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RELATÓRIO FINAL

2ª Conferência Internacional do
Conselho Empresarial Brasil-China
Desafios Emergentes

São Paulo – SP
17 e 18 de abril de 2007
INSTITUCIONAL

A segunda conferência internacional organizada pelo Conselho Empresarial Brasil-


China, DESAFIOS EMERGENTES: A ASCENSÃO ECONÔMICA DE CHINA E ÍNDIA E SEUS
EFEITOS PARA O BRASIL, reuniu renomados especialistas brasileiros e internacionais em
China e Índia, com o objetivo de promover debate sobre os desafios e as oportunidades
envolvidos no processo de ascensão dos dois países.

A origem da competitividade de China e Índia, os principais impactos do crescimento


desses dois países, os maiores desafios ambientais e energéticos, bem como as
respostas empresariais e governamentais face à ascensão asiática, foram os temas
abordados durante os dois dias de conferência.

O público presente era composto por representantes de grandes empresas brasileiras,


membros de federações industriais de todo o país, além de representantes dos
Ministérios da Economia, Relações Exteriores e de Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior.

ABERTURA GERAL

Do empresariado nacional às autoridades chinesas e brasileiras, a mensagem é


unânime: é preciso acabar com o desconhecimento bilateral se Brasil e China quiserem
garantir uma melhora qualitativa do intercâmbio comercial e incrementar o fluxo
bilateral de investimentos. Nos discursos oficiais para a abertura de DESAFIOS
EMERGENTES: A ASCENSÃO ECONÔMICA DE CHINA E ÍNDIA E SEUS EFEITOS PARA O
BRASIL, não houve quem não mencionasse o enorme desconhecimento entre os dois
países, sobretudo entre as duas comunidades empresariais.

“Reconhecendo essa enorme barreira, o desconhecimento, o Conselho Empresarial


Brasil-China se empenha em produzir e divulgar no Brasil informações relevantes sobre
as oportunidades e desafios proporcionados pelo crescimento econômico da China,
além de realizar eventos nos dois países para aproximar a comunidade empresarial
brasileira e chinesa”, declarou Ernesto Heinzelmann, presidente do CEBC, em seu
discurso de abertura.

Segundo estimativas do CEBC e corroboradas pelo embaixador da China no Brasil, Chen


Duqing, em 2007, o fluxo bilateral de comércio deve ultrapassar os US$ 20 bilhões. De
acordo com o embaixador, a evolução do comércio bilateral tem sido exemplar, com
crescimento médio anual na casa dos 30%. Mas o investimento mútuo está longe de
acompanhar o desenvolvimento comercial. “É preciso encorajar a participação nas
cadeias de produção, como fazem a Embraco e a Embraer. Há muito pouco de
investimento mútuo hoje.”

O embaixador chinês criticou o protecionismo brasileiro, qualificando-o como “muito


forte”, e sugeriu que o momento é de se aproveitar o crescente consumo chinês. “A
China quer incentivar o consumo como uma outra vertente do nosso crescimento
econômico, o que significa que as importações irão crescer cada vez mais forte. O
mercado brasileiro já é todo formado por multinacionais. Não adianta reclamar. É
preciso ter uma mentalidade aberta, que combine com a globalização”.

As oportunidades para o Brasil também foram a tônica do discurso de Ivan Ramalho,


secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
“É natural que haja preocupações com as importações. Mas queremos também
promover as nossas exportações. A China está com importações anuais próximas a US$
800 bilhões, o que é um número muito contundente e traz grandes oportunidades para
o Brasil. Temos que promover nossas exportações.”
Para o embaixador brasileiro na China, Luiz Augusto Castro Neves, a China assusta, em
especial em função da entrada de produtos, a preços competitivos, que ganham
terreno no mercado interno, afetando indústrias domésticas. “Mas a prosperidade
chinesa tem sido, e pode continuar a ser, extremamente positiva para a economia
brasileira em geral.” Isso porque a demanda da China absorve quantidades importantes
de nossas exportações de commodities, especialmente soja, ferro e petróleo,
sustentando seus preços internacionais em níveis altamente remuneradores.

Segundo Castro Neves, não se deve minimizar o dilema daquelas indústrias mais
diretamente impactadas, mas é fundamental reconhecer que essa situação afeta
dezenas de setores, mundo afora, e a única resposta possível é a das políticas públicas
de reforço da competitividade estrutural, associadas a estratégias empresariais que
possam identificar nichos de mercado e melhores estruturas de custo.

“Partindo do princípio de que o Brasil não quer, nem deve, perder o bonde das
oportunidades, uma primeira premissa é não cair na tentação das soluções simplistas,
como preconizar um protecionismo, de resto pouco eficaz como instrumento de
proteção em um mundo globalizado onde os processos produtivos são cada vez mais
internacionalizados. Isso não nos levará a lugar algum.” Não protegerá a indústria de
forma sustentada e criará um ambiente hostil junto a nossos parceiros. Não se deve,
por outro lado, abrir mão de medidas de defesa comercial, mas é preciso ter em
mente que mecanismos de defesa comercial não devem ser substitutos de uma política
comercial propriamente dita.

A segunda premissa é mais estratégica: identificar as áreas realmente propícias para


parcerias bilaterais. Nesse caso, tendo a pensar que prioridade deve ser dada aos
setores onde já existe uma complementaridade bem assentada entre nossas
economias. De um lado temos a abundância de recursos naturais do Brasil, em
minérios, agro-pecuária ou energia; de outro, a demanda chinesa, somada a uma
grande disponibilidade de capital e à disposição, amplamente declarada, de aumentar
a “internacionalização” de suas empresas. Vejo aí um cenário propício a muitos
empreendimentos - o que é mais importante, a possibilidade de evoluirmos de um
modelo em que a China meramente nos compra produtos de base com pouco ou
nenhum processamento a um cenário onde investimentos chineses no Brasil permitirão
que uma maior parte da cadeia processadora desses insumos seja instalada aqui, e
possibilitarão melhorar a infra-estrutura de transporte, de armazenagem e de
comercialização internacional desses produtos, já com seu mercado final garantido.
Com isso atendemos tanto à demanda brasileira de agregar mais valor à pauta
exportadora, como ao interesse estratégico chinês em dispor de suprimentos
garantidos, a longo prazo, de produtos que consideram estratégicos.

PAINEL I - CARACTERIZAÇÃO DA COMPETITIVIDADE ASIÁTICA

Diagnósticos tradicionais ao modelo de crescimento chinês e indiano não se sustentam


mais. O intenso crescimento econômico de China e Índia, em especial nos últimos
quatro anos, não se baseia exclusivamente no baixo custo da mão-de-obra, desrespeito
contínuo ao meio ambiente e vantagem competitiva em produtos manufaturados de
baixo valor agregado. O primeiro painel de DESAFIOS EMERGENTES buscou explicar a
rápida ascensão econômica de China e Índia, e caracterizar seus modelos de
desenvolvimento.

Economias de escala, intenso desenvolvimento da infra-estrutura, estímulo à


competição, baixo custo de capital e investimentos em educação são componentes de
um novo padrão competitivo que veio para ficar. “A China ainda tem uma mão-de-obra
de baixo custo, mas suas infra-estruturas física e educacional são de primeiro mundo.
Se o que se busca é crescimento sustentável e de longo prazo, é preciso fornecer as
condições estruturais, que estão muito além do custo de trabalho”, afirma Arthur
Kroeber, diretor da Dragonomics Research & Advisory e co-editor da China Economic
Quarterly.

Uma crítica comum ao modelo de desenvolvimento chinês, a falta de respeito ao meio


ambiente, também está em fase de mudança. Dada a fase de internacionalização das
empresas chinesas, muitas estão se adaptando às regras internacionais a fim de se
tornarem globais. “Considerar a China competitiva porque o país não respeita o meio
ambiente está se tornando cada vez menos válido. O processo de desenvolvimento está
ficando mais complexo, e é preciso acompanhar isso”, resume Kroeber.

Em relação à Índia, Amit Ray, professor da Universidade de Jawaharlal Nehru, na Índia,


defende que a chave do crescimento indiano é conhecimento. “Nosso grande salto
qualitativo foi conseguir transformar mão-de-obra barata em capital humano de
elevada qualidade, especializada em biotecnologia, produtos farmacêuticos e
tecnologia da informação. A combinação de tecnologia e capital humano explica nosso
crescimento médio de 8% ao ano nos últimos quatro anos”. Entretanto, Amit reconhece
que as políticas indianas de geração de capital humano eram pouco inclusivas, o que
gerou assimetrias significativas. Grande parte da população indiana ainda vive em
condições de pobreza extrema. O índice de analfabetismo permanece elevado e é
preciso aprimorar a qualidade do ensino no país.

Ajit Tolani, gerente da KPMG em Nova Iorque, resumiu da seguinte forma os fatores
para a competitividade indiana: política de atração de investimentos em propriedade,
geração e promoção de unidades produtivas para exportação através de zonas
econômicas especiais, melhoria paulatina das condições de fornecimento de energia
elétrica, grandes oportunidades de investimentos no mercado varejista,
implementação do imposto sobre o valor agregado e liberalização do investimento no
setor de seguros.

Desafios à competitividade – Para Wenran Jiang, diretor e professor de ciência política


do China Institute da Universidade de Alberta, Canadá, o sistema de partido único é
uma limitação à competitividade chinesa. “Há dúvidas se a China será capaz de
construir um arcabouço jurídico de concorrência em um Estado de partido único”,
expõe Wenran.

Wenran também cita como desafios a rápida urbanização e o aumento da


desigualdade. “Há grandes expectativas de ascensão social provenientes da
possibilidade de migração na China. Os chineses da zona rural gastam 30% de sua renda
em saúde, mais 30% para educação. É muito difícil para a sociedade adaptar-se ao
aumento das desigualdades”, explica o professor.

Mudança estrutural nos termos de troca do comércio internacional - O crescimento


intenso da China na casa de 8% ao ano deve seguir por pelo menos mais 15 anos, o que
implica em uma mudança estrutural e de longo prazo nos termos de troca no comércio
mundial. Segundo projeções feitas por Arthur Kroeber, a China responde hoje por 7%
da produção industrial do mundo. Em 2040, essa fatia deverá chegar a 22%. “O mundo
tem que aprender a lidar com isso”.

Nos termos de troca, o impacto do crescimento chinês deverá ser positivo para países
exportadores de matérias-primas e insumos em geral, que deverão continuar assistindo
ao aumento dos preços de seus produtos, em especial das commodities, cada vez mais
escassas. Por outro lado, a tendência de preço para as manufaturas menos sofisticadas
é de queda, dado o aumento de escala provocado pelo modelo indiano e chinês.

“Vitoriosos serão os consumidores globais em razão da queda dos preços de bens


manufaturados, bem como produtores de commodities e prestadores de serviços, que
terão seus produtos valorizados. Os perdedores serão aqueles que trabalham nos velhos
ramos da manufatura. Estes terão que ganhar competitividade com marca e tecnologia
para sobreviver”, afirma Kroeber.

China agrava desafio energético mundial - Caso a China atinja um patamar de consumo
per capita similar ao norte-americano, seriam necessários 80 milhões de barris de
petróleo por dia (bpd) para sustentar seu crescimento, o que equivale a toda a
produção mundial, conforme previsão de Wenran Jiang. Atualmente, a China consome
7 milhões bpd, ao passo que os EUA, com 5% da população mundial, utilizam 25% da
produção global, o equivalente a 20 milhões bpd. A crescente demanda chinesa pela
commodity deve manter os preços em alta nos próximos anos. Wenran alerta para a
necessidade de o mundo adaptar-se às necessidades energéticas chinesas e não ignorar
a busca do país por parceiros fornecedores.

Do lado chinês, o governo deve empenhar-se na melhoraria de sua eficiência


energética tanto no consumo quanto na produção. Atualmente, 70% da matriz
energética chinesa é baseada no carvão, cuja exploração emprega trabalhadores em
condições inseguras. Diariamente, 14 trabalhadores chineses morrem em acidentes em
minas, o que evidencia a elevada ineficiência e o risco humano da produção.

Em 2007, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos na emissão de gás carbônico,


tornando-se o maior emissor global. Se concretizado, o fato representará uma
antecipação em dois anos das estimativas até pouco tempo feitas por analistas do
setor.

Setor financeiro insipiente, uma questão de escolha - O desenvolvimento do setor real


da economia em detrimento ao setor financeiro foi uma decisão estratégica da China.
O modelo de desenvolvimento chinês baseia-se na premissa de que o setor
manufatureiro necessita de suporte financeiro durante seu desenvolvimento inicial.
“Essa é uma escolha política que faz muito sentido: o setor financeiro não precisa dar
muito lucro agora. O que sustenta o crescimento rápido e por muito tempo é o setor
real. E essa é a prioridade estratégica do país”, afirma Kroeber.

De acordo com o analista, é simplificador pensar o problema do setor bancário chinês


como um emprestador de dinheiro barato para empresas estatais. “A principal lição
que o modelo chinês pode dar a outras nações em desenvolvimento é que ao priorizar
o setor manufatureiro em detrimento ao financeiro, o desenvolvimento tende a ser
mais intenso e muito mais sustentável”.

Ainda segundo Kroeber, esse modelo é muito similar ao adotado por Japão e Coréia do
Sul entre as décadas de 50 e 70, quando os bancos nacionais foram responsáveis por
facilitar o crédito para empresas envolvidas na produção.

Wenran Jiang também concorda que o sistema financeiro chinês, apesar de


mergulhado em volumes expressivos de créditos irrecuperáveis, não corre risco de
sofrer uma crise que afete estruturalmente o crescimento do país. Segundo Wenran, o
expressivo volume de poupança nacional, na casa de 40% do PIB, e as reservas acima
de US$ 1,2 trilhão são um colchão de segurança para o sistema financeiro. “Não há
risco de desmantelamento. O dinheiro disponível nos setores público e privado garante
o processo de reestruturação”.

Já de acordo com Kroeber, há uma mudança dramática do sistema financeiro desde o


início da década de 90. “Antes, o sistema era um sustentáculo da seguridade social na
China. Esse mecanismo foi desmontado e hoje os bancos estão muito mais saudáveis do
que já estiveram, e são perfeitamente sustentáveis”, acredita.

PAINEL II – IMPACTOS NO BRASIL E EM TERCEIROS PAÍSES


Para as maiores economias latino-americanas, o principal impacto da competição da
emergência chinesa tem sido em seus tradicionais parceiros comerciais, e não no
mercado doméstico. Enquanto Brasil vem perdendo espaço para as manufaturas
chinesas no mercado argentino, México também sofre os impactos, em especial no
mercado norte-americano.

Outra similaridade entre as relações comerciais da China com os países da região é a


caracterização do comércio bilateral por exportação de commodities para o mercado
chinês e importação de manufaturados, a exceção do caso mexicano. Commodities e
manufaturados também compõem a pauta de exportação e importação africana para a
China. Contudo, paulatinamente a intensificação do comércio bilateral sino-africano,
observa-se o aumento de imigrantes chineses na região, de investimentos em infra-
estrutura para facilitar exportação produtos africanos e oferta de crédito para países
de reputação duvidosa no cenário internacional.

Atualmente os chineses já exportam mais para a América Latina do que o próprio


Brasil. “O impacto mais fundamental da competitividade chinesa está na perda de
terceiros mercados. Mas se não trabalharmos para criar um ambiente favorável à
competitividade nacional ao crescimento das nossas exportações, começaremos a ter
problemas fora e dentro do país”, afirma Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo
do Conselho Empresarial Brasil-China. As exportações brasileiras para a Argentina
cresceram 82% entre 1990 e 2004, ao passo que vendas chinesas expandiram-se mais de
300%. Entre 1990 e 2004, a participação da China nas exportações para a América
Latina passou de 0,7% para 7,8%.

Em 2007, a China deverá ultrapassar a Argentina e tornar-se o segundo maior parceiro


comercial brasileiro, atrás apenas dos Estados Unidos. É neste ano também em que o
Brasil deve acumular o primeiro déficit comercial anual com os chineses. De outubro
de 2006 a março de 2007, a balança comercial brasileira registrou déficit com a China
de US$ 916,32 milhões. “A China já fez seu dever de casa. Precisamos fazer o caminho
inverso, conhecer o mercado chinês”, alerta Maciel.

Pesquisa apresentada por Maurício Moreira Mesquita, economista sênior do


Departamento de Integração e Programas Regionais do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, mostra que em 2006, países latino-americanos registraram perda de
4% em terceiros mercados em função do “efeito China”. Desde 2001, o cenário é de
estagnação do crescimento das relações comerciais da América Latina. Os segmentos
industriais mais suscetíveis são aqueles intensivos em mão-de-obra (como têxteis e
calçados) e intensivos em capital (produtos de mais alta tecnologia). “A pauta de
exportação chinesa tem de tudo, não só bens intensivos em mão-de-obra”, afirma.

O tempo médio de transporte das exportações chinesas para os Estados Unidos é de 24


dias, enquanto os produtos brasileiros levam, em média, 7 dias. Apesar da
proximidade, a diferença dos custos de frete é pouco significativa. A maior parte das
exportações chinesas chega ao mercado norte-americano por via marítima e, em razão
do grande número de empresas de navegação operantes na China, a competição é alta,
reduzindo os custos.

No geral, os produtos chineses também são favorecidos em peso e em valor. Soma-se


outro fator importante, a intervenção do Estado na economia por meio de crédito
quase ilimitado, subsídios e poder de aplicação seletiva do direito de propriedade
intelectual. Porém, é a baixa produtividade brasileira o alvo das maiores críticas. “No
Brasil temos um cenário trágico. Desde 2003 a produtividade cresce lentamente,
enquanto o câmbio aprecia. Nos últimos anos o crescimento anual médio da
produtividade chinesa foi de 7%”.

Do ponto de vista de países individualmente, a pesquisa do BID também mostra que o


México é aquele que mais perde terceiros mercados para produtos chineses no
continente, especialmente em segmentos de eletroeletrônicos e autopeças no mercado
norte-americano. O setor têxtil e de vestuário também sofreu perda de mercado
significativa, 40% nos últimos cinco anos.

No âmbito das relações comerciais bilaterais, o México possui pauta exportadora para a
China diferenciada dos demais países latino-americanos, com participação significativa
de produtos de maior valor agregado - eletrônicos e autopeças correspondem a 45% das
vendas. Entretanto, a venda de commodities, sobretudo minerais, tem registrado
crescimento expressivo, o que caracteriza processo de “latinoamericanização” da
pauta exportadora do México para a China, destaca Enrique Dussel Peters, coordenador
de política econômica da Universidade Nacional Autônoma de México (UNAM).

A China é o segundo maior parceiro comercial mexicano e, assim como a maior parte
dos países americanos, a balança comercial é superavitária para os chineses. O México
acumula déficit gigantesco com o país, liderado por produtos manufaturados. Em 2006,
o país importou US$ 22 bilhões em produtos chineses, enquanto o volume exportado
para China foi de apenas US$ 1,6 bilhão.

Para Peters, a baixa competitividade e a ausência de estratégia sólida no âmbito


doméstico e regional são os maiores obstáculos a serem enfrentados pelos latino-
americanos face à emergência asiática. “A China coloca novas questões para a América
Latina ao evidenciar nossas falhas estruturais de competitividade. É fácil culpar China
ou Índia e amanhã o Vietnã por nossos problemas econômicos. Mas a estabilidade
econômica não é mais suficiente para nosso continente. É preciso investir em
tecnologia e traçar estratégias conjuntas, buscar competitividade sistêmica via esforço
privado, público e acadêmico. Além disso, essa é uma questão regional, e não é
suficiente tratá-la como uma questão binacional. México e Brasil têm muito a discutir
juntos.”, avalia Enrique Dussel Peters, coordenador de política econômica da
Universidad Nacional Autônoma de México (UNAM).

África: Assim como no caso latino-americano, a crescente demanda chinesa por


commodities também aqueceu as relações da China com África. O país tem feito
apostas agressivas na exploração de fontes alternativas para fornecimento de
matérias-primas, sobretudo metais, petróleo e gás, em diferentes países da região.
Apesar de bem-vindos, os investimentos chineses apontam para novos desafios no
continente, em especial sobre como lidar com a mão-de-obra chinesa migrante, infra-
estrutura seletiva, dumping de produtos e incentivos financeiros a países com histórico
de desrespeito aos direitos humanos.

“Não há dúvidas de que a África é importante para a China e que os investimentos


chineses são relevantes. Mas a China tem potencial para desestabilizar as economias
africanas na medida em que seus objetivos são claros. Cabe aos países africanos não
ceder incondicionalmente”, afirmou Neuma Grobbelaar, diretora de pesquisa do South
African Institute of International Affairs (SAIIA).

A pesquisadora mostrou-se preocupada com o emprego de mão-de-obra barata por


parte dos investidores chineses e a baixa transferência de tecnologia para as
economias africanas. “É muito freqüente que os projetos de investimento chineses
venham acompanhados de influxo de mão-de-obra para os países africanos. De fato,
não é uma condição que interessa aos africanos”.

Do ponto de vista da infra-estrutura, Grobbelaar criticou os investimentos chineses


feitos de maneira não-criteriosa, por vezes destinados a expandir propriedades de
famílias reais africanas, ou exclusivamente feitos para facilitar a extração mineral. A
pesquisadora também é contrária à política chinesa de estabelecer relações
econômicas profundas com países com histórico negativo de direitos humanos sob a
proteção do direito de soberania. “Historicamente, a política externa chinesa prevê a
não intervenção em assuntos domésticos. É no mínimo imoral que o governo chinês
concorde em vender armas para países como o Sudão, que as utiliza contra a
população civil”, critica.

O comércio China-África foi de US$ 40 bilhões em 2005, contra 11 bilhões em 2000.


Para 2010, a expectativa chinesa é de que o comércio bilateral chegue a US$ 100
bilhões. Também em 2005, a China detinha 700 projetos de investimento em
andamento na África, mas a maioria de pequeno porte, na casa de US$ 10 milhões.

PAINEL III – IMPACTOS AMBIENTAIS E DESAFIOS ENERGÉTICOS

Na análise da emergência dos países asiáticos, não se pode negar a influência dos
impactos ambientais e dos desafios energéticos como fatores para a estabilidade de
suas lideranças no futuro, bem como a questão dos recursos naturais.

Segundo Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações


Internacionais (ICONE), o começo do século XXI traz grandes mudanças estruturais,
entre elas o aumento da importância da água como commodity fundamental.

Elizabeth Economy, diretora de Estudos Asiáticos do Council on Foreign Relations dos


Estados Unidos, concorda com Jank e acredita que, em termos ambientais, o maior
desafio da China será o acesso à água limpa. PIB e consumo de água crescem
proporcionalmente, o que agrava a estatística de que 80% dos rios não têm capacidade
de abrigar vida hoje no país.

Poluição - Das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 são chinesas, de acordo com
Elizabeth Economy. O resultado é reflexo da prevalência do carvão como principal
matriz energética do país e dos baixos incentivos para que empresas locais se adaptem
a legislações de proteção ao meio ambiente. Apenas 5% das companhias chinesas
investem em tecnologia para diminuir a emissão de gases tóxicos. As multas para as
indústrias poluentes na China são, com freqüência, irrisórias e, não raramente, é mais
barato pagá-las do que arcar com custos necessários para adaptar-se aos padrões
ambientais internacionais. Somente 18% das empresas chinesas acreditam que é
possível combinar crescimento com proteção ambiental.

A urbanização acelerada e o setor de transportes em expansão, impulsionado pela


emergente classe média chinesa, são fatores que têm agravado significativamente os
índices de poluição. Segundo dados da Agência Estatal de Proteção Ambiental da China
(SEPA, na sigla em inglês), o país deixa de crescer o equivalente a cerca de 10% de seu
PIB por conta de custos com degradação ambiental – que se estendem desde o desgaste
do solo e poluição das águas até o aumento significativo de doenças respiratórias.

A degradação ambiental não se limita às fronteiras do país. Japão e Coréia do Sul


acusam os chineses por metade dos casos de chuva ácida enfrentados por ambos os
países. Já os Estados Unidos responsabilizam a China pelas nuvens de poluentes que
atravessam o oceano em direção ao continente americano. Especialistas investigam a
possibilidade de que aproximadamente 30% do mercúrio encontrado no solo norte-
americano esteja relacionado ao descumprimento das legislações ambientais.

Elizabeth Economy admite que temas relacionados ao meio ambiente ganharam espaço
na agenda pública nos últimos três anos. O governo chinês reconhece que o
crescimento econômico pode ser minado pela poluição e que a proteção do meio
ambiente é elemento fundamental para a constituição de uma “sociedade
harmoniosa”. A pesquisadora também acredita que o processo de internacionalização
das empresas chinesas poderá ajudar a melhorar o respeito ao meio-ambiente, até
mesmo em função da pressão de acionistas. A meta chinesa é possuir 16% de matriz
energética renovável até 2010.
Apesar disso, Economy acredita que dificilmente a meta será cumprida, dado que não
há estímulos diretos àqueles que colaborarem. A perspectiva é de que o consumo de
carvão dobre nos próximos anos - atualmente apenas 5% das usinas de carvão usam
mecanismo de controle de poluição.

Matriz energética – De acordo com Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Câmara
Setorial da Cadeia Produtiva do Açúcar e do Álcool e diretor da Associação Brasileira
de Agribusiness (ABAG), a matriz energética chinesa terá que passar por mudanças
significativas e não poderá mais depender tanto de carvão e petróleo. O carvão
mineral é responsável hoje por 60% do consumo de energia chinês. Embora o índice de
consumo per capita de energia no país seja 11 vezes menor do que nos Estados Unidos
e cinco vezes menor do que no Japão, o rápido crescimento populacional e a
impressionante urbanização tornam essencial a busca de fontes alternativas. Em 2030,
o país deverá responder por 60% das emissões per capita de CO² do mundo.

Carvalho acredita que a mudança da matriz energética chinesa traz oportunidades


importantes para o Brasil. Os chineses precisariam importar 5 ou 6 bilhões de litros de
álcool anualmente para manter o seu padrão de consumo. O crescimento na produção
terá que ser via aumento de produtividade, o que justifica a importância da parceria
com o Brasil no intercâmbio de expertise necessária à produção do álcool. “A China
tem evoluído nas negociações para buscar no Brasil o know how de cooperativas e
plantation”, explica Carvalho.

É importante lembrar que a China passa por crescimento de sua frota de automóveis,
cuja produção cresceu 7,5% de 2005 para 2006. Para 2010, a previsão é de que o
incremento será de 12 milhões de automóveis por ano, o que agrava o desafio
energético chinês.

Agricultura - Há uma complementaridade agrícola crescente entre Brasil e China. A


China possui culturas intensivas em mão de obra, como frutas, legumes, verduras, ao
passo que o Brasil é especialista em culturas extensivas, como soja, cana e algodão. “A
China está transformando uma agricultura intensiva em terra por algo intensivo em
trabalho, mas não quer aumentar a produtividade da terra. O objetivo é
essencialmente empregar gente e evitar migração para a cidade”, argumenta Marcos
Jank. Estatísticas mostram que 25% do solo chinês é classificado como desértico.

O presidente do ICONE afirma que o Brasil tem oportunidade no comércio agrícola com
a China. Os brasileiros podem rearranjar sua produção de cana, milho, trigo e algodão,
além de sua grande reserva de pastagens para utilizá-los de maneira muito mais
eficiente. “Hoje a relação da China com o Brasil ainda é muito oportunista. O
protecionismo continua, pois a China compra soja brasileira apenas quando preciso.
Poderíamos fazer coisas mais sofisticadas”, afirma Marcos Jank.

PAINEL IV – A CONSTRUÇÃO DOS NOVOS LÍDERES ASIÁTICOS

A abertura do segundo dia de palestras foi marcada por questionamentos geopolíticos


da ascensão econômica de China e Índia. Poderiam os emergentes asiáticos assumir
papéis de liderança no cenário internacional? Os três palestrantes do painel
expuseram posições divergentes acerca da relevância dos novos emergentes asiáticos,
porém todos concordam que não se pode negar a influência de China e Índia no
reordenamento produtivo global, seja nas instâncias econômica, política ou social.

Instabilidade na política mundial - “A emergência chinesa traz a tona possibilidades


de guerra ou de choques econômicos relevantes no mundo”, alerta Jean-Pierre
Lehmann, professor de política econômica internacional do International Institute for
Management Development (IMD). Para Lehmann, a China não pode ocupar uma posição
de liderança global em função da ausência de um regime democrático e de uma
sociedade civil ativa. “Em suma, não há uma bússola moral”, instiga.

De acordo com o pesquisador, não é possível ignorar a possibilidade de conflito dada a


dinâmica política, social e cultural do mundo hoje. “Toda vez que um grande ator
entrava no cenário internacional havia uma guerra. No passado, sabíamos quem
mandava no mundo: Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Os chineses entraram nesse
jogo e não se preocupam em estar de acordo com as imposições das potencias
tradicionais, que têm pressionado por um Estado de direito e políticas mais liberais.
Não devemos subestimar a transformação profunda que está acontecendo na
economia”.

Lehmann prevê que nos próximos vinte anos será impossível vivenciar um sistema
econômico aberto coabitando com sistema político fechado. Em um dado estágio, o
pesquisador acredita que haverá grande demanda por direitos políticos na China. A
questão esta em saber se a abertura se dará de forma evolutiva ou de maneira
abrupta. “Eu sou otimista. Acho que estamos assistindo ao inicio das mudanças”,
concluiu.

Segundo Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics Research & Advisory e co-editor do


China Economic Quarterly, a China é um líder natural no mundo. Kroeber aponta três
áreas que vão mudar em função da liderança chinesa: ambiental, consumo, e sistema
de pagamento mundial. Na área ambiental, a China será o maior emissor de gases
poluentes do mundo. No consumo de produtos naturais, a China terá que ter papel de
líder internacional para barganhar e garantir a satisfação de sua demanda interna –
“China esta preocupada em ter acesso aos recursos e não se importa com a natureza
do sistema. Países que oferecem esses recursos vão ter oportunidade de crescer”,
ressalta Kroeber.

Sobre o sistema de pagamento mundial, o diretor da Dragonomics afirma que a China é


um dos maiores fornecedores globais de dinheiro, de maneira a financiar o déficit
norte-americano. Esta situação não será problemática no curto prazo, porem pode
torna-se insustentável ao longo dos anos.

Responsabilidades de um líder global - De uma plataforma produtiva relevante e que


puxa o crescimento global, a China precisa agora dar um passo além no seu processo
de consolidação como potência global. O momento é de assumir-se como líder e que se
responsabiliza por suas ações no cenário internacional, sob o risco de acentuar a
instabilidade do sistema global em função da falta de coordenação entre as maiores
economias do globo. A avaliação é de Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics Research
& Advisory e co-editor do China Economic Quarterly, para quem a China tem que
assumir sua função de liderança em temas ambientais, nas disputas por matérias-
primas e no sistema de pagamento mundial. “A China vai se tornar o país que mais
polui no mundo e já é o maior consumidor de uma série de commodities agrícolas e
minerais. E agora precisa agir com responsabilidade no processo de financiamento do
déficit norte-americano”.

Da perspectiva chinesa, Kroeber acredita que o país se vê em posição extremamente


ameaçadora, cercada por vizinhos que são aliados dos Estados Unidos, como Japão,
Coréia do Sul, Taiwan e alguns países do Sudeste Asiático, e nações nucleares, como
Índia e Rússia. “Aqueles que detêm poder têm que reduzir a sensação de insegurança
que a China sente a partir de sua posição isolada. Trazer a China para perto será muito
benéfico para a ordem política internacional, uma vez que aumenta seu senso de
liderança e responsabilidade”, avalia.

Já a política externa chinesa, segundo Kroeber, tende a ser extremamente


conservadora e dúbia. Isso explica por que eles tendem a evitar a tomada de
responsabilidades e por que o esforço para querem convencer o mundo de que sua
emergência é totalmente pacífica é tão relevante.

Terceira economia mundial, mas desafios no caminho - No segundo semestre de


2007, o Produto Interno Bruto (PIB) da China deverá ultrapassar o alemão em termos
nominais. A previsão foi anunciada por Leo Abruzzese, responsável pelo departamento
editorial do Economist Intelligence Unit. Nas estimativas do EIU, o PIB chinês deve
chegar ao final do ano em US$ 3,2 trilhões, contra US$ 2,9 trilhões da economia alemã.
Com isso, a China se tornará, em 2007, a terceira maior economia do mundo. Em 2006,
o PIB chinês estava em US$ 2,7 trilhões.

O palestrante Leo Abruzzese aponta como um dos desafios chineses o baixo consumo
da população; a contribuição do consumo para o PIB ainda é baixa. Nos Estados Unidos
e na Europa, o consumo responde por 60 ou 70% do PIB. Exportação e investimento são
os motores de crescimento do PIB chinês. O palestrante aponta mais consumo e menos
investimento como receita para crescimento sustentável chinês.

O fantástico crescimento chinês tem agravado, porém, a desigualdade da população e


criado stress social. Incidentes de massa, que eram contabilizados a 11 mil por ano há
pouco tempo atrás, chegaram a quase 85 mil em 2006.

Outro desafio apontado pelo palestrante foi a evolução do sistema bancário. “Há
poucos anos atrás era comum escutar que sistema bancário chinês era insolvente, mas
tem melhorado muito. O crédito está crescendo muito rápido e os padrões de
empréstimo caem. Há reservas suficientes e não é esperada nenhuma crise” afirma
Abruzzese.

Desafios indianos – Em relação à Índia, Leo Abruzzese apontou como desafios uma
possível bolha de crescimento, déficit em infra-estrutura, pobreza, privilégio do
terceiro setor em detrimento das manufaturas, e lentidão nas reformas em razão de
entraves políticos. Sobre os problemas de infra-estrutura, Abruzzese afirma que “Das
empresas indianas, 60% possuem geradores, contra 20-25% na China e 17% no Brasil.
Além disso, não há uma cidade que tenha água 24 horas por dia todos os dias”.

Na visão de Abruzzese, uma Índia estável será possível apenas se a manufatura


equiparar-se ao setor de serviços. O país possui população economicamente ativa de
500 milhões de trabalhadores, porém as indústrias de software empregam menos de 2
milhões. “A Índia precisa crescer mais em outros setores para empregar”, expõe
Abruzzese. Atualmente, as manufaturas crescem 10% ao ano.

Futuro do sistema político – Segundo Jean-Pierre Lehmann, é impossível visualizar na


China um sistema econômico aberto coabitando com sistema político fechado. Com
maior responsabilidade, transparência maior, ou Partido Comunista vai dar inicio a um
pol de repressão. A corrupção é uma questão endêmica que gera ressentimento.
Lehmann é otimista e acredita que a abertura política vai acontecer de forma
evolutiva.

Já Arthur Kroeber não enxerga mudanças significativas a curto prazo – “é difícil ver
uma pressão significativa na China”. Com as mudanças demográficas decorrentes da
prosperidade econômica, a natureza da população urbana vai ser diferente em 15
anos, que eventualmente pressionará o governo por reformas políticas.

Nas palavras de Leo Abruzzese, “o governo chinês têm desempenhado papel


importante na gestão de ativos, porém isto muda progressivamente”. À medida que
ocidentais compram mais fatias do sistema financeiro chinês, o Estado chinês passa a
ter papel significativo e deve portar-se como exemplo perante a população chinesa e o
restante do mundo. Sobre a Índia, Abruzzese questiona-se se o país será capaz de
sustentar reformas com um governo democrático.
PAINEL V – AS RESPOSTAS EMPRESARIAIS BRASILEIRAS

A internacionalização foi estratégia de sobrevivência adotada por algumas das maiores


empresas brasileiras face à ascensão econômica dos países asiáticos, em especial da
China. A ida para a Ásia e o emprego das mesmas condições de baixo custo que aqueles
países oferecem foram condições obrigatórias para que essas empresas conseguissem
competir eficientemente no mercado global.

“A internacionalização deixa de ser uma opção para se tornar uma estratégia de


salvação da empresa”, acredita José Martins, vice-presidente do Conselho de
Administração da Marcopolo. Do faturamento total da empresa, 30% já é garantido fora
do Brasil. Além da vantagem logística, uma vez que a Ásia é um mercado importante
para a empresa, os benefícios tributários e o baixíssimo custo obrigaram a empresa a
tornar-se uma multinacional.

Martins admitiu que houve uma seqüência de erros no processo de internacionalização


da Marcopolo, em especial na ida para Portugal e Argentina, onde a empresa não
pretende aumentar a capacidade produtiva em função dos maus resultados. Por outro
lado, as operações seguem bem sucedidas no México, África do Sul e Colômbia. Na
China, as condições são mais complexas, em função do grande número de fabricantes e
o ambiente altamente competitivo. Os preços baixos, no entanto, tornam o país uma
boa base exportadora. O objetivo é, no futuro, consolidar uma fábrica chinesa voltada
para exportação.

Embraer - A necessidade de diluição dos riscos dos investimentos e de estabelecimento


de parcerias, bem como a entrada da Bombardier no mercado chinês, foram os
principais fatores que motivaram a ida da Embraer para China, em 2000. A
liberalização progressiva da economia local, a demanda crescente por aviões regionais
e o direcionamento estratégico governamental para tornar a China um ator relevante
no setor de aviação também exerceram influência significativa na decisão.

“É preciso ter nervos de aço para operar na China, pois é uma experiência que exige
combinação de política e estratégia de negócio”, afirma Henrique Rzezinski, vice-
presidente sênior de Relações Externas da Embraer. O modelo de negócio adotado
internacionalmente pela Embraer (e também no caso chinês) baseia-se no
estabelecimento de parcerias de risco – as empresas parceiras disponibilizam capital
antes mesmo de o avião ser idealizado. A relativa facilidade de obtenção de crédito,
reflexo do projeto nacional de desenvolvimento do setor aeronáutico, faz da China
uma opção vantajosa de plataforma de produção.

A Embraer abriu o primeiro escritório em Pequim em maio de 2000 e, em junho, já


havia realizado sua primeira venda no mercado local. A inauguração da primeira
fábrica ocorreu em janeiro de 2003, após assinatura do contrato de joint-venture com
a AVIC II, parceiro local, parte do requisito para garantir acesso ao mercado chinês. A
Embraer detém 51% da joint-venture.

Embraco - A Embraco foi a primeira indústria brasileira a formar uma joint-venture


com o governo chinês, em 1995. A parceria foi firmada com o grupo SnowFlake,
controlado pela municipalidade de Pequim, e deu origem à Beijing Embraco Snowflake
Compressor Company - BESCO. A produção anual, de cerca de 1 milhão de
compressores, destinava-se ao abastecimento do mercado doméstico chinês.

Apesar de o mercado local permanecer como foco, atualmente o objetivo é


transformar a base produtiva da China em uma plataforma de abastecimento do
mercado asiático de compressores em expansão. Em 2006, a BESCO inaugurou nova
fábrica com um centro de pesquisa e desenvolvimento para atender à crescente
demanda por refrigeradores, com capacidade de produção de 4,5 milhões de produtos.
A nova unidade também é capaz de reduzir o consumo de CO2, energia e água durante
o processo produtivo.

Um dos principais desafios a ser enfrentado pelas empresas no país refere-se ao direito
de propriedade intelectual. As compensações financeiras não são relevantes em termos
de valor, e o sistema jurídico ainda é insipiente. Contudo, a entrada da China na
Organização Mundial do Comércio (OMC) deve auferir maior segurança aos
investidores. “É importante crescer no mercado chinês, caso contrário perderemos
espaço para os concorrentes locais”, destaca Ernesto Heinzelmann, presidente da
Whirlpool S.A. - Unidade Embraco, vice-presidente do Conselho de Administração da
BESCO e presidente do Conselho Empresarial Brasil–China.

PAINEL VI – AS RESPOSTAS PÚBLICAS BRASILEIRAS

Um novo paradigma industrial está em curso, e o Brasil tem chances de ocupar um


papel importante na nova configuração produtiva global desde que as reformas
político-econômicas sejam levadas a cabo, o setor privado seja seletivo na sua inserção
internacional, e o Estado contribua dando a orientação estratégica e catalisando os
recursos escassos. Apesar da divergência de opiniões sobre a ênfase que precisa ser
dada a cada um destes componentes na condução do desenvolvimento brasileiro, os
especialistas do último painel de DESAFIOS EMERGENTES são unânimes: mudanças
estruturais no âmbito público e privado são necessárias para garantir que o Brasil
ingresse competitivamente no novo esquema produtivo que se delineia.

“É preciso usar o mundo que está sendo criado pela China para virar o crescimento
brasileiro em direções mais ambiciosas”, desafia Antonio Barros de Castro, diretor de
Planejamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Para Barros de Castro, a emergência econômica de China, Índia e alguns países do
Sudeste Asiático, como Vietnã, não representa uma bolha de crescimento ou de
consumo e, ao contrário, deve inaugurar um novo paradigma industrial, baseado
fundamentalmente em biotecnologia e outras tecnologias de ponta. “Subitamente,
quase 40% da população mundial foi inserida no consumo. É óbvio que não há
combustíveis e metais para sustentar isso. Alguma coisa muito importante está por
acontecer.” Em suma, para dar conta dessa gigantesca nova demanda, novas
tecnologias terão que se desenvolver.

Enquanto isso, os preços dos combustíveis e matérias-primas em geral deverão se


manter em tendência de alta por pelo menos mais dez anos, apresentando boas
oportunidades para países como o Brasil. A indústria extrativa brasileira cresceu 6,0%
em 2006, contra 4,3% em 2004, fundamentalmente em resposta a esse efeito asiático.

“O Brasil tem chances absolutamente espetaculares de não ter um papel secundário


nessa virada. O setor industrial brasileiro não morreu e o agronegócio brasileiro é
excepcional. Falta o setor governamental dar rumo ao país”, instiga Barros de Castro.
Para o diretor do BNDES, o papel do Estado não deve ser no sentido de bancar o
crescimento por meio da injeção de recursos público, mas sim por meio da orientação
geral e do gerenciamento eficiente dos recursos escassos.

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas


(FGV), vê com ressalvas a necessidade de participação do Estado na definição dos
rumos do desenvolvimento brasileiro, e prioriza o papel das reformas na modernização
do país. “Temos um setor público obsoleto hoje, que precisa diminuir seu grau de
intervenção, melhorar a eficiência da burocracia e criar um quadro regulatório mais
adequado. Isso implica em promover um ajuste fiscal que contenha gastos e
transferências, porque a carga tributária já atingiu seu pico tanto do ponto de vista
político quanto técnico.” Langoni acredita que o Brasil está “na ante-sala do
desenvolvimento sustentável”, e que China e Índia servem para estimular a
competitividade das instituições públicas e privadas brasileiras.

Lições de desenvolvimento para o Brasil – Ampliar gastos em pesquisa e


desenvolvimento e concentrar os incentivos industriais em um só lugar. Na avaliação
de Marcelo Nonnenberg, coordenador do Grupo de Estudos sobre China do Instituto de
Pesquisa de Economia Avançada (IPEA), estas são as duas principais lições que podem
ser extraídas do modelo de desenvolvimento chinês. Apesar de os gastos em P&D não
serem muito discrepantes na comparação entre Brasil e China (0,8% e 1,3% do PIB,
respectivamente), os recursos chineses são aplicados de maneira muito mais eficiente.

Na China, além dos incentivos fiscais, concessão de terrenos e mecanismos de


financiamento a empresas de alta tecnologia, as regiões de mais alto grau de
desenvolvimento industrial concentram também um número importante de incubadora
de empresas, universidades, laboratórios e centros de pesquisa. “Não é o volume gasto
com P&D que explica a discrepância em termos de crescimento industrial. É a
qualidade desse investimento”, sintetiza.

Nonnenberg também entende que o crescimento chinês é fruto de uma combinação de


fatores complexos que vão além do custo de mão-de-obra. Altas taxas de investimento
e poupança, fortes influxos de investimentos estrangeiros diretos, papel da inovação
com qualidade, economias de escala, falta de proteção à propriedade intelectual,
estabilidade das políticas macroeconômicas e, claro, a imensa oferta de mão-de-obra
barata são os elementos que compõem o quadro do rápido crescimento.

Eliana Cardoso, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-economista-chefe do


Banco Mundial na China, ressalta que o aumento relativo do tamanho da economia
chinesa se fez em função da redução do tamanho relativo das economias de Japão e
União Européia. Em termos de Paridade de Poder de Compra (PPP), o PIB norte-
americano manteve-se acima de 20% do PIB global entre 1980 e 2006, ao passo que as
participações de Japão e UE foram reduzidas. A fatia chinesa, por sua vez, passou de
5% para mais de 15% no período analisado.

Já o crescimento indiano, lembra Cardoso, ainda não atingiu um modelo de


industrialização que absorva grandes contingentes de mão-de-obra, como no caso
chinês, mas obteve muito sucesso na atração e no desenvolvimento de empresas
modernas nos segmentos de tecnologia da informação. Os riscos, no entanto, para o
crescimento indiano são relevantes. Além dos gargalos na infra-estrutura, o país sofre
com o ritmo lento das reformas econômicas, como da legislação trabalhista, por
exemplo. Ainda que seja considerada uma sociedade que produziu importantes avanços
nos campos mais desenvolvidos do conhecimento, a educação está muito distante de se
tornar universal na Índia. O analfabetismo atinge cerca de 24% da população jovem, e
apenas 60% dos indianos entre 15 e 24 anos sabem ler. Na China, o analfabetismo entre
os jovens está abaixo de 1%.

Debate final – Entrevistas com George Vidor

Sobre a Conferência

George Vidor, editor do jornal O Globo e comentarista da Globonews, liderou o debate


final com alguns palestrantes de DESAFIOS EMERGENTES. O jornalista afirmou que o
“mundo está quase virando de cabeça para baixo com as economias chinesa e indiana e
com a presença marcante da Ásia”. Para ele, a conferência foi muito importante de
forma a adicionar informações sobre essas grandes potências em constante ascensão.

De acordo com o presidente do CEBC, Ernesto Heizelmann, o encontro produziu maior


preocupação e demonstração que atitudes devem ser tomadas urgentemente. O Brasil
deve ser eficiente e efetivo para manter sua posição. Ele ressalta que “trata-se de
uma questão emergencial”.

Para Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics Research & Advisory, talvez tenhamos
experimentado nos últimos 20 anos sentimento de crescimento espetacular e de maior
integração global, processo inevitável e irreversível. Kroeber ressalta que a ascensão
de China e Índia e o conseqüente realinhamento no atacado são fatos que não podem
ser descartados. “Globalização é uma força que não se pode interromper”, acrescenta.

Os Estados Unidos necessitam estabelecer regras e ser consistentes no sistema de


gestão econômica e política. Caso isso não se configure, se tornará muito difícil para
outros países acompanhar o crescimento. China, Índia e a União Européia contribuem
para criação de um sistema internacional de governança econômica que reconheça o
fato que todas as economias têm direitos e demandas em relação aos recursos
mundiais. Mecanismos de alocação de recursos são necessários para que seja possível
compartilhar o custo do desenvolvimento em todos os países. Isto deve estar além das
fronteiras nacionais.

A questão chinesa

Existem enormes diferenciais entre Brasil e China, como carga tributária, infra-
estrutura, investimentos em educação e planejamentos de longo prazo, que fazem
com que o caminho de ascensão percorrido pelos orientais seja mais rápido e
qualitativo. O país fala abertamente sobre metas e dilemas para o futuro, tais como
insuficiência energética, e reconhece que seu crescimento é insustentável, de acordo
com Ernesto Heinzelmann. “Falta ao Brasil e suas lideranças um espírito de
coletividade, pois atualmente a defesa de interesses próprios promove atrasos para o
país”, complementa.

Há necessidade de políticas claras nos setores públicos, privados e acadêmicos para


lidar de maneira adequada com o tamanho e dinamismo chinês. É preciso que os países
estejam preparados para esse processo, para evitar, dessa forma, que perdas grandes
ocorram. A concorrência chinesa superou o mercado mexicano nos Estados Unidos, por
exemplo, e isso é uma realidade comum a outras nações. A Ásia, em particular a
China, está cada vez mais ativa com os norte-americanos. Em relação ao México,
Enrique Dussel Peters, professor e coordenador de política econômica da Universidade
Nacional Autônoma do México, crê que o país “dança com os lobos” há tempos.
Contudo, o grau de integração entre ambos, México e Estados Unidos, que faz parte de
um processo histórico, tem diminuído nos últimos anos, junto às exportações e
importações. O fato de não ter havido muitas mudanças no processo normativo do
NAFTA (Acordo de livre-comércio da América do Norte, na sigla em inglês) teria uma
parcela de culpa.

Para a professora Eliana Cardoso, “dançar com a China” é uma grande idéia e isso tem
sido feito nos últimos anos pelo Brasil. O momento positivo pelo qual o país está
passando é, em parte, derivado do impacto do crescimento chinês sobre o resto do
mundo e advém de um choque positivo do nosso intercâmbio. Com o crescimento das
exportações, foi possível melhorar os indicadores externos. “Já estamos dançando com
a China e é uma dança muito boa”, finaliza.

Rodrigo Tavares Maciel, secretário Executivo do CEBC, crê que o Brasil não entende a
China e mal sabe o caminho para fazê-lo. Atualmente, as empresas brasileiras
encontram-se em fase inicial de internacionalização; no caso dos investimentos
brasileiros em território chinês, o Brasil conta com menos de dez já implantadas. O
desconhecimento ainda é grande e é importante fator impeditivo para o
desenvolvimento das relações entre os dois países. “Os empresários precisam enxergar
que as oportunidades não permacerão para sempre”. Há a necessidade de um impulso
aos empresários brasileiros para que esse cenário seja alterado. Os chineses fazem seu
“dever de casa” há anos - “A China foi quem descobriu o Brasil”, confere Maciel e
acrescenta “talvez seja o momento de corrermos atrás e fazermos o mesmo”.

Crescimento chinês seria uma ameaça de guerra?

Kroeber, em resposta ao discuro de Lehmann sobre uma possibilidade de guerra que o


mundo não deveria descartar, afirma que o professor queria apenas ser provocativo.
“Guerras são condições de absorção de um novo poder, mas há precedentes que
mostram a possibilidade que isso ocorra de forma pacifica”. Kroeber exemplifica a
afirmação acima lembrando o caso norte-americano, no qual houve a ascensão dessa
grande potência sem que fosse resultado de um conflito militar. Contudo, concorda
que a possibilidade de ocorrência de deslocamentos provocados pela grande ascensão
de China e Índia não pode ser descartada.

O Brasil

“Num período recente, a indústria de transformação e seus setores passaram a crescer


muito menos que o próprio PIB nacional, cujo crescimento não é dos melhores”,
ressalta Vidor. Em parte, isso é atribuído à questão de câmbio, dos juros no Brasil, e
em parte à avassaladora e forte competição com a China. Marcelo Nonnenberg,
coordenador do grupo de estudos sobre China do Instituto de Pesquisas de Economia
Avançada (IPEA), acredita que o movimento de especialização no agronegócio
(característica de outros países da América Latina) é provisório. A desaceleração
industrial recente seria conseqüência, em parte, da penetração industrial das
importações, que se deu de maneira mais intensa nos setores intensivos em
tecnologia(materiais elétricos, máquinas, equipamentos, material eletrônico). Por
outro lado, isso também pode significar ganhos de competitividade para a indústria
nacional, na medida em que resulta do aumento de importações de bens de capital
com a incorporação de tecnologias mais avançadas. “Claramente o Brasil tem
vantagens comparativas no agronegócio, mas não é com ele que vamos chegar às taxas
asiáticas de crescimento”, diz.

A questão indiana

George Vidor argumentou que a similaridade entre Índia e Brasil é infinitamente maior,
incluindo muitos problemas comuns, tais como educação restrita, infra-estrutura
precária e desemprego. Porém a Índia possui razões para estar otimista. Um dos
aspectos que chama a atenção é a necessidade de reforma tributária. No Brasil, a
reforma encontra-se em pauta há anos, devido principalmente, à falta de consenso no
sistema político que causa estagnação do sistema tributário nacional. Na Índia, a
reforma já se encontra em processo, na qual uma das novidades foi a implementação
do VAT (imposto sobre valor agregado, na sigla em inglês). A grande dúvida seria como
a introdução desse imposto seria feita, devido à falta de consenso entre os poderes.

Para Ajit Tolani, gerente da KPMG em Nova Iorque, a constituição nacional indiana
define quais impostos são de responsabilidade do governo central e quais são do
governo estadual, sem que haja ambigüidade entre as leis. No caso do VAT, a decisão
foi do governo central, mas o desafio na implementação foi ter retirado a autonomia
do Estado quanto às cobranças dos impostos sobre a venda. Durante cerca de cinco
anos, houve formação de comitês com ministros de finanças dos estados e discussões
para que se chegasse a um consenso. Cerca de 10% dos governos locais, que são de
partidos de oposição, não implementaram o imposto por não concordarem, mas para
Tolani acabarão por fazê-lo.

O tópico mais importante indubitavelmente ao falar de Índia são as Zonas Econômicas


Especiais, as ZEE’s. Elas serão as responsáveis pelo aumento das exportações e trarão
reservas à Índia. O governo discute preços das empresas locais e, para isso, continua a
comprometer divisas.
Os indianos sempre possuiram política muito oportunista na aplicação de impostos.
Quando não tinham reservas externas, o impacto era sobre os investimentos diretos
externos. Contudo, ao mesmo tempo, estabeleceram incentivos de exportação, que
possibilitaram alcançar a marca de alcançaram US$ 50 bilhões de investimentos ligados
às reservas de estrangeiras, desde a década de 90.

Em relação às taxas inflacionárias, que teriam chegado a 9%, Vidor se surpreende ao


não ver nenhum tipo de preocupação por parte de Amit Ray. Em contrapartida, o
professor da Universidade de Jawaharlal Nehru afirma que a taxa só obteve aumento
real nos últimos meses e está na faixa de 6%, e não 9%. Segundo ele, houve uma nova
tendência de queda nas semanas anteriores, de 6,5 para 6,2 ponto percentual e sua
despreocupação com a inflação deriva da administração eficiente do ministro das
finanças. Indianos têm expectativa de que em menos de 6 meses ocorra queda e, se as
monções forem favoráveis, a taxa se aproxime de 5%, considerada estável para a Índia.
Há interesse ministerial em afinar a política monetária, os juros, e atitudes já foram
tomadas em relação a isso.

O setor siderúrgico é dominado pelo setor público e possui apenas uma empresa
privada, de um total de oitenta, devido ao regime protecionista. Nos últimos quinze
anos, a Índia adquiriu know-how através do processo de reformas econômicas, mas não
possui competitividade como outros asiáticos.

Meio ambiente e a questão social

George Vidor lembra que as questões sociais e do meio ambiente abordadas em


DESAFIOS EMERGENTES não devem ser esquecidas, nem as melhoras e o progresso
significativo. O jornalista afirma que a China assume papel similar ao que os Estados
Unidos tiveram nos últimos 50 anos, contribuindo com quase 31% do crescimento
mundial em prazo relativamente curto. Dessa forma, com a modernização, poderia
esperar-se um estímulo aos problemas sociais do país. Ao promover maior contato da
população entre si, maior fluxo de informações e muitas facilidades, o processo
provocaria uma demanda social, que poderia causar uma interrupção ou até mesmo
uma previsão que a modernização não se concretizasse. De acordo com Leo Abruzzese,
editor-chefe do EIU (Economist Inteligence Unit), pode-se dizer que nos próximos 15
anos devem ocorrer pressões na China para uma democratização, mas não é correto
afirmar ainda como e quando isso poderia ocorrer. “No caso indiano, a população não
estava sendo beneficiada pelo governo vigente e, por meio de voto, retiraram o
partido do poder. Na China esse não é um canal possível, portanto as pressões por um
crescimento igualitário virão de baixo para cima”, infere.

Já em relação à questão ambiental, há convicção em afirmar que o assunto entrou na


agenda internacional atraindo atenção que não se restringe mais às ONG’s, mas
também às grandes potências e à opinião pública. A China, que atualmente ocupa a
segunda posição dos maiores contribuidores para o aquecimento global, responsável
por um terço das emissões de gases poluentes, subirá de patamar ainda nos próximos
anos. A poluição atmosférica e a falta de preocupação do governo com a preservação
do meio ambiente fazem do país o grande vilão, papel que o Brasil também já assumiu
devido às queimadas na Amazônia. Responsável pelas afirmações, Elizabeth Economy,
diretora de estudos do Council of Foreign Relations (CFR, na sigla em inglês),
acrescenta que os Estados Unidos ainda são os maiores responsáveis. Todavia os norte-
americanos têm se mostrado mais abertos a mudanças, a tal ponto que o presidente
Bush a recuou em relação à posição de não-adesão ao protocolo de Kyoto. “Pela
primeira vez há esperanças que o governo dos Estados Unidos será mais agressivo nos
debates sobre meio ambiente”, coloca. O objetivo atual é encontrar uma maneira de
trazê-los junto à China para um debate mais pacífico. Segundo Economy, há
necessidade de ações cooperativas; países devem ser trazidos para a discussão no
intuito de fazer acordos, como de cooperação tecnológica. A questão ambiental será
tópico importante a ser colocado nas mesas de negociação e é possível que seja criado
um fundo para financiar as mudanças de adaptação a tecnologias mais limpas. Mas, no
curto prazo, não haverá muitas mudanças no cenário.

África seria nova fronteira econômica?

Pode-se dizer que o crescimento africano não é qualitativo e sua base é muito
pequena, apesar das taxas serem muito boas (da Angola, por exemplo, foi de 20%). De
acordo com Neuma Grobbelaar, diretora de pesquisa do South African Institute of
International Affairs (SAIIA, na sigla em inglês), devido aos atrasos no desenvolvimento,
não ocorreram avanços significativos no continente por muito tempo e o caminho a
percorrer ainda é longo. Ainda há muita pobreza, mas a África continuará sendo fonte
robusta de recursos por vários anos. O grande desafio é encontrar seu próprio caminho
e implementar reformas institucionais para que seja possível que o continente alcance
uma eqüidade com o crescimento chinês.