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O VALE DA MOR

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TE

Os combates mais violentos do Afeganistão


ocorrem na fronteira com o Paquistão. Para
conter o avanço do Talibã nesses países, o
governo americano tem uma nova estratégia
DIOGO SCHELP Hemisfério Norte e os combates se in-
FOTOS DE ADAM DEAN tensificam, estarão no Afeganistão mais
20 000 soldados americanos. As forças

N
o Korengal, um vale internacionais no Afeganistão somam
com apenas 10 quilô- 75 000 homens e mulheres de 42 países,
metros de extensão pró- a metade dos soldados estacionada no
ximo à fronteira pa- Iraque. Com o aumento de contingente,
quistanesa, ocorrem as o governo americano quer impedir que a
batalhas mais violentas guerra se alastre para o Paquistão, cau-
de uma guerra que, quase oito anos de- sando um desastre geopolítico. Mais
pois de seu início, ainda precisa ser ven- soldados no terreno também reduzem a
cida. O fotógrafo inglês Adam Dean necessidade de recorrer a bombardeios
acompanhou, com exclusividade para aéreos. Na segunda-feira da semana
VEJA, o cotidiano das tropas america- passada, por exemplo, as bombas ameri-
nas nessa região montanhosa do Afega- canas mataram uma centena de civis em
nistão. A companhia militar à qual ele se um ataque contra o Talibã no oeste do
juntou era atacada diariamente por com- Afeganistão. Dois dias depois, em um
batentes talibãs e por jihadistas estran- encontro em Washington com os presi-
geiros recrutados pela Al Qaeda. Três dentes do Paquistão, Asif Ali Zardari, e
quartos de todas as bombas despejadas do Afeganistão, Hamid Karzai, Obama
pela Organização do Tratado do Atlânti- pediu mais empenho no combate às mi-
co Norte (Otan) no país são reservados lícias talibãs. Se algo der errado e o nú-
para o Korengal e arredores. A relevân- mero de baixas americanas aumentar
ROTINA DE GUERRA cia estratégica das áreas de fronteira demasiadamente, o Afeganistão poderá
Soldados americanos da com o Paquistão explica a decisão de ser para Obama o que o Iraque foi para
base de Restrepo disparam enviar para lá a maior parte do reforço George W. Bush ou o Vietnã para o pre-
morteiro de 120 milímetros. militar aprovado pelo presidente Barack sidente Richard Nixon: um atoleiro.
À noite, descansam à beira Obama em fevereiro. Até o começo do Os Estados Unidos entraram no
da fogueira (acima) segundo semestre, quando é verão no Afeganistão um mês depois dos atenta-
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dos de 11 de setembro de 2001, com o início da semana passada, o Talibã pa-


objetivo de destruir a Al Qaeda de Osa- quistanês assumiu o controle da princi-
ma bin Laden e derrubar o governo fun- pal cidade do Vale do Swat, localizada a
damentalista que lhe dava abrigo. Não apenas 130 quilômetros da capital, Isla-
havia dúvidas de que a invasão era ne- mabad. Nos dias seguintes, o exército
cessária. A Guerra do Iraque, contudo, intensificou os combates contra a milí-
roubou as atenções e os recursos milita- cia fundamentalista, que já domina qua-
res a partir de 2003, quando a situação se todo o vale.
no Afeganistão parecia controlada. O No Afeganistão, os sinais de que os
Talibã não dava mais as ordens na capi- talibãs estão de volta são de uma evi-
tal, Cabul, e os terroristas da Al Qaeda dência feroz. Os atentados suicidas em
já não conseguiam usar o país como ba- zonas urbanas, antes um fenômeno mais
se segura para organizar ataques em ou- associado ao Iraque, tornaram-se co-
tras regiões do mundo. Mas, de lá para muns. O número de civis mortos na
cá, o panorama piorou muito. Nos últi- guerra aumentou de 1.523, em 2007,
mos dois anos, o Talibã aumentou sua para 2.118, no ano passado. Os Estados
presença em três quartos do território Unidos e seus aliados perderam 294
afegão. Além disso, à encrenca se so- soldados em 2008, um aumento de 27%
mou outra: o Paquistão. As áreas tribais em relação ao ano anterior. O cultivo de
do país próximas à fronteira com o Afe- papoula, matéria-prima do ópio e da he-
ganistão tornaram-se refúgio tanto de roína, disseminou-se de tal forma que a
líderes do Talibã quanto de terroristas estimativa é que 1 em cada 8 dólares
da Al Qaeda. Eles passaram a utilizar a conseguidos com sua venda vá para o
região, sobre a qual o governo paquista- bolso do Talibã. Em troca, o grupo ofe-
nês tem controle quase nulo, para orga- rece proteção aos produtores e trafican-
nizar a retomada gradual do Afeganis- tes. Com o dinheiro, os insurgentes
tão. E também ameaçam desestabilizar compram armas contrabandeadas do
ainda mais o Paquistão, uma nação mu- Paquistão, para onde também fogem
çulmana e dona de um arsenal atômico. para descansar e tratar dos ferimentos.
O presidente do país, Zardari, é viúvo Eles sabem que os Estados Unidos não
de Benazir Bhutto, a candidata assassi- podem combatê-los diretamente no país
nada por fundamentalistas islâmicos vizinho, porque isso significaria trans-
em um atentado a bomba em 2007. No formar o aliado em inimigo.

ALIANÇA ANTI-TALIBÃ
As forças internacionais no Afeganistão estão sob o comando da
Otan, com mandato da ONU, e totalizam 60 000 soldados de
42 países, incluindo americanos. Além destes, há um contingente
de 15 000 militares dos Estados Unidos sob comando próprio

UZBEQUISTÃO
TADJIQUISTÃO AFEGANISTÃO
TURCOMENISTÃO PROVÍNCIA
DE KUNAR
ar

Rio Pe un
ch
oK
al

g
en
Ri

or
Rio K
CABUL Vale do
Korengal
PAQUISTÃO

AFEGANISTÃO
IRÃ
Tropas da Otan
PAQUISTÃO Área com forte presença do Talibã,
equivalente a 72% do território

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O, 200
O, ≤
FANTASMA
À esquerda, soldado
americano na base
de Restrepo dispara
contra insurgentes
que ele não vê.
Acima, patrulha
procura abrigo ao
ser atacada em trilha
na montanha.
À direita, funcionário
afegão da base
americana de
Korengal é atendido
após ser ferido com
estilhaços de granada
lançada pelo Talibã

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ISOLADOS Acima, Por questões ambientais,


moradores de uma o presidente Hamid Kar-
aldeia da província de zai, que assumiu o gover-
Kunar. Ao lado, soldado no após a queda do Talibã,
do Exército afegão em ordenou o fim do comér-
posto de observação no cio de madeira com o Pa-
Vale do Korengal quistão. A proibição eli-
minou a principal fonte de
Controlar o Korengal renda da população de
é vital para a estratégia de boa parte da província
frear o avanço do Talibã de Kunar, onde se locali-
em direção a Cabul. Até za Korengal, sem criar
2006, o vale funcionava uma opção econômica
como um corredor para viável. Esse fato, somado
terroristas e armas rumo aos bombardeios feitos
ao interior do Afeganis- por helicópteros america-
tão. Já era assim na déca- nos contra aldeias onde os
da de 80, quando a guer- terroristas usam os civis
rilha afegã expulsou as como escudo, explica por
tropas da União Soviética do país. Nos americanos de “fantasmas”. Alguns sol- que quase todos os jovens adultos da re-
últimos dois anos, o Exército americano dados passam um ano inteiro protegen- gião aderiram à guerrilha. Estima-se que
tenta interromper essa rota, lutando pelo do-se de tiros de fuzis AK-47 e disparan- eles recebam 100 dólares por mês para
controle de cada metro quadrado das do de volta sem jamais ver o inimigo. compor as fileiras do Talibã. Há também
montanhas ao redor. O objetivo é empur- Nas raras ocasiões em que isso acontece, outra motivação: o medo. Os que não
rar os talibãs e os jihadistas árabes, che- as tropas, legalistas ao extremo, não po- aderem são acusados de colaborar com
chenos, paquistaneses e até chineses ca- dem fazer nada. “Já ocorreu de, depois os americanos e podem ser mortos. Nes-
da vez mais para o fundo do vale. O ter- de um combate, membros do Talibã pas- se contexto, ganha ares quixotescos a
reno íngreme favorece as táticas de guer- sarem na nossa frente para ir pegar seus missão dos militares de conquistar a
rilha dos insurgentes. As encostas das feridos. Mas não podíamos prendê-los confiança dos moradores do vale e de
montanhas, algumas com picos nevados porque não tinham armas”, disse a VEJA convencê-los a dar informações sobre o
de até 3 000 metros de altitude, são um capitão da Companhia Viper 126. paradeiro dos insurgentes. A ideia é mos-
cheias de árvores, grandes pedras e ca- Os moradores do vale são agriculto- trar aos chefes das aldeias que, se ajuda-
vernas. Escondidos nesse cenário, os ho- res e madeireiros que seguem o wahabis- rem, as forças americanas vão lhes dar
mens do Talibã são chamados pelos mo, um ramo ultraconservador do Islã. segurança e providenciar a construção
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NADA PARA FAZER A base de Restrepo,


no Vale do Korengal, é atacada duas
vezes por dia, durante dez minutos, pelo
Talibã. No resto do tempo, os soldados
ouvem música e se exercitam

de pontes e escolas. A política de boa vi-


zinhança é feita em reuniões com os an-
ciãos das aldeias, muitos dos quais sus-
peitos de apoiar o Talibã. Recentemente,
em uma dessas visitas, a patrulha da qual
fazia parte o fotógrafo Adam Dean foi
alertada pela base de que havia sido in-
terceptada uma comunicação por rádio
entre os terroristas. Eles planejavam ata-
car os soldados logo que deixassem o
vilarejo e estivessem expostos nas trilhas
próximas. Foi o que aconteceu. O ataque
partiu de vários pontos do vale, inclusive
da própria aldeia. Os americanos respon-
deram com tiros de fuzil e de morteiro.
Possivelmente, os chefes tribais, que tão treinar os militares do país. Outro passo militares paquistaneses comecem a dar
gentilmente serviram chá ao capitão do de Washington é apoiar a formação de mais atenção aos perigos que se avizi-
Exército americano, foram os mesmos a um governo forte. Está difícil. Apesar nham a oeste. Em meio a tanta incerte-
avisar os insurgentes sobre a visita da pa- de estar à frente de uma das burocracias za, só uma coisa é certa: a população do
trulha. São os riscos da estratégia anun- mais corruptas do mundo, o presidente Afeganistão não tolera o Talibã. Uma
ciada por Obama de negociar com os Karzai ainda é considerado o favorito pesquisa de opinião mostra que apenas
apoiadores de ocasião do Talibã. para as eleições de agosto deste ano. O 4% dos habitantes querem a volta do
Os Estados Unidos tentam ajudar o terceiro caminho é de ordem diplomáti- regime fundamentalista. A luta, portan-
Exército do Afeganistão a, pouco a ca e consiste em aproximar Paquistão e to, vale a pena. ■
pouco, assumir a tarefa de dar seguran- Índia, inimigos históricos. Sem terem
ça à população. Parte do novo contin- de se preocupar com sua fronteira ao VÍDEO E SLIDESHOW EM M

.com
gente americano foi designada para leste, com os indianos, quem sabe os www.veja.com.brr

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