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CAPÍTULO 1

CONCEITOS GERAIS

101. Formação Global Militar

Os grandes progressos tecnológicos do armamento e a sua crescente automa-


tização verificados nas últimas décadas e dados a conhecer ao grande público
através dos Órgãos de Comunicação Social que cobriram, exaustivamente, os
conflitos mais recentes, aliados à grande diversidade de missões que caracterizam
os Exércitos modernos, os quais, por via disso, exigem, cada vez mais, pessoal
altamente especializado, podem facilmente levar-nos a crer numa progressiva e
acentuada subalternização da componente física da preparação militar em paralelo
com a crescente importância da sua preparação técnico/táctica. Puro engano. Ao
combatente isolado no moderno campo de batalha, em condições de grande
insegurança e submetido a um stress extremo, continua a exigir-se um
empenhamento moral, físico e psíquico total.
Hoje, como dantes, o valor dos Exércitos assenta, primordialmente, no valor dos
seus soldados, entendido como a sua aptidão geral militar que mais não é do que
a resultante da interacção de qualidades psicomotoras, sociais, culturais e éticas
as quais, concorrentes com os aspectos técnico e táctico, definem no seu conjunto
a aptidão para o desempenho das diferentes missões que lhe podem ser confiadas,
nomeadamente a aptidão para o combate.
Daí que a “Formação Militar” deva integrar aqueles aspectos e qualidades,
aglutinados nas suas três vertentes fundamentais (técnico-táctica, moral/cívica e
física), igualmente importantes e, por isso mesmo, figurativamente representadas,
por cada um dos lados de um triângulo equilátero.
A Educação Física, racionalmente conduzida, contribui para o desenvolvimento,
não só do valor físico do indivíduo como também das suas qualidades de carácter
e do seu valor moral, concorrendo, assim, para completar a sua formação
profissional.
É por isso que a Educação Física Militar (EFM), entendida como o conjunto das
actividades físicas e desportivas praticadas no seio do Exército, se constitui num
elemento chave da formação global militar e, em última instância, no valor
operacional de qualquer Unidade.

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102. Conceito de Aptidão Física

Definimos, no parágrafo anterior, a aptidão geral militar como um somatório de


qualidades que se interrelacionam e que, associadas à aptidão técnico/táctica
definem, no seu conjunto, a aptidão para o combate.
Com efeito, a análise do comportamento do militar em combate, instrução e
muitas outras situações de serviço, evidencia que não existe uma compartimentação
entre essas qualidades e aptidões.
Daí que a aptidão física, para o militar, signifique um conjunto de qualidades
físicas, psicológicas, sociais e culturais que, assentes na prática permanente do
exercício físico e influentes na estruturação do seu comportamento motor, se
consideram indispensáveis ao desempenho das diferentes missões que lhe podem
ser confiadas.

103. Conceito de EFM

A noção de EFM tem sido frequentemente entendida como o conjunto das


actividades físicas praticadas no seio do Exército, as quais, associadas à instrução
técnica e táctica, visam a preparação para o combate.
No entanto, pensamos que ela não deve assumir, apenas, esse aspecto utilitário,
mas continuar a ser, quer para os cidadãos confiados temporariamente ao Exército,
quer para os seus Quadros Permanentes (QP), elemento fundamental do seu
processo de formação.
Na verdade, reduzir a EFM ao seu aspecto prático de preparação para o combate,
conquanto que isso constitua o objectivo prioritário, equivale a restringir a sua
área de intervenção.
Assim, definimos a EFM como o conjunto de actividades inseridas no Sistema
de Instrução do Exército (SIE) que visam contribuir para preparar física, psíquica,
social e culturalmente os militares, numa perspectiva de formação global do
homem, e que, concorrendo para o fortalecimento do seu moral, tornam-os mais
aptos para o desempenho das missões que lhes possam vir a ser confiadas.

104. Objectivos da EFM

Por tudo o que foi dito, e sem esquecer que o Sistema de Educação Física Militar
(SEFM) se integra no SIE, estabelecem-se os seguintes objectivos para a EFM:
• Conferir aos militares a aptidão física necessária para o cumprimento das
diversas missões que lhes podem ser atribuídas;
• Contribuir para o desenvolvimento do espírito de equipa e do valor moral dos
militares;
• Promover a valorização contínua da cultura física dos militares e a formação
dos seus Quadros;

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• Promover e incentivar a ocupação dos tempos livres através da prática de
actividades físicas, designadamente do desporto de recreação e de competição,
como forma de aperfeiçoamento da aptidão física.

105. Actividades no âmbito da EFM

Para alcançar os objectivos atrás referidos, individualizam-se as seguintes


actividades:
• ENSINO – Tem por objectivo a formação dos Quadros;
• TREINO FÍSICO (TF) – Conjunto de actividades que têm por objectivo a
preparação física segundo um programa pré-estabelecido;
• TREINO FISICO GERAL (TFG) – Visa o desenvolvimento e a manutenção
das capacidades psicomotoras de uma forma geral;
• TREINO FÍSICO ESPECÍFICO (TFE) – Visa a aquisição das capacidades
psicomotoras específicas de uma determinada modalidade desportiva;
• TREINO FÍSICO DE APLICAÇÃO MILITAR (TFAM) – Conjunto de actividades
visando a aquisição, o desenvolvimento e a manutenção de determinados gestos,
técnicas e capacidades psicomotoras preparatórias para o combate;
• COMPETIÇÕES DESPORTIVAS (CD) – Conjunto de actividades desportivas
revestindo a forma de competição organizada, com elevado valor educativo;
• RECREAÇÃO – Conjunto de actividades praticadas na base do voluntariado
e com um espírito essencialmente não competitivo, numa perspectiva de melhoria
e manutenção da condição física, constituindo, a par disso, excelente meio de
ocupação dos tempos livres.
• AVALIAÇÃO – Conjunto de actividades que visam:
• Assegurar que da prática das actividades físicas não resulta perigo para a
saúde dos praticantes;
• Verificar se com a aplicação dos programas se atingem os níveis de exigência
fixados;
• Certificar que todas as actividades se desenvolvem na via da prossecução
dos objectivos definidos;
• Investigar os desajustamentos, definir responsabilidades e introduzir os
necessários elementos correctores;
• Possibilitar que os militares se certifiquem dos seus progressos.

• RECUPERAÇÃO – Conjunto de actividades que têm por objectivo conferir


condição física aos militares que, por várias razões, a tenham perdido, facto
comprovado através dos resultados das PROVAS DE APTIDÃO FÍSICA (PAF).
A decisão sobre as acções a tomar exige a colaboração estreita entre o Oficial
de Educação Física e o Médico da Unidade/Estabelecimento/Órgão (U/E/O)
onde os referidos militares prestam serviço.

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106. Princípios orientadores
A prossecução dos objectivos enunciados subordina-se aos seguintes princípios
orientadores:
• Princípio da Totalidade ou da Globalidade
A EFM respeita o princípio geral da Educação Física ao serviço da formação
global do homem.
Por isso, com a prática da EFM, pretende-se cultivar, para além das qualidades
físicas, qualidades de carácter, como sejam o gosto pela acção e o desejo de
vencer; pretende-se, também, em especial com a prática dos desportos, educar
o indivíduo no aspecto social, incutindo-lhe o espírito de que não há desporto
sem «desportivismo», respeito pelas regras e pelas decisões dos árbitros, pelos
adversários e companheiros de equipa, pelo trabalho colectivo em detrimento
do esforço individual.
Por outro lado, tal princípio impõe, igualmente, que não sejam descurados
aspectos de saúde (incentivando-se o controlo médico-fisiológico), de higiene
(pessoal, do equipamento, alimentar) e das infra-estruturas.
Daí que, repete-se, deva ser dada à EFM a mesma atenção e importância que
às restantes componentes do SIE, pois faz parte integrante deste, devendo, por
isso, ser organizada e controlada com o mesmo desejo de eficácia.
• Princípio da Objectividade
A prática da EFM é obrigatória para todos os militares do serviço activo, os
quais, periodicamente, deverão ser submetidos a um controlo, em que lhe
serão exigidos mínimos de condição física, fixados em tabelas elaboradas
tendo em conta o sexo e o grupo etário.
Ainda em obediência ao mesmo princípio, o presente Regulamento, para além
de uma clara indicação dos objectivos a atingir em cada fase da instrução e dos
meios mais adequados para os alcançar, refere concretamente, para cada método/
/técnica utilizada, quais as principais capacidades psicomotoras a desenvolver.
• Princípio da Progressividade/Complementaridade
Quanto ao primeiro aspecto, ele manifesta-se, fundamentalmente, durante a
instrução militar, através da aplicação de cargas de treino progressivamente
mais intensas e complexas, embora garantindo uma interligação coerente e
evitando-se soluções de continuidade entre as suas fases.
Mas, da aplicação deste princípio não decorre a obrigatoriedade linear de um
aumento progressivo dos níveis de exigência em aptidão física dos militares ao
longo de todo o período da sua permanência na organização. Reconhece-se,
antes, que há um ponto alto nas possibilidades de cada um, o qual é atingido,
conforme a especificidade do esforço ou da capacidade, num determinado
nível etário.
Assim, de certo modo, e a partir de determinado escalão etário, o princípio da
progressividade como que será ajustado e resultará num princípio de continuidade
(ou manutenção).
No que concerne à vertente complementaridade ao presente princípio, ela resulta
do reconhecimento de que a aptidão física, tal como atrás se disse, deve
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concorrer, em paralelo com as restantes componentes do SIE, para a “forma-
ção global militar”.

• Princípio da Qualidade
Passa pela melhoria da qualidade dos Quadros que a ministram, do seu grau
de adesão, do entusiasmo e exemplo que transmitem aos Instruendos; da constante
melhoria dos meios postos à sua disposição; da revisão periódica dos objectivos
e dos conteúdos dos cursos e dos estágios e dos níveis de exigência das provas
de controlo; finalmente, do apoio constante à participação de todos.

• Princípio da Segurança
Trata-se de um princípio base das sessões práticas de EFM pelo que deve
constituir uma preocupação constante de todos os elementos da Equipa de
Instrução (EqInstr).
Ele garante-se através da rigorosa observância de determinadas regras e princípios
fundamentais, uns de ordem geral (como, por exemplo, a verificação prévia do
estado do material, equipamento e obstáculos ou a judiciosa distribuição dos
elementos da EqInstr para poderem prestar uma pronta e eficaz ajuda) e outros
específicos porque dizem apenas respeito a determinadas técnicas ou exercícios.

• Princípio da Adequabilidade
A aplicação deste princípio passa, necessariamente, pela adequação das sessões
de EFM, em especial as de TFAM, à futura especialidade (função) dos
Instruendos, nomeadamente com a introdução de determinadas técnicas e cargas
de treino mais intensas nas especialidades combatentes ou nas Forças Especiais.
Também em obediência ao presente princípio, as sessões de preparação de
uma equipa para a competição devem ser adequadas ao tipo de esforços específicos
da respectiva modalidade.
De igual modo as sessões de TF destinadas à manutenção da condição física
devem ser adequadas ao escalão etário e ao sexo dos praticantes.

• Princípio da Oportunidade
Entendido como o da máxima eficiência aos menores custos. Esta preocupação
assume a sua maior pertinência se tivermos em consideração que a preparação
física e psicológica do militar assume, em alguns casos, o nível de exigência
de uma preparação para a alta competição desportiva.
Daí que a prática das actividades de EFM não se coadune com a impreparação
dos seus agentes; o cumprimento dos objectivos enunciados só será conseguido
com especialistas de EFM competentes e colocados nos lugares mais adequados
ao cabal desempenho da sua missão.

• Princípio da Continuidade ou da Manutenção


Como corolário dos princípios da objectividade e da progressividade/
/complementaridade enunciados, todo o militar, durante a sua permanência
nas fileiras, deve procurar manter uma boa condição física através da prática
regular de exercícios físicos e desportos.
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Para o efeito, torna-se necessário que a todas as U/E/O sejam facultados
meios humanos e infra-estruturas (próprias ou de um Centro de Apoio de
EFM) e tempo para as frequentarem com assiduidade.

• Princípio da Motivação
A EqInstr, através da sua competência técnica, gosto pela actividade e dinamismo,
deve tornar as sessões de EFM motivantes para os Instruendos à sua
responsabilidade.
De igual modo, as sessões de EFM destinadas à manutenção da condição
física de todo o pessoal que presta serviço nas U/E/O devem, tanto quanto
possível, ser ministradas por especialistas e de ir de encontro às preferências
da maioria.

• Princípio da Credibilidade
A aplicação deste princípio começa por reconhecer ao TF o estatuto de ciência
já que:
• Orienta-se por normas e regras pedagógicas fundamentadas em princípios
biológicos universalmente aceites;
• Possui uma metodologia baseada na investigação e experimentação sobre o
comportamento do homem em esforço;
• Adopta uma terminologia específica com conceitos de conteúdo e significado
precisos;
• Apoia-se numa acção sistemática, progressiva, contínua e regular visando
estabelecer, pelos seus efeitos, uma adaptação do indivíduo às condições
que lhe são impostas pela competição ou, no caso concreto dos militares, o
combate.

Por outro lado, pressupõe que o currículo dos cursos ministrados no Centro
Militar de Educação Física e Desportos (CMEFD) seja adequado, nos conteúdos
e respectivas valências, aos correspondentes do ensino civil, por forma a assegu-
rar-se o reconhecimento externo da instrução nele ministrada e dos especialistas
que forma.
Mas, a credibilidade da EFM passa, também, por garantir que todas as sessões
sejam conduzidas por pessoal devidamente habilitado e preparado para o efeito.

107. Acção do Comando


Torna-se evidente que, sem uma eficiente acção do Comando, a todos os níveis,
o SEFM não funciona e, por consequência, a EFM não pode atingir os objectivos
que se propõe.
Tal acção visa a motivação de todo o pessoal sob o seu Comando e traduz-se por
um conjunto de procedimentos que vão desde o exemplo («quando o Coronel
treina todo o Regimento pratica desporto») à incentivação da Formação Contínua
e da participação nas CD, à correcta gestão do pessoal especializado, à adequada
atribuição dos meios, à inspecção da instrução, à execução do controlo, à
implementação de horários convenientes que possibilitem a prática da Educação
Física (EF) a todo o pessoal, tudo isso assente numa organização eficiente.

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