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Relatório da consulta pública ao Processo

nº 030512 da Câmara M. Olhão


Venda do terreno onde está construído o Real
Hotel

Preâmbulo

Este processo refere-se à venda pela Câmara de Olhão do


terreno onde hoje está construído o Real Hotel, o primeiro
pedido de acesso para consulta ao processo pelo Somos
Olhão! a 25 de Janeiro de 2010 foi negado pela Câmara,
voltando a ser negado depois de parecer da CADA –
Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos ter
recomendado a satisfação do pedido, o recurso a intimação
judicial foi a via seguida para ver a pretensão satisfeita e
que veio a ter acolhimento em sentença do TAF de Loulé a
26 de Maio de 2010, só a 10 de Fevereiro de 2011 a
Câmara satisfez a consulta, tendo sido feita por uma
comissão constituída por quatro membros do SO! que
contou 152 folhas, tomou nota da designação dos
diferentes documentos e requereu a passagem de cópia de
todo o processo por fotocópia por ser forma prevista para a
consulta e permitir uma análise mais atempada e cuidada.
Esta cópia na altura agendada para ser entregue em 8 dias
só veio a concretizar-se após protesto e recurso a queixa
judicial no dia 21/03/2011.

O tempo que intermediou foi 14 meses, tempo bastamente


longo para um órgão do poder autárquico, eleito por
sufrágio dos munícipes satisfazer uma simples pretensão de
acompanhamento e controlo popular da gestão pelos
eleitos da coisa pública municipal.

A recusa inicial, a oposição e entraves posteriores são


ilustrativos de prática e procedimento autárquico, que
neste caso concreto, é claramente contra a transparência,

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de sonegação de informação aos cidadãos, onde o órgão
Câmara e o seu Presidente são actores maiores.

Esta comissão criada pelo SO! para analisar e se pronunciar


sobre o Processo administrativo nº 030512 como foi
fornecido e nesses termos:

Verificou, constatou, concluiu e recomenda:

1.- São cento e cinquenta e duas folhas não rubricadas,


numeradas manualmente de 1 a 152. Não tem termos de
abertura e/ou de fecho. Não tem registo de entrada/saída
de documentos.
(Sendo as folhas de 14 a 152 sem relevância, para o fim em apreço,
pois correspondem a documentação apresentada na candidatura do
concurso demonstrativa da experiência na actividade.)

2.- Observa-se que a numeração foi feita pela mesma mão


de uma só vez, sugerido pelo desenho, estilo e traço dos
algarismos e tudo indica a mesma caneta, parecendo ser
trabalho feito de propósito para satisfazer lacuna.

3.- Há folhas de documentos do ano de 2002 com número


anterior a de 2003, p.ex. : despacho a nomear comissão
para abertura, apreciação das propostas, feito e com data
de 20 de Novembro de 2003 é o primeiro documento, de
uma só folha a nº1, quando a proposta da Câmara, com
data de 10 de Setembro de 2002, para apresentar à
Assembleia Municipal de 25/09/2002 a pedir autorização
para vender em hasta pública a parcela de terreno,
também de uma só folha tem o número 7, a Acta desta
Sessão da Assembleia Municipal o nº 6.

O que nos leva mais uma vez, agora a concluir, que a


numeração aposta nas folhas só foi aposta em momento
ulterior à entrada dos documentos no prcesso.

4.- Não consta documento que informe da publicação no


Diário da República do Edital n.48/2003 – ALIENAÇÃO PARA
CONSTRUÇÃO DE UM HOTEL.

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5.- Não consta documento que dê a conhecer que este
Edital, como é exigido legalmente, foi publicado na
Imprensa.

6.- Pelo que se conclui que estes actos (procedimentos?) a


que se referem os pontos 4 e 5 não se realizaram uma vez
que está excluída a hipótese de estarem em falta,
confirmado pela Chefe da Divisão Jurídica e Fiscalização e
responsável pelo acesso aos documentos administrativos
da Câmara que em resposta ( anexo 1) a pedido de
esclarecimento (anexo2) , disse: “… confirmando-se a
inexistência de outros documentos …”

Pelo que a publicidade da hasta pública para alienação


desta parcela de terreno, ter-se-á limitado à afixação (?) do
Edital nos locais de costume ficando assim gravemente
prejudicado o número de propostas apresentadas. Este
ponto pela sua importância vai voltar a ser abordado.

7.- Não consta documento que dê a conhecer o pagamento


da 1ª prestação a ser feita com a adjudicação, assim como
desta.

8.- Não consta documento com a marcação da Escritura, ou


notícia desta já ter sido feita e consequentemente saber se
já foi feito o último pagamento.

9.- Constata-se que o terreno foi colocado em hasta pública


com área de 10.000 m2 e valor base de licitação de
€100m2 (Edital, folha5), aparecendo uma única proposta
apresentada pela Sociedade de Empreendimentos
Turísticos João Bernardino Gomes, SA com o valor de
1.060.000,00 a quem foi adjudicado (Acta, folha2).

Este valor de 1.060.000,00€ é manifestamente baixo para


os valores do mercado à altura, em que o metro quadrado
em terrenos e condições idênticas nunca seria inferior a
1.000€, pelo que 10.000m2 seriam pelo valor de
10.000.000,00€.

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O baixo valor de 100€ foi questionado na Sessão da
Assembleia Municipal que aprovou autorização de alienação
tendo na oportunidade “O Sr. Presidente da Câmara referiu
que o hotel será de 4 estrelas e pensava que o valor irá
subir bastante, pois o facto da base de licitação ser baixa,
pensa que haverá muita procura, . . .”(da Acta, folha6).

A procura que o Sr. Presidente invocava não se verificou, a


que atribuímos por falta da publicidade legal, v. pontos 4 e
5 deste relatório, mínima quando é certo que outros
municípios em circunstâncias idênticas ainda promovem a
venda em meios de informação de maior divulgação, que
neste caso se mostrava conveniente.

Pelo que somos obrigados a concluir que transparece, nesta


alienação, dos factos e actos apuráveis da consulta ao
Processo nº 030512, uma intenção que se concretizou, em
vender a baixo preço a um interessado, que tomasse
convenientemente conhecimento da hasta pública, com
desconhecimento de todos os outros potenciais
interessados por o processo de venda ter decorrido sem
publicitação.

Sendo assim, percebe-se que houve um favorecimento na


pessoa terceiro particular, com prejuízo, grande, pelas
importâncias envolvidas para os cofres da Câmara, grave
pelos procedimentos pouco transparentes, onde implícito
estará também a utilização de informação privilegiada em
negócio público.

Esta Comissão dá por acabado o trabalho para que foi


criada, recomendando ao SO! que por forma conveniente
pela via judicial intente a verificação da legalidade e a sua
reposição sendo caso e que faça ampla divulgação deste
relatório assim como por à disposição do público a cópia do
Processo nº 030512.

Olhão, 06.04.2011

A Comissão

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Vogais:

Alcindo Viegas

António Terramoto

Manuel Figueira

José Martins

Relator:

Raul Coelho

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