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Quadro geral do desenvolvimento

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das estruturas mentais
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LIMA, A.F.S.O. Pré-escola e Alfabetização: uma proposta baseada em P. Freire e J. Piaget.14 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2001, p. 43-48

nível de
idade nível de representação nível de
estágio do nível de organização representação
média desenvolvimento linguagem gráfica
(anos) e socialização (desenho) (corpo)

monólogo
(ecolália, realismo imitação com
0 a 2/3 sensório-motor individual fortuito
palavra-frase) modelo

2/3 a monólogo pares realismo imitação sem


4/5 simbólico coletivo móveis gorado modelo

4/5 a informação pares realismo jogo


intuitivo adaptada fixos intelectual simbólico
7/8

7/8 a operatório realismo


concreto diálogo bando visual dramatização
11/12

11/12 em operatório discussão grupo técnicas de teatro


diante abstrato desenho

1. ESTÁGIO DO DESENVOLVIMENTO

A1 Sensório-motor (zero a dois/três anos)


A principal característica deste período é a ausência da função semiótica, isto é, a
criança não representa mentalmente os objetos. Não sendo capaz de evocar os objetos
em sua ausência, sua ação é direta sobre eles. Não tendo a imagem mental
(representação do objeto) não tem linguagem. A inteligência trabalha com as
percepções (sensório) e a ação, deslocamentos do próprio corpo (motor). Do ponto de
vista dos significantes, a inteligência sensório-motora usa apenas os índices e sinais
como intermediários dos objetos.
A assimilação é, pois, a ação da criança sobre o meio, que é fundamental para a
construção do objeto permanente (representação - função semiótica) e dos grupos de
deslocamento (deslocamentos possíveis no espaço).
A criança leva aproximadamente dois anos neste processo, terminando por construir
a função semiótica e adquirindo a linguagem.
O princípio didático é a permissividade para a AÇÃO da criança sobre o meio:
deslocar a si e os objetos no espaço, engatinhar, subir e descer escadas, andar em
trilhas, empurrar e puxar, encaixar e enfileirar objetos (blocos, grãos, caixas, vidros
etc.), manipular diferentes materiais e texturas (terra, água, pano, papel etc.),
imitações faciais, sonoras e de gestos.
.1
B1 Simbólico (dois/três a quatro/cinco anos)
Aqui aparece a função semiótica (linguagem, desenho, imitações, dramatizações, etc.) e a
criança torna-se capaz de evocar os objetos em sua ausência graças à imagem mental
(representação mental do objeto) . Utiliza-se dos símbolos como significantes. É a idade da
fantasia, do "faz de conta". Extremamente egocêntrica (centrada em seu próprio ponto de vista,
em si mesma), conversa sozinha e brinca com seus brinquedos, fazendo histórias e/ou
reproduzindo situações vividas (com seus familiares, professores etc.) . Seu esquema de
assimiliação é simbólico, sendo capaz de transformar o mundo, simbolicamente, para satisfazer
uma necessidade sua (dizer por exemplo que um pedaço de pano é "seu filho", dizer que uma
caixa é um carro etc.). Seu "alimento" é a FANTASIA e por isto, adora ouvir histórias. É animista
com relação aos objetos (lhes atribui vida, por exemplo, se tropeça é capaz de "bater" no chão
como se este tivesse vida) . Existem inúmeras características do pensamento simbólico que,
entretanto, não vamos aqui discutir por considerar que uma caracterização geral nos é
suficiente para o trabalho pedagógico, por exemplo: artificialismo, nominalismo, deslocamento,
justaposição, predominância do figurativo, descontinuidade, ausência de seqüências lógicas,
sincrético, confusão de pontos de vista, amnésia sucessiva, mágica, contradição,
superdeterminação etc.
Os símbolos não aceitos universalmente, eles são estritamente individuais e altamente
motivados, não possuindo nenhum valor para a comunicação social, pois são expressões de
emoções e desejos.
Para a educação é importante ressaltar o caráter LÚDICO do pensamento simbólico, uma vez
que este será o instrumento com que vamos trabalhar com estas crianças. Didaticamente, pois,
devemos explorar abundantemente as imitações sem modelo, as dramatizações, os desenhos e
pinturas, as histórias, o "faz de conta", a LINGUAGEM e, antes de tudo, PERMITIR que
realizem os jogos simbólicos, sozinhas e com as demais, tão importantes para seu
desenvolvimento cognitivo e para o equilíbrio emocional.

C1 Intuitivo (quatro/cinco a sete/oito anos, aproximadamente)


Diferenciando-se das crianças simbólicas, as intuitivas demonstram especial interesse
pelas causas dos fenômenos e é por isto que perguntam tudo o tempo todo (a famosa
"idade dos porquês") . Têm muito interesse em experimentações sem, contudo, terem
critérios para realizá-las (não fazem, por exemplo, uma experiência com etapas
sucessivas)
A criança supera o animismo, passando para o artificialismo (atribui tudo que existe no
mundo à obra do homem), e se lhe perguntamos quem lhe ensinou alguma coisa
responde simplesmente: "ninguém, eu sempre soube". Necessita da PALAVRA para suas
expressões. Pode dramatizar qualquer absurdo sem, contudo, acreditar nele, distinguindo
perfeitamente a fantasia da realidade.
Quanto à flexibilidade de seu pensamento, é ainda extremamente centrada em seu
próprio ponto de vista (centração perceptiva), não sendo capaz de tomar dois pontos de
vista ao mesmo tempo: é a ausência de reversibilidade do pensamento (capacidade de
reverter o raciocínio e retomar o ponto de partida - veja no vocabulário “conservação da
substância" que é o teste de reversibilidade do pensamento). Por exemplo, se a criança for
levada a ver o outro ponto de vista, imediatamente esquece-se do primeiro e toma o
segundo como seu. Um teste bem simples pode ser feito para observarmos este
.2 fenômeno: tomemos dois desenhos de navios, um pirata e um de guerra e colemos nos
dois lados de uma mesma folha de papel. Duas crianças devem estar sentadas em lados
opostos de uma mesa, de forma que cada uma delas possa ver apenas um dos navios.
Perguntemos agora a cada uma o que estão vendo, ao que cada uma responderá o navio
que pode ver. Se insistimos em que decidam se é um navio pirata ou um navio de guerra,
cada uma teimará que é o seu, descrevendo (porque tem isso, porque tem aquilo).
Deslocamos então uma das crianças para o lado em que está a outra criança, pedindo-lhe
que venha olhar. Ao defrontar-se com o segundo navio, ela "esquece" o navio anterior e é
capaz de admitir "é, é de guerra".
Do ponto de vista da construção das operações, já é capaz de organizar coleções e
conjuntos, embora não sendo capaz ainda de incluir conjuntos menores em outros mais
amplos (inclusão de classes, por exemplo, inclusão do conjunto de aves no conjunto de
animais). Possui uma noção intuitiva das grandezas, podendo posicionar a si mesma e
aos objetos embora ainda por correções sucessivas.
Didaticamente, devemos explorar as causalidades e iniciar a organização do mundo,
utilizando critérios, propriedades. Podendo já compreender regras simples, podemos
iniciar com jogos e brincadeiras que envolvam já algumas regras (dominó, damas etc.). As
experiências com os objetos são importantes para que sejam conhecidos agora em suas
relações causais. A expressão verbal é importante, e devemos explorar as dramatizações,
descrições de quadros, recontar uma história que já havia sido contada, poesia etc.

D1 Operatório concreto (sete/oito a onze/doze anos)


Conclui e consolida as conservações do número, da substância e do peso (ver no
vocabulário). Supera a centração em um único ponto de vista e é capaz agora de ver a
totalidade de diferentes ângulos. Por exemplo, se lhe apresentamos uma casa construída
em papelão e uma série de desenhos feitos de diferentes pontos de vista, a criança, sem
sair do lugar, é capaz de dizer de onde foi feito cada um dos desenhos. Organiza o
mundo de forma lógica (operatória), isto é, é capaz de incluir conjuntos, de ordenar
elementos por suas grandezas, usando critérios de conjunto (ver nas instruções os níveis
de ordenação). Apesar de ainda trabalhar com objetos, agora REPRESENTADOS, sua
flexibilidade de pensamento permite um sem-número de aprendizagens.
Pode agora fazer uso dos SIGNOS, convencionais e arbitrários (palavra), e, portanto, é o
momento mais indicado para a alfabetização. Pode dramatizar um texto em nível de
teatro. A linguagem verbal é cada vez mais importante e já é capaz de conversar
longamente com os companheiros.
Didaticamente, sendo capaz de concentração por longo período e de executar tarefas que
envolvam seqüências e regras, devemos explorar experiências de resultados imediatos ou
de longo prazo (por exemplo, plantar e acompanhar o crescimento de uma planta etc.). É
a famosa fase do "escoteiro", tendo interesse em coleções, figurinhas, aventuras etc. Pode
aprender jogos mais complexos como o xadrez, o futebol. Se seu processo de alfabetização
foi natural, certamente gostará da leitura, onde descobre um mundo de aventuras,
curiosidades e novos conhecimentos. Adora as adivinhações, os enigmas, as charadas, e
podemos usar estes recursos fartamente na aprendizagem escolar.

E1 Operatório abstrato (onze/doze anos em diante)


Não sendo de interesse para o nosso presente trabalho, vale a pena dizer que a
criança aqui se liberta inteiramente do objeto (inclusive representado), trabalhando
.3 agora com a forma (em contraposição a conteúdo). Libertou-se do concreto e situa o
real em um conjunto de transformações. Têm início os processos de pensamento
hipotético-dedutivos. Está interessado nas transformações sociais, nas teorias
voltadas para o futuro. Na linguagem, pode manter discussões por horas a fio... Nas
relações sociais, vive em grupo e é capaz de estabelecer relações de reciprocidade e
COOPERAÇÃO.

2. OS NÍVEIS DA LINGUAGEM

A2 Monólogo
A criança emite sons e balbucia sílabas. Utiliza uma palavra para significar uma frase.
Exemplo: "água" para dizer "eu quero água".

B2 Monólogo coletivo
As crianças parecem falar umas com as outras. Entretanto, suas frases não se coordenam entre
si, não se importam com a resposta dos outros. Exemplo: uma criança diz "eu fui na praia", ao
que outra responde "minha mãe me deu uma boneca". Falam todos ao mesmo tempo.

C2 Informação adaptada
A criança adapta sua resposta à frase do companheiro, mas não é capaz de
manter uma conversação longa, podendo mudar de tema a partir de uma
palavra que desperte o seu interesse.

D2 Diálogo
A criança pode manter uma conversação sem contudo ser capaz de
discutir diferentes pontos de vista para chegar a uma conclusão comum.

E2 Discussão
O adolescente é capaz de discutir um tema com diferentes pontos de
vista e chegar a uma conclusão.

3. NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO

A3 Individual
A criança nesta etapa trabalha sozinha. Os outros para ela são objetos, passíveis de serem explo-
rados como qualquer outro (mordem, empurram, abraçam etc.). As relações, pois, freqüente-
mente apresentam conflitos que, entretanto, não se constituem em "briga", mas poderíamos di-
zer que são explorações mútuas, idênticas às explorações que fazem com os objetos. Não em-
prestam seus objetos por não serem capazes de compreender que o outro os devolverá. .4
B3 Pares móveis
As crianças começam a andar em pares (freqüentemente dão as mãos). Estes
pares são móveis, isto é, dissolvem-se e refazem-se conforme a atividade. A
criança não compreende regras sociais nem acordos, e, portanto, estes pares não
significam acordos ou compromissos mútuos. No entanto, ao contrário da fase
anterior, os conflitos agora já configuram disputas ("brigas") e são freqüentes.

C3 Pares fixos
Estes pares são a gênese, o começo da construção dos bandos e grupos, pois já se caracterizam
por maior permanência nas escolhas. Começam a existir os primeiros amigos. Eventualmente
podem integrar um terceiro elemento, no entanto, dissolvem-se com muita facilidade. Os
conflitos aqui diminuem consideravelmente, embora não deixe de haver disputas. A criança é
capaz de presentear, emprestar, trocar objetos. São capazes de brincar longas horas juntos
(brincadeiras mais estruturadas), dividindo os seus brinquedos, o que não significa que não
exista conflito. Sabe já o que é seu e o que é do outro.

D3 Bando
As crianças agora agrupam-se em quantidades maiores (mais de três crianças).
Os bandos são em geral liderados por uma criança que possua uma
característica significativa (ser a maior, a mais forte etc.). Adoram chefiar e
serem chefiados. Compreendem as regras e sabem, agora, que existem regras
sociais e, portanto, são capazes de estabelecer alguns compromissos e serem
fiéis às regras, sendo capazes de denunciar o colega que as infringiu. Por
acreditarem no poder supremo das regras e sua imutabilidade, não aceitam os
que as violam; é o que Piaget chamou de "moral do dever". São muito
freqüentes os fenômenos coletivos (terem um mesmo tipo de atitude com o
professor, por exemplo). Os conflitos agora deixam de ser fundamentalmente
físicos, pois a pressão do grupo é uma dura pena.

E3 Grupo
Finalmente, as crianças são capazes de formar GRUPOS propriamente ditos, os grupos de
adolescentes, onde descobrem que as leis são transformáveis e seu compromisso antes de tudo é
com o SEU grupo. São absolutamente fiéis a ele, sendo totalmente incapazes de denunciar um
colega. Esta moral que rege o GRUPO é o que Piaget chamou de "moral da cooperação".

4. NÍVEL DE REPRESENTAÇÃO GRÁFICA

A4 Realismo fortuito
A criança risca o papel sem coordenar seus movimentos, por puro EXERCÍCIO. É o
que se chama comumente de RABISCAÇÃO. Em geral, enche o papel de traçados
largos evoluindo, no fim desta etapa, para riscos circulares, e, finalmente, pequenos
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círculos por todo o papel. Aos riscos descoordenados, chamamos de rabiscação e às
demais etapas, de desenho celular. Se perguntamos à criança o que desenhou, ela é
capaz de dar diferentes significações ao mesmo rabisco (é um jacaré, minha mãe etc.),
mudando de significado a cada pergunta.

B4 Realismo gorado
Incapacidade sintética. A criança não consegue colocar todos os elementos que
desenha na totalidade ou conjunto. Por exemplo, pode desenhar as mãos de um
boneco distantes do corpo, ou um chapéu ao lado da cabeça. Começa a
representar a figura humana através de um círculo (cabeça), dotado de pernas e
braços, são os chamados BADAMECOSGIRINOS.

C4 Realismo intelectual
Superando a fase anterior, a criança agora pode organizar os
elementos na totalidade. Enriquece consideravelmente seu desenho
em detalhes colocados e na quantidade de objetos que desenha. A
característica fundamental desta etapa é o fato de a criança desenhar
o que SABE que existe e não o que pode ser visto de um objeto nesta
ou naquela posição. Assim é que um rosto de perfil aparece
desenhado com os dois olhos aparecendo, ou de um homem
montado num cavalo, podemos ver as duas pernas, ou de um
animal podemos ver as quatro patas enfileiradas etc. Esta etapa
chamamos também de TRANSPARÊNCIA, pois podemos ver as
partes escondidas dos objetos como se eles fossem transparentes.

D4 Realismo visual
Finalmente, a criança já não desenha as partes ocultas dos objetos quando estes
são vistos de um determinado ângulo (ponto de vista) . Assim é que agora, ao
desenhar uma árvore atrás de uma casa, desenha apenas a copa, e de um rosto
de perfil, aparece apenas um olho etc. Estão superadas as transparências. Um
outro avanço nesta etapa consiste no fato de agora desenhar os objetos, de um
segundo plano, em tamanho menor, o que marca o início da representação da
profundidade. Começa assim a guardar as proporções métricas e coordenar as
partes, segundo um plano de conjunto.

E4 Técnicas de desenho
A criança utiliza as coordenadas, desenhando um conjunto que envolve relações métricas,
proporções, profundidade etc. Pode aqui aprender todas as técnicas de desenho (sombras,
perspectivas etc.) .

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5. NÍVEIS DE REPRESENTAÇÃO (CORPO)

A5 Imitação com modelo


Não tendo as representações mentais dos objetos, necessita da presença destes para
imitá-los. O objeto é o próprio modelo da imitação. Inicia com sons (movimentos com a
língua, sons de besouro etc.) , evoluindo para a aprendizagem da linguagem. Imita
gestos e expressões faciais, mas sempre com o modelo em sua presença: dar adeus,
caretas, piscar os olhos, andar como cachorrinho etc.

B5 Imitação sem modelo


É o início das representações mentais e a criança é capaz de evocar pessoas, objetos
etc. sem sua presença. Inicia então a imitar sons, gestos, animais etc. sozinha ou se
lhe pedimos simplesmente. Faz destas imitações um jogo de exercício (fica tempos a
fio repetindo).

C5 Jogo simbólico
Semelhante à fase anterior quanto à posse da representação mental, esta etapa
acrescenta a capacidade de reproduzir SITUAÇÕES vividas. Assimilando o
mundo real ao EU, a criança transforma, através da fantasia e do "faz de conta", o
mundo para realizar os seus desejos. Assim é que se transforma em pai/mãe para
seus bonecos ou diz que uma cadeira é um trem. Esta é uma etapa extremamente
rica, onde a linguagem já tem peso importante para a apreensão da criança. Estes
jogos já podem ser realizados com outras crianças.

D5 Dramatização
A criança torna-se capaz de reproduzir textos ou representá-los a
partir de situações vividas, respeitando um contexto temporal,
repartindo personagens e obedecendo seqüências lógicas (início, meio
e fim). Inicia com pequenos textos ajudada pelos adultos (em situação
escolar) para, em seguida, dramatizar sozinha com base em estórias,
filmes etc. Espontaneamente, brinca de bandido, casinha durante
horas com os colegas. São capazes de criar histórias com enredo, em
geral a partir de situações vividas.

E5 Teatro
A criança pode dominar todo o conjunto de representação de um ato e desenvolver todos os
aspectos que envolvem as práticas teatrais (caracterização de personagens, vozes, marcações,
cenários, fantasias, iluminação etc.) .

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