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Psicologia: Ciência e Profissão Jul/Set. 2016 v. 36 n°3, 520-533.

DOI: 10.1590/1982-3703001012014

O Método Psicanalítico de Pesquisa e a Potencialidade dos Fatos Clínicos

Clarice Moreira da Silva Mônica Medeiros Kother Macedo


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
RS, Brasil. RS, Brasil.

Resumo: Este artigo tem como objetivo discorrer sobre uma modalidade de pesquisa com o
método psicanalítico. Para tanto, apresenta-se um processo de sistematização para sua execução,
partindo-se de elementos teóricos, técnicos e éticos que permitem a atenção aos elementos
essenciais da Psicanálise. Explora-se, desta forma, uma possibilidade de efetiva aplicação do
método de pesquisa psicanalítico no cenário acadêmico a partir da proposta de elaboração de
fatos clínicos. As etapas do processo de construção dos fatos clínicos já indicam os fundamentos
teóricos nos quais esses se sustentam, marcando, assim, a diferença de uma descrição clínica ou
de um estudo de caso. Tomando-se como ponto de partida o recurso à Psicanálise como método
de investigação dos fenômenos humanos, os fatos clínicos, constituídos a partir da experiência
analítica do psicanalista pesquisador, presentificam a dialogia do campo analítico. A pertinência
de pesquisas com o método psicanalítico é reforçada na afirmação de que, por meio delas,
é evidenciada a vitalidade da escuta e da postura investigativa psicanalítica. Nesta direção, o artigo
fornece elementos que têm como objetivo estimular fortemente a investigação em Psicanálise,
considerando-a uma relevante forma de seguir trabalhando e ampliando o legado freudiano.
Palavras-chave: Pesquisa, Metodologia, Psicanálise, Fatos Clínicos.

The Psychoanalytic Method of Research and the Potential of Clinical Facts

Abstract: This article aims to discuss the type of research that uses the psychoanalytic method.
Therefore, a systematic process for its implementation is presented, starting from the theoretical,
technical and ethical elements that allow the attention to the key elements of Psychoanalysis.
Thus, the article explores the possibility of an effective application of the psychoanalytic
research method in an academic setting from the development proposal of clinical facts. The
stages of construction process of the clinical facts already indicate the theoretical foundations
on which these are sustained, marking the difference between a clinical description and a case
study. Taking as starting point the use of psychoanalysis as a method of investigation of human
phenomena, the clinical facts – constituted from the analytic experience of the psychoanalyst
researcher – evoke the dichotomy of the analytical field. The relevance of the researches
conducted with the psychoanalytic method is enhanced by the statement that, through them,
it is evident how vital are the psychoanalytic listening and investigative approaches. In this
sense, this article provides elements that strongly aim to stimulate research in psychoanalysis,
considering it a relevant way to continue working and expanding the Freudian legacy.
Keywords: Research, Methodology, Psychoanalysis, Clinical Facts.

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Silva, C. M.; Macedo, M. M. K. (2016). O Método Psicanalítico de Pesquisa.

El Método Psicoanalítico de Investigación y la


Potencialidad de los Hechos Clínicos

Resumen: Este artículo tiene como objetivo discurrir sobre una modalidad de investigación
con el método psicoanalítico. Se presenta un proceso de sistematización para su ejecución,
partiéndose de elementos teóricos, técnicos y éticos que consideran los elementos esenciales
del Psicoanálisis. Se explora, de esta forma, una posibilidad de aplicación efectiva del método de
investigación psicoanalítico en el escenario académico a partir de la propuesta de elaboración
de hechos clínicos. Las etapas del proceso de construcción de los hechos clínicos ya indican los
fundamentos teóricos en los cuales ellos se sostienen, diferenciándolos así, de una descripción
clínica o de un estudio de caso. Tomándose como punto de partida el recurso al Psicoanálisis
como método de investigación de los fenómenos humanos, los hechos clínicos, constituidos
a partir de la experiencia analítica del psicoanalista investigador, demuestran la fertilidad del
campo analítico. La pertinencia de investigación con el método psicoanalítico es reforzada en
la afirmación de que, por medio de ellas, se evidencia la vitalidad de la escucha y de la postura
investigativa psicoanalíticas. En esta dirección, el artículo ofrece elementos que tienen como
objetivo estimular fuertemente la investigación en Psicoanálisis, considerándola una forma
relevante de seguir trabajando y ampliando el legado freudiano.
Palabras Clave: Investigación, Metodología, Psicoanálisis; Hechos Clínicos.

Introdução ciência, se deslocou para outro lugar simbólico, onde


A Psicanálise, compreendida como uma disci- pretendia ser reconhecido como uma ética” (p. 29).
plina científica, comporta bases epistemológicas e Trata-se, segundo o autor, não de uma ética como uma
éticas para a realização de uma pesquisa. Para tanto, moral, mas, sim, de uma ética do desejo que funda o
diferenciam-se a pesquisa em Psicanálise e a pesquisa sujeito desde a concepção do Inconsciente. Logo, para
com o método psicanalítico, com características e a Psicanálise, são os impasses e a complexidade reco-
objetos de estudo distintos. O presente artigo obje- nhecidos e afirmados nos meandros do desejo que
tiva apresentar uma modalidade de pesquisa com o instituem, definitivamente, seu caráter investigativo.
método psicanalítico, propondo uma sistematização Ressalta-se a importância da realização de
para sua aplicação, que parte de concepções e coor- pesquisas com o método psicanalítico, uma vez que
denadas teóricas, técnicas e éticas, decorrentes de nessa condição pode ocorrer uma profícua forma
sua aplicação em um processo de investigação no de aproximação da Psicanálise com a Universidade.
cenário acadêmico-universitário. Nessa modalidade de encontro, reafirma-se a ampli-
Inegavelmente constata-se na história da Psicaná- tude do corpo teórico e técnico psicanalítico, bem
lise o movimento freudiano inicial de incluir a Psica- como sua inegável condição ética de promover o
nálise na denominação de ciência e, assim, afastá-la avanço e a produção de conhecimento, também,
de qualquer atributo de saber especulativo. Moraes a partir de estudos realizados no âmbito da univer-
e Macedo (2011) consideram que a descoberta do sidade. Constata-se, portanto, a rica possibilidade de
Inconsciente e os desdobramentos relativos ao uso a Academia acolher as inquietações geradas no exer-
de um método para acessá-lo levaram Freud a afas- cício clínico da escuta psicanalítica.
tar-se, de forma progressiva e definitiva, da episte-
mologia científica positivista do final do século XIX.
Neste processo de distanciamento da Psicanálise em Especificidades da Psicanálise
relação ao discurso científico vigente, para Birman como método investigativo
(1992), “o saber psicanalítico, como um discurso com Na história da Psicanálise, Freud sempre manteve
a pretensão intelectual de se inscrever no logos da uma postura investigativa, partindo da experiência

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clínica para pensar sistematicamente reconfigura- mente sob o questionamento acerca de ser a última
ções teóricas e técnicas. A metapsicologia freudiana uma ciência ou não.
se constituiu e se solidificou nesses movimentos Cabe, nesta linha de raciocínio, ressaltar o que
de abertura a transformações. O exercício clínico afirma Lo Bianco (2003) a respeito da virada radical na
suscitou questionamentos à teoria e alavancou forma de investigar criada por Freud. Sabe-se que, desde
importantes transformações e ampliações tanto o início do percurso psicanalítico, Freud buscou incluir a
teóricas quanto técnicas. Destaca-se a afirmativa de Psicanálise no campo das ciências. Logo, é inegável que
Freud (1915/1996) sobre a necessidade constante de a problemática sobre o efetivo pertencimento da Psica-
trabalho na produção de conhecimento: “o avanço do nálise a esse campo data de seu surgimento (Lo Bianco,
conhecimento não tolera qualquer rigidez, inclusive 2003). Tentando lançar luz a essa discussão, a autora
em se tratando de definições” (p. 123). demonstra o quanto Freud apropriou-se do Método
Afirma Conte (2004), por meio da escrita de Científico ao longo de sua formação acadêmica e de
historiais clínicos e da interpretação dos sonhos, que seus trabalhos no Laboratório de Fisiologia e depois no
Freud ensinou a correlação entre a clínica e a teoria. Hospital Geral. Pode-se afirmar, portanto, não ter sido
Aponta-se, nesse contexto, que os casos de pacientes por falta de habilidade com a pesquisa empírica que
estudados inicialmente por Freud e Breuer, nos Freud optou seguir outro caminho como investigador.
“Estudos sobre a histeria” (Freud, 1895/1996), bem De fato, foi por aproximar-se da concepção de Incons-
como a análise de seus sonhos e o fracasso do caso ciente e de suas singulares formas de expressão que
Dora (Freud, 1905/1996), explicitam como o método novos métodos de pesquisa passaram a ser necessários.
de investigação freudiano foi proporcionando a Isso ocorre, sobretudo, porque o Inconsciente não é um
montagem da teoria psicanalítica (Conte, 2004). objeto de estudo delimitado, como são os objetos de
Nessa direção, Dunker (2011) enfatiza que o investigação das ciências médicas (Lo Bianco, 2003). Ele
método de investigação fundamenta o método de se faz presente no discurso do sujeito e em sua produção
tratamento, mantendo uma ligação de mútua utilidade psíquica tanto na esfera da psicopatologia quanto na
prática e teórica. Ainda que diferentes um do outro, dita normalidade.
o ponto comum entre os dois distintos métodos é a Birman (2003) afirma que a invenção da Psica-
transferência. O método de investigação é uma estru- nálise ocorreu como saber mediante a formulação
tura aberta, em função da heterogeneidade de fontes, do conceito de Inconsciente, tornando-se poten-
pela diversidade de meios e pela comunicação com cialidade teórica e subvertendo os saberes sobre o
outros discursos e estratégias de investigação. Nesta psiquismo da época: Psiquiatria e Psicologia. Por
metodologia investigativa, é sustentada a temporali- meio da persistência na defesa da especificidade da
dade da escrita, já o método de tratamento exige regras Psicanálise, Freud criou uma nova maneira de fazer
próprias ao universo verbal da fala. A ligação entre os ciência, cujo rigor estava na coerência de seu método,
dois métodos localiza a peculiaridade epistemológica teoria e técnica para com a premissa, antes de tudo
da Psicanálise de ser, ao mesmo tempo, uma forma de ética, do Inconsciente. Nessa direção, enfatiza-se
discursividade e uma ciência (Dunker, 2011). a condição investigativa propiciada pelo exercício
Segundo Conte (2004), Freud iniciou seu trabalho de escuta na clínica psicanalítica. Para Conte (2004),
como método de investigação de sintomas, até chegar submeter o trabalho clínico às indagações teóricas
a um método de tratamento e à proposição de uma faz possível a renovação da Psicanálise, reavaliada por
nova ciência. Ao retirar o foco e distanciar-se de uma meio da pesquisa e de escritos psicanalíticos desenvol-
concepção consciencialista e de uma lógica causal na vidos no tempo e na especificidade da cultura atual.
compreensão dos fenômenos humanos, a Psicanálise A estratégia de pesquisa com o método psica-
se consolida como uma nova modalidade de inves- nalítico apresentada neste artigo tem, na construção
tigação, cujas técnicas também seguem uma espe- dos fatos clínicos, um fecundo elemento possível para
cificidade ao aproximar-se de seu complexo objeto a realização das pesquisas no cenário acadêmico.
de estudo: o Inconsciente. Como afirma Dockhorn Trata-se de buscar, via fatos clínicos, uma ferramenta
(2014), certamente as tensões que se estabeleceram de pesquisa que venha a contribuir com a potencial
entre as noções de Ciência e de Método Científico criatividade da Psicanálise ao explorar um fenômeno,
com a Psicanálise mantêm-se até hoje, principal- salvaguardando a especificidade de um método que

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tem na singularidade do sujeito de Inconsciente e da criativo, o sujeito se enreda com o objeto que deve
Sexualidade seus principais pontos de ancoragem. descobrir ou criar para logo poder se desprender dele.
Confunde-se em um movimento reflexivo para, logo,
interpretar e estabelecer a diferença que dará origem
A pesquisa com o método psicanalítico a seu texto (p. 9). Segundo Dallazen, Giacobone,
Para realizar uma pesquisa psicanalítica, Macedo e Kupermann (2012), a Psicanálise pressupõe
diferenciam-se duas possibilidades de acordo com liberdade e comporta uma profunda reflexão sobre
Figueiredo e Minerbo (2006), a saber: a pesquisa em ‘o desejo do analista’ como uma condição neces-
Psicanálise e a pesquisa com o método psicanalítico. sária para o processo de análise. Lacan (1967/2003),
A primeira refere-se ao conjunto de atividades voltadas ao cunhar a expressão ‘desejo do analista’, criou mais
para a produção de conhecimento que pode manter com que um conceito, desenvolveu um articulador ético.
a Psicanálise relações muito diferentes, ora tomando Para o autor, ao manter o enigma de seu desejo,
suas teorias como objeto de estudos sistemáticos, ora o analista permite que a função do desejo, como
como reflexões epistemológicas. Tal prática pode ser proveniente do lugar do Outro, possa se manifestar.
realizada por diferentes pesquisadores, como filósofos, Castro (2013) salienta, ainda, fundamentando-se na
historiadores, etc., podendo ser a própria Psicanálise concepção lacaniana sobre a ética do desejo, que,
objeto da pesquisa. Já a modalidade de pesquisa com o na clínica psicanalítica, o analista deixa o analisante
método psicanalítico exige um psicanalista em atividade permanentemente a desejar por e para ele, sendo o
clínica, entendendo que seu olhar permite que o objeto desejo do analista, o desejo de nada. Dallazen et al.
ressurja de forma diferente, desconstruído e transfor- (2012) referem que o desejo do psicanalista não pode
mado (Figueiredo, & Minerbo, 2006). se sobrepor ao do analisando na condição de exercício
Nesta mesma direção – a modalidade de pesquisa da escuta clínica, tampouco quando estiver ocupando
com o método –, o pesquisador psicanalítico, segundo a posição de pesquisador. Na atenção à preservação
Caon (1994), caracteriza-se pela singularidade do da condição ética, consideram os autores que uma
campo, do objeto e do método de sua pesquisa. pesquisa com material clínico só pode ser realizada
Para o autor, o campo é o Inconsciente e o objeto é a posteriori, não transformando, portanto, o paciente
o enfoque escolhido pelo pesquisador para chegar ao em objeto de desejo durante seu tratamento. Logo,
Inconsciente. Já o método é o procedimento pelo qual mediante a observância destes aspectos, as regras de
o pesquisador se movimenta pelas vias de acesso ao abstinência e neutralidade que conduzem a escuta
Inconsciente (Caon, 1994). analítica ficam preservadas, garantindo ao analisando
Na pesquisa com o método psicanalítico, um espaço de respeito e assegurando a especificidade
o pesquisador tem participação ativa no processo justa- de deixá-lo desejar a partir de si mesmo.
mente para a emergência do material. Iribarry (2003) A especificidade do método psicanalítico na
considera que o analista, ao desenvolver uma pesquisa pesquisa, segundo Figueiredo e Minerbo (2006), é a de
em Psicanálise, coloca-se como primeiro sujeito da ter a presença de um psicanalista, ou seja, um psicana-
investigação, buscando, por meio das construções lista na condução da pesquisa é uma condição sine qua
sobre a prática clínica, elaborar hipóteses metapsicoló- non. Os autores definem a pesquisa com o método psica-
gicas. Ao tratar justamente sobre o tema da concepção nalítico como uma atividade na qual objeto pesquisado,
da metapsicologia freudiana, Garcia-Roza (1984/2011) sujeito (o pesquisador) e seus meios de investigação
aponta que uma teoria científica não emerge de uma (conceitos, técnicas) são transformados após a reali-
mera observação dos fatos. De acordo com o autor, zação da pesquisa, produzindo, também como conse-
aquele que procura conhecer determinado fenômeno quência, novidades à própria Psicanálise. Esse método
está implicado subjetivamente, realizando uma obser- pode ser utilizado para interpretar qualquer fenômeno
vação a partir de um lugar teórico, o que possibilita que faça parte da realidade humana, como fenômenos
produzir construções teóricas criadas com a finalidade sociais ou institucionais, material clínico colhido de
de uma nova inteligibilidade. grupos de pacientes, entrevistas, sessões de psicote-
Ao abordar também o tema da investigação em rapia, bem como qualquer tipo de material apresenta-
Psicanálise, Conte (2004) afirma que no processo de tivo-expressivo/projetivo (Figueiredo, & Minerbo, 2006).
escritura de uma teoria, como em qualquer processo Enfatiza-se que este tipo de pesquisa pode ser realizado

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tanto na universidade como em instituições psicanalí- Os fatos clínicos psicanalíticos produzidos pelo
ticas, ambos os contextos espaços ricos de produção de psicanalista, segundo Quinodoz (1994), agregam
conhecimento em Psicanálise. tanto o sentido manifesto como o sentido latente da
Comumente, quando da escolha de investigar comunicação do paciente. O sentido manifesto repre-
um fenômeno a partir de material clínico próprio, senta aquilo que pode ser diretamente observado,
um psicanalista pesquisador tende a realizar um mas somente sendo significativo na medida em que
estudo de caso ou estudo de casos clínicos (Fédida, revela o conteúdo latente, de caráter inconsciente,
1991; Barth, 2006; Silva, 2013). Ainda que essas moda- o que interessa verdadeiramente ao psicanalista.
lidades de pesquisa sejam de inegável valor e impor- Assim, por meio dos fatos clínicos, são permitidas a
tância para a construção de conhecimento em Psica- apreensão de elementos observáveis e a atribuição de
nálise, cabe afirmar que a realização de um estudo de um lugar a esses elementos, tornando-os objetivos e
caso não é a única via de investigação psicanalítica. passíveis de serem comunicados (Quinodoz, 1994).
Assim, este artigo, afirmando o valor da associação No âmbito da pesquisa, indicam Oliveira e Rosa
entre pesquisa, Psicanálise e criatividade, apresenta (2002), que os fatos clínicos predispõem a uma percepção
uma modalidade de pesquisa com o método psica- fragmentada do caso clínico em si, devido à parcialidade
nalítico na qual o pesquisador faz uso do processo de decorrente da inevitável seleção dos fatos retirados dos
construção de fatos clínicos como recurso produtor relatos clínicos produzidos pelo psicanalista. No intuito
de rico material de pesquisa. Desta forma, no próprio de embasar as ideias que se deseja apresentar, a inclusão
processo de construção dos fatos clínicos, pode-se ou a exclusão de determinados elementos nos fatos
observar o exercício do proceder psicanalítico a clínicos parte da inferência e da subjetividade do psica-
serviço da pesquisa com o método psicanalítico. nalista pesquisador, cuja implicação é indispensável
nesta investigação. Além disso, relatar um fato clínico é
diferente de contar a história integral do analisando, na
A construção dos fatos clínicos medida em que a palavra cumpre uma função redutiva,
e a vitalidade do método delimitando artificialmente a comunicação dos fatos
psicanalítico na pesquisa clínicos. Logo, a inferência do analista em relação ao
Partindo-se, portanto, da possibilidade de investigar material clínico é assumida como elemento constituinte
os fenômenos humanos no âmbito de pesquisa, os fatos do processo de construção dos fatos clínicos.
clínicos são constituídos a partir da experiência analítica. Existem produções no setting analítico que
Ou seja, para a realização de uma pesquisa com o método são inacessíveis a uma pessoa estranha a ele e
psicanalítico com material clínico, o psicanalista pesqui- impossíveis de serem reproduzidas, cabendo ao
sador irá dispor de fatos clínicos oriundos do exercício da pesquisador-psicanalista apresentar uma parcela do
escuta. O termo fato clínico, segundo Quinodoz (1994), material clínico constituído pelo fato clínico, podendo-se,
tem origem médica e caracteriza um fenômeno obser- a partir daí, extrair algum conhecimento. Ainda assim,
vado pelo médico no paciente, sugerindo uma relação por ser um processo longitudinal, o processo analítico
direta entre o real e o observável, devendo ser situados permite um acompanhamento dos fatos clínicos com
em suas áreas específicas. Denominam-se, então, de relativa profundidade, repetindo-se, naquele contexto,
fatos clínicos psicanalíticos os fenômenos pertencentes à manifestações clínicas com suficiência para serem reco-
área da Psicanálise, enquadrados no contexto da relação nhecidas em sua amplitude (Oliveira, & Rosa, 2002).
transferencial e contratransferencial (Quinodoz, 1994). Como asseveram Jardim e Rojas Hernández
Por fato clínico psicanalítico, entende-se uma construção (2010), os fatos clínicos são referidos como um
realizada por analista e analisando no âmbito do campo produto textual do analista/investigador a partir de
psicanalítico, partindo da relação decorrente da comu- sua escuta do vivenciado em sessão com seu paciente,
nicação dos fatos ocorridos dentro e fora da sessão, dos sendo que “a formalização da investigação surge a
sonhos, dos estados afetivos e do agir do analisando. posteriori do tratamento psicanalítico como uma
Também fazem parte dessa construção a experiência do construção do analista/investigador” (p. 536). Dessa
analista, bem como a teoria e a técnica utilizada e que lhe forma, o que é investigado é o material produzido
permitem atribuir novos significados aos fatos relatados pelo pesquisador, fruto de seu exercício como psica-
(Vollmer Filho, 1994). nalista, a partir de seus próprios escritos e anotações

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do que foi produzido na análise. Nesta direção, Jardim (p. 128). Entre as diferentes categorias que a autora
e Rojas Hernández (2010) consideram que o material elenca de dialogismo, salienta-se a que descreve o
clínico não serve como dado empírico a ser utilizado uso que um falante/autor utiliza das palavras de um
para comprovar uma teoria, mas, sim, como uma outro para suas próprias finalidades, mas ambas as
produção que a transferência fez possível surgir como palavras sendo equipotentes, pois, no momento em
linguagem, da qual o pesquisador procurará dar conta que se encontram, entram em relação de significado.
como uma construção teórica. Em virtude da alteridade de que as duas orientações
Nesse sentido, cabe ressaltar que os fatos clínicos interpretativas estão sempre presentes e se ouvem
serão gerados a partir do trabalho do pesquisador duas vozes na mesma palavra, sendo o sentido da
em seu ofício como psicanalista, consistindo numa palavra bivocal o construído a partir do efeito dessa
reflexão documental pós-fato do que foi produzido dupla presença (Amorim, 2004).
pela dupla analítica. Ressalta-se que a construção dos Frente ao exposto, pode-se compreender que
fatos clínicos não deve ocorrer durante o atendimento, os fatos clínicos se constituem como uma palavra
pois tal processo poderia acarretar interferências na bivocal apresentada de forma a remeter à dialogia
condição de escuta do analisando. Tal concepção entre analista e analisando, narrando assim essa
parte da recomendação de Freud (1912/1996) acerca dupla presença. Assim, os fatos clínicos são produ-
da não coincidência do tratamento com o estudo de zidos em forma de narrativa, enfocando a apresen-
caso, principalmente ao assinalar que casos clínicos, tação do fenômeno a ser investigado. É um trabalho
quando direcionados desde o início a objetivos cientí- laborioso, pautado em anotações do psicanalista
ficos, estimulam a resistência do analista-pesquisador. pós-sessão, em sua memória e em suas interpreta-
Logo, na estratégia de pesquisa aqui defendida, ções. Esse trabalho possibilita a construção da escrita
ou seja, o processo de construção dos fatos clínicos de um texto com forma e conteúdo próprios, o qual
ocorre a posteriori do processo analítico. representa e apresenta a dialogia do campo analítico.
Dallazen et al. (2012) explicitam que são as memórias O processo de construção dos fatos clínicos já
e as anotações do analista, estando o processo de análise indica os fundamentos teóricos nos quais se sustenta
encerrado, uma elaboração secundária sobre o processo sua elaboração, diferenciando-o de uma descrição
analítico e o material produzido na transferência. clínica. Tal afirmativa se dá, pois, diferentemente de
Os autores salientam que, em uma pesquisa com mate- uma descrição que visa a uma discussão clínica, esta
rial clínico, à versão criada pelo analisando somam-se investigação procura explorar um fenômeno, partindo
as produções do analista sobre o material que escutou e dos efeitos da escuta da dinâmica singular de um
as interpretações atravessadas por seu próprio Incons- processo analítico. Essa condição de reconhecimento
ciente. Dessa forma, o material a ser pesquisado não se da função ativa de construção dos fatos clínicos por
refere ao vivido pelo analisando, mas à criação de uma parte daquele que exerce a escuta dá condições de
ficção por aquele que o escuta, o analista/pesquisador problematizar o processo e de fomentar novas vias
e suas possibilidades de produção inconsciente sobre a interpretativas, permitindo, assim, a construção
fala de seu analisando. Trata-se de um produto oriundo posterior de novas intervenções frente à escuta de
do encontro entre Inconscientes que delimita um campo uma demanda analítica. Ainda nesta direção, eviden-
de trabalho e uma forma de produção/intervenção cia-se o cuidado ético e teórico exigidos para produzir
(Dallazen et al., 2012). os fatos clínicos, enfocados no fenômeno a ser inves-
É esse contexto de construção a dois que abordam tigado, e não na história e descrição do caso clínico
Dallazen et al. (2012), que pode ser relacionado ao de um analisando. Assim, a narrativa produzida pelo
que afirma Amorim (2004) sobre a escritura dialógica, pesquisador é consequência do singular dispêndio de
ou seja, a possibilidade de fazer falar o outro no inte- um trabalho e de uma leitura aprofundada do mate-
rior de um discurso, revelando as marcas que um outro rial, retomado e reescrito, até encontrar o formato
faz num sujeito. Para a autora, “o dialogismo remete à final de fatos clínicos.
pluralidade de vozes que constituem toda pesquisa, Dessa forma, a construção dos fatos clínicos é
seja em campo, seja no texto” (p. 94), revelando própria ao ato de escrever um texto polifônico, que
que “a instabilidade do objeto polifônico é função faz falar de um processo mais que de um sujeito,
do sistema de alteridades que se instaura no texto” tendo em vista ter como “matéria-prima” o viven-

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ciado em um espaço subjetivo e singular como volver a técnica e a clínica psicanalíticas “fundamen-
é o processo analítico. A palavra do analisando é tadas por uma constante reformulação teórica feita
traduzida/transformada pela e na palavra do analista, por aqueles que a exercem. Sua preocupação central
já que os fatos clínicos não visam à reprodução em sempre foi a de fundamentar sua teoria sobre fatos
exatidão do dito pelo paciente. Mais que um fenô- clínicos e de dar respostas conceituais aos interro-
meno, a realização de uma pesquisa com o método gantes que estes lhe colocavam” (Hornstein, 1989,
psicanalítico, tendo como material os fatos clínicos, p. 42). Dessa forma, compreende-se que, através da
investiga e problematiza o trabalho de pensar a clínica análise dos fatos clínicos construídos pelo psicana-
realizada pelo próprio psicanalista. lista, pode-se produzir conhecimento psicanalítico.
No que tange à escolha do fenômeno clínico a ser
pesquisado, esta se dá a partir do desejo do pesqui-
sador de investigar acerca de algum enigma e inquie- Procedimentos para análise
tude gerados em sua própria escuta, já que é na expe- dos fatos clínicos
riência clínica que um psicanalista tem o principal Os princípios éticos da Psicanálise servem de
fomento de interrogações. Assim, é o vivido na prática suporte teórico e técnico para a compreensão da singu-
clínica que cria o problema de pesquisa. É a busca laridade do fenômeno retratado em uma pesquisa
para responder a tais inquietações que fundamenta o com o método psicanalítico. A Psicanálise propõe um
espírito investigativo de um psicanalista, visando ao sujeito de Inconsciente, reconhecido naquilo que lhe é
alcance cada vez maior da Psicanálise, renovando-a particular, sendo, de acordo com Dockhorn e Macedo
em seus fundamentos. (2008), um eficiente instrumento de reflexão e inda-
A evolução do método psicanalítico deve-se ao gação a respeito da experiência humana.
espírito investigativo de seu fundador, Sigmund Freud, Os fatos clínicos, como material de pesquisa, são
que, por meio do exercício clínico com seus pacientes, analisados segundo o método psicanalítico, o que
reformulou sistematicamente o arcabouço teórico e resulta, de acordo com Figueiredo e Minerbo (2006),
técnico da Psicanálise. Birman (1992) destaca que Freud “em efetuar certos recortes que não são arbitrários,
usou fartamente sua experiência psicanalítica para pois vão sendo solicitados pela própria análise em
evocar e construir exemplos paradigmáticos, criando andamento e se transformam à medida que a análise
uma sólida fundamentação para seus conceitos e transcorre” (p. 274). Os dados que ilustram o processo
escritos técnicos. É a constante atividade investigativa, de construção dos fatos clínicos no presente artigo
ancorada no acolhimento ao desconhecido, um dos se constituíram a partir da narrativa que decorreu do
principais legados de Freud, cuja apropriação e exercício trabalho com o material clínico de posse do pesqui-
por parte de seus sucessores permitem novas constru- sador. Como argumenta Birman (1992), o fato não
ções teórico-técnicas. Trata-se, portanto, de reafirmar existe em si, ele é a representação que o sujeito lhe
o caráter de abertura e de incompletude da Psicanálise designa. A narrativa, segundo o autor, é endereçada ao
como condições essenciais à sua vigência e pertinência analista/pesquisador, que se oferece como um intér-
como teoria, método e técnica. prete ao objeto através de sua escuta, baseando-se no
Minerbo (2000), ao relatar suas proposições caráter empírico da experiência da transferência.
sobre estratégias de investigação em Psicanálise, Corroborando essa ideia, Iribarry (2003) afirma
refere que a clínica ou um caso clínico geram uma que a escuta e a transferência instrumentalizam o
questão-problema a ser investigada, devendo essa ser pesquisador em relação ao texto que sustenta a análise
trabalhada de forma simultânea como eixo condutor dos dados na pesquisa psicanalítica. O pesquisador
e como eixo produtor de um trabalho. A autora afirma busca identificar significantes nos dados trazidos
que: “Não se trata do estudo exaustivo de um caso pela investigação. Ao proceder assim, é buscado um
clínico. Tampouco o caso será utilizado como ilus- sentido que traga uma contribuição original para o
tração de uma questão, de uma teoria ou de uma problema de pesquisa, diferenciando-se, em termos de
proposição. O caso é, naturalmente, nosso ponto de método, o método psicanalítico do método de análise
partida: sem ele não haveria a questão-problema” de conteúdo e de análise do discurso. A análise de
(Minerbo, 2000, p. 27). Percebe-se aí, na leitura que tal conteúdo, desenvolvida por Laurence Bardin (1977), tem
autora faz da obra de Freud, a preocupação em desen- por objetivo a categorização de respostas para poste-

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Silva, C. M.; Macedo, M. M. K. (2016). O Método Psicanalítico de Pesquisa.

rior interpretação dos dados, podendo ser um método uma interpretação, uma vez que a aceitação ou o rechaço
decomposto em diferentes etapas de trabalho com os não tem nenhuma utilidade no julgamento do valor
dados obtidos. É possível ao pesquisador relacionar e de uma interpretação. De fato, ressalta o autor serem
interpretar os dados com a corrente teórica que sustenta as vicissitudes provocadas pela interpretação o que
seu estudo, criando novas possibilidades de produção evidencia sua fertilidade ou sua esterilidade. No caso da
de conhecimento através da inferência. Já a análise do pesquisa em Psicanálise, como afirma Dockhorn (2014),
discurso, de acordo com Silva (2005), procura detectar pode-se pensar que as interpretações produzidas jamais
em um texto como ele se apresenta detentor de uma terão o objetivo de responder permanentemente e/ou
materialidade simbólica própria e significativa. Este circunscrever o fenômeno estudado; na verdade, terão
artigo, ao abordar a potencialidade investigativa de fatos por objetivo ampliar o olhar e promover uma aber-
clínicos, marca a especificidade do método psicanalí- tura para novas compreensões do fenômeno. Trata-se,
tico de pesquisa, exatamente ao incluir como elementos portanto, de interpretar o que se oferece à possibilidade
essenciais o trabalho com a escuta, com a abstinência e de conhecimento e não de esgotá-lo ou de enunciar
com os aspectos transferenciais, o que não ocorre com dogmas a partir da construção de enunciado.
os outros dois métodos mencionados. A forma de trabalhar o material para a construção
Ao trabalhar o material de pesquisa com o método de fatos clínicos reafirma o proposto por Magtaz e
psicanalítico, o pesquisador realiza uma leitura dirigida Berlinck (2012) sobre o fato de que a interpretação de
pela escuta, correlata à escuta na prática clínica de seus um caso não contém uma dimensão explicativa, isto é,
pacientes, sustentada na técnica da atenção livre e flutu- o caso não deve ser explicado em seu relato, como se
ante (Caon, 1994; Iribarry, 2003). O recurso principal para faz no método do estudo de caso. Os autores propõem
abordar os fatos clínicos é a interpretação. É o trâmite que “o caso clínico é porta-voz de um problema de
da interpretação, como afirmam Figueiredo e Minerbo investigação e fundamento da pesquisa” (p. 71), sendo
(2006), “que funciona como eixo para a escuta/recorte investido pelo pesquisador a partir do que o instigou ou
de novos fragmentos, os quais, quando interpretados, surpreendeu, fazendo-o formular uma questão enigmá-
terão a mesma função com relação ao material que virá” tica e traçar um caminho a ser seguido para respondê-la.
(p. 274). Segundo os autores, os achados, a partir do Magtaz e Berlinck (2012) argumentam que o caso é do
material analisado, determinarão os rumos da interpre- clínico e não do paciente, pois se trata, na formulação
tação, podendo ser a contratransferência de um analista, e interpretação do material, do clínico e de seu desejo
a título de exemplo, o elemento utilizado para instalar o de transformar sua vivência em experiência comparti-
horizonte da interpretação. lhada, por meio de um tema de investigação.
Conte (2004) aporta importante elemento a esta Para Conte (2004), a interpretação, como método
discussão ao abordar a alteridade que o pesquisador cria clínico, deve ampliar o sentido, fazendo circular repre-
ao colocar-se frente ao texto. É essa posição de alteridade, sentações ou significantes que ofereçam novas possi-
evocada pelo pesquisador que, segundo a autora, cria o bilidades de simbolização. Muitos são os elementos
elemento que o habilita a criar novas interpretações do a se levar em conta em uma interpretação, segundo a
texto na abertura de brechas geradas na desconstrução autora, como, por exemplo, a subjetividade, o Incons-
do que está dado. Como indica Conte (2004): ciente, a realidade dada e o estranho. O próprio
conceito psicanalítico de Inconsciente demonstra que
Por meio dessa desconstrução, algo transforma- não é possível reduzi-lo a um conhecimento absoluto,
dor e produtivo pode se revelar e, assim, produ- já que “nem tudo é dito, nem tudo é conhecimento e
zir novos sentidos, conhecimento e teorias. Essa nem tudo pode se reorganizar no psiquismo; porém,
ideia de ‘desmontar’ remete à busca de elementos a intervenção faz brotar algo, recoloca, no processo,
que nos colocam diante da nova lógica do texto e, novos elementos” (Conte, 2004, p. 9). Já a interpretação
a partir daí, ampliam-se as formas de compreen- de um texto ou documento, à luz da Psicanálise, remete
são do que estamos desvendando. Ampliamos, à desconstrução como uma estratégia para fazer um
desse modo, as maneiras de reorganização (p. 9). recorte teórico-metodológico considerando-se o que
pesquisa o psicanalista. É por meio da desconstrução,
Nessa direção corrobora-se, também, a afirmativa confrontando a teoria do texto com um novo, que o
de Green (2008) sobre não importar a credibilidade de pesquisador psicanalista realiza a transformação em

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Psicologia: Ciência e Profissão Jul/Set. 2016 v. 36 n°3, 520-533.

algo produtivo, capaz de produzir novos sentidos, investigação, ela pode se afirmar como um legítimo
conhecimentos e teorias (Conte, 2004). método de pesquisa, com fundamentação e emba-
A Psicanálise, como singular procedimento de samentos técnicos e éticos próprios. Assim, é impor-
investigação, de acordo com Jardim e Rojas Hernández tante fomentar o conhecimento da produção decor-
(2010), toma por objeto de estudo os processos rente desta modalidade de investigação, cujo rigor
psíquicos inconscientes originários da sessão analí- está calcado na própria especificidade desta disci-
tica, revelando que no tratamento o percurso e a inves- plina. Na análise dos fatos clínicos no modelo aqui
tigação psicanalítica são complementares, sendo a proposto, o psicanalista-pesquisador realiza a leitura
clínica a base e a origem dessa investigação. Portanto, dos fatos clínicos repetidas vezes, quantas vezes
para as autoras, a investigação mostra a posteriori o forem necessárias, objetivando elencar eixos interpre-
que surge a partir da escuta de pacientes em análise, tativos que suscitam do material, criando uma nova
não sendo possíveis nem necessárias a demonstração forma de abordar o fenômeno estudado. Tal processo
e a comprovação, pois os fatos clínicos obtidos são requer tempo, sendo utilizada aí, nas leituras e relei-
uma construção do analista/investigador a partir da turas feitas, a atenção flutuante, tal como a aplicação
escuta do Inconsciente. Nesse sentido, as autoras do método psicanalítico na prática clínica.
afirmam que o “saber do inconsciente não é buscado Tendo como pano de fundo o fenômeno a ser
como se busca conhecer aos objetos de estudo na estudado, o pesquisador passa a ler o material de
explicação das ciências cartesianas, o inconsciente forma a não privilegiar elementos do texto, deixando
é encontrado, e a forma de fazê-lo não se estabelece agir aí o seu Inconsciente. É por meio desta singular
seguindo métodos positivistas, por ser um saber que forma de ler e reler o material, ou seja, o seu corpus
não é possível controlar ou quantificar” (Jardim, de dados, que teorizações podem passar a alicerçar
& Rojas Hernández, 2010, p. 535). os eixos interpretativos que surgirão da análise do
O método para conhecer os produtos do Incons- material. Uma pesquisa com o método psicanalítico
ciente se dá através do recurso à palavra e ao ato. aproxima-se, assim, a um estudo com características
Como acrescentam Rosa e Domingues (2010), “mais da pesquisa documental em que são trabalhados os
do que pelo tema e lugar, a pesquisa em psicanálise materiais produzidos pelo pesquisador a partir de
se define pela maneira de formular as questões. [...] documentos, contudo, com o objetivo, agora, não de
O objeto da pesquisa não é dado a priori, mas sim construção de fatos históricos, e sim de fatos clínicos.
produzido na e pela investigação” (p. 182). Conforme Dallazen et al. (2012) apontam que, para uma
as autoras, o método de pesquisa em Psicanálise comunidade científica produzir um conhecimento
possui uma dimensão própria de sujeito e de objeto, consistente e marcado pela responsabilidade,
contrapondo-se ao método da ciência calcado no é necessária a observância dos fatores éticos em todas
cogito cartesiano. A ideia proposta por Lacan, lá onde as etapas, não deixando de lado a existência das espe-
penso não sou, é resultado da torção do cogito carte- cificidades próprias dos diferentes campos do saber.
siano penso, logo existo. Lacan (1957/1998; 1966/1998), Para a interface da Psicanálise com a pesquisa devem
ao introduzir o que é da ordem do inconsciente ser respeitadas suas especificidades, permitindo a
no  cogito, aponta uma separação entre ser e pensar, produção de conhecimento, que tem na clínica o seu
passando a consciência e a razão a representar o lugar principal fomento. Os autores abordam a inviabili-
do engano. Contribuindo para essa discussão, Jardim e dade de um processo analítico frente a imposição de
Rojas Hernández (2010) consideram que a relevância da um desejo específico do analista. Quando o psicana-
Psicanálise é acentuada no seu interesse em abordar o lista inclui numa sessão um pedido que é regido por
que a ciência cartesiana deixa de fora, ou seja, “o sujeito seu interesse de pesquisar um tema ou um sujeito,
da ciência é o sujeito que a Psicanálise se interessa em a ética própria à Psicanálise é rompida, já que não
investigar, porque à Psicanálise se coloca como objeto estaria mais sendo abstinente e neutro para exercer
de investigação o inconsciente do sujeito” (p. 531). a escuta. O analisando teria que lidar com uma
É, portanto, na dimensão da singularidade que se demanda que não é sua, não sendo o que lhe traz à
situa a Psicanálise e a pesquisa com o método psica- análise, comprometendo, assim, a transferência e o
nalítico. A partir dos argumentos de que a Psicaná- vínculo de confiança necessários para o andamento
lise tem seus instrumentos e seu corpus próprio de do processo (Dallazen et al., 2012).

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Dessa forma, a fim de realizar uma pesquisa com cada vez mais, a sua condição de essencial ferramenta de
fatos clínicos, sugere-se que as questões éticas envol- leitura e compreensão dos fenômenos humanos, desde
vidas neste tipo de estudo devam ser observadas a que respeitada a premissa ética que subjaz ao ‘desejo
partir dos seguintes tópicos, conforme encontrado do analista’.
em Dallazen (2010): Os fatos clínicos que compuseram o estudo
• Sigilo: não devem ser mencionados nem eram provenientes do trabalho da pesquisadora
utilizados quaisquer dados ou informações que com o material decorrente da análise de um anali-
possam revelar a identidade ou identifiquem o sando atendido já faz alguns anos, durante um curto
sujeito (analisando). período de tempo. A partir de um olhar retrospectivo
sobre o atendimento ocorrido e interrompido, foram
• Pós-fato: o processo de análise que gera os fatos feitos recortes sobre o vivenciado pela analista nas
clínicos deve ter sido encerrado antes do início sessões com o analisando. Tendo como base anota-
do estudo. ções e registros na memória decorrentes da situação
clínica de escuta, ocorreu a escrita do texto e a cons-
• Recurso à técnica reconhecida: cabe ressaltar trução dos fatos clínicos. O material foi reescrito
que os fatos clínicos resultam de um processo de tantas vezes quanto fosse necessário para que apre-
tratamento cuja técnica utilizada é reconhecida sentasse o fenômeno a ser investigado, respeitando
pela ciência e pelo Conselho Federal de os aspectos éticos a serem considerados na apresen-
Psicologia, ou seja, se refere a um processo tação do material.
terapêutico conduzido mediante o emprego A produção dos fatos clínicos possibilitou a cons-
de uma técnica consagrada que é a Psicanálise, trução de uma narrativa, a qual expunha as modalidades
ficando garantidos a integridade física e o de transferência estabelecidas durante esse processo,
emocional do sujeito. bem como enfatizava os entraves percebidos e analisados
à época. Para tanto, o trabalho que ilustra este artigo se
deu em três etapas. Trata-se, cabe ressaltar, de uma siste-
Os fatos clínicos em uma mática de trabalho elaborada para este estudo, o que
ilustração de aplicação do método não configura uma exigência ao processo de construção
psicanalítico à pesquisa dos fatos clínicos. Coerente aos pressupostos teóricos da
A fim de explorar o fenômeno da transferência como Psicanálise e à ética que lhes são inerentes, não se trata
um entrave no processo de escuta psicanalítica, foi reali- aqui de indicar “procedimentos” a serem reproduzidos
zada uma pesquisa com o método psicanalítico tomando em outros estudos, mas, sim, indicar que essas três etapas
como base uma experiência clínica cujo processo foi inter- foram orientadoras do trabalho de pesquisa aqui exempli-
rompido pelo analisando. O objetivo foi investigar a dinâ- ficado e surgiram da própria leitura do material e da apre-
mica do processo transferencial na condução da análise ensão singular realizada pelo psicanalista-pesquisador
com vistas a articular os fenômenos da transferência na construção de sua investigação. Como bem afirma
e os entraves à escuta psicanalítica. Buscou-se proble- Dockhorn (2014), em um processo de pesquisa com
matizar aqui os alcances e limitações da técnica psica- o método psicanalítico não se trata de apresentar ou
nalítica. Assim, passou-se a explorar a singularidade de propor critérios predeterminados, uma vez que tal
uma manifestação transferencial como sendo a principal situação esgotaria a necessária criatividade exigida
matéria-prima do estudo. Enfatizou-se a importância do psicanalista-pesquisador diante dos dados produ-
de explorar os sentidos do processo analítico quando a zidos na singularidade de seu estudo.
transferência se apresenta como uma resistência à escuta Na primeira etapa, optou-se por descrever a
analítica. Tratou-se, portanto, de uma investigação que chegada do sujeito à análise e como foi se apre-
envolveu a intersecção dos três elementos constituintes sentando à escuta da analista. A segunda etapa do
da Psicanálise: a teoria, o método e a técnica, além da ética processo de construção dos fatos clínicos apresentou
que aí se subentende e que amarra esses três elementos. e explorou as hipóteses interpretativas da analista
Na conjunção destes três elementos se renova o caráter que ocorreram durante o processo analítico a partir
de abertura da Psicanálise e se dá a possibilidade de da escuta do analisando. A última etapa referiu-se à
buscar novos conhecimentos que venham a promover, pesquisa com o método psicanalítico propriamente

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Psicologia: Ciência e Profissão Jul/Set. 2016 v. 36 n°3, 520-533.

dito. Nela, mediante análise dos fatos clínicos apre- pretações produzidas são sempre provisórias e rela-
sentados na investigação, novas interpretações da tivas ao contexto de onde surgiram. Ao emergirem a
transferência foram estabelecidas. Assim, ocorreu partir da leitura dos fatos clínicos, as interpretações
importante ampliação de sentidos próprios à dinâ- têm um caráter interminável, podendo suscitar novas
mica transferencial, bem como pôde-se explorar a leituras do material. É esta característica de abertura a
singularidade dos entraves gerados na contratrans- riqueza da Psicanálise, que dá espaço a novas signifi-
ferência ocorrida naquele processo de escuta. Esta cações e a novos caminhos investigativos para a abor-
última etapa permitiu, por meio do método psica- dagem da subjetividade humana.
nalítico de pesquisa e do recurso da interpretação,
uma nova “escuta” do material do paciente e dos
efeitos transferenciais e contratransferenciais, viabi- À Guisa de Conclusão
lizando a emergência de novos eixos interpretativos, Entre os achados da pesquisa com o método
nomeados e problematizados, posteriormente, com psicanalítico, ganha destaque a constatação de
o auxílio dos conceitos fundamentais da teoria e da quão profícua é a aproximação entre a Psicanálise e
técnica psicanalíticas. a pesquisa no âmbito acadêmico. Assim, tal aproxi-
Cabe ressaltar que todas as etapas de construção mação explicita que as reflexões e os interrogantes
e realização do trabalho investigativo possibilitaram surgidos no trabalho clínico de um psicanalista
à analista-pesquisadora situar-se em novas leituras podem gerar um tema de pesquisa e viabilizar que
a respeito do fenômeno clínico, fomentando o este seja acolhido nas investigações que acontecem
aprendizado consistente da complexidade da escuta no cenário da Universidade, e mesmo nas Instituições
analítica e seus desafios. Resgatar uma experiência Psicanalíticas. O maior ganho decorre da possibili-
analítica por meio da construção de fatos clínicos e dade de fomentar, também por meio da pesquisa na
do posterior trabalho interpretativo tornou possível Academia, outras formas de produzir conhecimento
problematizar os entraves transferenciais que aden- em Psicanálise, tendo as inquietações e/ou impasses
traram a escuta e podem ter fomentado, inclusive, da clínica como fonte de inspiração e de provocação.
a interrupção do processo de análise. Nesta experi- Cabe salientar, portanto, que a pesquisa efetivada na
ência de pesquisa com fatos clínicos, confirmou-se Universidade pode ser fruto de interrogações sobre
ser a interpretação, calcada na escuta atenta e flutu- as condições técnicas de psicanalisar e, ao mesmo
ante, o instrumento de acesso à singularidade dos tempo, promover, na sistematização criativa e não
fenômenos transferenciais próprios ao processo pré-determinada de suas etapas, um espaço de
analítico. O trabalho com os fatos clínicos permitiu exercício reflexivo e estudo para um psicanalista no
à pesquisadora-psicanalista trazer à discussão intuito de produzir conhecimento em Psicanálise
elementos referentes à formação psicanalítica, no âmbito da Academia. Permite-se, desta forma,
o início da prática clínica, a experiência de escuta alinhar a ética e a especificidade da Psicanálise com
propriamente dita, bem como de outros não menos o rigor metodológico exigido no espaço acadêmico.
importantes aspectos. Acredita-se que trabalhar os Assim, também um psicanalista pode exercer suas
fatos clínicos com a interpretação permitiu desdo- habilidades de pesquisador para além, mas sempre
brar seus sentidos e desvelar distintas nuances do a partir de sua clínica.
processo de escuta do sofrimento subjetivo gerado Sem dúvida, o corpo teórico, o método e a
pelo sintoma. Assim, confirmou-se ser necessária a técnica da Psicanálise têm muito a contribuir para
presença de um psicanalista no exercício da pesquisa a produção de conhecimento oriunda das Univer-
com o método psicanalítico. sidades. A prática de pesquisa mostra-se, portanto,
Nesse constante movimento de revisitar o fazer como um fértil campo a ser ocupado por psicana-
analítico, vitalizam-se a teoria e a prática. Logo, listas. Reconhecer o valor desse espaço não significa
é inegável o valor de relançar a teoria e a técnica a desconhecer os impasses presentes nas pesquisas em
partir de cada experiência singular da clínica, fomen- Psicanálise feitas no cenário acadêmico, marcados
tando o exercício reflexivo do analista sobre seu fazer pelo confronto com critérios de validade e fidedigni-
propiciando, desse modo, discussões fundamentais e dade próprios à ciência positivista. O enfrentamento
necessárias para a ampliação da Psicanálise. As inter- de críticas quanto ao método de pesquisa, quanto

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Silva, C. M.; Macedo, M. M. K. (2016). O Método Psicanalítico de Pesquisa.

à interpretação dos achados, bem como sua não enfatizando-se, assim, o papel decisivo de escuta do
replicação e não generalização, são tensionamentos sujeito de Inconsciente. Como objeto de estudo da
presentes nesse contexto. Para incrementar a reflexão Psicanálise, a própria complexidade do sujeito de
a respeito desta realidade, retoma-se a afirmativa de Inconsciente, convoca ao sistemático exercício investi-
Dockhorn (2014) no sentido de que, diante das reais gativo em Psicanálise. Nas etapas próprias ao processo
dificuldades de trabalho acadêmico em relação ao de construção e de interpretação dos fatos clínicos,
material oriundo do exercício clínico da Psicanálise: como apresentado neste artigo, é possível observar e
constatar que, aliam-se, na investigação, os elementos
Parece ter o psicanalista-pesquisador duas alternati- essenciais de um processo analítico: a escuta, a absti-
vas: permanecer numa posição defensiva diante da nência, a transferência e a interpretação.
afirmação da impossibilidade de essa modalidade A relevância e a pertinência de investigações com
de pesquisa fazer-se presente no cenário universitá- o método psicanalítico relacionam-se à vitalidade da
rio, rebatendo as críticas com o velho argumento da escuta e da criatividade e inovação presentes e viabili-
resistência provocada pela Psicanálise, ou imbuir-se zadas nas pesquisas psicanalíticas, retomando e reno-
de um trabalho criativo que atenda à especifici- vando os fundamentos de seu saber e de sua prática,
dade e ao rigor próprios à Psicanálise no intuito ao mesmo tempo em que estimula fortemente a
de demarcar sua legítima inserção – mesmo que investigação em Psicanálise como relevante forma
diferenciada – no cenário da Universidade (p. 72). de seguir trabalhando e ampliando o legado freu-
diano. Deve o psicanalista, no exercício de seu ofício,
Neste artigo, optou-se por ilustrar a escolha manter-se crítico quanto às condições de seu fazer,
pelo enfrentamento do desafio de realizar um possibilitando, através da problematização de seus
trabalho criativo na pesquisa com o método psica- questionamentos e da condição de compartilhar seus
nalítico. O processo de construção de fatos clínicos achados, sistematizar suas investigações, fazendo
solidificou-se como uma fértil possibilidade de assim avançar a Psicanálise como teoria, método e
pesquisa com o método psicanalítico na Univer- técnica sustentados na ‘ética do desejo’.
sidade, não deixando dúvidas quanto à atenção e Sabe-se que a história e o valor do legado psicanalí-
cuidado dispensados à especificidade da Psicanálise tico não permitem equivaler a Psicanálise a uma prática
como campo diferenciado de saber, mas, que também, dogmática e completa. Freud (1923/1996) já afirmava
pode marcar sua presença no espaço de produção de que a Psicanálise não era como a Filosofia, que parte de
conhecimento em ciências humanas. conceitos básicos bem definidos e procura apreender
No que se refere ao uso de fatos clínicos em todo o universo com o auxílio deles. Ao contrário, para
uma pesquisa com o método psicanalítico, afirma-se seu fundador, a Psicanálise é: “Sempre incompleta e
a riqueza destes para articular aspectos da teoria e sempre pronta a corrigir ou modificar suas teorias. Não
da técnica, embasados em um processo singular. há incongruência (não mais que no caso da física ou da
É na dimensão da singularidade que se constroem a química) se a seus conceitos mais gerais falta clareza e
Psicanálise e a pesquisa com o método psicanalítico. seus postulados são provisórios; ela deixa a definição
Somado a isso, uma pesquisa com este tipo de material mais precisa deles aos resultados do trabalho futuro”
possibilita demonstrar o vigor interpretativo da Psica- (Freud, 1923/1996, p. 269-270).
nálise diante dos variados fenômenos clínicos, sempre Portanto, entende-se que para a Psicanálise a
que se toma a especificidade do método psicanalítico condição de interrogante faz parte da sustentação
como recurso metodológico. Constata-se, assim, que de sua vigência. Assim, afirma-se que práticas de
o recurso a este método de pesquisa permite a emer- pesquisa com o método psicanalítico alinham-se,
gência de novos eixos de interpretação, gerando um legitimamente, nesta intenção de manter em aberto o
trabalho de ressignificação do material e qualificação conhecimento teórico e clínico. A prática da pesquisa
do trabalho analítico. pode e deve fomentar a produção de conhecimento
Em Psicanálise, um processo de escuta é funda- em Psicanálise sem afastar-se do valor anunciado no
mentado na capacidade de investigação dos processos reconhecimento e assunção da necessidade de seguir
psíquicos inconscientes. Na base da formação do trabalhando em e pela Psicanálise para que seu devir
psicanalista está sua condição de investiga-dor, possa ser coerente com seu nascimento inovador.

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Psicologia: Ciência e Profissão Jul/Set. 2016 v. 36 n°3, 520-533.

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Como citar: Silva, C. M., & Macedo, M. M. K. (2016). O método psicanalítico de pesquisa e a potencialidade dos
fatos clínicos. Psicologia: Ciência e Profissão, 36(3): 520-533. doi:10.1590/1982-3703001012014

How to cite: Silva, C. M., & Macedo, M. M. K. (2016). The psychoanalytic method of research and the potential of
clinical facts. Psicologia: Ciência e Profissão, 36(3): 520-533. doi:10.1590/1982-3703001012014

Cómo citar: Silva, C. M., & Macedo, M. M. K. (2016). El método psicoanalítico de investigación y la potencialidad
de los hechos clínicos. Psicologia: Ciência e Profissão, 36(3): 520-533. doi:10.1590/1982-3703001012014

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