que está oculto,
saltará a luz. O que estava oculto, na manhã em que vi um dos homens lançar-se contra o
outro, por debaixo das aparências da fera, era o homem; tão logo lhe apertaram os pulsos
com as correntes, o homem ressurgiu: o homem, como eu, com seu mal e com seu bem, com
suas sombras e com suas luzes, com sua incomparável riqueza e com sua miséria espantosa.
Então, nasceu do horror a compaixão.
Ora, não me deixei arrastar pela literatura ao falar, a propósito do delinquente, do mal e
do bem, de sombra e de luz, de miséria e de riqueza? Censuraram-me muitas vezes, inclusive
ultimamente, com a ocasião de uma desditada batalha pela abolição do cárcere, uma coisa
que alguém define como uma ingenuidade. Oxalá que o fosse! A verdade é que Francisco,
precisamente porque interpretou Cristo melhor que nenhum outro, chegou mais ao fundo
que qualquer outro no abismo do problema penal. Francisco, só Francisco compreendeu, ao
beijar o leproso, o que havia desejado dizer Jesus com o convite de visitar os presos. Os
sábios, que continuam considerando a pena, segundo uma fórmula famosa, um mal com
que se faz o delinquente sofrer pelo mal que ele fez sofrer, ignoram ou esquecem o que Cristo
disse a respeito do demônio que não serve para expulsar o demônio: não é com o mal que se
pode vencer o mal. Já Virgílio, antes que descesse sobre os homens a luz de Cristo, havia
cantado: omnia vincit amor, somente o amor é sempre vitorioso. Não se pode fazer uma clara
separação dos homens em bons e maus. Infelizmente, nossa curta visão não permite notar
um germe do mal naqueles que se chamam bons, e um germe do bem naqueles que se
chamam maus. E esta visão tão curta resulta de que nosso intelecto não está iluminado pelo
amor. Basta tratar o delinquente, em vez de como uma besta, como um homem, para notar
nele a vacilante chama do pavio luminoso, que a piedade, em vez de se apagar, deve se
reavivar.
Poucas vezes vi uma expressão tão sombria como a de um homicida, o qual defendi há
anos perante uma Corte de Assises da extrema Calábria: havia matado dois homens,
premeditadamente, disparando pelas costas dois tiros de pistola; não vi naquele rosto,
sombreado por uma longa cabeleira de azabache, nem sequer um princípio de luz. Defendia,
juntamente com ele, também o seu irmão, imputado de tê-lo instigado a matar. Na conversa
que tive com ele, tão logo cheguei lá embaixo, tive de lhe dizer que infelizmente para ele não
havia esperança que ao final se pudesse intentar, com as atenuantes genéricas, converter o
ergástulo em trinta anos de reclusão. Ele me escutou impassível; depois disse: “não se
preocupe comigo, advogado; não importa; eu sou um homem perdido; pense em salvar meu
irmão, que tem nove criaturas”. Então, um raio de amor iluminou seu semblante. Não era
sua riqueza aquele amor fraterno, que o fazia esquecer inclusive seu terrível destino?
A verdade é que o germe do bem, em cada um de nós, e não nos delinquentes somente,
está aprisionado. Há quem tenha mais e quem tenha menos, mas nenhum de nós tem todo o
espaço que deveria ter. Todos, em uma palavra, estamos na prisão; uma prisão que não se vê,
porém que não se pode deixar de sentir. Essa angústia do homem, que constitui o motivo de
uma corrente da filosofia moderna, de grande notoriedade e de indiscutível importância, não
é outra coisa que o sentido da prisão. Cada um de nós está aprisionado enquanto está
fechado em si mesmo, na solicitude por si mesmo, no amor de si mesmo. O delito não é
outra coisa senão uma explosão de egoísmo em sua raiz: o outro não conta; o que conta,
somente, é ele próprio. Apenas abrindo-se para nós, o homem poder sair da prisão. E basta
que se abra para nós para que entre pela porta aberta a graça de Deus.
Quidquid latet apparebit, canta o Dies irae. Poucas intuições são mais felizes que a do
filósofo, que expressou com este verso a eficácia do direito. A cela ou as algemas, dizíamos,
são uma insígnia do direito e, por isso, revelam a natureza e a desventura do homem. O
homem encarcerado ou o homem trancado numa cela é a verdade do homem; o direito não
faz mais que revelá-la. Cada um de nós está fechado em uma cela que não se vê. Nós não nos
assemelhamos aos animais porque estamos na cela, e sim que estamos em uma cela porque
nos assemelhamos aos animais. Ser homem não quer dizer não ser, e sim poder não ser
animal. Esta capacidade é a capacidade de amar.
Quem teria imaginado estas coisas quando vi, embora pequeno, um homem encarcerado
na sala sombria do Tribunal de Turim? Quem imaginaria que eu ainda não teria esquecido a
cena daquele homem na cela? É curioso que certos fatos, que parecem insignificantes,
incidem indelevelmente na nossa memória. É um fato que ainda hoje, depois de ter visto
tantos, o homem encarcerado tem para mim uma fascinação misteriosa. É esta a experiência
que me abriu a via da salvação.
III

O Advogado

Carlos Magno, que é hoje um dos melhores advogados em Milão, e que foi, naquela
Universidade, um de meus discípulos mais queridos, deu-me, precisamente no dia em que
deixava a cátedra de Milão pela de Roma, um belíssimo desenho a lápis do pintor Mentessi,
que representa as mãos de um preso, atadas pelas algemas. Mentessi não tinha certamente
uma experiência própria do problema penal; no entanto, aquele desenho demonstra a
clarividência que são as intuições de um artista: uma das mãos, a esquerda, caída, inerte, em
ato de desalento; a outra, sobreposta, volvida a palma para o alto, como a do pobre que
demanda a caridade. Está toda a psicologia do preso naquele pequeno quadro.
A minha sorte foi que vi tantas vezes, no decurso da vida, estender-se a mim aquela mão
aberta, à espera da esmola. As pessoas supõem o advogado como um técnico, ao qual se pede
uma obra, pois quem a solicita não seria capaz de realizar por si; supõem-no no mesmo
plano do médico ou do engenheiro; também isto é verdade, porém não é toda a verdade; o
resto dela se descobre, sobretudo, pela observação do preso.
O preso é, essencialmente, um necessitado. A escala dos necessitados foi traçada naquele
discurso de Cristo, ao qual já tive ocasião de fazer alusão, referido no capítulo vigésimo
quinto de São Mateus: famintos, sedentos, desnudos, vagabundos, enfermos, presos; uma
escala que conduz da essencial necessidade física, ou melhor, animal, à necessidade
essencialmente espiritual: o preso não tem necessidade de alimento nem de vestimentas,
nem de casa nem de remédios; o único remédio, para ele, é a amizade. As pessoas não
sabem, e nem sequer o sabem os juristas, que o que se pede ao advogado é a esmola da
amizade, antes de qualquer outra coisa.
O próprio nome do advogado soa como um grito de ajuda. Advocatus, vocatus ad,
chamado a socorrer. Também o médico é chamado a socorrer; porém somente ao advogado
se dá este nome, isto é, entrea assistência do médico e a assistência do advogado existe uma
diferença, a qual, não advertida pelo direito, é, entretanto, descoberta pela curiosa percepção
da linguagem. Advogado é aquele ao qual se pede, em primeiro lugar, a forma essencial da
ajuda, que é, propriamente, a amizade.
E também a outra palavra, cliente, que serve para denominar aquele que solicita a ajuda,
reforça esta interpretação: o cliente, na sociedade romana, pedia proteção ao patrono; também
ao advogado se chama de patrono, e a derivação de patrono, da palavra pater, projeta sobre a
relação a luz da fraternidade.
O que atormenta o cliente e o impele a pedir ajuda é a inimizade. Assim, as causas civis,
mas sobretudo as causas penais, são fenômenos de inimizade. A inimizade ocasiona um
sofrimento ou, ao menos, um dano com certos males, os quais, ainda mais quando não são
descobertos pela dor, minam o organismo; por isso, da inimizade surge a necessidade da
amizade; a dialética da vida é assim. A forma elementar da ajuda, para quem se encontra em
guerra, é a aliança. O conceito da aliança é a raiz da advocacia.
O imputado sente a aversão de muitas pessoas contra ele; algumas vezes, nas causas
mais graves, parece-lhe que contra si está todo o mundo. Não é raro que, enquanto o
transportam à audiência, seja acolhido pela multidão com um coro de imprecações; não é
raro que explodam contra ele atos de violência, contra os quais não se torna fácil protegê-lo.
Imaginem o estado de ânimo de Catalina Fort que, quando se apresentou ante os juízes,
todos a chamaram de fera. É necessário não só pensar nestes casos, senão também se colocar
na pele destes desgraçados para compreender sua terrível solidão e, com isto, sua necessidade
de companhia. Companheiro, de cum pane, é aquele que parte conosco o pão. O
companheiro se situa no mesmo plano daquele a quem faz companhia. A necessidade do
cliente, especialmente do imputado, é esta: a de alguém que se coloque junto a ele, no último
degrau da escala.
A essência, a dificuldade, a nobreza da advocacia é esta: situar-se no último degrau da
escala, junto ao imputado. As pessoas não compreendem aquilo que, por outro lado, sequer
os juristas compreendem; e riem, e ridicularizam, e escarnecem. Não é um ofício que goze
dos favores do público, e do Cirineo. As razões, pelas quais a advocacia é objeto, ainda que
no campo literário e inclusive no campo litúrgico, de uma difusa antipatia, não são outras
que esta. E até Manzoni, quando teve de retratar um advogado, perdeu sua afabilidade e a
Igreja desejou introduzir no Hino a Santo Ivo, patrono dos advogados, um verso injurioso. As
coisas mais simples são as mais difíceis de compreender.
Digamo-lo com claridade: a experiência do advogado cai sob o signo da humilhação. É
certo que veste a toga; colabora, desde logo, na administração da justiça; porém, seu posto
está abaixo, e não acima. Ele compartilha com o imputado da necessidade de pedir e de ser
julgado. Está sujeito ao juiz como o está o imputado.
Mas precisamente por isto a advocacia é um exercício espiritualmente saudável. Pesa o
dever de pedir, mas é proveitoso. Habitua-se a rogar. Que outra coisa é, mais que um pedir, a
súplica? A soberba é o verdadeiro obstáculo à súplica; e a soberba é uma ilusão de poder. Não
há outra coisa melhor que a advocacia para nos curarmos de tal ilusão. O maior dos
advogados sabe que não pode fazer nada diante do menor dos juízes; o pequenino, o menor
dos juízes é aquele que mais o humilha. Está constrangido a chamar à porta como um pobre.
E nem sequer está escrito sobre a porta: pulsate et aperietur vobis. Não poucas as vezes chama
em vão. A experiência se faz mais dolorosa e mais saudável. Se cria ter razão; se havia
estudado tanto, se havia suado tanto; pelo contrário... É necessário conhecer estes momentos
para compreender.
Os romanos denominavam a atividade do advogado no processo com o verbo postular.
Dizem os dicionários que este verbo significa pedir aquilo que tem direito a ter.Eé istoo que
agrava o peso do pedir. Não deveria haver necessidade de pedir aquilo que há direito a ter.
Em conclusão, é necessário submeter o próprio juízo a outrem, ainda quando tudo permita
crer que não haja razão para atribuir a outro uma maior capacidade de julgar.
Isto significa, no plano social, colocar-se junto ao imputado no último degrau da escala;
um sacrifício; mas não existe sacrifício sem benefício. Por isso disse que nossa experiência é
salutar. O benefício se tem quando se começa a perceber, na escuridão, a chama do pavio
flamejante. Um benefício, como ocorre sempre nas coisas do espírito, que ao mesmo tempo
se dá e se recebe: se aquela pequena chama se reaviva, seu calor não aquece somente a alma
do cliente, mas a do patrono ao mesmo tempo. Pelo pouco bem que pude fazer a alguns
destes infelizes, foi imenso o benefício recebido deles; do Senhor, entenda-se, mas por meio
deles; por isso que o Senhor disse que, quando se dá a eles, é recebido por Ele; os pobres são
os representantes de Deus.
O preso, as pessoas não o sabem e menos ainda o sabe ele, está faminto e sedento de
amor. A necessidade de amizade procede de sua desolação. Quanto maior é a desolação,
mais profunda e fecunda é a necessidade de amizade. Inconscientemente, ele pede o que é
indispensável a fim de que o defensor possa cumprir com seu ofício. O que o defensor deve
possuir, diante de tudo, para tanto, é a compreensão do imputado; não como o médico, o
conhecimento físico, mas a compreensão espiritual.
Conhecer o espírito de um homem significa conhecer sua história; e conhecer uma
história não é somente conhecer a sucessão dos fatos, mas encontrar o elo que os liga. Nesse
sentido, a história é uma reconstrução lógica, não uma exposição cronológica dos
acontecimentos. Tudo isto não é possível se o protagonista não abre, pouco a pouco, sua
alma. Estes tipos de protagonistas, que são os delinquentes, têm, por definição, almas
fechadas. Ao mesmo tempo que pedem a amizade, opõem a desconfiança e a suspeita.
Impregnados de ódio, veem o ódio inclusive onde não existe nada mais que amor. São como
animais selvagens, que só com infinito cuidado e paciência podem-se domesticar.
Alguém dirá que vejo assim a advocacia sob o perfil da poesia. Pode ser. A poesia de seu
ofício é algo que um advogado sente em dois momentos da vida: quando veste pela primeira
vez a toga ou quando, se propriamente não a depôs, está para depô-la: no nascer e no ocaso.
No nascer, defender a inocência, fazer valer o direito, fazer triunfar a justiça: esta é a poesia.
Depois, pouco a pouco, caem as ilusões, como as folhas da árvore, depois do fulgor do verão;
mas por meio do emaranhado dos galhos, cada vez mais despidos, sorri o azul do céu. Agora
já não estou seguro de haver defendido a inocência, nem de haver feito valer o direito, nem
de haver feito triunfar a justiça; e, sem dúvida, se o Senhor me fizesse nascer de novo,
começaria outra vez. Não obstante os fracassos, as amarguras, os desenganos, o balanço é
positivo; se faço a análise dele, dou-me conta de que o começo capaz de preencher todas as
deficiências consiste precisamente naquela humilhação de dever me encontrar, junto a tantos
desgraçados, contra os quais se desencadeia a ofensa e se aumenta o desprezo, no último
degrau da escala.
IV

O Juiz e as Partes

No mais alto da escala está o juiz. Não existe um ofício mais alto que o seu nem uma
dignidade mais imponente. Está situado, na sala, sobre a cátedra; e merece esta
superioridade.
A linguagem dos juristas celebra o juiz com uma palavra, acerca de cujo profundo
significado os próprios juristas, e tanto mais os filósofos, deveriam deter, mais do que a
detêm, a atenção. Nós decidimos que perante o juiz estão as partes. Denominam-se partes os
sujeitos de um contrato: por exemplo, o vendedor e o comprador, o arrendador e o
arrendatário, o sócio e o outro sócio; e igualmente, os sujeitos de uma lide: o credor, que quer
receber, e o devedor que não quer pagar; o proprietário que quer a entrega de sua casa, e o
inquilino que quer continuar habitando-a; e, finalmente, denominam-se também dessa
maneira os sujeitos do contraditório, ou seja, daquela disputa que se desenrola entre os dois
defensores nos processos civis ou entre o Ministério Público e o defensor nos processos
penais. Estes, todos eles, denominam-se assim porque estão divididos, e a parte procede,
precisamente, da divisão: cada um tem um interesse oposto ao do outro; o vendedor queria
entregar pouca mercadoria e ganhar muito dinheiro, enquanto o comprador quer exatamente
o contrário; cada um dos sócios queria tomar a parte do leão; dos dois defensores, se um
deles vence, o outro perde; e cada um deles quer a água no seu moinho.
Os juristas utilizam, por isso, o termo parte, mas o significado de parte é muito mais
profundo; na parte convergem o ser e o não ser; cada parte é ela mesmae não é a outra parte.
Mas, se é assim, todas as coisas e todos os homens são partes; uma rosa é uma rosa e não
uma violeta; um cavalo é um cavalo e não um boi; eu sou eu e não sou você. E este
descobrimento de ser o homem não outra coisa que uma parte tem inestimável valor; por
isso, os filósofos deveriam dar maior crédito à linguagem dos juristas e prestar-lhe maior
atenção.
Assim, pois, se aqueles que estão perante o juiz para serem julgados são partes, quer dizer
que o juiz não é parte. Com efeito, os juristas dizem que o juiz está super partes; por isso, o
juiz está no alto e o imputado embaixo, por baixo dele; um na cela, outro sobre a cátedra.
Igualmente, o defensor está abaixo, referente ao juiz; pelo contrário, se o Ministério Público
está a seu lado, isto constitui um erro, que mediante uma maior consciência em torno da
mecânica do processo se terminará por retificar. O juiz, todavia, é também um homem; se é
um homem, ele também é uma parte. Isto, de ser ao mesmo tempo parte e não parte,
constitui a contradição na qual se debate o conceito de juiz. Isto, de ser o juiz um homem e
de dever ser mais que um homem, constitui seu drama.
Um drama representado com insuperável maestria no Evangelho de São João; e, todavia,
estou espantado quando me vem à memória aquela sublime representação de que Benedetto
Croce, ainda que seja do ponto de vista puramente estético, tenha compreendido tão pouco
sua grandeza ao ponto de tê-lo denominado um “quadro encantador”. “Jesus foi depois ao
Monte das Oliveiras, mas ao amanhecer estava no templo,e todoo povo acorriaa Ele;e Ele se
sentou e os ensinava. Então os Escribas e os Fariseus lhe apresentaram uma mulher
surpreendida em adultério; e, colocando-a no meio, disseram-lhe: esta mulher foi
surpreendida no momento de cometer adultério. Bem, Moisés, na lei, ordenou-nos que tais
mulheres sejam apedrejadas. Que dizes Tu disso? E perguntavam isto para colocá-lo à prova e
ter um meio de acusá-lo. Mas Jesus se inclinou e com um dedo se pôs a escrever sobre o chão.
Insistindo aqueles em interrogá-lo, levantou-se, respondendo: quem de vós estiver livre de
pecado que atire a primeira pedra” (São João, VIII, 1).
É o suficiente para cair sem alento. “Quem de vocês estiver livre de pecado que atire a
primeira pedra!” É necessário, para sentir-se digno de castigar, estar livre de pecado; somente
então o juiz está acima daquele que é julgado. E posto que o pecado não é outra coisa que
nosso não ser aquilo que deveríamos ser, é necessário ser plenamente, sem deficiências, sem
sombras, sem lacunas; em suma, é necessário não ser parte para ser juiz. Nada de quadro
encantador! O problema do juiz, o mais árduo problema do direito e do Estado, está exposto
aqui com uma clareza espantosa.
Certamente, assim o entenderam os Escribas e os Fariseus, que tentaram confundir o
Mestre, já que o Evangelho continua narrando que Jesus “de novo se inclinou e escrevia no
chão”. Esperava Ele, absorto, o efeito de suas palavras. Então, Escribas e Fariseus “foram-se
marchando um atrás do outro, a começar pelos mais velhos, até os últimos, e ficou sozinho
Jesus e a mulher, que continuava no meio” (São João, VIII, 8).
Nenhum homem, se pensasse no que é necessário para julgar outro homem, aceitaria ser
juiz. E, todavia, é necessário encontrar juízes. O drama do direito é este. Um drama que
deveria estar presente para todos, dos juízes aos jurisdicionados, no ato em que se realiza o
processo. O Crucifixo que, graças a Deus, nas salas judiciais pende sobre a cabeça dos juízes e
que, contudo, seria melhor que se houvesse posto de frente a eles, a fim de que pudessem
pousar com frequência seu olhar nele, está para significar sua indignidade; é, não outra coisa,
a imagem da vítima mais insigne da justiça humana. Só a consciência de sua indignidade
pode ajudar o juiz a ser menos indigno.
A lei tem experimentado todos os expedientes possíveis para garantir a dignidade do juiz.
O mais óbvio entre estes consiste no juízo colegiado, uma vez que o julgar outro homem
exige que quem julga seja mais que quem é julgado, faz-se julgar por vários homens
reunidos. À primeira vista, o expediente parece ilusório; uma dignidade não se obtém com a
soma de várias indignidades. Mas o certo é que uma coisa é se considerar a soma de vários
juízes, e outra, sua unidade; não se trata, no colégio, de agregar um juiz a outro como os
fatores de uma adição; senão de vertere plures in unum, diríamos em latim, isto é, de fazê-los
se converter num só. Está longe o misterioso conceito do acorde e do acordo, a chave na
música e a chave do direito; misterioso porque, todavia, não sabemos, e quiçá não o
saibamos nunca, como pode ocorrer quando entre dois homens se produz verdadeiramente a
união e, portanto, forma-se a unidade, comunica-se a cada um o ser do outro, mas não o não
ser, o bem, mas não o mal. Pode parecer que a associação para delinquir desminta esta
afirmação; mas refletindo, dá-se conta de que se os delinquentes são mantidos juntos pelo
medo, trata-se de uma falsa união, como seria a de um feixe de varas atadas juntamente, que
não formam em absoluto uma vara só; ou há entre eles afeto, e este é em todo caso um germe
do bem, o qual pode sempre encontrar-se envolto e oculto sob a cortina do mal.
O princípio do colégio judicial é verdadeiramente um remédio contra a insuficiência do
juiz, no sentido de que, se não a elimina, ao menos a reduz: em outras palavras, o juiz
colegiado está menos longe que o juiz singular daquilo que o juiz deveria ser; mas a condição
de que o juiz alcance sua unidade, ou seja, de que entre os juízes singulares se estabeleça o
acordo, que não significa tanto identidade de opiniões quanto paridade de tensão em direção
da verdade.
Tocou-se assim na raiz do problema. A justiça humana não pode ser mais que uma
justiça parcial; sua humanidade não pode deixar de resolver-se em sua parcialidade. Tudo o
que se pode fazer é tratar de diminuir esta parcialidade. O problema do direito e o problema
do juiz são uma mesma coisa. O que pode o juiz fazer para ser melhor do que o é? A única
via que lhe está aberta a tal fim é a de sentir sua miséria: é necessário sentir-se pequeno para
ser grande. É necessário ter uma alma de criança para poder entrar no reino dos céus. É
necessário, cada dia mais, recuperar o dom do entusiasmo. É necessário assistir, a cada
manhã, com mais profunda emoção, ao nascer do sol, e, a cada tarde, ao seu ocaso. É
necessário sentir-se, cada noite, aniquilado pela infinita beleza do céu estrelado. É necessário
permanecer atônito diante do perfume de um jasmim ou diante do canto de um rouxinol. É
necessário cair de joelhos diante de cada manifestação deste indescritível prodígio que é a
vida.
Outros dirão que o juiz, para ser juiz, deve realizar certos estudos, superar certos exames,
submeter-se a certos controles. Sobretudo, hoje se ensina que, para ser juiz penal, é necessário
estudar, além do direito, a sociologia, a antropologia, a psicologia. Certamente, são estudos
úteis e inclusive necessários, mas não suficientes. Ante tudo não se deve crer que se possa
colocar sobre a mesa anatômica, como se coloca o corpo, também a alma humana. Não se
deve confundir o espírito com o cérebro. Certamente, o espírito está condicionado pelo corpo
e vice-versa; em particular, a psicologia é a ciência que estuda estas relações; mas além destas,
encontra-se o campo que o juiz deve, sobretudo, conhecer; e muito temo que seu
conhecimento não ajude nem as Universidades nem os institutos complementares. Narra
uma fábula, que li numa revista argentina, que os protestos dos anjos pela criação deste ser
absurdo, meio anjo e meio besta, que é o homem, o Criador contestou: o homem não é questão
para congressos de filosofia; o homem não é questão que se possa discutir nestes congressos; e
teria agregado: o homem é questão de fé no homem. Desde que tive a ocasião de lê-las, faz anos,
não me fugiram da mente estas palavras.
Poderia se dizer também que é questão de fé no homem a questão penal. Mas a fé no
homem se adquire somente amando o homem. Mais que ler muitos livros, eu queria que os
juízes conhecessem muitos homens; se fosse possível, sobretudo, santos e infames; os que
estão no mais alto ou sobre o degrau mais baixo da escala. Parecem imensamente distantes;
mas no terreno do espírito sucedem coisas estranhas. Necessita-se de muito pouco para
converter-se de infame em santo: Cristo, com o exemplo do ladrão crucificado, tem-nos
ensinado! Em qualquer caso, basta que o infame se envergonhe de ser infame; e pode
também bastar que um santo se vanglorie de ser santo para perder a santidade. Estas são,
verdadeiramente, as coisas essenciais; mas não se encontram em nenhum manual de
psicologia. Mas bem se aprendem na Igreja ou na penitenciária. É curiosa também esta
aproximação, não é certo? Entre Igreja e penitenciária; algo assim como colocar juntos o
Inferno e o Paraíso. Mas o erro, o tremendo erro, está em crer que aqueles que se encontram
fechados na penitenciária estejam danados.
V

Parcialidade do Defensor

Tem-se dito: um homem, para ser juiz, deveria ser mais que um homem. E se viu que, no
fundo, é precisamente tal ideia a que inspira aquela forma de correção da insuficiência do
juiz que é o colégio judicial. Mas não é este o único remédio que a experiência tem sugerido.
Para compreender, é necessário partir da parcialidade do homem. Todo homem,
dissemos, é uma parte. Precisamente por isto, nenhum homem chega a apoderar-se da
verdade. Aquela verdade que cada um de nós crê, não é mais que um aspecto da verdade; algo
assim como uma minúscula faceta de um diamante maravilhoso. É o que Cristo nos tem
ensinado dizendo:
“Eu sou a verdade”; alcançar a verdade é alcançar a Ele; e Dele, amando-o, podemos nos
aproximar sem fim; mas alcançá-lo não, porque Ele é infinito. A verdade é como a luz ou
como o silêncio, que compreendem todas as cores e todos os sons; mas a física tem
demonstrado que nosso olho não vê e nosso ouvido não ouve mais que um curto segmento
da gama das cores ou dos sons; há, mais aquém e mais além da nossa capacidade censora, as
cores infravermelhas e as ultravioletas assim como os infrassons e os ultrassons.
Assim se explica um ponto de vista, o qual, para quem quer compreender este
importantíssimo fato social que é o processo, tem uma importância de primeiro plano. O
juiz, quando julga, estabelece quem tem razão; isto quer dizer: de que lado está a razão. Razão
que é, e não pode ser mais que uma, a verdade; também, neste sentido, são equivalentes
razão e verdade. Porém, como se explica, então, se a razão é uma só, que, precisamente no
processo, cada uma das partes exponha suas razões? As que o Ministério Público e o defensor
expõem, quando discutem, são as razões pelas quais o primeiro pede a condenação e o
segundo a absolvição. Como se concilia a unidade da razão com a pluralidade de razões?
Como pode ocorrer que, de quem termina por não ter razão, dele se possa dizer que expôs
suas razões?
A verdade é que, socorrendo-se de novo da comparação, a razão se decompõe nas razões
como a luz se decompõe nas cores e o silêncio nos sons. Do mesmo modo que não podemos
enxergar toda a luz nem gozar de todo o silêncio, assim tampouco podemos nos apoderar de
toda a razão. As razões são aquela fração de verdade que, a cada um de nós, parece ter nos
alcançado. Quanto mais razões se exponham, tanto mais será possível que, juntando-as,
alguém se aproxime da verdade.
No fundo, quando o juiz passa a julgar, encontra-se ante uma dúvida: este é culpado ou é
inocente? Também dúvida é uma palavra transparente: dubium vem de duo. Uma dupla via se
abre ante o juiz: de cá ou de lá. O juiz deve escolher. Mas a fim de escolher, deve percorrer
um ou outro caminho, já que de outro modo não poderia ver onde vão dar. Agora
compreende-se para que serve, ao juiz, o defensor; e porque diante do defensor coloca-se o
acusador, são os que guiam o juiz ao longo dos dois caminhos, a fim de que possa escolher
um deles.
Acusador e defensor são, em última análise, dois raciocinadores: constroem e expõem as
razões. Seu ofício é raciocinar. Mas um raciocinar, com licença, de pé forçado. Um raciocinar
de modo diverso do raciocinar do juiz. Não é talvez muito fácil de compreender; mas se não
se compreende isto, tampouco se compreende o processo; e não basta que compreendam os
juristas, porque este é o ponto a respeito do qual os leigos podem ter em torno do processo
impressões falsas e nocivas para a civilidade. Raciocinar é, em palavras simples, expor
premissas e conseguir resultados: o imputado confessou ter matado, assim, pois ele matou.
Em termos de lógica, primeiro vêm as premissas e depois as consequências. Assim procede o
raciocinador imparcial. Mas o defensor não é um raciocinador imparcial. E é isto o que
escandaliza a gente. Apesar do escândalo, o defensor não é imparcial porque não deve sê-lo.
E porque não é imparcial o defensor, tampouco pode ser nem deve ser imparcial seu
adversário. A parcialidade deles é o preço que se deve pagar para obter a imparcialidade do
juiz, que é, pois, o milagre do homem, uma vez que, conseguindo não ser parte, supera-se a si
mesmo. O defensor e o acusador devem buscar as premissas para chegar a uma conclusão
forçada.
Tudo isto pode parecer absurdo. E, no entanto, a chave do processo está aqui. Mal seria se
o juiz se contentasse em raciocinar assim: o imputado confessou ter matado. Portanto,
matou. Há também casos nos quais um homem confessa um delito que não cometeu: temos
visto pais que se acusavam para salvar o filho, e também filhos que se submetiam ao mesmo
sacrifício para salvar seu pai. Isto é tão certo – e não só pela razão que acabo de indicar – que
inclusive o Código Penal castiga aqueles que denunciam contra a verdade ser culpados de um
delito. Isto quer dizer que ainda quando existam provas evidentes da culpabilidade ou da
inocência, antes de condenar ou de absolver é necessário continuar na investigação até ter
esgotado todos os recursos. Mas para fazer isto, o juiz deve ser ajudado; por si só, não o
conseguiria. Seu ajudante natural é o defensor, este amigo do imputado, o qual,
naturalmente, tem o interesse de buscar todas as razões que podem servir para demonstrar a
inocência daquele. O defensor, pois, é e deve ser um raciocinador de pé forçado, isto é, um
raciocinador parcial; um raciocinador que traga a água ao seu moinho.
É claro, todavia, que, deste modo, o defensor é um auxiliar precioso para o juiz, mas
também muito perigoso em razão de sua parcialidade. E como se concebe que seja útil mas
inócuo? Contrapondo-lhe aquele outro raciocinador parcial em sentido inverso, que se
denomina Ministério Público e que deveria denominar-se mais exatamente acusador. No
ordenamento atual do processo penal, o Ministério Público não é essencialmente um
acusador; pelo contrário, concebe-lhe, à diferença do defensor, como um raciocinador
imparcial; mas há aqui um erro de construção da máquina que também quanto a isto
funciona mal; ademais, em nove de cada dez vezes, a lógica das coisas arrasta o Ministério
Público a ser o que deve ser: o antagonista do defensor.
Desenvolve-se assim, ante os olhos do juiz, o que os técnicos chamam contraditório e que
é, realmente, um duelo; o duelo serve ao juiz para superar a dúvida;a propósito do qual é
interessante observar que também duelo, o mesmo que dúvida, vem de duo. No duelo se
personifica a dúvida; é como se no cruzar das ruas se batessem os valentes para levar ao juiz,
fazia uma ou fazia a outra. As armas utilizadas por estes para lutar são as razões. Defensor e
acusador são esgrimistas, os quais não é raro que realizem uma má esgrima, mas também às
vezes oferecem aos entendidos um espetáculo excelente.
Inclusive aqueles que não são entendidos, como ocorre nos torneios, terminam por se
apaixonar por este jogo: esta é também, para o público, uma das mais fortes atrações do
processo penal. Mas, digamos também, é uma coisa que dá ao processo penal o sabor de
admiração; e é precisamente por isto que as pessoas o desfrutam. E precisamente é este o
motivo também pelo qual os advogados adquirem fama de criadores de sofismas. Em boa
parte a sátira, que se levanta excepcionalmente salutar contra nós, deve-se a uma maligna
interpretação deste fenômeno. Não se compreende que se o advogado fosse um raciocinador
imparcial, não somente trairia seu próprio dever como também estaria em contradição com
sua razão de ser no processo, e a estrutura deste resultaria desequilibrada.
Sem dúvida, isto das duas verdades, a verdade da defesa e a verdade da acusação, é um
escândalo; mas é um escândalo do qual tem necessidade o juiz a fim de que não seja um
escândalo o seu juízo. E isto não só porque o juiz tem necessidade de que lhe apresentem
todas as razões para encontrar a razão; e quantas mais lhe apresentam, mais evidentemente
parece que se complica, mas na realidade se simplifica seu encargo. Sob este aspecto, o duelo
entre o defensor e acusador se assemelha ao choque entre duas pedras das quais salta a faísca.
As razões, como dissemos, são a razão como as cores da luz; as arengas, os informes do
defensor e do acusador se assemelham a uma roda giratória de cores; mas, ao girar
velozmente, as cores se fundem na luz. De qualquer maneira, a vantagem que o juiz obtém
dele não é somente na ordem da inteligência. A verdade é que o contraditório o ajuda
precisamente porque é uma confusão: a confusão da parcialidade, a confusão da discórdia, a
confusão da torre de Babel. A repugnância pela parcialidade se converte para o juiz na
necessidade de superá-la, ou seja, de se superar; e nesta necessidade está a salvação do juízo.
Eis aqui que esta tentativa de análise do processo penal em seu momento tecnicamente
mais delicado permite talvez apreciar um resultado, que tem por si uma certa importância
para a civilidade. Poder-se-ia falar, a este respeito, de reabilitação dos advogados. A do
advogado é quiçá uma das figuras mais discutidas no quadro social; poder-se-ia dizer mais
atormentada. Entre outras coisas, nunca, nem sequer nos momentos de maior convulsão
histórica, foi proposta a supressão dos médicos ou dos engenheiros; mas a dos advogados,
sim. Em alguma ocasião, até se chegou a suprimi-los; depois ressurgiram com rapidez. No
fundo, o protesto contra os advogados é o protesto contra a parcialidade do homem.
Olhando-o bem, eles são os Cirineus da sociedade: levam a cruz por outro, e esta é sua
nobreza. Se me pedires uma divisa para a ordem dos advogados, proporia o virgiliano sic vos
nom vobis; somos nós que aramos o campo da justiça e não colhemos seu fruto.
VI

Das Provas

O encargo do processo penal está em saber se o imputado é inocente ou culpado. Isto


quer dizer, ante tudo, se aconteceu ou não aconteceu um determinado fato: um homem foi
ou não foi morto, uma mulher foi ou não foi violentada, um documento foi ou não foi
falsificado, uma joia foi ou não roubada?
Seria necessário saber, antes de tudo, o que é um fato. São palavras que se empregam
intuitivamente; compreendem-se elas de maneira aproximada, mas é necessário que nos
detenhamos a refletir sobre elas. Um fato é um pedaço de história; e a historia é o caminho
que percorrem, desde o nascimento até a morte, os homens e a humanidade.
Um pedaço de caminho, pois. Mas de caminho que se fez, não de caminho que se pode
fazer. Saber se um fato ocorreu ou não quer dizer voltar atrás. Este voltar atrás é o que se
chama fazer a história.
Não é um mistério que no processo, e não somente no processo penal, se faz história.
Digo: não é um mistério para os juristas, os quais desde há muito tempo puseram nele sua
atenção; mas pode surpreender o público em geral, ao qual meu discurso está dirigido. Isto
ocorre porque estamos habituados a examinar a história dos povos, que é a grande história;
mas existe também a pequena história, a história dos indivíduos; inclusive não existiria
aquela sem esta, de igual maneira que não existiria a corda sem os fios que nela estão
enrolados. Quando se fala de história, o pensamento volta para as dificuldades que se
apresentam para reconstruir o passado; mas são, se se tem em conta a medida, as mesmas
dificuldades que se devem superar no processo.
Com isto de pior: o delito é um pedaço do caminho, do qual quem o percorreu trata de
destruir as pegadas. Sucede o contrário do que ocorre, normalmente, quanto ao contrato:
quando um compra, e ainda mais se a coisa tem valor importante, conserva, em geral
mediante um documento, a prova de ter comprado; quando rouba, destrói, o melhor que
pode, as provas de ter roubado.
As provas servem, precisamente, para voltar atrás, ou seja, para fazer ou, melhor ainda,
para reconstruir a história. Como faz quem, tendo caminhado por meio dos campos, quer
percorrer em sentido contrário o mesmo caminho? Segue as pegadas de seu passo. Vem à
mente a figura do cachorro policial, o qual vai farejando aqui e ali para seguir, por meio do
olfato, o caminho do malfeitor perseguido. O trabalho do historiador é este. Um trabalho de
habilidade e paciência, sobretudo, no que colaboram a polícia, o Ministério Público, o juiz
instrutor, os juízes da audiência, os defensores, os peritos. Prescindindo da crônica dos
periódicos, os livros policiais e os cinematográficos têm apaixonado, mais que informado, o
público a respeito deste trabalho. A vantagem desta literatura, sob o aspecto da civilidade,
está em ter difundido a impressão, para não dizer a experiência, das dificuldades da
investigação, em razão da falibilidade das provas. O risco é o de erraro caminho.Eo danoé
grave quando se erra o caminho, e quando a história se faz por meio de livros, porque ainda
quando os historiadores não se dão conta disso e os filósofos, ou ao menos certos filósofos,
negam-no, não se remontam os caminhos percorridos senão para encontrar os caminhos a
percorrer; de qualquer maneira, isto é tanto mais manifesto, quando o passado se reconstrói
para determinar a ventura de um homem.
Mas existe também o reverso da medalha; e que reverso!
A culpa não é toda ela da literatura policial, como pode se compreender; esta literatura
inclusive pode ser um sintoma bem mais que a causa de um fenômeno derivado de causas
mais profundas. Quiçá estas se deveriam buscar naquela tendência à diversão, que tem tanta
participação na crise da civilidade que estamos atravessando. Em suma, é própria história
que se converte em meio da diversão. A crônica judicial e a literatura policial servem, do
mesmo modo, de diversão para a vida cotidiana tão cinzenta. Assim, o descobrimento do
delito, de dolorosa necessidade social, tem-se convertido em uma espécie de esporte; as
pessoas se apaixonam do mesmo modo que pela busca do tesouro; editores profissionais,
editores diletantes, editores improvisados, não colaboram tanto quanto fazem concorrência
aos oficiais de polícia ou aos juízes instrutores; e, o que é pior, fazem seus trabalhos. Cada
delito desencadeia uma série de investigações, de conjecturas, de informações, de
indiscrições. Policiais e magistrados, de vigilantes se convertem em vigiados por grupos de
voluntários dispostos a assinalar cada um de seus movimentos, a interpretar cada um de seus
gestos, a publicar cada uma de suas palavras. Os testemunhos são farejados como a lebre
pelo cão. Depois, repetidamente, explorados, sugestionados, comprados. Os advogados são o
claro dos fotógrafos e dos cronistas. E, com frequência, infelizmente, nem sequer os
magistrados tentam opor a esse frenesi a resistência que requereria o exercício de seu austero
ofício.
Esta degeneração do processo penal é um dos sintomas mais graves da civilidade em
crise. É inclusive difícil patentear todos os danos devido à falta do reconhecimento de que a
nenhum outro cometido é tão imprescindível como aquele que no processo penal se deve
desenrolar. Não o mais grave, mas, desde logo, o mais chamativo é aquele que se refere à
pessoa do imputado. A Constituição italiana tem proclamado solenemente a necessidade de
tal respeito declarando que o imputado não deve ser considerado culpado enquanto não seja
condenado por uma sentença definitiva. Mas esta é uma dessas normas que servem somente
para demonstrar a boa-fé daqueles que a tem elaborado; ou, em outras palavras, a incrível
capacidade de se forjar ilusões de que estão dotadas as revoluções. Infelizmente, a justiça
humana está feita de tal maneira que não somente se faz sofrer os homens porque são
culpados, senão também para saber se são culpados ou inocentes. Esta é, infelizmente, uma
necessidade, à qual o processo não pode se subtrair, nem sequer se seu mecanismo fosse
humanamente perfeito. Santo Agostinho escreveu a este respeito uma de suas páginas
imortais; a tortura, nas formas mais cruéis, foi abolida, ao menos no papel; mas o próprio
processo é uma tortura. Até certo ponto, tem-se dito, não se pode prescindir dela; mas a
denominada civilização moderna tem exagerado de um modo inverossímil e insuportável
esta triste consequência do processo. Ao homem, quando sobre ele recai a suspeita de ter
cometido um delito, é dado ad bestias, como se dizia em um tempo dos condenados
oferecidos como comida para as feras. A fera, a indomável e insaciável fera, é a multidão. O
artigo da Constituição, em que se tem a ilusão de garantir a incolumidade do imputado, é
praticamente inconcebível com aquele outro artigo que sanciona a liberdade de imprensa.
Basta apenas ter surgido a suspeita; o imputado, sua família, sua casa, seu trabalho, são
inquiridos, requeridos, examinados, despidos, na presença de todo mundo. O indivíduo,
desta maneira, é transformado em pedaços. E o indivíduo, recordemo-nos, é o único valor
que deveria ser salvo pela civilidade.
Mas existe outro indivíduo no centro do processo penal junto ao imputado: a
testemunha. Os juristas, friamente, classificam a testemunha, junto com o documento, na
categoria das provas, e até a uma certa categoria das provas; esta sua frieza é necessária, como
a do estudioso de anatomia que corta o cadáver; mas aí, se se esquece de que enquanto o
documento é uma coisa, a testemunha é um homem, um homem com seu corpo e com sua
alma, com seus interesses e com suas tentações, com suas recordações e com seus ouvidos,
com sua ignorância e com sua cultura, com sua valentia e com seu medo. Um homem que o
processo coloca numa posição incômoda e perigosa, submetido a uma espécie de requisição
por utilidade pública, separado de seu negócio e de sua paz, utilizado, exprimido, inquirido,
convertido em objeto de suspeita. Não conheço um aspecto da técnica penal mais
preocupante que o que se refere ao exame e até, em geral, ao trato da testemunha. Também
aqui, por demais, a exigência técnica termina por se resolver em uma exigência moral: se ela
devesse se resumir em uma fórmula, colocaria no mesmo planoo respeito à testemunha e o
respeito ao imputado. No centro do processo, em última análise, não estão tanto o imputado,
ou a testemunha, quanto o indivíduo. Todos sabem que a prova testemunhal é a mais
enganosa de todas as provas; a lei a rodeia de muitas formalidades, que desejavam prevenir
os perigos; a ciência jurídica chega até o ponto de considerá-la um mal necessário; a ciência
psicológica regula e inventa inclusive instrumentos para sua valoração, ou seja, para
distinguir a verdade da mentira, mas o melhor modo de garantir o resultado tem sido e
sempre será o de reconhecer na testemunha um homem e conceder-lhe o respeito que todo
homem merece.
Recentemente, um fino advogado genebrino, comentando aquele processo de Digne, na
França, pelo assassinato da família Drummond, amargamente por ele chamado de Kermesse
judiciaire ou procès touristique, ao observar os fotógrafos que, na sala juchés, perchés debout,
assis, accroupis ... mitraillaient les témoins se perguntava como é possível que “a verdade saia à
superfície quando a testemunha é perseguida pelos fotógrafos, rodeada, até tocá-la, pelos
escritores, pelos guardas, pelos advogados”, e concluía pensando profundamente: “não se
abre nem o coração nem a alma sob a voz da multidão”.
Sem embargo, as pessoas estão convencidas de que esta que produz tais fenômenos seja
uma civilidade de progresso. E se pode esperar, com confiança, que algum jurista ou algum
filósofo construa sua magnífica teoria tanto da arte como da história de massa, sustentando
que isso do historiador recolhido, cauto, absorto no pesar as provas como o químico com
suas balanças e com suas provetas, é uma figura de outros tempos, cara somente para a
nostalgia de algum sobrevivente do século XIX, como este velho jurista que trata de fazê-los
conhecer uma verdade a cujo descobrimento tem dedicado toda a vida.
VII

O Juiz e o Imputado

O juiz – temos dito – é também ele um historiador, com a única diferença entre a grande e a
pequena história. E posto que a história que o juiz faz, ou melhor, reconstrói, é a pequena
história, pode parecer que sua missão resulte mais fácil que a de reconstruir a grande história.
Eu me pergunto, no entanto, se verdadeiramente é mais fácil manejar o microscópio que o
telescópio: a diferença entre o povo e o indivíduo não é a diferença entre o macrocosmos e o
microcosmos? É um aspecto de nossa cegueira o de dar demasiada importância à distinção
entre as coisas grandes e as pequenas; depois de tudo, a experiência do valor do átomo
deveria ter-nos desenganado.
De todo modo, a missão histórica do juiz não está somente em reconstruir um fato:
quando em um processo por homicídio se estabeleceu a certeza de que o imputado, com um
tiro de pistola, tenha matado um homem, não se sabe, todavia, dele tudo o que é necessário
saber para dever condená-lo. O homicídio não é somente ter matado, senão ter querido matar.
Isto quer dizer que o juiz não deve limitar sua investigação aos aspectos externos, ou seja, às
relações do corpo do homem com o resto do mundo, mas que deve descer, mediante sua
investigação, à alma daquele homem. E quando se diz alma ou espírito ou psiquismo, como
hoje preferem as pessoas cultas, alude-se a uma região misteriosa da qual não conseguimos
falar a não ser mediante metáforas. É necessário ir com cautela na investigação neste terreno.
O perigo mais grave é o de atribuir a outro a nossa alma, ou seja, o de julgar o que ele sentiu,
compreendeu, quis, segundo o que nós sentimos, compreendemos, queremos.
Certamente, não se pode julgar a vontade senão por meio da ação, ou seja, do que o
homem faz. Mas de tudo o que se faz, não somente de uma parte. A ação do homem não é o
ato singular, mas todos os seus atos em conjunto. Aqui o conceito que pode nos orientar é o
de indivíduo, precisamente porque expressa a ideia da indivisibilidade; indivíduo não quer
dizer outra coisa senão indivisível. Um homem se denomina indivíduo para significar, em
uma palavra, que não se pode fazer sua história aos pedaços. O que o homem desejou não se
pode conhecer senão por meio do que o homem é; e o que o homem é somente se conhece
por toda sua história. O eu de cada um de nós é um centro ao qual se referem e ao qual se
unificam todos nossos atos. Cada um de nossos atos se relaciona com este princípio.
Fisicamente, o ato pode ser considerado em si; psicologicamente, não. A vontade de um ato é
o princípio; e o princípio não se encontra senão no final da história de um homem. Isto quer
dizer, em uma palavra, que quando o juiz reconstruiu um fato, não percorreu mais que a
primeira etapa do caminho; mais além desta etapa o caminho prossegue, porque lhe cabe
conhecer a vida inteira do imputado.
Essa verdade, que espero ter enunciado com bastante clareza, encontra-se atualmente
reconhecida pelas leis penais modernas. Há um artigo do nosso Código no qual se impõe a
obrigação ao juiz de levar em conta “a conduta e a vida do réu, anterior ao delito; a conduta
contemporânea ou subsequente ao delito; as condições de vida individual, familiar e social
do réu”. Esta é uma norma que só os juristas conhecem; mas também o público em geral a
deve conhecer, porque o homem comum deve saber que a lei penal declara solenemente o
dever de realizar no processo uma coisa que, pelo contrário, não se faz nem se pode fazer.
Disto deveria resultar para ele uma indignação; mas a fim de que os escândalos possam
beneficiar, devem ser conhecidos. Este é precisamente o fim a que a Voz de San Jorge se
propõe.
O que a lei quer é precisamente que o juiz faça, completamente, a história do imputado.
O que supõe, diante de tudo, que o juiz tenha o tempo e a paciência de fazê-la contar por ele;
depois deverá verificar o relato, mas, entretanto, deve conseguir que lhe façam este relato.
Basta enunciar tal necessidade para pôr em claro o paradoxo, e inclusive o absurdo, do
processo penal. Em realidade, o juiz não tem a paciência, e se a tivesse, não disporia de
tempo necessário para escutar a história do imputado nem sequer em seus aspectos mais
importantes; e se a escutasse quanto a esses aspectos, todavia não teria escutado a história
verdadeira, porque a história verdadeira está formada também pelas coisas pequenas, as
quais, para o conhecimento de um homem, contam muito mais que as grandes; já adverti,
pelo mais, que a diferença entre o grande e o pequeno não é mais que um efeito da limitação
dos sentidos e da inteligência do homem.
E tanto mais é impossível o ofício de historiador, que a lei atribui ao juiz, enquanto
escutar a história do imputado exige, em primeiro lugar, que se supere sua desconfiança,
primeira condição para um relato sincero; e a desconfiança não se vence mais que com a
amizade, a qual, entre o juiz e o imputado, na maior parte dos casos, é um sonho. Se se
agrega que o relato, naturalmente, deveria ser objeto de comprovação, e que assim a
investigação assumiria em cada processo dimensões imponentes, é fácil concluir que o
encargo histórico do juiz penal, enquanto se refere ao desenvolvimento espiritual, que
conduz ao delito, é, na melhor das hipóteses, grosseiramente aproximativa.
Não se deve crer que o ambiente dos juristas tenha permanecido insensível a este
escândalo. Já faz muito tempo que os juristas se deram conta de que para o juízo penal é
necessário, além de conhecer o fato, conhecer o homem; e conhecer o homem não é possível
sem reconstruir sua história: a disposição que descrevi foi introduzida por mérito da ciência
no Código Penal italiano. E ademais, se têm dado conta os juristas de que os meios de que
dispõe o juiz para conhecer o homem são absolutamente inadequados: por isso, ultimamente
se tem manifestado um movimento voltado a procurar a ajuda de um especialista em
psicologia. Também este será, desde logo, um passo adiante, quando se possa dar; mas não se
deve atribuir à psicologia capacidade e méritos maiores do que ela possua. Os limites da
psicologia são os limites da ciência, isto é, pouco mais ou pouco menos, os limites da
análise; ainda quando a matéria tenha sido indagada até seus mais íntimos rincões, não é
deste modo como se pode captar o segredo da vida; e o segredo do espírito é o segredo da
vida. Tudo o que pode fazer o psicólogo é algo análogo ao que faz o estudioso de anatomia
sobre o corpo humano; mas o espírito é, essencialmente, unidade. Não o caminho da
psicologia, mas sim o da amizade pode conduzir o homem ao coração de outro homem; e
esse caminho, infelizmente, está fechado pelo juiz.
Estas coisas digo não para exortá-los a depreciar o processo penal e os homens que têm
construído e que manobram seu mecanismo. Estes homens tiveram e têm, todavia, suas
culpas, que não devem ser ocultadas, mas que tampouco se deve exagerar; sobretudo sabemos
reconhecer que são pobres também eles, como nós, e que as coisas perfeitas ninguém as sabe
fazer. No fundo, o escândalo não está nos homens, mas sim nas coisas. É o processo penal,
em si, a pobre coisa à qual é estabelecida uma missão demasiado grande para poder ser
cumprida. Isto não quer dizer que se possa prescindir dele; mas se temos de reconhecer sua
necessidade, deve-se reconhecer igualmente sua insuficiência. Nisto está verdadeiramente
uma condição da civilidade, a qual exige que se trate com respeito não só o juiz como
também o que tem de ser julgado e inclusive o condenado. Devemos nos resignar,
desgraçadamente, com a história do imputado, como o juiz a pode fazer; mas não devemos
fundar sobre ela nosso juízo e, sobretudo, nosso desprezo.
Tanto mais que a história do indivíduo, como o juiz a pode fazer, pela própria natureza
do processo penal, é uma história irremediavelmente incompleta. Um homem é, desde logo,
sua história: mas sua história está composta não só por seu passado, mas também por seu
futuro. Eu sou não só o que fui, senão também o que serei. O presente é síntese do passado e
do futuro. Isto é tão certo que o próprio Código Penal quer que o juiz tenha em conta a
conduta do réu tanto anterior como posteriormente ao delito. Mas o juiz, forçosamente, deve
se deter na história, não no momento do delito, mas no momento do julgamento: o que vem
depois não pode levar em conta porque não o pode adivinhar; embora, ainda quando
ignorado, também o futuro é real. O juízo, para ser justo, deveria ter em conta não somente o
mal que alguém fez, mas também o bem que fará; não somente sua capacidade para
delinquir, mas também sua capacidade para se redimir. Mas a fim de que este juízo, que para
ser justo deve ser íntegro, possa se realizar, deveria se fazer depois que o homem terminasse
sua vida. Não se pode obter as somas de um balanço, diria um homem de negócios, senão no
fim do exercício. Tal é a razão pela qual o processo de beatificação se faz pela Igreja sobre um
morto, não sobre o vivo. Sempre há tempo, enquanto se respira, para que um infame se
converta em santo ou um santo em infame: vale o exemplo evangélico do ladrão crucificado.
Em troca, ao contrário do que ocorre com o processo de beatificação, o processo penal deve
acontecer durante a vida. Na melhor das hipóteses, não se pode atribuir ao juízo que nele se
pronuncia mais que um valor provisional: este, agora, é um infame a menos que... não se
converta em um santo; também o ladrão crucificado, enquanto não o cravarem na cruz,
enquanto não pronunciou, já agonizante, a sublime palavra de arrependimento, era um
infame; mas com aquela palavra resgatou toda sua iniquidade.
Entendemo-nos, assim espero, sobre o valor destas minhas reflexões sobre os fins da
civilidade. Eu não tenho a menor intenção de desacreditar o processo penal além dos limites
em que sua imperfeição poderia ser eliminada com um pouco mais de atenção e boa
vontade. Entretanto, a civilidade exige que não se atribua a ele um valor do qual nem tanto
carece quanto não pode chegar a ter. O imputado deveria ser considerado com o mesmo
respeito que se concede ao enfermo nas mãos do médico ou do cirurgião. Uma certa
comparação entre o enfermo e o preso foi feita por Jesus: não devemos nos esquecer dela.
VIII

O Passado e o Futuro no Processo Penal

Mas por que, pois, o juiz faz história? Aquilo que aconteceu, aconteceu; factum,
infectumfieri nequit, diziam uma vez; nada pode fazer o tempo voltar. Ninguém, nem mesmo
Deus, disse um dia, em discussão comigo, nada menos que um doutor em religião; e a mim
me pareceu uma blasfêmia, ainda quando inconsciente. Mas deixemos estar este tema
porque, se volvêssemos nele, perder-se-ia o elo do discurso. Águas passadas não movem
moinho; uma grande tentação emana deste provérbio: com certeza o desespero. Não há, pois,
remédio para o passado? Se não fosse assim, porque se faria o processo penal? Uma obscura
intuição tem levado sempre os homens a crer que exista um remédio. O delito é uma
desordem e o processo serve para restaurar a ordem; esta é a intuição. Mas como se forma a
ordem no lugar da desordem?
A verdade intuída é que o remédio para o passado está no futuro. Não outra coisa que
esta verdade intuída guia os homens a reconstruir a história. Em algum tempo, esta intuição
tinha encontrado sua fórmula, quando se dizia que a história é mestra da vida. Atualmente,
não se diz mais; e parece um passo adiante no caminho do saber. Também o caminho do
saber, como todos os caminhos que conduzem ao alto, tem seus falsos planos e seus trajetos
em declive; é certo que tendo perdido, por assim dizer, o contato entre passado e futuro,
temos nos afastado mais do que aproximado do alto. Quiçá um dos caracteres da crise é
precisamente este, que denominaria o desinteresse pelo futuro. Inclusive existiu um filósofo,
venerado pelos italianos e não somente por eles, que negou ao homem a possibilidade de
prever. Poucas responsabilidades da filosofia são mais graves que esta. A cegueira destes
pretendidos condutores de homens, os quais não sabem que o único problema do homem é
o problema do futuro, faz vir à mente as palavras do Evangelho: “como pode um cego guiar
outro cego sem que um ou outro se precipitem num fosso?” O homem não tem outro modo
para resolver o problema do futuro a não ser o de olhar o passado; somente a contemplação
do passado pode permitir-lhe captar, como em um espelho, o segredo do futuro. Se estes
tivessem sabido desmontar, como faz um mecânico com uma máquina, o prodigioso
mecanismo do pensamento, teriam compreendido, ao menos, qual é a virtude da memória,
guardiã do passado, desde a qual a inteligência inicia o voo até o futuro.
De qualquer maneira que seja, se há um passado que se reconstrói para fazer dele a base
do futuro, no processo penal esse passado é o homem na cela. Não existe outra razão para
estabelecer a certeza do delito além da de inflingir-lhe a pena. O delito está no passado, a
pena está no futuro. Disse o juiz: devo saber o que houve para estabelecer o que será. Foi um
delinquente; será um preso. Fez sofrer, sofrerá. Não soube usar de sua liberdade; será
encarcerado. Eu tenho nas mãos a balança; a justiça quer que tanto quanto pese seu delito,
pese sua pena.
Mas ocorre que, ao chegar a este ponto, sucede algo que complica o problema. Isto
decorre do fato de que reprimir os delitos não é o bastante; é necessário preveni-los. O
cidadão deve saber antes quais serão as consequências de seus atos, para poder se conduzir. É
necessário também para os homens algo que os atemorize, para salvá-los da tentação, como
se espantam os pássaros com o espantalho a fim de que não comam o grão. A balança,
assim, passa das mãos do juiz para as do legislador. O peso se faz antes que o ladrão roube, a
fim de que se abstenha de roubar. Mas se se faz antes, faz-se sobre o fato, e não sobre o tipo. O
tipo é um conceito, não um fato; uma abstração, não uma realidade; algo previsto, não algo
acontecido. Agora bem, o prever é, ao mesmo tempo, mais ou menos que o ver: mais que o
ver, porque se agrega ao ver; menos porque não se vê tudo aquilo que, quando aconteceu, ver-
se-á. Em suma, é um ver indistinto; distinguem-se as grandes linhas; mas o acontecimento
reserva sempre, ainda quando seja conforme a previsão, algo de novo.
O direito penal se debate, pois, nesse dilema: ou se põe a balança nas mãos do juiz e
então, se o juiz é justo, o peso será justo, mas o direito não serve, ou serve pouco, para sua
função preventiva; ou se reserva a balança ao legislador, e então opera a prevenção no
sentido de que o cidadão sabe antes a que consequências se expõe ao desobedecer à lei, mas o
peso corre o risco de não ser justo, porque o que se põe em um dos pratinhos é o tipo, não o
fato; e o tipo, dizíamos, é uma abstração, não uma realidade. Entre os dois extremos do
dilema a solução não pode ser mais que de compromisso: por salvar a cabra e as hortaliças,
não se salvam nem a cabra nem as hortaliças (não é possível nadar e guardar a roupa).
Por isso, em primeiro lugar, a técnica penal recorre à multiplicação dos tipos. Há uma
espécie de mostruário cada vez mais numeroso que se põe à disposição do juiz a fim de que
ele esteja em situação de encontrar o tipo que se assemelha mais ao fato em sua concretude. E
posto que a vida social, e com ela a delinquência, complica-se cada vez mais, também o
Código Penal, inclusive o conjunto das leis penais (as quais, atualmente, não estão todas elas
contidas no Código, e até pode se dizer que a maior parte delas está fora), converte-se em
uma espécie de labirinto. O juiz, naturalmente, deve saber se mover neste labirinto; para isso,
deve ser um jurista. O que não deixa de ser um perigo; e tanto é assim que as Cortes de
Assises (tal é o nome que se dá aos colégios julgadores chamados a julgar os grandes delitos)
estão compostas em parte, inclusive na menor parte, por juristas; e, quanto ao resto, por
leigos no direito. O perigo está precisamente nisto, em que, habituado ao tipo, o juiz jurista
se esquece do homem; que viva, em suma, num mundo abstrato, em lugar de viver no
mundo concreto; que confunda os fantoches com os homens e os homens com os fantoches.
O homem comum, ao assistir a um processo, tem a impressão fastidiosa, e alguma vez
angustiosa, desta separação da vida; quando ouve debater em torno da interpretação deste ou
daquele artigo do Código Penal ou do Código de Processo Penal, é inevitável que se pergunte
se este mecanismo tão implicado e complicado não é uma coisa diabólica criada por pessoas
que perderam o dom da simplicidade e do bom senso; grande parte da má fama dos
advogados e, em geral, dos homens das leis, deve-se a este dissabor e a este desgosto. Produz-
se, deste modo, uma ruptura entre o povo e a justiça, ou melhor dito, a administração da
justiça, que é certamente nociva para a civilidade. Não há outra coisa a fazer para restabelecer
a confiança mais que advertir que a justiça, tal como se pode obter pelo trabalho dos juízes
no processo, é aquele pouco de justiça que a nós pobres homens, limitados e finitos como
somos, é-nos consentida. Não há nada mais perigoso que cultivar as ilusões em torno deste
ponto fundamental do problema da civilidade.
O direito não pode fazer milagres e o processo, ainda menos. Enquanto as leis são
obedecidas, tudo vai bem, ou, ao menos, permanecem ocultos os defeitos; é a desobediência
o que os faz eclodir. O processo, tem-se dito, e o processo penal mais que nenhum outro,
descobre as contradições do direito, o qual se engenha, como pode, para superá-las. Agora
saiu à luz o contraste, em matéria da determinação da pena, entre o juiz e o legislador; aos
fins da repressão, esta determinação deveria corresponder ao juiz; aos fins da prevenção, ao
legislador. Aparece um mecanismo empírico que ata as mãos do juiz, mas não
excessivamente: a lei, em vez de uma pena fixa, estabelece pelo geral um mínimo e um
máximo, que marcam os limites da liberdade do juiz: uma espécie de liberdade vigiada; em
todo caso uma média medida, que não consegue nem resolver, nem sequer ocultar a
contradição. Mas não há nada que fazer: é a eterna antinomia entre o um e o múltiplo,
dentro da qual se debate a vida do homem.
Por esta antinomia, que o homem não é capaz de resolver, está viciado também o direito
e, sobretudo, o processo. No momento em que o juiz conseguiu dar cumprimento a seu
encargo de historiador (e temos visto as dificuldades que se opõem a seu cumprimento),
quando tem reconstruído o passado e deve adequar a este o porvir, quando pesa sobre ele
com maior gravidade a exigência da justiça, que consiste nesta adequação, no momento em
que teria necessidade a tal fim de toda sua liberdade, é aqui que a lei lhe ata as mãos,
constrangendo-o a julgar, em lugar de um homem, um fantoche. Esta situação, no momento
culminante do drama, denuncia uma vez mais a pobreza da justiça humana. Há casos, entre
outros, nos quais é claro que bastou o processo, ou melhor, aquela fração do processo que se
desenvolveu para reconstruir a história, com todos os seus sofrimentos, com todas as suas
angústias, com todas as suas vergonhas, para assegurar o porvir do culpado no sentido de que
compreendeu seu erro; e não só o compreendeu, mas que, com aquele peso de sofrimento, de
angústia, de vergonha, expiou-o, e o resto do processo, sua prolongação pela pena e com a
sua execução não é outra coisa que uma perda total para o indivíduo e para a sociedade; se o
juiz fosse livre, estes seriam os casos em que diria Jesus à adultera: “Vá e não peques mais”;
mas tem, infelizmente, atadas as mãos.
Não se deve protestar contraa lei. De acordo com isto, não se pode protestar contra a
necessidade; mas não se pode ocultar que direito e processo são uma pobre coisa e isto é,
verdadeiramente, o que se necessita para fazer avançar a civilidade.
IX

A Sentença Penal

Reconstruída a história, aplicada a lei, o juiz absolve ou condena. Duas palavras que se
ouvem pronunciar continuamente, mas cujo significado profundo é necessário descobrir.
Deveriam significar: o imputado é inocente ou culpado. O juiz deve, entretanto, escolher
entre o não do defensor e o sim do Ministério Público. Mas e se não pode escolher? Para
escolher, deve ter uma certeza, no sentido negativo ou no sentido positivo; e se não há? As
provas deveriam servir para iluminar o passado, onde antes havia obscuridade; e se não
servem? Então, diz a lei, o juiz absolve por insuficiência de provas; e o que quer dizer isso? Que
o imputado não é culpado, mas tampouco é inocente; quando é inocente, o juiz declara que
não cometeu o fato ou que o fato não constitui delito. O juiz diz que não pode dizer nada, nestes
casos. O processo se encerra com um nada de fato. E parece a solução mais lógica deste
mundo.
Bem, mas e o imputado? Que um seja imputado quer dizer provavelmente, já que não
certamente, cometeu um delito; o processo, ou melhor, o debate serve, precisamente, para
resolver a dúvida. Em troca, quando o juiz absolve por insuficiência de provas, não resolve
nada: as coisas ficam como antes. A absolvição por não ter cometido o fato ou porque o fato
não constitui delito cancela a imputação; com a absolvição por insuficiência de provas, a
imputação subsiste. O processo não termina nunca. O imputado continua sendo imputado
por toda a vida. Não é um absurdo também isto? Nada menos que uma confissão da
impotência da justiça. Mas, pode a justiça confessar-se impotente? E, entretanto, se é, não é
justa a confissão? Não seria pior se o juiz declarasse a inocência ou a culpabilidade quando
não está convencido de uma nem de outra? A sentença se resolveria numa mentira. O
processo chega, assim, a um corredor sem saída, do qual não é possível escapar. Ou mentir
ou declarar a falência: uma via intermediária não existe. E não se pode censurar nem as leis
nem os homens: assim é a necessidade e o que se pode dizer é somente que, também a este
respeito, o processo penal é uma pobre coisa; e devemos tirar dele as consequências quanto
ao comportamento a observar em relação àqueles que foram afetados.
Tanto mais grave é a deficiência, que agora se pôs às claras, enquanto o imputado não é
culpado, que a declaração de sua inocência é o único modo para reparar o dano que
injustamente lhe ocasionou. Verdadeiramente, se não cometeu o delito, significa que não
deve ser absolvido nem sequer devia ter sido acusado. Não terá existido malícia por parte de
quem suspeitou dele; terá sido um daqueles erros aos quais, infelizmente, nós, os homens,
estamos irreparavelmente sujeitos; a culpa será das circunstâncias que enganaram a polícia, o
Ministério Público, o juiz instrutor; mas, em suma, existiu um erro; a sentença de absolvição
por não ter cometido o fato ou por inexistência do delito contém não somente a declaração
da inocência do imputado mas, ao mesmo tempo, a confissão do erro cometido por aqueles
que o arrastaram ao processo. Por pouco que se reflexione, aparece claro que os erros
judiciais, ainda de grande importância, são muito mais numerosos do que se crê. Todas as
sentenças de absolvição, excluída a absolvição por insuficiência de provas, implicam a
existência de um erro judicial. As pessoas, quando ouvem falar de erro judicial, pensam no
pobre padeiro, isto é, no erro descoberto depois da condenação, durante a expiação e
inclusive quando o condenado terminou de cumprir a pena. Estes são, certamente, os casos
mais dolorosos; mas formam parte de uma série incomparavelmente mais numerosa. Com
as estatísticas nas mãos, e posto que todas as providências de absolvição se resolvem na
comprovação de um erro judicial, viriam à luz que fariam estremecer. As pessoas, quando o
juiz absolve, especialmente nos processos célebres, elogiam a justiça; e têm razão, porque é
sempre uma fortuna e um mérito dar-se conta do erro, mas, entretanto, o erro ocasionou seus
danos, e que danos! Estes danos quem os repara? Não se deve confundir, certamente, a culpa
com o erro profissional; isto quer dizer que os equívocos, que não se devem atribuir à
imperícia, à negligência, à imprudência, senão, pelo contrário, à insuperável limitação do
homem, não dão lugar à responsabilidade de quem as comete; mas é precisamente esta
irresponsabilidade a que assinala outro aspecto em demérito do processo penal. É um fato
que este terrível instrumento, imperfeito e imperfectível, expõe um pobre homem a ser levado
ante o juiz, investigado, não poucas vezes arrastado, separado da família e dos negócios,
prejudicado, para não dizer arruinado ante a opinião pública, para depois nem sequer ouvir
desculpas de quem, ainda que seja sem culpa, perturbou e em ocasiões destroçou sua vida.
São coisas que, infelizmente, sucedem; e uma vez mais, ainda sem protestar, não deveríamos
ao menos reconhecer a miséria do instrumento, que é capaz de produzir esses desastres, e que
é até incapaz de não produzi-los? Menos mal quando o erro é reconhecido relativamente
rápido, antes do debate, com a absolvição por parte do juiz instrutor ou, pelo menos, ao final
do debate de primeiro grau; mas não são raros os casos nos quais, depois de uma primeira
condenação, a absolvição chega mais tarde, ao final de uma via crucis, que não é raro que
dure alguns anos: aquele diplomático italiano, que foi acusado de ter matado a sua mulher
na Tailândia, passou quatorze anos em prisão preventiva antes que, com a absolvição
pronunciada, há tempos, pela Corte de apelação de Bolonha, reconheceu-se sua inocência.
É, pois, precisamente a hipótese da absolvição que descobre a miséria do processo penal,
o qual, em tal caso, tem o único mérito da confissão do erro. O erro do qual as pessoas não se
dão conta, e não só o público em geral, mas inclusive os expertos do direito: não conheço um
jurista, com exceção de quem vos fala, que tenha advertido que toda sentença de absolvição é
o descobrimento de um erro. Deste modo, ou por negligêcia ou por falso pudor, ocultam-se
as misérias do processo penal, que devem, em troca, ser conhecidas e sofridas a fim de que se
classifique, como se deve, a justiça humana.
Pelo contrário, quando o juiz está convencido da culpabilidade do imputado, então
condena. Mas, e se se equivocou? A ameaça do erro pende, como a espada de Damocles,
sobre o processo. Ressoa, no fundo de toda sentença, a divina advertência: “não julgueis”. A
lei faz o que pode para garantir a sentença contra o erro. Não se trata aqui de submeter a uma
crítica as medidas que a lei toma a este respeito. E tampouco descrevê-las: nós sabemos,
pouco mais ou menos, que a sentença de primeiro grau pode ser revisada pelo juiz de
apelação, e a sentença de apelação pela corte de cassação: e não seria em absoluto útil
explicar este mecanismo complicado e tampouco fazer observar seus graves e, depois de tudo,
irremediáveis defeitos. Não se deve desconhecer que, não obstante estes defeitos, o
mecanismo até um certo ponto serve para garantir o processo contra o erro: até o ponto,
aproximadamente, em que é possível; mas uma garantia absoluta não se pode dar. Também
o juízo dos juízes superiores está exposto, como o dos juízes inferiores, a este perigo, tanto
mais que se, de um lado, esses se encontram, em relação àqueles, numa posição vantajosa, de
outro lado, especialmente quanto ao juízo histórico, os meios de que dispõem são, todavia,
mais imperfeitos; basta pensar que no processo de apelação, comumente, não são
examinadas de novo as testemunhas e o juízo se forma sobre os termos, os quais não dão
nem podem dar dos testemunhos mais que uma representação mutilada, muitas vezes
deformada e até incompreensível. Entretanto, ao chegar a um certo ponto, é necessário
terminar. O processo não pode durar eternamente. É um final por esgotamento, não por
obtenção do objeto. Um final que se assemelha mais à morte que ao cumprimento. É
necessário contentar-se. É necessário resignar-se. Os juristas dizem que, ao chegar a um certo
ponto, forma-se a coisa julgada; e querem dizer que não se pode ir mais além.
Mas dizem também: res iudicata pro veritate habetur, a coisa julgada não é a verdade, mas
se considera como verdade. Em suma, é um sub-rogado da verdade.
Estas coisas, que os juristas sabem, também os demais as devem saber. Depois de tudo, é
fácil que, com aquele aparato solene da cátedra, das togas, da cela, dos penachos dos guardas
detrás do presidente, do Ministério Público que acusa, dos advogados que defendem, do
público que assiste tenso e apaixonado, aqueles que têm a ilusão de que o que sai dos lábios
dos juízes, ao final, seja a verdade. E pode também ocorrer que seja a verdade; entretanto,
ninguém o sabe; pode ser assim, mas pode também não o ser.
Em Assis, um dia, falando do preso, defini-o com estas palavras: um que pode ser culpado.
Tive a impressão de que aqueles que me escutavam ficaram horrorizados. Mas são as coisas
que se devem saber aos fins da civilidade.
X

O Cumprimento da Sentença

Como quer que seja, absolvição ou condenação, o processo termina quando o juiz diz a
última palavra.
Também esta é uma impressão, ao menos em parte, enganosa. Termina, é certo, com a
absolvição; quero dizer, quando a absolvição se converta em coisa julgada. E deixemos estar
se é justo que ocorra assim; é sempre possível que mais tarde surjam novas provas, das quais
resulte com certeza que o imputado absolvido era culpado; o porquê, neste caso, ele devia
gozar da impunidade, é algo que dificilmente se compreende; mas não é a crítica da lei o que
quero fazer desde este púlpito.
Do contrário, no caso de condenação, o processo não termina em absoluto. Quando se
trata de condenação, nunca está dita a última palavra: o imputado absolvido, ainda quando
surjam novas provas contra ele, está atualmente, bem ou mal, em segurança, mas o
condenado, em certos casos (e deixemos estar também aqui a crítica da lei, que é igualmente,
neste aspecto, muito imperfeita) tem direito à revisão, ou seja, com muitas cautelas, à
reabertura do processo.
Como quer que seja, e ainda prescindindo desta revivescência, a condenação não
significa em absoluto o final do processo: quer dizer, pelo contrário e à diferença da
absolvição, que o processo continua; somente que sua sede se transfere do tribunal para a
penitenciária. O que se deve entender é que também a penitenciária está compreendida, com
o tribunal, no palácio da justiça. Esta é uma ideia que nada tem de clara ainda na mente dos
juristas; mas deve ser aclarada no interesse da civilidade. Inclusive aqui se apresenta a nudez
do problema no terreno da civilidade.
Ocorre às pessoas, incluídos os juristas, em relação à condenação, algo de análogo ao
que ocorre quando um homem morre: o pronunciamento da condenação, com o aparato que
todos conhecem, mais ou menos, é uma espécie de funeral; terminada a cerimônia, uma vez
que o imputado sai da cela e o tomam em seu poder os guardas, continua para cada um de
nós a vida cotidiana e, pouco a pouco, no morto não se pensa mais. Sob um certo aspecto se
pode também assemelhar a penitenciária ao cemitério; mas se esquece de que o condenado é
um sepultado vivo.
Não é necessário muito para compreender que em vez de cemitério deveria ser um
hospital; mas basta ter entendido isto para descobrir o erro de quem pensa que, com a
condenação, o processo esteja terminado. A condenação, olhando-a bem, não é mais que
uma diagnose; não é também a diagnose um juízo? O médico, quando, ao final de suas
investigações, estabelece a existência da enfermidade, pronuncia também ele uma sentença, e
até uma condenação; também a ele ocorre o mesmo que ao juiz, absolver ou condenar,
conforme contemple no paciente um são ou um enfermo. Mas a quem ocorre que o médico,
com a diagnose, tenha completado seu encargo? O juiz, com a sentença de condenação, faz a
diagnose e prescreve a cura: também a cura, pois, é obra da justiça; ou é que tal trabalho deve
se suspender quando for comprovado que alguém é um delinquente sem preocupar-se em
fazer tudo quanto é possível a fim de que se converta num homem honrado?
A penitenciária é, verdadeiramente, um hospital, cheio de enfermos de espírito, em lugar
de enfermos de corpo e, algumas vezes, também do corpo; mas, que hospital tão singular! No
hospital, antes de mais nada, o médico, quando se dá conta de que a diagnose é equivocada,
corrige-a e retifica a cura. Na penitenciária, pelo contrário, está proibido de atuar assim. Não
é um hospital, onde não existem médicos nem enfermeiras: o diretor da penitenciária e os
outros, que o ajudam na direção, não estão desprovidos em absoluto daqueles
conhecimentos que possam servir para o conhecimento de seus enfermos; e muitas vezes o
atendem com inteligência, com paciência e até com abnegação. Entretanto, a estes médicos a
diagnose do juiz lhe está imposta com autoridade, precisamente, da coisa julgada; a
experiência da marcha da enfermidade não conta para nada: o juiz disse dez, vinte, trinta
anos, e dez, vinte, trinta devem ser, ainda quando a experiência demonstre que são
demasiados ou que são demasiado poucos porque, ainda antes do período estabelecido, o
enfermo recuperou a saúde ou bem, pelo contrário, o período transcorreu inutilmente.
Dizem, facilmente, que a pena não serve somente para a redenção do culpado, mas
também para a advertência dos outros, que poderiam ser tentados a delinquir e por isso deve
os assustar; e não é este um discurso que deva se tomar por chacota; pois ao menos deriva
dele a conhecida contradição entre a função repressiva e a função preventiva da pena: o que a
pena deve ser para ajudar o culpado não é o que deve ser para ajudar os outros; e não há,
entre estes dois aspectos do instituto, possibilidade de conciliação. O mínimo que se pode
concluir dele é que o condenado, o qual, ainda tendo caído redimido antes do término fixado
para a condenação, continua em prisão porque deve servir de exemplo aos outros, é
submetido a um sacrifício por interesse alheio; este se encontra na mesma linha que o
inocente, sujeito à condenação por um daqueles erros judiciais que nenhum esforço humano
jamais conseguirá eliminar. Bastaria para não assumir diante da massa dos condenados
aquele ar de superioridade que infelizmente, mais ou menos, o orgulho, tão profundamente
aninhado no mais íntimo de nossa alma, inspira a cada um de nós; ninguém
verdadeiramente sabe, no meio deles, quem é ou não é culpado e quem continua ou não
continua sendo.
Como quer que seja, ainda quando a pena deve servir para assustar os outros, deveria ao
mesmo tempo servir para redimir o condenado; e redimi-lo quer dizer curá-lo de sua
enfermidade, cujo fim se deveria saber em que consiste sua enfermidade. Aqui as coisas que
se hão de dizer são as mais simples e as mais amargas: enquanto a medicina do corpo tem
realizado progressos maravilhosos, a medicina do espírito se encontra, todavia, em um
estágio infantil. Cristo, até agora, sobre este tema, tem pregado no deserto, ao colocar o preso
junto do enfermo, e no topo da escala dos pobres. Ele disse bem claro que a delinquência é
uma forma de pobreza: ao faminto lhe falta a comida, a água ao sedento, a veste ao desnudo,
a casa ao vagabundo, a saúde ao enfermo; que é o que falta, pois, ao preso? Cristo, ao nos
convidar a visitá-lo, falou claro: a visita é um ato de amizade. É muito simples: não é o delito,
pelo contrário, um ato de inimizade? Parece impossível que o estudo do delito tenha
apresentado tantas dificuldades, e tantas complicações. Como não recordar as outras
palavras de Cristo: “te dou graças, Pai, porque estas coisas as tem revelado aos pequeninos e
as tem escondido dos sábios?” É necessário ser pequeno para compreender que o delito se
deve a uma falta de amor. Os sábios buscam a origem do delito no cérebro; os pequenos não
esquecem que, precisamente como disse Cristo, os homicídios, os roubos, as violências, as
falsificações, vêm do coração. É o coração do delinquente a que, para curá-lo, devemos
chegar. E não há outra via para chegar a ele senão a do amor. A falta de amor não se enche
mais que com amor. Amor que a nullo amato amar perdona. A cura que o preso tem
necessidade é a cura de amor.
E o castigo? A pena, embora, deve ser um castigo. De acordo; mas o castigo não é em
absoluto incompatível com o amor. O pai que não emprega a vara não ama o filho, diz-se na
Bíblia. O castigo, para um coração de pai, exige mais amor que o perdão, precisamente
porque ao castigar o filho, castiga-se a si mesmo; não há coração de pai que não sangre pelo
sofrimento do filho. O amor pelo condenado não exclui em absoluto a severidade da pena.
Sob este aspecto, por sorte, não existem antinomias no instituto da pena, mas somente uma
batalha a combater, em nome da civilidade.
A batalha não é pela reforma da lei, senão pela reforma do costume. A lei, especialmente
com as modificações mais recentes, faz pelo condenado o que pode. Não é necessário
pretender tudo do Estado.
Infelizmente, este é um dos hábitos que se vão consolidando cada vez mais entre os
homens; e também este é um aspecto da crise da civilidade. Sobretudo, não se deve pedir ao
Estado o que o Estado não pode dar. O Estado pode impor aos cidadãos o respeito, mas não
lhes pode infundir o amor. O Estado é um gigantesco robot, ao qual a ciência pôde lhe
fabricar o cérebro mas não o coração. Isso corresponde ao indivíduo ultrapassar os limites,
nos quais deve deter-se a ação do Estado. Ao chegar a um certo ponto, o problema do delito e
da pena deixa de ser um problema jurídico para seguir sendo, somente, um problema moral.
Cada um de nós está comprometido, pessoalmente, na redenção do culpado e responde por
ela. A dar-lhe, em última análise, tal consciência e a fazer-lhe sentir tal responsabilidade,
estão dirigidas estas conversações. Já desde o princípio, enquanto se desenvolve o processo
para a comprovação do delito, antes, em suma, da absolvição ou da condenação, o
comportamento de cada um de nós pode ter uma influência notável para facilitar seu curso e,
em todo caso, para diminuir os sofrimentos que o processo ocasiona. Em outros termos, cada
um de nós é um colaborador invisível dos órgãos da justiça. Mas, até a condenação, pode
bastar o respeito.
Depois da condenação não basta mais. O condenado é o pobre, por excelência, em sua
desnudez. Não há uma necessidade mais angustiosa que a necessidade do amor. É necessário
vê-los, dentro de um grosseiro uniforme com grandes listras, feito para separá-los dos outros
homens, alçar sobre nós uma olhada, na qual se expressa, ainda quando trate de se ocultar, o
sentido mortífero de sua inferioridade, para compreender o bem que pode proporcionar a eles
um sorriso, uma palavra, uma carícia. Um bem do qual num primeiro momento não se dão
conta. Ao qual inclusive podem, a princípio, tratar de resistir, mas que depois, pouco a pouco,
insinua-se sobre eles, apodera-se deles, conquista-os, suaviza-os, exprime de seu coração
sentimentos que pareciam sepultados e de seus lábios palavras que pareciam esquecidas. É
necessário ter vivido essa experiência para compreender que nosso comportamento diante
dos condenados é o indicador mais seguro de nossa civilidade.
XI

A Libertação

Finalmente, para o preso chega o dia da libertação. E, então, o processo verdadeiramente


terminou.
É dizer: o dia da libertação pode seguramente chegar; mas a condição de que se entenda a
verdadeira libertação da prisão, que é nossa finitude, e não quero tampouco dizer de nosso
egoísmo, já que basta dizer do nosso eu; a porta está sempre aberta para se evadir e não são
necessários grandes esforços a tal objeto; basta sentir o peso de nossa solidão e com ela a
necessidade do outro que está próximo, quando se sente a necessidade do outro, termina-se
por sentir a necessidade de Deus. Muitos concebem a Deus como infinitamente distante e
imaginam que é necessário para alcançá-lo um interminável caminho; mas não recordam a
resposta que Ele deu a Blas Pascal: posto que me buscas, já me encontrou. Deus está sempre
próximo do homem; o infinito está ao redor do finito; nãoé necessário mais que o
reconhecer, o que provavelmente, no cárcere, é mais fácil que fora. Uma vez reconhecido, o
cárcere se converte em uma fortaleza. Neste sentido, verdadeiramente, a libertação está ao
alcance da mão de todo condenado. Não existem nem regras nem guardiões que lhe possam
privar de se libertar. Mas não é disto de que agora quero falar. A ocasião virá dentro de pouco.
Porque se, pelo contrário, a libertação se entende no sentido físico, em lugar de espiritual,
seu dia também pode chegar. O pensamento corre agora ao ergástulo, reclusão que dura por
toda a vida: ao ergastulado a porta do cárcere não se abre a não ser para passar seu cadáver.
Isto que dizer que para ele o processo não tem fim. E posto que a penitenciária é, ou deveria
ser, um sanatório para recuperar as almas enfermas, a condenação ao ergástulo é a
declaração de que a alma do homem está perdida para sempre. O tom lúgubre destas
palavras inspira um sentido de horror; mas não para aquele a quem estão dirigidas, senão
para aquele que as pronunciou. A Corte de cassação italiana, em sessões conjuntas, que é a
mais alta expressão da justiça humana em nosso país, não só negou, há poucos meses, o
inumano do ergástulo quanto à seriedade de quem tem sustentado esse caráter inumano.
Paciência. Não há que se levantar nem se inquietar contra este juízo. Também a cassação é
um juiz, e como todos os juízes, pode equivocar-se. Infelizmente, os juízes erram tanto mais
facilmente quanto mais seguros estão de não errar. Enquanto o magistério da Igreja, se com o
processo de beatificação declara a certeza de elevação de um santo ao paraíso, não conhece
um processo dirigido a verificar o precipício de um condenado ao inferno, e os teólogos,
temerosos de escrutar o coração dos homens e mais ainda o coração de Deus, não ousam
afirmar a condenação ao inferno nem sequer de Judas, a magistratura italiana, pela voz de
seu órgão mais insigne, declarou em conformidade com a humanidade que um homem seja
condenado para toda a vida, isto é, que a pena de reclusão, como a do inferno, não tenha
nunca fim. Se fosse necessário mais uma prova da miséria do processo, a mesma nos teria
sido proporcionada.
Mas também para os reclusos não condenados ao esgástulo pode ocorrer que não chegue
o dia em que saiam vivos da prisão. Um terrível aspecto da condenação à reclusão, ainda que
por um período breve, é este de que ninguém está seguro de não morrer dentro daquele
período. Isto basta para dizer que o processo penal, o qual não cessa com a condenação
senão que segue com a expiação, pode durar até a morte. A eventualidade da morte no cárcere
é o risco mais grave do encarceramento. E não porque uma interpretação benévola da
disciplina carcerária não consinta ao moribundo o último adeus de seus entes queridos,
senão porque aquele morrer lhe trunca a esperança do retorno à sociedade humana. Esta, a
esperança de entrar de novo na sociedade humana, de despojar-se finalmente do horrível
uniforme, de assumir de novo o aspecto do homem livre, de retomar seu posto na sociedade,
é o oxigênio que alimenta o preso. Desde o momento em que entrou na prisão, esta é a razão
de sua vida. Ao privá-lo dela, está o desumano da condenação por toda a vida. O condenado
a ergátulo não tem sequer a conformação de contar os dias. E a de contar os dias é a vida do
preso.
Mas, desgraçadamente, na maior parte dos casos, também este esperar é enganoso. O
processo, sim, com a saída da prisão está terminado; mas a pena não: quero dizer o
sofrimento e o castigo.
Pode-se pensar, especialmente no tocante às condenações de longa duração, nas
dificuldades ocasionadas ao libertado do cárcere pela troca dos costumes, das relações
interrompidas, dos ambientes modificados; tudo isto não pode deixar de determinar uma
crise, que poderia também se chamar a crise do renascimento. Se não fosse por isto,
entretanto, seria pouca coisa.
Pelo contrário, na maior parte dos casos não se trata de uma crise. A questão é muito
mais grave. O preso, ao sair da prisão, crê já não ser um preso; mas nós, não. Para nós ele é
sempre um preso, um encarcerado; pelo mais, diz-se ex-encarcerado; nesta expressão está a
crueldade e está o engano. A crueldade está em pensar que, tal como foi, deve continuar
sendo. A sociedade crava em cada um o seu passado. O rei, ainda quando segundo o direito
não seja já rei, é sempre rei, e o devedor, mesmo que tenha pago sua dívida, é sempre
devedor. Este roubou, condenaram-no por isto; cumpriu sua pena, mas...
Nesse mas, dizia, está a crueldade e está o engano. Mas poderia roubar todavia; logo, eu
não lhe dou trabalho. Assim pensam as pessoas. E nada conta que, ao pensar assim, ante
tudo, em lugar de raciocinar se aparte de todo raciocínio: se pensasse, dar-se-ia conta de que
não mais o futuro depende do passado, senão o passado do futuro; se isto não fosse verdade,
negar-se-ia a redenção e inclusive a ressurreição. A fórmula do ex resulta sacrílega
precisamente por isto. Mas os homens, que o veem tudo ao revés, continuam sendo
persuadidos de que cada um seguirá sendo como tem sido; e não as pessoas comuns
somente, como também os homens de grande cultura, e inclusive aqueles que fazem
profissão de cristianismo. De qualquer maneira, e ainda que este fosse um pensar raciocinar
justo, esqueceriam eles que, quando se chega a um certo ponto, não basta raciocinar; a razão
é necessária; mas não é suficiente. Se não existisse mais que a razão, não existiria a caridade.
A caridade, essencialmente, é loucura. Se São Francisco houvesse raciocinado, nunca teria
beijadoo leproso, com o risco de contrair o contágio. Certamente, isso de tomar a seu serviço
um ex-ladrão no próprio estabelecimento ou na própria casa é um risco: poderia estar, mas
também poderia não estar curado. O risco da caridade! E as pessoas razoáveis tratam de
evitar os riscos. In dubiis abstine. Assim o ex-ladrão fica sem trabalho. Chama a esta porta;
chama àquela outra: são todas pessoas justas as que poderiam dar-lhe o meio de ganhar o
pão. Estas pessoas justas querem ficar garantidas; para sua garantia não se instituiu a certidão
criminal? Fora, pois, a certidão criminal! O ex-ladrão, assim, está marcado na face: quem
haverá de lhe dar trabalho? Ah, as ilusões do cárcere, quando se contavam ansiosamente os
dias que faltavam para a libertação!
O Estado? O Estado é também um ser racional. Quando se trata de proclamar os
princípios, especialmente no regime de democracia, o Estado é o primeiro a dar o exemplo:
“o acusado não é considerado culpado enquanto não seja condenado por sentença
definitiva”; “Itália é uma República fundada sobre o trabalho”; “A República tutela o trabalho
em todas as suas formas”. Mas quando se trata de tutelar seus interesses, também o Estado
franze a testa. Um empregado público está sob a suspeita de ter-se apropriado dos fundos do
erário e é submetido ao processo penal; pode ocorrer que não seja certa; pode também se
tratar de pouca coisa; pode ser que tenha as obrigações de família, nos tempos que correm,
numa situação desesperada.
Pode ser, mas a lei é a lei; enquanto isso, suspenso do emprego e do salário até a sentença
definitiva; a Constituição o considera, todavia, inocente, mas um inocente que já não tem o
direito de ganhar o pão. Segue-se o processo e se lhe infligem três anos de reclusão; se este é
seu castigo, uma vez transcorrido, deveria voltar a ser aquele que era antes; ao contrário, não:
o emprego fica definitivamente perdido; para ele, a saída do cárcere é o princípio ao invés do
final de um calvário. Um mestre, afetado por uma condenação, não pode voltar a trabalhar
como mestre, depois de tê-la cumprido. Um capitão de barco, saído da prisão, não pode
voltar a exercer nunca sua profissão. Não são exemplos inventados; tomei os três de minha
experiência mais recente. Ademais, não teria nem sequer necessidade deles, porque se trata de
coisas mais que sabidas por todos: quem ignora que para aspirar a um emprego público é
necessário que a certidão criminal seja limpa?
E nem sequer se pode discutir que esta é a exigência mais razoável deste mundo. Nem
que, se o Estado se comporta assim, os cidadãos não têm razão para imitá-lo. Só, em termos
de razão, igualmente se deve reconhecer que isso do preso, que conta os dias sonhando com
a libertação, nada mais é que um sonho; serão necessários muito poucos dias depois que a
porta da prisão seja aberta para acordá-lo. Então, infelizmente, dia-a-dia sua visão do mundo
se inverte: no fim das contas, estava melhor na prisão. Este lento despojar-se de sua ilusão,
esta troca de posições, este desgostar-se do que ele pensava ser a liberdade, este retornar do
pensamento à prisão, como aquela que é, atualmente, sua casa, descreve-se magnificamente
num conhecido romance de Hans Fallada; mas as pessoas não devem crer que sejam
situações criadas pela fantasia do escritor: a invenção corresponde, infelizmente, à realidade.
E tampouco aqui, devemos dizê-lo uma vez mais, quer-se protestar em absoluto contra a
realidade. Basta conhecê-la. O resultado de a ter conhecido é este: as pessoas creem que o
processo penal termina com a condenação, e não é verdade; as pessoas creem que a pena
termina com a saída do cárcere, e não é verdade; as pessoas creem que o ergástulo é a única
pena perpétua e não é verdade. A pena, se não propriamente sempre, em nove de cada dez
casos não termina nunca. Quem pecou está perdido. Cristo perdoa, mas os homens não.
XII

Fim: Mais Além do Direito

Talvez agora, ao final destes colóquios, tenha-se compreendido mais claramente, do que
podia compreender-se no princípio deles, o valor que tem a questão penal para a civilidade.
Civilidade, humanidade, unidade são uma só coisa: trata-se da possibilidade alcançada
pelos homens de viver em paz. Todos nós temos um pouco da ilusão de que os delinquentes
são os que perturbam a paz e de que a perturbação pode eliminar-se, separando-os dos outros;
assim, o mundo se divide em dois setores: o dos civis e o dos incivis; uma espécie de solução
cirúrgica do problema da civilidade. Aqui a ideia se expõe, como ocorre sempre quando se
trata de simplificar a expressão, em termos paradoxos, mas não seria difícil demonstrar que a
ideia corresponde exatamente ao modo de pensar comum, empírico, científico e até
filosófico.
Está bem: como se faz para distinguir os incivis dos civis? O único meio para distinguir é
o juízo; e é necessário fazer a experiência amarga do juízo penal para começar a compreender
a advertência de Jesus. Infelizmente, quase todas as palavras de Jesus são, todavia,
incompreendidas. Essas palavras estão demasiado carregadas de pensamento para que nós,
pobres homens, possamos apreciá-las. Elas nos deslumbram como quando se trata de olhar o
sol. Os intérpretes teriam o ofício de decompor a luz em um arco-íris; mas são eles, ao final
de tudo, pobres homens também. Certamente entre as proposições do Evangelho uma das
mais paradoxas é o nolit iudicare. Todo o ordenamento do direito, cuja essência é o juízo, e do
processo em particular, parece que contradiz essa proposição. É natural que aqueles
pensadores, que se negam a reconhecer algum valor jurídico no Evangelho, encontrem na
desvalorização do juízo seu mais firme ponto de apoio. Mas bastaria um pouco de
conhecimento penal prático para corrigir suas ideias. Tem-se dito que o processo é aquele
instituto no qual se manifestam todas as deficiências e as impotências do direito; pode-se
agregar que o penal é a espécie que expõe melhor de manifesto as deficiências e as
impotências do processo. À medida que a experiência do processo penal se aprofunda e se
afina, passa-se a apreciar, no esplendor alucinante da advertência divina, as linhas da
verdade. Motivo pelo qual, a meu ver, devo a essa advertência o milagre de ter renascido.
Como se faz, pois, para distinguir os incivis dos civis por meio do frágil juízo humano? A
primeira coisa que ensina a experiência penal é que a penitenciária não é diferente em
absoluto do resto do mundo, tanto no sentido de que a penitenciária é um mundo, como no
sentido de que também o resto do mundo é uma grande casa de pena. Isso de que dentro da
penitenciária existem somente infames, e fora delas, somente homens honrados, é uma
ilusão; ou que um homem possa ser completamente infame, ou toda pessoa decente.
Oralmente, o processo penal, entendido em seu mais amplo sentido, compreensivo do
tribunal e da detenção, é a mais eficaz entre as escolas de psicologia; e, por que não também
de filosofia? É este também um ensinamento de Jesus, o qual não desdenhava sentar-se no
mesmo banco com os publicanos e com as meretrizes; foi uma meretriz que, na casa de
Simão, o fariseu, procurou-o na alegria de sua generosidade, de sua devoção, de suas
lágrimas; e foi um ladrão quem, enquanto um ou outro sofria sobre a cruz, espargiu o
bálsamo de uma palavra de misericórdia sobre seu coração transpassado.
Com isto, não se nega a necessidade de separar, já nesta vida, para usar, todavia, termos
evangélicos, as ovelhas dos cabritos, os bons dos maus. Jesus mesmo reconheceu a
necessidade da lei e do Estado; mas toda necessidade é uma insuficiência. Nestes colóquios,
não se tem desejado desconhecer que o direito, do processo, do tribunal, da penitenciária,
não podemos prescindir; sem eles, infelizmente, os homens seriam, contudo, piores do que o
são. O prejuízo, por não dizer a superstição, contra a que se tem combatido, não é que o
direito seja necessário, mas sim que o direito seja suficiente.
Desta superstição, infelizmente, está impregnado o pensamento moderno. Também este
é um dos aspectos da crise da civilidade. Tudo se pede e tudo se espera do Estado, ou seja, do
direito, não porque Estado e direito sejam a mesma coisa, mas sim porque o direito é o único
instrumento do qual, em última análise, o Estado pode se servir. Se é verdade que cada fase
da civilização tem seu ídolo, o ídolo da que estamos atravessando é o direito. Temo-nos
convertido em adoradores do direito. Agora bem, não existe uma experiência tão idônea
como a experiência penal para se apartar desta idolatria. As misérias do processo penal são
um aspecto da miséria fundamental do direito. Se tratei de apontá-las, o sentimento que me
guiou não foi o de desacreditar uma instituição, à qual dediquei toda a minha vida, senão o
de pôr cuidados na sua apreciação exagerada. Não se trata de desvalorizar o direito, mas sim
de evitar que seja supervalorizado. Em suma, de desenganar o público em geral a respeito
deste ponto: que basta ter boas leis e bons juízes para alcançar a civilidade.
No final de contas, o que o direito poderia obter, ainda quando fosse construído e
manobrado do melhor modo possível, é que os homens se respeitem uns aos outros. Mas o
respeito não faz desaparecer a divisão; e é está a que se tem de superar. Embora os homens se
julguem, permanecem divididos. O respeito, em última análise, resolve-se no meu e no teu; e
também o juízo tende a esta divisão. Juízo e respeito, ainda quando não o pareça, são termos
correlatos. Quando o ex-ladrão se apresenta a minha porta, não lhe falto com o respeito se
lhe respondo que não há trabalho para ele. A ilusão, e até a superstição que há que
desarraigar, é a de que, ao fazer assim, eu seja um homem civil. É necessário habituar-se a
estabelecer a diferença entre o homem jurídico e o homem civil.
“Mais além do direito” é a expressão da civilidade. Também neste caminho, que se abre
mais além do direito, é Cristo quem nos guia. Mais além do direito ou mais além do juízo,
mais além do juízo ou mais além do pensamento, é a mesma coisa. Cristo não se limitou a
dizer: não julgueis; o relato de São João a este respeito completa o relato de São Mateus; “não
julgueis” é o preceito negativo de seu ensino, “ama-os como eu os tenho amado” é seu
aspecto positivo. Mais além da justiça dos homens está a caridade; justiça e caridade são um
todo somente em Deus. Mais além do respeito está o amor; o amor, somente, une.
Mas é necessário reconhecer que aos homens não é mais fácil amar que julgar: frágil é
em nós o juízo, mas frágil também o amor. Se não houvesse existido esta debilidade, Cristo
não teria tido razão para vir sobre a Terra. Na melhor das hipóteses, cada um de nós tem no
coração uma dose mínima de amor. Cada um de nós é um pavio luminoso; antes que nos
outros, é em nós onde a chama deve ser reavivada. Cristo tem ensinado que os pobres vieram
ao mundo para isto. Quando, no discurso do juízo final, identificou-se com eles, dizendo que
o bem que se faz ao faminto, ao sedento, ao desnudo, ao peregrino, ao enfermo, ao preso, faz-
se a Ele, identificou no pobre um enviado de Deus. Enviado a que fim? Ao fim, precisamente,
de nos ensinar a amar.
O viajante pelo caminho de Jericó foi agredido, depredado e golpeado pelos ladrões, na
divina economia da história, para que o samaritano provasse nele sua compaixão, de igual
maneira Maria Bailly estava agonizando ante a gruta de Massabielle a fim de que Aléxis
Carrel abrisse sua mente à onipotência de Deus. A compaixão é o prelúdio do amor.
Também na pobreza se manifesta a diversidade, sirene do mundo: o discurso sobre o
juízo final a classifica, precisamente, em seis espécies diversas. Entre estas, a pobreza do preso
é sem dúvida a que menos parece reclamar a caridade. O preso, tem-se de admiti-lo, repugna
como o leproso. A sua é uma pobreza oculta, em comparação com a do pobre e com a do
enfermo; segundo uma observação superficial, ninguém chama pobre a um malvado. A coisa
muda de aspecto quando a observação se faz mais profunda e descobre no malvado um
necessitado de amor. Tal é o descobrimento que permite fazer a experiência penal. E é um
descobrimento fundamental para nossa salvação. Vêm à luz, assim, as raízes da pobreza e da
caridade.
Quando, por meio da compaixão, chega-se a reconhecer no pior dos presos um homem,
como eu, quando se dissipou aquela névoa que me permitia crer ser melhor que ele; quando
senti pousar também sobre meus ombros a responsabilidade de seu delito; quando, há anos,
numa meditação da Sexta-feira Santa, diante da Cruz, senti gritar dentro de mim: “Judas é teu
irmão”, então compreendi não só que os homens não se podem dividir em bons e maus,
senão que tampouco se podem dividir em livres e presos, porque há fora do cárcere
prisioneiros mais prisioneiros dos que estão dentro dele, e os há, dentro do cárcere, mais
livres quando estão na prisão do que os que estão fora. Presos, estamos todos, mais ou
menos, entre os muros de nosso egoísmo; quiçá, para evadir-se, não há ajuda mais eficaz que
a que nos podem oferecer aqueles pobres que estão materialmente fechados dentro dos muros
da penitenciária. Uma vez mais tem razão o padre Charles: “Quem pensa em dar graças,
senão o rico, quando dá uma esmola ao pobre que a pede?” Nunca teria acreditado quando,
ainda quase uma criança, passei a frequentar o processo penal, que teria de receber dele tanto
bem.
Depois de tudo, não é mais que um ato de gratidão o que realizei com estas
conversações. Não se pode receber tanto bem sem tratar de dar também parte dos outros.
Cada vez mais me convenço de que aquele que me levou a conhecer as coisas, que tratou de
explicá-las, foi um privilégio. Trata-se, para mim, de pagar a dívida contraída ao receber este
privilégio. Disse um singular poeta espanhol que “somente a moedinha da alma se perde se
não se dá”. Os tesouros da matéria se guardam, mas os do espírito se consomem trancando-
os num cofre. Agora, ao despedir-me de vocês, sinto-me mais leve.

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