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HISTÓRIA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA

CAPÍTULO I
A CRISTANDADE EUROPÉIA E A ESPANHA NA ÉPOCA DO DESCOBRIMENTO

INTRODUÇÃO
A finalidade deste capítulo é situar o estado religioso-sócio-político,
especialmente da Espanha. Faremos uma apresentação sumária, quase
esquemática do projeto político-religioso da Idade Media; o espírito que
animou os missionários na primeira parte da evangelização na América
Latina; a situação da igreja espanhola quando do encontro com os povos
que habitavam o continente americano; as expectativas, enfim, este
capítulo quer introduzir-nos na História da Igreja na América Latina.

O PROJETO POLITICO-RELIGIOSO MEDIEVAL


A Idade Média foi caracterizada pelo universalismo da cristandade. O
cristianismo funcionou como uma base teórica do império medieval, unindo
os homens numa mesma fé. A expressão máxima foi o Sagrado Império
Romano Cristão. Dentro do império medieval destacavam-se duas pessoas:
o imperador e o papa. A finalidade de ambos era a mesma (espiritual),
distinguiam-se somente suas funções. O que diferenciava o homem
medieval era sua função. A função do imperador era defender a fé, a do
papa era conservar o projeto.
Neste período, a igreja romana emanou a bula “Unam sanctam”, com a
teoria das duas espadas. As duas espadas simbolizariam os dois poderes:
temporal e espiritual. Ambos os poderes pertenceriam ao papa, que
concede o poder temporal ao imperador. As intenções são evidentemente
hierocráticas, e a finalidade seria conservar a unidade da fé e da
cristandade.
A ideologia hierocrática esteve muito presente dentro da Cúria Romana
e certamente os teólogos e canonistas influenciaram decididamente na
formulação da bula. Alguns exemplos: Egídio Romano (+ 1316) defendia o
agostinismo político: a plena legitimidade política se dá somente quando é
sobrenatural, segundo Egidio; Jacobo de Viterbo (+ 1308): “Sem fé não há
poder absolutamente verdadeiro. Não digo que não exista em absoluto e
que seja nulo ou totalmente ilegítimo, mas que não é autêntico nem
perfeito”; Álvaro Pelayo (+ 1350): o papa seria um “Dominus orbis”.

ELEMENTOS ESTRANHOS
Dentro da concepção de cristandade, alguns elementos vão aparecer
estranhos, ou seja, não tem espaço dentro da “cidade cristã”. A
mentalidade medieval sacralizava as estruturas temporais. Assim sendo, o
exercício da atividade humana recebe sua legitimidade constitutiva por uma
cristificação e eclesialização. Como conseqüência, tudo o que não é cristão
não tem espaço dentro da cidade humana. Os infiéis não tem personalidade
jurídica (plena).
A denominação é comum: infiéis. Até a época dos descobrimentos os
únicos conhecidos são os tártaros, os judeus (deicidas), os mahometanos
(invasores sacrílegos). Portanto, o estado de guerra é constante, “guerra
santa”. O cristianismo medieval os odiava.
Na expansão até a África, o homem medieval acreditou ou fingiu
acreditar que a negritude era uma prolongação do islamismo. Como
conseqüência, os sarracenos, pagãos e outros infiéis e inimigos de Cristo,
podem ser escravizados, quaisquer que sejam e onde quer que se
encontrem.
Os hereges eram outra classe estranha à cristandade. Eram
movimentos de caráter religioso que se desdobravam em sistemas anti-
sociais ou fenômenos anárquicos que assumiam formas religiosas. Nem a
idade media nem a Espanha conheceram a idolatria, que segundo a época
seria a atitude religiosa mais aberrante. Os espanhóis a encontrarão
posteriormente na América.
Outro elemento estranho à cristandade é a intolerância. Este foi um
ideal violentamente defendido. Trata-se de um efeito político da unidade da
fé, da unidade européia (orbis christianus). A violência não partiu da igreja.
Há uma concepção “pagã”do espaço cristão: “Pontifex Maximus”. Todo
estado tem um fundo de instituições com um elemento moral. Tem direito
de tutelar essas instituições. O que ocorre quando a sociedade
homogeneamente católica e a vê ameaçada? Simplesmente não a tolera.
Para o espírito da época não se entendia que Deus não tivesse defensores.
Todos acreditavam nisso e por isso eram intolerantes.
UMA NOVA ÉPOCA
Justamente quando os espanhóis chegavam ao novo mundo, uma nova
época surgia na vida européia: o renascimento. Poderíamos dizer:
humanismo e renascimento. As características principais deste novo tempo
é a desagregação das formas medievais, teocêntricas e universalistas. O
“sinal”é a mudança gradual, exceto no campo religioso. Há ruptura do
universalismo, passagem para o subjetivismo. Os homens caminham para
um nacionalismo: este passa a ser razão de estado. Tem-se outra visão
antropológica: é o antropocentrismo – o que conta é o homem, e daí vem o
termo “humanismo”. Sufoca-se o sentido de interdependência: o egoísmo. A
teologia não a suprema referência. Socialmente as conseqüências são no
sentido de desvertebração do sentido comunitário e eclesial. Resumindo: o
renascimento foi um movimento leigo, antropocêntrico que consagrou a
ruptura das vinculações religiosas e metafísicas.
A nova época trouxe uma nova visão sócio-política. As cidades passam
a ser o motor de desenvolvimento social. Traz uma cultura poderosa, com
um crescente poder político. O sistema feudal desaparece e está aberto o
campo para a aparição de uma nova classe social: a burguesia. O
nacionalismo é outra característica acentuada. Desde o século XIII foi a mais
poderosa força anti-papal. Desdobrar-se-á, posteriormente, no imperialismo-
colonialismo. A força política é do príncipe.
A SOCIEDADE ESPANHOLA DA EPOCA DOS DESCOBRIMENTOS
O ano de 1479 foi decisivo para a história da Espanha. Houve a fusão
pessoal de Aragão e Castilha. Como nação, a Espanha tornou-se forte. O
significado deste fato é que o novo mundo terá este rei como cabeça.
A Espanha contava com 8 milhões de habitante. 500.000 judeus que
são expulsos em 1492; um milhão de mudejares. Oitenta por cento da
população vivo nos campos. Existem 75.000 eclesiásticos que corresponde
a 1% da população. Dois a três mil pertencem ao “alto clero”. Os
aristocratas são em numero de 115.000, cerca de 2% da população; 2 a 3%
possuem 97% do solo espanhol.
Todavia, deparamo-nos com uma Espanha que tem seu tesouro fraco. O
tesouro real tinha-se esgotado desde os tempos de Colombo. A recuperação
das terras das mãos dos árabes custou caro. No início do XVI a economia
está em profunda crise. É uma nação faminta de bens. Deve satisfazer os
prazeres da aristocracia local; precisa auxiliar as demandas da expansão
colonial.
Que pensar disso? Pobre península! Em seu solo vivem em
superabundância uma legião de padres, guerreiros, nobres e mendigos. A
nação está dividida. Todos os carregamentos de metais preciosos iam para
os agiotas alemães, genoveses, flamengos e mesmo espanhóis. Assim,
tornou-se imperioso aumentar as explorações no novo mundo, tão logo
chegaram. Apenas um exemplo: em 1531 são produzidos para a Espanha,
489 kg de ouro; apenas dois anos depois (1532 é o ano do ingresso no Peru)
seria aumentada para 5.369 kg de ouro e 183 kg de prata. A frase que se
dizia então era: “A Espanha tinha a vaca, mas outros lhe mamavam o leite”.
A aristocracia
Resumiam-se em 50 famílias unidas por complicados vínculos de
sangue. Tinham força paralela à do rei. Assim sendo, poucos aristocratas
ocupavam postos palatinos. Levavam uma vida cheia de soberba, repleta de
festas. A pequena nobreza era composta de militares, fidalgos, cavaleiros.
Eram poderosos como grupo. Os militares assistiam por direito próprio as
cortes. Viviam em residências rurais e influenciavam o governo através da
parentela aristocrática. Desta pequena nobreza saiam muitos bispos.
Havia ainda a nobreza urbana, ricos por herança. Tratava-se de uma
classe mais culta que a militar. Seus filhos chegavam às universidades.
Desta nobreza saiam também muitos bispos, cônegos, abades. Eram
excelentes como secretários e administradores.
O clero
O clero é uma sociedade dentro da sociedade. Tem suas próprias
classes sociais: alto e baixo clero. Funciona com um forte espírito
corporativista, muito mais para defender seus privilégios e imunidades do
que por empenho pastoral.
A força econômica está nos dízimos. O clero aristocrata exercia, não
raro, papel de chanceleres do governo. O alto clero tem um formidável
poderio econômico. O nível moral é tolerável.
No baixo clero havia muita imoralidade, ignorância e pobreza. Isto
acontecia não somente na Espanha, mas estendia-se a toda a Europa. Para
citarmos apenas um exemplo: 400 frades da Andaluzia preferiram emigrar
para a África e fazer-se muçulmanos a deixar suas concubinas.
A classe média
Não equivale à atual. São os mercadores, notários, barbeiros; são em
pequeno número, porem são a raiz da futura burguesia industrial e
mercantil. Os artesãos são uma modesta classe urbana. Associavam-se em
agremiações. Sua técnica passava de pai para filho; não levavam uma vida
muito difícil.
A população de todas estas classes sociais compunha cerca de 20% de
todos os habitantes da Espanha. Os camponeses são 80% da população;
vivem miseravelmente, mas não provocam revoltas.

ESPANHA, UMA NAÇÃO CATÓLICA


Como se explica a fogosidade do catolicismo espanhol? A Espanha caiu
sob o domínio muçulmano no início do século VIII. No ano de 750 toda a
península estava sob seu domínio. Por volta do ano 1000, Almanzor chegou
até Compostela e Barcelona. Entre os anos de 830 a 1030, tem-se um
período de exultação nacional. Há o florescimento da cristandade moçarabe
e dos reinos cristãos: Castela e Navarra.
Os séculos XI, XII e XIII são caracterizados pela “reconquista” e um
terceiro avanço muçulmano. Entre os anos de 1236 e 1248, os espanhóis
reconquistam Córdoba e Sevilha. O islã resumiu-se, então, no reino de
Granada. Os séculos XIV e XV foram marcados por muitas revoltas internas
e somente na segunda metade do século XV é que os espanhóis
reconquistaram o seu território.
Foram, portanto, sete séculos de esforços. A reforma católica adiantou-
se na Espanha em pelo menos um século. A Espanha, devido seu esforço
tornou-se a pátria espiritual da contra-reforma. Carlos V lutou
vigorosamente contra a heresia.
Os teólogos do século XVI não abandonaram a idéia do “orbis
chistianus” diante da heresia. Nenhuma coação sobre os infiéis para abraçar
a fé, mas sim sobre os batizados para conservá-la. O zeloso nacionalismo
fez surgir daí, o espírito de intolerância. Este espírito estará muito claro,
sobretudo no século XVI, justamente a época da chegada ao novo mundo.
Ressalte-se ainda que a igreja na Espanha estava passando por épocas
de reformas onde eminentes personagens sobressaiam-se. O concilio de
Trento foi testemunha do empenho pessoal de muitos bispos espanhóis
para a reforma católica do século XVI.
A igreja e a Espanha – revisão do contexto histórico
A situação geral da igreja na época dos descobrimentos, diríamos, era
bastante deplorável. Tratava-se de uma igreja que havia abandonado a
época das cruzadas e iniciou uma outra fase, também de conflitos, uma
espécie de “guerra santa” contra um movimento de dissidentes do seu
próprio seio.
Os papas da chamada época do renascimento eram na maioria
italianos influenciados por Maquiavel, situando-se numa perspectiva mais
nacionalista do que pastoral. São verdadeiros príncipes, diplomatas,
gostavam do nepotismo, amantes do luxo e do prazer. Muitas vezes foram
lembrados como protetores dos artistas, da cultura, etc.
O concilio de Latrão (1512-1517) tentou algumas medidas no sentido
de frear a decadência moral do clero, mas quase nada de concreto foi
conseguido, talvez por falta de coragem para enfrentar os inegáveis vícios
do papado. É contra essa igreja que Martinho Lutero se levanta, ao mesmo
tempo em que o catolicismo vai perdendo terreno para o emergente
luteranismo e outras correntes reformistas.
Duas tendências debatem-se então na vida interna da igreja. Uma que
quer uma reforma, reforma essa que atingisse profundamente a igreja;
outra corrente caracteriza-se por uma certa contestação dos movimentos
então emergentes. Para tentar resolver o problema, convocou-se o concilio
de Trento que acabou enclausurando a igreja dentro de si mesma e
centralizando o poder numa autoridade suprema.
Abrindo novas perspectivas para um catolicismo em crise tem-se a
bula “Inter Cetera”de Alexandre VI, de origem espanhola, que concedia à
Coroa, todas as terras descobertas e por descobrir, em troca do
compromisso dos reis de fazer católicas as populações nativas sob seu
domínio.
Quem veio causar a grande tribulação?
Os homens que vieram para o novo mundo, o fizeram por causa de
suas riquezas naturais. Inútil tentar provar o contrário. Alguns aspectos da
chegada ao novo mundo merecem ser lembrados. A maioria dos
“conquistadores” pertencia à classe não privilegiada. Por isso, vieram
decididos a “ter mais”, vieram dispostos a deixar para trás a condição de
povo que os condenava a viver como inferiores dentro da sociedade dos
notáveis. Querem deixar para trás o passado e fazer fortuna. Vão, assim,
agir sem escrúpulos e cheios de ambição. Abriu-se para eles, finalmente, a
possibilidade de levar uma vida de “senhores”, coisa impossível na
Espanha.
Pobre do índio, terá que trabalhar, terá que morrer, terá que dar sua
própria terra, seus bens para pagar as dividas de um reino cambaleante.
Terá que financiar o custo que implicava ao invasor destruir a sua religião e
instruí-lo numa outra que ele não pediu e em um Deus que já conhece de
outro modo.
O sacerdote que o acompanhou, deixou para trás uma igreja alvo dos
ataques dos protestantes, também se tornou seu amo e senhor em todos os
sentidos. Seu papel é de importância fundamental para os êxitos da
conquista. Vão ensinar aos nativos uma religião que lhes pede humildade e
resignação, obediência e submissão, trabalhos e mansidão. Suavizará a
tristeza dos nativos com procissões e festas multicoloridas. Estes verão sua
religião esmagada, mas não morta. O cristianismo em muitas de suas
celebrações comemorava o triunfo do invasor e a derrota dos nativos. A
coroa necessitava dos religiosos para o seu projeto. Dava-lhes facilidades,
liberdade de ação. Os frades, tipo Montesinos, Las Casas precisavam ser
evitados e sua liberdade foi vigiada.

CAPITULO II
O MUNDO AMERICANO – PRIMEIROS CONTACTOS COM OS EUROPEUS

FONTES
As fontes que utilizamos para o estudo da primeira evangelização do
novo mundo são os historiadores oficiais das Índias, que contemporâneos,
quer posteriores. Também diversos escritos por parto do clero que já havia
se instalado na América; relações dos missionários, escritos leigos.
Acrescentam-se ainda historiadores como os relatos dos religiosos,
missionários com a história de suas províncias, relatos dos conquistadores.
População do novo mundo
Deparamo-nos diante de uma grande dificuldade. A impressão dos
missionários e conquistadores não nos dão segurança no que se refere ao
número de habitantes porque tudo se conta por milhões. Por exemplo,
Bartolomeu de Las Casas relata sobre milhões de batizados. Motolinía nos
fala de seis milhões de batizados no âmbito asteca. Pedro de Alvarado
afirma que combateu com “um milhão”. Seriam números reais ou pura
fantasia? Difícil sabê-lo.
Os cálculos modernos dirigem-se em duas tendências: uma
maximalista e outra minimalista. Segundo estes cálculos a população
poderia oscilar entre 100 e 8 milhões. Rosenblatt e outros historiadores
afirmam que havia entre 13 e 8 milhões; River y Sapper, entre 40 e 50
milhões; a escola da Califórnia calcula uns cem milhões. São estes, alguns
dados provenientes de estudos modernos sobre a população ameríndia.
Todavia, nos anos da independência, a população era de cerca de 16
milhões. Pode-se tirar conclusões, a partir disso, levando em consideração
as hipóteses demográficas, etc. o primeiro contacto entre as civilizações
deu-se de modo violento, muitas foram as mortes. A entrada no mundo do
índio trouxe algumas conseqüências terríveis como mortandades por causa
de doenças desconhecidas pelos índios. Por exemplo, em 1545 morreram
800.000 vítimas do vômito negro no México; dois milhões morreram por
causa da varíola, etc.
As civilizações ameríndias podem ser divididas em três grupos
distintos; aquelas de civilização superior como os astecas e incas, outras de
civilização intermediaria e aquelas de civilização inferior. Com relação ao
aparecimento das populações na América, várias são as hipóteses, porém
sempre é obscura a sua origem.
Esquema das grandes civilizações
Entre as características marcantes das grandes civilizações temos:
- Poderosa unidade política. Isto vale, sobretudo para o império inca. A
extensão territorial era fantástica. Os incas submetiam ao seu domínio
outros povos, devido à poderosa unidade política.
- Sua organização e sua língua.
- O regime de governo era verticalista.
- Sua religião era cósmica e animista. Religião praticada de modo diferente
entre o povo e as castas sociais mais elevadas. Caracterizava-se por
sacrifícios humanos. O deus era bastante abstrato.
- Muito difundido era o culto dos mortos. O morto pertencia mais à vida do
que à morte; daí o costume de mumificar.
- A organização dos astecas e grau de civilização alcançado pelos incas
chegando mesmo a praticarem diversas cirurgias.
- O regime era familiar com propriedades, agremiações.

CONQUISTA E EVANGELIZAÇÃO
O anúncio da fé coincidiu com a ação colonialista. O novo mundo foi
evangelizado através de mediações sumamente concretas: os espanhóis,
determinados espanhóis, num determinado tempo da história da Espanha. A
ação evangelizadora enquadrou-se em circunstancias que por uma parte
ofereceram grandes vantagens, por outra parte, muitos inconvenientes.
Quem foram os protagonistas da evangelização? Foram: as ordens
religiosas, seus missionários, os grandes bispos, a coroa espanhola, e
mesmo bons espanhóis. Os grandes obstáculos: os conquistadores, aqueles
que se dirigiram ao novo mundo com um único intento de buscar mais, os
“encomenderos”, e mesmo maus eclesiásticos.
A conquista deu-se segundo uma mentalidade generalizada e agressiva
da Europa Medieval, nunca é demais repetir. A “conquista” segundo Las
Casas seria um vocábulo digno de mahometanos: iníquo, tirânico, infernal.
Tratava-se da lei do imperialismo moderno: os mais fracos devem ser
submetidos aos mais fortes. Alguns fatos, porém, devem ser levados em
conta: um dos princípios da conquista é a conversão à fé.
Maus tratos
O tratamento dado aos índios foi consagrado nesta expressão: maus
tratos. Isto porque ocorreu considerar-se o seguinte: os habitantes da
América não seriam homens, mas “homines ferini”, homens muito próximos
a animais.
Entretanto, o primeiro contacto entre as duas civilizações deu-se de
modo violento. Os próprios cronistas horrorizavam-se quando viam o que
realmente se passava. Gonzalo Fernandez de Oviedo, por exemplo, escreve
que é um extermínio feito por cristãos; Pedro de La Gasca, visitador e
teólogo de Salamanca diz que se as obras dos cristãos são tais, sua fé não
pode ser melhor.
Lembremos outros fatos: o assassinato de Atahualpa. O assassinato do
cacique Hartuey em Porto Rico: ele disse que preferia ir para o inferno do
que para o céu com os espanhóis. Em 1569, um jesuíta escrevendo a São
Francisco de Borja diz que os índios os consideram um gênero de
abominação. Do memorial dos dominicanos do Peru ao rei da Espanha, em
fins do século XVI temos o seguinte: “os índios não querem ir para o céu,
porque melhor os tratariam os demônios no inferno do que os espanhóis no
céu; e alguns mais atrevidos e desesperados disseram que não querem crer
num deus tão cruel como o deus dos cristãos”.
Outra característica foi, sem dúvida, a escravidão dos índios. Os
europeus não introduziram o sistema escravocrata na América, tal
instituição já existia, e em foram brutais, porem isto não desculpa a atitude
dos espanhóis.

A CONSCIÊNCIA CATÓLICA PERANTE A CONQUISTA


Não foram os índios que descobriram a Europa, mas os europeus que
descobriram o novo mundo. Só o fato do descobrimento parecia aos
espanhóis, um título de autêntica possessão. Porém, as imensas terras
desse novo mundo tinham um dono: os povos aborígenes da América.
Quando os acontecimentos foram se esclarecendo e se conhecendo, como
reagiu a consciência católica?
Apenas conhecido o fato do descobrimento, os reis católicos dirigiram-
se ao papa Alexandre VI, espanhol, para assegurar-se sobre a legitimidade
da posse das terras descobertas. Assim como Portugal, que tinha uma
credencial idêntica, os reis espanhóis queriam cimentar juridicamente seu
monopólio nas terras descobertas. O papa, dentro da tradição ou dentro da
sobrevivência de formas jurídicas internacionais e suposto este
descobrimento, concedeu aos reis católicos a exclusividade da
evangelização. Surge um questionamento: é verossímil que Fernando, o
Católico, e Alexandre VI acreditavam em supostos teocráticos? Parece
desmenti-lo o tratado de Tordesilhas.
As bulas de Alexandre VI tiveram, sobretudo, duas correntes de
interpretações: colonialista e missionária ou indigenista. A interpretação
colonialista é de caráter absolutista; a missionária partiu dos protagonistas
da evangelização como Montesinos, Las Casas.
Os dois partidos
As bulas do papa serão interpretadas de diversas formas, de acordo
com a posição de cada partido ou de cada pessoa, eis um resumo das mais
diversas teses de interpretação.
- Tese missional. Isabel, a Católica em seu testamento. Deu como causa-
motivo da intervenção papal a evangelização da América.
- Tese absolutista. Fernando, o Católico, defende seu direito sobre o novo
mundo em virtude de uma doação pontifícia, direito absoluto e indiscutível.
- Tese arbitral. O papa fez-se de árbitro entre dois pretendentes ao
domínio sobre o novo mundo.
- Tese personalista. O papa não outorgou as terras aos reis para fazê-los
mais ricos do que eram. A interpretação que se dá das bulas é que foram
para a evangelização do novo mundo e isto implica o absoluto respeito
pelos direitos pessoais dos índios.
- Tese internacionalista. É um título exclusivo dado à Espanha para
evangelizar. O papa não poderia conceder o domínio de terras que não
eram suas.
- Tese institucionalista. O papa encarregou os reis para a conversão e
civilização das Índias, o que só pode ser feito por vias sobrenaturais como a
pregação, os sacramentos, etc e mediante ajudas materiais procurando os
meios para ser civilizados.
- Tese vicarial. Esta tese é mais tardia (séc. XVII-XVIII). O papa teria
delegado todo seu poder canônico e disciplinar sobre as terras descobertas
aos reis da Espanha.
- Tese regalista. Mais tardia ainda do que a anterior. É uma interpretação
imperialista dos títulos que teria a Espanha sobre as Índias, não em virtude
das bulas pontifícias, mas pelo direito de conquista e de ocupação.
Entre estas diversas teses, temos a interpretação dos dois partidos, o
colonialista e o missionário. O partido colonialista diz que a conquista é
legítima porque dá cumprimento a uma doação pontifícia e porque tem por
finalidade a pregação do evangelho e porque se exerce sobre seres infra-
humanos. Juan Gines de Sepulveda defende em quatro princípios a
legitimidade da conquista. Diz ele que a propagação do evangelho supõe o
domínio político. O evangelho dá a norma: obriga-os a entrar no reino. A
obra dos soldados é diversa da dos missionários, a bula alexandrina supõe a
sujeição dos bárbaros.
O partido missionário tem outra visão. Defende os direitos dos índios
sobretudo nas pessoas de Las Casas, Montesinos e outros. Frei Antonio de
Montesinos pronunciou seu famoso sermão: “Eu sou a voz que grita no
deserto desta ilha”, tomando a defesa dos índios ao mesmo tempo em que
condena a atitude dos espanhóis e os critica violentamente. Las Casas
rebate as idéias de Sepúlveda e coloca outros princípios: a igreja não tem o
direito de impor castigo corporal pelos pecados dos homens; o poder do
papa não é para aumentar o poder do príncipe mas para fomentar e
coordenar a evangelização. É preciso reconhecer a autonomia política dos
índios ainda que sejam idólatras. O rei da Espanha seria para eles como o
imperador germânico para os reis europeus, uma espécie de supremo
confederador. Se os índios não quisessem reconhecê-lo como tal, não se
poderá obrigá-los.

A BULA “SUBLIMIS DEUS” DE PAULO III, 1537


Depois de 45 anos do descobrimento e quando a reflexão teológica
tinha chegado a formular princípios diante da situação das Índias, o papa
Paulo III (1534-1550) promulgou a bula “Sublimis Deus”, acompanhada de
outros documentos em favor dos índios. A bula significou a confirmação
pontifícia das conclusões, motivações e reflexões que foram nascendo a
partir dos acontecimentos das Índias. A bula, em si, não diz nada de novo,
distinto daquilo que os missionários protestavam, a bula recolheu o esforço
dos missionários e o sancionou com sua autoridade pontifícia.
A Pré-história da bula
A bula foi nascendo aos poucos, na medida em que se questionavam
os direitos dos índios, a liberdade e a fé. Em primeiro lugar elaborou-se uma
série de documentos sobre os descobrimentos (bulas alexandrinas). Em
seguida, apareceu a opinião sobre a infra-humanidade dos índios; obsessão
sobre seus pecados e o direito de submetê-los por isso. Nasceram as
“encomiendas”, supressas mais tarde e novos problemas para a aceitação
da escravidão dos índios.
Os teólogos e juristas querem buscar um equilíbrio sobre os direitos
pessoais dos índios e os direitos que pretende ter a coroa espanhola. O bem
dos índios se articula em dois princípios: que se convertam e depois que
sejam humanizados. O índio saiu perdendo porque era o mais fraco.
As juntas que estudavam os problemas aos poucos vão chegando a
diversas conclusões. Em 1516 afirmaram que os índios são incapazes de
governarem-se; em 1517 os dominicanos reunidos em Salamanca
qualificaram de herege e digno de fogueira quem afirmasse que os índios
são irracionais.
Enquanto na Espanha se debate sobre a capacidade dos índios para
receber a fé, os missionários vão fazendo caminho. A situação por eles
enfrentada é inédita por causa da distancia cultural do índio, pela
inaplicabilidade de certos preceitos jurídicos e canônicos. Os missionários
enfrentam o problema da administração dos sacramentos: o batismo das
crianças, filhas dos infiéis, a catequese dos adultos, os pedidos do batismo
em massa, motivações inválidas ou insuficientes. No que se refere ao
batismo, em geral os missionários são indulgentes: pede-se o mínimo para
conferi-lo e se atem ao essencial no rito.
Itinerário da bula
Desde 1517 os dominicanos insistem em que pessoas bem informadas
refiram ao papa sobre a situação que vai-se criando. Frei Bernardino de
Minaya vai a Roma relatar pessoalmente os fatos. Há relutâncias em
acreditar na capacidade do índio. O cardeal Loaisa firma que os índios são
como louros; mas, enfim, a bula sai.
Síntese – o homem foi criado para que alcance o conhecimento de
Deus e a felicidade eterna. Isto não se consegue sem a fé em Jesus Cristo. É
certo que todo homem está capacitado em acreditar e aceitar a Cristo. Deus
pediu que o evangelho fosse anunciado a todas as nações. O diabo, para
impedir que muitos se salvem suscitou a alguns que afirmassem que os
índios podem ser reduzidos à escravidão como brutos pela incapacidade
que tem para aceitar a fé. O papa declara, então, que eles são livres, que
tem direito à posse dos seus bens e que não poder ser reduzidos à
escravidão. Tudo que se tenha dito em contrario seja nulo e inválido. Os
índios devem ser atraídos para a fé somente pela pregação e pelo bom
exemplo.

CAPÍTULO III
OS ARTÍFICES DA EVANGELIZAÇÃO

CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA DOS REIS DA ESPANHA

O cristianismo implantado no novo mundo teve vários protagonistas e


entre eles a coroa espanhola esteve presente desde o início. Citemos alguns
exemplos. O preâmbulo que encabeça a “Recopilação das Leis das Índias”
sintetiza esta consciência missionária da coroa espanhola: “Deus Nosso
Senhor, por sua infinita misericórdia e bondade serviu-se de dar-nos sem
merecimentos nossos, tão grande parte no senhorio do mundo... dilatou
nossa real coroa em grandes províncias e terras... felizmente temos
conseguido trazer ao grêmio da santa igreja católica romana as inumeráveis
gentes e nações que habitam as Índias Ocidentais, ilhas e terra firma do
mar oceano... e rogamos e encarregamos aos naturais de nossas Índias que
não receberam a santa fé, que a recebam pois nosso fim em preveni-los e
enviar mestres e pregadores para sua conversão e salvação”. Isto escrevia-
se no reinado de Carlos II (1666-1700).
O desejo de expandir a fé católica, todavia, está presente desde as
primeiras recomendações, por exemplo, nas instruções dadas ao Almirante
Colon: “Suas Altezas, desejando que nossa santa fé católica seja
aumentada, mandam... que por todas as vias ou maneiras que puder,
procure e trabalhe para trazer aos moradores das ditas ilhas e terra firme a
que se convertam à nossa santa fé católica...”
A Diego Colon, filho do almirante, o rei católico escreveu em 1509: “...
deveis mandar que em cada população haja uma pessoa eclesiástica e que
tenha especial cuidado em ensiná-los (aos índios) coisas de fé.
Este interesse pela evangelização mostra que os reis católicos levaram
a sério a recomendação papal quando da emanação das bulas. A coroa,
portanto, empenhou-se, a seu modo, na evangelização levando em conta os
deveres do padroado.
Em 1518, o regente do reino, cardeal Francisco de Jimenez de Sisneros,
firmou umas instruções que resumem o programa concreto de
evangelização, ao menos para a primeira etapa. Nelas dispunha a
construção de igrejas, a assistência dos índios na celebração da eucaristia,
a presença das imagens de Nossa Senhora, a instrução nos rudimentos da
fé, a preferência que deviam ter os filhos dos caciques na evangelização,
como elementos de singular influencia entre os naturais, os deveres
religiosos dos encomendeiros, a administração oportuna do batismo às
crianças, a implantação da monogamia, normas sobre a confissão e
comunhão anual, e outras coisas mais.
Note-se, todavia, que não era um cardeal que legislava, mas a
monarquia espanhola. Os bispos e em geral todos os missionários do novo
mundo eram conscientes deste papel desenvolvido pela monarquia. Anos
após ano, vinham da corte novas instruções sobre a evangelização. Era esta
a finalidade das ‘juntas”que se reuniam na Espanha. As reduções sãos
instituições da coroa. Muitos outros exemplos poderíamos aqui narrar, mas
cremos ser suficiente o que foi exposto. Não só nos séculos de ouro da
evangelização, mas posteriormente vê-se o mesmo empenho para que o
novo mundo seja católico. Era quase uma obsessão dos reis espanhóis e do
pessoal da corte ver todos os índios batizados e “dentro”da igreja.
Testemunhos dessa consciência
A coroa espanhola empenhava-se nos gastos que tinham os
missionários e bancavam todos os gastos. A partida dos missionários era de
Sevilha. De sua residência na Espanha até Sevilha, todas as despesas eram
por conta da coroa. A manutenção enquanto se esperava o navio, idem,
bem como outros gastos: livros, vestimenta, roupas de cama, remédios, e
enfim, o sustento do missionário.
Implantação das igrejas
A aparição das igrejas vai seguindo o ritmo mecânico das conquistas,
de acordo com uma frase bastante repetida então: “província falada,
província ganha”. Primeiramente se descobre a região, logo é conquistada,
finalmente organizada dentro da qual geralmente está a criacao de um
bispado. O movimento mecânico seguiu esse caminho: Antilhas, México e
Flórida, América Central, América Setentrional.
A situação era precária inicialmente, e nem poderia ser de outra
maneira. Mas Roma, desde o início vai criando as dioceses, de acordo com o
aumento das regiões conhecidas: 1511 – Diocese de Santo Domingo;
Conceição de La Veja e São João do Porto Rico; 1513 – Darién que logo
passa a ser chamada de Panamá; 1518- Santiago de Cuba; Cozumel no
México, posteriormente Puebla dos Los Angeles; 1530 – México; 1527 –
Nicarágua, Guatemala e Honduras.
Na America do Sul há entre 1530 e 1580 a fundação das dioceses de
Caracas, Santa Maria, Cartagena, Cuzco, Santa Fé de Bogotá, Lima Popayan,
Quito, La Plata, Santiago, Charcas, Tucumán e Arequipa. Assim, em 1536 há
16 bispados. Em 1547 decidiu-se elevar às sedes metropolitanas as igrejas
de Santo Domingo, México e Lima e em 1563, Santa Fé de Bogotá.
A escolha dos bispos competia ao rei. Carlos V preferia escolher os
bispos do clero diocesano, talvez porque os religiosos gozavam de muitas
isenções. O Conselho das Índias preferia os religiosos, pois os que mais
estavam comprometidos com a evangelização eram, de fato, os religiosos.
O testemunho dos números
Fernandez de Oviedo, historiador para assuntos das Índias, utilizava
esta expressão: “choviam frades”, para dizer do número de missionários
que partiam para o novo mundo. Em 1501 sai a primeira barcada: 17
franciscanos. Em 1510 chegaram os dominicanos e trazem consigo o fervor
da denúncia. Com os conquistadores, os missionários foram dirigindo-se
para os mais distantes lugares.
Diante da primeira experiência, abre-se um campo missionário bastante
grande. A opinião dos missionários dividiu-se. Alguns acreditavam ser
suficientes; outros não desejavam a vinda do clero secular a não ser que
tivessem entrado para reforma.
Sem ser exato, calcula-se que entre os anos de 1535 e 1592 foram para
a America , 2682 religiosos e 376 clérigos, ou seja, 3058 pessoas. Destes, a
maior parte é posterior ao ano de 1568. Na junta de Felipe II, recomendou
este que fossem recrutados missionários de 4 ordens religiosas somente.
Um cálculo feito por Schafer, oferece estes dados. Durante o século XVI,
passaram para além mar: 2.200 franciscanos; 1600 dominicanos; 1.200
agostinianos e 350 jesuítas, num total de aproximadamente 5.000, o que
equivale a cerca de 100 por ano.
Viagem sem retorno
Os missionários destinados às Índias deviam embarcar, quando
chegasse a hora. Ordenou Felipe II: “o juiz oficial que for aos portos, tenha
particular advertência de que embarque todos... e se faltarem alguns
mande buscar junto com os outros. Chegado o dia do embarque, se vá em
procissão cantando ladainhas; junto à nau pregue-se um sermão de
despedida, ponderando a magnitude da eleição para a qual aqueles homens
estavam destinados”.
Tanto em Sevilha quanto em Cádiz e nas Canárias contava-se se
estavam todos os que eram e se eram todos os que estavam. Deve-se
pensar em tudo o que isso significava: aventura de uma navegação de mais
de dois meses, com todos os riscos, tempestades possíveis, ataques de
inimigos, etc.
Em terras de missão, quando os missionários desembarcavam eram
esperados com grande solenidade. Entre outros fatos curiosos, comprava-se
para eles toda espécie de fruta, porque isso os entretinha como crianças.
A legislação espanhola entendia que o embarque para as Índias era
definitivo. Quem se comprometia com a missão o fazia para sempre; a volta
para a Europa era praticamente impossível. Para isso concorria alguns
fatores como o gasto nas viagens, o enfado de perder pessoas que
poderiam ter aprendido a língua dos índios, a necessidade de operários na
America. Assim, era a legislação que bloqueava na prática, toda esperança
de retorno. Aos missionários que partiam para além mar somente os
aguardavam o índios, a velhice e a morte.
Critério sobre os missionários
Ao longo da dominação espanhola na America, prevaleceu o critério de
que somente as ordens religiosas estavam autorizadas para enviar
missionários. Durante os primeiros 70 anos permitiu-se que somente 4
famílias religiosas se encarregassem da evangelização: franciscanos,
dominicanos, agostinianos e mercedários. As novas famílias religiosas
nascidas no século XVI foram excluídas para evitar contrastes com as
famílias religiosas mais velhas. Somente mais tarde é que os jesuítas foram
admitidos.
A célebre bula “Omni moda”prescrevia o envio de missionários das
ordens mendicantes, isto é, franciscanos; a razão dessa preferência devia-
se, sem dúvida, porque os franciscanos espanhóis tinham uma elevada
preparação espiritual, graças a Cisneros e eram muitos em número.
Porque não foram missionários de outras ordens, sobretudo
contemplativas? Existiam razoes práticas e pastorais para isso. Essas
mesmas razoes servem para limitar o número de ordens missionárias. A
diferença de metodologia resultava em grandes dificuldades para os índios
que viam tanta diferença de hábitos e poderiam induzi-los a distinguir
diversos tipos de cristianismo.
De início, os missionários também tinham dificuldades práticas. Estes
tinham um certo monopólio sobre a evangelização; estavam armados de
plenas faculdades, eram zelosos, animados por seu dinamismo. Quando o
concilio de Trento legislou sobre a pastoral, esta devia estar submetida ao
bispo, os religiosos viram-se diante de uma série de dificuldades, porque
alguns bispos pensaram enviá-los de volta. Mas como colocar outros? Felipe
II resolveu o problema dizendo que os superiores religiosos fossem
encarregados do cuidado pastoral dos seus súditos.
O controle da monarquia
Como já foi afirmado, a monarquia espanhola esteve sempre disposta
a fazer cumprir as determinações papais sobre a evangelização. Assim, a
nomeação a viagem dos missionários, pertence em grande parte à
monarquia. Dada a ordem de partir, nada mais havia a impedir.
Os reis empenharam-se para que a seleção dos candidatos fosse
esmerada. Entre 1526-1537 legislou sobre os franciscanos, dominicanos:
hão de ser pessoas de certa idade e de conventos já reformados. Exerce-se
um controle rigoroso por meio dos passaportes em que conste que levam
licença e recomendação dos seus provinciais.
Porém, ocorriam casos em que os superiores queriam desfazer-se
daqueles religiosos que significavam problema para a ordem e por outro
lado impediam a partida dos religiosos seletos. Também deu-se casos em
que os religiosos embarcavam furtivamente para fazer fortuna, entre 1530 e
1540. A coroa reservou para si, então, a permissão de enviar missionários.
O fluxo dos missionários diminuiu um pouco. Sucedeu também que
correndo o tempo, as províncias religiosas na America emanciparam-se da
metropolita. Na Espanha perdeu-se muito do interesse pelas províncias
filiais. Enviava-se para lá gente indesejada. O papa, então, determinou com
mais insistência que o rei se ocupasse da corrente missionária.
A célebre junta de 1568 ordenou que no México e Lima cada família
religiosa tivesse um colégio de formação de missionários, para aprender a
língua e ir-se acostumando à maneira de ser dos naturais. Esta classe de
colégios poderia ter alguns bens, rendas para as despesas dos missionários,
porém, não ouro nem riquezas. Determinou-se também que os conventos
pequenos dispersos nas imensas latitudes das Índias, aumentem o número
dos religiosos. Note-se que a monarquia emprega mais zelo do que a
própria igreja pela conduta dos missionários.
Com relação à nacionalidade, a imensa maioria era da Espanha, se
bem que entre os franciscanos que por primeiro chegaram ao México alguns
eram flamengos. Aos jesuítas foi possível recrutar missionários de outras
localidades da Europa. Assim, vieram espanhóis, alemães, italianos,
flamengos e inclusive franceses (um deles, o Pe. Misland correspondia-se
com Descartes). Os jesuítas puderam trazer outros missionários porque
eram de recente fundação.
Qualidade moral dos missionários
Estamos sempre na fase heróica das missões na America. Os bispos
foram escolhidos não da aristocracia, em geral. Grande parte do episcopado
americano foi composto por homens de espírito bem apostólico. Poucas
referencias a história nos legou destes bispos dedicados.
Porém, não era possível evitar que muitos dos que passavam ao novo
mundo, bispos e missionários, nem sempre tinham espírito evangélico.
Alguns governaram-se puramente movidos por cobiças, outros deixavam-se
guiar por suas paixões. Haviam missionários privados completamente do
espírito evangélico; o Pe. Maturino Gilberti se queixa do entibiamento de
muitos; o jesuíta Juan de Zuniga, passando por Cartagena para fundar uma
missão no Peru espantou-se da indolência do clero na evangelização; José
de Acosta, outro jesuíta, atribui muitos fracassos por falta de espírito
apostólico em numerosos missionários. O franciscano Pe. Jeronimo Oré e o
jesuíta José Acosta no final do século XVI lamentam em muitos missionários
a falta de zelo pastoral e os apresentam como mercenários, com ânsia de
enriquecer.
Certamente seria injusto afirmar a ausência de espírito apostólico na
maioria dos missionários; seria inacreditável lançar-se a semelhante
aventura e para toda a vida, se não estivessem animados de uma
verdadeiro ideal.
O problema das línguas
Este foi um dos desafios maiores. Recorde-se que somente no México
passavam de 50 línguas com 70 dialetos. Os indígenas só foram obrigados a
aprender o castelhano em 1634 com Felipe III. Muitos missionários que
vieram ao novo mundo sabiam o latim, o grego e hebraico, mas na prática
isso pouco adiantava. Inicialmente serviam-se de intérpretes. Boa parte dos
missionários empenhou-se em aprender a língua dos índios. Boa parte das
pregações eram feitas por sinais, inicialmente. Aos poucos o problema das
línguas foi solucionado e já em 1544 há vários impressos (doutrinas,
catecismos, etc) em língua indígena e espanhol.

CAPÍTULO IV
AS GRANDES ORDENS, EVANGELIZADORAS DA AMÉRICA

É impossível pretender expor uma apresentação detalhada do esforço


missionário de cada ordem religiosa. Afirmamos igualmente que todas
assumiram com entusiasmo e fervor a missão. Os franciscanos distinguiram-
se, juntamente com os dominicanos no primeiro século em número e
qualidade dos missionários para lá enviados. Os jesuítas, poucos no início,
na época de sua expulsão contavam com aproximadamente 8.000
membros.
OS FRANCISCANOS
O primeiro grande missionário franciscano foi o cardeal Frei Francisco
Jimenez de Cisneros. No ano de 1524 chegaram ao México os doze
primeiros missionários franciscanos, que a história do México
carinhosamente lembra como os “doze apóstolos”. Os franciscanos que
haviam chegado à América desde o início trabalharam nas Antilhas e
posteriormente passaram para o continente. Em 1532 já possuíam uma
província autônoma. Sua forca de expansão no decorrer do século XVI pode-
se medir por estes número: 200 conventos ou residências espalhadas pelo
México, Yucatán, Guatemala e Nicarágua.
Com a mecânica dos descobrimentos chegam a Nova Granada, onde
tem até 1583, doze conventos; em 1535 formou-se a primeira custódia do
Peru e em 1553 fundou-se a primeira província com 18 casas. Sua expansão
vai até o Chile e Argentina (1536) e depois Assunção no Paraguai.
Os franciscanos mostraram-se extremamente flexíveis: entregaram-se
ao aprendizado das línguas; fundaram colégios para filhos índios da nobreza
asteca no México em 1536. Nesses colégios ensinava-se leitura, escritura,
música, latim, retórica, lógica, filosofia e medicina; porém, essa fundação
durou apenas poucos anos. Os franciscanos foram os primeiros a introduzir
a imprensa na América. Em Yucatán e América Central são memoráveis os
nomes de : Santiago de Testera, Lourenço de Bienvenida, Diego de Landa,
mais tarde bispo, Jean Couvrier, belga, que morreu de fome. O colégio de
Santo Cristo de Guatemala foi foco de irradiação sobre a América Central.
Na Nicarágua trabalhou o famoso Juan de Gante como grande defensor dos
índios.
Desde 1516 pensavam passar à terra firma. Na metade do século XVI,
instalaram-se na Colômbia com casas em Cartagena, Pamplona, Velez,
Tunja, Bogotá organizando missões. Até o século XVII na região amazônica,
os encontramos nos trabalhos missionários.
Em Lima, fundaram um grande convento e dois colégios. Destacou-se
nesta cidade Francisco Solano. Morreram muitos franciscanos na missão de
Ucayali, rio afluente do Amazonas. A exploração das terra é do ano de 1536.
Um século mais tarde são fundadas as reduções em diversos lugares e
alguns missionários sucumbiram nas mãos dos índios. No Peru Setentrional
morreram 129 religiosos.
Na obra evangelizadora, os franciscanos distinguiram-se por um certo
espírito aventureiro no sentido de ir em direção dos índios. A crise do século
XVII foi facilmente superada, crise no sentido de escassez de missionários.
Não se pode deixar de destacar vários personagens na América. Frei Pedro
de Gante, flamengo, irmão, trabalhou na ereção de mais de 200 igrejas,
abriu escolas catequéticas e indústrias de arte, estabeleceu confrarias. Com
muita razão, o bispo do México, Montufar, dizia: “o bispo do México não sou
eu, é Frei Pedro de Gante”.
Outra grande figura frasncicana foi o Frei Toríbio de Benavente, ou
Motolinia, que com Frei Bernardino de Sahagun desdobraram-se por
conhecer a alma do índio. Estes com outros franciscanos na América, o
arcebispo Zapata de Cárdenas, na Nova Granada, Frei Diego de Landa,
bispo mais tarde, de Yucatán e sempre na vanguarda apostólica deram todo
apoio aos índios provocando a antipatia dos “encomenderos”. Pode
considerar-se Frei Juan de Zumarraga como organizador da igreja mexicana,
defensor dos índios, culturizador do país.
No século XVII um grupo de franciscanos explorava o Amazonas e em
menos de dez anos fundaram 40 missões, 50 povoados e reduziram 10.000
índios. Os franciscanos estiveram em toda a América, Equador, Chile, o Rio
da Prata e o Paraguai (desde 1526).
OS DOMINICANOS
O que se falou brevemente sobre os franciscanos, em linha geral pode-
se aplicar aos dominicanos, com relação às obras missionárias e regiões por
eles missionadas. Chegaram na América em 1510 e irradiaram-se pelo
México, América Central, Granada e Peru. No final do século XVI eram mais
de 300 no México, com cerca de 30 conventos e na Nova Granada tinham
em 1566 mais de 150 postos de expansão evangelizadora de índios.
O que resultou mais original, caso típico dos dominicanos desde o
principio, foi sua paixão pela defesa do mesmo. Recordamos o episodio do
sermão de Montesinos, que ele próprio viaja até a Espanha e não descansa
enquanto não se apresenta diante do rei Fernando, burlando toda vigilância.
“Levava o dito padre, escreve Las Casas, diversos papéis escritos por
capítulos das crueldades que haviam feito nas guerras, e fora delas, nos
índios vizinhos a esta ilha” e o levou ante o rei Fernando, o Católico, que
ficou vivamente impressionado. O próprio geral da ordem, Caetano, foi
quem pediu insistentemente as missões entre os habitantes das Índias em
1508.
Uma das formas do apostolado empregado pelos dominicanos foi a
visita metódica aos indígenas, onde ensinavam os rudimentos da fé; criaram
escolas para instrução dos índios e centros de formação mais elevados para
os filhos dos caciques.
Como os franciscanos, os dominicanos criaram também suas reduções,
onde recolhiam entre 400 e 500 índios e eram estes dirigidos apenas por
um sacerdote. Distinguiram-se no Peru e Chile as reduções da ordem de São
Domingos.
Outra característica dos dominicanos foi o ensinamento do catecismo.
É célebre a “Doctrina larga”, na qual colaboraram com Frei Pedro de
Córdoba, o franciscano Zumarraga e o Pe. Betanzos. É digna de menção a
metodologia gráfica do Pe. Gonzalo Lucero que trabalhou com os índios
mixtecas. Este missionário introduziu paulatinamente muitos índios ao
conhecimento da fé.
A ordem dominicana estendeu-se pelo México, Guatemala, onde o Pe.
Bartolomeu de Las Casas realizou sua experiência de Vera Paz, Nicarágua e
El Salvador. Em 1551 já há uma província onde hoje é a America Central; no
México e America Central os dominicanos construíram esplêndidas igrejas.
Em Nova Granada havia numerosas “doutrinas”ou seja, povoados indígenas
visitados metodicamente por um frade; seu número tinha crescido tanto
que o arcebispo Zapata de Cárdenas os deixou 50, para entregá-las a
padres seculares. Somente o arcebispado de Santa Fé de Bogotá tinha sob o
seu cuidado 107 povoados.
Na Nova Granada trabalhou como pregador e missionário São Luis
Beltrão (1526-1581), que desenvolveu seu apostolado no que hoje
compreende os departamentos de Bolivar-Sucre, Magdalena e Atlântico.
Como bom dominicano do seu tempo, em correspondência com Bartolomeu
de Las Casas, encontramos “sua alta fisionomia moral, reta e inflexível
diante dos prepotentes encomenderos a quem fustiga com o mesmo gesto
que os profetas bíblicos”. Sua figura tornou-se lendária, o que significa que
deixou profunda marca na cristandade neo-granadina.
Lutou intrepidamente contra os encomenderos. A lenda, que por outro
lado é o reflexo de fatos mais profundos, nos conta este episódio: “andando
pelos povoados de Uziacuri foi convidado a comer por alguns
encomenderos, um tanto ressentidos pelas pregações fervorosas do
dominicano; durante a refeição conversaram sobre o tema das
encomiendas. E disse aos encomenderos: querem desenganar-se que é o
sangue dos índios que vocês estão comendo? Pois vejam com os seus
próprios olhos; e apertando entre as mais as tortas, começaram a destilar
sangue sobre a mesa. Assombrados, ainda que não emendados com tão
grande proeza e prova tão evidente, procuraram sempre ocultá-lo de todos
os interessados”.
A extensão da ordem foi por toda a América, com o sistema de
doutrinas.
OS AGOSTINIANOS
Chegaram à América em 1533 e seu primeiro campo de apostolado foi
o México. Doze anos mais tarde já tinham no país 46 conventos; no terminar
do século, somente no México, estavam com duas províncias e
aproximadamente 70 conventos. Estenderam-se num raio de ação até o sul:
Golfo do México, Tampico, Chiapas, Michoacán. Suas dificuldades foram
semelhantes à dos missionários de outras ordens religiosas. Usavam o
sistema de visita aos índios, como outros missionários. Passados 40 anos de
sua chegada na America, já tinham várias províncias: México, Lima, Quito e
Santa Fé. No inicio do século XVII erigiu-se a província do Chile.
Em comum com a metodologia das outras ordens, entregaram-se ao
ensino do catecismo, chegando a ter duas sessões diárias, durante quatro
horas. Mais tarde formaram catequistas que os ajudavam nas aldeias
indígenas. Igual à metodologia franciscana, os agostinianos tiveram singular
cuidado dos neófitos melhor preparados em escolas que se levantavam
junto às igrejas. Finalmente o que mais distingue os agostinianos foi a
valorização que fizeram da capacidade do índio na ordem espiritual, ainda
que não chegassem a promover ao sacerdócio e à vida religiosa, os índios.
Os agostinianos criaram aldeias de índios; os próprios religiosos
tomavam parte da administração civil e procuravam levantar hospitais, de
modo que a comunidade indígena tomava parte no serviço aos enfermos,
por turnos.
Não é de admirar que as três ordens rivalizavam-se na fundação de
povoados indígenas. Os agostinianos, neste ponto, sobressaíram-se
bastante. Reuniam os índios, traçavam ruas e praças nos povoados,
levavam água potável, levantaram um convento e um hospital, edificaram
casas, que em sua maioria, constava de quartos para dormir e uma sala
comum, uma cozinha e um pequeno oratório onde a família reunia-se para
rezar.
OS JESUITAS
Desde sua origem, os jesuítas haviam enfocado a ação missionária
para o oriente: Índia, China e Japão, sobretudo pela obra de São Francisco
Xavier.
Nem o imperador Carlos, nem seu filho Felipe II mostraram-se
dispostos a ter os jesuítas nas Índias Ocidentais, talvez por se tratar de uma
nova família religiosa. Porém, os pediu Vasco de Quiroga, bispo de
Michoacán e o Frei Agostín de La Coruna, bispo de Popayán. Assim,
pessoalmente, Felipe II pediu ao geral da ordem uma expedição de 24
jesuítas “pessoas doutas, de boa vida e exemplo”. Desta forma chegaram
os jesuítas ao novo mundo e era a quarta ordem religiosa a fazê-lo. A
primeira expedição chegou em 1567, na Flórida, exatamente dois séculos
depois seriam expulsos.
Uma dificuldade prática para os jesuítas consistiu no fato de que eram
operários na nona hora e encontraram já ocupada por todas as ordens
religiosas, as zonas indígenas me maior influencia. Falamos, naturalmente,
da America espanhola, porque no Brasil estavam presentes desde 1549. Por
esse motivo tiveram que ir trabalhar para lugares distantes. Todas as
missões que a companhia doutrina, escreve Luis de Velasco, é gente
bárbara, desnuda, muito pobre, onde não chega quase ninguém.
No México, de Sinaloa, subiram para a Serra Madre, onde pereceu
mártir o diretor da missão, mas dez anos mais tarde, vê-se na região 18
povoados com mais de 10.000 neófitos.
Os jesuítas interessaram-se em aprender as línguas como as outras
ordens religiosas. Entre 1572 e 1604 trabalharam no México, na educação
dos índios, 119 sacerdotes da companhia; destes, 64 sabiam uma ou mais
línguas. Entre 1596 e 1650, aproximadamente, levaram em frente, somente
no México, 4 movimentos missionários.
Em 1604 estabeleceram-se na Nova Granada, descendo até o Orinoco.
Quito foi também outro centro de irradiação dos jesuítas. No Peru, os
jesuítas administraram as “doutrinas” ou paróquias de índios. Uma missão
estável em Juli com 14.000 indios fez com que se lançassem até Santa Cruz
de La Sierra, de onde iniciaram a formação das reduções dos índios Mojos.
No Chile também tiveram missões apesar das dificuldades, porque a região
estava constantemente em estado de guerra. Foi notável a obra do Pe.
Valdivia que aprendeu alguns idiomas naturais e em suas correrias batizou
mais de 7.000 índios entre crianças e adultos. Sobre as reduções no
Paraguai, uma inédita experiência de evangelização dos jesuítas,
trataremos num capitulo à parte.
Entre os grandes missionários lembramos a figura de São Pedro Claver
(+1654)
Encerrando este capítulo, perguntamo-nos porque somente os
religiosos? Evidentemente não podemos deixar de reconhecer os méritos do
clero secular, nem mesmo de outras ordens religiosas que chegaram mais
tarde, porém, a primeira grande parte da evangelização na America
Espanhola, foi obra das grandes famílias religiosas que vimos até o
momento.

CAPITULO V
O PROGRAMA DOS GRANDES
INTRODUÇÃO
Muitos foram os missionários que se destacaram na história da
evangelização da America Latina e este capítulo quer ressaltar o programa
de evangelização dos grandes. Como eles conceberam sua missão, qual
método utilizaram.
A COMUNIDADE DOS DOMINICANOS
Os frades dominicanos Pedro de Córdoba, Antonio Montesinos,
Bernardo de Santo Domingo estabeleceram-se na Hispanhiola ( São
Domingos) a partir de 1510. Essa comunidade desempenhará um papel
profético de grande importância pela causa dos índios. A prática missionária
de uma no só na ilha foi suficiente para os dominicanos chegarem à
conclusão de que o maior obstáculo para a sua catequese, para a sua
pastoral, eram as injustiças contra os índios. O pecado de mundo novo não
é o herege ou o pagão, mas o colonizador.
Declarando injustas as guerras chamadas “justas”, Montesinos fala em
nome da comunidade dizendo: “Com que direito e com que justiça tendes
estes indos em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes
tão detestáveis guerras a essa gente que estava mansa e pacífica em suas
terras, onde exterminastes uma infinidade delas com mortes e estragos
numa ouvidos? Como os tendes tão oprimidos e cansados, sem dar-lhes de
comer nem curá-los de suas doenças, que vem Dos excessivos trabalhos
que lhes dais e que os fazer morrer, ou, para dizer melhor, os matais tirando
e acumulando ouro cada dia? Estes não são homens? Não tem almas
racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos?”
Lido à luz dos textos bíblicos do Antigo e Novo Testamento, o sermão
de Montesinos se manifesta em nítida continuidade com toda a tradição
bíblica dos profetas.
BARTOLOMEU DE LAS CASAS
Natural de Sevilha, nascido no ano de 1474, de pai comerciante.
Estudou profundamente o latim. Partiu para as Índias, com Nicolas de
Obando em 1502. Recebeu uma “encomienda” na ilha, onde chegou a
guerrear contra os índios. Ainda como “encomendero” foi ordenado
sacerdote em Roma, no ano de 1510; escutou o famoso sermão de
Montesinos no dia 3 de novembro de 1511: “Eu sou a voz que clama no
deserto desta ilha”. Apesar do sermão continuou ainda por dois anos
participando da conquista de Cuba comandada por Diego Velazquez e
Pânfilo de Narvaez, onde presenciou a matança de índios e recebeu novas
porções de terras como “encomendero”.
Foi somente no ano de 1514, quando de sua permanência em Cuba,
que tomou a decisão de abandonar suas posses e ir em defesa dos índios.
Ele foi cúmplice da conquista por doze anos. Percebendo a inutilidade de
defender o índio em São Domingo, partiu para Sevilha em 1515, para
denunciar pessoalmente ao rei Fernando, os abusos cometidos contra os
índios. Em 1517, depois de apresentar um memorial em defesa dos índios
ante o Conselho das Índias, conseguiu de Carlos V, que aceitasse o projeto
de fundar “aldeias de índios livres”, que seriam comunidades de lavradores
hispano-índios, num plano de colonização pacífica. O local escolhido foi a
região de Cumaná, na atual Venezuela, porém, com fracasso total por causa
da deserção dos colonos, do desastre da missão franciscana, do interesse
dos “encomenderos”e por causa de um ataque dos índios em 1521.
Sua tentativa de reformas sociais que vigorava naquele sistema
acabou fracassando completamente. De volta a São Domingos, decidiu
ingressar na ordem de São Domingos em 1523. Até o ano de 1531 dedicou-
se à meditação e estudos, de onde temos usa obra: “Sobre o único modo de
atrair a todos os povos à verdadeira religião”. É o início de sua obra
gigantesca: “História das Índias”.
Escreveu diversas cartas ao Conselho das Índias acusando pessoas e
instituições pelo pecado de opressão que se comete contra o índio, e em
especial, o sistema de “encomiendas”. Em 1537 foi à atual Guatemala, onde
com mais dois dominicanos evangelizou uma “terra de guerra”, com
métodos diferentes dos usados então (sem armas, pacificamente). Nessa
época surgiram dois importantes documentos, que para Las Casas foi de
suma importância. Um deles foi a bula “Sublimis Deus”, onde afirma que o
índio é capaz da fé, tem direito à propriedade e liberdade; outro foi a obra
de Francisco Vitória, “Relações sobre as Índias”de 1539. Animado pela sua
experiência positiva foi para a Espanha onde chegou em 1540.
Em 1541 escreveu seu tratado mais virulento:”Brevíssima relação da
destruição das Índias” e informou os membros das “Juntas” que preparavas
as Leis Novas, promulgadas em 22 de novembro de 1542, nas quais se
impedia que a “encomienda”pudesse ser hereditária. O rei, pessoalmente o
propõe, então, para o bispado de Chiapas, para onde embarcou em 1544.
Logo após sua chegada redigiu diversas leis entre as quais o famoso
“Confessionário”, que proibiu absolver os pecados dos que tinham índios
“encomendados”, o que iniciou uma série de conflitos com os
“encomenderos”. Regressou à Espanha em 1546 e renunciou ao bispado de
Chiapas em 1550.
Dedicou-se a partir daí em defender os direitos dos índios junto ao rei e
ao Conselho das Índias. Escreveu : “Tratados”(1552); “Trinta proposições
jurídicas”(1553), material que foi acrescentado na “História das Índias”. Na
Espanha, Las Casas tornou-se um consultor obrigatório de muitos governos
e missionários. Somente em 1562 redigiu definitivamente o Prólogo da
História das Índias que segundo seu pedido só deveria ser publicado
passados quarentas anos, porque se Deus determinar destruir a Espanha,
veja-se, diz ele, que é pelas destruições que fizemos nas Índia e apareça a
razão de sua justiça.
Bartolomeu de Las Casas morreu no convento dominicano de Atocha,
Madri, no dia 17 de julho de 1566, com a idade de 92 anos. Por inspiração
do vice-rei do Peru, Toledo, o rei mandou recolher todos os livros impressos
e inéditos de Las Casas e sua influencia na Espanha e nas Índias caiu muito.
Seu pensamento sobre a evangelização
Se conceito de evangelização proveio da obra “De único vocationis
modo omnium gentium ad veram religionem”. Outros tratados também
falam sobre seu conceito e evangelização. De início, ele aceitava como algo
natural, certa legitimidade que os reis da Espanha tinham sobre as Índias.
Segundo Las Casas, o supremo pastor da igreja está obrigado por seu oficio
pastoral a procurar a evangelização das outras ovelhas de Cristo, que são os
infiéis, para implantar entre eles a fé cristã. Por isso, o papa licitamente
dispôs que alguns príncipes se interessassem pela pregação do evangelho.
Isto que dizer que Las Casas aceitava o regime de cristandade efetivamente
vivo então. O intrépido defensor dos índios estava convencido de que não é
possível a pregação do evangelho, nem o combate às injustiças sem o apoio
político. Entendemos daí a razão pela qual optou por defender os índios
quando regressou definitivamente para a Espanha, junto ao rei e ao
Conselho das Índias.
Memorável é, todavia, seu pensamento sobre a evangelização,
pensamento este amadurecido aos poucos. Formulou seu pensamento
baseado em alguns pontos como textos bíblicos, concílios, santos padres,
teólogos, canonistas e utilizou fontes auxiliares como os filósofos,
naturalistas, juristas e historiadores. Um resumo sobre o seu conceito de
evangelização extraído de sua obra “De único vocationis modo”.
Fala sobre a predestinação ou eleição divina e sobre o convite à fé cristã:
“Os eleitos... tem que ser reunidos e chamados de entre todas as nações,
tribos e línguas e dos lugares mais afastados do mundo todo”. De maneira
que “não há nenhum povo ou nação, em toda a redondeza da terra, que
fique inteiramente privada deste beneficio gratuito da divina liberalidade...
e, portanto o mesmo se tem de entender, crer e afirmar das nações e
gentes deste novo mundo das Índias”.
O segundo capítulo da obra diz que sobre o convite à fé e à religião cristã,
no que se refere à condição moral particular dos homens das diversas
nações, tribos e línguas.
O terceiro capítulo, seguindo o raciocínio, afirma sobre a predestinação e
convite à fé e à religião cristã, no que toca a condição intelectual dos
homens das diversas nações, tribos e línguas.
O capítulo quarto fala sobre a condição intelectual dos índios do novo
mundo: “Afirmamos não somente que é muito razoável admitir que muitas
nações indígenas tenham diversos graus de inteligência natural, como
acontece com o resto dos povos, mas também que todas elas estão dotadas
do verdadeiro engenho; e ainda mais, que nelas há indivíduos, e em maior
número que nos outros povos da terra, de entendimento mais avisado para
a economia da vida humana. E que se alguma vez chega a faltar esta
penetração ou sutileza de engenho, isso acontece, sem dúvida nenhuma,
com menor número de indivíduos, ou melhor, com um número
insignificante.
No quinto capítulo, Las Casas fala sobre a natureza e fundamentos do modo
verdadeiramente natural, geral, uniforme e único como tem de ser
chamados e convidados à fé em Cristo e à religião cristã, os eleitos e
predestinados. Tese principal: “A Providencia divina estabeleceu, para todo
o mundo e para todos os tempos um só, mesmo e único modo de lhes
ensinar aos homens a verdadeira religião, a saber: a persuasão do
entendimento por meio de razões e o convite e suave moção da vontade.
Trata-se, sem dúvida, de um modo que deve ser comum a todos os homens
do mundo, sem distinção de seitas, erros ou corrupção de costumes”. Las
Casas fala então de cinco condições para pregar o evangelho, de acordo
com a intenca e o mandato de Cristo.
A primeira “é que os ouvintes e mui especialmente os infiéis, compreendam
que os pregadores da fé não tem nenhuma intenção de adquirir domínio
sobre eles com a sua pregação”.
A segunda consiste em que “os ouvintes e sobretudo os infiéis entendam
que não os move a pregar o evangelho a ambição de riquezas”.
A terceira é que os pregadores sejam benignos e benévolos com aqueles a
quem ensinam, por mais que “resistam à verdade ou se neguem a escutar
ou desprezem o que tem ouvido”.
A quarta, mais necessária que as anteriores, é que o pregador arda em
amor de caridade por aqueles a quem ensina, visto que são irmãs da
caridade a serenidade, a paciência e a benignidade.
A quinta, mas importante para Las Casas, apoiada na autoridade de
Crisóstomo: “uma vida exemplar e irreprochável que a ninguém ofenda e
que seja totalmente irrepreensível; porque quem ensina deve apresentar-se
a si mesmo como exemplo de suas palavras”.
O capítulo seis fala sobre o modo de pregar o evangelho contrário ao
instituído por Cristo: “É contrário ao modo instituído por Cristo submeter os
infiéis pela força, mediante a guerra, ao império dos cristãos, com meio de
tirar os impedimentos que possa encontrar a pregação da fé e de preparar
as vontade para receber a fé e a religião cristã”.
Finalmente o capítulo sete fala sobre a guerra que se faz aos infiéis que
nunca tem ouvido falar de Cristo nem de sua igreja, nem a tem ofendido de
nenhum modo: “essa guerra é temerária, injusta e tirânica”. Os
responsáveis cometem um gravíssimo pecado mortal e estão obrigados à
restituição por todos os danos e prejuízos.
Avaliação crítica
Esboçado o seu programa, resta-nos fazer algum comentário. Las
casas lutou valorosamente em favor do índio, movido por um grande ideal
de evangelização. Isto somente foi possível pela sua grande sensibilidade
para o sofrimento humano; e também pela sua percepção do evangelho, da
missão de Cristo e da igreja como anunciadora e realizadora da salvação de
cada homem e de todos os povos. Bartolomeu percebeu as exigências
éticas que provém do evangelho e daí sua denúncia dos abusos contra o
índio no processo colonizador.
Todavia, algumas ressalvas devem ser feitas. Não superou a ideologia
da cristandade, na qual a evangelização identificou-se com a cultura. O
índio não entrou como “o outro” em pé de igualdade com o europeu
cristão; ele ainda é “objeto”da evangelização, “infiel”a quem não se pode
fazer violência, mas que deve pacificamente e com caridade ser convertido.
Além disso, Las Casas é alguém que está dentro daquela sociedade e
pro isso, é incapaz de perceber a raiz do mal, ou seja, a nova etapa do
capitalismo expansionista comercial que exigia a exploração intensiva dos
habitantes do novo mundo para a exportação à velha Europa. Os seus
apelos evangelizadores caem num certo reformismo e num vazio porque
não conseguem perceber o sistema colonial como totalidade de exploração
e de morte. Por isso é que ele tentou junto à monarquia, junto ao poder
papal fazer algo pelos índios, exatamente porque não tinha consciência da
lógica colonial.
Contudo, sem dúvida podemos afirmar que foi Bartolomeu que levou
mais a sério as exigências éticas da evangelização; foi quem mais chegou
longe na denúncia dos abusos cometidos contra o “ideal evangelizador da
conquista”. Não pode fazer mais porque o ideal do sistema colonial era
muito mais forte que esse ideal evangelizador e por isso naquele regime de
cristandade, não foi percebido.
OUTROS EVANGELIZADORES
Pe. Jerônimo Oré, OFM, assinalou algumas qualidades que o
missionário deve ter quando trabalha na obra do Senhor. Segundo ele,
santidade, capacidade, suficiência em letra e línguas, prudência, são
características fundamentais do missionário. Porém, quer que antes de tudo
o missionário viva na simplicidade. Dizia que os índios são mansos como
cordeiros, porém adivinham imediatamente quem são os missionários e que
não o são. Deseja que o missionário seja como São Paulo: “fazer-se tudo
para todos”.
O agostiniano, Pe. Antonio Carancha em sua obra “Crônica
Geral”adverte: “Porque somos enviados a pregar a essas gentes que na tem
conhecimento de Deus, somos obrigados à mais perfeita maneira de viver,
não somente diante de Deus Nosso Senhor, mas também diante dos
homens”.
Merece ainda destaque o franciscano Francisco de Vitoria. Vitoria
defende que os índios ainda que sendo bárbaros, não perdem nem sua
liberdade nem o domínio sobre seus bens. Dizia:”porque não são idiotas
tem ao seu modo, uso da razão, leis, religião”. Se eles parecem “idiotas”é
porque não tiveram uma educação adequada, mas é susceptível de
aperfeiçoamento.

CAPÍTULO VI
AS REDUÇÕES JESUÍTICAS NO PARAGUAI

Muito tem-se falado a respeito das reduções jesuíticas no Paraguai,


algumas vezes com exageros. Tem-se dito, por exemplo, que as reduções
como as planejaram os jesuítas tem seus modelos nos projetos de
organização social baseados em Platão, Tomas Morus ou Campanella. Mas
isso é falso. Pouco antes que os jesuítas criassem as reduções no Paraguai,
o mundo hispano-americano já conhecia tal experiência, porque foi
resultado de esforço da igreja e da coroa espanhoa, a intenção de criar um
modelo de evangelização original.
A pré história das reduções contou, para fortuna destas, com
excelentes missionários, que chegaram à região desde 1587. Como os
franciscanos, dominicanos e agostinianos, os jesuítas começaram seu
trabalho missionário com elementos humanos bastante qualificados. O
pioneiro dos trabalhos foi o Pe. Alonso de Barzana, de quem um dos seus
companheiros faz este elogio: “Ainda que não tenha visto o Pe. Francisco
Xavier na Índia, vi o Pe. Alonso de Barzana, velho de sessenta e cinco anos,
sem dentes, com suma pobreza, com profundíssima humildade, fazendo-se
velho com o índio velho e com a velha dita terra, sentando-se no chão para
ganhá-los a Cristo... de manhã à noite não perde nem um pouco do seu
tempo. Sua oração que se inicia mesmo antes do amanhecer por esses
campos, seu contínuo trabalho em falar tantas línguas diferentes e
sobretudo para levar este trabalho, o maior presente que o santo velho tem
aqui, é um pouco de farinha de milho tostado”.
A empresa das reduções paraguaias exigiu, portanto, espíritos audazes
e evangélicos. Assim, foram efetivamente seus criadores. O primeiro
organizador das reduções foi o Pe. Diego de Torres que tem grande
semelhança com o Pe. Bartolomeu de Las Casas pela sua coerência na
aplicação da justiça. Em 1608, sendo provincial de sua ordem no Chile e
Paraguai e passando por cima de todo artifício jurídico, executou os
mandatos das “Leis novas” promulgadas sessenta anos antes. Se o remédio
para o abuso da “encomienda”reside na supressas da mesma, esta deve ser
suprimida. Diz o Pe. Torres: “Resolvi executar e por os índios em liberdade,
como o fiz, diante de seu protetor e um juiz, oferecendo-lhes de novo, se
nos queriam servir, maiores comodidades e salário, o que eles (os índios)
aceitaram com muito gosto”. Tratava-se de suprimir o serviço pessoal de
um grupo de índios que trabalhavam para os jesuítas.
A conduta do Pe. Torres levantou um protesto geral, como sessenta
anos antes tinham feito os “encomenderos”. O Pe. Torres respondeu falando
sobre as razões justas que o assistiam e da iniqüidade do serviço pessoal,
como ali se praticava. Foi acusado de subversão ao império espanhol.
Pe. Torres viajou para Espanha e Itália para recrutar missionários que
trabalhassem nas missões do Chile e Paraguai; recrutou, com efeito, 45,
com os quais regressou para a America e escolheu 13 para inaugurar as
célebres missões com os guarani, segundo a proposta do governador de
Assunção, Hernando Arias de Saavedra. Uma das condições postas pelo Pe.
Torres foi que os índios reduzidos ficariam isentos do serviço pessoal e
vivessem independentes dos brancos. A primeira redução foi fundada no
ano de 1610 e a partir daí muitas outras foram fundadas no decorrer do
século XVII. Alguns missionários morreram pelos índios, outros morreram de
fome.
O ÂMBITO GEOGRÁFICO
As reduções realizaram-se num vastíssimo território, onde hoje
pertence aos países seguintes: Brasil, Paraguai e Argentina. O Paraguai, na
época possuía os atuais estados brasileiros do Paraná, Santa Catarina, Rio
Grande do Sul e sul do Mato Grosso, subindo daí até a bacia amazônica.
Estavam também no seu território o Uruguai e a Argentina, com exceção de
Tucumán. A província tinha como sede a cidade de Assunção, fundada no
dia 15 de agosto de 1537. As reduções estenderam-se num quadrilátero,
cujos lados tinham 560 km do norte ao sul e 600 km de leste a oeste.
Ocupou os territórios nas margens dos rios Paraná e Uruguai.
Em Entre Rios, hoje Argentina, indo de oeste para sudeste,
encontravam-se 15 reduções, cinco das quais na margem esquerda do rio
Paraná: Corpus, Santo Inácio Mini, Loreto, Santana, Candelária; as outras
dez situavam-se mais à margem direita do Uruguai: Mártires, San Javier,
Santa Maria, São Carlos, São José, Apóstoloes, Conceição, São Tomé, La
Cruz e Yapeyu ou Los Reyes, que era a capital. Na margem direita do Rio
Paraná, onde hoje encontra-se o Paraguai, achavam-se oito reduções:
Itapoã, Encarnacion, Trindade, Jesus, São Cosme, São Tiago, Santa Rosa,
Santa Maria da Fé e Santo Inácio-guaçu. E finalmente na margem esquerda
do Uruguai, no Brasil, estavam as seguintes reduções: São João, São
Nicolau, São Luiz, São Lourenço, São Miguel, São Borja e Santo Ângelo.
Posteriormente outras reduções foram fundadas: São Joaquim, Santo
Estanislau e Belém.
População das reduções
A população das reduções em 1647 era de 28.000 habitantes; em 1682
tinha 48.000 habitantes; em 1707, 100.000. em 1732, 140.000 habitantes.
Nessa época havia mais habitantes nas reduções do Paraguai do que nas
três províncias ou governos civis do Rio de La Plata, Paraguai e Tucumán.
Diz o historiador Popescu: “se esta população numericamente superior se
une a organização, a disciplina, a técnica, a relativa abundancia de mestres
tão capazes como desejosos de ensinar, é fácil coligar e dizer o que seria a
cultura missionária”.
Todavia, adverte-se para uma flexão demográfica, em parte devido a
uma epidemia de varíola e a um certo cansaço moral dos missionários.
Porém, uma enérgica intervenção do geral nos missionários pôs fim à crise.
A partir de 1739 quando a população havia alcançado a cidra de 70.000
habitantes, começou paulatinamente uma recuperação até chegar a
números significativos na época da expulsão dos jesuítas.
Em quase 160 anos de existência, as reduções dos jesuítas no Paraguai
chegaram a 37, incluindo as do bispado de Santa Cruz e Alto Chaco e
Chiquitos. Nos meados de século XVII, os missionários preferiram deter a
febre de fundações para estruturar solidamente o estabelecido. Meio milhão
de índios foram evangelizados pelos missionários.
Contemporaneamente os jesuítas estabeleceram outras reduções nos
Llanos orientais da Colombia em 1622; nos Llanos d Alto e Medio Amazonas
e Maranhão, do Equador e norte do Peru, em 1637 e nos fins do século XVII,
entre os índios Chiquitos do sudoeste da Bolivia e entre os Mojos do
noroeste da Bolivia. O objetivo era gigantesco, pois se pretendia vincular
toda esta cadeia de reduções, desde o Orinoco até o rio Paraná.
ESTRUTURAÇÃO SOCIAL E PROMOÇÃO HUMANA
De acordo com os critérios enunciados anteriormente e indispensáveis
para a obra da evangelização, a equipe de missionários criou e manteve
esta notável experiência, graças ao seu espírito de abnegação e preparação
para o trabalho. Popescu, descreve assim: “As equipes de missionários
cuidadosamente selecionados, bem preparados e adestrados,
vigorosos tanto física como moral e espiritualmente, disciplinados
e obedientes constituíram o elemento motor de uma estrutura
hierarquizada, contínua e eficaz. Verdadeiros mestres nas tarefas
que hoje chamamos “Assistência técnica para os povos sub-
desenvolvidos”, os jesuítas souberam integrar suas equipes sobre
ampla base interdisciplinar... Educadores e psicólogos, engenheiros
e arquitetos, metalúrgicos e agricultores, artesãos dos mais
distintos ofícios, médicos e farmacêuticos, até pintores e
escultores”.
Limando tudo o que há de panegírico, os jesuítas seguiam a tradição
dos grandes missionários espanhóis; São Francisco Xavier já havia
manifestado a preocupação dos missionários nas artes mecânicas, medicina
e farmácia. Um dos missionários da época, o Pe. Cardiel, homem bastante
preocupado com a promoção humana dos índios, falando da criação das
ovelhas dizia:”Temos livros escritos que tratam disso e todo gênero
de economia natural e caseira e nos aplicamos a isso para o bem
daqueles pobres. Damos lições de tudo o que devem fazer”.
A organização e a vida nas reduções teve dois princípios:
A autonomia do índio com relação ao branco
A educação política e religiosa
Em função destes dois princípios se sistematizava a disposição das
reduções. Todas as reduções ou povoados de índios eram construídos de
modo uniforme. Escolhido o terreno, levantava-se primeiro a igreja; de um
lado a casa dos missionários e as escolas; do outro as oficinas.
Atrás de um cercado ou horta para os missionários e na frente uma
grande praça de uns 250 metros de lado, em cujo centro se levantava a
cruz ou a imagem de Nossa Senhora. Dos lados da praça se alinhavam as
casas dos índios formando ruas bem traçadas. O número de habitantes
oscilava entre mil e sete mil. Como cabeça de cada povoado estavam dois
ou três missionários.
As reduções deveriam estar relativamente perto de um centro de onde
irradiava a evangelização, porém, sempre independente da cidade
espanhola para que não perdessem sua autonomia. Tão pouco poderiam
entrar nelas, mestiços ou negros: os únicos habitantes eram os índios e de
entre eles nomeavam-se as autoridades, sempre sob a direção do pároco.
Foi, sem dúvida, um sucessos dos jesuítas poderem fazer isso sem a
presença dos “encomenderos”.
O sacerdote era o diretor absoluto das reduções. Os missionários, que
pelo testemunho do Pe. Cardiel, constituíam uma equipe cheia de
habilidades, instruíam os índios nas primeiras letras e nas industrias
elementares para qualquer povo civilizado. A constituição fundamental ou
base da vida nas reduções foi a família. De certo modo cada redução era
autárquica pois contava com todas as obras artesanais que requeria a vida
humana sóbria na época. “No material, alcançaram um nível superior
aos lavradores da Europa... A agricultura os livrava da fome;
tinham campos dos quais recebiam frutos diariamente mais do que
o necessário... Os anciãos, viúvas e órfãos tinham assistência
assegurada. Tiveram escolas de ofícios e belas artes, tecidos, com
jornadas de trabalhos curtas, interrompidas com muitas festas”.
No aspecto econômico, as reduções tinham bases bastante sólidas.
Exploração de erva-mate, bem como agricultura e pecuária foram
atividades bem desenvolvidas. Eram vassalos da monarquia espanhola, mas
isso pelo menos lhes deu o direito à terra e a libertação da escravidão. Os
jesuítas ensinaram afazer uso adequado de sua liberdade e propriedade
para valorização dos bens de produção dentro de uma ótica cristã. Harnisch
escreve a respeito do trabalho econômico das missões: “Para alimentar
os indígenas, os jesuítas estabeleceram estâncias, onde era
mantido, ao todo, cerca de 1 milhão de cabeças de gado.
Acrescentem ainda as enormes plantações de frutos do campo,
especialmente trigo e milho, batatas e mandioca. Havia, além
disso, áreas extensas cultivadas com árvores frutíferas e algodão.
Sabemos que uma única redução fornecia nada menos de 2.000
toneladas de algodão. Conseguiram os jesuítas cultivar a erva-
mate. Ano por ano, cargas enormes de erva-mate preparadas
desciam peio Uruguai rumo a Buenos Aires”.
O Pe. Antonio Sepp que trabalhou durante anos nas reduções relata:
“Costumamos, a seu tempo, colher cerca de três mil quintais de
algodão, e quando o ano é fértil, até seis mil. Tecido este algodão,
perfaz, algumas vezes, vinte mil braços de fazenda, outras vezes
ainda mais”.
Por isso, pode-se perfeitamente deduzir a respeito da prosperidade
econômica ainda que relativa. Não queremos aqui fazer um estudo de todo
o sistema econômico dos guarani, mas é preciso, sem dúvida aludir a
algumas realizações conseguidas pelos missionários, como meios e
resultados da promoção humana dos guarani.
O sistema das propriedades
O regime de propriedade privada como se entendia nessas
circunstâncias foi estruturado através da “abambaé” ou posse privada
(mbaé= propriedade; abá= de cada índio). A organização sempre teve a
tendência de dar ao índio mais terra, procurando tirá-lo da indolência que
lhe era natural. Em suas terras próprias, os índios construíam uma cabana
para viver ali na época do trabalho. As casas da população se faziam
comunitariamente, porém, eram dadas a cada família como posse privada.
Os índios possuíam suas ferramentas de trabalho; mas o ganho e os animais
de tração e de carga pertenciam à comunidade. O fruto de pequenos
trabalhos era de propriedade do agricultor.
Os bens da comunidade, especialmente o terreno comum onde se
cultivavam os cereais e o algodão, era “propriedade de Deus”ou
“tupambaé”. Basta o nome para se saber que a base da vida social e
comunitária, como também o fundamento do humanismo era Deus. Os
terrenos comunitários eram necessários. Nos tempos das secas ou
fenômenos como pragas, impunham seguranças econômicas e os jesuítas
souberam inculcar isso aos guarani.
Na “tupambaé”promovia-se a agricultura comunitária; as “propriedades
de Deus”eram de grande extensão; durante a época do trabalho, que
durava sete meses ao não, os índios trabalhavam nas segundas-feiras e nos
sábados no campo comum. Pagava-se aos índios diretamente dos produtos
do campo ou por meio de permutas, em vestidos, tabaco ou empregando
parte das entradas que resultava na venda destes trabalhos para pagar os
tributos; compravam-se, ademais, ferramentas para o trabalho comum. Os
lucros normalmente eram generosos. Existiam ferrarias comuns para
fabricar ferramentas, instrumentos de trabalho e outros elementos de
consumo da comunidade que respondessem a uma boa cultura.
Os trabalhos que se desenvolviam nas oficinas eram muito variados:
carpinteiros, ferreiros, sapateiros, tecelões, costureiros, curtidores,
estatuários, douradores, armadores de canos, etc. Cada oficial tinha uma
equipe de auxiliares. O instrumento era modesto para cada oficio, porém, os
artesãos tinham adquirido um elevado nível de eficiência. Um antigo
missionário jesuíta em obra publicada 20 anos depois da extinção da
Companhia de Jesus pelo papa Clemente XIV, observa: “Trabalhavam em
seus labores com tanta destreza, como qualquer excelente artífice
europeu...” “Causariam, sem dúvida, admiração, a quem os visse,
os magníficos órgãos que construíam e os instrumentos musicais de
todas as classes, os famosos vasos, os trabalhos têxteis e outras
manufaturas perfeitas”.
Poder-se-ia falar de comunismo nas missões entre os guarani? A obra
de Lugon intitulada “A republica comunista cristã dos guarani”fala nesses
termos. Porém, trata-se de um termo anacrônico e impreciso. Havia em
cada redução um controle de uma administração central, sempre nas mãos
dos sacerdotes que determinavam a política econômica a seguir. O que
parece válida é a intenção de Lugon, porque o termo é aplicável em sentido
amplo. Talvez o termo que melhor define o regime seria o socialismo
teocrático. Socialismo porque a economia foi organizada em função da
comunidade. Tanto que as propriedades particulares praticamente existiam
na teoria. Teocrático porque tudo tendia para Deus e os guarani foram
dominados por uma elite eclesiástica.
O RITMO DA VIDA COTIDIANA
A vida nas reduções transcorria de modo extremamente detalhado,
com uma contínua referencia para o religioso, desde o nome das reduções
até mesmo à oração comum (daí o fato de usarmos o termo teocrático, para
definir parte do regime vivido nas reduções). Para os missionários tratava-se
de uma vida de grande simplicidade, porém cheia de ocupações porque o
sacerdócio era o centro da vida. Conta o Pe. Cardiel a respeito do sistema
de vida: “Ao amanhecer começavam a tocar na praça e gritar pelas
ruas: “irmãos já quer amanhecer o dia; e Deus os guarde e ajude a
todos. Despertai vossos filhos para que venham louvar e rezar a
Deus, e ouvir a Santa Missa e depois para o trabalho...”Os meninos,
então, vão à igreja e entram ordenadamente, cantando o “Bendito
e louvado” em sua língua ou em castelhano, que nas duas línguas o
sabem e com eles muita gente do povo; e em alguns povoados, que
por bondade do terreno tem todas as sementeiras perto, entra todo
o povo para a missa, como num dia de preceito”.
Depois disso, as crianças vão comer em suas casas e retornam para a
praça para receberem o trabalho que vão desenvolver durante o dia, este
trabalho é sempre feito na comunidade, nos algodoais ou nas sementeiras
de milho. “Isto se faz para que não se criem ociosos e para que
desde pequenos saibam cuidar das obrigações de uma família. Na
parte da tarde, as crianças voltam para rezar orações e o rosário.
Os mais hábeis e menos rudes vão para escolas onde aprendem a
ler em sua língua, em espanhol e latim; aprendem a escrever com a
mão e imprensa; tem também escolas de música, dança que
chegam a usar nas celebrações; são modestas, mas com arte e
habilidade”.
Os adultos tem um ritmo de vida apropriado para sua condição.
Depois da missa que não é obrigatória, vão tomar o mate e depois para o
trabalho nas propriedades particulares e nas comuns. Voltam mais tarde e
vão rezar o rosário, recebem uma porção de mate; a carne, eles a tem
diariamente, ou senão uma vez a cada três dias nos povoados menos
afortunados.
A caminhada ao “tupambaé” tem um caráter religioso, pois vão em
procissão, os adultos com a imagem de Santo Isidoro, as mulheres com a
imagem da Virgem, os rapazes com uma do Menino Jesus. Os artesãos
permaneciam nas oficinas comuns junto à casa do padre. Quando anoitecia
um som de tambores anunciava a hora de ir dormir. Todo mundo devia
recolher-se para sua casa. As ruas eram então vigiadas toda noite por uma
equipe de vigias.
Criticou-se a uniformidade de costumes, feito tudo pelo toque de
campainha. Mas certamente os guarani viviam bem assim. Os jesuítas
aproveitaram a feição musical e a disposição dos guarani para o canto e a
puseram a serviço da metodologia evangelizadora. Nas reduções do
Paraguai, a liturgia converteu-se em instrumento educador do homem e do
cristão.
Cardiel tem um relato minucioso de como transcorre o Dia do Senhor
nas reduções. Ao toque do sino todo o povo vai à igreja. No templo, os
adultos aprofundam-se no catecismo; os rapazes no amplo pátio da casa
dos missionários e as meninas no contiguo junto à igreja, que é um
verdadeiro jardim. Reunidos na igreja, “segue-se o “asperges” com a
capa pluvial e toda solenidade de música. À celebração da missa
dava-se em todo o significado de “celebração”. Existem partituras
dos melhores músicos da Espanha e de Roma para tocar e cantar.
Entoa-se um salmo de introdução e os meninos cantam o “laudate
pueri”, voltam a repetir que louvem a Deus e isso fazem quatro ou
cinco vezes até que se acaba o salmo. No “Gloria Patri” todos
juntam altos e contraltos, clarins, baixos, violinos, harpas e órgãos
cantam o glória e com tal harmonia, majestade e devoção que
enterneceria o coração mas duro. E como eles nunca cantam com
arrogância, mas com toda modéstia, e as crianças são inocentes, e
muitas vezes poderiam brilhar nas melhores catedrais da Europa, é
muita a devoção que saúdam... Depois da consagração, voltam a
tocar um pouco e depois entoam algum hino, “Jesus dulcis
memória”ou o “Ave Maris Stella”ou alguma letra a Nosso Senhor, à
Virgem, a Santo Inácio ou ao santo daquele dia”. “Alem disso,
todos os dias de preceito para os índios, há sermão com todas as
formalidades. Passado algum tempo da missa cantada, há a missa
rezada para os convalescentes ou que estiveram ocupados. Depois
das vésperas se fazem os batismos dos que nasceram naquela
semana, com toda solenidade, que nos grandes povoados chegam a
ser de 16 a 20...”
ESTURURA POLITICA, SOCIAL E MILITAR
Como era a política interna das reduções? A organização? Harnisch
escreve: “A política interna era totalmente democrática. Os homens
de cada aldeia escolhiam o prefeito, o chefe de policia, o
comandante militar, o escrivão e o conselho. Estes órgãos
trabalhavam sob as vistas de dois padres, o cura e um companheiro
ou coadjutor, que supervisionavam todos os negócios de ordem
secundaria, como escolas, industrias, artesanatos, agricultura,
pecuária, exercito e justiça”.
O papel dos caciques foi profundamente respeitado pelos jesuítas.
Algumas reduções chegavam a contar com aproximadamente 10 caciques,
estabelecendo laços de união muito forte entre eles. Além das reduções, os
caciques tinham funções de resolver os litígios entre os índios e liderar o
grupo em tempos de guerra. O líder espiritual era o pajé. Os jesuítas não
encontraram nenhum problema com os caciques, o que não aconteceu com
os pajés, pois estes tiveram seu espaço perdido por causa da influencia dos
jesuítas. Havia ainda a autoridade real, que procurava integrar o cacique
nos organismos da administração colonial.
Além do cacique havia o cabido, conselho eleito composto por um
corregedor, dois alcaides ordinários da irmandade, um alferes real, um
mordomo e um secretário. O corregedor era a autoridade maior diante da
administração espanhola. Na prática era um auxiliar do cura, que era ao
mesmo tempo o líder político e religioso. Os indígenas não participavam da
eleição do celibato; em todos os processos eletivos influenciava
decididamente o jesuíta. As eleições eram controladas e restritas.
Que se pode dizer da liberdade do índio num sistema assim? Oscar
Beozzo assim se expressa: “A liberdade do índio é, pois,
compreendida como liberdade que melhor pode servir à estratégia
global da colonização do que sua própria escravidão: índio livre,
sim, mas aldeado e pronto para servir tanto nas tarefas militares
de defesa quanto na prestação de serviços”.
A verdade é que dentro daquele sistema entre a escravidão da
expansão espanhola e o projeto missionário dos jesuítas não havia diferença
de grau, mas diferença entre a vida e a morte. Para o indígena era
preferível a liberdade restringida e paternalista do jesuíta à escravidão e/ou
a morte imposta pelos dois impérios da época.
Com relação às armas, os jesuítas poderiam obter armas e licença para
formar um exercito, não para fazer conquista e enriquecer com os despojos
de outras nações, mas para defender do perigo dos bandeirantes paulistas.
Os índios foram instruídos pelos padres para sua defesa. Eram hábeis
também na fabricação de armas e ferramentas. O exercito guarani, com
isso, acabou prestando enorme beneficio aos próprios espanhóis. Para os
índios, um exercito próprio significava manter sua liberdade e escapar do
genocídio e da escravidão.
CONTINGÊNCIA DAS REDUÇÕES
Esta singular experiência viu-se submetida à perseguição e à
hostilidade. Os primeiros grandes inimigos foram os colonos portugueses,
mais conhecidos como bandeirantes ou paulistas, e com eles os
“encomenderos” espanhóis, que organizaram ataques sistemáticos às
reduções para pilhagem e caça humana. Nem todos eram portugueses, mas
foragidos e aventureiros de outros países, que vinham para conseguir
escravos preparados. Um dos missionários, Pe. Francisco Diaz Tano
escreveu em 1652, que dos 48 povos organizados, 26 haviam sido
destruídos pelos paulistas, afirma que levaram cerca de 300.000 índios;
somente deixaram 22 reduções com 40.000 almas. A primeira incursão
organizou-se no ano seguinte da inauguração das reduções, ou seja 1611.
Terrível foi a incursão de 1628 efetuada por 400 paulistas ajudados por
2.000 índios tupis, ferozes auxiliares dos bandidos portugueses. Nesta
ocasião distinguiu-se o Pe. Meseta no socorro dos índios. Foi com eles
procurando auxiliar os que padeciam pelo caminho; muitos desfaleciam ou
caiam mortos. Em vão na cidade de São Paulo apelou para as autoridades
do país; estes eram cúmplices. Em 1638 abateu-se uma nova incursão
destruindo tudo. De 11 florescentes reduções, restaram somente duas e de
100.000 índios reduzidos, sobraram somente 12.000.
Os jesuítas decidiram emigrar com todos os índios; o Pe. Ruiz de
Montoya organizou uma gigantesca odisséia. Em 700 balsas e canoas e em
meio a grandes perigos desceram pelo rio Paraná em terras mais próximas
a cidades espanholas. Vendiam, os missionários, até mesmo livros e
ornamentos da igreja para dar de comer aos índios antes de acomodá-los
em novas terras, e se não morreram de fome foi porque um bom espanhol
cedeu um rebanho de cerca de 40.000 vacas.
Era preciso por um remédio radical. Armar os índios, o que não era
lícito sem a permissão do rei. Pe. Ruiz de Montoya dirigiu-se para a corte em
1637 e Felipe IV o permitiu. Em 1640 estava de volta ao Paraguai. Desde o
Peru, administrou-se aos índios o ensinamento bélico fundamental, usos dos
instrumentos de pólvora. Os irmãos coadjutores adestraram os índios no
manejo das armas, e quando em 1641 os paulistas e os tupis, em número
de mais de 3.000 reapareceram para repetir o saque foram rechaçados por
4.200 índios das reduções e numa luta que durou dois dias saíram os índios
vitoriosos desta vez.
O estado de alarme durou por cerca de 80 anos. Às vezes uniam-se
contingentes espanhóis para ajudar os índios. Em 1676 derrotaram os
paulistas e prenderam cerca de 4.000. outras reduções que não entravam
no âmbito paraguaio como as dos índios Chiquitos, tiveram também que
defender-se da mesma forma. Os guarani não só se mostravam valentes e
fiéis na defesa dos seus, mas prestaram valorosa ajuda aos espanhóis no
Cerco de Buenos Aires contra os araques dos portugueses. Aos índios das
reduções deve-se o atual território da Republica do Uruguai que pertenceu à
coroa espanhola.
Urbano VIII e a defesa dos índios
Como um século antes, o papa Paulo III tomou a defesa dos índios,
também agora Urbano VIII publicou uma bula para condenar os escravistas
e salteadores e para proteger os índios. O Pe. Diaz Tano, que viajou do
Paraguai para Roma levou o encargo de implorar o auxilio do papa em favor
dos índios. Através da bula “Comissum Nobis” de abril de 1639, o papa
defende os índios começando por recordar a atitude de Paulo III. Diz
também que neste procedimento desumano há um repudio do evangelho.
Depois continua: E nós, seguindo o mesmo caminho de nosso
predecessor Paulo, e na vontade de reprimir a ousadia destes
malvados, que apartam violentamente os índios por meio de ações
desumanas, da fé, quando deveriam ser atraídos para ela por uma
conduta cheia de caridade cristã e de compreensão...ordena
proclamar que qualquer pessoa seja qual for sua dignidade e oficio,
incorrerá em excomunhão reservada ao próprio pontífice romano se
se atrever “escravizar os índios, vendê-los, comprá-los, presenteá-
los, tirá-los de seu lugar ou provar-se a liberdade de qualquer
forma que seja ou prestar auxilio, favor ou colaboração a quem
cometer tais coisas...”
Na minuciosa redação destas clausulas que não são puramente
formalistas da Cúria, vê-se a vontade de fechar este caminho de tão
perversas iniciativas. Cem anos mais tarde o papa Bento XIV em outra bula,
intitulada “Immensa Pastorus” reiterou com mais força esta doutrina e
defendeu a liberdade dos índios do Brasil, Paraguai e do Rio da Plata.
Por parte dos jesuítas, as reduções tiveram também momentos de
crise, quando 120 anos depois de sua fundação sofreram os missionários
uma espécie de torpor ou cansaço que pôs em perigo o funcionamento das
reduções. O geral da ordem, Francisco Retz, fez uma enérgica intervenção e
o trabalho pode ser retomado com entusiasmo.
RUINA DAS REDUÇÕES
Com a expulsão dos jesuítas de todos os domínios espanhóis, pereceu
definitivamente este esforço de promoção e de evangelização. No dia 27 de
março de 1767, Carlos III firmou a sentença em que “estimulado de
gravíssimas causas que reservou ao seu real ânimo e usando da suprema
autoridade que o “Todo Poderoso depositou em suas mãos para a proteção
de seus vassalos e respeito à sua coroa, veio mandar expulsar de todos os
domínios e Índias, Ilhas Filipinas e demais adjacentes, aos regulares da
Companhia de Jesus...”
Três mil religiosos tiveram que abandonar repentinamente o trabalho
apostólico na América e deixaram de forma imprevista quase meio milhão
de neófitos que estava sob seus cuidados nos domínios espanhóis. Somente
do Paraguai (Província Religiosa) saíram 475, dos quais aproximadamente
uma centena trabalhava diretamente nas reduções.
Para por outros em seu lugar, os bispos dispunham de apenas 10
sacerdotes que deveriam atender tão imensa extensão; os antigos
missionários foram expulsos com aparato militar, encarceramento e
inventario de tudo o que possuíam; obedeceram sem oferecer resistência.
Trinta anos mais tarde a obra era irreconhecível e desapareceu para
sempre. Os curas suplentes não estavam habituados ao procedimento de
reduções e ignoravam as línguas; instalados sem preparação nenhuma,
fracassaram. O sistema de autoridade modificou-se completamente, passou
dos missionários para os civis, abusivos e finalmente grande parte do
território passou para o domínio português.
Desde o século XVII, contemporaneamente à ofensiva dos jansenistas,
os inimigos dos jesuítas propalaram obstinadamente calunias conta sua
ordem a respeito de tesouros fabulosos, exploração de minas às custas dos
índios e conspiração contra a coroa espanhola. Os jesuítas foram acusados
de comercio ilícito e tráfico proibido aos eclesiásticos. Foram também
acusados de querer constituir no Paraguai um império independente, com
“Nicolau I”, nome com o qual o primeiro imperador seria empossado, que
era um irmão coadjutor; a acusação foi formulada por ocasião do chama
“Tratado de limites”entre 1750 e 1762. Já nesses anos foram arruinadas 7
florescentes reduções. A expulsão dos jesuítas das reduções demorou quase
um ao por temos de uma sublevação dos índios.
AVALIAÇÃO FINAL
A experiência paraguaia das reduções foi submetida a toda espécie de
avaliação desde fatos fantásticos até uma visão denegrida. Para se fazer
uma avaliação devem-se ter em conta muitos elementos: situação
geográfica, situação humana, o tempo cronológico: um século e meio de
duração.
Devem ser levados em conta outros fatos implicados necessariamente
no esforço missionário, ou seja, o passo de uma infra-estrutura espiritual, a
fé compreendida e vivida; o fato familiar: passagem de um estado de
primitivismo poligâmico a outro, familiar e cristão; o fato social, passagem
de uma situação tribal, organizada por razoes de medo e defesa para a
formação de uma comunidade humana com instituições políticas; o fato
econômico com a troca do regime familiar de bens e exercício do direito de
propriedade e o regime coletivo e público.
Os contemporâneos, que sem ser jesuítas, tiveram oportunidade de
visitar as reduções, pronunciaram juízos mais favoráveis do que menos
favoráveis como experiência de evangelização civilizadora. Em 1724, o
bispo de Assunção, frei José de Palos, OFM, informou ao rei: “Me causou
admiração o cuidado e desvelo com que ditos religiosos atendem
aos índios das doutrinas, assim na boa educação espiritual e
temporal, como no amor e lealdade a Vossa Majestade e bom
regime de governo”. Dois anos mais tarde, o bispo franciscano se
expressava assim: “... não cessava de render graças a Deus Nosso
Senhor, ao ver tão florida cristandade, tão bem instruída e
devota”.
Na mesma época, o governador de Buenos Aires, Bruno Mauricio
Zabala, fundador de Montevidéu escreveu ao vice-rei dizendo que, segundo
ele os povos das reduções excediam o melhor governo do mundo.
Aspectos positivos
Diante do “índio encomendado”, criou-se o “índio reduzido”. Houve,
sem dúvida, um salto qualitativo na defesa da vida do índio. As reduções
foram o espaço possível para salvaguardar a liberdade do índio.
Evangelizar sem promover humanamente não é possível. Uma
comunidade para atingir seu crescimento tem que ser promovida em todos
os aspectos. As reduções possibilitaram isso e inegavelmente, os bens
materiais foram de grande valia; tê-los é condição necessária para
evangelizar. Isto foi um avanço histórico notável nas missões entre os
guarani. Os índios foram conscientizados dos seus próprios valores e
dignidade. As reduções criaram espaço e permitiram isso.
Entre todas as experiências com evangelização, nenhuma alcançou
tanto sucesso como as reduções no sentido de melhor nível de vida e
cultura. Segundo Dussel, as reduções foram o máximo de consciência
missionária possível na cristandade das Índias. As reduções, segundo ele,
alcançaram o máximo de poder possível dentro de um férreo sistema de
controle colonial.
O sentido de solidariedade foi profundamente desenvolvido entre os
índios; e graças à solidariedade foi possível a realização deste projeto.
Solidariedade etnológica, já que não se destruíram os laços raciais, mas
foram elevados por meio da educação; solidariedade religiosa, sob a direção
dos sacerdotes; solidariedade política, que instaurou a coesão das reduções
inclusive para defesa de forças hostis; solidariedade econômica, que nas
reduções era um só organismo.
Aspectos negativos
Os índios ficaram livres da conquista dos colonizadores para serem
reduzidos à conquista religiosa. Não foram totalmente livres, mas
dominados. Viveram dentro de um sistema de dominação mais brando.
A cultura indígena foi pouco valorizada. Foi vista como um meio para a
evangelização e não como um fim em si mesma.
Morreram muitos índios por causa de doenças trazidas pelos brancos;
epidemias que se alastravam por causa da concentração da população.
As reduções foram paternalistas. Foram controladas por sujeitos
históricos estranhos à cultura indígena. Os índios não tinham controle sobre
seu próprio destino. Os missionários, claro, seguiam sua metodologia
apostólica, mas os índios foram levados a crer que a pessoa do sacerdote
era indispensável para suas vidas e sobrevivência. É certo que os
missionários não agiram nunca de má fé, mas os índios não se tornaram
agentes de sua própria historia. então deixamos a pergunta: foi o
infantilismo dos índios que causou a prolongação do estado paternalista ou
a atitude paternalista manteve os índios no infantilismo?
CONCLUSÃO
As reduções representaram uma utopia concreta de evangelização
possível durante um século e meio. O índio guarani sobreviver, mas
enquadrado dentro do império colonial; viver fora dele era impossível.

CAPÍTULO VII
CONQUISTA E EVANGELIZAÇÃO: VISÃO INDÍGENA

A evangelização da America Latina não aconteceu nos moldes da


evangelização da igreja primitiva, quando o apostolo, armado apenas de
sua fraqueza e da força do evangelho se apresentava aos judeus, gregos,
gálatas e demais povos. A evangelização aconteceu vinculada ao projeto
político e ao poder de coação do estado. A evangelização formou a
substancia ideológica do projeto político.
Assim, projeto mercantil, projeto político, projeto missionário são
diferentes aspectos da mesma empresa colonial. Esta é a marca registrada
da empresa missionária na America Latina e também sua mancha original,
difícil de ser apagada ou pelo menos reparada.
O que chegou até nós da reação indígena com relação e à catequese é
pouco e precário, quase sempre recolhidos pelos próprios missionários. No
entanto, há escritos indígenas independentes que nos dão uma idéia da
profunda comoção que a chegada dos conquistadores provocou no seio das
populações indígenas e de suas classes dirigentes.

1. TESTEMUNHO ASTECA
Existe um poema composto perante a tragédia do massacre dos
sacerdotes e da nobreza no templo maior e a posterior destruição da cidade
do México.
Contexto. Cortez desembarcou nas costas de Veracruz, México, no dia
22 de abril de 1519. A noticia que chegou até a corte de Motecuhzoma
causou temor e perplexidade. No dia 8 de novembro de 1519, Cortez é
recebido por Motecuhzoma na calçada de Ixtapalapa, na entrada de
Tenochtitlán, a capital do reino asteca. Os astecas se reúnem para celebrar
a grande festa de Toxcatl, perto da páscoa de 1520. Alvarado, que ficou no
lugar de Cortez cerca o templo maior e liquida a elite dirigente, religiosa e
econômica da capital, enquanto o rei e sua família são presos.
Cortez quando volta tem que fugir e retorna com 80.000 soldados
tlaxcaltecas e de outros povos inimigos dos astecas. É feito um cerco na
capital, que era cercada por terra e água submetendo a população à fome e
ao desespero. A cidade cai no dia 13 de agosto de 1521. Eis o poema:
“Isso tudo aconteceu conosco.
Nós vimos, estamos estupefatos
com essa triste e lamentosa sorte,
nos vimos angustiados.
Nos caminhos jazem dardos quebrados;
os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
ensangüentados os seus muros.
Vermes abundam por ruas e praças,
e as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.
Vermelhas estão as águas, como alguém as tivesse tingido,
e, se as bebíamos, eram água de salitre.
Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade
e nos restava os muros por herança uma rede de buracos.
Nos escudos esteve nosso resguardo,
mas os escudos não detém a desolação.
Temos comido pão de colorin
temos mastigado grama salitrosa, pedaços de adobe,
lagartixas, ratos,
terra e pó e mais os vermes.
Comemos a carne quando mal havia sido colocada sobre o
fogo.
Uma vez cozida a carne, dali a arrebentavam, a comiam no
fogo mesmo”.

A experiência seguinte à devastação e ao morticínio foi a da triste


sorte dos sobreviventes: pilhagem do que sobrou, violência sobre os
prisioneiros, violação das jovens, venda como escravos, desnudamento e
humilhação. O mesmo cronista narra: “E quando eles foram feitos
prisioneiros, foi quando a população começou a sair a ver onde se
estabelecer. E ao sair iam maltrapilhos, as mulherzinhas levavam
as carnes dos quadris quase desnudas. E por todos os lados os
cristãos examinavam. Abrem-lhes as roupas, por todos os lados
passam-lhes a mão, por suas orelhas, por seus cabelos, por seus
seios”. “... o que era grande capitão, o que era grande varão
somente por lá anda e não veste senão farrapos. De igual modo, as
mulheres: somente levam em suas cabeças trapos velhos e fizeram
suas roupas com peças de várias cores. Por isso estão aflitos os
principais e disso falam uns com os outros: perecemos pela
segunda vez”.
Ainda há um cântico triste sobre a conquista, composto
provavelmente em 1523, onde já entrevê o irremediável da conquista sobre
o destino na nação mexicana:
“Chorai, amigos meus,
entendei que com estes fatos,
perdemos a nação mexicana”.

A conquista é um trauma, um pesadelo que se abateu sobre os povos


indígenas da America Latina. Houve a destruição, até hoje ainda não
recuperada; para eles não houve volta do exílio como o povo hebreu;
continuam exilados dentro de sua própria pátria.
A “conquista espiritual”- em 1524 chegaram ao território dos astecas
os doze primeiros franciscanos. Começaram a doutrinar no pátio do
convento de São Francisco construído entre as ruínas de Tenochtitlan. Eis o
testemunho retirado do livro “Coloquios de los doce”:
“Condenam violentamente as antigas crenças religiosas.
Assim que os frades terminam a pregação, pões-se de pé um dos
senhores principais e “com cortesia e afabilidade”, manifesta seu
desgosto ao ver assim atacados os costumes e as crenças tão
estimados por seus avós. Confessa não ser um sábio, mas afirma,
em seguida, que ainda vivem alguns mestres, dentre os quais cita
os sacerdotes, os astrólogos, os quais guardavam os antigos livros
de pinturas – eles poderiam responder aos frades”.
Vemos que o discurso dos missionários nega a totalidade do
mundo espiritual e indígena. Os astecas tinham um conceito elevado de si
próprios, tinham orgulho de sua cultura, de sua raça, de sua língua.
No dialogo dos sábios indígenas de Tenochtitlan com os missionários
franciscanos, há consciência da desigualdade em que se instaura a
conversão, depois do desastre militar e político do povo, a destruição de sua
cidade, do seu governo e dos seus templos. Depois disso, o que estaria em
jogo? Basta alguns parágrafos para entender:
“... e, agora, que é que diremos?
O que é que devemos dirigir a vossos ouvidos?
Somo por acaso alguma coisa?
Somos tão somente gente comum...
Através do interprete respondemos,
devolvemos o alento e a palavra
do Senhor que está perto e conosco.
Por causa dele nos aventuramos,
por isso nos lançamos no perigo...
Talvez para nossa perdição,
talvez para nossa destruição, é para aí somente que seremos
levados.
(Mas) aonde deveremos ainda ir?
Somos gente simples,
somos perecíveis, somos mortais,
deixai-nos, pois, morrer,
deixai-nos perecer
pois nossos deuses já estão mortos
... vós dissestes
Que nós não conhecemos ao Senhor que está perto e conosco,
Aquele de quem são os céus e a terra.
Dissestes que não eram verdadeiros os nossos deuses.
Nova palavra é esta, a que falais,
por causa dela estamos perturbados,
por causa dela estamos incomodados.
Porque os nossos progenitores,
os que existiram, os que viveram sobre a terra,
não falavam desta maneira.
Eles nos deram suas normas de vida,
eles tinham os deuses por verdadeiros, prestavam-lhes culto,
louvavam os deuses.
Eles nos ensinaram todas as suas formas de culto,
todos os seus modos de louvar (os deuses).
Por isto, diante deles, aproximamo-nos a terra à boca,
por eles nos sangramos, queimamos copal (incenso)
e ofertamos sacrifícios.
Era a doutrina dos antepassados
que são os deuses pelos quais se vive,
eles nos mereceram (com seu sacrifícios nos deram a vida).
... e, agora, nós destruiremos a antiga regra de vida?
Nós sabemos a quem se deve a vida,
a quem se deve o nascer, a quem se deve o gerar,
a quem se deve o crescer, como se deve invocar, como se
deve rogar.
Ouvi, senhores nossos, não façais algo a vosso povo,
que lhe cause a desgraça, que o faça perecer...”

Ao mesmo tempo em que pedem aos missionários que nada façam que
cause desgraça ou faca perecer o povo, tem consciência das conseqüências
da conquista espiritual: deixai-nos, pois morrer, pois nossos deuses já estão
mortos.
Quando os deuses morrem, os homens não têm mais porque continuar
vivendo. Um chefe indígena do Peru, referindo-se aos missionários assim se
expressou: “os espanhóis nos matam por fora; eles nos matam por
dentro”.
Se a experiência da conquista foi a experiência da destruição física, a
experiência da conquista espiritual, da maneira como foi conduzida
representou a destruição da razão de viver, a morte interior do mundo e do
homem indígena. Tanto mais que a religião estava ligada à experiência
coletiva das festas e do culto, das danças, dos lugares sagrados – e tudo
isso foi destruído.

2. TESTEMUNHO MAIA
Os maia viviam na atual área quiche da Guatemala. A presença dos
espanhóis no pais dos astecas causou entre eles muita discussão. Em 1524
perguntavam-se se deveriam ou não receber os espanhóis. Devem enfrentá-
los defendendo sua vida e liberdade, ou tentar salvar a vida, pagando um
tributo e submetendo-se? Os debates religiosos também se instalaram.
Chegaram até nós os Anais dos Cakchiqueles e poemas e escritos de Chilam
Balam. Alguns textos soa premonições proféticas, advertindo o povo dos
males que hão de sobrevir com a chegada dos “estrangeiros de barba
ruiva”. No México, Cortez é confundido com o retorno do Quetazlcoatl, e
tratado como mensageiro dos deuses; no âmbito maia já há um trabalho de
desmistificação e os espanhóis são vistos como “dzules”, ou estrangeiros.
Eis a profecia de Chumnanyel e Tizimin:
“Ai! Entristeçamo-nos porque chegaram!
Do oriente vieram, quando chegaram a esta terra os
barbudos,
os mensageiros do sinal da divindade,
os estrangeiros da terra, os homens ruivos...
... Ai! Entristeçamo-nos porque eles chegaram!
Ai de Itzá, Bruxo da água,
pois vossos deuses já não protegerão mais!
Este Deus Verdadeiro que vem do céu só de pecado
falará,
só de pecado será o seu ensinamento.
Inumanos serão seus soldados, cruéis seus cães bravos.
... Ai de vós, meus irmãos menores,
que no 7 Ahau Katun vereis excesso de dor
e excesso de miséria, pelo tributo reunido com
violência,
e antes de tudo entregue com rapidez!
Diferente tributo amanhã e finda a manhã, dareis;
Isto é que vem, filhos meus!
Preparai-vos para suportar a carga da miséria
que vem sobre vossos povos.

Percebe-se neste quadro a tristeza que irá se abater sobre as


populações com a chegada dos estrangeiros, o desfalecimento dos seus
deuses frente à nova religião. Na profecia de Chilam Balam de Chumayel, já
está colocada a questão do cristianismo dos espanhóis de maneira clara:
“Cristianizaram-nos
mas nos fazem passar de um dono ao outro como
animais.
E Deus está ofendido com os “chiupadores”.

Do livro das Linhagens do mesmo Chilam Balam temos um texto ainda


mais duro: “No 11 Ahau se começa o cômputo porque se estava
neste Katun quando chegaram os Dzules, os estrangeiros, os que
vinham do Oriente quando chegaram. O cristianismo, então
também começou... somente pelo tempo louco, pelos loucos
sacerdotes, foi que entre nós se introduziu o cristianismo. Porque
muitos cristãos aqui chegaram trazendo o verdadeiro Deus: mas
esse foi o principio de nosso miséria, o principio do tributo, o
principio da esmola, a causa da qual saiu a discórdia oculta, o
principio da escravidão pelas dívidas, o principio das lutas com
arma de fogo, o principio dos atropelos, o principio dos
despojamentos de tudo, o principio da escravidão pelas dívidas, o
principio das dívidas castigadas às costas, o principio da contínua
rixa, o principio do padecimento. Foi o principio da obra dos
espanhóis e dos padres, o principio de se utilizar os caciques, os
mestres de escola, e os fiscais. Por serem crianças pequenas, os
moços dos povoados eram martirizados! Infelizes, pobrezinhos! Os
pobrezinhos não protestavam contra aquele que, a seu bel-prazer
os escravizava, o anticristo sobre a terra, tigre dos povos, gato
selvagem, sugador do poder índio! Mas virá o dia em que as
lágrimas dos seus olhos chegarão até Deus e baixará a justiça de
Deus de um golpe sobre o mundo. Verdadeiramente é a vontade de
Deus que voltem Ah-Kantenal e Ix-Pucyolá para sumir com eles da
face da terra”.

Este outro poema contrapõe os dois tempos, antes e depois de os


deuses serem abatidos, descrevendo o cortejo de males físicos e espirituais
trazidos pelos espanhóis. Entre eles estava o medo, a negação total do
mundo indígena. Vários males invadiram os corpos subjugados dos índios. O
poema foi recolhido no livro de Chilam Balam:
“Então tudo era bom e então os (deuses) foram
abatidos.
Havia neles sabedoria.
Não havia então pecado... não havia então enfermidade,
não havia dor de ossos, não havia febre para eles,
não havia varíolas...
Retamente erguido ia seu corpo então.
Não foi assim que fizeram os dzules quando chegaram
aqui.
Eles nos ensinaram o medo,
vieram fazer as flores murchar,
para que sua flor vivesse,
danificaram e engoliram nossa flor...”

3. TESTEMUNHO INCA
O império inca media uns quatro mil quilômetros quadrados, Cuzco era
o centro do império, onde estava o templo do sol.
O encontro entre Pizarro e o Inca Atahualpa foi através da troca de
presentes, mas bem depressa a traição, a cobiça, a prisão do Inca e sua
morte repetem a tragédia mexicana.
O testemunho inca da conquista e evangelização chegou-nos através
do escrito de Guamán Poma, quéchua de pura linhagem, convertido, porém
sempre defendendo os indos com uma consciência fantástica. Nasceu por
volta de 1526 e morreu quando tinha 88 anos de idade. Sua obra vem
acompanhada de 300 desenhos, que nos dão uma visão perturbadora da
tragédia indígena. Sua obra foi publicada pela primeira vez em 1936.
Poma narra o encontro trágico de Atahualpa e Pizarro em Cajamarca,
onde o Inca estava com sua corte e 100.000 índios. Os espanhóis já haviam
tomado suas posições nos pontos mais altos e estratégicos da praça.
“Depois desta resposta entre Frei Vicente, levando na mão direita
uma cruz e na esquerda o breviário. E diz ao dito Atahualpa Inca
que também é embaixador e mensageiro do outro senhor, mui
grande amigo de Deus e que fosse seu amigo e que adorasse a cruz
e cresse no evangelho do Deus e que não adorasse nada que tudo o
resto era coisa de motejo. Responde Atahualpa Inca e diz que não
tem que adorar a nada senão o sol que nunca morre, nem seus
guacas e deuses (que) também tem a sua lei: aquilo que guardava.
E perguntou o dito Inca a Frei Vicente quem lhe havia dito.
Responde Frei Vicente que isso lhe havia dito o evangelho, o livro.
E disse Atahualpa: dêem-me o livro e o tomou nas mãos; começou a
folhear as folhas do dito livro. E disse o dito Inca que, como não me
disse nada, nem me fala a mim o dito livro, falando com grande
majestade sentado em seu trono, e arremessou o dito livro das
mais, o dito Inca Atahualpa. Como Frei Vicente ordenou e disse:
acudam aqui, cavaleiros, estes índios gentios são contra nossa fé!
E Dom Francisco Pizarro e Dom Diego de Almagro, por sua vez,
ordenaram e disse: ataquem cavaleiros, estes infiéis são contra
nossa cristandade e nosso imperador e rei; demos neles!...”
Poma recolhe de maneira eloqüente o trágico mal entendido que se
estabelece entre os dois mundos. O Inca porta-se com altivez, dizendo que
não se via obrigado a tornar-se amigo do rei da Espanha, pois também ele é
grande rei em seus domínios.
Frei Vicente também se apresenta como mensageiro, não apenas do
rei, mas também do seu Deus, o único e verdadeiro, que devia ser adorado,
enquanto os outros deuses nada valiam, a prova do que dizia estava no livro
dos evangelhos. Ao ver que o livro nada lhe falava, Atahualpa, homem de
cultura oral, lança o livro por terra. À palavra do Frei Vicente: “Ataquem
cavaleiros, a estes infiéis... que são contra nossa cristandade e nosso
imperador e rei...” começa a carnificina dos índios sob a pata dos cavalos,
os tiros dos arcabuzes e o pânico que se apoderou da multidão.
O resultado da conquista armada e espiritual: massacre,
despojamento, redução do índio e no caso do seu rei e imperador a um
prisioneiro humilhado e depois levado injustamente, numa farsa de
processo, ao cadafalso.
Guamán conclui com uma ponta de ironia lançada aos cristãos, ao
narrar a morte de Atahualpa: “e asi se fue causa que Le matasen,
cortasen La cabeza, a Atahualpa Inca, e murió mártir,
cristianisimamente em La ciudad de Cajamarca, acabo sua vida”.
Morreu mártir e cristianissimamente o primeiro dentre os incas, mas
não os espanhóis e os frades que o acompanhavam. Sobre eles o juízo de
Guamán é implacável. Os espanhóis espalharam-se pelo país, “...
buscando cada um suas vantagens... fazendo muitos grandes males
e danos aos índios, pedindo-lhes ouro e prata, tirando-lhes suas
vestes e comida e os quais se espantaram por ver gente nunca
vista e assim se escondiam e fugiam dos cristãos”, “...como depois
de haver conquistado e de haver roubado começaram a tomar as
mulheres e donzelas e a estuprá-las e não querendo, matavam
como a cachorros e castigavam sem temor de Deus nem da justiça.
Não havia justiça”.
Na sua linguagem sofrida de índio quéchua que teve que assimilar a
língua do conquistador, que se fez cristão e por isso mesmo tem alta
consciência da radicalidade do evangelho, Guamán constrói um testemunho
impar do que foi a conquista. Ao mesmo tempo, a partir de sua fé cristã,
descobre mais cristianismo no índio esmagado, no rei condenado
injustamente do que nos funcionários, magistrados e padres espanhóis, cujo
Deus era o ouro e a prata.