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ESQUERDA E DIREITA EM TEMPOS GLOBAIS

Fábio Wanderley Reis

A díade esquerda-direita, na medida em que se liga com o problema das


ideologias, encerra complicadas conexões entre fatos e valores. Deixando de
lado o sentido que a noção de ideologia adquire na sociologia do
conhecimento, onde sugere a dificuldade de se alcançar a “descentração”
cognitiva de que falava Piaget e se torna sinônimo de percepção distorcida e
erro, a acepção política de “ideologia” envolve a referência não só a uma
dimensão motivacional ou de identificação e antagonismo com respeito a
preferências e valores, mas também a uma dimensão intelectual ou cognitiva –
com a ressalva de que, neste caso, somos remetidos antes à capacidade de
racionalidade e de elaboração sofisticada. Esquerda e direita também dizem
respeito, naturalmente, à contraposição entre preferências, valores ou
orientações valorativas, mas problemas fatuais emergem em planos diversos
nas discussões correntes a respeito.

Em primeiro lugar, há a questão simples de saber se esquerda e direita


continuam vivas como ponto de referência na orientação política das pessoas.
Trata-se aí de algo que se poderia pretender esclarecer por meio de coisas
como surveys de opinião, e poderíamos eventualmente vir a constatar que a
questão comporta respostas diferentes para diferentes países ou categorias
populacionais. Um recente volume brasileiro pretende mostrar, por exemplo,

Publicado em Filosofia Política (Nova Série), volume 6, 2000.

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que a oposição esquerda-direita tem insuspeitada relevância no processo
político-eleitoral do país, o qual seria muito mais “ideológico” do que se
costuma imaginar.1 A maneira precária em que o autor procura sustentar tal
proposição, pondo de lado os componentes intelectuais ou cognitivos da idéia
de ideologia em benefício do componente emocional ou valorativo
correspondente à mera identificação com “esquerda” ou “direita” (tratada
como um “sentimento” ideológico “intuitivo” que caracterizaria eleitores que,
em sua grande maioria, nem sequer conhecem o significado das categorias),
realça ela própria, e leva a uma espécie de exasperação, o problema da
conexão entre os dois aspectos acima mencionados, o da capacidade cognitiva
de apreensão e avaliação dos fatos e o das preferências, aspirações ou
orientações valorativas: “esquerda” e “direita” serão nomes para posturas
propriamente “ideológicas”, servindo como rótulos para perspectivas
doutrinárias mais ou menos sofisticadas, ou servirão também para designar
tomadas de posição toscas e desinformadas?

Em segundo lugar, há a questão de até que ponto as próprias orientações


de esquerda e de direita se distinguirão em termos de “realismo” ou de apego
aos fatos. As posições de direita com frequência pretendem que a lucidez é
prerrogativa sua: contra o sonho das esquerdas, as “duras réplicas da história”,
que imporiam justamente a necessidade de atenção pragmática e realista aos
fatos. Mas um componente importante do ideário de esquerda sempre
denunciou a miopia desse suposto realismo da direita, enquanto reivindicava
para si a verdadeira lucidez, que se revelaria com a adequada perspectiva de
tempo. Assim, antes que ocorresse a corrosão da utopia socialista, era possível
opor às idas e vindas da conjuntura a idéia da história como uma espécie de
1
André Singer, Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro, São Paulo, Edusp, 2000.

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escada rolante, na imagem de Louis Hartz, em que o socialismo se realizaria
de modo inexorável.

É clara a dificuldade. De um lado, entre as razões que permitiriam


apontar a estupidez da esquerda destaca-se a rigidez mental que resultaria
justamente da visão determinista da história como escada rolante, à qual seria
preciso contrapor a abertura intelectual disposta a apreciar com flexibilidade
os eventos que emergem em qualquer momento dado. De outro lado, a lucidez
na apreciação dos eventos não pode significar senão a capacidade de avaliar
seu significado em termos prospectivos, ou seja, de apreender as tendências –
e portanto as determinações – que neles se expressam e assim vir a ser capaz
de agir com eficiência no mundo que tais tendências conformam.

Em terceiro lugar, há a questão de como os fatos (eventos, processos)


interferem com a relevância da contraposição entre esquerda e direita,
tomadas como orientações valorativas. Muito antes da queda do muro de
Berlim, falava-se do “fim das ideologias” para indicar não apenas a tendência
fatual à prevalência do pragmatismo dos interesses que as transformações do
pós-guerra teriam produzido, mas também a perda de relevância filosófica ou
doutrinária das ideologias, com o caráter dramático das identificações e
antagonismos que elas supõem, tais como os que se expressam no confronto
esquerda-direita. No mundo atual do pós-socialismo, a tese se retoma
supostamente com melhores razões, tendo-se chegado a falar, a propósito, do
fim da própria história.

Naturalmente, não cabe negar a importância dos fatos para a maneira


como se conformam os valores e sua eventual relevância prática. No momento

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atual, os processos econômico-tecnológicos ligados à globalização, bem como
a queda do socialismo na ex-União Soviética e na Europa oriental, com o
enfraquecimento que produzem também dos protagonistas sociopolíticos da
afirmação da social-democracia nos decênios anteriores, não podem senão
favorecer a difusão de idéias e valores associados à direita. Criam-se, assim,
“consensos” mais ou menos efetivos, que se vêem, por sua vez, eventualmente
rompidos em função de fatos que desmentem certos aspectos otimistas dos
diagnósticos por eles sustentados. De outra parte, além da convergência
ocasional na apreciação analítica dos fatos, que valores divergentes não
necessariamente impedem, é por certo possível que os fatos venham a permitir
também o aprendizado e a eventual concordância com respeito aos próprios
valores entre os integrantes de campos inicialmente opostos. Assim como o
empenho igualizador do welfare state representou durante longo tempo, em
condições objetivas favoráveis, um foco de convergência para posições
variadas do espectro político, assim também as experiências negativas com o
“socialismo real” e com vários autoritarismos recentes na periferia do
capitalismo mundial propiciaram o difundido aprendizado, no campo da
esquerda, sobre a importância da democracia liberal ou “formal” – e não só
em função de considerações instrumentais, mas em nome dos próprios valores
humanistas mais importantes que tendem a caracterizar aquele campo. Na
verdade, a social-democracia representou ela mesma uma primeira e
importante consequência desse aprendizado, com a ênfase revolucionária em
objetivos socialistas cedendo o passo ao compromisso democrático em que se
buscou conciliar preocupações sociais e igualitárias com a preservação da
autonomia e da liberdade individuais em diferentes esferas e do próprio
capitalismo.

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Como quer que seja, nem a derrocada e aparente inviabilidade futura do
socialismo como meta, nem o reconhecimento da existência de matizes
variados na articulação entre fatos e valores redunda pura e simplesmente em
negar a relevância doutrinária e filosófica da contraposição entre direita e
esquerda como tal. Pois seguem existindo valores também importantes –
talvez os valores mais básicos – de convivência tensa e conciliação
problemática, os quais tendem a disputar prioridade e eventualmente a chocar-
se. Entre nós, Bresser Pereira tem contraposto o compromisso da direita com a
ordem ao apego da esquerda ao ideal de justiça.2 Já Norberto Bobbio formula
o contraste de orientações em termos do maior apego da esquerda à idéia de
igualdade, enquanto a direita se mostra mais pronta a aceitar a desigualdade
não apenas como fato inevitável, mas também como algo desejável.3 Tais
formulações diversas são claramente compatíveis, parecendo natural
contrapor, em certo nível, as afinidades entre a aspiração à justiça e à
igualdade, de um lado, e, de outro, àquelas que se dão entre a idéia de ordem
(que se pode pretender desdobrar na capacidade de agir coletivamente de
maneira eficiente) e a afirmação de um princípio hierárquico.

Em outro nível, porém, as coisas se mostram mais complexas,


apontando no rumo da superação filosófica de tais contrastes de maneira que
transcende a suposta vitória da direita na atualidade. O ponto central pode ser
apreciado por referência ao caráter peculiar do valor da autonomia e a suas
relações complicadas com os demais valores presumidamente antitéticos da
esquerda e da direita. Dificilmente se poderia pretender ligar a autonomia, sem

2
Ver, por exemplo, Luiz Carlos Bresser Pereira, “Por um Partido Democrático, de
Esquerda e Contemporâneo”, Lua Nova – Revista de Cultura e Política, no. 39, 1997.
3
Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política,
São Paulo, Editora UNESP, 1995 (edição italiana original de 1994).

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mais, com as posições tradicionais quer da direita ou da esquerda, negando sua
importância na perspectiva oposta. De um lado, temos, à direita, o liberalismo
econômico e sua associação com a valorização do mercado e da competição.
Assimilada à eficiência da dinâmica do capitalismo, a ordem é aqui percebida
como envolvendo a afirmação da autonomia dos agentes na crucial esfera
econômica, ainda que deva conciliar-se com a afirmação também da
hierarquia, seja no plano dos instrumentos mobilizados pelos agentes
dispersos ou da desigualdade que emerge nos resultados agregados da
operação do mercado, seja no plano da implantação das condições político-
institucionais gerais da competição regrada. De outro lado, à esquerda, embora
a solidariedade deva contrapor-se à mecânica cega dos mercados para
traduzir-se em igualdade e justiça, ela trairia esses objetivos se, ao invés de ser
a condição e o instrumento da autonomia dos indivíduos, redundasse em
favorecer a sujeição de uns a outros. Basta evocar, a propósito, o modo pelo
qual o solidarismo projetado por Marx na sociedade comunista resulta, na
verdade, em passagem famosa da Ideologia Alemã, em viabilizar um
individualismo exacerbado: toda e qualquer restrição da autonomia individual
decorrente da vinculação adscritícia das pessoas a determinada categoria
(como consequência sobretudo da divisão social do trabalho e das relações de
classes, mas o princípio tem naturalmente de ser generalizado para qualquer
outro fator de adscrição e domínio: raça, gênero, etnia etc.) é aí negada numa
condição em que os indivíduos se tornam plenamente os autores de si mesmos
ao exercer uma liberdade levada ao ponto do capricho.

O drama consiste em que a afirmação do ideal de autonomia dos


agentes, que envolve um desiderato de distribuição tão igualitária quanto
possível do poder sob todas as suas formas, tem de ser conciliado com

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imperativos de produção coletiva de poder, até mesmo para que haja
instrumentos capazes de garantir sua distribuição adequada e a autonomia de
cada um. Essa exigência se coloca de maneira menos aguda para a direita, na
qual o que se espera do poder coletivo (do estado) é apenas o estabelecimento
de parâmetros para um jogo competitivo a desenrolar-se na esfera privada e
cujos resultados desiguais são vistos, em larga medida, como aceitáveis. Para
a esquerda, porém, os valores solidários e igualitários remetem a um desafio
de racionalidade e eficiência muito mais exigente no plano coletivo, ou seja,
na realização de desígnios que não são mais dos meros atores individuais, mas
da própria coletividade como tal, ou do instrumento de coordenação e ação
coletiva representado pelo estado, o qual forçosamente adquire aqui muito
maior importância.

Ora, disso decorrem certas consequências. Uma delas é a de que a


conciliação entre solidariedade e autonomia surge como problema muito mais
delicado para a esquerda. Os resultados perversos do “socialismo real”, com a
busca supostamente solidária da igualdade desaguando em negação radical da
autonomia (sem falar do comprometimento da própria eficiência coletiva,
especialmente no plano econômico, que essa negação acaba por produzir, de
forma que faz ressaltar os paradoxos envolvidos), tornam a via intermediária
representada pela social-democracia a resposta natural ao problema. Embora o
equilíbrio possa dar-se de maneiras variadas, temos nela, em princípio, o
compromisso entre o indispensável substrato da autonomia que aprendemos a
ver na operação do mercado e em suas garantias liberais, por um lado, e, por
outro, a ação igualizadora do estado e o enriquecimento da concepção de
cidadania, em que a idéia dos direitos sociais, de par com os civis e políticos,
vem afirmar-se acima da mera inserção mais ou menos bem-sucedida no jogo

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do mercado. Daí que o movimento atual, em que tendências fatuais
supostamente inexoráveis (é a direita, agora, a recorrer à escada rolante...) são
apontadas como tornando inócua a disputa sobre valores, deva ser visto como
triunfo ideológico, em sentido em que sobressai a acepção de “ideologia” na
sociologia do conhecimento e que indica conexão problemática com os fatos.
Em particular, fica em aberto a questão de até que ponto as supostas
tendências (que, ainda que verdadeiras, podemos, naturalmente, ter bons
motivos para perceber como ruins e como requerendo ações contrárias a elas,
ao invés de acomodação a elas) constituem razão bastante para que nos
despojemos da concepção rica e social da cidadania – e se estamos realmente
condenados à busca resfolegante de eficiência que pretende valer-se da
autonomia, mas que a nega na verdade para muitos em circunstâncias em que
a solidariedade e a igualdade surgem como peças retóricas corroídas pelos
fatos.

Outra consequência se liga diretamente a isso. Trata-se do problema da


escala em que haverão de operar a racionalidade coletiva e os esforços de
coordenação solidária. A social-democracia, com a presença importante de
partidos de orientação trabalhista, dos mecanismos neocorporativos, em que a
competição se viu mitigada por certa convergência orgânica, e do welfare
state, foi (e é ainda) um fenômeno nacional, que se articulou com o estado
nacional e redefiniu de maneira positiva e ambiciosa o seu papel. Ora, nas
novas condições da atualidade, a afirmação vigorosa dos mecanismos de
mercado no nível transnacional não só altera a dinâmica econômica que
possibilitou aquela convergência e debilita os atores políticos e sindicais
domésticos que a protagonizaram, mas cerceia e restringe os próprios estados.
Um aspecto crucial do desafio passa a ser, assim, o de obter produção coletiva

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de poder e organização na própria escala transnacional em que se fazem sentir
os efeitos de uma autonomia nova dos agentes dispersos do mercado (e que
fazem da globalização, como destaca Wolfgang Reinicke, um processo
microeconômico, referido à reorganização espacial da atividade das
corporações e obediente à lógica estreita dos seus interesses4). E isso não só
com vistas a assegurar o controle racional dos mecanismos “sistêmicos” do
mercado e seus possíveis efeitos negativos mesmo no plano econômico, mas
também, quem sabe, em nome de sua eventual conciliação, em escala
planetária, com os valores solidários e igualitários. Não há como evitar a
utopia de uma espécie de social-democracia de alcance mundial, e cumpre
reconhecer que os estados nacionais, não importa sua debilidade, serão
instrumentos indispensáveis nos esforços a que ela incita e no inevitável
formato federativo de organização que ela contempla. Como quer que seja,
existe, sem dúvida, no mundo novo com que nos defrontamos, amplo espaço
para os valores que a esquerda tem defendido. Se as tarefas a enfrentar são
certamente mais complicadas, tanto pior: os riscos sistêmicos e a perversidade
social dos automatismos estúpidos que resultam do jogo livre de autonomias
dispersas e agora mais poderosas não são alternativas aceitáveis à busca de
coordenação e racionalidade, ou ao empenho de encontrar o equivalente
funcional do estado – e do estado democrático e social – em plano mundial.

Cabe ponderar rapidamente, na perspectiva das propostas de uma


“terceira via” à maneira de Anthony Giddens, como as novidades da cena
mundial afetam a idéia da social-democracia como modelo e meta.5 A respeito
4
Wolfgang Reinicke, Global Public Policy: Governing without Government?, Washington,
D.C., The Brookings Institution Press, 1998.
5
Anthony Giddens, A Terceira Via: Reflexões sobre o Impasse Político Atual e o Futuro
da Social-Democracia, Rio de Janeiro, Editora Record, 1999 (edição inglesa original de
1998).

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do aspecto crucial recém-assinalado, correspondente à necessidade que se cria
de ação coordenada em escala apropriada e, em última análise, de governo
mundial, Giddens tem o mérito de reconhecê-la e afirmá-la com força,
advertindo que não faz sentido “contestar o fundamentalismo de mercado no
nível local mas permitir que ele reine no nível global” e chegando mesmo a
examinar brevemente, com base em experiências como a da União Européia,
formas de arranjo institucional com as quais passos concretos rumo ao
governo global se poderiam dar nas condições da atualidade. Mas, entendida a
“velha” social-democracia como definida, em seu cerne, pelas posições quanto
às relações entre estado e mercado e suas conexões com os ideais de
autonomia e igualdade, as propostas de Giddens não chegam a representar
novidade ou solução realmente original para os problemas. Há, certamente,
posições sensatas quanto a uma série de questões do mundo novo que não
dizem respeito àquele cerne – ecologia, criminalidade intensificada,
sociedades nacionais que se tornam cultural e etnicamente plurais, mudanças
na família... Depositam-se, além disso, esperanças difusas na “sociedade
civil”, as quais não impedem, porém, que Giddens afirme com clareza a
incapacidade dos movimentos sociais e outros tipos de organização não-
governamental para substituir o estado nas numerosas e decisivas funções que
continua a reconhecer-lhe. Resta, assim, a acolhida dada a certa crítica de
direita ao welfare state, descrito como “essencialmente não-democrático” por
depender da “distribuição de benefícios de cima para baixo”, característica à
qual se procura contrapor a diretriz de “investimento em capital humano
sempre que possível, em vez de fornecimento direto de sustento econômico”.
Se isso sugere certa ênfase no valor da autonomia que se poderia pretender
afim ao “neoliberalismo”, é difícil ver em que sentido o “estado de
investimento social” ou em “capital humano” deixaria de corresponder a

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benefícios vindos “de cima”, se é que a caracterização é adequada para o
welfare state em geral. E a lista que Giddens apresenta dos valores da terceira
via situa não apenas a igualdade, mas também a “proteção aos vulneráveis”,
em plano até mais destacado que o da liberdade como autonomia, além de se
fazer acompanhar de extensa elaboração da idéia de que não é sustentável
tomar a igualdade apenas em termos de igualdade de oportunidades, ou
meritocracia, como seria próprio dos neoliberais. Assim, se lemos Giddens, a
terceira via não parece ser mais que a social-democracia de sempre, apenas
agora assustada e em grande medida perplexa diante de um mundo mais
complicado e em fluxo. Tais inconsistências e dificuldades do que é talvez a
tentativa mais explícita de redefinir a social-democracia em função dos
desafios novos indicam que o que se pode conceber como necessário é, em
pontos essenciais, mais do mesmo – ainda que as brumas que nos cercam
sejam espessas.

A grande indagação é a de até que ponto, no mundo novo da derrocada


socialista e da enorme dificuldade de afirmação de uma racionalidade
coordenadora diante do triunfo dos mecanismos de mercado em escala global,
será possível manter a necessária perspectiva de tempo. Pois parecemos todos
mesmerizados e atacados de fatal miopia em circunstâncias em que o perene
problema da conciliação entre os ideais contraditórios de autonomia de atores
dispersos e de solidariedade coletiva passa a colocar-se desalentadoramente no
nível do próprio planeta. Resta a ponderação de que a perplexidade, ao
contrário do que se tem sugerido, está longe de restringir-se à esquerda,
surgindo também entre os paladinos de um capitalismo liberal e globalizador
na medida em que a operação deste se mostra propensa a engendrar crises
sistêmicas. Nos esforços de eventualmente neutralizá-las talvez venhamos a

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encontrar os meios para fazer que a busca de ordem e eficiência redunde
também em produzir solidariedade e mitigar a desigualdade. Com a reserva de
que, dada a natureza dos problemas, a perspectiva de tempo, que ensina
paciência, tem de combinar-se como for possível com o também necessário
sentido de urgência.

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