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AS DIVERSAS FACES DO HOMEM
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA
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Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo


Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que
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/ Superstições, Educação e Conhecimento, Emoções Sentimentos Controle,
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Estímulo, Sociedade: Valores e Cultura

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Índice
Introdução
5 Minha luta, meu desabafo
13 Pensamentos em consonância ao discutido

Refletindo sobre o homem


20 O Sonho Distante
24 A outra face da verdade
37 Quatro Amigos, Quatro Destinos
46 Os homens ainda enxergam fantasmas
49 Duas classes de homens: Cultos e Incultos
51 Homem: Anjo ou Demônio?
55 Aprisionamento do Homem
58 Homem: Animal engraçado e tolo
61 Vivendo um conto de fadas
62 A miopia do Homem
64 Homem: Controlado externa e internamente
67 Normopatas: A chatura dos Homens Normais
70 Emoções e a Fábrica/Organismo

Histórias diversas e função cerebral


75 Para mim você está errado
79 Como sabemos as coisas que sabemos?
82 O filhote de pardal e os sistemas emocionais inatos
85 Euler e Aldegundes – Dois comandos: Cortical e subcortical
86 O Dilema de Jonas
91 Discussão do Caso Jonas
94 Explicação sofisticada do caso do abacaxi e de Jonas: Regiões subcorti-
cais e corticais

Desenvolvimento e função do cérebro: a fábrica/organismo


98 Afinal, que é o Cérebro?
100 Algumas funções do encéfalo

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Setores e função: a fábrica/organismo
103 O Organismo/Fábrica e os Genes
106 Desenvolvimento do Organismo/Fábrica
111 Setor de inteligência da Fábrica
117 Defesa da Fábrica: Imunologia
120 Memória: As lembranças da Fábrica/Organismo
122 O Hemisfério Esquerdo x Direito
125 A importância de uma Fábrica/Organismo íntegra

Cenas da fábrica/organismo
130 A Fábrica e a gordura abdominal de José
137 Antônio escapa do assalto
140 Altamiro não escapa do assalto
143 Alguns eventos na vida de Maria
148 Tranquilizando o leitor
150 Maria vai à cidade comprar um presente

O organismo/fábrica e o meio ambiente


157 O Organismo/Fábrica e o meio ambiente
159 Informação: Curiosidade e Atenção
170 Os dois comandos
178 Sistema límbico e as emoções
180 Palavras finais

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Minha luta, meu desabafo
“As intoxicações pela instrução são muito mais graves que as intoxicações
pelos subprodutos da indústria. Os estorvos de informação são mais graves
que os estorvos de máquinas e de utensílios. As indigestões de signos mais
graves que as intoxicações alimentares”.

R. Ruyer

Minha burrice e ignorância inicial


Desde criança julgava-me como sendo um perfeito ignorante, um ser humano
que nada sabia. Tinha dúvidas e inúmeras dificuldades para resolver quase
todos, ou mesmo todos os problemas. Mesmo assim, após um teste idiota,
consegui entrar para o primeiro ano primário do Grupo Escolar Barão de
Macaúbas e lá continuei até terminar o curso primário. Minha professora,
D. Edina, com sua simpatia, tolerância e timidez, conseguiu conquistar-me e
tornar as aulas suportáveis durante o aprendizado. Não foi difícil aprender a
ler e a escrever mal. Entretanto, jamais consegui agradar a professora acerca
das interpretações de textos. Eu interpretava de um modo; a interpretação
“correta” era outra. Assim, no Grupo Escolar continuei minha jornada de
idiota.

Diante dos colegas e da professora – acho que todos percebiam minha


idiotia – continuei lutando contra minhas dificuldades. Como não melhorei
minha doença crônica – ignorância familiar – após os quatro anos de curso,
burramente, continuei a tentar acabar com minha idiotia e, para isso,
matriculei-me no Colégio Batista Mineiro. Lá, aos trancos e barrancos, fiz os
quatro anos do Curso Ginasial da época. Como aconteceu no grupo escolar,
no colégio, me sentia como um incapaz diante dos problemas da vida que
observava curioso e confuso.

Juventude: A bobice continua. Primeiros


companheiros
O tempo foi passando. Assim, como sempre acontece, também fui me
acostumando com minha bobeira. Mas, perplexo, percebi que alguns de

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meus colegas sofriam do mesmo mal; eu tinha colegas semelhantes. Como
minha doença, ou seja, minha bobice, não melhorou, decidi ir adiante. Fui
para o Colégio Marconi fazer o curso científico. Diante de um grupo de alto
gabarito, gente da elite, muito mais poderosa economicamente que eu,
julguei-me derrotado. Naquele lugar cheguei a imaginar que seria expulso
por incapacidade mental, intelectual, prática e, além disso, por falta de poder,
dinheiro, elegância, nome familiar famoso e muito mais. Naquele meio, senti-
me como o pior de todos.

Entretanto, como aconteceu antes com o crescimento de minhas


observações, fui percebendo, aos poucos, que tinha vários colegas tão
idiotas quanto eu, mesmo tendo boas roupas e poder social e econômico.
Em cada lugar, matriculado para tentar diminuir minha idiotice, mais e mais
companheiros ia encontrando; eles cresciam. Pouco a pouco, extremamente
desnorteado, enlouquecido, ia descobrindo que o grupo dos idiotas era maior
que pensava. Eu não estava sozinho. No Marconi não aprendi o desejado para
conhecer melhor minha estupidez crônica; eu, um nada, continuava burro e
cada vez mais desiludido.

Adulto-jovem e medicina: professores entram


para o grupo
Entrei no ano seguinte na Faculdade de Medicina para testar, mais uma
vez, minha capacidade mental e intelectual. Estava bastante seguro de que
lá eu, cada vez mais, iria confirmar minhas suspeitas: não sabia resolver
corretamente, e de maneira segura e eficiente, quase nada colocado à minha
frente.

Atravessei os seis anos de Medicina e me formei junto com inúmeros


companheiros. Mas, cada vez mais, ia me certificando que a doença era
maligna – talvez contagiosa-, atingia a quase todos ou a todos: agora o grupo
de idiotas era colossal, entre esses estavam muitos professores da saudosa
faculdade. Alguns tentavam mascarar suas idiotices com um verniz de
sabedoria; eram os “Idiots Savants” (Idiotas Sábios) dos franceses.

Fui percebendo, a duras penas, que minha burrice não tinha cura e que eu,
junto com amigos, colegas e familiares, desde o grupo escolar, curso ginasial
e científico, formávamos um batalhão de ignorantes sobre quase tudo
existente. Ninguém sabia nada! Ninguém conhecia ninguém! Ninguém sabia
pensar com profundidade! Todos nós éramos superficiais em tudo!

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Novas tentativas: o grupo de idiotas aumenta
Comecei minha profissão de médico. Como era um idiota, fui procurar uma
especialidade – a psiquiatria – que me fornecesse uma melhor compreensão
do meu caso particular, isto é, acerca de minha idiotia crônica, na época
chamada de “Oligofrenia”.

Continuei sem respostas. Atendi pacientes e mais pacientes; notava agora


que todos eles eram parecidos comigo. No confessionário do consultório
psiquiátrico pude observar com maior profundidade que uma grande parte
dos clientes sabiam que tinham a mesma doença ruim, a que eu era portador:
idiotia humana crônica. Eles, como eu, a escondiam; camuflavam a doença
deles, fingindo ser inteligentes, um termo que hoje não mais sei o que quer
dizer.

Tentativa desesperada: buscando uma


resposta definidora
Desmiolado, tentei mais uma vez examinar e compreender melhor meus
azares e minhas idiotices. Assim, fiz o vestibular e fui cursar Filosofia na
UFMG. Quando entrei para Faculdade de Filosofia imaginei: Agora terei a
resposta definitiva acerca de minha burrice bem como a dos outros. Quando
comecei a estudar a história filosófica da humanidade, deparei com os
“grandes” nomes da filosofia grega: Pitágoras, Zenon de Eléia, Anaximandro,
Anaxímenes, Heráclito, outros e outros e o famoso trio: Sócrates, Platão e
Aristóteles. A base onde ergui minha coerência lógica ruiu; os grandes sábios
eram muito parecidos com todos nós, idiotas na maioria das coisas e falavam
pelos cotovelos como eu e você.

Ainda no curso, um pouco adiante, assisti belas aulas, li livros mais profundos,
fui além das idéias socráticas, platônicas e aristotélicas. Comecei a ler os
filósofos tidos como geniais e mais modernos: Descartes, Pascal, Kant, Bacon,
Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, David Hume, Heidegger e diversos outros.
Mas, em lugar de me acalmar, fui ficando cada vez mais desesperado. Via que
a estrutura do meu edifício mental estava prestes a desabar; tive um terrível
e doloroso “insight”: estava na hora de parar de procurar a saída para minha
burrice e dos outros.

A triste constatação
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Cada vez mais claramente, dolorosamente, notava que o objetivo
fundamental de meus estudos, compreender e conviver bem com minha
idiotice, meu sonho e razão de todos os meus estudos, de meus esforços,
leituras e cursos, foram em vão, pois não consegui ter uma compreensão
melhor de mim mesmo, mas descobri que os outros seres humanos se
assemelhavam ao que eu era. Nem os grandes filósofos foram o que se dizia.
Todos eles, os tidos como “gênios”, falhavam frequentemente nas questões
específicas. Esses senhores da sabedoria dominavam com arte e facilmente
o geral: “o homem é”; “a natureza é”; “as crianças são” etc. Entretanto,
fui observando que falhavam e se enrascavam quando trabalhavam com o
particular: José da Silva, casado, pai de três filhos, morador da favela do Mato
Dentro etc. Nesses casos ninguém acerta. Aplicamos o geral neste infeliz e
isolado indivíduo; nada parece com ele; o tornamos um espectro.

Lista enorme de burrices comuns a todos


jovens e velhos
Quando nascemos não escolhemos nossos pais; por isso não tínhamos como
errar. Eu, como vocês todos, adorava meus pais. Entretanto, logo no início
da vida, começamos a usar nossa burrice natural para resolver os fatos de
todo dia. Muito cedo escolhemos, quase sem pensar, nossos companheiros
para brincar; apanhamos de uns, somos roubados por outros, rejeitados
por alguns. E assim vai sendo construída nossa pesada jornada de idiotices:
escolhemos mal, na puberdade e adolescência, nossos amigos e amigas
mais íntimas. Continuamos nossa jornada: criticados por uns, agredidos por
outros, passados para trás por alguns, abandonados pelos que mais nos
dedicávamos. Os erros feitos nas escolhas, bem como nas avaliações dos
companheiros, não teve começo e nem terá fim.

As tolices na juventude
As burradas continuam: o jovem estuda mal as matérias do curso e, o pouco
que sabe, na hora da verdade, sente um “branco” na mente e nada faz;
escolhe mal o médico para tratá-lo e mal o dentista, que acaba lhe tirando
o dinheiro e um, dois ou mais preciosos dentes. Para piorar, contrata um
serviço com o bombeiro, carpinteiro, pedreiro, que só recebe o dinheiro
inicial e desaparece.

O jovem escolhe mal a profissão, os amigos da faculdade, os professores


com quem nós tentamos nos ligar para aprofundar mais na área escolhida. A
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estrada, cada vez mais ampla, vai sendo percorrida, dirigida ou administrada
por nossas mais diversas bobices: alguns se casam cedo; muitas engravidam
ainda muito jovens; outros largam o curso ou a profissão que poderia ser
chamada de uma escolha inteligente.

As burrices generalizadas continuam: muitos e muitos se casam com a pessoa


errada, têm filhos que não queriam, os amigos de todos os dias cantam suas
mulheres ou seus maridos; educam mal os filhos e, por isso mesmo, sofrem
a vida inteira. Mas tem mais: alguns se separam na hora errada e voltam a
morar com a mãe ou, sem terem aprendido, se casam com outra ou outro,
no momento, logo após a separação, isto é, quando está mais idiota ainda.
Planejam mal o dinheiro custoso; procuram lugares horríveis ou muito caros
para morar; compram um automóvel que só dá defeito e desprazer; nas férias
escolhem o apartamento na praia que não existe ou que é um lixo; avaliam
mal sua brancura e queimam todo o corpo; comem o que não pode e têm
uma disenteria. Decidem fazer um programa fora de casa, apanham uma
doença venérea e passam esta para sua mulher; vão ao banco, saem com o
dinheiro no bolso e são roubados; emprestam dinheiro para o amigo, afilhado
e sobrinho e nunca mais vêem a cor de dinheiro.

As burradas da velhice
Vamos continuar com as bobices de todos nós. Mais tarde, já mais velho,
o indivíduo se aposenta mal, sem recursos, também não cuidou do corpo,
bebeu e fumou demais e não pensou no fígado ou no estômago; tem os
músculos fracos por falta de exercícios e um pulmão cheio de fumaça e
carvão que não aguenta subir a escada de onde mora. Diante disso, não lhe
resta outra alternativa senão ficar assentado aprisionado num sofá furado e
sujo, o dia todo, diante da TV assistindo como fazer macarrão ou transar com
uma mulher que jamais o escolherá.

Continuando a morar com sua cara-metade, briga o dia todo, por qualquer
motivo: a comida sem sal, a conversa dela que nada sabe de futebol e sua
fala continuada no telefone, os gastos desnecessários, a água gasta demais na
descarga da privada, os banhos demorados, o dentifrício apertado no meio,
a tosse irritante, os casos contados chatos e demorados, cheios de detalhes
e pior, todos eles há muito conhecidos, ouvidos dezenas de vezes; tudo irrita
cada dia mais um e outro, que dá o troco.

Ainda mais tarde, a pessoa adoece, e, se tiver um dinheirinho guardado, os


parentes, esperançosos, lamentam a demora da morte do grande amigo; uma

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morte que nunca chega. Sem se preparar adequadamente para morrer em
casa, na própria cama e à noite, rodeado pelos parentes e amigos, como é o
desejo de todos, o infeliz e desgraçado acaba morrendo, sem planejamento,
estatelado na rua, tendo o corpo dilacerado, sujo de graxa, sangue e da
poeira do asfalto.

Bobice dos desajustados


Alguns mais ousados e, talvez poderosos, formam grupos para assaltar, matar,
organizar quadrilhas para roubos; outros falsificam documentos, compram
juízes, desembargadores, políticos, atestados médicos, governos para ganhar
mais dinheiro que depois não sabem o que fazer com ele; outros planejam,
raramente o fazem, revoluções e guerras; tudo isso, na maior parte das vezes,
acaba mal.

Palavras finais sobre a idiotia: afinal uma idéia


inteligente
Eu, triste, mas ao mesmo tempo alegre, percebi que meu mal era epidêmico,
atingia a maior parte da população, quiçá, toda a humanidade. Após essa
descoberta, decidi não mais procurar remédio para a doença. Entretanto,
fui me interessando por uma outra área: entender a minha, a sua, a nossa
burrice universal. Desejei ir além dos meus estudos formais e, para isso,
compreender ou conhecer melhor nossa idiotice.

Foi desse modo sofrido que terminei os estudos e as observações realizadas.


Não havia ainda obtido a resposta desejada para meu problema principal:
minha burrice.

Aos poucos, entretanto, ao deixar de lado meus sonhos, fui percebendo que
eu me julgava um idiota porque aprendi (inventaram e injetaram um mito)
em minha mente que o homem era um animal inteligente e racional. Esta foi
a grande descoberta: a afirmação estava errada.

Ao comparar o homem ideal inventado pelas ideologias políticas e religiosas


com o homem que eu era, bem como todos os que conhecia, descobri que
nem eu nem ninguém conseguiria nem mesmo aproximar-se desse ideal
criado.

Esse novo conhecimento, o homem é por natureza irracional, e, portanto,

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emocional, e age quase sempre sem pensar, foi um grande “insight”: o meu
“heureca de Arquimedes”. O homem-padrão descrito pelas teorias, o homem
ideal a ser seguido, não existia. A proposição era falsa; ela era usada para
encobrir o homem real ou verdadeiro.

O mapa do homem não se ajusta ao território


humano
Desse princípio inicial: “o mapa do homem pouco tem a ver com o território”
(com o homem real), nasceram outros postulados derivados do primeiro. A
“verdade” principal e mais geral é a que “frequentemente o mostrado pelas
palavras não retrata a realidade existente”; de modo simples e metafórico:
“não se deve comer o cardápio imaginando ser ele o filé com batatas
desejado”, ou também, “a marca da roupa não veste ninguém”.

Uma coisa é o símbolo (som, palavra), a outra a coisa (filé, camisa). Eu fui
dominado pelos símbolos escutados acerca do que era o homem inteligente;
compramos, burramente, muitas coisas desnecessárias, devido aos símbolos
a eles ligados.

O mundo conhecido por mim, descrito, arrumado e valorizado pelas crenças


começava a ser destruído; fui enganado pelos diversos princípios (verdades)
nele contidos.

As “verdades” antes aceitas e imaginadas como possíveis de sustentarem


explicações posteriores eram falsas, ingênuas, idiotas, imprestáveis para
viver no mundo onde fui lançado; elas atrapalhavam e impediam a entrada
de modelos (princípios) mais ajustados à realidade vivida. Fiquei perturbado
ao descobrir que grande parte de meu modo de compreender e explicar a
realidade tinha sido construída a partir de suposições não possíveis de serem
comprovadas, nem mesmo refutadas, devido a sua generalidade, abstração e
superficialidade.

Desiludido, percebi que grande parte de meus estudos levou-me ao caminho


oposto ao desejado; eu aprendia as teorias não ajustadas ao mundo
experimentado. Assim comecei a ter uma idéia mais realista acerca do
homem.

O homem é mais intuitivo que racional; mais idiota que inteligente.


Deduzi que não devia esperar nada de excepcional de mim, nem de meus
companheiros de espécie. De posse desse novo princípio ou paradigma eu
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conclui que poderia viver menos angustiado com meu fracasso e burrice, bem
como, não me entusiasmar demais com possíveis sucessos e ganhos. Passei
a esperar de mim apenas o que eu poderia dar; como todo ser humano, eu,
humildemente, faço parte: “Cada um dá o que tem”.

Com lágrimas nos olhos conclui que a burrice percebida dos tempos de
criança, que achava que fosse um privilégio meu, é inerente à natureza
humana; é um dos seus atributos mais visíveis e escancarados, e, por isso
mesmo, torna-se difícil de ser vista. Concluindo: a idéia do homem racional e
inteligente é falsa; não há muito que fazer diante da nossa característica.

Aconselho a todos vocês que procurem compreender nossa incompetência e


irracionalidade como parte normal de nossa natureza e, por outro lado, não
enaltecer esse ou aquele indivíduo pela “grande inteligência” demonstrada
numa ou em outra rara ocasião. Aprenda não tendo medo de mostrar sua
burrice; evite esconder a burrice debaixo do tapete.

Quem se julga um inteligente, segundo as definições de inteligência atuais,


em todos os lugares e tempos, atire a primeira pedra. Estará mentido, para si
e ou para os outros; fazemos parte de um enorme grupo de idiotas.

A única coisa que podemos fazer, e isso eu tenho tido grande experiência,
é saber que somos assim e assim permaneceremos, pois esse atributo
desprezado é transmitido pelo genoma de nossa espécie e, também, pelos
diversos ensinamentos culturais esquisitos.

Não temos como fugir dessa marca natural, pois essa é nossa herança
compartilhada com outros animais; somos farinha do mesmo saco. Somos
descendentes de bactérias, algas, insetos (a formiga intrusa, o chato
pernilongo, a barata asquerosa), de aracnídeos (os escorpiões agressivos),
de vermes nojentos (tênias e lombrigas), de anfíbios (sapos e salamandras),
de répteis (cascavéis, corais), aves (coruja, gavião) e, por fim, de mamíferos
(onça, veado, macaco).

Herdamos desses nossos predecessores inúmeros aspectos; não só a


semelhança entre os dois lados (a simetria), organização do organismo,
o sistema nervoso controlando as funções, o acasalamento, a busca por
alimentação, abrigo e parceiro, mas, fundamentalmente, os grandes objetivos
da vida de todo animal: manter-se vivo e preservar a espécie da qual faz
parte. Não temos como escapar de nossas origens, pois trazemos na alma os
sinais visíveis e cicatrizes que não nos largam.

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Pensamentos em consonância
ao discutido
“Assim como os dominados sempre levaram mais a sério que os dominadores
a moral que deles receberam, hoje em dia os nossos logrados sucumbem mais
facilmente ao mito do sucesso que os bem sucedidos”.

Adorno/Horkheimer

“Os fabricantes de cosméticos não vendem lanolina, vendem esperança”.

Aldous Huxley

“Caminheiro: não há caminho. O caminho se faz andando”.

Antônio Machado

“A liberdade de persuadir e sugerir é a essência do processo democrático”.

Bernays

“Os sistemas tendem a subjugar o espírito humano. É subjugando o real que a


idealização e a racionalização subjugam o espírito humano”.

Claude Bernard

“Sempre que vemos magnetismo no objeto das atenções, devemos suspeitar


de uma apatia básica por parte do espectador”.

David Riesman

“A melhor definição de homem é: um ser que se habitua a tudo”.

Dostoievski

“Quem possui uma Ideologia é também possuído por ela. Como os deuses, as
ideologias não são unicamente dependentes e instrumentais, mas também
possessivas e exigentes”.

Edgar Morin

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“Quando os humanos tomam os seus mitos e as suas idéias pela realidade,
tendem a crer que os mitos e as suas idéias são o próprio mundo”.

Edgar Morin

“Não se dê ao homem, por Deus, mais poder antes que ele tenha aprendido a
usar melhor o pouco que tem”.

Emerson

“O preto escravizado por sua inferioridade, o branco escravizado por


sua superioridade: ambos se comportam de acordo com uma orientação
neurótica”.

Black Skin, (White Masks) Fanon

“E Deus viu que era grande a malícia dos homens sobre a terra, e que todos
os pensamentos de seu coração estavam sempre voltados para o mal. Pesou
então ao Senhor de ter criado o homem na Terra, e seu coração amargurou-
se. E o Senhor disse: destruirei da face da terra o homem que criei; tanto o
homem, quanto os animais, e os répteis e as aves do céu, pois, me pesa tê-los
criado”.

Gênesis

“Os novos mitos fizeram seus ninhos no próprio coração das idéias abstratas;
as estruturas arcaicas do mito apropriaram-se das estruturas evoluídas das
idéias”.

Georges Bataille

“A descrição epistemológica completa de uma linguagem “A”, não pode


ser dada na mesma linguagem “A” , porque o conceito de verdade das
proposições de “A” não pode ser definido em “A”. De outro modo: um sistema
explicativo não explica a si mesmo, pois um princípio de elucidação é cego em
relação a si próprio, isto é, o que define não pode ser definido por si mesmo”.

Gödel

“Seria o homem um erro da natureza: Mal adaptado, por ser excessivamente


bem provido, nefasto ao equilíbrio biológico do planeta”.

Hubert Reeves

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“Todo sistema aprisiona, produz cegueira, mesmo os que defendem e se
assentam na liberdade”.

Isaiah Berlin

“A tragédia das democracias modernas é que elas ainda não conseguiram


realizar a democracia”.

Jacques Maritain

“Tudo está em pedaços, foi-se toda a coerência”.

John Donne

“Quanto mais conhecemos o homem, mais admiramos o cão”.

Joussenet

“O esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual é


o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu
entendimento sem a direção de outro”.

Kant

“O senso comum tende a afirmar que todo o acontecimento é causado


por um acontecimento que o precede, de modo que se poderia prever ou
explicar qualquer acontecimento… Por outro lado, o senso comum atribui às
pessoas sãs e adultas a capacidade de escolherem entre várias vias de ações
distintas…”

Karl Popper

“Os conceitos, como os indivíduos, têm suas histórias, e são tão incapazes de
resistir – se opor – a devastação do tempo como são os indivíduos”.

Sören Kierkegaard

“Trouxemos a verdade, mas na nossa boca a verdade tinha todo o ar de


mentira. Trouxemos a liberdade, mas nas nossas mãos a liberdade parece
um látego. Trouxemos a verdadeira vida, mas onde se ouve a nossa voz as
árvores secam, sussurram as folhas mortas. Trouxemos a promessa do futuro,
mas esganiçamo-nos, gaguejamos, ao formulá-la…”.

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Arthur Köestler

“Se não há maneira alguma de julgar uma teoria a não ser avaliando o
número, a fé, e a energia vocal de seus participantes, então a verdade se
encontra no poder, a mudança científica transforma-se numa questão de
psicologia das multidões e o progresso científico é, em sua essência, um efeito
da adesão dos vitoriosos; é uma espécie de conversão religiosa”.

Kuhn

“A primeira lei de todo ser é conservar-se e viver. Semeais cicuta e queres que
amadureçam espigas?”

Maquiavel

“Os homens sempre elaboraram falsas concepções de si mesmos, daquilo que


fazem, daquilo que devem fazer e do mundo em que vivem”.

Marx e Engels

“Nós alimentamos o coração com fantasias e o coração bestializou-se com


essa dieta. Vivemos numa Ilha dos Prazeres”.

Neil Postman

“Sempre que um homem almeja persistente e longamente parecer outro,


acaba tendo dificuldade de ser ele mesmo de novo”.

Nietzsche

“Vivemos num tempo em que nossas únicas necessidades são as coisas


desnecessárias”.

Oscar Wilde

“Ao homem foi dada a palavra para esconder seu pensamento”.

Padre Malagrida

“Eles estudam o dia inteiro, não têm tempo para aprender”.

Pascal

“A aparência da verdade absoluta nada mais é que o resultado de um


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conformismo absoluto”.

Paul Feyerabend

“Dois perigos ameaçam constantemente o mundo: a ordem e a desordem”.

Paul Valery

“As pessoas daqui viraram as pessoas que elas fingem ser”.

Sam Shepard

“É tão mortal para o espírito ter um sistema como não ter nenhum. Portanto,
este terá de resolver-se a reunir os dois”.

F. Schlege

“O homem só pode ser ele próprio quando está sozinho; se não gosta da
solidão não gosta da liberdade”.

Schopenhauer

“O amor, como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do


contato de duas epidermes”.

Sebastien Chanfort

“Nada existe de bom ou mau, mas o pensamento assim o decidirá”.

(Hamlet) William Shakespeare

“Não se julgue um homem feliz, até que esteja morto”.

Solon

“Nós vemos os outros não como eles são, mas como nós somos”.

Talmud

“É proibido matar: todos os assassinos serão punidos salvo se matarem em


grandes quantidades e ao som das trombetas”.

Voltaire

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“Os deuses não nos revelaram desde o princípio/Todas as coisas; mas, com o
tempo, /Se buscarmos poderemos aprender, conhecê-las melhor/A verdade
certa, contudo, ninguém jamais a conheceu/Nem a conhecerá”.

Xenófanes

“Nem sempre a verdade é fundamental para a felicidade. Há pessoas que


morrem quando seus olhos são abertos”.

Wilhelm Stekel

“A ciência é ainda mais instável que a Teologia; entretanto, no meio da


instituição científica reina a mais anticientífica das ilusões: considerar
absolutos e eternos os caracteres da ciência”.

Whitehead

“A eliminação da magia (pela teoria) tem o caráter de magia”.

Whitehead

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Refletindo sobre o homem

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O Sonho Distante
A Bíblia fala que Adão e Eva viviam no jardim do Éden sem trabalhar,
comendo frutas do jardim celestial, sem guerrear e sem atividade sexual, em
paz com a vida e os outros animais; sem roupas e sem se envergonharem
disso.

Gênesis 2:25

Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a vida contada na Bíblia,
enxertada pelas idéias de seus deusinhos (dois modelos- paradigmas-:
paraíso e da fama e diversão). Esses moços ambicionam no futuro, nada mais,
nada menos, que o retorno ao mundo “bom, ordenado e belo”, imaginado,
sonhado e descrito pelo mito do paraíso.

A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido, explode ocasionalmente,


conforme o tempo, o vento e tempestade passageira, na entressafra de suas
“revoluções”; não ocorre um questionamento constante dos costumes por
parte da juventude. O mal para a juventude sonhadora, pura e ingênua, é a
sociedade e a vida atual; a infelicidade, para eles, está ligada à ordem social
vigente formulada pelos seus pais.

Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta inglória: transformar a


atual sociedade imoral e corrupta numa decente e ordeira. A juventude
sonha e luta, não de maneira eficaz, para salvar o homem “do mal do século”;
transformar a história humana num conto de fadas com um final feliz.

Esses loucos utópicos – lembro ao leitor que todos nós já vivemos essa
loucura durante nossa juventude – expressam de vários modos, conforme
a época e a cultura, sua atração pelo paraíso: o uso de roupas grosseiras,
desbotadas e rasgadas de fábrica, se possível, de marca; nudez diante dos
outros, principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina fotográfica;
exibição de coxas ou de seios entre as mulheres para mostrar o proibido
pelas regras dos ordeiros e conformados. Mas a grande revolução contra o
estabelecido não fica só nisso, outras estratégias inteligentes são usadas:
badernas, gritos, urros e destruição durante jogos, formaturas, shows,
missas, sermões e posse de presidente da república; colônias de nudistas
para homenagear e defender o “naturalismo” numa praia ornamentada pela
cultura de massa; ato sexual nos teatros, filmes e praças, para combater o

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moralismo tolo e ineficaz dos gagás.

Todas essas exibições teatrais, histéricas e misturadas a rituais religioso-


pagãos, provocam em seus executores uma excitação tola e delirante:
orgasmos demorados e aplausos da grande massa entusiasmada enquanto
espera o retorno à Terra prometida.

Os outros seres humanos, surdos aos berros dos jovens, observam, afastados
e incrédulos, o extraordinário entusiasmo enxertado à simplicidade hilariante.
Para os jovens, lá, muito longe, no alto, bem acima de nossas cabeças de
homens e da montanha, no céu azulado e estrelado, anjos decentemente
enfeitados da nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam
alegremente, girando em volta do compenetrado, honrado e sempre vigilante
Deus.

Entusiasmados com essa fantasia inebriante, em alguns lares desse mundo


afora, pais não muito jovens, inoculados por essa pregação, passaram a
cultivar o banho coletivo. Também, em algumas praias, como ocorre no
paraíso, homens, mulheres e crianças despidas caminham; rapazes e moças
desoladas exibem, diante da natureza viva, a natureza morta: seios e pênis
tristonhos e abandonados; órgãos esperando por algum milagre produzido
pelos que por ali caminham cabisbaixos.

Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tempos em tempos, nasce o


mito dos protestos estudantis cômicos. Estes, organizados por exploradores
cobertos com disfarces de cordeiros, combatem com seus discursos
inflamados o poder que, sem notar, eles exibem: roupas de marca, palavras
bem escolhidas e reveladoras de erudição, corte de cabelo moderno e
relógios, brincos e outras jóias de alto custo. Seu poder escancarado através
de informações sem-palavras mostra claramente existir uma classe estudantil
bem diferente da outra; de uma desconsiderada desde o nascimento.

Frequentemente, o grupo, através de gritarias em público, de algumas


pedradas medrosas e cuidadosas, ataca o pobre policial que pertence à classe
que, hipocritamente, os líderes, do lado de cima do limite, afirmam defender.
Esta é a luta de classe deles: através de ações dificílimas, perigosíssimas,
(jogar pedrinhas nos inimigos sonolentos) carregadas de emoções intensas,
alcançar um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o paraíso para um grupo
especial e escolhido desde o nascimento.

Durante essas lutas coletivas, desordenadas e cômicas, transformadas em


exibição teatral na praça pública, jovens fantasiados, tendo as caras pintadas
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com esmero, com roupas típicas plantadas em desejos inconfessáveis de
cada um, gritam, por instantes, com muita raiva, enquanto esperam a hora
de ir jantar e beber no restaurante limpo, chique e caro, onde os pobres não
entram.

Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a favor de quê e contra quê
se luta. Todos sabem que há um protesto contra alguma coisa; rebelam-se,
talvez, contra eles mesmos, pelas prerrogativas que uns poucos têm sobre a
maioria, pelo poder que detém, pela arrogância de um lado e a humildade do
outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas. Tudo está errado! Exige-
se um futuro melhor.

Entretanto, o que é este futuro melhor? Nenhum deles sabe, nem nós, os
mais velhos. Tudo é vago, distante demais, impossível de ser até mesmo
imaginado, representado e muito menos verbalizado; a única coisa que
eles sabem fazer. Ninguém consegue definir o que se quer, nem mesmo os
líderes dos movimentos. Quase sempre a maioria deles fez – ou faz – parte
e defendeu, com o mesmo vigor, o “outro lado”, o lado do “estabelecido”; o
agora “combatido” com veemência.

Este mundo imaginário e buscado, principalmente pelos jovens sonhadores


e rebeldes, é nebuloso. Se não se conhece o fim desejado, logicamente,
não será possível saber que instrumentos usaremos para alcançá-lo.
Provavelmente o que eles mais desejam é o retorno ao mundo antigo, calmo
e ordeiro, sem lutas, com nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas
ao som singelo de harpas celestiais.

Lamentavelmente, os jovens são, ao mesmo tempo, apaixonados pelo mundo


natural e atraídos pelo moderno, pelo desperdício do dinheiro na compra
dos aparelhos de som e imagem ultra-sofisticados, pelo uso das últimas
novidades em bebidas e drogas colocadas no mercado; tudo isso não tão
natural assim.

Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens buscam despertar


crenças antigas, plantadas firmemente pelos pais quando eles eram crianças
muito novas. Nós todos as temos. Essas histórias falam acerca de um mundo
imaginário ordeiro, cheio de homens bons e honestos, igualdade e liberdade
e direitos para todos.

Infelizmente esses ensinamentos existem nos discursos, nas teorias, mas


nunca foram observados em nenhuma parte do mundo; essas pregações
são mentirosas. Nossos pais as ouviram de seus pais e, de boca em boca,
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a história, teimosamente, continua a comandar nossas tolas cabeças. Este
mundo imaginado nunca existiu e nem existirá. A juventude que procura
alcançar essa utopia ainda acredita nela, mas, à medida que se torna adulto,
o sonho vai desaparecendo.

Os jovens têm pavor de se transformarem em adultos; perceberem que o


aprendido através das crenças defendidas com ardor não retrata a realidade
vivida. Crescer para a juventude significa tornar-se igual aos pais, ao governo,
assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa e corrupção desse estranho
mundo habitado por anjos e demônios; metade céu, metade inferno.

Talvez o sonho máximo desse grupo seja viajar para o paraíso; caso o
combustível não desse, pelo menos até Marte, no novo ônibus espacial a
ser construído; talvez, quem sabe, na nave dos Ets. Para fazer essa viagem
fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com certeza”, “né” e junto com toda a
patota, todos vestiriam um uniforme superchique (como o brasileiro que deu
um passeio na nave) e moderninho.

Mas, quando lá chegassem, prontamente, eles iriam se despir. Após cada um


“ficar” rapidamente com o outro ou a outra, eles comeriam, abraçados, as
frutinhas celestiais distribuídas por São Pedro, dançando e cantando, diante
do som “louco” produzido por uma banda supermoderna; evidentemente
após o consumo inebriante de cogumelos, coca, maconha e outras plantas do
pomar celestial.

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A outra face da verdade
O homem, de modo geral, sendo um animal fisicamente fraco, por sorte ou
azar, desenvolveu um grande cérebro. Estes dois fatores reunidos, fragilidade
e cérebro grande, possivelmente, possibilitaram-no construir medidas
protetoras para se defender dos milhares de perigos que o ameaçavam. Entre
as diversas estratégias para se resguardar dos ataques estão as idéias mais
sagazes e eficientes, ou seja, nossa criatividade intelectual.

Provavelmente, se não fosse seu grande desenvolvimento cognitivo,


principalmente a aquisição da fala, o homem já teria desaparecido como
espécie e, por outro lado, se fosse muito forte, não precisaria desenvolver sua
cognição.

Possuindo uma inteligência diversificada e complexa, que o possibilitou


aprender continuamente e passar esta aprendizagem para os seus sucessores,
o homem, pouco a pouco, acumulou conhecimentos úteis e, também,
inúteis; corretos ou viáveis e, outros, incorretos e inviáveis. Utilizando-se dos
conhecimentos auxiliares o homem tem conseguido compreender, dominar
e controlar o universo onde vive e, quando possível, sua própria vida.
Entretanto, e por outro lado, usando os conhecimentos inúteis, incorretos e
inviáveis, ele falha constantemente, pois o seu mapa, nesse caso, não retrata
o complexo território onde ele atua.

Após ter “comido a maçã” e, em seguida, ser “expulso do paraíso”, o homem


primitivo se viu livre de sua “prisão” quanto às prescrições do que fazer
(do pode e não pode) da obrigatoriedade de certas condutas. Assim ele foi
estimulado a pensar antes de agir e não se comportar como os animais mais
inferiores: estimulou/reagiu.

Uma vez liberto da prisão “estímulo-resposta”, o novo homem pôde parar


e refletir sobre si mesmo, isto é, examinar seu próprio pensamento e poder
tomar consciência de si como diferente das outras coisas e de outros seres.
O homem então começou a observar o mundo à sua volta e também a si
próprio, a sistematizar as observações dos fatos e a categorizar fenômenos
semelhantes. Desse modo o homem foi reconstruindo sua ontologia (estudo
do ser em geral) no homem primitivo ainda muito rudimentar.

Aperfeiçoando suas descrições do universo, o homem edificou os primeiros

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esboços descritivos do meio ambiente e dele próprio, as primeiras teorias
físicas e psicológicas. Seu conhecimento inicial visava à compreensão da
natureza para que esta pudesse ser domada e, desse modo, aproveitada da
melhor maneira possível.

O homem foi procurando soluções para diversos problemas que ocorriam


no momento e, mais que isso, tentou prever ou antecipar, ao construir seus
“modelos do mundo”, soluções para evitar a ocorrência de desgraças futuras.

Nessa época, possivelmente, surgiram os primeiros trapaceiros (charlatães)


que se diziam capazes de “ler o futuro” do outro indivíduo através da leitura
dos astros, linhas da mão, revelações divinas etc.; tudo isso lorota criada por
nosso hemisfério esquerdo ficcionista.

Possivelmente, a razão principal dos esforços do homem para aumentar seu


conhecimento tenha sido uma busca incessante para prevenir ou exterminar
as desgraças do dia-a-dia: enchentes, escassez de alimento, seca, terremotos,
doenças, agressões de animais mais eficientes e grupos humanos mais
potentes etc.

O desprezo pela natureza interna (mente,


espírito, alma)
Fascinado pela natureza externa a nós e tendo investido muito de sua
capacidade nessa atividade, o homem abandonou, em parte, a sua própria
natureza, a interna. O homem esqueceu do homem que é deslumbrado pelo
exterior; essa sedução e interesse pelo mundo externo continuam até hoje;
acredito que esteja aumentando.

A cada dia mais o homem se afasta dele próprio se examinado como ser
natural; viemos do pó e a ele voltaremos. Nós, como a água e as rochas, bem
como as bactérias, vírus, cobras, lagartos e elefantes, nascemos a partir da
explosão inicial (bigue-bangue em português ou “big bang” em inglês ). Um
fenômeno que ninguém se aventura a dizer o que havia antes dele. Seria
o nada? Somos compostos por alguns poucos minerais (carbono, oxigênio,
hidrogênio, cálcio, potássio, nitrogênio, cloro etc.). Observado como seres
biológicos, o homem é semelhante, portanto, aos outros animais e mesmo
aos vegetais e minerais.

Por meio de seus esforços para entender e se precaver contra os


acontecimentos infelizes encontrados, o homem obteve um resultado parcial
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satisfatório nessa sua empreitada; entretanto, o progresso tem sido lento
com respeito ao conhecimento de si mesmo, pois atarefados com os fatos
externos não nos sobrou tempo para aprender um pouquinho acerca de nós
mesmos: a mistura do biológico com o cultural.

Nas escolas o currículo continua a ser o das ciências Física, Biologia, Química
e a língua materna. Não se estuda o homem e suas emoções, cognições e
tomadas de decisões. A cada dia mais são descobertas técnicas sofisticadas
para diversos campos do conhecimento do mundo exterior, entretanto, só
recentemente, há aproximadamente vinte anos, houve um desenvolvimento
de técnicas mais capazes de compreender como o homem pensa, sente e
resolve seus problemas.

As antigas descrições do mundo e do homem precisam ser abandonadas. Em


seu lugar precisa ser mostrado o novo homem descrito pelas teorias mais
bem elaboradas pela neurociência.

Crenças tendenciosas invadem o espaço vazio


Não sairemos dessa possível involução que se encontram as diversas
sociedades (aumento da criminalidade, guerras continuadas, aumento de uso
de álcool e drogas, o terrorismo, o domínio comercial da maioria pela minoria
etc.) se não mudarmos a mente atrasada e infantil existente na maioria das
cabeças que ocupam todos os espaços da sociedade (lavradores, operários,
professoras primárias, profissionais liberais, políticos, governadores,
presidentes e reis, jovens e velhos).

Por ignorância ou maldade, muitos dirigentes e formadores de opiniões


injetam uma enxurrada de bobagens nas mentes moles dos assimiladores
ingênuos e semi-analfabetos. Ninguém conhece em profundidade o homem.

As inúmeras explicações popularizadas, aceitas sem discussões, há muito vêm


sendo criticadas com argumentos e dados bem fundamentados; um esforço
feito por um pequeno grupo de homens mais lúcidos e esclarecidos que os
demais.

Para a ciência não há verdade alguma que dure uma eternidade. Apesar
dessa afirmativa, muitos modelos do mundo, provadamente inadequados,
construídos há centenas de anos, e inicialmente plantados em nossa mente,
continuam a ser ensinados pelos pais aos filhos ou até mesmo nas escolas aos
alunos, como dogmas que obrigatoriamente devem ser usados.

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Os modelos científicos modernos vão, frequentemente, contra as idéias
contidas nas primeiras teorias do mundo, ou seja, nas histórias contadas
e passadas, de geração em geração, pelos mitos. O prejuízo desses
ensinamentos, nos quais o mito não é mostrado como mito, mas sim como
relato científico do universo, produz, desce cedo, uma considerável confusão
na mente da criança e, pior que isso, impede a possível germinação de
interpretações mais fecundas, mais justas, críticas, funcionais e bem feitas da
natureza e dele próprio.

Os discursos muitas vezes não admitem a autonomia das palavras e da coisa.


Eles constituem uma fala na qual não há uma distância entre a representação
e o representado. São sistemas semelhantes aos elaborados pelas crianças,
alguns pacientes psiquiátricos (esquizofrênicos e pacientes psicóticos
deprimidos e maníacos, etc.); esses, frequentemente, não separam, em
certos aspectos, a imaginação da realidade.

Algumas das crenças narradas pelos mitos são imaginadas como provenientes
de divindades, entretanto, não devemos nos esquecer que as próprias
divindades, os diversos deuses se desenvolveram, de um ou outro modo,
(eles não são descritos da mesma forma), e são alimentados pelas
construções humanas. Entretanto os relatos dos mitos são ensinados às
crianças como fatos “do além”, nascidos do nada, o que é impensável de
acordo com a idéia de “causa” científica.

Para este pequeno grupo que aprendeu a criticar, é evidente que só podemos
pensar com nossa mente e não com outra cabeça, com nossa limitação de
um organismo construído de certa forma e não de outra. Na verdade, todas
as idéias do universo foram construídas e descritas por mentes humanas,
contadas na nossa linguagem de homem e não na linguagem da barata, do
besouro ou do hipopótamo, como não poderia ser diferente.

Discursos: sementes de mentiras


Vivemos um período de imensa irracionalidade. Há uma recusa de encarar a
realidade existente, principalmente quanto às questões relacionadas ao ser
humano; é mais suportável conhecer a realidade física ou química: o copo
caiu e se quebrou; a água sanitária queimou minha mão. Está ocorrendo
uma substituição da realidade pelo mundo imaginário; evita-se enxergar
claramente as causas reais da fome, dos despreparos, das doenças que
atingem os mais humildes, as responsabilidades reais do poder político e
econômico são substituídas por uma responsabilidade imaginária dos Deuses

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bem distantes de nós.

Instaurou-se uma espécie de fobia diante das leis da natureza concebidas


como susceptíveis de impedirem nossas liberdades fundamentais,
notadamente nossa liberdade espiritual, pois somos, quase sempre,
determinados pelos nossos genomas e pelas idéias culturais que nos foram
impostas.

Portanto, desde cedo, tem-se a impressão que o homem revoltou-se contra


o mundo real; ele sempre teve uma imensa atração por mitos, e tudo indica
que quanto mais falsa for a narração mítica, mais seguidores fanáticos
ele terá. Desgostoso com a realidade existente, o homem tem criado um
fantástico mundo de idéias (de si mesmo, de sua família, de seu povo, da
natureza humana em geral, de uma outra vida e dos meios para alcançá-la,
do perfil dos heróis e dos criminosos, e de muito mais). O ser humano é um
grande admirador da descrição abstrata e simbólica dos fatos e situações
e não é muito atraído pela observação do concreto (este parece dar mais
trabalho) e do possível de ser focalizado e percebido pelos órgãos dos
sentidos.

O mundo foi dividido em concreto e abstrato; vivido e teórico ou pensável.


Percebe-se, inúmeras vezes, que a descrição popular (e muitas vezes a
científica) de uma área do mundo pouco ou nada tem a ver com o mundo
real ou bem observado, isto é, frequentemente o mundo teórico não está
relacionado ao mundo real ou sensível. Inventamos símbolos, enchemos
o mundo deles, para descrever a realidade e as nossas ações; inventamos
símbolos, também, para descrever as nossas descrições de nossas descrições
e continuamos a descrever as descrições das nossas descrições nos levando
ao infinito. São os símbolos que vão intermediar o real com nossa história;
a tartaruga, a borboleta e o mosquito, ao contrário dos homens, reagem ao
meio existente num certo momento; não precisam dos símbolos para viver,
parece que vivem felizes em contato direto com a realidade. Nós, confusos
com tantos símbolos, ao que tudo indica, estamos infelizes. Construímos, sem
parar, outros e outros mundos simbólicos diferentes, pois sempre achamos
que os novos mundos por nós criados são mais certos que os antigos.

O ser humano, há cerca de 50.000 anos, adquiriu a linguagem que antes não
possuíamos, pois emitíamos grunhidos e gestos para nos comunicar uns com
os outros. Através da fala passamos a categorizar, primeiramente, os nomes
das coisas (fruta, bicho). Depois aprendemos a ligar uma coisa conhecida com
alguma ação (fruta boa; bicho perigoso). Aos poucos fomos construímos um

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tipo de ‘lógica’ e de raciocínio, numa tentativa vã de tampar com a peneira
a nossa irracionalidade (incoerente; insensato; não razoável; burrice numa
linguagem mais clara).

A fabricação dos raciocínios ilógicos cresceu, inundou nossa mente e


inflacionou as explicações possíveis acerca de fatos reais e observáveis. A
partir da fala e da escrita, construímos castelos de areia (entre eles o de que o
homem é racional). Essas casas de palhas (redes, estruturas) têm resistido ao
tempo. Muitos desses conjuntos de idéias interligadas se apóiam em crenças
explicativas ingênuas, desgastados pelo tempo acerca do homem e do seu
meio ambiente (princípios, regras, modelos).

O homem, portanto, tornou-se um grande admirador da descrição abstrata


e simbólica de fatos e eventos, mostrando não ser muito atraído pelo
concreto, da análise, do estudo profundo do real, isto é, do possível de ser
observado, esmiuçado, comprovado ou refutado, usando os órgãos sensoriais
e sintetizado pela lógica e teorias científicas.

Passamos então a viver num mundo de fantasias, de ícones aqui e acolá;


burramente abandonamos exatamente o que nos fornecia suporte para
viver decentemente. Abandonamos nossa origem biológica, passando a viver
ludibriados pelo discurso; a outra tendência ou comando do homem, sua
cognição. A fala, fácil de ser fabricada, muitas vezes mentirosa, outras vezes
ingênua, inundou e dominou nossas fracas e moldáveis mentes infantis;
cabeças prontas para aceitarem, inconscientemente, qualquer idéia que nos
desse uma aparente segurança durante a infância.

As histórias são inventadas de qualquer modo; elas não exigem disciplina e


rigor. O homem, como os outros animais, procura a solução mais fácil diante
de um problema; se é complicado examinar seriamente a vida, a morte, a
injustiça, a doença, o início do universo e da vida, a atração sexual ou pelo
alimento, por que não inventar uma interpretação qualquer que sirva para
tudo? E viveram felizes para sempre.

O alimento básico por trás das ideologias políticas e religiosas – dois grandes
poderes que dirigem nossa vida – nada mais é que um bálsamo, um sonho,
uma esperança, um alívio passageiro para o temor constante que inunda
nossas cabeças inseguras; uma doença impossível de ser exterminada.

Para aliviar nossa angústia crônica os “charlatães” (os que falam muito para
enganar os incautos) usam conceitos incrustados de aspectos emocionais e
mágicos, impossíveis de serem bem definidos, como, por exemplo: liberdade,
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igualdade, amor, justiça, democracia, razão, perdão, família, tolerância,
homem, capitalismo, socialismo e diversos outros. Todos esses conceitos,
bem como outros, escondem intenções que não podem ser explicitadas
(reveladas) acerca do poder de alguém sobre outro “alguém” mais fraco e
inocente. Muitos lutam, brigam ou morrem em defesa da suposição/idéia
divulgada.

O povo, uma vez contaminado e domesticado pela ideologia existente e


em moda, passa a ser consumido por ela. As ideologias são exigentes; elas
obrigam seu servo a seguir o prescrito, pois, do contrário, não fará mais parte
do grupo dos bons e escolhidos.

Ora, nada mais perigoso que se utilizar de mitos para se adaptar à realidade
vivida, acreditar mais nos mapas construídos pelas palavras que no território
pisado e observado. Não somos nada de extraordinário: apenas um corpo
biológico enxertado com idéias em grande parte equivocadas acerca de nós
mesmos e do mundo que nos cerca.

Nesse cipoal de idéias malucas fica muito difícil separar o joio do trigo, o
real do irreal. Eu, talvez como vocês, me perdi nessa imensa desordem de
explicações e explicações disso e daquilo, que faz uso, em abundância, de
símbolos inventados sem lastro para suportá-los.

Uma grande parte da verborréia que lemos ou ouvimos tem servido,


unicamente, para nos aprisionar mais e mais na nossa colossal burrice
existente desde o nascimento. Agora, mais velho, noto que percorri um meio-
mundo inutilmente, tudo para nada: a maioria das idéias que imaginei serem
bons instrumentos de orientação foi inventada por cabeças humanas, tão
tendenciosas e angustiadas como é minha e a sua mente; por sinal pouco
conhecida.

Estamos inexoravelmente ligados à burrice universal até que a morte nos


desligue dela e nos retorne à natureza não-viva. Enquanto isso, através das
baboseiras que não param de ser lançadas, vamos suportando todo esse lixo
que despejam em nossos cérebros entupindo-os até seu limite. Até quando
suportaremos tanta informação desconexa e desarrumada?

Nosso destino nos obrigou a trabalhar, do nascimento à morte, com as


ações determinadas pelo nosso “cérebro executivo”. Este, por sua vez, foi
construído e é coordenado por dois grandes comandos: um irracional/
emocional e outro racional; de outra forma, uma região subcortical e outra
cortical.
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Essa última região, a cortical, que tem sido tão exaltada e admirada – agora
se sabe – é controlada quase que inteiramente pelos conhecimentos
subcorticais, – que já nascemos com eles – pela nossa irracionalidade ou
intuições. A parte subcortical, a que aparentemente aparece menos, foi
duramente criticada e tida como a parte “inferior”, a que nos envergonhava,
por muitos séculos. Agora sabemos que o setor subcortical do cérebro é o
que fornece a energia, o material perceptivo, o controle dos movimentos, o
suporte de um modo geral para a glória e pompa do metido cérebro cortical
que agia como se não dependesse do chamado “cérebro inferior”, ou, para
outros, “cérebro emocional”.

Os estudos têm mostrado que a “Coordenadoria Geral” só funciona


corretamente caso o cérebro chamado de “inferior”, isto é, o subcortical,
esteja funcionando adequadamente, pois é este último que “alimenta” a
coordenação do “superior”.

Em resumo: somos comandados muito mais pelo comando “burro” e


“emocional”, que pelo chamado “inteligente” e “lógico”. Na maioria das
vezes, é o comando “baixo” e ou inferior que inicia e domina as ações,
enquanto isso, o chamado comando mais “elevado” e “alto” cria palavras
para descrever o que o outro está fazendo, ou melhor, já fez há muito tempo.
E como cria!

Um esclarecimento ao leitor
Espero que o leitor aceite naturalmente, sem se desesperar, esse comando
“inferior” ou irracional (o que não pensa, nem raciocina) como fazendo parte
dele. Só assim, compreendendo melhor o ser humano, vocês sofrerão menos
e ficarão menos frustrados diante das inúmeras besteiras que já fizeram e
farão no futuro próximo e ou distante. Por tudo isso, não se espante com
certas condutas suas, geralmente descritas, após a sua realização, mais ou
menos assim:

— Não sei como pude agir desse modo. Como fui bobo! Parece até que não
era eu quem estava agindo.

A maioria das pessoas sabe que nossos problemas, em grande escala,


originam-se da incompatibilidade entre nossos desejos e paixões de um
lado, e nossos objetivos aprendidos culturalmente de outro. Por exemplo:
as pessoas comem exageradamente e engordam quando não queriam;
envolvem-se em relações sexuais perigosas concebendo bebês indesejados.

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Num e noutro caso a pessoa obedeceu a impulsos (desejos) do organismo
(subcorticais) que vão contra objetivos aprendidos culturalmente (corticais
ou da cognição ou teorias). A todo o momento, uma ação (comer muito)
determinada por impulsos (subcorticais) é assimilada, compreendida e
explicada pelos conhecimentos aprendidos (corticais), geralmente através de
nossas paupérrimas intuições mal-aprendidas.

Precisamos aceitar humildemente nossa bobice, compreendê-la como


sendo um atributo próprio de nossa natureza, pois só assim poderemos
diminuir nossas ações tolas. Esta é a teoria que parece ser a mais adequada
atualmente. Para tristeza do mundo, o “homem, animal racional” está
definhando; sua morte parece estar muito próxima.

Para viver satisfatoriamente o indivíduo necessita ser capaz de entender e


predizer as propriedades gerais e comportamentais da realidade do meio
ambiente. Entre as características gerais desses conhecimentos estão desde
as simples categorizações (“Isso é um prego”; “aquilo é uma pulga”) até
as deduções (inferências) complexas (“Creio que poderei ganhar um bom
dinheiro abrindo uma sorveteria nesse verão”; “Esse vegetal é venenoso.”)

O organismo de cada pessoa durante seu convívio com o meio ambiente


interno e externo ganhou uma sabedoria (um aprendizado e memória) que
o permitiu agir adequada e razoavelmente nas coisas práticas da vida, do
contrário seria impossível viver.

Essa sabedoria intuitiva, aprendida naturalmente e sem esforço, inclui


conhecimentos rudimentares de Física (tipo de corpo, dureza, movimento);
Química (sabores, venenos); Biologia (animais e vegetais úteis e perigosos);
Psicologia (relacionamentos, intenções); Economia (lucro, prejuízo, reserva) e
diversos outros conhecimentos chamados de práticos (senso comum).

Por outro lado, cada pessoa, além de sua prática intuitiva, recebe outros
aprendizados, os denominados formais e ou teóricos. Esse segundo
aprendizado auxiliar pode ser muito útil, mas, também, perigoso. A teoria
atua como um instrumento mais geral e abstrato, “lentes” especiais para
prever ações futuras e alargar o campo das observações.

Um médico, por exemplo, pode ter uma imensa sabedoria prática


(experiência direta com questões concretas e possíveis de serem
observadas), mas, além da prática, ele terá também aprendizados abstratos
adquiridos mais com a cognição e menos com a observação sensorial. A
segunda aprendizagem, o conhecimento teórico, é assimilada, não por ter
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experimentado fatos concretos, mas sim devido às leituras feitas em livros
e revistas especializadas, do escutado nas conferências e nas conversas
informais; são idéias acerca de relações entre os fatos e, como pensamentos,
impossíveis de serem experimentados, pois não estimulam nossos órgãos
sensoriais e sim, a cognição (idéias).

Ora, um conhecimento intuitivo na profissão médica, ou em qualquer


outra, é reformulado constantemente em virtude dos acertos e erros
cometidos e, naturalmente, notado pela consequência imediata possível de
ser percebida pelos nossos órgãos de sentido. Entretanto, e isso pode ser
trágico, o segundo conhecimento, o aprendido mediante teorias, não permite
(admite) avaliações críticas ou percepções de erros ou de acertos através
de observações sensoriais. Desse modo, o conhecimento teórico adquirido,
sendo geral ou amplo, não nos permite facilmente refutá-lo ou comprová-lo.

Por exemplo: várias teorias psicológicas (há milhares delas, repito: milhares)
são idéias vagas e amplas acerca do comportamento humano defendidas com
muito ardor por seus admiradores, às vezes, fanáticos. Mas essas teorias, sem
base sensorial, jamais poderão ser refutadas ou comprovadas empiricamente,
isto é, por observações sistematizadas e científicas. Uma grande parte das
chamadas “teorias”, ou “conhecimento teórico”, cai num grupo de questões
que chamamos de filosóficas (metafísica). As teorias ditas não-científicas
não apresentam estruturas possíveis de serem refutadas ou comprovadas.
Portanto, cuidado com as teorias: muitas não têm nada a ver com a realidade
que você deseja compreender.

A razão desse livro


Teimosamente, por todas essas considerações, decidi penetrar, com todas
as minhas forças, no estudo das funções do cérebro humano, pois é ele que
permite a produção e criação tanto das ações dos vendedores, como dos
compradores de ilusões. Cabe ao cérebro perceber, através dos órgãos dos
sentidos, o que está acontecendo no mundo interno e externo. É ele que
assimila, organiza e armazena os conhecimentos que nele entram e passam
a morar; é o cérebro que nos faz sentir alegre ou triste ao experimentar
o vivido e, por fim, é ele que age, numa ou em outra direção, conforme o
sentimento detonado e o pensamento elaborado.

Baseado em centenas de anotações decidi, pois sou um burro obsessivo –


o que não me parece estranho aos burros – compor algumas explicações
para que eu possa compreender melhor o meu e o seu cérebro; tudo de um

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modo simples e fácil. Para isso usei várias histórias inventadas por mim que
visam a concretizar as explicações. Além disso, explico o organismo humano
metaforicamente como uma fábrica com seus vários setores trabalhando em
conjunto para a sobrevivência da fábrica particular e das fábricas semelhantes
(a espécie).

O objetivo aqui é o de transmitir ao leitor idéias gerais e exemplos concretos


capazes de esclarecer um pouco melhor a compreensão e a explicação da
conduta humana e, ao mesmo tempo, criticar algumas suposições absurdas,
às vezes, cômicas. Espero que mediante as informações contidas no livro
adquira um novo conhecimento acerca do mundo animado e inanimado.
Assim você poderá tirar conclusões mais ricas e eficientes acerca do mundo
onde vive e, consequentemente, tomar medidas mais inteligentes diante dos
problemas enfrentados.

Critico, em especial, inúmeras informações teóricas por nós aprendidas muito


cedo e que, sem dúvida alguma, irão dificultar ou impedir uma compreensão
mais realística do nosso universo.

Muitas dessas crenças, sem o apoio de fatos observáveis, nos acompanham


do nascimento à morte, mesmo quando aprendemos outros princípios que
vão contra os preconceitos aprendidos. Para ilustrar o descrito, um exemplo
recolhido da mídia: “Maria Tereza afogou na banheira seus três filhos”. Após
ser presa ela declarou à imprensa: “Meus filhos merecem uma vida melhor;
agora, depois de mortos, eles irão viver no paraíso e não nesse inferno”.
Maria Tereza se referia a uma possível existência feliz depois da morte, por
isso os matou. Segundo a teoria de Maria Tereza seu objetivo foi reconduzir
os filhos ao paraíso.

Cenas como essa, às vezes mais graves, outras vezes menos, são lidas ou
ouvidas nos noticiários. Com frequência, espantados, assistimos adultos e
crianças, homens e mulheres-bombas que obedecem cegamente a princípios
aprendidos. Segundo seu aprendizado eles morrem por Alá, Maomé, Cristo
ou outros Deuses. Em São Paulo, muitos homens matam e morrem em
defesa dos seus “Deuses” (Marcola, Beira-Mar e outros) orientadores da
conduta dos filiados ao PCC etc. Outros matam e morrem por amor; outros
por dinheiro; alguns são mais corajosos ao praticar esportes radicais, usar
drogas mais eficientes para ficar mais “alto” etc. Fica a pergunta: Quais idéias
(princípios) subjacentes determinaram esses estranhos comportamentos?
Como identificá-los?

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O poder dos princípios assimilados por nós
(receitas, mapas)
As nossas explicações de um e outro fato (matar os filhos, voar em asa-
delta, usar cocaína etc.) são fabricadas conforme as premissas ou idéias
básicas aprendidas cedo (nossos princípios, mapas, receitas ou paradigmas).
Os “alicerces” ou pontos de sustentação para erguer outras idéias ou
raciocínios foram implantados em nossa mente por nossos pais, parentes,
professores, companheiros admirados, religiosos, governo, mídia e outros.
Uma vez impressas as idéias básicas, obrigatoriamente, governados por elas,
passamos a pensar conforme suas prescrições e, por outro lado, iremos
rejeitar as explicações baseadas em princípios contrários às já aninhadas
carinhosamente em nossa mente.

Espero que o leitor flexível (com algum espaço livre no cérebro para assentar
outros princípios) possa apreciar outros modos, diferentes de seus atuais, de
pensar e avaliar que caminho deve tomar com respeito à administração de
sua vida.

Uma informação, por definição, é um novo conhecimento. Somente


conhecendo idéias diferentes das armazenadas em nossas cabeças, isto é,
informações novas, teremos chances de crescermos. Eu e você, bem como
qualquer ser humano, não somos possuidores de nenhuma idéia certa
(verdadeira) para tudo, em todos os lugares e épocas.

Este livro tenta não repetir o que você já conhecia. Acredito que certas idéias
poderão surpreendê-lo. Antecipadamente peço desculpas pelo possível
susto. Não é meu propósito defender nenhuma idéia para que você a siga.
O objetivo é muito mais crítico que prescritivo (faça isso; não faça aquilo).
Visa sua capacidade de pensar melhor, criticar seus próprios pensamentos
conforme seus valores e respeitar o direito de seu companheiro pensar
diferente. Defenda seu modo peculiar de viver, pois você é um indivíduo com
singularidades (genoma e cultura) diferentes de todos os outros. Portanto,
deve pensar um pouco diferente. Aprenda a cuidar de sua cabeça; ela é a
única que você conhece mais ou menos.

Não acredito em idéias certas para sempre; há sim modos diferentes de


conhecer a realidade conforme a época e o indivíduo. A seu modo de
conceber e explicar, a sua realidade é sempre “certa” para você num certo
momento. Mas há outros modos de assimilar os fatos. Esperamos que

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alguns outros modos de explicar a realidade possam ser incorporados ao seu
estoque de saberes, aumentando-os e tornando-os mais produtivos. Caso
haja um crescimento de suas ferramentas cognitivas, você, com mais opções,
poderá viver de modo mais eficiente e feliz.

Isso é tudo que desejo para você, pois é o que busco fazer para ajudar a mim
mesmo. Boa sorte!

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Quatro Amigos, Quatro
Destinos
Tempos atrás liguei a televisão e presenciei um repórter da TV entrevistando
populares nas ruas de São Paulo. O diálogo foi mais ou menos como descrito
abaixo:

Repórter da TV: A Câmara Municipal de São Paulo está propondo o fim da “lei
da gravidade” para a Cidade de São Paulo. O que você acha disso?

O entrevistado respondeu esforçando-se para mostrar conhecimento:

— É…concordo… Penso que a lei deveria ser estendida para todas as cidades
do Brasil.

As diversas entrevistas continuaram com um e outro entrevistado:

Repórter da TV: Há uma lei tramitando no Congresso Nacional exigindo que


todos os dinossauros do Brasil sejam transferidos para o Estado do Amazonas.
Você é contra ou a favor dessa medida?

— Contra… Acho que, uma vez transferidos, eles serão mortos pelos
caçadores.

Repórter da TV: Beethoven virá ao Brasil para dar um concerto de piano no


Teatro Municipal. Você pretende ir ao concerto?

— Não tenho grana; se arrumar, irei.

Repórter da TV: O Coríntias está contratando Einstein para ser seu novo
goleador. Você apóia essa contratação?

— É lógico, ele é um excelente jogador.

Estas perguntas e outras mais foram feitas e transmitidas através de um


canal de TV. O repórter, sempre, ao finalizar as perguntas, perguntava aos
entrevistados se eles tinham conhecimento da notícia relacionada à pergunta.
Quase todos confirmavam tê-la escutado no rádio, lido nos jornais ou visto

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nas TVs; poucos foram os que criticaram as perguntas.

Não tenho informações se as “reportagens” foram montadas como piadas ou


não. Creio que não.

Eu, pessoalmente, junto com colaboradores, realizei uma pesquisa acerca


de crenças entre jovens pré-universitários. Foram testados milhares de
vestibulandos candidatos a vagas nos cursos da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG). Selecionamos 57 questões relacionadas a crenças
jamais comprovadas empiricamente, algumas tão absurdas como as
perguntas do repórter.

As questões foram apresentadas aos candidatos, nos moldes de qualquer


prova de conhecimento. Pedimos ao vestibulando que marcasse, se a
afirmativa fosse verdadeira (V) ou falsa (F), segundo sua opinião. Entre as 57
frases apresentadas aos candidatos estavam: “mulato de olhos verdes não é
confiável”,“as mulheres loiras envelhecem mais depressa que as morenas”,
etc. Os resultados da pesquisa, surpreendentes, foram publicados na Revista
Ciência e Cultura. Foi constatado que crenças (ou preconceitos absurdos)
fazem parte da maneira de pensar usual de um grande número de estudantes
que haviam terminado o segundo grau.

Foi verificado que os vestibulandos ao curso médico, aprovados no vestibular,


tiveram, no total, menos crenças absurdas que os não aprovados para o
mesmo curso. Entretanto, os alunos da quinta série do curso de Medicina da
UFMG, também avaliados com as mesmas perguntas, exibiram novas crenças,
comparadas com os vestibulandos, e perderam outras. A hipótese é a de
que durante o curso os alunos perderam algumas crenças, mas, também,
adquiriram algumas poucas.

Que explicação existe para isso? Ignorância? Burrice? Incapacidade? De onde


vem e como se desenvolve essa falta de conhecimento ou esse aprendizado
de crendices sem comprovação? Seria devido ao país ter um sistema de
ensino péssimo, fruto de centenas de anos de atraso? Seria o domínio de
uma elite política e empresarial incompetente ou que deseja que assim
continue para que eles tenham uma mão-de-obra barata e controlável? O
leitor certamente terá outras perguntas e dezenas de hipóteses/afirmações
como respostas.

Tentando conceituar o problema de um outro

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modo
Tentarei uma outra explicação fictícia através de histórias possíveis.
Imaginemos quatro pessoas e quatro destinos, que chamaremos de Samuel,
Rose, Horácio e Dina.

Samuel, filho de judeus, começou a ler desde o início da adolescência, não


só as matérias escolares, mas, também, a literatura atual, os clássicos, o
Alcorão, poetas diversos, um pouco de Latim, teologia e filosofia, e, às vezes,
até a Bíblia. Portanto, a vida de Samuel tem sido voltada para os grandes
pensadores e escritores, para a leitura de grandes obras. Mas Samuel só tem
uma vida, sendo assim, não tem tempo para ler a revista “Placar”, “Amiga”,
“Querida”, “Sabrina”, “Veja”, “Isto é” ,“Época” e outras.

Ele caminha, obsessivamente, todos os fins de tardes. Após estas, toma


seu banho, janta e lê um pouco antes de dormir. Com uma rotina dessas
Samuel nunca pode desfrutar das novelas da Rede Globo e do SBT e sempre
perde o programa Big Brothers, Gugu, Faustão e outros semelhantes. Com
esse despreparo cultural diante dos companheiros, ele fica sem saber o que
conversar. Durante os bate-papos com os amigos, ele, envergonhado, mais
ouve que fala. Samuel nada ou quase nada sabe acerca do que é discutido
pelos jovens instruídos e cultos de sua idade.

Não tendo noção da moda, Samuel é, constantemente, ridicularizado


pelos companheiros por nunca vestir as roupas e calçados de “marca”. Ele,
ingenuamente, quando compra uma camisa, não sabe que a “melhor” é a
de “marca”, a da moda. Ao escolhê-la, ele, inocentemente, compra a que
mais lhe agrada, exatamente a que não devia comprar. No dia seguinte, ele,
orgulhoso, veste a camisa e a exibe para a turma. A risada é geral diante do
seu mau-gosto, de sua incompetência para saber o que deve ser usado.

Mas Samuel apresenta algumas condutas valorizadas pelo grupo. Ele é um


bom rapaz, disciplinado, sério, estudioso, honesto e, por isso mesmo, seus
companheiros o toleram e permitem sua participação na turma. Entretanto, o
grupo impõe certas condições. Ele não pode abrir a boca diante de estranhos
e não deve comparecer a lugares onde se exige maior conhecimento de
etiqueta e de civilidade. Seus colegas, condoídos de sua ingenuidade e
incapacidade para adaptar-se ao mundo encantado dos jovens, permitem-lhe,
envergonhados, é claro, participar apenas de algumas atividades grupais.

Os amigos têm razão, pois Samuel é incapaz de fazer o que todos fazem

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sem esforço, como saber as letras e músicas das canções atuais, os lugares
da moda, as notícias acerca dos artistas, da política e do esporte. Ele bem
que tentou, mas nunca aprendeu a dançar. Suas pernas compridas e duras
não seguem nenhum ritmo, nem mesmo a valsa. Ele só memoriza e usa o
conhecimento para conversar assuntos complicados e, quem sabe, inúteis
para as conversas diárias com seus amigos.

Mas Samuel gosta de Rose. Entusiasmado, apaixonado, tentou namorá-la.


Infelizmente não deu certo. Rose é seu oposto. Ela conhece muito bem o que
os jovens apreciam. Começou a trabalhar como datilógrafa num escritório
de materiais de construção. Perdeu esse emprego, por não aceitar a cantada
do patrão. Poucos meses depois, fez um curso, por correspondência, de
cabeleireira. Sendo inteligente e sagaz (esperta), aprendeu com facilidade
esta arte e arrumou um emprego num salão.

O papo não falta onde ela trabalha. Suas frequentadoras são, em sua maioria,
mulheres cultas e jovens dinâmicas de trinta a quarenta anos. Nas conversas,
enquanto trata os belos cabelos de suas clientes, Rose aprende muito com as
inteligentes e experimentadas damas acerca do mundo complicado em que
vive. Assim, cada dia mais, Rose fica sabendo tudo acerca da vida íntima da
maioria dos artistas de novelas, de seus principais papéis, quem é gay, qual
é o novo amor de X ou de Y, quem está morando com quem e há quanto
tempo. Sabe dos cachês, das fofocas dos artistas, de suas brigas e traições.
Rose adora Michael Jackson e pronuncia, orgulhosamente, seu nome, num
inglês bonito. Fala “de boca cheia” que “son” significa filho e, portanto, ele “é
filho de Jack”. Comenta, entusiasmada, a agitada vida de Madonna e de Xuxa.

Em tempos de recessão, o salão muitas vezes fica vazio. Esta folga tem sido
providencial para Rose aumentar sua cultura. Com a falta de clientes ela pode
devorar as revistas existentes. Cada notícia é lida com rapidez e emoção.
Dependendo do que lê ela respira feliz ou chora copiosamente, às vezes,
de modo incontrolável. Durante a morte e enterro de Ayrton Senna e dos
“Mamonas Assassinas” Rose chorou durante dias.

Lendo a maioria das revistas e tendo uma memória prodigiosa para fatos
simples, Rose armazenou uma multidão de acontecimentos acerca dos
seus ídolos. Ela é desinibida, popular e amiga de todos, e tem talvez mais
informações que seu amigo Samuel. Enquanto ela é capaz de conversar
acerca de tudo que a revista publica após uma só leitura, Samuel, mais
burrinho, às vezes, tem, como ele mesmo confessa, que ler e reler o mesmo
livro, várias vezes, para guardar algumas de suas idéias. Samuel, diferente

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de Rose, depois de diversas leituras, fica em dúvida se entendeu ou não
o que o autor queria dizer. Ele afirma envergonhado que, cada vez que lê
e relê, aprende mais nos livros de outras eras. Rose ri triunfante, pois ela
compreende e retém o que lê após uma só vez. Samuel conta que, às vezes,
precisa ler outros textos para entender o que está lendo no momento, outras
vezes, precisa consultar algumas pessoas para explicar-lhe certos assuntos
não entendidos. Rose, ao contrário, despreocupada quanto a sua sabedoria,
aprende tudo o que as revistas trazem, sem ajuda de ninguém. Ela sabe qual
o xampu que Sabrina Sato usa atualmente após ganhar fama e posar para a
revista “Playboy”.

Rose, muitas vezes, em lugar de aprender, ensina às amigas coisas


interessantes. Explica para as companheiras qual o sabonete que Juliana
Paes está usando para lavar a nova cachorrinha ganha de presente do atual
namorado. Rose comprou, para experimentar, o mesmo sabonete; gostou
tanto que passou a usá-lo nos seus próprios banhos. Aos banhar-se com o
sabonete, Rose imagina-se transformada na cadelinha de Juliana Paes na
pequena bacia de porcelana branca. Ela espicha seu corpo na água morna
pondo a cabeça de fora, e aos poucos vai sendo ensaboada, delicadamente,
pelas mãos mornas e sedosas de sua deusa. Um suave perfume canino, nesse
instante, trescala pelo banheiro. Lamentavelmente, batidas fortes soam na
porta do pequeno banheiro do condomínio; é um morador que espera sua
vez. Assustada, Rose volta à dura realidade de ser gente.

Rose sabe também muito acerca dos direitos trabalhistas, datas-base de


diversos grupos de trabalhadores; discute e ensina, com prazer, para as
amigas da Vila da Felicidade, onde mora, os macetes para que estas possam
“ferrar” suas patroas e não ser enganadas. Por outro lado, no salão, ainda que
com certo sentimento de culpa, Rose ensina, quando se entusiasma com suas
“aulas” para as “madames”, como não serem apanhadas de surpresa pelas
suas faxineiras e cozinheiras. Ela transmite, nessas ocasiões, alguns truques
sujos para escapar das exigências trabalhistas futuras de seus serviçais. Em
resumo, podemos dizer que Rose armazenou uma imensa quantidade de
conhecimentos enciclopédicos. Lamentavelmente, Rose não conhece tudo,
pois é uma negação em esportes e política. Seu namorado Horácio é um
craque nisso.

Horácio sabe tudo sobre esportes, principalmente futebol. Tem conhecimento


das escalações dos principais times do Brasil, mesmo de muitos anos antes
dele ter nascido. Assim repete constantemente o time do Atlético de 1938:
Kafunga, Florindo e Quim, Zezé, Lola e Bala…Também decorou os nomes dos

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jogadores que vestiram a camisa brasileira nas seleções de todas as copas. Ele
é culto também em outras áreas além das esportivas; conhece tudo acerca de
automóveis, preços, potências, corridas de fórmulas 1, 2 e 3.

Conhece também a política nacional e internacional; faz parte do diretório


do PT. Rose se delicia ao vê-lo falar com eloquência acerca de Capitalismo,
Socialismo, Marx, Engels, Golfo Pérsico, Sarayego, Colinas de Golan, direita,
esquerda, reacionário, Cuba, Nicarágua, Jerusalém, corrupto etc. Horácio,
quando se apronta para sair nas passeatas grevistas, tem sua cara pintada
por Rose no salão onde trabalha. Nessas ocasiões fica lindo, mais charmoso
ainda.

A outra amiga do grupo é Dina. Como os amigos gostam de viajar no fusca de


Horácio e como sempre o dinheiro é curto, ela é a consultora para assuntos
ligados às estradas, restaurantes e hotéis. Dina é quem faz os planos das
viagens, pois conhece quais hotéis têm quartos espaçosos, bons banheiros
com água quente, atendentes amáveis e preços possíveis de serem pagos.
Debocha dos conhecidos, que ela denomina de “turistas idiotas”, que gastam
mais e se hospedam em lugares piores por falta de informações que ela sabe
e guarda em segredo.

Portanto, e para resumir, Rose sabe mais que todos acerca de penteados,
xampus, artistas etc; Horácio conhece carros, política e esportes e Dina é
perita em hotéis e restaurantes. E Samuel? Este tem informações gerais
acerca de história, filosofia e ciências. Fica a pergunta para o esclarecido
leitor: quem é mais ignorante e quem é mais sábio?

Dependerá dos critérios adotados. Os quatro amigos talvez possuem um


mesmo número de palavras, talvez de conceitos. Imagino que o homem
mais potencialmente capacitado (pode não ser capacitado, apenas
potencialmente) para resolver um maior número de situações sociais e
outras seja o que acumula apenas certos tipos de conhecimentos e não
todos ou qualquer um. É provável que o conhecimento que permita extrair
dele hipóteses diversas seja mais valioso para a pessoa que o conhecimento
concreto e simples, útil apenas para determinada situação ou específica. Mas
essa idéia não pode ser aplicada sempre e para todos.

O saber que contém informações amplas e gerais, acerca do homem e dos


acontecimentos, pode ser mais prático para o indivíduo que as informações
acerca das roupas, amantes, sapatos dos artistas ou atletas em evidência e
para viver no grupo no qual participa.

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Acredito que quem possui princípios mais seguros, que servem de pilares
para formação de outros raciocínios, fundamentos estes que resistiram ao
tempo e às críticas e que, além disso, estão logicamente estruturados, deve
estar mais apto para viver e agir nesse mundo do que o indivíduo que crê nos
“ “princípios” de algumas “autoridades”, de peritos na arte de representar, de
dirigir automóveis, cabecear bolas ou de fazer discursos bonitos. Estes ídolos,
geralmente, construíram suas premissas, de onde saem suas deduções,
intuitivamente, sem esforço e sem reflexão.

Os que supõem que suas conclusões e raciocínios podem estar errados


estarão mais capacitados a aprender, comparados com os que têm fé
exagerada em suas crenças básicas e nos processos usados. A leitura de obras
clássicas, escritas pelos grandes pensadores de nossa história, fornece-nos,
talvez, mais sabedoria do que as “notícias”, adquiridas sem esforço e num
momento, acerca do relato e comentários do Faustão de um fato. Ler e reler
obras difíceis geralmente indica que o assunto é mais profundo, complexo,
isto é, contém mais idéias interligadas ao mesmo tempo. A leitura fácil de
Rose apenas descreve o fato isolado, com pouca ou nenhuma relação a
outros. Não há nas descrições assistidas, lidas e ouvidas por Rose abstrações
de vários graus possíveis, para que o leitor possa enxergar diversos ângulos
do problema. Essa leitura simples não permite deduzir o modo de usar roupas
de um grupo de pessoas comparando-o com outros, relata apenas a maneira
de um indivíduo agir. Rose não vai além do fato simples.

Por isso tudo parece que Samuel tem conhecimentos mais adaptados que
seus amigos, (um cérebro mais funcional para enfrentar os problemas mais
variados), capacitando-o a entender melhor o mundo onde vive, mas, por
outro lado, encontra-se desadaptado no seu grupo, talvez na sua cultura. As
informações de Samuel são duradouras, adquiridas vagarosamente e com
grande esforço. Cada estudo de Samuel poderá ser integrado ou interligado a
outros, acumulando, progressivamente, uma sabedoria. Seus conhecimentos
formam um todo que, a cada dia, torna-se mais compreensível e, ao mesmo
tempo, mais complexo. Seu conhecimento geral permite-lhe uma ordenação
lógica e uma estruturação do seu conhecido.

Samuel possui um saber que assimila ou entende o conhecimento dos três


amigos, possivelmente melhor do que eles próprios, quanto a suas origens
e significados. Seu conhecimento é inacessível à estrutura simples, ingênua,
específica e de fatos concretos dos amigos. Neste último há pouquíssima
abstração. O conhecimento deles dificilmente irá compreender o de Samuel;
este aprendeu a aprender; este aprendizado é mais amplo e de nível mais

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elevado. Mas tudo isso não facilitou – talvez tenha prejudicado – sua
adaptação com seu grupo de referência.

Rose, Horácio e Dina conseguiram, quase sem esforço, vários megabytes de


informações, simples e pouco úteis como é o conhecimento geral e superficial
acerca da moda, da novela e dos hábitos dos artistas atuais etc. Estes fatos
não os capacitam a compreender e discutir nem mesmo as próximas novelas,
os novos mexericos etc. Para que isso pudesse acontecer estas informações
deveriam ser, não relatos de um fato particular, mas abstrações gerais, onde
seriam incluídos os particulares, ou seja, todos os vestidos já usados, ou a
moda em geral, usada pelo homem desde seu aparecimento na Terra. Rose
conhece apenas a saia que Elba Ramalho vestiu na festa do aniversário de
Chitãozinho. Esta informação só servirá para discutir esse fato, depois, a
informação será jogada no lixo.

Pobres Roses, Horácios e Dinas – talvez Samueis – desse vasto mundo.


Seus amplos conhecimentos estão mal organizados quanto à forma; suas
premissas são crenças mal fundamentadas. Samuel pode confiar mais na sua
sabedoria estável; através dessa ele poderá construir novos conhecimentos
interligados e até criticá-los, se for o caso, mas também está desadaptado.

Rose, Horácio e Dina ficaram “bem informados” acerca de eventos


simples e isolados uns dos outros. Possuem, na verdade, um “cemitério”
de dados, sem uma lógica para uni-los. Suas ligações são apenas quanto
às categorias. Reuniram num grupo geral, sem distinções, os artistas de
novela; os corredores de fórmula 1; os restaurantes que vendem pizza etc.
Na sua classificação não existem princípios básicos, nem críticas quanto ao
modo como foram reunidos. Não existem conceitos universais – grandes
categorias – apenas particularidades, sem sentido e, por tudo isso, existe
uma continuada alteração que invalida a sua aplicação na semana ou no mês
seguinte. Para isso basta que os fatos novos, modas, carros, futebol, cinema,
mudem.

Aprender é se tornar perito numa área, mas a moda muda a toda hora, como
sabem os estilistas. A formação de Samuel não fica obsoleta como a de Rose,
a nova canção, o novo livro de P. que Rose adora, ou o boato acerca de L. que
ela acha muito útil.

Samuel tem uma idéia plena do passado; seus companheiros, ao contrário,


apenas do atual. Rose e amigos suspeitam que houve um passado, uma vida
anterior, talvez no início do século I, já que os filmes por eles vistos fornecem

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alguns indícios desse mundo antigo. Eles assistiram a filmes em que foram
mostrados dinossauros, a vida de Cristo, Cleópatra, Adão e Eva e Sansão e
Dalila. Este grupo detesta o passado, os antigos filmes, os livros escritos anos
ou séculos atrás. Estes são, necessariamente, ruins por serem antigos. Seu
rádio e televisor velhos são jogados no lixo. O jornal do dia deve ser lido, se
possível, no momento, bem como o maldito livro moderno e mais vendido.

Rose está pronta para explodir de tanta informação. Mas estas estão
desconectadas, desarrumadas. Samuel, por outro lado, se imunizou contra
diversas informações que possivelmente nada dizem acerca do que ele
deseja. Ele evita ler os anúncios diários, as promoções de vendas do Natal,
do dia dos pais e do dia dos namorados. Mas Samuel se sente só no grupo,
incompreendido, quase não consegue conversar com ninguém. Leva uma
vida, talvez, até infeliz.

Para que mais serve o conhecimento de Rose, Horácio e de Dina além de lhes
permitir conversar um com o outro, o que talvez todos já sabem. Para que
serve também saber de cor o discurso de Cícero nas Catilinárias: “Quousque
tandem Catilinia abutere patientia nostrae…” ou a teoria dos conjuntos na
mente do menino “gênio”, de 7 anos?

Já ia me esquecendo de dizer: os conhecimentos dos amigos de Samuel


servem para as entrevistas na TV e no rádio. Estas são vistas, com grande
emoção, por uma multidão de pessoas, clones de Rose, Horácio e Dina,
existentes em todas as partes do mundo, e admirados por possuírem uma
“incrível” inteligência.

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Os homens ainda enxergam
fantasmas
Se os genes de uma espécie foram construídos de modo a possibilitar formar
modelos dos mundos ancestrais, os cérebros de Rose e Samuel, ou seja, de
indivíduos particulares, abrigam modelos dos diferentes mundos vividos
por cada desses nossos irmãos da espécie. Ambos os cérebros são usados
para ajudar a sobrevivência do indivíduo quanto ao futuro. O genoma de
cada espécie armazena a memória coletiva daquela espécie particular,
remontando ao passado mal definido. A memória contida no cérebro de cada
um é particular, contém lembranças de experiências do indivíduo desde o
momento de seu nascimento.

A decomposição dos estímulos que bombardeiam a pessoa continuamente,


seja do meio ambiente externo, seja do meio interno (do emitidos pelo
próprio organismo) é uma função mais simples do que a do cérebro que
irá reconstruir ou recompor as sensações isoladas, pois delas resultarão os
modelos do mundo com os quais a pessoa compreenderá os eventos e ações.
A mesma idéia serve para o caso de reconhecimento de uma fisionomia,
de uma palavra ou uma letra. Durante esse processo algumas células são
ativadas pela focalização de nossa atenção inconsciente ou conscientemente,
enquanto outras, ao contrário, são inibidas.

Para reagirmos adequadamente a uma imagem qualquer – uma pessoa, um


carro, uma cena da novela – torna-se necessário que nossa atenção focalize
somente o importante para nós, o aspecto de nosso interesse, deixando de
lado o restante, o que não interessa. Ao assistirmos um jogo de futebol, a
maioria focaliza a atenção nas jogadas de um e outro time; entretanto, alguns
estão prestando atenção na cor das camisas, na maneira do árbitro correr
em campo ou até nas pernas e bumbuns dos jogadores. Há gosto para tudo.
Qualquer que seja a observação e atenção, ela é uma atividade automática
e, quase sempre, sem esforço. Constantemente as imagens focalizadas por
nossa atenção mudam de tamanho, de forma, de luminosidade etc. conforme
as olhamos de perto, de longe, de uma posição ou outra, se movimenta etc.
Se fôssemos somar as imagens possíveis percebidas durante a corrida do
maratonista, ou também no meu encontro com Maria quando ela caminhou
em minha direção, seu número seria imenso.

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A informação é o valor surpresa, o oposto do esperado. Já a redundância é
a medida da não-surpresa, do conhecido como os rostos antigos. Assim, as
mensagens redundantes não são informativas; o cérebro receptor que as
recebe já as conhece e as espera, pois as têm armazenadas, prontas para
serem usadas.

Todos vocês sabem que uma enorme parte da língua falada e escrita é
redundante, daí a dificuldade de se fazer revisões de textos. Quando olhamos
para uma palavra, rapidamente passamos a outra, pois ela é velha conhecida
do nosso cérebro. Por isso, nosso cérebro não toma conhecimento da palavra
escrita de forma errada, por ela estar “escrita” certa nele.

Tudo o que conhecemos sobre o mundo fora de nossa cabeça nos atinge
através de estímulos causados por ondas sonoras, luzes, pressões etc. que
são captadas por meio de células nervosas. É desse modo que captamos as
sensações de um sorriso, de um lamento, uma melodia, ou, também, a falta
de ar, uma dor de barriga, uma animação, a fome e a sede.

Esse conhecimento inicial, o sensorial, é um conhecimento sem-palavras;


entretanto, nós homens, diferente dos outros bichos, em seguida, quase
sempre, mas nem sempre, codificamos o estímulo recebido por meio de
conceitos, isto é, traduzimos a informação sensorial inicial recebida através
de códigos; símbolos mentais ou verbais: “Estou sentindo uma pontada no
peito. Será infarto? Acho que dessa vez morrerei!”, “Que som bonito esse do
violão!”, ou também, o tema do artigo, “Um fantasma apareceu pra mim”.

As células nervosas, portanto, ao filtrar a mesmice dos estímulos, nos


informam acerca das mudanças – das não-mesmices dos estímulos – da luz,
temperatura, pressão etc. Fica por conta do cérebro, uma vez informado das
mudanças, reconstruir o restante da imagem. O sistema funciona porque
o estado do evento, fato ou cena, num instante, não é, em geral, muito
diferente do momento seguinte. Apenas quando a cena muda de forma
aleatória e frequente – o que é raríssimo – é que seria preciso a transmissão
pelos órgãos dos sentidos a transformação de seu estado.

Vamos retornar aos fantasmas. A partir das informações fornecidas pelos


órgãos dos sentidos ao cérebro, principalmente sobre as linhas limites,
ele, cérebro, reconstruirá os intervalos ou espaços que faltam entre as
linhas delimitadoras. O cérebro tende a construir um mundo virtual que
é mais completo do que a representação transmitida pelos sentidos. As
pessoas vêem faces o dia inteiro, sem parar, a partir do nascimento. Somos

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atraídos por faces bonitas ou feias, aparentando bondade ou maldade e,
incrivelmente, existindo ou não-existindo. Assim “descobrimos” faces nos
tetos, nas nuvens, nas montanhas, nas manchas de tinta, nos vidros das
janelas, nas toalhas sujas, no meio das folhagens.

Acostumamos-nos a viver no mundo virtual, um mundo falso, construído


pelo nosso cérebro a partir pequenos estímulos, sendo que o restante é
reconstruído por nós com nossas “sobras”. Estamos tão acostumados a
viver no mundo irreal que não percebemos que se trata de um mundo
simulado. Muitos confundem, totalmente, o mundo irreal ou virtual, com
o possivelmente real; assim é que o cérebro, perito em simular modelos,
lamentavelmente, corre o risco de enganar a si próprio. Quantos de nós, eu e
você, não vimos quando criança, ou mesmo mais velhos, fantasmas ou outras
faces monstruosas. Alguns, mais sortudos, vêem anjos, santas, mulheres ou
homens lindos e maravilhosos, tudo fabricado por nossa cabeça ávida do que
vê, ou seja, pelos nossos “softwares” de simulação. Esses podem construir um
fantasma, um dragão ou uma virgem santa, tudo em milésimos de segundos,
e transformar, com a mesma rapidez, a virgem numa víbora, capaz de,
virtualmente, nos picar.

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Duas classes de homens:
Cultos e Incultos
A lei proíbe a segregação racial, entretanto a segregação cultural ocorre
em todo o mundo e ninguém reclama contra ela. Poucos a percebem, ou,
talvez, não desejam vê-la. Assistimos, continuamente, à formação de grupos
segregados quanto ao nível e profundidade dos conhecimentos adquiridos,
como entre os líderes e os liderados. Com este desnível, cada grupo
apresenta sensibilidade diferente quanto aos estímulos e acontecimentos
do mundo. A divisão intelectual divide os indivíduos de forma semelhante à
existente com respeito às posses materiais.

Para indicar melhor a separação entre as castas, certas cerimônias são usadas
pelos diferentes grupos; alguns realizam reuniões ou festividades semanais ou
mensais, fazendo uso de roupas especiais, onde apenas entram os “irmãos”;
outros grupos têm sua própria imprensa, jornais e revistas especializadas,
sua linguagem e jargões como a Associação Médica, a dos Engenheiros, do
Banco do Brasil, dos Gays, das Mulheres Nuas, da Agricultura etc. Além disso,
excursões e passeios são organizados e adaptados para as pessoas de um e
outro grupo; até as praias do país têm sido divididas conforme as classes:
média, rica, dos artistas e dos farofeiros.

Para aumentar ainda mais a separação, cada grupo processa, assimila e


expressa as informações do meio através de conhecimentos e raciocínios
diferentes. De outro modo, as premissas ou suposições básicas com que
um grupo raciocina, bem como as formas de atribuir causalidade aos
acontecimentos, diferem frontalmente entre os cultos e incultos. Um
pequeno grupo raciocina seguindo as normas da lógica formal; o grande
grupo, para compreender e explicar os acontecimentos, usa e abusa da
intuição que se apóia no antropomorfismo, animismo e no pensamento
mágico.

O resultado prático disso é que os incultos falham mais nas previsões dos
acontecimentos. A “lógica” dos incultos, afastada das regras tradicionais,
extrai conclusões esdrúxulas e liga informações que jamais estiveram
associadas, como disse minha faxineira: “Maria é esperta porque nasceu em
São Paulo”.

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No exercício da profissão médica nota-se, facilmente, essa diferença ao
examinar um paciente de um grupo e outro. A maneira de descrever o
aparecimento da doença, sua evolução, bem como os possíveis fatores
a ela associados, ou seja, suas possíveis “causas”, são descritas de forma
totalmente diversa pelos dois grupos. O “diálogo”, quando existe, entre essas
diferentes “castas”, é quase impossível, pois um imenso espaço separa um do
outro.

Não há projeto para diminuir essa divisão, e tudo indica que, com o passar do
tempo, o espaço entre os dois modos de pensar tende a aumentar. O prejuízo
é imenso para todos. Os fatores econômico e término de curso “superior”
não são os únicos responsáveis pela diferença; existem pessoas ricas, outras
formadas no terceiro grau, que estão culturalmente segregadas, fazendo
parte do imenso grupo dos analfabetos ou semi-analfabetos.

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Homem: Anjo ou Demônio?
O homem é um animal “fora de série”, estranho e desadaptado. Somos
isolados, mas vivemos altamente ligados uns aos outros; temos uma parte
da mente (córtex cerebral) que pensa, às vezes com alguma lógica, mas,
ao mesmo tempo, uma outra parte da cabeça (tronco cerebral), presa ao
organismo – glândulas, órgãos, músculos – que reage instintiva, intuitiva e
automaticamente aos estímulos. Portanto, somos irracionais em diversas
ocasiões.

Às vezes somos bondosos, oferecemos muito de nós mesmos em benefício de


nosso irmão, e, em outros momentos, assaltamos, estupramos ou matamos.
Oscilamos, passando de um modo de viver cheio de alegria, esperança e fé
para o mais completo desespero e ódio. Buscamos ansiosamente a ajuda
médica por pequenos problemas de saúde e, muitas vezes, menosprezamos a
própria vida e nos suicidamos.

Trabalhamos duramente para conseguirmos recursos visando obter casa,


comida e segurança. Entretanto, ao atingirmos o desejado, passamos a comer
exageradamente, acumulamos dinheiro desnecessário e arriscamos nossa
vida em perigosas atividades de lazer ou trabalhamos mais que quando
mal tínhamos dinheiro para a comida. Fazemos guerras para conseguirmos
a paz; lutamos contra os poderosos e quando estamos no poder, quase
sempre, atuamos para eliminar os de menor poder. Criticamos violentamente
os torturadores e, na primeira oportunidade, passamos a agir como
eles. Buscamos de todas as formas possíveis uma companhia e quando a
conquistamos a achamos aborrecida e vamos atrás de outra. Censuramos a
censura, e quando ela é extirpada cada grupo ideológico reclama seu retorno.
Como viver bem numa “zorra” dessas?

Esses pensamentos me ocorreram ao lembrar-me de Sócrates. Conheço-o


há longos anos; acho mesmo que desde criança. O nosso convívio sempre
foi muito íntimo e isso me permitiu obter muitas informações a seu respeito;
até mesmo elaborar algumas teorias acerca de sua vida. Apesar dessa
proximidade, na maior parte das vezes, eu não o entendo e, quando suponho
compreendê-lo, vejo que falhei.

Sócrates é um pesquisador sério da natureza. Lê muito, presta atenção a


tudo, e armazenou, ao longo dos anos, vastos conhecimentos científicos
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e históricos do mundo e do homem. Entretanto, seu “radar” é muito
abrangente e pouco seletivo; desse modo ele captou também crenças
infundadas, superstições diversas, idéias religiosas emitidas por qualquer
seita moderna da Índia ou do Amazonas. Além disso, aceita inúmeras
“verdades” do senso comum. A cabeça de Sócrates é uma verdadeira salada,
contendo informações desordenadas, contraditórias, pouco plausíveis e
mal organizadas. Todas elas seguidas e defendidas com o mesmo vigor e
entusiasmo. O resultado tem sido drástico.

Diante de tantas informações niveladas quanto ao valor, algumas sérias,


outras, nem tanto, ele foi arrastado para uma profissão que lhe é imprópria
e que não era a que ele sonhava; escolheu amigos inadequados ou
incompetentes; casou-se com uma mulher que não lhe assentava e criou seus
filhos na falsa esperança que boas intenções são suficientes para conduzir a
uma boa educação. Sócrates é tão bom que não consegue fazer o bem; ele
imagina que poderá estar perturbando a pessoa.

Mas Sócrates é um homem bravo, valente e teimoso. Ele continua confiante


no “mapa” desajustado e confuso que foi impresso em sua mente e vai em
frente. É claro que o “território” onde ele está pisando é bastante diferente
do “mapa” existente em sua representação mental. Portanto, quando ele está
deitado em sua cama, pensando que tudo vai bem, ao levantar-se e ao agir,
ele é obrigado a perceber que o “mapa” que representa seu mundo é um, o
mundo real, outro. Assim, meu grande amigo frequentemente lamenta-se
para si ou para os outros: “Sou um desastrado, um sem sorte, tudo que tento
dá errado”.

O modelo que construiu de si mesmo e do mundo, nesse caso, foi acrescido


de mais uma crendice: “Sou um sem sorte”. Assim, Sócrates gasta parte de
seu tempo lastimando-se; ele pouco utiliza os recursos e potencialidades que
tem. Por tudo isso ele fracassa em diversas atividades, perde a oportunidade
de obter várias satisfações e exibe ressentimento e infelicidade.

Sócrates não se emenda, pois, por mais que ele transgrida as leis da natureza
e da sociedade, não modifica seu modo de pensar e agir, isto é, não aprende
com a experiência vivida: mantém as mesmas explicações de seus pais, avós,
bisavós…

Ele é, como disse, é um sujeito contraditório: em certas ocasiões Sócrates


só cuida de si, torna-se um grande egoísta. Nesses momentos, ao ser
importunado, ele agride, xinga ou, no mínimo, não ajuda ninguém. Outras

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vezes, porém, gasta seu tempo, que é curto, ajudando, ouvindo lamentações
aborrecidas dos outros, até mesmo de pessoas que ele mal conhece ou que
ele sabe que não gostam dele. Durante essa fase, ele empresta dinheiro,
procura emprego e aconselha os pedintes com paciência.

A maneira de pensar de Sócrates também é estranha. Ele é economista,


seu raciocínio é lógico, tanto no serviço como nos aspectos de sua vida
relacionados à sua área de trabalho. Eu diria até que “lá” ele pensa
matematicamente. Não há imprecisão ou idéias preconceituosas. De cada
premissa elaborada, sempre bem postada, ele deduz conclusões com
proposições que não contêm nenhuma dúvida; exibe clareza de pensamento
produzido por uma mente lúcida e expresso sem palavras ambíguas.

Pois bem. O racional Sócrates, ao abordar outros problemas humanos, fora


do seu domínio estrito, se lambuza todo. Quando aborda os temas do dia-a-
dia, na política ele era “lulista” fanático, capaz de brigar durante os comícios;
em religião, ele abraçou as idéias dos radicais; no amor… bem, prefiro não
revelar para não espantar o leitor, e no futebol, no qual sua paixão é o
Atlético, ele se torna, de repente, um perfeito animal irracional. Toda sua bela
lógica mental é transformada em palpites, preconceitos, desejos, fé cega,
superstições, incoerências uma após outras, deduções apressadas, hipóteses
duvidosas e não comprovadas e assim por diante, de modo a envergonhar
qualquer tratado elementar de lógica. Nesses momentos, o Sócrates torna-se
outro ser; um homem mais animal que humano: impulsivo e emocional; não
mais sabe argumentar e nem ouvir possíveis razões de seu opositor. Levanta a
voz, enfurece, desafia, às vezes, parte até para as “vias de fato”.

Eu, que já conheço essas reações, o perdôo. Mas é comum, mesmo eu sendo
um grande amigo dele, brigar até comigo quando se transforma em animal
irracional. Depois, mais tarde, arrependido, ele retorna com a sua outra
mente e eu o aceito como sempre.

Sócrates não me surpreende só nesses aspectos. Olho-o com tristeza,


lamentando, para mim, como pode uma pessoa que tem uma bela
inteligência, experiência, crítica e cultura ser tão preso às regras, sem nunca
duvidar delas, agindo como um cordeiro às suas imposições. Levanta-se
sempre à mesma hora, vai para o serviço, pelo mesmo caminho, nunca
falta, chega no mesmo horário, deixa o carro no mesmo lugar. Repete no
trabalho, maquinal e automaticamente, as mesmas atividades, os mesmos
gestos, sorrisos, expressões e conversas, usando frases apropriadas para
cada pessoa. Nada é criado, nada é diferente; parece haver dentro dele um

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medo à espontaneidade, um pavor em ser diferente, um culto à mesmice.
Seu “computador mental” é dominado no serviço, no lazer, em tudo, uma
programação repetitiva e monótona.

Mas já disse que o Sócrates espanta-me; surpreendo-me com ele, em nossas


tertúlias ocasionais, principalmente após algumas cervejas bem geladas
e que descem devagar. Nesses momentos aparece um novo programa no
seu “computador mental”. Sócrates torna-se um indivíduo prático, criativo
e com propósitos individuais. Critica com sabedoria e elegância todos os
modelos humanos existentes que paralisam o homem. Sob o efeito do
álcool ele cresce, abandona o automatismo, começa a filosofar, critica as
“verdades” que ele, no trabalho, segue sem pensar, defende a necessidade
do crescimento do indivíduo como meta principal para qualquer ser humano
cuja missão fundamental seria atualizar-se. Um pouco bêbado ele põe
em dúvida diversos valores geralmente seguidos inconscientemente pela
multidão solitária e sem rumo. Nesse momento, ele traça planos, chegando
até a executar alguns deles nos dias seguintes.

O novo Sócrates que nasce do álcool defende a necessidade de nos


libertarmos dos preconceitos e das superstições, de seguirmos objetivos mais
humanos e mais produtivos. Entusiasmado, acredita que dentro de nós há
recursos, energia, força e coragem suficiente para transformar esse mundo
injusto e massacrante, num lugar melhor para se viver. Eu chego a pensar,
também em dúvida, se não seria interessante e agradável se Sócrates vivesse
sempre embriagado.

Por azar e sorte, esses arroubos são, porém, rapidamente amortecidos.


Fico confuso: jamais entendi Sócrates. Entretanto, após pensar um pouco,
descobri que ele se parece comigo e também com todos vocês, meus caros
leitores, isto é, com todos os seres humanos.

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Aprisionamento do Homem
Coitado do homem: aprisionado em si mesmo, sozinho, isolado do exterior
por uma pele fina e frágil, cercado por todos os lados pelos donos do poder
espalhados na natureza física, química, biológica e, principalmente, de
crenças ditadas pela cultura.

Passamos boa parte do tempo fazendo queixas do meio-ambiente ou


de pessoas ou grupos de pessoas. Nos nossos delírios de perseguição
visualizamos um complô arquitetado por homens tiranos, juntos aos
seres vivos em geral e, também, pelas almas penadas – tudo muito bem
coordenado – visando a controlar nossa liberdade. Não estou exagerando,
darei exemplos, todos eles escolhidos ao acaso; os não lembrados ficarão por
conta dos leitores.

Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que vem pousar no nosso
nariz; ora um cão que nos observa, mostrando seus belos e pontiagudos
dentes, prontos para atacar-nos. Mas não fica só nisso, pois, em seguida,
recebemos o convite de formatura que exige nossa presença na turma, o
telefone toca e nos obriga a correr; no interfone ouvimos a mesma frase do
vendedor de gás; chega a conta do colégio para pagar, aproxima-se o Natal
e temos que pensar nos presentes para dar; todos os meses lembramos das
festas, passeios, aniversários dos parentes e amigos. Além disso, o forno
que não mais esquenta meu sanduíche, e, também, a torneira que não pára
de pingar. Mas tem também a chuva, a enchente, o terremoto lá longe, o
trombadinha bem perto. Na rua, o carro disparado, pronto para matar-nos,
obriga-nos a correr desajeitados e envergonhados pela submissão e medo;
o trânsito que não flui, a rua esburacada e sem saída. O time perdendo, o
assaltante roubando nosso sossego, às vezes, nosso sonho de tranquilidade,
o frio nos obrigando a usar o agasalho feio e fedendo a mofo, o calor nos
fazendo suar e dormir mal, o horrível café frio, fraco, fedorento e com formiga
no fundo.

Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças capazes de suportar e orientar


nossa vida. Deus! Oh Deus! Onde está a sonhada liberdade, a escolha
individual, o livre-arbítrio? Milhares de outras forças, além dessas, nos
impelem a agir de um modo e de outro e não como gostaríamos.

Estamos aprisionados a tudo isso e muito mais; a câimbra, o espirro, a


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tosse, o pedinte e o flanelinha, a vizinha que fala alto e canta as canções de
cinquenta anos atrás, a gritaria dos meninos do colégio, o cão que ladra, a
fumaça das queimadas que nos dificulta enxergar os objetivos imaginados e
sonhados.

Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei mais, os jovens vão


perdendo a ilusão plantada cedo em suas cabeças moles. Disseram-nos e
nós acreditamos que éramos livres para agir como quiséssemos; uma idéia
inoculada pela igreja e escola, logo que nascemos.

Cansado de ser preso à família, ao partido político, à religião, ao time de


futebol, à profissão e a tudo mais, o jovem percebe que o aprendido, acerca
da liberdade, era tudo mentira, nascida de uma ideologia democrática
falsa, de uma religião mentirosa e hipócrita, de políticos buscando cuidar
exclusivamente de seus objetivos. Ele foi enganado por todos, durante anos e,
geralmente, não sabe disso.

Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada? Os jovens agem


conforme princípios falsos que os fazem felizes. Alguns, descobrindo o
engodo, ficaram, ao mesmo tempo, irados por terem sido enganados, mas
eram felizes quando viviam fantasiando bobagens.

Durante a juventude “Foi um sonho que findou”, como diz a letra do poeta.
Alguns percebem, bem mais tarde, que a liberdade é uma balela, um conceito
belo, como algumas pessoas, sem conteúdo. Imaginam, sem melhor idéia,
que a inexistente liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar
nossa infelicidade; foi fabricada, como várias outras ilusões que foram
gravadas em nossos cérebros indigentes, melosos, para nos amparar e nos
proteger nesse mundo confuso.

Os poderes que esmagam nosso impotente organismo vão desde a mosca


que pousa, sem dar à mínima, de tempos em tempos, no velho e cansado
nariz, até os decretos-leis de FHC, de Lula e seus mensalinhos, sanguessugas e
dossiês, que sabemos que irão continuar até nossa morte.

Mas, além disso, os jovens foram, há muito, dominados pelos dogmas


religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e democráticas; mais tarde,
aprisionaram-se nas teorias científicas em voga, pulando de uma a outra
sem parar. Corri como um burro atrás do milho inalcançável, em busca do
“alimento” para as dúvidas.

Desesperado, sem melhor orientação interna, esmagado por pressões e

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decepções, daqui e dali, o jovem se agarra, como náufrago desesperado,
à “sabedoria” dos provérbios: “macaco que mexe muito está querendo
chumbo”.

As terríveis forças malignas do poder trabalham para o mesmo fim e, em


bloco, tentam derrotar o fraco e isolado indivíduo; todas elas têm um aspecto
em comum: mudar nosso comportamento, dirigir nossa conduta para um
rumo alheio à nossa vontade. O saudoso livre-arbítrio, sem dizer adeus,
desapareceu de nossa vida durante a juventude, pois, nesse período, surgem
as poderosas forças do não-eu, dos que ignoram nossa difícil identidade a
ser construída. Em conjunto essas poderosas forças derrotam o “euzinho”
de cada um; elas lutam contra nossa consciência, impedindo-nos de alcançar
nossas sonhadas metas, se é que elas são nossas, talvez foram impressas
cedo em nossas cabeças. No fim da juventude já não temos mais nenhuma
certeza.

Se aceitarmos a definição de poder como a “capacidade para produzir


determinada ocorrência”, ou “a influência exercida por uma pessoa ou grupo
sobre a conduta alheia, através de algum meio”, para ser exercido o poder
necessita-se de uma força atuante – a que desencadeia a ação (a mosca e o
governo). Mas precisa também de um poder geralmente passivo ou bastante
submisso – adequado para sofrer a ação (o jovem ingênuo). Uma mosca não
modificará a conduta de um boneco ao pousar em seu nariz; o imposto de
renda, com todos os urros do leão, não conseguirá fazer com que o morto
preencha sua declaração de renda.

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Homem: Animal engraçado e
tolo
Apesar de toda sua desgraça gritante, o homem adulto, fraco, física e
intelectualmente, como qualquer ser humano, através dos tempos, tem se
mostrado engraçado, metido a sebo e, geralmente, tolo. Após adquirir a fala,
orgulhosa e arrogantemente, seu hemisfério esquerdo, criador de lorotas,
inventou histórias acerca de sua superioridade sobre as baratas, bactérias,
mosquitos, gatos, peixes e outros animais. Uma superioridade jamais
comprovada. Seria superior em quê? A nossa comunicação por sons, mais
desenvolvida ou complexa que dos outros animais, talvez tenha, em parte,
nos atrapalhado, pois inundamos o mundo de sons de todos os tipos e ai
surgiu o charlatão (o que charla (fala) muito).

Para nos convencer dessa supremacia fajuta, o hemisfério esquerdo escondeu


os fatos que comprovariam não nossa superioridade, mas, talvez, nossa
inferioridade e burrice. Através de nossa verborréia tentamos, de modo muito
infantil, mostrar, por exemplo, a nossa impotência diante dos vírus da gripe e
da AIDS. Até esse ser desprezível, pequenino e fraquinho, um minúsculo ser
vivo, se torna, diante do fraco homem, um ser poderoso e perigoso.

Somos incapazes de lutar contra as secas, enchentes, ciclones, terremotos


e vulcões. Nunca resolvemos a miséria humana, nem sei se há alguém
seriamente pensando nisso, pois precisamos de mão-de-obra barata para
termos empregados para nos servir. Nada melhor que a miséria para o
nascimento dos trabalhadores que aceitam qualquer tipo de trabalho.

O país mais poderoso do mundo jamais produziu um filósofo como Kant


ou Hume, um compositor como Beethoven ou Mozart, um contista como
Tchékhov ou Balzac, um romancista tipo Tolstói ou Flaubert, um poeta da
grandeza de Rilke ou John Donne, um dramaturgo do quilate de Shakespeare.
Em resumo: este país nunca gerou ninguém com notável sabedoria como
os citados, mas, por outro lado, tem grandes lutadores de boxe, “soccer”
e enormes jogadores de basquete e escolheu o genial Bush para ser o seu
presidente. Por sua vez, os paises da culta Europa apóiam esse presidente
cômico. As guerras continuam; o terrorismo não pára; os seguidores de uma
religião matam os adeptos da religião concorrente em nome de seu Deus

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único, poderoso e bondoso. Até hoje nenhum homem conseguiu reunir os
outros em torno de um projeto de paz e de cooperação. Será que somos
todos incapazes ou idiotas? Ou de fato não queremos soluções, pois essas
trazem outros problemas inconfessáveis? Os jovens continuam a sonhar e a
sonhar.

Baseado na crença falsa de superioridade humana, através dos tempos, o


homem reivindicou, sem quê nem pra quê, a responsabilidade para si por
suas ações, isto é, condutas que de fato pertencem à natureza do organismo
biológico e da cultura que ele possui.

Estamos enganados e enganando. Não somos nem tão poderosos, nem tão
inteligentes como se tem apregoado; somos mais pra burros-autômatos que
gênios-livres. Nós – não escapa um – somos portadores de um grave delírio
de grandeza, mas como todos têm a mesma doença, não há nenhum homem
capaz de providenciar o tratamento da população; além disso, gastaríamos
demasiados.

O homem afirma sua importância na Terra e até fora dela, bem como a de
seus deuses particulares, que, lamentavelmente, estão sempre brigando
entre si. Qual importância teria o homem? Não sabemos, ou não queremos
conhecer. Também não investigamos e, muito menos, discutimos o poder ou
a importância dos reis ou dos deuses dos leões, das raposas, dos maribondos,
das pulgas e percevejos. Onde se encontram os deuses (ou reis) dos cupins?

O hemisfério esquerdo envergonha o lado direito do cérebro. Sem dar a


mínima para o lado direito, o lado esquerdo, sem freio na língua, deixa
escapar, a todo instante, nossa burra sabedoria, uma fala mentirosa e que
disfarça a nossa gritante incapacidade para educar os nossos filhos e para
conviver com nossos amigos (seriam amigos?) da mesma espécie.

Ainda não conseguimos acabar com os viciados em drogas e com os


exploradores desses; os assaltos crescem junto às corrupções dos ricos e
dos pobres; o trabalho escravo espalha-se atingindo médicos, bancários,
motoristas, lixeiros, lavradores, carvoeiros e muitos outros. Aumentam a
prostituição e a exploração de mulheres e menores, meninos e meninas
para os pedófilos do mundo. Continuam as discriminações dos negros, das
mulheres, dos idosos, dos latinos, dos diversos subdesenvolvidos e de todos
os com menor poder.

Ostentamos, sem parar, um amor próprio arrogante e vazio. O homem, ora


elogia, ora culpa a si próprio. Muitas vezes, também engrandece e macula
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outros indivíduos. Ele exalta e arruína. Homens são torturados e assassinados
para limpar e aliviar a alma dos torturadores; outros, ao realizarem ações
chamadas de elevadas (políticas, esportivas, religiosas, científicas, artísticas)
são dignificados, ganham medalhas, discursos e dizem que são imortalizados;
se escorregam, são enxotados.

O homem não é um ser extraordinário, ele é mais ordinário. Nenhum é nem


mesmo responsável por sua conduta, pois essa é comandada por forças que
são mais fortes que seu querer. Nós, da espécie “Homo sapiens” (colocaram
mais um “sapiens” e ele virou “Homo sapiens sapiens”; um só era pouco
para nosso orgulho) fazemos parte de um grupo de seres semelhantes aos
obedientes cupins, às ordeiras formigas, às belas e simpáticas abelhas e aos
teimosos salmões. Esses animais, bem como todos não citados, formam um
batalhão de seres vivos disciplinados, em marcha continuada, do nascimento
à morte, na sua busca frenética e incansável por metas imaginadas como
sendo estabelecidas ou assentadas por eles próprios. Somos assim também!
A diferença está nos poderes que dominam um e outro. Os outros animais
estão aprisionados pelos seus instintos e reflexos; nós, por outro lado,
estamos aprisionados, também aos nossos instintos e reflexos, mas, mais
ainda, estamos controlados pelas regras, deveres, prescrições, ou seja,
encarceramento de nossa cultura e palavras escravizantes.

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Vivendo um conto de fadas
Quem construiu esses homens jovens que vivem mendigando um olhar
indiferente e muitas vezes de desdém, uma assinatura inútil e rabiscada, um
aceno de mão forçado e, às vezes, um abraço teatral e sem significado para
seu deus? Alguns fãs choram, gritam, esperneiam e até desmaiam quando os
vêem ou quando imaginam poder vê-los. Com sua “aparição no altar”, alguns
devotos gritam em êxtase num transe orgiástico e talvez orgástico. Alguns
desmaiam com sua aparição.

Após a divulgação da separação do deus ou deusa, seus fãs, emocionados,


discutem o fato nas ruas, nas casas, nas reuniões familiares ou nas televisões
e rádio. Especulam sobre os motivos, causas e possíveis prognósticos. Alguns
adoradores fiéis adoecem, preocupados com os possíveis sofrimentos do seu
deus após a separação do outro deus.

Uma cliente que atendi não dormia, não mais conseguia trabalhar, após
a morte trágica de sua deusa. Um pôster da deusa foi colado na porta da
geladeira como recordação; um outro paciente ameaçou se suicidar após
ouvir rumores afirmando que seu deus estaria contaminado com o HIV.

O que leva uma pessoa a abandonar suas próprias metas, valores, paixões,
alegrias e tristezas para seguir o caminho ditado pelo seu ídolo, passando a
orientar-se e dedicar-se a ele?

Assistimos a esse espetáculo constantemente. Sabemos que onde existe


exibicionista existe uma platéia para aplaudi-lo. De outro modo, para que
uma pessoa comum seja elevada à categoria de “deus” é necessário que ela
tenha seguidores fanáticos para contribuir com sua ascensão.

A relação entre o deus e os adoradores é complementar. O deus desperdiça


dinheiro e seus seguidores, passando fome, pagam caro para vê-lo; o deus
não liga à mínima para o fã e este faz todos os esforços para ajudá-lo e
endeusá-lo; o deus relaciona-se com a plebe em local apropriado, protegido
por seguranças; o adorador persegue o ídolo em qualquer lugar.

O que será dessa mocidade daqui a alguns anos, quando envelhecerem


e talvez se tornarem mais sábios, ao descobrirem que esses deuses são
passageiros e foram feitos de barro, ou melhor, de água, gordura, açúcar,

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proteína e alguns sais, isto é, do mesmo material usado na construção de
todos nós?

A miopia do Homem
Nós, pobres seres humanos, enxergamos e vivemos numa pequena parte
do mundo. Sem perceber o “grande e vasto mundo”, construímos nossos
raciocínios sobre o universo a partir dessa pequena amostra com a qual
temos acesso; o restante ignora. Dentro de nossa miopia, damos uma grande
importância aos fatos que percebemos ou imaginamos perceber e nenhuma,
como não podia ser diferente, aos não notados e não supostos.

O ingênuo cidadão, orientado por este minúsculo mapa, toma suas decisões
de forma extremamente limitada, pois não poderá fazer escolhas com base
num conhecimento que não possui. Ele, na melhor das hipóteses, só poderá
considerar alguns poucos aspectos específicos, relativamente independentes,
existentes nas áreas conhecidas ou possíveis de se conhecer que ele imagina
ser importante. Assim, por exemplo, ao comprar um aparelho de televisão
(escolheu comprar esta em lugar de usar o dinheiro de outra forma) a pessoa
pouco ou nada perceberá dos efeitos dessa compra sobre outros aspetos
de sua vida, a sua possível relação com outros tipos de problemas trazidos
pela compra realizada. Assim, é pouco provável que ele tenha se lembrado
do móvel para colocar o aparelho; o seu peso para levá-lo ao conserto caso
necessite; o custo que terá caso estrague; como são suas garantias etc. Estes
atos da vida do comprador – os distantes – possivelmente serão efetuados
pela mesma pessoa que fez a compra, entretanto, esta poderá não imaginar
que condutas de sua vida serão alteradas a partir de se ter uma televisão em
casa, entre essas, ele irá sair menos de casa ao ficar vendo TV; irá ler menos;
deixará para depois a viagem pretendida, pois fez gastos agora; haverá brigas
familiares para disputar os programas a serem assistidos etc.

Vivemos num mundo que se poderia chamar de “mundinho”, pois,


apesar da existência de milhões de variáveis ou aspectos do universo que
aparentemente poderiam afetar uma às outras e, talvez, nos importunar,
não tomamos consciência desses fatos, não sabemos de sua existência. Nós
detectamos e pensamos apenas sobre um reduzidíssimo número de fatos ou
eventos.

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Talvez, para muitos, não haja necessidade de se saber como tomar decisões,
se essas são ou não acertadas, se são ou não sábias, pois, vivendo seu
pequeno mundo – sempre dentro de um outro mundo vasto – o indivíduo
desconhece outras razões para se viver além das poucas que ele possui. Ora,
se as pessoas sobrevivem, elas tomaram efetivamente decisões, pelo menos
adaptáveis. O homem não é o único animal que toma decisões ajustadas
através da execução de planos presos a alguns valores e deixando de lado
outros. Os animais também o fazem. Mas estes executam planos mais simples
ainda que os nossos: roubar a banana do visitante distraído; ficar estático,
por instantes, para facilitar o bote na presa etc. Praticamente quase todos os
planos são complexos e incluem diversos valores ao mesmo tempo, e, por
isso, alguns têm mais importância que outros, dentro de uma hierarquia.
Entretanto, poucas vezes temos uma visão geral dessa hierarquia de valores
ligados a cada um dos passos de nossas ações imaginadas para completar o
planejado.

Muitas vezes, ao executar um plano, a pessoa não tem um valor claro do


que deseja. Assim, muitos poupam dinheiro sem uma finalidade específica
imediata à vista, mas simplesmente para uma época difícil, uma emergência,
a velhice, para qualquer uma razão vaga. Essa conduta fornece ao agente uma
sensação de competência para executar uma variedade de objetivos, mas é
muito vaga.

Para a maioria das pessoas há uma espécie de satisfação e de segurança,


associada à competência; na ausência de um objetivo muito específico,
trabalharão simplesmente para melhorar o nível geral de aptidão e
informação, que contribua, indiretamente, para uma melhor competência.

Frequentemente nos encontramos fazendo coisas desagradáveis, que


detestamos, mas que estão, supostamente, incluídas num plano mais vasto,
hierarquicamente organizado, cujo valor final o justificará. Não é agradável
estudar horas ou meses, mas é “bom” passar no concurso, ganhar mais,
mudar de vida, ou, no mínimo, ficar livre da ação ruim (estudar), pelo menos
isso nos dá prazer.

O homem tem uma grande capacidade em renunciar aos prazeres ou desejos


do momento, buscando alcançar uma meta incerta longe no tempo e, às
vezes, pouco provável. Muitos homens, imaginando algo que virá no futuro,
fogem de tudo que é prazeroso, abandonam metas desejadas, acreditando
que isso o conduzirá à meta pretendida. Dedicam sua vida ao sonho.
Infelizmente este pode não ocorrer.

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Homem: Controlado externa e
internamente
Enquanto alguns obstinados tentam, a todo custo, controlar o meio
rebelde, outros, mais conformados e plácidos, deixam as “águas rolarem”
e, uns poucos procuram, propositadamente, confusões e nelas se instalam
satisfeitos e confortáveis.

Muitos desejam, alguns imploram, ao bondoso Deus: “Que bom seria se


pudesse mudar a cabeça do patrão para que ele não me demita”; ou “fazer
com que minha namorada não me abandone”; “Iluminar a cabeça do nosso
Presidente para que ele nos deixe dormir em paz”.

A maioria imagina que o controle vem apenas de fora. Esses supõem que os
amigos e parentes, ou mesmo os políticos, deviam ajudá-los a conseguir o
que eles não alcançaram e, muitas vezes, nem tentaram obter.

Na velhice descobre-se – é preciso viver muito e às duras penas – que certos


meios são difíceis, outros, impossíveis de serem controlados. Aprende-se que
nada se pode fazer diante de alguns problemas como: a violência dos outros,
não a nossa; a corrupção; a chatura do discurso político e das eleições; o
trânsito caótico; o acidente; a miséria do povo e, por fim, a nossa bobice.

Sabe-se que algumas mudanças jamais podem ser realizadas, outras podem,
e, entre estas, muitas dependem de nossa ação. Entretanto, nem sempre
temos energia e vontade para lutarmos por essas alterações, assim, posso
pretender ser médico, mas não quero gastar meu tempo estudando. Em
alguns casos pode existir o desejo e a energia, mas pode faltar a competência
necessária: gostaria de ser corredor, mas tenho o pé torto. Por fim, posso
ser competente, ter vontade e energia, mas tenho uma auto-estima e auto-
eficácia baixa, isso resulta numa autopercepção ou autocompreensão de si
mesmo como incapaz, isto é, não acreditando na habilidade. Desse modo
tudo dificulta “chegar lá”.

Ao nascermos, tomamos as primeiras medidas, por sinal, grosseiras, para


controlar o meio ingrato. O recém-nascido, caso tenha fome, irá chorar, e
alguém pode milagrosamente aparecer para lhe dar o leite; se está com

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frio, chora e, novamente, o protetor lhe aquece. Por intermédio do choro o
desconforto é controlado e o bem-estar retorna; para a criança deve ser uma
coisa mágica; e muitos adultos continuam usando essa técnica nem sempre
milagrosa.

Mais tarde aparecem estratégias mais sofisticadas para controlar o meio e a si


próprio. Se estivermos querendo um doce e o pedimos a nossa mãe, ela, por
sua vez, pode impor condições. A criança deseja brincar com o vizinho, mas
a mãe não concorda, pois está na hora do almoço; nesse caso a criança pode
chorar, pedir mais, gritar, tentar manipulá-la ou negociar a ida; em último
caso, poderá, até mesmo, fugir de casa e ir morar na casa do vizinho.

Na adolescência e na vida adulta, não só o meio enfrentado, mas também


as técnicas para conseguir o desejado tornam-se complexas e difíceis. O
jovem quer ter um bom emprego, por conseguinte, casa e comida. Mas, para
isso, terá que frequentar, por anos, a escola, estudar muito e deixar de lado
diversões atraentes.

Na velhice, inferiorizado e estigmatizado, não mais acreditando no choro


e já sem forças, o idoso só pode implorar para receber ajuda do meio, pois
sua capacidade para modificar o ambiente externo é mínima e, para piorar,
muitos estão debilitados e em uso constante de medicamentos que dificultam
mais ainda as ações.

Portanto, durante nossa jornada aqui na Terra os desencontros são muitos, as


frustrações amargas. Mas é preciso seguir em frente até o dia final. E assim
caminhamos; ora desequilibrados, ora supostamente firmes. Aos poucos,
cada um, cambaleando, vai construindo seu caminho particular, imaginando
medidas eficazes para restabelecer o “elo perdido”, a segurança sonhada.
Mas basta surgir uma peninha de equilíbrio, um tempinho de calmaria e paz,
para novamente esse animal surpreendente inventar vias diferentes, novos
planos e ações e, consequentemente, novas desarmonias com o ambiente e
consigo próprio.

Assim é o homem: age, ao mesmo tempo, evitando as dissonâncias internas


e externas (as emoções) e, ao mesmo tempo, provocando-as. Este é seu
destino. Ele deseja a paz, mas precisa das desordens, do caos, para se
excitar e aprender. Ele planeja, constantemente, situações de risco, o que o
amedronta; entretanto esse é o alimento de sua mente, sem ele o indivíduo
ficaria no mesmo patamar; mais tolo do que já é.

Muitos imaginam alcançar a felicidade caso conseguissem a paz constante;


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ledo engano. Precisamos, para crescermos, relacionarmos com os obstáculos,
com as dificuldades, pois são as incongruências os nossos nutrientes mentais,
que nos fazem crescer; sem eles seríamos idiotas completos e não semi-
idiotas.

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Normopatas: A chatura dos
Homens Normais
O Estado, bem como a religião e a lei, não só defendem, como também
exaltam a conduta conformista, ordeira, sem erros, pró-social ou “santa” dos
cidadãos. Para esses pastores de ovelhas, todos nós deveríamos nos esforçar
e nos sacrificar para atingirmos o ideal supremo: a santidade. Não resta
dúvida que caso esse milagre acontecesse o país viveria em paz e ninguém
faria reclamações ou exigências para os governantes, que desse modo
poderiam “deitar e rolar”; isso é tudo que todo governo quer. Entretanto,
haveria, como efeito colateral da santidade do povo, a estagnação social. A
sociedade se transforma e melhora porque há os insatisfeitos, os rebeldes e
críticos crônicos. Em resumo, a cultura aprisionada ao modelo ético-religioso
fez nascer o mito – inexistente – do homem santo, conformado, perfeito e
sem reclamações.

A população sofredora e explorada corre atrás desse ideal mítico defendido


pelos líderes e, de provações em provações, caminha em direção ao pregado
pelos mais poderosos. Concretamente, desde cedo, somos ensinados a
nunca reclamar dos bondosos chefes, pais, tios, avós, professores; a pagar
pontualmente nossas dívidas, mesmos quando percebemos que fomos
explorados; jamais sonegar o imposto de renda, IPTU, Copasa ou Cemig;
chegar na hora certa ao médico, dentista e outros profissionais, mesmo
quando eles jamais chegam à hora marcada; “tomar à benção” a todas as
autoridades; não faltar ao serviço ou às aulas; saber de cor o hino nacional;
ler a Bíblia diariamente; ir à missa, pelo menos uma vez na semana; não ter
sexo a não ser após o casamento e, mesmo assim, para procriar; orar ou rezar
todos os dias para agradecer a Deus, mesmo quando estivermos passando
fome, endividados, com o filho doente ou atropelado; ajudar os necessitados
em quaisquer circunstâncias e muitos outros deveres do bom filho, bom
cristão ou do bom cidadão.

Alguns felizardos recebem prêmios, ganham medalhas, lugares de


destaque no quadro de honra da escola ou da empresa por serem corretos,
cumpridores do dever durante anos e anos. Os premiadores, muitas vezes,
não são tão fanáticos com respeito à honestidade e à vida cristã pregada, isto
é, não são tão crédulos como o premiado.

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Dentro do grupo de normopatas poder-se-ia colocar alguns terapeutas-
analistas que sempre me chamaram a atenção por ser tão normais. Esses
homens “super-sãos” não mais riem, nem choram, não têm alegrias, nem
tristezas, não agridem e não são agredidos, não têm família, nem história, em
resumo, eles erradicaram, para sempre, as emoções humanas de suas vidas,
bem como suas relações e problemas pessoais. Eles atingiram o Nirvana;
o desejado por todos os esperançosos em alcançar o paraíso. Para esse
grupo, conforme seu modelo de saúde, as emoções são negativas e somente
apropriadas aos “doentes” ou animais irracionais; uma idéia existente na
Igreja há 500 anos atrás quando foi proibido o riso. Eles conhecem, como
ninguém, o limite entre os desajustados e os “perfeitos”. Por tudo isso,
sempre tive uma enorme admiração e, por que não, inveja dos analistas.

Um cliente contou-me que, numa análise a que se submetia, questionou


o analista pela sua falta de emoção, participação e espontaneidade nas
discussões, exatamente o que ele dizia ser o desejado. Sua resposta foi um
silêncio profundo e continuado, demonstrando, talvez, a idiotice da pergunta
e, por isso mesmo, não ser merecedora da mente elevada do analista.
Este, por certo, havia perdido sua espontaneidade ao entrar no mundo dos
intocáveis.

Muitos psicólogos e psiquiatras assimilaram a crença do santo idealizado


e a incorporaram em suas teorias e tratados psico-religiosos. Embutidos
nesta idéia, alguns profissionais criaram o mito/modelo do homem de
Saúde Mental Perfeita (SMP ou Sanista) ou, de maneira mais resumida,
o normopata, na carona dos santos imaginados pelas elites; uma teoria
mítica acerca da saúde mental total. Segundo a teoria – ou utopia – alguns
privilegiados, após longos anos de análises realizadas sob a supervisão de
profissionais santificados pelos “poderosos chefões”, poderiam, caso agissem
conforme as normas da seita, serem escolhidos como candidatos a santos
e, nesse caso, seriam reconhecidos pelo grupo como possuidores de saúde
mental acima do povão. O candidato a santo, sob juramento, seguiria o
artigo primeiro e único: “O importante não é tanto a conduta, na qual se
pode praticar loucuras, mas a adesão ao dogma, onde nenhuma loucura é
permitida”.

Uma vez alcançado o estado de graça existente entre os membros da seita,


todos gozarão a paz completa. A partir da santificação, os escolhidos e
catequizados não mais serão atingidos pelas emoções perturbadoras e
incômodas do dia-a-dia que amedrontam e exasperam os simples, não-
aceitos, não-analisados e estranhos ao grupo.

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Exige-se dos candidatos a santos provações continuadas através de longos,
penosos e custosos “ritos de passagem”. Os iniciantes serão tratados,
inicialmente, como “pacientes” ordinários, sem regalias. Em seguida,
ano após ano, enfrentarão provações a critério do analista. As provações
serão aplicadas dentro do limite do tolerável, como têm sido relatadas
nos romances hagiográficos/confessionais, isto é, sobre a vida dos santos.
O objetivo final é testar a capacidade do candidato para suportar cargas
pesadas e humilhantes. Concretamente, o candidato, semanalmente, ou,
se necessário, mais vezes por semana, durante anos, sem ter prazo para
terminar, fará confissões penosas, minuciosas, íntimas e humilhantes,
revelando para o guru, seu orientador espiritual, suas mazelas. Somente
após ter ultrapassado todos os insuportáveis obstáculos – caso o candidato
consiga atravessar tudo isso – e, também, pagar pontualmente o preço
estipulado pelo guru/analista, inclusive suas férias, feriados, dias santos e
outros dias não trabalhados do santo/analista, por motivos jamais explicados,
o candidato a santo receberá sua condecoração.

A partir desse momento, o da transformação, também chamada de


ressurreição, o aprendiz a santo começará a gozar das prerrogativas dos
aceitos pela seita intocável e, neste caso, terá direito de aliciar e instruir os
novos pretendentes a santos a atravessarem a imensa ponte que separa os
normais dos sãos/santos.

Alcançando o paraíso sonhado, os escolhidos tornam-se, conforme ordena o


estatuto, indivíduos superiores aos moradores comuns da Terra, ou seja, da
ralé/cliente e os não-analisados. Os escolhidos e privilegiados não mais serão
incomodados com os aborrecimentos triviais do dia-a-dia como acontece com
os outros seres humanos.

Entretanto, como todo tratamento ou mudança tem seus efeitos colaterais,


infelizmente, os santos/analistas, que não mais se preocupam com os
problemas simples e desagradáveis da vida dos clientes, passam, também,
a não mais ser atingidos pelas emoções agradáveis e boas existentes. Eles,
chegando ao pedestal da sabedoria e da santidade, perdem tanto as emoções
boas como as ruins. Uma vez insensíveis, nada mais sentirão ao ouvir o choro
e desespero do cliente, nem o som melodioso de “Time to say goodbye”,
como também as emoções produzidas por uma chuva pesada que cai, o
sorriso de uma criança, o abraço da namorada ou a morte da mãe. Imunes
aos dramas dos clientes, sem sentir mais nada, eles deixam de ser gente
como agente.

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Emoções e a Fábrica/
Organismo
Introdução

Diante de um barulho inesperado ocorre uma (defesa) reação involuntária


ou reflexa de setores da fábrica. O alarme inicial é retransmitido a diversos
compartimentos da fábrica/organismo preparando os diversos setores deste
para se defender de algum possível perigo para a organização geral composta
de diversos departamentos. Por exemplo: diante de uma temperatura muito
fria ou muito quente; de uma infecção; da penetração de alguma toxina
etc., da mesma forma que com inesperado, o organismo/fábrica, em cada
setor particular, reage e transmite a desarmonia ocorrida ali naquele local às
diversas secretarias da vizinhança. Essas subestações, em seguida, emitem
novos dados, nesse caso já organizados, à central que presidirá todas as
medidas que precisam ser tomadas para que a fábrica retorne ao seu estado
“ótimo”, isto é, de harmonia entre os diversos setores internos e com o
meio ambiente externo. Em todos esses casos citados, medidas específicas
e gerais são executadas provocando mudanças nos níveis celulares, nos
níveis dos andares intermediários e no mais elevado que é a Central Geral
Coordenadora.

As mudanças e arranjos para lidar com as desarmonias ou distúrbios


ocorridos dependerão de uma boa e eficiente coordenação da presidência,
apoiada e orientada por cada uma das diversas “secretarias regionais”,
que são, por sua vez, interligadas entre elas e a Central, esta última ligada,
também, ao ambiente externo. Só assim a Central conseguirá formar uma
idéia geral do que está acontecendo com cada setor ou ponto da fábrica e de
todo o conjunto na sua relação com o meio ambiente externo.

As mudanças e as emoções delas derivadas


As mudanças ou transtornos ocorridos no interior do organismo
frequentemente provocam emoções boas ou ruins, isto é, agradáveis e
positivas ou desagradáveis e negativas. As emoções produzidas diante dos
problemas enfrentados e, consequentemente, das desarmonias corporais

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ocorridas, pois só essas podem ser chamadas de “emoções”, podem ser
agradáveis quando, por exemplo, esta foi provocada pela visão de uma
deliciosa comida para um faminto, ou desagradáveis quando o ônibus
esperado passou cheio e não tive como pegá-lo e, por isso, cheguei atrasado
ao serviço.

Nos casos citados são ativadas secretarias relacionadas ao Centro Emocional,


cujos mecanismos estão situados em diversos setores denominados, em
conjunto, como “Sistema Límbico” ou “Sistema Emocional” composto de
várias regiões ou secretarias, tais como: amígdala, hipocampo, núcleo
acumbente, etc.

As partes mais elevadas do organismo, coordenadas pela central


coordenadora, nesses casos citados, não só tomarão consciência do estado
emocional corporal, como também irão classificar esse estado, conscientizado
ou sentido, com os nomes de “alegre”, “eufórico”, “animado”, no caso das
emoções positivas, e de “raiva”, “medo”, “vergonha”, quando são geradas as
emoções negativas. A produção dessas emoções, diante da deliciosa comida
ou ao perder o ônibus, dependerá da pessoa (fábrica) exposta a um ou outro
fato, pois não somos iguais quanto às emoções.

Resumindo: diante de certas desarmonias existentes no interior do


organismo/fábrica setores diversos enviam mensagens do que está
acontecendo naquela subdivisão para outras regiões mais bem equipadas e
mais complexas. Essas, por sua vez, organizam ou sistematizam esses dados
e, finalmente, as sínteses construídas por cada setor são retransmitidas,
recebidas e coordenadas pelo segundo comando do cérebro, ou seja, a área
da fábrica chamada aqui de Central Coordenadora Geral (CCG).

Emoções e setores da Central Geral (região


pré-frontal ventromedial)
Um outro local importante relacionado ao desencadeamento das emoções
é a região pré-frontal ventromedial. Essa região está sintonizada para a
detecção de estímulos adquiridos ou aprendidos, capazes de desencadear
emoções sociais, portanto, diferentes dos captados pela amígdala, produtora
de emoções de medo e raiva, por exemplo. Quando observamos uma
situação na qual um indivíduo está sofrendo (teve uma convulsão, por
exemplo) geralmente somos inundados por emoções desagradáveis ligadas
ao percebido. A compaixão provocada no observador pela percepção do fato

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dependerá da ativação aumentada da região pré-frontal ventromedial do
cérebro.

Sabe-se que alguns pacientes portadores do transtorno anti-social são pouco


ou nada estimulados diante do sofrimento de outras pessoas que não ele
próprio. Possivelmente isso ocorre devido à existência de lesões nessa região
do cérebro. Esta região nesses indivíduos não é ativada. Possivelmente,
nos anti-sociais, também, há ainda problemas na produção, liberação e ou
recaptação de neurotransmissores ou peptídeos relacionados a esse centro.

Muitos dos estímulos que adquirem significados particulares em nossa vida,


por exemplo, a casa na qual moramos quando crianças, a bandeira ou o hino
nacional do país, as músicas antigas, o retrato de família, todos eles provocam
emoções através da região pré-frontal ventromedial cerebral.

Um lembrete final: diversos fatores podem influenciar as emoções disparadas


nas regiões cerebrais, entre eles os objetos ou as situações vividas, os
símbolos, os agentes farmacológicos e elétricos, as diferenças individuais e
muitas outras.

Esclareço que o que tenho chamado de “Centro” na realidade não é um


“centro”, mas sim um conglomerado de diretorias trabalhando em paralelo
visando a produzir o “mapeamento cerebral” onde todas as partes da fábrica/
organismo têm participação.

As emoções sentidas pelo organismo/fábrica, boas ou ruins, iniciam-se ou


começam a ser geradas a partir de diversos mecanismos, entre eles, os
físico-químicos e elétricos. Todos esses mecanismos são supercomplexos
e envolvem diversas regiões do cérebro e vísceras (aparelho digestório,
cardiovascular, muscular etc.); resumindo, a emoção atinge todo o corpo,
todo o organismo/fábrica.

Qualquer fato novo põe em marcha ações ou condutas associadas não


só ao acontecido mas, também, emoções experimentadas como prazer e
recompensa ou dor e punição. Frequentemente o comportamento produzido
é dirigido e coordenado pela emoção boa ou ruim gerada. De outro modo,
as emoções sentidas orientarão o organismo, que é móvel, a aproximar das
fontes relacionadas ao prazer e fugir das ligadas ao sofrimento.

No caso particular da fábrica dos seres humanos, que não apenas


experimenta sensações e emoções, mas também, devido à existência de
um setor no organismo/fábrica capaz de produzir os sons como as palavras

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(símbolos), a fábrica pode, conforme o momento, para si ou para os outros,
relatar a emoção experimentada. Mesmo quando o porta-voz da fábrica
não expressa claramente a emoção sentida, como, por exemplo: “Estou
alegre”; “Hoje estou triste”, o observador de fora, atento, verificará pelos
assuntos ventilados, pelas palavras utilizadas na conversa e, também, pela
velocidade da produção e da maior ou menor riqueza das idéias, que, por
trás de sua fala, e pelo espelho de sua face, dominam as emoções agradáveis
ou desagradáveis. De outro modo, nós “lemos” as emoções do nosso
interlocutor.

O leitor poderá detectar nele próprio, ou no amigo, o descrito acima. Não


é difícil perceber uma pessoa que se emociona positivamente com os
alimentos. Nesse caso, a pessoa, constantemente, tende a comentar alguma
coisa, animada, acerca do churrasco que comeu ou irá comer; do delicioso
vinho tomado; do café da manhã do hotel onde passou as férias; etc. Não
é difícil notar, durante seus relatos, que seus olhos brilham mais e sua
contração muscular difere da usual comparada com a mostrada quando ele
comenta problemas mais neutros.

É fácil perceber a menor produção de idéias, o uso de certas palavras


e ausência de outras, o tom de voz mais baixo e triste, a ausência de
entusiasmo etc., numa pessoa que acaba de perder um ente querido. Nesse
caso há uma produção de emoções dolorosas, ou seja, desagradáveis; estas
estão dominando todo seu corpo, inclusive seu cérebro e a construção
dos relatos efetuados. Deve ser enfatizado que os termos e as construções
das frases utilizados na linguagem para designar ou rotular as emoções
“dolorosas” ou “aprazíveis”, recompensadoras ou punitivas, variará de
indivíduo para indivíduo e, também, conforme o contexto, como, por
exemplo, o ouvinte que está por perto, bem como a cultura na qual vive.

Vamos a um exemplo, começando com o fator que desencadeou a


desarmonia. O indivíduo coloca, sem querer, a mão na panela quente.
Nesse caso, as células da região afetada pelo dano emitirão sinais químicos
denominados “nociceptivos” (indicadores da dor) para “secretarias” e
“centrais”. Consequentemente, o fato desagradável provocará desarmonias
no organismo/fábrica, levando esta a ordenar, rapidamente, a retirada da
parte (mão) afetada do objeto (fogo) provocador do distúrbio. Deve ser
lembrado que os setores da fábrica, na sua maioria, não falam e não sabem
nomes dos objetos: mão, fogo, dor, queimar, etc.

Quase imediatamente, mas um pouco depois, a fábrica/organismo,

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possuidora de uma secretaria capaz de usar a fala ou a escrita para descrever
os acontecimentos, um setor sempre dependente do meio ambiente cultural,
poderá compor ou interpretar o evento ruim dessa maneira: “Ai! Como doeu.
Ainda bem que tirei minha mão rapidamente do fogo. Acho que a dor vai
passar logo”.

Por outro lado, um animal, um recém-nascido, um indivíduo que perdeu


a capacidade de usar a linguagem (tumores, envelhecimento grave,
traumatismos cranianos etc.) sentirá a mesma dor diante do mesmo fato, mas
produzirá comportamentos diferentes do verbal, pois não terá capacidade
para isso. Nesse caso, talvez chore, xingue, agrida alguém por perto, corra,
etc.

Diante de sinais semelhantes ao descrito acima o organismo/fábrica reage


automaticamente, reflexamente, sem pensar ou fazer planos, diante da dor
sentida pela pele queimada. Através da dor uma série de medidas ou ações,
por vez, sutis, por vez, óbvias, tentam restabelecer o equilíbrio biológico de
forma automática: retraimento do corpo ou parte dele, proteção da parte do
corpo afetada, expressões faciais de alarme e sofrimento.

Mas lá nas profundezas da fábrica/organismo diversas outras respostas


estão acontecendo, não percebidas do lado de cá, de fora, mas possíveis de
serem detectadas por meios mais sofisticados que pela visão pura, como os
exames laboratoriais e anátomo-patológicos, raios X, ultra-sons, tomografias
computadorizadas por emissão de pósitrons e diversas outras técnicas.

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Histórias diversas e função cerebral

Para mim você está errado


O meu nome é Alberto; minha namorada se chama Aspásia; tenho 30 anos,
ela 21; sou formado em Direito, ela, terminou o segundo grau; tenho oito
irmãos, ela é filha única; nasci e fui criado em São Paulo, ela nasceu e foi
criada numa pequena cidade de Minas. Essa é uma história inventada,
semelhante à de todos nós. Procurou-se mostrar acima algumas diferenças
entre dois parceiros. Podemos prosseguir: Alberto gosta de futebol, Aspásia
gosta de canto lírico; ele é ateu, ela, evangélica; ele defende um comunismo/
autoritário, ela, um governo democrático.

Eles, sendo diferentes – sexo, idade etc. – entram em conflito com frequência.
Se Alberto é homem e tem 30 anos, sua maneira de pensar e se expressar
será forçosamente diferente de Aspásia que é mulher e tem 21 anos. Um
homem, por ser do sexo masculino, como todo animal macho, age de modo
diferente das fêmeas em função de terem organismos biológicos desiguais.
Além disso, por ser do sexo masculino, Alberto receberá educação ou
instruções diferentes das recebidas por Aspásia que é mulher. Em resumo: os
dois têm organismos, treinamentos e aprendizagens diferentes. Mas também,
como um é mais velho nove anos do que o outro, Alberto viveu mais tempo,
possivelmente fez mais cursos e aprendeu mais devido aos nove anos a mais.

Mas ainda não é tudo: se Alberto é homem, foi educado como homem e
viveu nove anos a mais que Aspásia, ele assimilou idéias diferentes do mundo
e usa palavras diferentes dela. Mas como Alberto é formado em Direito,
tem oito irmãos, nasceu na Cidade de São Paulo, gosta de futebol etc., tais
fatos fatalmente contribuirão para que Alberto fale de modo diferente, aja,
pense, faça suposições, alegre-se ou irrite-se e raciocine de modo diverso do
de Aspásia. Em resumo: ele viveu e vive num ninho ou ambiente geográfico/
histórico diferente de Aspásia.

Quando eles discutem – isso é frequente – cada um faz uso de termos


diferentes para descrever formas de governos, fé religiosa, lazeres, pois que,
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cada um deles tendo suas tendências próprias, enxergam certas áreas do
mundo como mais importantes e outras como menos importantes. Alberto
poderá usar mais frequentemente termos como: gol, impedimento, cartão
vermelho etc., enquanto Aspásia poderá usar palavras como: soprano,
Traviata, ópera, Verdi, etc. Possivelmente Alberto acusa Aspásia de estar
errada com respeito a diversas ações, objetivos e de meios para alcançá-
los, uso de certas roupas, gasto com diversões, uso do tempo livre, modo
de falar do interior de Minas; por outro lado, ela poderá acusá-lo de assistir,
discutir e brigar por causa de 22 marmanjos chutando uma bola, por gostar
de defender malandros diante da Justiça e outras acusações mais. Quem tem
razão? Alberto ou Aspásia?

A “teoria” do cientista versus a do romancista


Um exímio psicólogo pode ser um bom descritor do homem em geral,
entretanto, ele dificilmente poderá ser um bom conhecedor de Alberto ou de
Aspásia, seres humanos concretos, singulares e não gerais.

Quando o psicólogo descreve a conduta do homem, ele não está falando de


um homem particular (Alberto e ou Aspásia); seus conceitos tentam englobar
todos os homens. Desse modo ele é obrigado a usar termos, como não
poderia ser de outro modo, muito gerais.

Entretanto, o bom romancista quase sempre consegue descrever em sua


obra as diferentes linguagens usadas pelo personagem conforme sejam
suas diferentes condutas num certo ambiente e momento. A linguagem
do prosador exprime, muitas vezes, franca e diretamente as intenções
expressivas de cada personagem para mostrar suas peculiaridades e não
“suas generalidades”, pois o geral não tem importância para o romancista
como tem para o cientista.

Existem no nosso dia-a-dia, de fato, modos diferentes de falar quanto ao


gênero (homem x mulher), quanto a função (médico x cliente, advogado x
cliente e juiz, fazendeiro x lavrador), mas, também, conforme os locais onde
nascemos e vivemos, as idades ou ainda se somos ocidentais ou orientais.

Cada grupo tem suas peculiaridades, seus jargões, seus modos diferentes
de vida e sua maneira de enxergar o mundo. Essas concepções da realidade
podem ser mais autoritárias ou mais democráticas, mais orientadas pelo
grupo ou pelo indivíduo particular produzindo divergências e conflitos, mas
podem também fazer nascer novos modos de pensar e de agir na realidade.

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Em resumo: todas as palavras expressam ou evocam uma profissão, um
gênero, uma tendência, uma região, uma época, um partido, uma obra
determinada, uma pessoa definida, uma geração, uma idade e um dia ou
momento. Cada palavra insinua, além disso, um contexto ou contextos,
nos quais a pessoa nasceu e viveu e, por fim, as palavras e suas formas são
habitadas constantemente por intenções.

A linguagem indica algo sócio-ideológico concreto e vivo, exibindo opiniões


de várias linguagens ao mesmo tempo; sou do sexo masculino, tenho idade
X, nasci na Cidade Y, Minas Gerais, Brasil, formei-me em Medicina etc., onde
cada aspecto utiliza sua linguagem específica limitando seu território.

A palavra da língua é uma palavra um tanto sem dono; entretanto, ela se


torna “própria” quando a pessoa que fala ou a escreve a habita com sua
intenção, com seu acento, suas emoções e desejos próprios etc. Desse modo,
as palavras ganham um estilo ou tom singular quando determinada pessoa,
como Alberto ou Aspásia, domina a linguagem através do discurso proferido
tornando-a familiar para quem a escuta por dar sua orientação semântica
e expressiva particular, conhecida. Fica fácil descobrir que a fala é alheia ao
ouvirmos uma pessoa falar de modo decorado; nesse caso, percebemos que
a fala não é a dela naquele instante, a fala conhecida que permite conhecer
melhor o falante. Quando se fala de forma “decorada”, comunica-se a
maneira peculiar do outro. Em crianças isso é mais evidente ainda.

Pode-se concluir que nem todos os modos de falar se prestam a cada


indivíduo particular de maneira igualmente fácil. Fica difícil ou impossível
um lavrador assimilar a linguagem jurídica; do mesmo modo é impossível o
advogado assimilar e utilizar-se adequadamente da linguagem do lavrador.
Caso tentasse isso, a apropriação não se concretizaria de modo harmônico.
A linguagem jurídica usada pelo lavrador permaneceria alheia naquele
indivíduo; ela soaria, para quem a ouvisse, estranha, não fazendo parte do
que se apossou da linguagem; seria como se ele estivesse falando fora do
estilo habitual, como se a fala fosse colocada entre aspas.

Mas, apesar de tudo, um lavrador analfabeto morando bem pra lá do fim


do mundo, ingenuamente mergulhado em uma existência quase solitária,
mesmo assim, vive no meio de vários sistemas linguísticos: ele reza à Deus em
uma língua; canta versos das canções melódicas em outra; fala numa terceira
língua no seio familiar; e quando vai ao cartório para casar-se ele usa, junto
ao escrivão, uma outra língua (a língua oficial correta e “cartorial”). Todas elas
são línguas diferentes, porém, estas línguas não se comunicam na consciência

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linguística do lavrador, apesar dele ser capaz de passar de uma para outra
sem pensar, automaticamente; cada uma delas está indiscutivelmente no seu
lugar.

Na maior parte dos casos este lavrador imaginado não saberá examinar uma
das línguas que usa e o mundo que ela descreve através dos olhos da outra.
O lavrador provavelmente não examinará e interpretará, usando a língua da
oração ou da canção, a língua usada no seu dia-a-dia, bem como o mundo
descrito por essa linguagem.

Não será fácil para a mente do lavrador ter consciência das diferentes línguas
usadas por ele; perceber estas línguas não como sendo diferentes, mas,
também, originárias de ninhos ou ambientes diversos, encarcerando sistemas
ideológicos e abordagens do mundo desiguais como o mundo de Alberto e de
Aspásia.

O julgamento revelando o crítico


Além de tudo, todas essas linguagens e mundos descritos por elas, ao mesmo
tempo, indissoluvelmente, acham-se ligadas internamente em sua cabeça
apesar de se combaterem entre si ao invés de permanecerem lado a lado.
Cada uma das línguas usadas pelo lavrador, bem como por Alberto, esfacela o
caráter decisivo e dominador de cada uma delas, desse modo, ele obedecerá
ora uma ora outra, ficará um pouco mais livre, mas, também, em dúvida.

Seguindo o mesmo raciocínio, podemos supor que uma pessoa branca tende
a criticar uma negra; o jovem tende a criticar o velho; se for criada em São
Paulo capital ela criticará o morador do interior; a mulher critica o modo do
homem e este o da mulher; o iletrado acha o intelectual fora da realidade;
o roqueiro critica o amante do samba-canção; o heterossexual critica o
homossexual; o criminoso acha absurda a vida do jovem bem comportado;
o bonito critica o feio, o forte, o fraco; a loura acha feia a morena; o norte-
americano debocha do brasileiro; o muçulmano, do cristão; Bush não tolerava
Saddam Hussein, que, por sua vez, não tolerava Bush. “Assim caminha a
humanidade”; cada um criticando o outro, achando que ele, o falante, é o
certo.

Mas essas avaliações e críticas que uma pessoa faz à outra apresentam,
subjacente, mais informações que aparentam. Aprofundando, descobriremos
que cada crítica feita mostrará a maneira de pensar do crítico, suas
suposições e os princípios nos quais ele construiu seus raciocínios. De

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outra forma, escutando com cuidado o criticador e não o criticado, nós
descobriremos muito acerca julgador; de outra forma, como afirma a frase de
Spinoza: “O que Pedro fala de Paulo diz mais de Pedro que de Paulo”.

Como sabemos as coisas que


sabemos?
Quase sempre procuramos obter nosso conhecimento, ou buscar razões para
crer numa ou noutra coisa, através de quatro caminhos diferentes: buscando
provas, seguindo a tradição, obedecendo à autoridade e através da revelação.

A prova, às vezes, significa ver, ouvir, sentir algo; isso tem sido chamado
de observação. Se acontece um roubo, ninguém pode não saber quem é o
ladrão, mas os policiais podem ajuntar diversas observações para apontar
o suspeito. Os médicos muitas vezes agem assim; dão um palpite e vão em
busca de provas, exemplo: dores de cabeça forte, febre, endurecimento do
pescoço etc. Seria meningite? Portanto, as provas nos fornecem boas razões
para crer que X foi o ladrão e a doença de Y é meningite. Entretanto, talvez
infelizmente, há outras razões para crer as afirmações aceitas como tradição,
autoridade e revelação.

A tradição varia conforme uma ou outra suposição que é aceita por um


ou outro grupo cultural. A tradição cristã, muçulmana, judaica, hindu etc.
são crenças que não têm relação com provas. Nesse caso as pessoas que
as seguem geralmente assimilaram as crenças dos pais, avós etc. Cada
um crê em coisa diferente. Muitas crenças foram inventadas por alguém
e, geralmente, não mudam com o tempo. Como são antigas e continuam
sempre da mesma forma, mesmo sendo velhas, temos a tendência de julgá-
las verdadeiras.

A ferramenta autoridade é usada para crer em alguma coisa e ocorre quando


alguém tido como importante para você ordena que acredite no papa, nos
aiatolás, na cartomante, vidente, macumbeiro etc. Aceitando a autoridade
como importante e grande conhecedora de verdades, você tende a acreditar.
Por exemplo: apenas em 1950 os católicos foram informados pela Igreja que

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deveriam acreditar na ascensão de Maria.

Uma outra “razão” para acreditar é a revelação. Se perguntarmos ao Papa


como ele sabe que Maria subiu ao céu, ele provavelmente dirá que teve
uma revelação. Também quando alguém diz, sem provas: “Mário gosta
imensamente de mim”, sem sensações ou fatos para justificar essa crença,
ele está se baseando apenas na “revelação” (intuição). Alguns paranóicos
costumam crer que o famoso artista do cinema está apaixonado por ele, pois
ele “recebeu uma revelação” acerca desse fato.

A ineficácia de todos esses métodos para


alcançar a “verdade plena”
Lamentavelmente, nunca atingimos a realidade objetiva (real); nós somente
trabalhamos com a realidade subjetiva, ou seja, a sentida através do
assimilador que temos no interior do nosso organismo e que está usando,
no momento, um conhecimento assentado em prova, tradição, autoridade
ou revelação (intuição). Só possuímos essa “realidade”. Assim, se a donzela
diante do “safado”, segundo outros critérios, achá-lo lindo, atraente e com
cara de bonzinho, (segundo o revelado a partir de seus palpites ou intuições),
o seu organismo sentirá um bem-estar imenso e ela vai em frente e fará tudo
para agradá-lo, mesmo que, de fato, ele faça tudo para tapeá-la.

Um nosso ex-presidente recebeu milhões de votos, principalmente das


mulheres, por ser ele “charmoso”, “bonitão”, “simpático” etc., isso é, na
outra linguagem, a neural, ele produziu um estado corporal agradável nessas
pessoas e elas fizeram o que estava de acordo com seu coração, pulmão,
estômago, bexiga, intestinos etc. Seria estranho agir ao contrário; se sentir
bem e votar contra. E deu no que deu.

Os fatos e as palavras: o mapa e o território


A rotulação de fatos, bem como a construção de relações entre eles é
uma ação criativa ou construtiva, é uma tradução de fatos concretos para
conceitos gerais, simbólicos. Essa criação varia muito conforme os indivíduos
e as diferentes culturas. Muitas vezes, a central do organismo/fábrica,
por diversas razões, organiza, associa ou compõe erroneamente os fatos
concretos enviados à mesa pelas subchefias (secretarias intermediárias) que
são sempre dados puros e concretos, por exemplo: “O meu time venceu
porque fiz uma promessa”. Nesse caso, a vitória do seu time preferido foi
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imaginada como provocada pela promessa feita. Um fato não tem relação
lógica com o outro; tem uma ligação conforme a crença do indivíduo.

Acontece que muitos relatórios finais elaborados pela chefia suprema são
descrições não-observáveis e não-empíricas, mas sim falsas associações e
conclusões acerca da verdadeira experiência ocorrida na fábrica/organismo.
Essa inadequação entre o existente e a narração erroneamente descrita
leva a central da fábrica/organismo a tomar decisões frequentemente
equivocadas. Consequentemente, em inúmeras ocasiões, a central, existente
para tomar sábias e eficientes decisões para a sua fábrica/organismo, em vez
de solucionar os problemas reais apresentados a ela, produz hipóteses ou
afirmações dogmáticas, totalmente em desacordo com a realidade descrita
por conhecimentos mais bem elaborados e fundamentados.

A postura equivocada, em lugar de dar solução a um problema surgido,


provoca outras desarmonias ainda não existentes, questões essas que, muitas
vezes, podem ser mais graves que as que se buscava solucionar.

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O filhote de pardal e os
sistemas emocionais inatos
Um filhote de pardal, sem capacidade para voar e sem nunca ter tido contato
com ser humano algum, caiu do ninho existente no terraço onde moro.
Condoído pelos seus piados irritantes, percebendo a incompetência dele
para dar uma solução a sua “queda do céu/ninho”, imaginei salvá-lo. Com
extremo cuidado fui me aproximando do pardal, com as melhores intenções;
estou falando a verdade, meu caro leitor. Entretanto, o filhote, que nunca
vira ninguém, fugiu como pôde para um e outro canto do terraço tentando
se esconder; ele ainda não era capaz de voar. Se por um lado eu pretendia e
tentava ajudá-lo, por outro, o pardal se sentia ameaçado e cheio de medo.
Após algum tempo, sem conseguir pegá-lo, desisti da empreitada. ‘

Sabemos que um passarinho no alto do ninho, que nunca viu outro pássaro,
a não ser a sua criadora, não precisa conhecer por experiência própria que
a presença de uma águia constitui um risco para ele, do mesmo modo que
o pardal do meu terraço. Também Gustavo, logo que nasceu, sem nenhuma
dificuldade, ao ser colocado junto a sua mãe, abriu a boca para engolir um
pouco de leite morno dos enormes seios de D. Deolinda. Gustavo chorou,
vertendo lágrimas e fazendo uma barulhada terrível diante da fralda molhada
e, ao sentir dor de barriga, gritou socorro novamente. Além disso, sua
respiração estava normal, dormia naturalmente, seu coração, bem como sua
cor, estavam normais, urinava, defecava e fazia movimentos variados sem
problemas.

Os sistemas ou centros emocionais existentes no organismo ao nascer foram


estruturados pela história ou vida das espécies. Esses receberam também os
nomes de sistemas primários ou emocional-motivacionais. A função desse
sistema, ao fazer uso do conhecimento chamado puro, inato, direto ou sem-
palavras, é detectar ou sinalizar situações concretas e específicas que estão
ocorrendo fora ou dentro dos organismos capazes de provocar emoções e
ações variando de intensidades muito grandes a mínimas, algumas agradáveis
e outras desagradáveis.

O passarinho, sem conhecimento anterior próprio, reage à águia com alarme,


geralmente tentando esconder a cabeça, devido à informação genética

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inscrita em sua espécie e essencial para sua sobrevivência; do mesmo modo
que o filhote de pardal fez diante de minha presença e Gustavo fez ao ver
a cara de seu pai decepcionado com sua feiúra. Nós, seres humanos, como
Gustavo, diante dos seios de sua mãe, também temos ao nascer informações
semelhantes relacionadas aos perigos e aos prazeres, entre outros, o seio
cheio de leite de nossa mãe.

Portanto, algumas, apenas algumas, atividades de um passarinho e de


Gustavo, incluindo a conduta do medo e de voar, ou de ficar só, são
primeiramente guiadas pelas informações codificadas nos genes. Mais tarde,
outras informações são aprendidas diante do contato do animal jovem com
outros mais experientes da mesma espécie, isto é, ele desenvolve outras
habilidades através de entradas sensoriais vindas do meio ambiente, ou seja,
do aprendido após o nascimento.

Gustavo e outras crianças de três semanas riem diante do rosto do adulto


e mostram “raiva” diante de uma dor na oitava semana de vida; também
exibem “raiva” perante restrições impostas pelo criador. Todas as crianças
assim o fazem, como o passarinho, devido às informações genéticas (inatas).
Somente pouco a pouco, com o desenvolvimento do córtex cerebral, outra
aprendizagem se desenvolve.

Nesse confronto de informações genéticas e condições específicas do meio


ambiente, a criança, sem dúvida, usará e processará as informações recebidas
do meio ambiente externo e interno de duas fontes: dos genes e do setor
subcortical e, mais tarde, do aprendido após o nascimento devido ao meio
ambiente externo. Em resumo: as regiões já prontas ao nascer, subcorticais,
somadas às plásticas (capazes de serem moldadas) dos córtices cerebrais são
capazes de desencadear as emoções inatas e aprendidas uma vez ativadas.

A atividade chamada de “resposta emocional”, como fez o filhote de pardal,


orientará o organismo para uma conduta viável para si, na sua procura
pela adaptação, pela harmonia interna, isto é, no esforço do indivíduo para
administrar as perturbações ocorridas no seu interior, ou seja, na sua busca
pela homeostase, provocada ou não por estímulos externos.

A criança, logo após o nascimento, detecta, externamente, padrões de


luz, linhas, sons e outros estímulos vindos do ambiente, e internamente
são disparadas ou produzidas mudanças neuroquímicas processadas no
organismo. O organismo luta, continuadamente, pela conservação do
equilíbrio de seus constituintes, de suas funções, da preservação de seus

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mecanismos internos, ou seja, pela sua homeostase ou equilíbrio interno.

Um organismo, do adulto ou da criança, experimentará mudanças internas


ao enfrentar situações do meio ambiente externo e interno, que, como tudo,
se encontra também em constantes transformações. Esse desequilíbrio do
organismo, geralmente passageiro, produzirá, continuadamente, ativações
dos padrões de estimulação de emoções mediadas subcorticalmente (abaixo
do córtex). Este fenômeno, no seu modo mais imediato e simples, não exige
a representação do que está ocorrendo em nossa consciência, utilização da
memória ou dos processos de comparação, tanto no adulto como na criança.
No caso específico dos recém-nascidos, nestes, os processos cognitivos de
comparação e o uso de memória ainda não podem ser utilizados, pois, como
sabemos, ainda não foram desenvolvidos. Nada mais idiota que descobrir
“memórias” da vida no útero, pior ainda, de vidas passadas, através de um
cérebro que, ao nascer, não desenvolveu ou armazenou memória alguma
aprendida; a única “memória” existente é a comum a todos os organismos da
espécie e não uma particular de Alberto, Maria e Teresa.

Um rato recém-nascido, bem como uma criança e um passarinho recém-


nascidos, apresentam, portanto, um sistema nervoso apropriado (circuitos
neuronais) capaz de produzir condutas adequadas para facilitar a sobrevida
deles; por exemplo, procurar ligar-se a um outro indivíduo da mesma espécie
e mais adulto para criá-lo, procurar alimento, fornecer sinais diante do
sofrimento etc. Os circuitos ligados às emoções são geneticamente prefixados
ou preestabelecidos e designados para responderem, incondicionalmente,
isto é, sem experiência, ou seja, sem aprendizado, aos estímulos provocados
por diversas circunstâncias e mudanças do meio ambiente. De outro modo,
os animais, como nós, reagem, automaticamente, diante de informações
detectadas do meio interno e externo, principalmente as inesperadas,
perigosas ou muito atraentes. Vista da perspectiva evolucionária o medo é
central para a sobrevivência do pardal (e todas as aves) do terraço e para
todos os mamíferos desse planeta.

Do mesmo modo: José, hoje, levantou-se irritado. Não posso imaginar o


que está acontecendo com ele; ontem cedo notei que ele estava triste; mas
à noite estava alegre. O que sei é que José sempre foi um sujeito tímido
e cabisbaixo; por qualquer motivo fica vermelho de vergonha. Sua mãe,
Feliciana, é uma mulher tristonha, seu pai, Raimundo, é um raivoso crônico.

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Euler e Aldegundes – Dois
comandos: Cortical e
subcortical
Euler gosta de abacaxi. Aldegundes, sua amiga, detesta abacaxi. Alguns
falam que abacaxi é gostoso, outros que não. Alguns homens, classificados
como heterossexuais, são atraídos sexualmente por certas mulheres; alguns
homens, categorizados como homossexuais, procuram certos tipos de
homens.

Ora, todo esse palavrório foi escrito para esclarecer certas afirmações.
Abacaxi não é bom ou gostoso por si mesmo; ele foi avaliado pelo paladar de
Euler e categorizado, por ele, de gostoso. Aldegundes, por sua vez, uma outra
pessoa, inclusive de outro gênero, segundo sua degustação, o classificou de
horrível.

Em si mesmo, o abacaxi não pode ser avaliado, quando o é, por alguma


pesquisa de opinião. Nesse caso ele foi julgado por pessoas, seres humanos,
que, pelo menos se espera, o provaram. Na realidade o abacaxi foi
avaliado pelas reações prazerosas que ele causa a Euler e pelas sensações
desagradáveis que provoca em Aldegundes.

Do mesmo modo, para um homem heterossexual certa mulher (o contrário


é verdadeiro: as mulheres com os homens) provoca nele uma antecipada
reação emocional de prazer e, na possibilidade de existir um encontro,
possivelmente este continuará a dar um prazer semelhante ao anterior,
pelo menos durante algum tempo. Para o homem heterossexual, um
outro homem, caso o imagine numa cama com ele, lhe provocará uma
aversão e não atração, como o abacaxi produz em Aldegundes. No caso do
homossexual, o oposto acontecerá: a antecipação de prazer virá do possível
envolvimento com um do mesmo sexo.

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O Dilema de Jonas
O complexo nada mais é que um conjunto de coisas simples. Pois bem, Jonas
encontrou Linda, pela primeira vez, na festa de aniversário do sobrinho.
Até aí um fato muito simples. Ao passar, esguia, com seus olhos cor de mel,
brilhantes e atentos, Jonas ficou dominado pela sua presença. Parou por
instante a animada conversa que mantinha com o grupo de amigos, fitando-a.
Em seguida, procurou Madalena, sua irmã e colega de Linda, pedindo-a
para apresentá-la a ele. Um agradável bate-papo foi iniciado entre os dois.
Jonas estava encantado com Linda. Ela possuía uma pele lisa, ligeiramente
rósea; não chamava a atenção pela beleza, mas sim pela simpatia e alegria
constante. Era uma mulher que prendia os homens pelo seu modo de ser,
uma maneira interna que não sabemos definir. Jonas, como um cão atrás da
cadela no cio, perseguia Linda em todos os lugares. Ele aproveitava qualquer
oportunidade para aproximar-se mais, conversar qualquer coisa, fazer
gentilezas, brincar, em resumo, agarrar-se a ela.

Um primeiro encontro, para o dia seguinte, foi marcado. O namoro começou


cheio de entusiasmo dos dois lados. Jonas, como ocorre em todas as paixões,
acreditou ser Linda a mulher dos seus sonhos. Para si mesmo dizia: “Linda
tem tudo que quero; com essa eu me caso”.

Encontro vai, encontro vem, o tempo foi passando. Maldito tempo e contatos
que nos revelam detalhes, filigranas que não podíamos ver num encontro
rápido e superficial. Aos poucos, virtudes visíveis e encantadoras de Linda
começaram a ser examinadas de perto, através de olhos mais críticos e,
também, menos apaixonados. Aos poucos, alguns atributos de Linda,
avaliados, no período da paixão, como positivos, se transformaram em
negativos. Seu encantador sorriso, seus cabelos claros, seu pescoço comprido
de girafa, tudo isso e muito mais, no início do namoro foram classificados
como belo, simpático e atraente, mas, depois, ao perder o encanto, se
transformaram em características negativas e aversivas.

Essa nova maneira de Jonas avaliar Linda, nos diversos detalhes, foi
provocada, fundamentalmente, por um fato pequeno e singelo, que podia ser
sem importância, nem mesmo aparecer em sua mente. A característica chave
ou principal, que podia nem ter sido notada, ou até considerada positiva, foi
a que provocou a atenção, a preocupação e a emoção negativa continuada

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de Jonas. A cada dia mais, após cada encontro, ele notava ou imaginava, não
sei bem, que ela era muito desinibida, extrovertida e fácil de se relacionar.
Jonas, vendo-a falante e alegre, teve medo de perdê-la. Essa descoberta ou
criação de Jonas, fruto de sua grande desconfiança nela e pouca confiança em
si mesmo, contaminou diversos outros pensamentos seus, transformando a
idéia central que ele tinha dela.

Jonas, obcecado pela maldita suspeita da extroversão exagerada – que


poderia nem ter existido ou ser sem importância – pensava sem parar nos
possíveis riscos que corria. A suspeita foi dominando seus pensamentos,
impedindo a entrada de outras hipóteses diferentes e melhores que a
principal. Uma vez aceita a categorização “desinibida” para a namorada, sua
mente estimulada pelo câncer maligno adquirido deu origem a metástases,
todas elas interligadas à suspeita básica e dominante: “Se Linda é desinibida,
isto é, pouco tímida, ela, consequentemente, sorri diante e para outros
homens. Também, sendo muito alegre e amável, ela, consequentemente,
conversa facilmente com as pessoas. Se ela se abre com sorrisos e conversas
com outras pessoas, e entre essas pessoas estão outros homens, essa
conduta facilita a aproximação deles. Uma vez mais próximos, um ou
mais deles – como ela é muito atraente – sem dúvida, poderá, caso tenha
habilidade e simpatia, agradá-la e conquistá-la. Ora, como tudo isso é possível
e muito lógico, ela, possivelmente, na minha ausência, poderá encontrar-
se, ou já se encontrou, com outros rapazes sem meu conhecimento. Posso
concluir que é provável que devo estar sendo traído por Linda com um ou
com vários rapazes. Tudo isso é terrível! Sou um chifrudo e não sabia”.

Jonas, a partir dessa cadeia de suposições derivadas de uma suposição


(crença) inicial incerta, acreditando na hipótese, sem examiná-la e sem
questioná-la, desesperou-se à medida que seu raciocínio e sua lógica
levaram-no a imaginar que Linda estava envolvida com outros possíveis
namorados, ou seja, lhe traindo. A mulher de seus sonhos, para ele, era
um pouco, talvez muito, “pra frente”, extrovertida demais, fácil de ser
conquistada. Emocionado com seus próprios julgamentos, chegou a uma
terrível conclusão: “Linda, minha namorada, é uma ‘piranha’. A partir desse
maldito diagnóstico ele entrou em pânico.

Mas Jonas podia estar errado quanto à crença que deu origem a todo o
raciocínio, bem como estar errado quando à forma com que elaborou seu
pensamento. Interessante em tudo isso é que, ao mesmo tempo em que ele
a acusava interna e emocionalmente, torcia para que ele próprio estivesse
errado. Entretanto, sua cabeça desconfiada de mineiro lhe fornecia mais e

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mais suposições e possíveis dados que aumentavam suas dúvidas quanto ao
comportamento íntegro de sua amada. Foi assim, munido dessa ferramenta
mental deturpada, que ele observava e julgava a conduta da namorada,
ou seja, sua mente, tendo como lanterna as suspeitas, focalizava suas
observações somente nesse ângulo. Um simples sorriso de Linda, que antes
da suspeita era julgado como uma forma de alegria, digno de elogio, agora,
após a desconfiança, passou a ser julgado como sinal evidente de traição, e,
consequentemente, risco de ficar sem ela.

Entretanto, talvez lamentavelmente, vários atributos físicos, emocionais e


cognitivos de Linda continuavam a atrair Jonas, produzindo dúvida e um
grande sofrimento. De um lado, havia uma forte atração e desejo por ela,
levando-o a desejar estar sempre juntos; de outro lado, existia uma aversão,
o risco e a vergonha que ela poderia trazer para ele.

Para complicar tudo isso, algumas características que Jonas criticava em Linda
– a desinibição ou extroversão – eram, ao mesmo tempo, o que o atraía e
o encantava. Assim, Jonas era atraído pelas mulheres desinibidas, alegres,
sorridentes e ativas, mas, também, tinha pavor de casar-se com uma mulher
muito livre e capaz de se entrosar facilmente com todos, ou seja, uma mulher
classificada intimamente por ele, durante sua raiva, de “piranha”.

Ele, por um lado, estava preso e apaixonado pela Linda concreta e única,
possível de ser observada. Por outro lado, tinha horror ao conceito “piranha”,
um conceito que ele próprio havia fabricado para ela. O conceito “piranha”,
como todo conceito – generalização de certas condutas concretas – não
pode ser observado e testado pelos órgãos dos sentidos. Ele é somente uma
criação do nosso intelecto, não uma percepção dos órgãos sensoriais. Diante
dessa confusão mental surgida entre o observado e o construído e não-
observável, Jonas não sabia que direção tomar. As condutas (sorriso, formato
do nariz, cor da pele, olhos etc.) de Linda foram observadas, mas o nome
usado para reunir tudo numa abstração – um conceito organizador – não
pode ser observado, pois isso é impossível. Desse modo não podemos provar
ou negar empiricamente – com fatos observáveis – a “piranhice” de Linda.
Jonas não sabia o que fazer. Ir ou não ir em frente, continuar ou acabar com o
namoro?

Jonas imaginou duas saídas: a primeira seria desistir de Linda. Esse


pensamento lhe era muito doloroso; ele não conseguiria viver sem sua
presença. A segunda opção era aceitá-la com todos os seus predicados e
engolir ao mesmo tempo a semente e a casca. Mas como seria seu futuro?

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Jonas sofria. Passava as noites pensando no seu problema e nas soluções;
emagreceu seis quilos; entrara num beco sem saída. Desolado, refletia
choramingando: “Se tentar esquecer Linda, irei perder o que me faz ficar feliz,
mas, se me caso, terei de conviver com seu “defeito”, fazer uma aliança com o
indesejável, hospedar um vírus que me destruirá”.

Sem encontrar uma solução satisfatória por si só, após muito pensar, ele
decidiu pedir conselhos aos amigos e, também, aos padres, pastores e
conselheiros espirituais das igrejas frequentadas. Após diversas discussões
com os mentores espirituais, foi estabelecida uma tentativa de solução.

Aconselharam-no a não se modificar para adaptar-se à Linda existente


conforme sua categorização, mas sim, pressionar Linda para ajustar-se aos
seus princípios e desejos, pois, segundo os conselheiros, suas normas eram as
certas. Em resumo: ela deveria se transformar e ele se esforçar para que ela
mudasse sua forma de se comportar.

O objetivo era claro: transformar Linda numa pessoa mais inibida ou, segundo
seu rótulo, menos “piranha”, numa mulher mais santa, ou, de outro modo,
dominada mais pela razão que pelas emoções. A meta imaginada parecia
simples; ele sabia, claro como água, o que desejava de Linda. Segundo suas
previsões, bem como a dos amigos/conselheiros, ela, uma vez modificada –
transformada de desinibida em inibida – seria amada sem restrições por ele,
o conflito estaria encerrado e, logo, suas preocupações terminariam.

Jonas, confiante e revigorado, iniciou seu trabalho de catequização. Para isso


usou algumas técnicas conhecidas: algumas aprendidas na própria família,
outras fora do meio familiar, entre essas ele usou as recriminações, pedidos,
exigência de submissão, conversa “lógica”, agressão verbal, estratégicas
sofisticadas de manipulação, ida ao “pai de santo”, e ajuda das “sensitivas”
e tudo o mais, conforme o ensinado pelos amigos. Cada uma das táticas
imaginadas para mudá-la, dentro da estratégia, foram usadas e examinadas
com avaliações constantes do processo usado e dos resultados obtidos em
cada etapa. Tudo estava sendo avaliado também para se adequar aos valores
dele e da família.

Milagrosamente, como num passe de mágica, Linda deixou de ser desinibida;


para Jonas, “piranha”. Aos poucos ela foi ficando mais calada e mais tímida,
passiva, menos comunicativa e quase sem sorrir. Jonas, radiante com o
sucesso do tratamento, iniciou planos para o casamento. Mas, como disse
o poeta: “todo começo tem seu encanto”. As relações de Jonas e Linda não

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fugiram à regra.

Jonas, que ficou inicialmente encantado com o sucesso de sua terapia, com
a nova Linda que emergiu, lamentavelmente, teve sua alegria diminuída,
não porque a terapia tenha parado de funcionar, mas porque o tratamento
transformou-a numa pessoa bastante diferente da Linda amada e adorada
por Jonas. À medida que ela foi se transformando, deixou de ser a antiga, a
conhecida e amada. Linda tornou-se uma outra, a não-conhecida, também, a
não amada.

Assim termina nossa história: não demorou muito para que Jonas começasse
a ter saudades da antiga Linda, aquela que morreu assassinada por ele e seu
grupo, a alegre, desinibida, pra frente, talvez, até “piranha”.

A nova Linda, nascida da antiga, a partir do “tratamento” utilizado, nada


tinha a ver com a sedutora e encantadora jovem. Ao contrário da anterior, ela
era insossa, pura demais, chata, orgulhosa, andava encurvada devido a sua
arrogância e orgulho por não ser pecadora. Jonas, por mais que tentasse, não
mais conseguiu enxergar na atual Linda a outra que ele tanto amara.

Sem mais se sentir atraído e, também, sem suspeitas de estar sendo traído,
Jonas, desolado, decidiu fazer nova tentativa. Iniciou uma nova terapia para
reverter o quadro existente, ou seja, transformá-la de novo na Linda da festa
do aniversário do sobrinho, a antítese da atual. Ele estava inconsolável com a
perda. Não imaginava como era bom conviver com a “piranha” que ele tanto
agrediu. Era dela que ele gostava. Por azar, a terapia não deu resultado. Linda
continuou a ser inibida e “não-piranha”, para sempre. A relação amorosa
entre os dois terminou fria como as noites de junho.

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Discussão do Caso Jonas
A solução de um problema (tomada de uma decisão) como o descrito
acima não é um procedimento simples e racional; é um processo complexo
no qual a emoção, a ação e a cognição estão intimamente ligadas, cada
uma influenciando as outras. Estes aspectos devem ser considerados para
compreender alguém que não está agindo efetivamente, isto é, que parece
estar agindo como um idiota.

A primeira avaliação da situação, chamada de primária, é a relacionada à


decisão: se a situação é ou não problemática para ele. Se ela for considerada
problemática – como foi descrito no caso de Jonas – parte-se para identificar
e avaliar o custo associado à solução do acontecimento-problema. Para
executar isso a pessoa terá que construir um modelo mental da situação
global, utilizando-se das informações existentes e accessíveis na sua memória
autobiográfica, isto é, seu estoque de conhecimentos. Deverá ser comparado,
além do problema, as metas e os valores existentes em sua mente,
verificando se há ou não uma desarmonia entre o “desejado” – o objetivo
planejado – e o que está ocorrendo de fato, as circunstâncias atuais.

Esse processo de avaliação e comparação pode ser consciente, demorado e


reflexivo, mas também pode ser inconsciente, automático, quente e imediato
(intuitivo). Neste último caso a pessoa não sabe como ele chegou a alcançar
a conclusão particular, nem formar uma avaliação da solução que seria mais
acertada. Parece que a maioria dos nossos julgamentos e ações se assenta
em paradigmas inconscientes (proposições, afirmações gerais, princípios,
modelos, categorizações) geradores do raciocínio, quando este existe.

Uma vez que a situação foi percebida como problemática, surge uma outra
avaliação, a secundária: qual o curso da ação que deverá ser efetuada para
tentar controlar a situação? Largar Linda? Mudar a si mesmo? Tentar mudá-
la? Quando a pessoa consegue identificar os meios capazes de resolver o
problema e, caso tenha recursos pessoais ou de outras pessoas para ajudá-
la na solução, a reação inicial de emoções negativas (ansiedade e estresse)
é diminuída. Nesse caso a pessoa começa, provavelmente, a engajar-se no
comportamento lutador e solucionador.

Se os meios apropriados de lidar com a situação não podem ser identificados


facilmente, a pessoa pode reanalisar ou reavaliar conscientemente a situação.
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Nesse caso examina as suposições usadas para solução de problemas
semelhantes e os novos recursos existentes para enfrentá-lo.

A atividade cognitiva tem sido percebida como um diálogo privado acerca da


natureza da situação em que ele se encontra, seu código moral, como isto
reflete sobre a sua auto-imagem etc. Estes diálogos comumente envolvem
valores e objetivos a longo prazo que podem estar ou não implicados na
situação imediata. Aceito Linda como ela é ou abandono-a de uma vez; ou,
quem sabe, ela poderá vir a ser outra? Tais diálogos podem ser disfuncionais
(insensatos), isto é, mal feitos e, como resultado, atrapalharão ainda mais
os pensamentos, tornando a pessoa mais incapaz de lidar com o problema
existente, pois foi criado um segundo problema: uma esquematização mal
feita do problema. Ocorrendo isso a reação inicial de estresse é aumentada,
e, assim, atrapalhará mais ainda o pensamento e o comportamento. Esta
estratégia defeituosa é bastante comum.

Diante de um problema, como o ocorrido com Jonas, ele, num certo aspecto,
prepara-se para ficar bem equipado para administrar a reação de estresse
interna: soluções cognitivas para resolvê-lo: “O que fazer?”; “Que estratégias
usarei?” além de buscar soluções para diminuir o sofrimento físico e
psicológico: “Procuro uma ajuda?”; “De quem?”; “Tomo algum calmante?”.
Ao mesmo tempo, ele prepara-se, também, para lidar “externamente”, isto
é, com a situação problema, nesse caso, a mudança da maneira de agir de
Linda. Estou trabalhando com a hipótese, para simplificar a discussão, que
Linda, passivamente, concorda com os desejos de Jonas (o que na maioria das
vezes não ocorre), pois, caso contrário, as hipóteses seriam outras, e muito
mais complexas.

A maioria das pessoas, diante de um problema semelhante, envolve-se nas


duas espécies de comportamentos: interno e externo. As pesquisas sugerem
que as pessoas são menos eficientes para administrar seus problemas
internos (emoções surgidas), que para administrar as situações problemáticas
externas (fatos concretos e observáveis). Se a pessoa lida com a situação/
problema, a reação estressante geralmente diminui. Entretanto, se a pessoa
falha ao lidar com o problema, a idéia deste permanece em sua mente,
incomodando-o constantemente: “O que vou fazer?”. O pensamento acerca
de como reagir, que decisão deverá ser tomada, vem à memória a todo
o momento. Jonas poderá ficar pensando em Linda, na sua característica
positiva, por exemplo, sua beleza, alegria, ou seja, o que ele estará perdendo
caso a abandone e, em outro momento, pensar, também, no seu defeito, “pra
frente” e “piranha”, isto é, do que estará se livrando.

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Quando não se sabe o que fazer, a pessoa torna-se mais tensa e nervosa
e pode apresentar reações altamente disfuncionais – choro, agressão,
assassinato, abandonar o trabalho etc. – as quais, posteriormente, irão
exacerbar a situação-problema e têm um impacto debilitante sobre o bem-
estar físico e psicológico, piorando sua capacidade para solucionar problemas,
exatamente quando o problema exige uma maior habilidade.

No processo de avaliação, consciente ou reflexivo e inconsciente ou


instantâneo, joga um papel central a excitação emocional. A experiência
emocional nos seres humanos é frequentemente caracterizada por ser
aparentemente instantânea, rápida, imediata e de natureza incontrolável.
Alguns autores sugeriram que esses aspectos da emoção surgem das
estruturas subcorticais, não-verbais, onde o processo informativo age
automaticamente, fora da consciência. Para esses estudiosos, a cognição, ao
contrário da emoção, não é eficiente para resolver problemas rápidos e, além
disso, ela, na maioria das vezes, está contaminada pelas emoções. Nesse
caso citado houve uma intensa atração por Linda independente das palavras
usadas para descrever o sentido por Jonas e, ao mesmo tempo, uma emoção
negativa provocada (fabricada) pela cognição: “Ela é uma “piranha”. Esta
conclusão baseia-se em diversos princípios morais e religiosos aprendidos
que a pessoa, sem querer, faz uso sem ter consciência de como ela foi
construída e evocada.

Quando uma situação é interpretada como problemática e tem um custo


significativo para a pessoa, há o aparecimento da reação de estresse, junto à
representação desta, ou seja, de emoções desagradáveis. O aparecimento da
emoção se evidencia através de mudanças fisiológicas – aumento da pressão
sanguínea, respiração rápida, urgência urinária, sudorese etc. – mediada
através dos sistemas neurendócrinos, os quais, no caso de emoções sentidas
como negativas, são experimentadas como indesejáveis.

Tanto os componentes cognitivos como os fisiológicos das emoções criam um


retorno negativo para o organismo que, por sua vez, pode ter um impacto
adverso na atividade cognitiva avaliadora. Existem evidências que certas
emoções (raiva, medo, ligação afetiva etc.) podem afetar aspectos diferentes
da atividade processadora mental.

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Explicação sofisticada do caso
do abacaxi e de Jonas: Regiões
subcorticais e corticais
Euler gosta de abacaxi porque quando põe um pedaço na boca – ou mesmo
antes de pôr – seu organismo sente prazer no momento do contato da fruta
com sua boca, especificamente, com as papilas gustativas existentes na
língua, sem que Euler faça com seu pensamento nenhum esforço para avaliar
positivamente ou negativamente o fato. De outro modo: a parte de seu
organismo (regiões neurais e neurotransmissores) comandada por setores
chamados subcorticais, situados abaixo do córtex cerebral, daí o nome, são
estimulados positivamente, independente de sua vontade, do nome que ele
dá a isso e da vontade de outras pessoas. É um prazer natural, que provoca
em seu organismo um estado corporal agradável, possivelmente devido à
liberação, como disse, de neurotransmissores, entre eles a noradrenalina,
serotonina, dopamina e peptídeos como neuromoduladores peptídeos:
endorfinas, oxitocina etc. Todas essas substâncias são liberadas durante
estimulações agradáveis.

Portanto, Euler gosta de abacaxi porque seu organismo como um todo se


sente bem quando ele imagina ou come um pedaço dessa fruta; também, ele
gosta de abacaxi porque, ao cheirá-lo, mastigá-lo e engoli-lo seu organismo
libera certas substâncias químicas que provocam um estado de prazer.

Aldegundes, por outro lado, não gosta de abacaxi por razões opostas
às de Euler. Quando ela imagina deglutir ou quando mastiga o
abacaxi, seu organismo se sente mal, há uma aversão e não atração
ao comê-lo, possivelmente com inibição da liberação ou produção dos
neurotransmissores e peptídeos descritos acima, isto é, dos que provocam
prazer. Ao contrário, ao comer o abacaxi o organismo de Aldegundes irá
liberar outros agentes químicos, diferentes, isto é, os que são produzidos
quando nós nos sentimos mal, com asco, nojo, mal-estar etc.

O mesmo caso do abacaxi acontece com o homem heterossexual diante de


uma mulher atraente para ele, num certo momento, num certo lugar etc.
Também, os homossexuais diante de um outro indivíduo do mesmo sexo do
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seu que apresente fatores estimuladores para seu organismo, independente
de sua vontade, isto é, quem decide é a parte do seu cérebro subcortical,
naturalmente, sem uso de idéias, argumentos, princípios etc., pois são
reações automáticas e espontâneas que não dependem de esforço. A região
subcortical do cérebro não pensa, mas pode estimular ou desestimular a
parte cortical a pensar, raciocinar etc.; a função ou ação do subcortical é
espontânea, pura, livre de conceitos e preconceitos.

Entretanto, do mesmo modo que Aldegundes poderá, para agradar a Euler,


comer, quase vomitando, abacaxi que ele lhe ofereceu (fingindo que está
gostando), também o heterossexual poderá, sem nenhuma vontade interna,
mas simplesmente para agradar o amigo ou, ainda, ganhar algum dinheiro,
ter um relacionamento homossexual com este ou aquele. E, por outro lado,
também o homossexual pode, devido a pressões sociais, medo de desagradar
os pais e etc. transar ou mesmo casar-se com uma pessoa do sexo oposto
ao seu, manter relações sexuais com esta, ter filhos etc. Segundo estatísticas
que li, não sei se estão certas, essa conduta ocorre em 15 a 20 % dos
homossexuais, sejam masculinos, sejam femininos.

Como descrevi, no caso da relação de um homossexual com um parceiro do


outro sexo, ou do heterossexual transar com um homossexual, influenciado,
não por pressões da região subcortical, mas sim pelo comando autoritário
da região cortical, eles, durante as carícias típicas do contato sexual,
possivelmente terão o mesmo “prazer” que ocorreu quando Aldegundes
comeu o abacaxi para agradar Euler.

Esse esforço para agir de “maneira correta”, segundo as “normas” do grupo


majoritário e não conforme o “biológico” ou subcortical, é uma imposição de
alguns sobre os outros (minoria). Muitas vezes, aceitamos ou confundimos a
maioria (a voz do povão) com o certo (a voz de Deus). Inúmeras crenças que
foram aceitas pela maioria como corretas, foram, posteriormente, rejeitadas,
também pela maioria atual (escravidão, proibição das mulheres votar etc.).

De outro modo: as normas sociais (leis, padrões) da população e da


Igreja, muitas vezes, não se harmonizam com as “leis”, padrões dos
estados corporais das pessoas. As papilas gustativas de Aldegundes não se
harmonizam ao odor e gosto do abacaxi tão apreciado por Euler. De modo
semelhante, ainda não foi bem explicado o que leva um grupo menor da
população adulta a procurar parceiros para contatos sexuais com indivíduos
do mesmo sexo, diferente da maioria de adultos que procura parceiros de
sexo diferente do seu. Esse grupo “estranho” maior e “certo” seria “tão

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doente” quanto o enorme grupo da população que não quis ser médico
como eu, bem como o grupo que não gosta de futebol, de bordar, praticar
alpinismo ou criar abelhas. Não tenho a estatística dos esquisitos, como
Aldegundes, que não apreciam o saboroso abacaxi.

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Desenvolvimento e função do
cérebro: a fábrica/organismo

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Afinal, que é o Cérebro?
O cérebro do homem adulto normalmente pesa de 1 a 1.5 kg. Uma diferença
no peso e no tamanho do cérebro não se correlaciona com capacidade
mental; o tamanho e o peso do cérebro do elefante é quatro vezes maior
que o do homem. Nos animais invertebrados, grupo de gânglios (conjuntos
de células nervosas, de substância cinzenta) ou, algumas vezes, um simples
gânglio funciona como um cérebro rudimentar. No interior do cérebro do
homem existem inúmeros gânglios que fazem o papel de “um pequeno
cérebro” ou de “estações provisórias”, “secretarias”, uma delas, por
exemplo, mais relacionada aos movimentos; uma outra ligada às emoções
etc. Provavelmente, durante os primórdios da evolução elas estavam mais
independentes e poderosas, entretanto, no cérebro do homem moderno,
elas trabalham interligadas, em conjunto, supervisionadas pelos córtices mais
modernos (também chamado de neocórtices).

“Córtex” significa ‘casca’ ou ‘crosta’. Assim, por definição, todo o córtex deve
estar na superfície, na ‘casca’ da estrutura. O córtex cerebral apresenta uma
espessura de 3 a 5 mm, muito dobrada em si mesma, formando folhas do
tecido cobrindo a superfície dos dois hemisférios cerebrais. Nosso enorme
córtex cerebral fez nascer o ser humano que nós somos. As descobertas
realizadas após o estudo do cérebro através das imagens funcionais
computadorizadas revelaram inúmeros aspectos do funcionamento dessa
região do organismo antes desconhecida.

Cada hemisfério cerebral está dividido em quatro lobos: frontal, parietal,


occipital e temporal. A superfície dos quatro lobos é composta de substância
ou matéria cinzenta, sendo conhecida como córtex cerebral. Essa camada
de células é altamente dobrada, aumentando assim a área da superfície
cortical disponível dentro do limite da cabeça do homem. O córtex é o local
das sensações, percepções, emoções, memórias, linguagem e pensamento e,
portanto, produz nosso comportamento e todas as funções cognitivas mais
elevadas, entre elas, as abstrações.

Por meio de impulsos eletroquímicos o cérebro, diretamente, controla o


comportamento consciente e voluntário; entre esses: o caminhar e pensar.
Mas esse mesmo cérebro monitora, através de circuitos de ida e vinda
(retro-alimentação ou “feedback”), a maioria das condutas involuntárias.

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Por exemplo: através das conexões com o sistema nervoso autônomo se
produz o ajuste dos batimentos cardíacos, a produção de hormônios, a
pressão sanguínea, a postura do corpo e outras funções. Estimuladas, áreas
do encéfalo detectam a sede; isso põe para funcionar outros setores, esses
levam o organismo a procurar a água. Através desse processo o equilíbrio,
antes perturbado, é restaurado.

Uma vez a água sendo ingerida, o setor (que antes tinha alertado o organismo
acerca da sede) informa às áreas que haviam sido postas em ação, que não há
mais necessidade de procurar água. Desse modo, por meio dos “feedbacks”,
fecha-se o círculo disparado.

O cérebro do homem é onde se encontra a “mente” (“espírito” ou “alma”), o


local onde são realizados os processos cognitivos relacionados à percepção,
interpretação, imaginação, memória etc. Seu possuidor poderá estar, ou não
estar consciente do que está ocorrendo em seu cérebro. Por outro lado, as
funções cognitivas podem atuar regulando alguns processos autonômicos
essenciais para o bom funcionamento do comportamento (o que tem sido
chamado de determinação, vontade etc.). Nesse caso, o indivíduo, diante de
uma provocação, pode não participar dela.

Os centros e circuitos neurais relacionados às emoções podem ter


importância no tipo de produção cognitiva da pessoa (uma pessoa mais
alegre produz mais idéias acerca de um problema). Portanto, de um lado, as
funções mais elevadas e relacionadas ao nosso pensamento poderão atuar
nas partes mais baixas do cérebro (emoções, por exemplo); por outro lado, as
partes mais baixas podem atuar na cognição modificando nossa maneira de
pensar e de agir; as duas formas trabalham em paralelo, estão interligadas.

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Algumas funções do encéfalo
Funções cerebrais

O sistema nervoso central (SNC) desempenha funções de controle do


organismo: contrações musculares, atividades viscerais que se modificam
rapidamente e, também, produção de emoções, tomadas de decisões de
nossas ações.

O SNC pode receber literalmente milhares de informações de diferentes


órgãos sensoriais de dentro do organismo e de fora dele e, em seguida,
pode integrá-las a fim de determinar respostas a serem dadas. A maioria
das atividades do sistema nervoso tem origem na experiência sensorial
procedente dos receptores sensoriais, sejam visuais, auditivas, tácteis e
outras ou internas dos órgãos e dos músculos. A experiência sensorial pode
provocar uma reação imediata, ser memorizada e armazenada no cérebro
por segundos ou por toda a vida a fim de auxiliar a determinar as reações do
organismo em qualquer data futura.

O sistema nervoso não seria eficiente se diante de cada estímulo sensorial


causasse alguma reação motora. Portanto, uma das funções principais do
sistema nervoso é o de processar a informação que o atinge de tal forma que
resultem respostas apropriadas, sejam motoras, emocionais, motivacionais
e cognitivas. Uma enorme quantidade de informações sensoriais é
continuamente descartada pelo cérebro como pouco importante, como, por
exemplo, as partes do corpo que estão em contato com as roupas, a pressão
do corpo quando estamos assentados, os sons fora dos meus objetivos,
as luzes, cores e formas não focalizadas pela atenção etc. Uma vez que a
informação válida foi selecionada, ela precisa ser canalizada para as regiões
motoras, emocionais ou cognitivas do cérebro.

Compreende as funções primárias do cérebro: movimento, memória,


emoção, linguagem, decisões, avaliações, relações sociais e diversas outras.
Cada um desses processos irá influenciar diretamente o comportamento
(ou experiência) em cada instante. Por conseguinte afetará a adaptação da
pessoa ao meio ambiente físico e social.

As redes cerebrais modificam suas conexões à medida que são realimentadas

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pelos ambientes externo e interno, alterando, assim, a memória de longa
duração, o estado geral de alerta decorrente da estimulação sensorial, o
sentimento, a reatividade, o ritmo, a motivação, o envolvimento emocional
e uma série de outros traços. Por tudo isso, surgem problemas com a
linguagem, o senso de oportunidade, a reação de medo, os níveis de
estimulação e outros. Os problemas das funções cerebrais gerais tornam-
se mais graves quando há defeitos na informação de entrada, como os da
atenção e percepção.

Percepção
O encéfalo não armazena mecanicamente as informações adquiridas; ele é
mudado sempre que interage com o mundo; ele é plástico, torna-se diferente
conforme é estimulado. A percepção é o portão de entrada através do qual
recebemos informações intermediadas pelos nossos órgãos dos sentidos e
através de nossa consciência. A percepção é o princípio da experiência.

Os problemas nessa área começam, muitas vezes, no início do


desenvolvimento do embrião; os transtornos se manifestam, quase sempre,
mais tarde. Um déficit na percepção pode mudar o curso do desenvolvimento
cognitivo emocional e social para sempre. Uma continuada percepção
defeituosa pode dificultar muito o indivíduo; limita sua eficiência favorecendo
o fracasso. Como a vida mental desenvolve-se, primordialmente, em
respostas às informações que o cérebro recebe e aprende, logo, um defeito
nas “entradas” das mensagens poderá prejudicar o produto final armazenado,
fruto dessa função: o conhecimento.

Atenção, consciência e cognição


Ao prestarmos atenção a uma percepção, adquirimos consciência de sua
existência; nós refletimos sobre ela, examinamos e reagimos a esta. Através
da atenção o indivíduo representa o mundo para si mesmo, observa-o,
momento a momento e, talvez, interpreta-o. Os problemas originais na
percepção resultam gradualmente em déficits cognitivos, quando o cérebro
tenta aprender e adaptar-se a uma vida de informações defeituosas. Muitas
e muitas vezes, as cognições defeituosas (teorias, ideologias) ofuscam uma
percepção adequada à realidade.

A consciência também está sujeita à sua própria vulnerabilidade, em


particular às dificuldades com a atenção e a memória. A qualidade da

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consciência íntima de cada um pode deteriorar-se quando percepções
mal formadas dificultam mudanças da atenção, quando redes cognitivas
defeituosamente construídas redundam em confusas representações internas
do mundo dominadas pelos modelos e não pela realidade (o mapa é mais
importante que o território; come-se o menu em lugar do churrasco). Isso
deixa o cérebro impedido de observar os estímulos, faminto de informações
exatas que, infelizmente, nunca conseguem penetrar, pois as idéias não
permitem.

Identidade e comportamento
Constitui a produção final e sintética do cérebro: as decisões, o
comportamento e o senso histórico de si mesmo, uma soma total de traços
neurais e psicológicos que, num certo momento, se torna uma determinada
pessoa.

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Setores e função: a fábrica/organismo

O Organismo/Fábrica e os
Genes
São nossos genes, recebidos durante a fecundação, que determinam,
de modo preciso, o funcionamento e a forma dos circuitos prontos para
operar já no nascimento (tronco cerebral, hipotálamo e outros); uma fiação
neuronal que interliga regiões do corpo, tubos onde circulam nutrientes
(sangue, linfa, líquido cefalorraquidiano etc.). De outro modo, os genes são
os materiais usados no levantamento da construção da fábrica, bem como
a maneira que eles precisam ser arrumados ou organizados para formar a
fábrica final (recém-nascido) existente no projeto imaginado pelos arquitetos,
engenheiros e pessoal encarregado (a evolução).

Por outro lado, também, são os genes que propiciam a possibilidade


do crescimento ou desenvolvimento de outros circuitos (outras linhas
de ligações pós-nascimento) que ainda não estavam formados no
nascimento, virtualmente, todos os sistemas regionais que sofrem
modificações continuadas em virtude das experiências. Para que haja
esse desenvolvimento torna-se necessário que o organismo seja ativado à
medida que a pessoa interage ou relaciona-se com determinados ambientes
físicos e sociais. Este crescimento se realiza com a ajuda da produção de
neurotransmissores (dopamina, noradrenalina, serotonina, acetilcolina etc.)
liberados em regiões dos córtices cerebrais e dos núcleos subcorticais.

É bem conhecido que a musculatura corporal irá aumentar somente se seu


possuidor a usar, exercitando esse ou aquele músculo; também sabemos
que a nossa fala, que parece tão natural, só acontecerá se o menino for
estimulado pela fala de seus criadores. Um menino normal não irá aprender
a falar se viver num conjunto composto apenas de pais surdos-mudos.
Também, aprende-se a ler se esse hábito for estimulado.

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Desse modo, podemos afirmar que os genes coordenam e preparam a
estrutura cerebral inicial e precisa para trabalhar de mãos dadas com a outra
estrutura que ainda vai ser construída; uma edificação que dependerá da
maneira de viver do construtor. Assim, o edifício final dependerá da ação dos
elementos:

1. estrutura exata de seus componentes iniciais (tijolos, cimento, areia,


água, fiações, ferragens etc.)

2. atividade particular de cada indivíduo/fábrica e das circunstâncias do


meio ambiente enfrentadas

A construção final erigida – a examinada num certo momento – dependerá


da boa estrutura inicial do organismo, do ambiente humano e físico
encontrado, das ações tomadas diante de tudo isso, mas, também, muito
do acaso. O perfil imprevisível – aleatório – das experiências singulares
de cada indivíduo/fábrica durante sua vida tem realmente uma fantástica
importância na construção final da grande fábrica/organismo tanto direta
como indiretamente.

Qualquer leitor se lembra que, por um acaso, ele encontrou uma pessoa que
iniciou uma mudança em sua vida; por uma acaso fez uma viagem e sofreu
um acidente que mudou tudo; por azar, foi ao cinema e lá conheceu Joana
ou Pedro que acabou com sua paz. Também por acaso conversou com um
professor que lhe falou certas coisas, que, por sua vez, fizeram uma grande
virada em seus planos.

Cada leitor tem sua história particular; recupere-a por instantes e veja se
tenho ou não razão de dar tanta importância aos acasos da vida. Lembre-se
bastante, principalmente daquele dia que você virou outra pessoa a partir de
um fato que poderia não ter acontecido.

Através das experiências do organismo no meio ambiente, os circuitos


inatos serão estimulados; estes, por sua vez, irão estimular a construção
dos novos circuitos cerebrais na parte mais “elevada” do cérebro. De outro
modo, a partir de um mecanismo “pré-organizado”, existente no nascimento,
desse projeto ou esboço inicial, é fabricado, sempre se transformando, o
ser humano adulto e individual, para que ele possa sobreviver de maneira
eficiente.

Para que ocorra um desenvolvimento satisfatório e bem adaptado é


necessário que o conjunto de elementos que concorrem para a atividade ou

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funcionamento dessa estrutura orgânica – o projeto inicial ou pré-homem –
esteja ligado, em sintonia, com o “mecanismo” existente no meio ambiente
sócio-cultural; necessita um “bom acoplamento”, uma boa ligação do
organismo com o meio exterior formando um único conjunto.

A importância da adaptabilidade de cada organismo individual ao “nicho”


ou meio ambiente onde ele está inserido (cada macaco em seu galho)
não é apenas para efeito da regulação biológica básica da pessoa. É esse
acoplamento que permitirá o ser humano classificar, valorizar e interpretar
adequadamente os fatos ou os fenômenos vivenciados conforme o meio
ambiente vivido. É através desse meio que cada indivíduo aprenderá a rotular,
avaliar, compreender a si mesmo e o mundo que o circunda, de maneira mais
ou menos adequada à realidade existente, ficando melhor ou pior adaptado.

O organismo já tem preparado ao nascer um conjunto de preferências,


critérios, tendências, julgamentos ou valores que, dependendo do meio
ambiente, poderão ser ou não desenvolvidos, e mesmo modificados com o
tempo e a experiência. O repertório das coisas boas e más vai crescendo com
o desenvolvimento da pessoa, bem como a capacidade de detectar novas
situações ou fatos atraentes ou repugnantes.

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Desenvolvimento do
Organismo/Fábrica
Quando a fábrica inicia suas atividades, isto é, logo após ser inaugurada
(nascer), as ligações entre as diversas subestações, secretarias, regiões,
núcleos, setores e comandos centrais são quase que indiferenciados. A
partir do início das atividades produtivas da fábrica essas conexões entre um
local e outro começam a ser instaladas e, dependendo da complexidade do
mercado externo enfrentado (das condições do meio ambiente), elas podem
ir se tornando cada vez mais e mais complexas até a fábrica atingir certa
maturidade e uniformidade padrão de atividade (produção e informação).
Na maturidade da fábrica/organismo há uma tendência para as conexões se
estabilizarem, sendo mínimas as formações de novas ligações informativas.

A hipótese para o crescimento das conexões entre os diversos setores


inteligentes da fábrica apóia-se, de um lado, na qualidade do material usado
do qual ela foi feita e, por outro lado, na interação desse material especial
com o meio ambiente sempre em transformação; um material orgânico capaz
de ser transformado ou plastificado diante de estímulos. Nesse último caso,
os estímulos existentes no meio ambiente externo à fábrica provocariam ou
forçariam as mudanças verificadas nas conexões internas entre os operários
ligados ao serviço de informação.

Assim, a sensibilidade do material usado na construção do organismo/


fábrica reage diante da qualidade dos estímulos (luzes, sons, sabores, odores,
movimentos, palavras, princípios, mitos etc.) existentes no meio ambiente
externo. As informações entre um local e outro (entre um operário e outro)
no interior da fábrica seriam modificadas para se conseguir uma melhor
e mais atualizada adaptação ao meio ambiente externo, anteriormente
desconhecido.

Essas transformações nas conexões adaptativas na rede interna de


informações são produzidas para que a fábrica consiga sobreviver adequada
e eficientemente no mundo externo complicado onde ela foi lançada (está
instalada).

O organismo/fábrica pode ser edificado e crescer num ambiente rotineiro,

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simples, contendo poucos fatos mais complexos ou assustadores; nesse
caso, o novo organismo nascido não precisará de grandes mudanças no
seu interior para obter uma boa adaptação, pois as exigências externas
são simples. Entretanto, por outro lado, não haverá um desenvolvimento
notável, capacitando-o a viver em diferentes ambientes. Por outro lado, caso
o organismo/fábrica nasça ou, por conta própria, procure ou seja jogado
num mundo complicado, haverá, sem dúvida, maior sofrimento, mas, em
compensação, maior riqueza ou variedade de mudanças internas e, portanto,
maior capacidade de enfrentar situações complexas.

Resumindo: a fábrica/organismo só poderá crescer e se modificar


internamente a partir de estímulos existentes no mundo exterior ao
organismo e conforme as alterações existentes nesse mercado cada vez
mais hostil, inteligente e competitivo. A fábrica/organismo só poderá
sobreviver satisfatoriamente caso se coadune às exigências impostas pelos
possíveis compradores ou arrendatários de seus produtos, pois assim poderá
desenvolver, para conviver com essa complexidade (caos, desorganização)
se suas habilidades internas forem modificadas em conformidade com o
conjunto das fábricas/organismo alheias (amigas, inimigas, indiferentes) à sua
própria.

É importante notar que as leis (tramas, relações) que regem a fábrica


individual não são as mesmas que regem o vasto e complexo setor externo
(social/cultural), pois este último tem suas próprias leis e é possuidor de uma
natureza diferente; funciona relativamente independente da ação da fábrica/
organismo individual.

Pouco a pouco o infantil organismo/fábrica vai se tornando adulto. Modifica-


se internamente diante dos problemas encontrados e captados pelos seus
poderosos radares; todas, ou quase todas, são situações antes não previsíveis
quando na inauguração (nascimento) da fábrica/organismo.

Passo a passo, com a incorporação de novos estímulos, eventos, frustrações,


alegrias, muito e muito esforço, a direção da fábrica vai reformulando
os velhos modelos acerca do mundo externo. Muitos pilares amados e
venerados precisam ser destruídos para que a edificação possa continuar viva
e eficiente, se possível, feliz; do contrário, a fábrica terá que ser fechada, ir a
falência (morrer, precisar de ajuda externa, ser transferida para uma prisão
ou hospital, receber a curatela de alguém).

Caso sobreviva e desenvolva há necessidade das idéias e dos planos antigos

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serem frequentemente reformulados; muitos devem ser deixados para
trás de modo definitivo, apesar de terem sido defendidos pela história dos
organismos/fábricas semelhantes.

Passo a passo, novos modelos do mundo externo vão se formando e tomando


o lugar dos antigos, outros padrões vão se modificando ligeiramente para se
adaptar à nova realidade, princípios indicadores de regularidades, bem como
de possíveis catástrofes e, diante disso ou daquilo, surgem e dominam a
conduta, mesmo na ausência de estímulos diretos vindos do mundo exterior.
Portanto, possuidora de maior conhecimento do local onde se instalou, o
gabinete decisório da fábrica, através do seu sistema de inteligência, torna-se
capacitado para extrair ou inferir como o meio ambiente deverá funcionar,
isto é, prever o futuro com boa margem de acerto. Todas as fábricas
humanas normais – com seus diversos setores – não doentes ou lesadas, são
potencialmente aptas para “ler”, com bastante acerto, a expressão contida
nas fachadas (face) das fábricas encontradas, deduzindo se o “rosto” ou
“portaria” daquela fábrica é indicador de raiva, medo, trapaça, amor, amizade
etc.

Algumas fábricas, por defeito de construção inicial (nascença) ou de erro de


desenvolvimento (obtenção de princípios extremamente inadequados para
o mundo vivido), não possuem essa importante função: a percepção e a
intenção da fachada da outra fábrica.

Um departamento do organismo/fábrica, subestações dos córtices pré-


frontais, tem um importante papel nessa capacidade de ler a fachada dos
outros edifícios prevendo a possível intenção ou plano da outra fábrica. Esse
importante departamento do organismo/fábrica pode ser destruído por
traumatismos cranianos, tumores e apresentar defeitos para desempenhar
seu papel devido a transtornos desde o nascimento, isto é, uma incapacidade
ou dificuldade para acionar os setores encarregados da defesa da fábrica,
por exemplo, inexistir os sinais de medo. Nesse caso, não existindo medo
diante de riscos, o indivíduo pratica a primeira idéia que lhe vem à mente sem
reflexões a partir de outras informações valiosas.

Essa conduta, mostrando uma enorme dificuldade para perceber a conduta


que vai dar errada, é frequente entre os chamados de “sociopatas”, também
denominados de “anti-sociais”, popularmente chamados de safado, cara-
de-pau, charlatão, etc. Nesses casos, grande parte da fiação da fábrica pode
estar normal, entretanto, a estação que recebe os dados, até certo ponto
da comunicação de maneira exata, não trabalha adequadamente com essas

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informações corretas.

Portanto, somente se a fábrica mantiver essa “sagacidade” – habilidade para


prever riscos diante de uma ação ou relação com a concorrente – a fábrica/
organismo sobreviverá com sucesso, pois saberá, com mais segurança, com
quais fábricas deverá fazer parceria e com quais deve cortar relações.

Durante o desenvolvimento das fábricas, algumas delas podem se tornar


peritas na arte de detectar “fachadas”, isto é, possuidoras de uma excelente
“teoria da mente”. Outras, por outro lado, comem mosca a todo instante
e são passadas para trás por não notarem nas fábricas vizinhas intenções
perversas. Depois, lamentam a “falta de sorte”: “Não podia fazer isso
comigo”; “Que bandido”.

Finalizando minhas idéias: de acordo com o discutido, a construção e o


desenvolvimento final da fábrica/organismo e, consequentemente, sua ação
no mercado (comportamento diante do outro organismo/fábrica), não são
fixados de um modo estático e para sempre pelo projeto inicial elaborado
pelo setor produtor dos genes. O serviço de informação e de inteligência
da fábrica, que faz parte do sistema neural, pode, dependendo do material
da fábrica e do meio ambiente onde ela foi instalada, desenvolver muito
ou pouco, iniciando com os fundamentos existentes logo após a construção
simples do nascimento. Essa base primitiva virtual permite e é arrumada
de modo a crescer e ou ser em parte alterada conforme as experiências
vividas e nesse caso dizemos que a fábrica é plástica, isto é, moldável em
parte conforme o meio ambiente. Esse arranjo do sistema de inteligência
e informacional da fábrica irá permitir uma continuada adaptação do
organismo/fábrica ao meio ambiente sempre em mudança, isto é, a se
ajustar aos fenômenos em transformação que vão ocorrendo fora da fábrica/
organismo.

De outro modo, isso significa que a fábrica poderia produzir, à medida que
vai alcançando a maturidade, vários artigos que no seu início ela não seria
capaz de fabricar, mostrar, alugar ou vender. É possível que as transformações
sofridas com o tempo não podiam ser imaginadas pelos mais capazes
diretores da fábrica nos seus primeiros meses e anos de fundação, ou seja,
logo no início do funcionamento, pois os objetivos vão sendo construídos
devagar, conforme os sucessos e os fracassos, ou seja, conforme a experiência
e história construída. Também, muito cedo, a direção da fábrica não podia
imaginar ser possível a fábrica criar tantos artigos como passou a produzir. De
fato, mecanismos novos, conforme os desafios do meio ambiente externo,

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são construídos a partir dos antigos. Assim, as novas estratégias irão permitir
à fábrica/organismo se adaptar à realidade existente e a funcionar mais
inteligentemente no ambiente físico ou social onde ela está instalada e
atuando.

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Setor de inteligência da
Fábrica
Introdução à inteligência

Além das diversas diretorias localizadas nos andares de cima do organismo/


fábrica, há uma diretoria que merece uma citação especial: o Setor de
Inteligência e Comunicação Neuronal, pois a maior parte do sistema de
informação do corpo da fábrica cabe a esse sistema. Trata-se de um dos mais
importantes setores do organismo/fábrica.

Essa secretaria fundamental para a harmonia da fábrica encarrega-se de


receber as informações vindas de todas as partes do corpo através do
sistema neural, interoceptivo (informação química e elétrica dos órgãos
internos: intestino, coração, etc.), como também as informações vindas do
mundo externo, isto é, as enviadas através dos olhos, ouvidos, odores, tato,
movimentos e equilíbrio, dores e outros.

As informações diversas, uma vez captadas, analisadas e avaliadas pela


Subestação de Inteligência são enviadas para os setores competentes de
cada região do organismo recrutadas para participar das situações existentes
e enfrentadas pelo organismo/fábrica no momento, pois assim outras
subestações se preparam para facilitar a tomada de decisão do organismo.

Desenvolvimento e Inteligência da Fábrica


Sabemos que a fábrica humana foi construída com fragmentos, restolhos de
antigas fábricas de algas, bactérias, insetos, aves, peixes, batráquios, répteis
e mamíferos. A fábrica/organismo humana, bem como de outros organismos
mais de sorte, nasceu dotada de um sistema melhor para se viver: estruturas
capazes de realizarem julgamentos antecipados acerca dos resultados das
condutas, isto é, uma previsão acerca da consequência possível da ação, se
ela será ou não vantajosa para ele.

Através do julgamento antecipado esses organismos eliminaram opções


inúteis e ou perigosas antes de agirem no mundo incerto. De um modo muito

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simples esses organismos/fábricas são capazes de imaginar que irá chover
sem precisar se molhar e só depois de molhado dizer: “Oh! Tá chovendo!
Fiquei encharcado!”. As máquinas humanas, na maioria das vezes, usam a
estratégia de previsão, bem como alguns animais.

Essa característica, típica das fábricas-organismos humanos, só foi possível


aparecer em virtude de elas possuírem uma estrutura interna capaz de lidar
com ações virtual-mentais, isto é, sem precisar sair para condutas campais
diretas, ou seja, corpo a corpo com os problemas da realidade. O homem
dito inteligente, diante de um problema, antes de tomar decisões, representa
mentalmente o problema real existente; ele utiliza-se de ações imaginárias
substitutas antes de agir no mundo concreto e real.

A representação (modelo, esquema) é feita a partir da construção de um


ambiente interno (interoceptivo), mais ou menos sofisticado, conforme
o animal, que, quando bem equipado, pode conter muita informação a
respeito do ambiente externo, bem como do interno, ou seja, de si próprio;
de suas regularidades e irregularidades. De outro modo, esses organismos,
internamente, constroem mapas do meio ambiente externo e interno.

Deve ser lembrado que há um grupo de organismos humanos deficientes


quanto a essa habilidade, ou seja, esses indivíduos têm uma má teoria da
consequência ou causalidade de fatores diversos. Esses organismos, por
exemplo, por não conseguirem deduzir, com margem de acerto, o que eles
próprios, ou outra pessoa, estão sentindo diante de um evento, tendem a agir
de modo inadequado, ou seja, burro.

A reduzida inteligência do início da vida e


ainda no jovem
O desenvolvimento da inteligência do organismo ocorre nos estágios iniciais
da vida da fábrica, ou seja, muito cedo. A estimulação do meio ambiente
esculpirá o desenvolvimento do serviço de inteligência e um padrão final
da organização desse serviço neural. Logo ao nascer, cerca da metade dos
neurônios, 100 bilhões, são destruídos, ficando outros 100 bilhões.

Logo nos primeiros estágios da vida da fábrica, mas de forma rudimentar,


ela começa a usar a inteligência que possui. Nos primeiros anos da fábrica/
organismo, como acontece com todo início de vida, comércio, casamento,
curso etc., há uma inteligência ingênua, cheia de planos simples e tolos,

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hipóteses carregadas de fantasias e pobres de realidade. Mas não só de
sonhos se alimenta o organismo/fábrica. Aos poucos, a experiência direta
da fábrica/organismo com a realidade dos consumidores e da concorrência,
ou seja, do mercado e da competição, faz mudar os planos iniciais acerca de
como operar no ambiente.

Aos poucos, a experiência direta da fábrica/organismo com a realidade dos


consumidores e da concorrência, ou seja, do mercado, faz mudar os planos e
os modelos do mundo. À medida que ocorre o desenvolvimento decorrente
da assimilação pelos diretores da fábrica da realidade existente no mercado,
um excesso de idéias, planos e sonhos são descartados como inúteis ou
prejudiciais ao bom andamento da organização recém-criada. Esse processo
parece terminar em torno dos 16 anos do nascimento da fábrica, idade na
qual o tipo básico de inteligência, chamada “fluida”, em desenvolvimento, é
interrompido.

Ao nascer, virtualmente, algumas fábricas, devido a diversos fatores, possuem


não só material melhor, bem como uma melhor disposição e sensibilidade
inicial. Uma estrutura mais bem arrumada tende a facilitar, no futuro, um
melhor desenvolvimento da inteligência a partir do início da vida. Mas não
basta um material inicial de melhor qualidade, bem como uma disposição
das diversas estruturas, pois o edifício final será esculpido conforme também
a estimulação do meio ambiente. Portanto, mesmo que o material inicial
seja de boa procedência e posto no lugar certo, o resultado dependerá do
trabalho do escultor (informações do meio ambiente) que irá estimular
as características e o potencial da fábrica desde os primeiros dias de
funcionamento.

Portanto, o fator estimulação do meio ambiente, crucial para o melhor ou


pior desenvolvimento, irá provocar mudanças nas características iniciais e
virtuais do departamento de inteligência neuronal da fábrica. Quanto mais
informações importantes estocadas e quanto mais associações entre elas
existirem, prontas para serem usadas, maior será a capacidade de processar
outras informações existentes dentro e fora do organismo/fábrica.

Inteligência e a decoração
Inteligência não é saber de cor listas literárias, nomes de fatos ou outra coisa
qualquer. Conhecer de cor fatos não indica possuir sabedoria, dominá-los
não quer dizer nada sobre a habilidade de uma pessoa para se sair bem
em grande parte das situações. O mais importante que a pessoa sabe não

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pode ser classificado nem lembrado como são os fatos recordados. Ser
inteligente (sábio ou culto) quer dizer ser capaz de entender as perguntas e
saber um número suficiente de fatos relevantes para usar como argumentos
razoáveis para formular uma resposta; o mais importante é conhecer e utilizar
argumentos sensatos. Aprender a pensar e a expressar os pensamentos é
o verdadeiro sentido da educação. Portanto, perceber como os fatos estão
ligados ou organizados é mais importante que expressar os fatos em si.

Decorar não indica ter obtido conhecimento do material decorado;


aprendemos mais as informações que nos ajudam a alcançar um objetivo que
nos propusemos atingir. É preciso generalizar, não basta aprender como agir
numa certa situação e é preciso também que esse aprendizado se aplique à
outra situação, não apenas no específico. Temos medo de generalizar por não
sabermos se elas estão certas. Tememos o desconhecido. Colombo chegou
à América em 1492. Se esse evento é aprendido como fato ele perde as suas
características interessantes e interligadas.

De outro modo, uma fábrica mais inteligente, potencialmente, teria prontas


para serem usadas mais informações adequadas aos problemas ocorridos.
Assim, a fábrica/organismo seria capaz de responder às necessidades desta
diante do mercado de competidores e consumidores, isto é, de certo meio
ambiente, de um modo mais eficiente e significativo.

O mapa (ou representação) acerca do ambiente externo existente


internamente no organismo/fábrica poderá conter boas e más informações;
o indivíduo agirá de forma mais “inteligente” conforme tiver as melhores
informações internas sobre a área externa e dentro da própria fábrica na qual
vai agir.

Os nossos atos mais deliberadamente planejados mostram os benefícios da


informação transmitida por membros de fábricas/organismos de nosso grupo
(a própria espécie) em cada cultura (meio ambiente), incluindo, além disso,
itens de informação que nenhum indivíduo isolado seria capaz de aprender
ou compreender em qualquer sentido que seja. As informações, uma vez
aprendidas, se tornam memórias, ou seja, são aprendidas e armazenadas.

Alguns chimpanzés, vivendo em estado selvagem, fisgam, com uma vara,


cupins para comer. Entretanto, nem todos eles agem assim. Em diversas
“culturas” de chimpanzés, bem como as dos homens primitivos, existiam e
existem cupins como fonte inexplorada de alimentação rica em proteína;
muitos não fizeram uso dessa possível ação. Isso nos leva a raciocinar que o

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uso de ferramentas (as ações instrumentais) – a vara usada pelo chimpanzé
– não apenas exige inteligência para reconhecer e manter uma ferramenta
(sem falar da fabricação), mas confere mais inteligência aos que utilizam as
ferramentas percebidas como tal. Quanto mais bem concebida a ferramenta,
mais informações estão embutidas em sua fabricação, mais inteligência é
proporcionada através de seu uso.

Entre as ferramentas mais importantes usadas por organismos/fábricas


semelhantes aos nossos estão as palavras, ou ferramentas mentais
(símbolos), ou seja, os conceitos importantes, abrangentes, bem como os
concretos e específicos.

Portanto, há um arranjo inicial (organização, estruturação) do sistema de


inteligência neural, capaz de ser influenciado ou moldado pelos estímulos do
meio ambiente, contudo, que obedece a um determinado período durante o
qual o processo pode ocorrer. Tem sido observado que nesse sistema neural
existe uma maior sensibilidade às modificações devido ao meio ambiente
a partir do nascimento da fábrica até os dezesseis anos. Assim, esse setor
ou secretaria, diferente de alguns outros setores, parece ser mais sensível
às modificações (maior plasticidade) durante somente os anos iniciais de
nossa existência, diferindo de outras secretarias das áreas cerebrais que têm
períodos diferentes.

Isto não é para se espantar: as áreas das diretorias centrais situadas


nos andares intermediários, não superiores, isto é, responsáveis pelo
processamento de níveis mais baixos, tais como o córtex visual primário,
são possuidoras da plasticidade que ocorre somente até os cinco anos de
idade da fábrica/organismo. Por outro lado, as áreas cerebrais responsáveis
pelas direções mais gerais, as situadas nos andares superiores, relacionadas
à elaboração de cartas, participação em reuniões, linguagem e inteligência
usadas, mantêm o processo de plasticidade por mais tempo, permitindo uma
adaptação “superior”, mas sempre assentada no ajustamento prévio das
áreas mais baixas.

Funcionários da fábrica que não foram treinados a ler e a escrever e que


passaram anos sem esse treinamento são descartados, ou seja, jamais a
fábrica gastará tempo tentando ensiná-los, pois eles jamais aprenderão;
passaram do limite de aceitação de um aprendizado, onde a estimulação
atuaria.

Portanto, o processo de mudança da inteligência da fábrica, que é sensível

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às exigências do meio, é demorado. Essas transformações geralmente não
ocorrem após um simples contato ou estímulo do mercado consumidor e
fornecedor, mas sim, após dias, meses, anos de estimulação. Portanto, essa
alteração dos sistemas de inteligência e informativo não é um fato simples
que faz a fábrica mudar sua rota inicial; são inúmeros os problemas ocorridos
e continuados que exercerão ações duradouras e eficazes nos planos e
interpretações do serviço de inteligência e informação da fábrica. Diante de
cada mudança, internamente a fábrica muda suas rotas de comunicações,
tornando-as, caso tudo vá bem, mais rápidas, complexas e mais sensitivas aos
fatos do ambiente.

A observação de que esse processo cessa de operar ao atingir mais ou


menos os dezesseis anos não significa inferir que a fábrica não mais terá a
capacidade de ser alterada em resposta às experiências após a maturidade.
De fato, uma fábrica adulta, continuadamente, mostra exemplos de
aprendizagem e de memórias; contudo, esses processos, provavelmente,
ocorrem em virtude de mudanças de ligações de um ponto a outro que
envolvem pequenas modificações nas interconexões existentes, já prontas e
definitivas.

A inteligência, diferente do reflexo ou tropismo, exige uma série de diretórios


da fábrica para que tenha eficiência e flexibilidade, ao contrário dos reflexos
e tropismos que são rijos. Todos os processos dentro da fábrica no uso da
inteligência são coordenados pelo sistema ligado ao comando dos córtices
frontais, encarregados da tomada das decisões do organismo/fábrica,
um sistema que chamei em outro lugar de “Inteligente Informacional”,
constituído por células nervosas, substâncias químicas e seus processos. Esse
sistema se encontra sempre ativado, ou seja, funcionando sem interrupção.

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Defesa da Fábrica: Imunologia
Ora o organismo/fábrica é invadido por um vírus, ora por uma bactéria; às
vezes, é ferido, sendo parte da fábrica destruída e, geralmente, busca-se
reconstruir o lesado. Mas a fábrica, como todas as modernas instituições, tem
sua guarda especial: a secretaria para manter a segurança, que é chamada
de “Sistema Imunológico”. Essa secretaria que vigia e luta contra todos
os invasores, estranhos ao trabalho e à eficiência de cada setor, defende
a fábrica/organismo de todos esses possíveis inimigos: vírus, bactérias,
parasitas e moléculas tóxicas e estranhas ao recinto.

Há já preparada, ao nascer, uma pequena guarda pronta para agir rápido.


Entretanto, caso haja necessidade, um novo corpo de guardas é treinado
e preparado para combater invasores específicos. Há escolas prontas para
exercer essa função, alojadas em compartimentos da grande fábrica. Vamos
imaginar, por exemplo, que a fábrica foi invadida pelo vírus X da gripe e que
nesse caso a fábrica ainda não conhecia esse inimigo, portanto não tinha
como combatê-lo pronta e eficientemente; não tinha ainda preparado um
pelotão treinado para esse inimigo.

Explicando melhor: geralmente a Diretoria do Sistema Imunológico faz uso


de alguns soldados chamados glóbulos brancos; estes estão sempre prontos
para fazer a defesa do prédio seja lá que inimigo for. Eles, uma vez recrutados,
partem para a luta. Entretanto, muitas vezes, devido à simplicidade desses
soldados “pau pra toda obra” e sem treino e habilidade de um lado e da
complexidade do inimigo, de outro lado, esses defensores sem treinamentos
especiais geralmente acabam por perder a batalha inicial.

A central, percebendo que a derrota está preste a ser concretizada, convoca


um batalhão de soldados do grupo dos glóbulos brancos para que eles
se submetam a um treino especial, visando a criar um grupo de elite; um
adestramento que dura cerca de, mais ou menos, quatro a cinco dias. Esses
antigos soldados rasos, sem maior conhecimento de táticas e estratégias de
guerra, após um cuidadoso ensino, se transformam em guerreiros do “grupo
especial” de guerrilha, destinado a combater o inimigo específico, ou seja, o
vírus X invasor.

Bem preparados para aquele inimigo único, conhecendo todas as suas


artimanhas, esse grupo especial quase sempre derrota o inimigo. Uma vez
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tendo destruído e expulsado o vírus X pelos novos combatentes, a central
mantém, para sempre, como precaução, essa guarda especial já formada, de
prontidão, para que, no caso de uma nova invasão do grupo já conhecido,
haja um pelotão pronto para combater o mesmo inimigo. Nesse caso falamos
que o organismo ficou imunizado contra o vírus X. As vacinas são “inimigos”
amigos, que penetram na fábrica, fingindo ser inimigos, mas que provocam
os soldados para que eles sejam treinados e preparados para combater os
verdadeiros inimigos caso eles tentem invadir a fábrica. Desse modo, uma
fábrica adulta (não a fábrica recém-criada e infantil) tem diversos pelotões
formados de soldados treinados e prontos para combater inimigos específicos
e já conhecidos.

De outro modo e pensando o oposto: um organismo pouco exposto (ou nada


exposto por ser “muito bem cuidado”) a diversos invasores possíveis não
irá formar nenhum pelotão de defesa, consequentemente, diante de uma
“invasão” de germens diversos, essa frágil fábrica será destruída por falta de
um exército treinado e capacitado para a defesa do território do organismo.
Algumas “doenças” parecem ser, de fato, uma destruição, pelos próprios
soldados encarregados da defesa do organismo, de certas partes deste.
Acredita-se que na ausência de inimigos, por excesso de higiene, cuidados
exagerados, não há estimulação e treinamentos dos soldados encarregados
da defesa da fábrica, pois não há invasão de estranhos. Assim, talvez para se
treinar, sem o que fazer e entediados, eles atacam o próprio organismo e o
destroem.

Uma descrição semelhante, mas não-


metafórica
Nos processos de aprendizagem adaptativa não-dirigida (aleatória), ações do
organismo são empregadas não apenas nos “reconhecimentos de formas”
que caracterizam nosso sistema cognitivo, mas também na constituição e
no funcionamento do sistema imunológico, uma verdadeira máquina de
aprendizagem e de integração do novo, desta vez no nível de formas celulares
e moleculares.

Os linfócitos são ligados entre si e com os antígenos que constituem seus


estímulos externos, por mecanismos de reconhecimento molecular ao
nível de suas membranas. O desenvolvimento desse reconhecimento,
não-dirigido, é condicionado pela história dos contatos com diferentes
antígenos; um encontro que não foi previamente programado. Assim, e por

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isso, há possibilidade de uma variedade praticamente infinita e imprevisível
de reações imunológicas, a partir de um número finito de linfócitos
determinados.

O sistema imunológico produz modificações em certos glóbulos brancos e


envia esses glóbulos para áreas do corpo ameaçadas. Essa e outras produções
irão ajudar o organismo (corpo do indivíduo) tanto na luta contra a causa do
ataque (o micróbio invasor), como na restauração de um tecido lesado.

Outras defesas do Fábrica/Organismo


Ao contrário do que chamamos de inteligência, a fábrica, já ao nascer,
possui diversos conhecimentos que a ajudam a funcionar independente
do que ela vai aprender durante sua convivência com o meio ambiente.
Esses conhecimentos, facilitadores de ações, funcionam sem o auxílio
direto da diretoria central, pois são prontidões, reflexos básicos, capazes
de reagir, automaticamente, diante de perturbações que causam, por
exemplo, susto ou alarme. A fábrica tem suas próprias defesas (seu sistema
original de alarme) quando é incomodada por um ruído inesperado.
Semelhantes aos reflexos, ou seja, sem precisar do auxílio da central, a
fábrica, automaticamente, reage ao que chamamos de “tropismos”, isto é,
reage, diretamente, não indiretamente, através do auxílio de uma série de
diretorias; a fábrica, sem esforço, escolhe a luz ou o escuro, o frio ou o quente
etc., tudo sem usar complicados mecanismos.

Há ainda ações que foram aprendidas através da central, mas que com o uso
continuado, aos poucos, elas se automatizam, como acontece com a fala (não
ficamos, numa conversa, examinando cada palavra que usamos, ou como
iremos organizar nossas frases gramaticalmente). Do mesmo modo, estão
automatizadas as condutas relacionadas à escrita, tomar um banho, tirar a
roupa etc. que praticamente pouco uso faz da central, isto é, elas passam a
ser coordenadas pelo primeiro comando, o subcortical, sem consciência de
seu uso.

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Memória: As lembranças da
Fábrica/Organismo
A fábrica/organismo trabalha dia e noite sem parar; nunca tira férias, nem
feriados; não tem um dia, uma hora ou um segundo sequer para descanso.
A fábrica, que iniciou suas atividades um pouco depois (um, dois ou três
dias) da concepção (ou antes, já que o esperma e o óvulo necessários à
fecundação são células vivas antes do encontro amoroso), continua agilizada
(impulsionada) até sua demolição pela morte.

Durante qualquer atividade da fábrica/organismo secretarias variadas são


recrutadas para receber e comparar os eventos atuais vivenciados com outras
informações e experiências já vividas e armazenadas na memória (busca-se
o auxílio do hipocampo, relacionado à memória consciente); usa-se a região
encarregada de nomear as emoções (uma barata e não um camaleão),
comparando emoções semelhantes com o mesmo fator desencadeador (uma
crítica e ou um elogio, por exemplo). Nesses casos fazemos uso geralmente
de casos típicos (protótipos): “Eu, uma vez, foi no fim do ano… entrei na
cozinha e vi uma barata. Quase morri! Senti tão mal! Sei que sou uma pessoa
fraca, medrosa. Não tem jeito comigo”.

Todas as idéias armazenadas (nossa autobiografia) sobre nossa suposta


capacidade ou incapacidade para enfrentar ou correr diante de um ou outro
animal, situação ou objeto, são enviadas, num momento, para a secretaria
central (região cortical pré-frontal). Ali, reunindo o evento atual vivenciado
com as lembranças que temos a respeito de nós mesmos, relacionado ao
que está acontecendo, nos fornece uma representação mental mais rica e
orientadora do que fazer.

Essa reunião de tudo ao mesmo tempo: a percepção da barata numa certa


noite e num certo lugar, mais a sensação do mal-estar interno sentido e,
ainda, as recordações e opiniões que temos de nós mesmos (“Sou corajoso”;
“Tenho medo de baratas”; “Comigo não tem jeito; sou um fracasso”) e
também as comparações com outras experiências e as explicações que temos
do evento a partir da memória armazenada irão nos fornecer conclusões mais
apuradas, superficiais ou profundas, acerca de nossa eficácia ou de nossa
ineficiência diante de um ou outro problema semelhante. Esses dados são

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reunidos formando um conjunto que irá orientar a tomada de decisão do
organismo: “Prepare as pernas para correr; do contrário, irei desmaiar. É uma
terrível barata: nojenta!”.

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O Hemisfério Esquerdo x
Direito
Há uma secretaria situada nos andares do lado esquerdo (hemisfério
esquerdo) do organismo/fábrica. Trata-se de uma área que, possivelmente,
se encarrega de traduzir o percebido e sentido pelo hemisfério direito. Assim,
o hemisfério direito percebe melhor o acontecido, isto é, as percepções e
as sensações concretas; por outro lado, essas experiências percebidas são
transformadas, pelo hemisfério esquerdo, em palavras, conceitos, abstrações,
princípios, valores, etc. ligados à linguagem. Portanto, fatos concretos
percebidos por um hemisfério são traduzidos em símbolos por outro.

Alguns desses símbolos servem para designar objetos, pessoas, emoções


sentidas, etc. Outros, por sua vez, servem de elos ou pontes entre fatos ou
entre situações antes isoladas; esses elos verbais compõem ou unem os fatos
concretos e separados vivenciados pelo lado direito da fábrica.

Chamo a atenção que o hemisfério direito, pelo menos o meu, é mais sério;
ali quase não há erros, pois o que é mapeado ou representado é mais puro e
livre de tapeações. O hemisfério direito não trabalha com palavras (principal
instrumento das trapaças) e sim com a percepção crua e pura.

Entretanto, as composições produzidas pela secretaria do lado esquerdo


(meu e seu) para reunir um evento ao outro, (fornecer explicações para
os fatos ou acontecimentos), são, muitas vezes, mágicas e contaminadas
por crenças antigas, as que alguém, num certo dia, por razões nada claras,
inoculou ou imprimiu no seu cérebro ávido por ilusões, isto é, para encobrir
os fatos e consequências ruins. A história inventada por um sem o quê fazer,
para explicar, muitas vezes, o inexplicável, depois, vai passando de boca
em boca, se espalhando. Aos poucos vai se formando um exército enorme
de defensores da idéia maluca. Adotada sem críticas por uma multidão,
dominando a cabeça da maioria, a mentira inventada pelo hemisfério
esquerdo se transforma, pela força da crença, numa verdade acima de
qualquer suspeita, que não pode ser questionada.

Muitas são as idéias contadas pelo hemisfério esquerdo sem pé nem


cabeça, estapafúrdias, sem fundamentos, absurdas. Para surpresa do

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hemisfério direito, entretanto, são essas idéias mágicas e não vividas, jamais
experimentadas por homem algum, as que mais atraem o público em geral,
as que se alastram facilmente. Percebe-se na história do homem que, por
mais que suas histórias, seus relatos simples e mágicos, suas invenções
esquisitas e sem sentido estivessem frontalmente contra as observações mais
exatas e sérias, contrariasse todo o percebido e experimentado, a maioria dos
homens continua preso às suas fantasias e não à realidade experimentada e
vivida penosamente.

Nós, como todas as crianças, gostamos de histórias. Desde cedo as escutamos


com imensa alegria e emoção; parece que temos atração pela charlatanice
e trapaça. Lamentavelmente, o grupo do qual faço parte, e que infelizmente
estou cada dia mais integrado, segundo as observações do meu hemisfério
direito, não do esquerdo, é muito mais propenso a acreditar nos paraísos
ilusórios (bons negócios, milagres, a bondade humana, a justiça divina, o
perdão).

As histórias de fantasias fabricadas pelos cérebros humanos são inúmeras,


todas vendem ilusões a troco de nada; elas são relatos cheios das mais
estranhas idéias, construídas por essa secretaria ficcionista, semelhante ao
político em campanha desesperado para ser eleito para poder descansar ou
passear.

Essa secretaria, por séculos e séculos, inventou lendas, mitos, criou heróis,
deuses e demônios diversos que serviram de pano de fundo, exemplos,
contra-exemplos, modelos e antimodelos seguidos por toda a humanidade.
Coitado do lado sério do cérebro. O lado direito tem fracassado para diminuir
a bobeira humana defendida por nosso lado esquerdo; seus esforços têm sido
em vão.

Engraçado… Também, de tempos em tempos, o lado esquerdo relata que a


história contada por ele estava errada, isto é, ele próprio destrói o mito por
ele criado, mas para isso ele, sabiamente, inventa outro mito para ocupar o
lugar do antigo, quase sempre semelhante quanto ao formado no original,
pelo menos nascendo dos mesmos princípios.

Deve ser frisado que as narrativas acerca dos fatos não são a mesma coisa
que os fatos. O relato dos fatos ocupa outro nível, ele é composto por
palavras que denotam ou tentam denotar o que foi supostamente percebido.
Por isso, o que nos é revelado pelo lado esquerdo do córtex deve ser ouvido
ou lido com cautela: idéias políticas, dogmas diversos, afirmações religioso-

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ideológicas, idéias míticas de todos os estilos e áreas e, também, muitas
idéias que recebem o nome de “científicas”. Infelizmente, a maioria do povo
escuta mais os sons inventados pelas propagandas enganosas que a voz
adormecida e mais real de sua própria existência vivenciada através do lado
sério e honesto de seu cérebro.

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A importância de uma Fábrica/
Organismo íntegra
Ora, o leitor que não for idiota irá inferir que vai notando, aos poucos, que
todo esse arranjo sofisticado somente dará resultado se todas as peças
que entram em ação nesse complicado processo estiverem íntegras, isto
é, funcionando bem. Se o indivíduo diante de um perigo for incentivado
a correr, mas tiver quebrado a perna ou teve seu pé amputado, ou ainda,
se tiver um pé torto, em todos esses casos, ele, tendo dificuldade para se
movimentar, não poderá executar corretamente a ordem dos córtices frontais
para correr.

O genoma (planejamento original de toda produção possível durante a


vida da fábrica) apenas será eficiente em cada um dos organismos/fábrica
caso esteja íntegro, ou melhor, sem mutações, sem defeito de fabricação
do material usado, fiações inadequadas e ou de baixo nível, ferragem de
baixa qualidade, bem como o terreno onde será construído e onde serão
erguidas as fundações. Esses diversos aspectos e muitos outros poderão
prejudicar, ou até impedir a formação adequada das diversas “diretorias”
bem como das comunicações dessas com outras. A localização errada, as
ligações ineficientes ou impróprias entre as diversas subestações fatalmente
irão dificultar que esses dispositivos estejam ativos e perfeitos já na data
da inauguração da fábrica/organismo – no nascimento – ou, muitas vezes,
quando o organismo é forçado a enfrentar problemas mais complexos, como,
por exemplo, entrar numa escola.

Alguns desses dispositivos prontos para serem usados precisam estar


adequados no início da construção da fábrica – durante o início da vida
intrauterina – embora haja outras alterações que só são percebidas
mais tarde. Uma boa base inicial do prédio e das máquinas da fábrica irá
desempenhar um papel importante na continuada construção posterior,
nas inter-relações entre os diferentes elementos que trabalham dentro da
fábrica/organismo e na melhor produção de bem-estar dos operários que lá
trabalham até a morte da fábrica/organismo.

Do mesmo modo, como uma geladeira, uma mesa e um televisor podem


apresentar na sua construção “defeitos de fabricação”, o sistema nervoso

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do embrião pode, desde sua geração ou desenvolvimento inicial, carregar
defeitos leves ou graves, também, de fabricação. Se assim acontecer, ou
seja, caso a fábrica/organismo já nasça com um defeito de construção, ela
terá maiores dificuldades para viver ou conviver no seu meio ambiente.
Quando isso acontecer o organismo/fábrica precisará receber cuidados
especiais, desde cedo, de seus criadores para adaptar-se adequadamente aos
problemas do meio ambiente.

Portanto, as regiões cerebrais, fundações onde será erguido o organismo/


fábrica, para funcionarem adequadamente precisam estar íntegras e,
também, convivendo em harmonia com os diversos setores que fazem parte
do conjunto geral do prédio: os comandos corticais e subcorticais.

A seleção natural manteve ligados os diferentes sistemas implicados no


raciocínio e na tomada de decisão com os sistemas responsáveis pela
regulação interna do organismo, a chamada regulação biológica. Tanto um
sistema, como o outro, é extremamente importante para a sobrevivência
do indivíduo. A destruição do segundo sistema, o da execução ou tomada
final da decisão, como no caso de um coma profundo e continuado – vida
vegetativa – leva a pessoa a não ser capaz de conviver com o meio por sua
própria vontade, por outro lado, a destruição do primeiro comando leva o
indivíduo à morte.

Carregando um defeito de fábrica, as reações da criança ao meio ambiente, e


também, de suas expressões emocionais e comportamentais serão também
diferentes das esperadas para seu criador e outros indivíduos, isto é, quando
comparadas como os “organismo/fábricas” possuidores de instalações,
ferramentas e circuitos intactos.

A estrutura do sistema organismo/fábrica existente no nascimento continuará


a operar no adulto. Ela não é substituída por outra estrutura, mesmo quando
outros mecanismos – memória, raciocínios, avaliações etc. – ditos superiores
são aprendidos após o nascimento e passaram também a funcionar como
outra fonte de poder decisório.

Em conclusão podemos afirmar que uma enorme variedade de processos


visando o equilíbrio do organismo administra a vida de cada indivíduo/
fábrica, de momento a momento; todo esse processo começa no interior
de cada célula existente no organismo/fábrica. Essa organização segue o
seguinte roteiro:
Primeiro: operam-se mudanças em setores do organismo provocadas por

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ações internas ou externas;

Segundo: as mudanças ocorridas podem alterar potencialmente o curso da


vida de um organismo, constituindo uma ameaça a sua integridade ou uma
oportunidade para sua melhoria;

Terceiro: o organismo, agindo como um todo, através de seu mega-


computador, detecta a mudança e responde de forma a criar uma situação
mais benéfica para a autopreservação.

Todo organismo trabalha para manter seu estado de equilíbrio; assim, as


reações homeostáticas detectam dificuldades ou oportunidades, que são
resolvidas por meio de ações, para eliminar problemas e ou aproveitar as
circunstâncias favoráveis para realizações de algum plano.

O que diferencia um organismo de outro é a maior ou a menor complexidade


percebida por ele diante das perturbações enfrentadas, de suas avaliações
e respostas. Não é difícil perceber que alguns organismos estão mais bem
preparados que outros para viver; suas ações são mais bem elaboradas
que as de alguns indivíduos que parecem apenas reagir de forma simples
aos estímulos do meio ambiente. O termo “inteligência” talvez estivesse
associado a isso, ou seja, a uma maior diferenciação de alguns organismos
de modo a possuir uma maior riqueza de avaliações e respostas; um maior
estoque de possibilidades, prontas para serem usadas diante dos estímulos e
antes da resposta ser efetuada.

Mas isso não é alcançado facilmente. Tudo isso depende, em primeiro lugar,
de um bom estado de todos os componentes anatômicos macros e micros
do organismo: estômago, pulmão, nervos, gânglios, útero, pernas e braço,
hipotálamo, clitóris, pênis, testículos, ovários etc., e, também, produções
de ACTH, cortisona, adrenalina, hormônios da tireóide, testosterona,
progesterona, dos ossos, tendões, músculos, serotonina, dopamina etc.
Mas tem mais, é preciso ter fiações e sinapses íntegras, as que ligam um
terminal emissor (codificador, remetente) com centenas ou milhares de
outras ramificações capturadoras (receptoras, recebedoras, decodificadoras),
transformando esses sinais eletroquímicos em emoções, pensamentos, ações
e também em criações intelectuais e artísticas.

Do mesmo modo que eu só poderei assistir as imagens da TV ou do DVD


na minha residência caso as fiações da casa, bem como suas ligações com
a CEMIG, estejam intactas, só poderei produzir imagens em minha mente

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caso as diversas áreas (núcleos, gânglios, circuitos, sinapses) estejam intactas
e funcionando a contento conforme meus objetivos. Caso esses setores
diversos estejam danificados, não basta possuir a melhor TV do mundo e
existir no país o melhor canal, pois, sem um subterrâneo funcionando a
contento, não poderei captar nenhuma imagem ou som. A fiação pode estar
sem a tomada, o fio pode estar partido, gasto e velho, o fusível pode estar
queimado, o aparelho de som encontrar-se defeituoso devido ao mau uso ou
à idade do aparelho, etc. Cada desarranjo ou enguiço do mecanismo geral ou
de uma outra região, ou ainda nas ligações entre um ponto e outro, na certa
irá trazer problemas na função final esperada ou exigida do sistema.

Portanto, para que haja a produção de uma classe particular de


representações neurais, (produção de imagens e intenções), isto é, uso
adequado do neocórtex, é preciso sua interligação com os sistemas mais
antigos do organismo, como a amígdala (uma porção anterior do lobo
temporal), o cíngulo, o hipotálamo e o tronco cerebral. Além disso, é preciso
ter um meio ambiente adequado e capaz de estimulá-los, isto é, os vários
setores da “CEMIG” e das ligações feitas na minha casa durante a construção.

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Cenas da fábrica/organismo

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A Fábrica e a gordura
abdominal de José
Tanto o corpo e/ou o cérebro, as partes baixas e altas do organismo/
fábrica, reagem também quando tudo está funcionando bem, correndo
harmonicamente. Nesse caso endorfinas produzidas por alguns setores da
fábrica e produzidas em diversas partes do edifício são liberadas e diversas
áreas do organismo/fábrica irão experimentar uma sensação de calma, prazer,
bem-estar. Nesse instante, a central talvez crie uma frase para si mesma ou,
possivelmente, dirá para uma fábrica alheia que está ao seu lado: “Hoje eu
estou feliz”; “Levantei-me bem, disposto, otimista. Que bom!”.

Tudo indica que o bem-estar ou o mal-estar nas regiões do corpo,


coordenado pelos andares subcorticais (tálamo, hipotálamo, estriado ventral,
amígdala, núcleo acumbente, putâmen, cerebelo e outras mais), analisam
as estimulações provenientes de diversas regiões do prédio e, uma vez
examinadas e selecionadas, essas informações são enviadas para os córtices
cerebrais pré-frontais para sintetizá-las e, dessa maneira, dar origem a uma
conduta para resolver um ou outro problema ou estado existente.

A barriga de José
Vamos examinar um exemplo simples. Por decisão da central de José, para
diminuir a gordura que estava se acumulando na região ventral da fábrica
(na barriga), foi estabelecido, depois de diversas reuniões conduzidas pelo
córtex pré-frontal, que precisava haver um maior esforço em alguns setores
do organismo, pois só assim seria possível, ao eliminar calorias, diminuir a
gordura localizada no abdome.

Pois bem. A central, encarregada da tomada de decisões, deliberou ativar o


trabalho nos setores relacionados às partes distais dos músculos das pernas
(suporte da fábrica) e dos braços (guinchos para mudar uma coisa de um
lugar ao outro). Os exercícios começaram. Durante o trabalho puxado, a
glicose que fornecia caloria e força diminuiu, pois estava sendo consumida
mais que o normal. Além disso, como o objetivo era eliminar gorduras, o
estafante trabalho indicado usou muita água do reservatório, levando a
diminuir o estoque padrão que a fábrica deveria ter como reserva. O sódio
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foi, por sua vez, eliminado em parte junto com a água que saiu pelos suores
produzidos para não esquentar por demais a máquina.

Não vou continuar com os detalhes para não cansar o leitor; acho que
apenas com essas amostras de mudanças eu consigo explicar o desejado.
Uma vez verificados esses déficits, informações que sempre passam pelos
setores intermediários da fábrica, ou seja, no andar do poderoso comando
subcortical , foram analisadas e selecionadas, depois enviadas ao andar do
comando cortical para posteriores deliberações.

O comando central geral, que utiliza o primeiro comando – subcortical – e o


segundo comando – cortical -, uma vez de posse dos resultados das análises,
iniciou as providências necessárias para reverter os desarranjos ocorridos em
virtude da perda de glicose, água e sódio devido aos exercícios físicos usados
para diminuir a barriga. Foram tomadas as seguintes medidas: interromper
por momentos o trabalho anteriormente exigido e repor os estoques de água,
sódio e glicose.

Além disso, a secretaria do sistema límbico, utilizando-se das secretarias das


amígdalas, uma a cada lado do prédio, foram ativadas também. Elas fornecem
ao organismo/prédio uma sensação de mal-estar geral, de emoção negativa;
portanto, motivou os comandos executivos a tomar providências para colocar
em ordem a desordem provisoriamente instalada, inclusive quanto à emoção
ruim; a fábrica reclamava sua presença.

A chefia, de posse de dois relatórios, um deles indicando mudanças ou


déficits nos estoques de água, sódio e glicose; um outro, a sensação
desagradável entre os trabalhadores em geral, exigiu providências imediatas
de diversos setores do organismo.

Nesse ponto, de posse desses dados e de seu poder, o comando do córtex,


ligado ao comando subcortical , colocou em movimento as estacas (pernas)
para buscar nos lugares de sempre (para isso faz uso da secretaria da
memória ou hipocampo para lembrar-se da geladeira) a laranjada (água) e,
também, um pouco de pão com manteiga (glicose e sódio).

Esperava-se que, uma vez incorporados ao organismo os ingredientes


necessários, informações deveriam ser enviadas para analisar se os estoques
baixos já estavam normais. Uma vez atingido o nível desejado – saciado o
organismo/fábrica -, novas informações devem ser dadas aos comandos
centrais para que seja interrompido o fornecimento das “commodities”, pois
do contrário haveria um excesso de água, sódio e glicose. Ao mesmo tempo,
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o estado corporal e emocional dos trabalhadores da fábrica retornariam ao
normal caso tudo desse certo.

Em outras palavras, a informação fundamental para que se iniciem as


medidas necessárias, bem como se é chegado o momento de interrompê-
las, é a enviada a partir das mudanças corporais emocionais que motivam a
fábrica para agir em adquirir nutrientes e, depois de consumi-los, interromper
a ingestão deles.

Nessa complicada tarefa, duas estruturas, amígdala e CPFVM (córtex pré-


frontal ventromedial), são fundamentais para solucionar esse problema.
Ambas são responsáveis primariamente para indicar a sensação de que
algo do padrão ótimo de funcionamento da fábrica foi alterado e, por
isso, soluções devem ser tentadas para fazer com que o estado de calma
volte a vigorar. Posteriormente, as informações dadas por elas indicam se
o transtorno foi ou não superado, isto é, se acabou o sofrimento. Caso o
transtorno tenha sido dominado, as ações precisam ser interrompidas, pois o
trabalho terminou.

O doce-de-leite com coco: Uma ligeira parada


explicativa
Peço desculpas ao leitor, pois vou interromper a descrição da glicose baixa
quando os exercícios começaram. Falei na laranjada tomada e também
no pão com manteiga. Entretanto, revendo documentos, percebi que fui
enganado. Para que o leitor possa entender melhor essa narração, um pouco
envergonhado, darei uma outra explicação necessária. Sou obrigado a falar
novamente acerca dos dois grandes comandos da CCG, ou seja, o comando
subcortical e o comando cortical.

Nem tudo são flores em nosso corpo. Existem divergências constantes entre
os dois comandos, isto é, entre os dois cérebros que temos: um cortical
(aprendizado pós-natal ou do indivíduo), e o outro subcortical (aprendizado
pré-natal ou da espécie). No organismo/fábrica, como ocorre em todos
aglomerados de pessoas, há chefes e subordinados; poderosos e submissos;
maus e bons chefes e, sempre, competição, cada um querendo aumentar
mais seu poder à custa da diminuição do outro.

Portanto, apesar de trabalharem juntos, como jogadores de um clube, há uma


luta surda entre os comandos no organismo/fábrica humano, principalmente

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entre duas grandes chefias. A parte do cérebro antigo, (o super comando
subcortical ), está sempre lutando contra seu companheiro e adversário, o
comando mais novo e sofisticado, o super cortical. Não se assustem. Essa luta
de “companheiros” ocorre em todos os grupos: no de políticos, religiosos,
irmãos, ou seja, dentro de uma família unida. O comando cortical apresenta,
como vantagem, manter uma relação estreita com o meio ambiente externo,
enquanto o subcortical não se relaciona diretamente com o exterior. Mas, em
compensação, o comando subcortical decide rápido, enquanto o cortical é
lento. Cada um tem suas vantagens e defeitos.

O comando subcortical era o único existente no homem primitivo; o comando


cortical somente apareceu milhões de anos depois. Também, nascemos com
o comando subcortical prontinho para ser usado; ao passo que nascemos
com o comando cortical virtual, ainda sem nenhuma função no recém-
nascido. O comando cortical começa a se desenvolver com a aprendizagem
após o nascimento, enquanto o subcortical já está pronto ao nascer.

O comando cortical é sustentado pelo conhecimento e pela memória


adquirida durante a vida extra-uterina, mas extremamente ligado ao
poderoso poder do comando subcortical , inclusive de sua “memória”
inata. A rixa é antiga apesar de que o trabalho de um complementa o outro.
Todos os problemas enfrentados atingem ambas as chefias. Entretanto, ora
uma, ora outra, aproveita-se da distração do companheiro e apropria-se,
temporariamente, do poder decisório, para vergonha, às vezes, ódio do outro
comando amigo/inimigo.

O poder cortical é frio, lento, demora a agir, é calculista, pensa utilizando-se


do que aprendeu com a cultura e não como espécie; faz uso da razão, usa
a lógica, compara, busca lembranças na memória etc. para examinar o que
ocorreu no passado. O comando subcortical vai direto ao assunto. Sendo
quente, ele age impulsivamente e sem subterfúgios, de forma espontânea; é
irracional, intuitivo e utiliza-se do aprendido com a espécie.

O retorno à queda de glicose


A batalha entre os dois comandos começou após a queda da glicose. Até aqui,
todas as ações estavam sendo controladas principalmente pelo comando
cortical com o auxílio do comando subcortical que fornecia informações
vindas de baixo: queda de glicose etc., como descrevi acima, após os
exercícios físicos para combater a gordura abdominal.

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A mudança de estratégia e de poder ocorreu ao abrir a geladeira, para pegar a
laranjada e o pão com manteiga, conforme indicações do comando dotado de
raciocínio a partir de indicações do comando irracional que foi o fornecedor
das informações acerca da queda de glicose, sódio e água. Lembro ao leitor
que a tomada de decisão inicial foi uma subestação do córtex pré-frontal
ventromedial (CPFVM).

Até a ida à geladeira, o comando subcortical , fingindo de bobo,


temporariamente, se submetia à chefia do comando cortical. Uma vez a
geladeira sendo aberta esse comando se rebelou. Subliminarmente, isto é,
sem que o comando cortical pré-frontal ventromedial percebesse, diante
de tentadoras iguarias expostas dentro da geladeira, uma das subestações
subalternas ao comando subcortical , o tálamo, (que detecta coisas
importantes para o organismo no meio ambiente), rapidamente focalizou e
selecionou um outro alimento ali guardado.

O tálamo, antes que o comando cortical percebesse e impedisse sua ação,


deu ordens a parte do organismo (as mãos) a não pegar a laranjada como
tinha sido ordenado pelo comando cortical. Acontece que o tálamo, seduzido
por doces, sentiu-se eufórico ao ver um belo doce-de-leite com coco num
pote na geladeira. O bem-estar foi tão grande que produziu no interior do
organismo/fábrica uma emoção enorme e junto a esta um vigor e coragem
para ir contra a chefia. O bem-estar inicial do tálamo se espalhou por outras
subsecretarias importantes ligadas à emoção: núcleo acumbente (núcleos
ligados às emoções sentidas no instante e produção de dopamina que faz
o organismo agir), hipocampo (uma subsecretaria relacionada à memória,
principalmente as relacionadas a fatos e ou eventos da vida do indivíduo),
septo, cíngulo e outras subsecretarias do Sistema Reticular (encarregadas do
alerta geral do organismo, preparando-o para uma ação mais imediata).

De outro modo, todas essas subsecretarias especiais se acham ligadas entre si


por um sistema mais amplo, uma subestação que engloba várias subchefias,
todas elas estreitamente responsáveis pelas emoções que, no seu conjunto,
recebe o pomposo nome de “Cúpula Anatômica do Sistema Límbico”; os
estudiosos mais ligados à psicologia e ao comportamento lhe dão o nome
de “Sistema Emotivo ou Emocional”. O primeiro grupo de cientistas enfatiza
principalmente os aspectos físicos e anatômicos do conjunto, ao passo que,
por sua vez, o segundo grupo de explicadores focaliza principalmente os
aspectos emocionais, motivacionais e cognitivos da emoção.

Retornando: o sistema emocional – que age rápido -, mais preso ao comando

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subcortical , ao ver o doce através dos olhos do sistema cortical ficou vidrado
com o atraente doce. Só o comando cortical entra em contato direto com
o ambiente externo (visão, audição, tacto, olfação, gustação). O comando
subcortical , diante da possibilidade de vencer essa batalha, mesmo
antes de colocar o doce na boca, sentiu um forte prazer interno ao liberar
informações (mensageiros ou neurotransmissores) como a dopamina. Esse
neurotransmissor é liberado quando imaginamos um objetivo atraente (ou
repelente) que poderá ser atingido como, neste caso, a representação do
doce-de-leite viajando pela boca, sendo amassado pela língua, navegando de
um lado a outro, sendo saboreado e, finalmente, engolido.

O prazer foi tão intenso que obstruiu o propósito inicial do comando cortical
de tomar o suco e comer o pão com manteiga. Dominado e contaminado pelo
prazer antecipado vindo do comando subcortical , o comando cortical perdeu
momentaneamente seu poder de decisão. A laranjada, uma vez deixada de
lado, permitiu a entrada, de forma rápida, do doce no interior da fábrica para
alegria geral de vários componentes das secretarias e operários da fábrica do
comando subcortical , pois estão sempre à procura de prazeres imediatos, já
que esses setores não são capazes de fazer cálculos de futuros prejuízos; eles
não pensam. O enorme grupo do comando subcortical , logo após a vitória, o
doce sendo ingerido, debochou do comando cortical que não havia percebido
nada até aquele instante.

Foi assim que o comando subcortical , antecipando o delicioso prazer do


sabor do doce, utilizando-se dos poderes do filtro da subestação do tálamo,
burlou a vigilância preguiçosa e demorada do comando cortical e engoliu
rapidamente o doce-de-leite com coco. A ação do comando subcortical foi
rápida; o doce foi totalmente engolido. Assim, foi interrompido o regime
elaborado pelo centro racional do organismo, para diminuir a gordura
abdominal.

Final da história do doce-de-leite com coco


Acontece que só o comando cortical (o que toma as decisões pensadas e
elaboradas) tem acesso crítico e direto acerca das regras e dos costumes do
meio exterior, isto é, do que deve ser feito. Após estar empanzinado, sem
mais fome, com a glicose já nos seus limites normais, até um pouco alta, o
comando cortical tomou consciência do ocorrido. Percebeu que foi passado
para trás. Nesse momento, ele ficou perturbado com a informação dada pelos
principais subsetores subcorticais.

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Já sem a ação das secretarias internas e poderosas subcorticais, pois
nesse momento elas estavam em repouso, talvez dormindo, já que se
empanturraram, o comando cortical pode refletir com calma, tomar
consciência do que fez; nesse instante ele não mais estava pressionado pelo
comando subcortical .

Alguns segundos depois, o comando cortical traduziu o que imaginou, formou


imagens, se comparou com outros organismos e, como é capaz, analisou o
ocorrido, mais ou menos assim:

“Para quê fui comer o doce-de-leite com coco; eu devia ter tomado apenas a
laranjada e comido uma fatia de pão com manteiga. Estou com cinco quilos
acima de meu peso, minha barriga está exagerada. Para tudo tem remédio:
tomarei algumas providências como colocar meus músculos esqueléticos
para funcionar, assim perderei peso. Sei que ando comendo demais. Cochilei;
deixei muitos poderes para certas secretarias; como elas não raciocinam,
apenas notam o prazer imediato que terão e como elas agem rápido, acabo
não tendo tempo de impedir suas ações, muitas vezes desastrosas; elas nem
parecem ser minhas condutas. Vou tomar mais cuidado com essas estações
que não sabem o que é moda, elegância e saúde de um modo mais lógico e
racional. Como são burras! Como eu sou, muitas e muitas vezes, dominado
ou corrompido por elas. Sou um idiota: sei o que é certo e acabo fazendo
bobagens! Não aprendo; já fiz bobagens semelhantes milhares de vezes!”.

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Antônio escapa do assalto
Antônio caminhava pelas ruas da cidade. Num dado momento, sensores
de seu organismo detectaram a possibilidade de um rapaz que caminhava
a pouco mais de um metro atrás dele pudesse querer assaltá-lo. Os sinais
de alerta localizados pelo seu organismo deram origem a um estado que
recebe geralmente o nome de “medo”. Os componentes dessa reação da
fábrica/organismo de um suposto perigo produzem, geralmente, entre outros
sinais, uma contração muscular, secura da boca, palidez, suor frio, tremores,
aceleração do coração e uma respiração ofegante. Todas as informações do
corpo, que, uma vez ativadas, preparam o organismo para correr ou atacar,
foram também enviadas à Central Coordenadora (córtices pré-frontais)
para que este setor registrasse o acontecido e deliberasse quais decisões
precisavam ser tomadas diante do suposto perigo.

A Central, em seguida, antes de tomar as decisões finais, enviou informações


a um outro setor (hipocampo), local onde são armazenados os fatos já vividos
pelo organismo/fábrica, ou seja, as lembranças guardadas de episódios já
acontecidos para que pudesse ser feita uma melhor análise daquele caso
particular do momento.

Examinando os arquivos do fato, da região onde Antônio caminhava, o tipo


físico, principalmente a face do rapaz, seus dois acompanhantes caminhando
como se nada quisessem, um pouco atrás um outro, a hipótese de serem
“trombadinhas” foi levantada como mais provável.

Após a análise minuciosa desses dados, todos eles levados para o setor de
inteligência da fábrica, esta região, após terminar de fazer o exame mais
detalhado da situação, em seguida, e o mais rápido possível, enviou um
relatório acerca do exame dos dados recebidos para a Central para que ela
tomasse providências urgentes. Imaginando ser melhor errar por fugir que
errar por não fugir, Antônio concluiu que a suspeita principal era de que
o rapaz atrás dele deveria ser mesmo classificado, segundo o hemisfério
esquerdo, classificador de fatos, como provável “trombadinha”.

A Central da fábrica então, através de diversos comandos, deu ordens para


que os músculos dos olhos se dirigissem mais para o grupo. Além disso,
mandou contrair os músculos da perna para dar meia-volta e focalizar,
se possível, o rapaz de frente, e ainda que endurecesse os músculos se
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preparando contra qualquer ataque do indivíduo e, também, aumentasse o
sangue nas pernas e braços para possível fuga ou ataque. A atenção deveria
ser aumentada e para isso deviam ser deixados de lado outros objetivos, por
exemplo, deixasse de pensar na passagem que iria comprar na rodoviária.
Imediatamente Antônio virou seu rosto para o chão e retornou de onde
vinha, tentando descobrir, rápido, algum policial desocupado para ajudá-lo.

Em resumo: a troca de informações entre o córtex que viu o fato – possível


trombadinha – e todo o organismo – prepararam Antônio para enfrentar uma
situação de perigo e, portanto, provocadora de medo. O rapaz que estava ao
seu lado continuou andando mais devagar em direção à fábrica/organismo
de Antônio. Vários elementos da fábrica foram comunicados da possível
agressão que aconteceria a qualquer momento; ele ficou pronto para o fato.

Vou aprofundar mais um pouco nessa narrativa. Diante desse fato, uma vez
o organismo/fábrica de Antônio tendo percebido, através de sua Central, o
risco próximo, foi decidido que era preciso fugir do assaltante. Pois bem, aqui
começa o trabalho da fábrica relacionado à fuga.

O setor ligado aos órgãos sexuais de Antônio foi praticamente desativado;


não havia trabalho para eles naquele instante; ao contrário, essa região da
fábrica, no momento da fuga, deveria estar, temporariamente, descansando;
qualquer ação ali localizada atrapalharia o plano imaginado: fugir do
assaltante, se possível sem dano e sem perder dinheiro colocado no cofre da
fábrica.

Entretanto, para andar mais depressa ou correr é preciso contrair músculos


das pernas, mas não dos braços. Imediatamente, a Central enviou sinais para
que os setores ligados relacionados a essa área da fábrica fossem acionados
para produzir conforme sua capacidade máxima. Esse setor precisava mudar
a ação das pernas de Antônio, que eram de pouco esforço para o de enorme
produção, isto é, criar contrações mais potentes e rápidas e, para isso,
despender maior quantidade de energia. Nesse caso, a Central, através de
áreas de comando, localizadas junto à coordenação geral, requisitou, por
exemplo, junto ao setor de armazenamento de glicose, uma maior liberação
dessa substância. O mesmo foi feito com respeito ao oxigênio, pois a fábrica
estava consumindo mais desse gás naquele momento. Para aumentar o uso
de outros nutrientes, além da glicose e oxigênio, foi preciso aumentar os
batimentos do coração e dos pulmões, por exemplo, pois havia um maior
esforço físico realizado pelas pernas.

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Para enviar as quantidades altas, mas não exageradas, setores como o do
coração foi informado e requisitado para bombear mais vezes por minuto os
nutrientes, ao mesmo tempo o hipotálamo, ciente de tudo, ficou atento para
controlar os parâmetros necessários de cada um dos elementos químicos
que seriam aumentados e enviados pelo sangue ao local necessitado. Outras
informações foram também enviadas para os setores do equilíbrio do
corpo (vestibular, cerebelo) para que Antônio não desequilibrasse ou caísse
durante a fuga. Além disso, em outras regiões da fábrica ordens foram dadas
para diminuir a sensibilidade dolorosa do corpo, pois o essencial, naquele
momento de perigo, era escapar, portanto, se ele torcesse o pé durante a
corrida, a dor provocada iria dificultar alcançar o objetivo colocado pelo
cérebro naquele momento.

Para terminar minha descrição, que está muito e muito longe de ser
completa, os sentidos relacionados às fugas foram preparados para
ficarem mais aguçados, prontos e capazes de detectarem qualquer sinal de
aproximação do bandido ou de outro risco porventura existente.

Chamo a atenção do leitor novamente que estou super, super-resumindo


o que de fato acontece na fábrica durante um fato tão comum como esse:
fugir de um possível assaltante; de um fato desagradável e urgente. Portanto,
sinais em diversos pontos do organismo/fábrica são produzidos e enviados,
bem como recebidos nos diversos pontos a partir de sua produção e
conforme os problemas enfrentados pela fábrica durante sua vida. Tudo isso
para proteger o indivíduo.

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Altamiro não escapa do
assalto
Vamos a outro exemplo. Para não cansar o leitor, tudo se passa do mesmo
modo com Altamiro, primo de Antônio. Ocorre apenas que Altamiro, devido
a um acidente de moto, bateu a cabeça no chão com violência há muitos
anos e, depois de dias em coma no Pronto-Socorro, ficou aparentemente
bom. Altamiro conversa bem, conta casos, e é até falante demais. Ele teve
durante o acidente uma lesão grave exatamente no setor onde se localiza
a Central (regiões diversas dos córtices pré-frontais). É nesse local que são
recebidas e enviadas informações de todas as partes do organismo interno
em função do que está ocorrendo dentro e fora da fábrica. Sendo o setor
mais bem informado do organismo, essa região é vista como a responsável
pela tomada de decisões, por ser uma central que aglutina, analisa e sintetiza
as informações obtidas de todos os cantos do organismo/fábrica.

Pois bem. Altamiro ficou capacitado para resolver problemas simples,


de imediato, ou seja, como expliquei acima, os que ativam as regiões
subcorticais e algumas corticais, como a fala e os movimentos do corpo.
Entretanto, a região chave do córtex pré-frontal encarregada, entre outras
coisas, de prever a ocorrência de danos futuros, como poder ser assaltado
ao sair do banco com dez mil reais na mão; dirigir o carro numa velocidade
de 160 quilômetros por hora; sozinho, desafiar a torcida do galo etc., essa
capacidade de representar o fato mentalmente, de modo tanto geral como
minucioso, Altamiro perdera após o acidente.

Ele avaliava tudo mal: jogava sempre na sena, certo de que ganharia o grande
prêmio; foi morar com a primeira sirigaita que encontrou, e ela lhe roubou
tudo que havia guardado; foi preso, pois pegou no supermercado um DVD e
colocou dentro do paletó achando que não seria observado.

Perto da rodoviária, ele, distraído, foi assaltado. Como só tinha um velho


relógio de pulso, ficou sem ele, e também sem seu tênis que ganhou de sua
mãe no Natal. Além disso, levou alguns tapas na face por ser tão pobre. Ele
não entendeu porque fizeram aquilo com ele. Portanto, um defeito numa
pequeníssima região do cérebro frontal pode prejudicar muito as tomadas de
decisões mais sábias do indivíduo.

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Ainda discussões sobre o transtorno de
Altamiro
Imagine, meu prezado leitor, como relatei, uma lesão localizada no próprio
setor decisório do organismo, ou seja, um problema no setor de tomada de
decisões do organismo/fábrica. Nesse caso, todas as decisões e, geralmente,
percepções, emoções, motivações, pensamentos e condutas, serão também
afetadas e, consequentemente, todo o resto do edifício individual.

Desejo enfatizar que os fatores causadores desses problemas podem ser


inúmeros; vocês todos os conhecem, vamos lembrar de alguns. Muitos desses
problemas são defeitos na construção do organismo, como por exemplo:
lesões cerebrais durante a gravidez, mutações genéticas causadas por fatores
como uso de drogas e de muitos medicamentos, bem como má nutrição da
mãe durante a gravidez. Todos esses fatores e outros podem afetar em grau
pequeno ou grande a estrutura da fábrica em alguma parte, naturalmente,
também, no cérebro. Conforme a lesão, esta, para sempre, irá prejudicar a
eficiência da pessoa nesse complicado mundo.

Além disso, fatores ambientais, após o nascimento, podem provocar danos ou


disfunções cerebrais e prejudicar a função de várias áreas dos dois andares.
Entre eles, uma má alimentação e uma má criação, com muito cuidado ou
nenhum ou pouco cuidado; um ambiente pobre em conhecimentos ou com
paradigmas inadequados acerca das pessoas e do mundo e, mais tarde, uso
de drogas, danos físicos ocorridos nos andares superiores como acidentes
devidos a batidas de carro, brigas, quedas e, para completar, doenças como
os tumores que atingem esses andares, doenças mentais que mudam
seu funcionamento como as esquizofrenias, depressões, transtornos da
personalidade, como, por exemplo, o Transtorno de Personalidade Anti-social.

O anti-social carrega um defeito no andar superior da fábrica que lhe torna


incapaz ou com dificuldade de detectar riscos diante de uma determinada
ação. O transtorno da personalidade anti-social se caracteriza, quanto ao
seu mecanismo, por dificultar seu portador de sentir mal-estar (estômago,
intestino, coração, pulmão, músculos etc.) ao imaginar realizar uma ação
contra as normas aceitas: um assalto, estupro, dar um cheque sem fundo,
agredir sem motivações plausíveis uma pessoa como a um homossexual,
uma prostituta, sem-teto, idoso, mulheres, doentes físicos ou psíquicos,
etc. De outro modo, o anti-social não é capaz de sentir emoções diante do
sofrimento dos outros, chamada de “emoção vicariante”. Os livros de ficção,

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por exemplo, visam provocar no leitor emoções de satisfação ou insatisfação
conforme o que está acontecendo com um e outro personagem. Os anti-
sociais são capazes de relatar o que viram ou leram, mas sem demonstrar
emoções.

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Alguns eventos na vida de
Maria
A raiva: Maria é agredida

Maria foi agredida verbalmente por seu marido. Imediatamente seu


organismo se preparou para a nova situação ou, de outro modo, para o
estresse surgido. Ela pode ter se sentido irada. Nesse caso seu organismo
produzirá substâncias que a levarão a xingar ou agredir fisicamente seu
marido – o que desencadeou o estado emocional desagradável e, também, a
liberação de adrenalina, cortisona, ACTH, etc.

A produção de neurotransmissores e peptídeos, conforme as emoções,


intensas e fracas, agradáveis e não-agradáveis, fazem parte do organismo
desde seu nascimento, sendo, portanto, inatas, frutos de seleção natural. A
liberação exagerada dessas substâncias fez aumentar, por sua vez, a liberação
de glicose no organismo de Maria que, por outro lado, facilitou a agressão
verbal ou mesmo a física caso ocorresse. Durante a raiva aparece ainda
um aumento da pressão arterial, da contratura muscular; tudo isso ajusta-
se à emoção sentida com a efetivação da conduta adequada às intenções
produzidas em Maria.

Maria e seu medo do marido


Mas, ao invés de Maria ter sentido raiva, vamos imaginar que ela sentiu
medo. Caso isso ocorra, as substâncias químicas liberadas serão outras, pois
a ação imaginada para ser utilizada será diferente. Além disso, caso Maria
sinta medo e, ao mesmo tempo, perceba e ou imagina que tem grande
probabilidade de escapar da agressão do marido, as substâncias químicas
liberadas serão de um tipo. Por outro lado, quando Maria imagina ou conclui
que ela está impotente nas mãos do marido agressor, isto é, não há como
escapar de sua fúria (como geralmente ocorre num sequestro), as reações do
organismo, entre elas, a liberação de substâncias químicas, serão outras.

De modo semelhante, se colocarmos um rato dentro da água de modo a


simular um afogamento, seu organismo, diante desse estresse, produzirá

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certas substâncias químicas; por outro lado, se o rato é colocado diante
de um fogo ameaçando-o de morte, as produções químicas internas serão
outras diferentes de quando ele estava preste a se afogar. Esse arranjo visa
a adaptação do organismo à situação imaginada, vivida ou intencionada;
para isso ocorre a produção de hormônios, neurotransmissores e outras
substâncias e, também, outras mudanças corporais como contração ou
relaxamento muscular, o aumento ou diminuição da pressão, a contração ou
relaxamento intestinal etc.

Em qualquer dos casos são excitados circuitos, centros, vias, conexões


anatômicas, há produções de neurotransmissores, peptídeos, e outros
agentes químicos, que interligam as várias partes do sistema nervoso
central. Através desses diversos mecanismos internos o organismo tenta se
manter vivo e em harmonia nos seus diversos setores, conforme os objetivos
visualizados pelo indivíduo.

Maria fica apaixonada


Maria aproxima-se de José; ela está alegre e animada com o “jeito” dele.
Teresa, uma segunda mulher, aproxima-se de José e tem uma reação oposta,
isto é, tem repulsa por ele; ela imagina ir embora logo. Nessa historinha
nota-se que o “objeto” externo e “real” é o mesmo, José, que, por definição,
se comporta de modo semelhante diante das duas mulheres. Entretanto, o
“objeto psicológico” ou “representação psicológica” “José”, construído por
uma e outra mente, é diferente para uma e outra.

A característica singular de uma e outra produz, também, ativações


diversas nos seus centros emocionais. Consequentemente, suas avaliações
quanto à atração ou repulsa são contrárias. É possível que Maria, diante do
encantamento provocado nela por José, formulasse ou traduzisse o sentido
por seu centro emocional da seguinte forma: “Ele é um homem muito
charmoso”; “Ele me causou um bem-estar delicioso”. Por outro lado, Teresa,
que foi atingida negativamente pelo “estímulo” José, construiu verbalmente
as seguintes idéias: “Detestei! Senti nojo dele”; “Que homem mais antipático!
Deus me livre e guarde!”.

Às vezes não ocorrem avaliações antagônicas, mas semelhantes quanto ao


prazer, ou desprazer, mas diferentes quanto ao potencial ou grandeza do
prazer, ou desprazer; por exemplo, uma delas ficará muito atraída, a outra,
um pouco atraída. As emoções variarão num caso e outro.

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As frases arrumadas por Maria ou por Teresa, uma condensação do
observado e selecionado, foram construídas através das experiências vividas
por cada uma delas, das lembranças no momento da construção das frases,
das situações já vivenciadas e memorizadas, lidas, vistas nas histórias,
novelas, filmes etc. que se assemelhavam, conforme sua percepção tida
e escolhida, das características de José. O fator linguagem utilizada terá
importância, pois ajudará a decisão de aproximar ou escapar do estímulo, a
buscar a melhor e mais sensata conduta.

Maria apresenta outras emoções


Muitas vezes o estímulo bom ou ruim, agradável ou desagradável, não ocorre
apenas diante do estímulo “visão”, mas também de outras sensações como
do odor: “Como fede esse cara! Puxa!” ou “Ele usa um perfume delicioso”.
Podemos também estar atraídos ou afugentados devido aos sons agradáveis
ou desagradáveis vindos de sua voz: tom e timbre, por exemplo: “Tem uma
voz de locutor; forte e bonita”; “Fiquei toda trêmula com seu vozeirão”; “Que
voz chata, estridente. Detestei”. O julgamento pode ser gerado também a
partir de sensações tácteis, como os “amassos”, beijos e outras coisas mais:
“Não me esqueço de seus deliciosos beijos”; “Foram os “amassos” mais
“sexys”que experimentei.Que delícia!”

Temos a tendência a procurar perceber o “objeto” causador de nossa


emoção, seja ele agradável ou desagradável. Se me sinto aborrecido diante
da conversa de José, meu organismo, automática e inconscientemente,
produz substâncias que mudam o funcionamento normal antes existente,
preparando-me para uma fuga ou briga; disparando a emoção adequada,
desagradável ou agradável. Após sentirmos as emoções traduzimos o sentido
para as palavras: “Achei ele tão chato. Nem dormi direito”, ou “Que simpatia,
fui para casa cantarolando de alegria. Quero-me encontrar outras vezes com
ela.”

Uma emoção disparada num momento, devido à fisionomia, a uma ação


qualquer, a uma conversa, o tom bonito da voz, ou qualquer outro fato
provocador do desencadeamento das emoções leva a pessoa a ficar alegre
ou aborrecida no momento, mas também horas depois do fato acontecer,
pois as secreções que nos colocam prontos para a aproximação ou para o
afastamento duram por muitas horas, ou seja, muito tempo depois do fato
ter acabado.

Resumindo: para que Maria fique possessa, feliz, triste, ou com qualquer

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outra emoção, é necessário que surja um estímulo (interno e ou externo)
no seu organismo; uma crítica, um elogio, uma notícia boa ou ruim, um
encontro interessante ou seu contrário etc., isto é, fatores desencadeadores
das emoções. Mas Maria pode ter outras emoções, tais como as decorrentes
de um esbarro com o joelho na cadeira, uma queimadura da mão no fogão,
a observação de um acidente diante de sua residência, uma comida ingerida
e que lhe deu enjôo, um cheiro de podre que ela não sabe a origem, um
atrevido desconhecido que lhe faz um gracejo sem graça, o inconveniente
que encostou, em pé no ônibus, o corpo no dela, um “trombadinha” que lhe
roubou o dinheiro para pagar a conta de luz e muitos e muitos outros fatos.

Pois bem, em todos os exemplos inventados e descritos acima existem


alguns estímulos (cheiro, dor, contato indesejável etc.) que foram sentidos
e percebidos por Maria. Para que o estímulo seja notado (“roubaram meu
dinheiro”) é necessário que ela perceba o roubo no momento ou horas
depois. Tudo que notamos (percebemos) tem que ser sentido por nossos
radares especiais (nossos diversos órgãos sensoriais) que transmitem o
impulso (batida do joelho na cadeira) provocador da dor até regiões mais
elevadas do cérebro, as corticais, para que o fato possa ser processado
(entendido), identificado e, muitas vezes, nomeado com um nome feio ou
uma frase não tão feia: “Diabo! Feri meu joelho. Tá doendo…”.

Um fator provocador do aparecimento das emoções, negativas ou positivas,


mais complexo é o do discurso, isto é, as idéias que são transmitidas no
momento do encontro, ou mesmo dos solilóquios, ou seja, das “conversas
internas” que temos com nós mesmos. Da mesma maneira que a visão do
corpo de José poderá excitar Maria, e fazer Teresa fugir, ou o cheiro, a voz, o
modo de se vestir etc. pode entusiasmar ou afugentar uma pessoa, também,
e isso é frequente, as idéias, o assunto ventilado, o modo como as palavras
são arrumadas e ligadas às outras, isto é, a construção das frases, tudo isso
pode atuar como fatores importantes para desencadearem emoções positivas
ou negativas, levando a aproximação ou a rejeição e afastamento da pessoa
alvo.

Caso o relato expresso se coaduna com o gosto ou a preferência do ouvinte,


isto é, a pessoa se identifica com o escutado, serão produzidas no centro
emocional emoções positivas. Essas emoções “boas”, uma vez produzidas,
levarão a pessoa a ter mais simpatia pelo emissor do discurso. O contrário
ocorre se o ouvinte escuta do interlocutor idéias das quais detesta e ele se
irrita, tem raiva ou nojo do emissor das frases; isso aumenta sua antipatia
pelo emissor desagradável.

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Quando ouvimos uma palavra, uma frase, uma idéia de um falante qualquer,
nosso órgão sensorial, a audição, captará sons que podem ser agradáveis e
melodiosos ou seu oposto, estridentes, agudos, fanhosos etc. No primeiro
caso, esses sons tendem a nos causar uma emoção agradável; no segundo,
emoções desagradáveis. Mas isso não é o mais importante.

Ao ouvir uma conversa, podemos ouvir um palavrão, uma opinião sobre um


assunto, uma preferência por isso ou aquilo, ou seja, o nosso interlocutor,
provavelmente, nos mostrará um pouco ou muito de seu estilo, gostos e
preferências, ou seja, sua maneira idiossincrática e peculiar de interpretar
o que sente, escuta, aprecia ou não aprecia etc., principalmente naquele
momento e contexto. Tudo isso tem uma enorme importância na nossa
avaliação das pessoas, consequentemente do nosso prazer ou desprazer ao
estarmos com o indivíduo.

Imediatamente após o som escutado ter atingido o cérebro do ouvinte, ele é


decodificado, isto é, interpretado e traduzido para palavras, compreendido de
acordo com a linguagem usada numa cultura. Assim a memória armazenada
no indivíduo é acionada acerca da agradabilidade ou da repugnância daquilo
que foi falado pelo emissor. Desse modo o organismo do ouvinte recupera
as emoções positivas ou negativas, agradáveis ou ruins, diante do que ouviu
através das memórias antigas e armazenadas.

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Tranquilizando o leitor
Não se assuste, caro leitor, com alguns nomes citados de regiões cerebrais;
não precisa decorá-los. Existem muitos outros termos que não descrevi para
não cansá-lo inutilmente. De forma resumida, o que desejo transmitir é que
o nosso corpo, dia e noite, detecta as modificações que estão ocorrendo nele
diante de estímulos vindos dentro e fora do organismo.

Do lado de fora do organismo nós ficamos atentos aos perigos e às situações


que podem nos ser agradáveis; do lado de dentro detectamos mudanças que
nos causam mal ou bem-estar (dores, medo, desarranjos, alegria, apetite, paz
etc.).

Num e noutro caso, as ligações neuronais, comandadas por nosso cérebro,


coordenam todas as ações possíveis visando a fuga, a destruição do fator que
nos aborrece ou a aproximação para facilitar a ligação com um companheiro
ou para um acasalamento, por exemplo. Todo o processo interno do
organismo busca isso: aproximar-se do desejado ou afastar-se do indesejado.
De modo bem geral: manter a paz do organismo e/ou o bem-estar.

Chamamos de emoções certos tipos de sinais internos que nos causam


prazer ou desprazer, excitação ou indolência. Conforme esses sinais, nós
nos aproximamos do objeto provocador do estado corporal, ou procuramos
escapar daquilo que nos amedronta ou desagrada. De outro modo: o que
chamamos vulgarmente de emoção nada mais é que modificações estruturais
instaladas dentro do organismo, mapeadas ou sintetizadas por partes do
cérebro.

Podemos adiantar que os sinais percebidos e, posteriormente, enviados


pelo organismo ao cérebro, servirão de base para o que nós chamamos dos
“sentimentos” que temos diante de determinadas emoções; estes sinais
são, sobretudo, interoceptivos (percebidos internamente). Para que ocorra
esse processo torna-se necessário que inúmeros sensores internos detectem
mudanças num ou noutro ponto de desequilíbrio. O organismo, o mais rápido
possível, de forma automática e auto-adaptada tenta reverter o transtorno
existente. Esta é uma tentativa do organismo para voltar ao seu estado
anterior, natural ou ótimo, variando em cada pessoa.

O fator regulador de funções internas do organismo é estimulado não

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só internamente, como também pelos sensores dos órgãos sensoriais:
visão, audição, gustação, odor, pressão, sensação de calor etc. em virtude
de estímulos do exterior. Acontece que o estímulo externo é geralmente
complexo, isto é, composto de diversos estímulos diferentes. A pessoa
estimulada pela agressividade de uma outra (como Maria), poderá ter as mais
diversas emoções, consequentemente, várias atitudes a elas relacionadas.

As atitudes desencadeadas irão variar conforme as características singulares


de cada um, e também devido à focalização de sua atenção para um ou
outro aspecto do estímulo/pessoa, bem como da interpretação (“Ele está
brincando”, ou “Ele está querendo me matar”).

Assim, uma pessoa diante de um indivíduo agressivo pode partir para a briga,
mas, também, imaginar: “Como ele está nervoso! Coitado, poderá ter um
infarto a qualquer hora”. Mas poderá ainda especular, caso tenha tempo e
calma: “Ele está me xingando para que eu perca a cabeça. Está perdendo seu
tempo”; “Que cara mais feia; fica pior quando xinga”; “Até que ele raivoso fica
mais bonito”; “Tenho dó dele, está cada dia pior”; “A vida inteira ele foi assim,
daqui a pouco irá chorar e pedir desculpa. Coitado, vou mais uma vez perdoá-
lo, ele não sabe o que faz”. Dezenas, milhares de outras suposições poderiam
ser criadas, cada uma produzindo emoções diferentes.

A denominada “Terapia Cognitiva” visa a construir interpretações diferentes


da que está sendo usada pelo cliente e causadora de seu sofrimento. Assim,
diante de uma interpretação desagradável acerca de uma situação ocorrida,
se constrói outra ou outras explicações, transformando, consequentemente,
as emoções anteriores ruins em suposições suportáveis e, se possível,
neutras, cômicas, e mesmo agradáveis.

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Maria vai à cidade comprar um
presente
Maria distraidamente andava pelas ruas da cidade. Ela observava a vitrine
de uma e de outra loja. Procurava um objeto muito especial para presentear
sua mãe que naquele dia comemorava 55 anos. Parada, ela observava
dependurada num cabide uma blusa avermelhada que parecia ser conforme
o gosto de Terezinha.

A calma e concentração de Maria observando a blusa, num certo


momento, foram perturbadas. Ouviu-se um estrondo bem perto de onde
ela estava. Maria, por segundos, não se mexeu. Paralisada pelo susto, ela,
instantaneamente, mudou seu plano original: escolher e comprar o presente
para sua mãe.

Portanto, quando sua atenção focalizava a blusa vermelha de lã, bem como
o preço, sua mente foi desativada de um foco e ativada em outro. A partir do
estrondo, ainda não identificado, seu objetivo, automaticamente, naquele
momento, era escapar e, se possível, descobrir qual a razão do som escutado.
Caso descobrisse a razão do estrondo, provavelmente clarearia sua mente
para tomar decisões mais sábias; sua conduta seria muito diferente caso o
barulho tivesse sido decorrente uma bomba jogada na porta de um banco,
comparado com o barulho de um traque inofensivo comemorando a vitória
de alguém em alguma coisa.

Ainda sem saber o que acontecera, Maria percebeu que suas pernas tremiam,
o coração estava acelerado, a boca seca, isto é, o corpo estava preparado para
enfrentar um grande perigo imaginado a partir da informação “estrondo”.

Maria, após retirar seus olhos da vitrine, girou sua cabeça e as orelhas em
direção ao som escutado, para identificar melhor a origem do barulho.

Os sons que entraram em seus ouvidos, mais intensos no lado direito,


avançaram em direção à região do cérebro chamada córtex cerebral, a região
do cérebro capaz de identificar a razão ou motivo do barulho e, por isso,
também determinar o que ela devia fazer: correr ou ficar onde estava.

Mas, antes disso, alguns dos sinais sonoros que penetraram no seu
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organismo-cérebro tomaram outro trajeto e percorreram um caminho
mais curto: algumas informações sonoras foram em direção (entraram
em comunicação) a uma pequena região, do tamanho de uma amêndoa,
localizada na parte inferior do lobo temporal, que recebe o nome de
“amígdala”. Esse setor é uma região do cérebro altamente sensível às
situações assustadoras, principalmente às novidades, isto é, fatos ainda não
conhecidos e que poderiam ser perigosos. Resumindo, a amígdala prepara
o organismo para fugir, pois indica a existência de uma situação perigosa
ou complicada para ser solucionada, Por exemplo: a amígdala é estimulada,
provocando medo e, às vezes, fracasso, durante um encontro sexual onde os
parceiros não são íntimos. Não se trata da “amígdala” que temos na garganta,
mas sim a existente no cérebro.

Naqueles décimos de segundos após ouvir o estrondo, Maria ainda não


tinha decifrado de que se tratava. A amígdala alertou Maria de possíveis
perigos preparando-a para escapar. Maria, uma vez assustada, conduzida
ou dominada pela emoção sentida, possível de estar diante de um perigo
para sua vida, imediatamente começou a tomar algumas providências mais
imediatas, entre elas, verificar se era ou não necessário iniciar uma reação
rápida. “O que é isto?” Esta pergunta, que só aparece um pouquinho mais
tarde, usa outras regiões cerebrais além da amígdala, mas foram ativadas por
esta região.

Algumas especulações: ajudando Maria


Poderia ser, por exemplo, um fato sem importância, uma bombinha,
acessa por algum candidato a qualquer coisa. Portanto, dado o alarme pela
amígdala, caberia a outras partes do cérebro examinar com detalhes de que
se tratava, para que fosse tomada alguma ação, se possível, menos burra e
mais rápida ou mais lenta.

Mas, antes de ser iniciado um exame minucioso, o cérebro de Maria, muito


acostumado a assaltos na região central da cidade, reagiu ao som imaginando
que se tratava de assaltantes em luta com policiais ou com outros bandidos.

Após alguns segundos, Maria descobriu, através do córtex frontal, que a


origem de tudo foi uma janela que, devido ao vento, havia se soltado e caído
na rua atrás de onde estava; felizmente ninguém se feriu. Os sinais do córtex
frontal, vendo e comparando o observado, foram enviados para a amígdala,
informando a esta do que se tratava, pois, como sempre, ela estava excitada,
uma ativação que contaminou várias áreas do organismo de Maria, bem

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como de outras pessoas que passavam pelo local.

O córtex, portanto, ao identificar a janela caída como causadora do barulho,


tentou acalmar os setores internos do organismo que se preparavam para
uma grande luta. Assim, uma informação de que não havia perigo à vista
foi divulgada para substituir a primeira mensagem de possível perigo.
Felizmente, o perigo não era o que Maria imaginara; tudo estava em paz
e sob controle das autoridades. A central cerebral de Maria pediu, ainda,
a todos os outros componentes do organismo envolvidos na defesa da
fábrica que avisassem outros setores que, diante da inexistência do perigo
imaginado, os diferentes servidores do organismo/fábrica poderiam retornar
ao trabalho normal, pois nada de grave acontecera.

Mas a amígdala de Maria, sensibilizada por ter enfrentado tantos perigos, ao


olhar para trás do organismo, enxergou um homem com uma cara fechada
e estranha, parecendo olhar para ela. Imediatamente a amígdala se excitou
novamente, pois certas características muito vagas e superficiais daquele
indivíduo produziram em Maria uma reação de medo. Muitas pessoas sempre
imaginam o perigo, isto é, têm uma amígdala supersensível a qualquer
estímulo inócuo.

Explicações menos descritivas e mais


profundas do medo de Maria
Maria ouviu um estrondo. Seu corpo, automaticamente, sem seu esforço,
começou a agir diante do novo fato, já que antes ela andava calmamente
pelas ruas olhando e pensando qual presente compraria para sua mãe com o
dinheiro reservado para isso. Até instantes antes do barulho ouvido não havia
nenhum sinal estranho e desconhecido naquele local que indicasse que seu
organismo precisava ficar mais alerta.

Durante o susto sofrido por Maria, ao ouvir o estrondo, foram ativados


numerosos circuitos relacionados e alertados pelo susto – medo – sentido.
Entre esses circuitos e núcleos envolvidos estão os que motivam o organismo
a aproximar ou fugir do fato desencadeador da emoção, como, por exemplo,
regiões do sistema límbico (a amígdala é um dos componentes desse
sistema), tálamo, gânglios basais e outros. Todas essas regiões, ajudadas pela
fiação que as interligam, interagem para desempenharem diferentes papéis
na tarefa geral: aproximar ou fugir. Inicialmente, ao perceber o estrondo, ela,
sem querer, movimentou o pescoço e a cabeça para examinar de onde partiu

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o barulho e qual seria o motivo deste. Depois, ela tentou avaliar e tomar
medidas necessárias diante do que foi constatado no meio ambiente.

Todas as áreas envolvidas têm como meta manter as várias possibilidades


fixadas (focalizadas e prontas para ser escolhidas) na memória de trabalho de
Maria – a que está pronta para agir no estante – (operacional) e comparar as
metas conflitantes, levando, em última instância, à escolha de um caminho a
ser tomado e, também, inibindo os outros, visando a melhor solução para ela
diante do desconhecido barulho.

Logo no início, após ouvir o estrondo, ainda sem saber de que se tratava,
seu cérebro, através de sinais enviados pelo córtex cingulado anterior ao
hipotálamo e, também, à medula espinhal, o sistema nervoso autônomo,
que é coordenado pelo hipotálamo, foi ativado pelas informações do barulho
ocorrido; em seguida esse sistema nervoso autônomo (SNA) começou a
funcionar e providenciar as primeiras ações para o fato. Como não sabia de
que se tratava, o organismo foi preparado como se fosse algo grave e sério.
Geralmente o organismo/fábrica prefere agir por excesso de cuidados que
errar por não tomar cuidados e ser, por exemplo, danificado ou morto.

Assim é que o cérebro começa, imediatamente, a passar em revista –


inspecionando – as funções vitais do corpo, verificando se tudo está bem ou
não, e, nesse caso, quais outras providências precisam ser tomadas. Além
disso, que regiões do organismo deverão ser ativadas para enfrentar o perigo
que pode estar por vir (pernas, sangue para os músculos etc.) e quais deverão
ser desativadas (órgãos sexuais, intestino, apetite, dor, etc.).

Um dos sistemas ativado, subordinado ao hipotálamo, é o sistema nervoso


autônomo. Este sistema que entrou em ação no trabalho de socorro tem dois
ramos recíprocos e complementares: o sistema simpático e o parassimpático.
São esses dois ramos que enviam neurônios para regular o funcionamento
durante a paz e a guerra enfrentada, durante a calma e o estresse. Cabe ao
sistema nervoso autônomo, uma vez ativado, orientar os órgãos internos do
organismo como o coração, pulmões, estômago, órgãos genitais etc. como
agir diante disso ou daquilo, por exemplo, como o organismo deve estar para
ir ao encontro amoroso e, por outro lado, estar diante de um encontro com
um assaltante.

Essas regiões do corpo (coração, pulmões, rins, estômago, órgãos genitais,


pernas e braços etc.) precisam ser informadas, sem parar, sobre o que o
organismo está fazendo ou enfrentando no momento e, também, seus

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objetivos num e noutro instante. Assim, num certo momento, o corpo de
Maria pode estar faminto, pois sua glicose, por exemplo, está baixa; nesse
caso ele vai procurar comida. Ao começar a ingerir alimento, é preciso que
o SNA ative o estômago e, geralmente, desative os músculos estriados das
pernas, os órgãos sexuais, os órgãos excretores como a bexiga e o intestino
grosso e ânus etc.

Portanto, para que tudo dê certo, diante de um estrondo, algumas áreas


devem ser requisitadas para começar a agir, outras precisam ser desativadas
provisoriamente para que o organismo não perca tempo e energia.

Nós e os membros de outras espécies comunicamos as nossas emoções


primordialmente através de gestos faciais. Essas e outras expressões de
emoção, como o choro e riso, são controladas por grupos dessas estruturas; a
amígdala foi endeusada como a responsável por todas essa emoções, mas ela
está sendo, aos poucos, destronada e reinando menos.

Desde que as peças do organismo se encontram íntegras, e, também, não


existam modificações atuais sérias no cérebro e circuitos devido a drogas
ou medicamentos (álcool, tranquilizantes, cocaína, etc.), ou nada apresenta
devido a lesões ou doenças (acidentes, velhice, doença de Parkinson etc.),
nesse caso o organismo, como um todo, estará capacitado para alcançar seu
objetivo constante: o equilíbrio desejado e adequado diante de cada situação
vivida e em cada momento.

Assim, conforme o que vai acontecendo através do enfrentamento de fatos


ou situações externas e ou pensamentos internos, nosso organismo se
modifica para tomar as providências ajustadas às situações vivenciadas;
em última análise, o organismo procura manter-se adaptado à situação
experimentada ou imaginada para ele não sucumbir, ou, de modo mais frio,
não morrer.

Pois bem, a complexidade de uma série de sistemas corporais, coordenados


pelos diversos setores do sistema nervoso central, com a ajuda do sistema
nervoso autônomo, não pára aí. Ordens foram dadas aos músculos e, para
isso, automaticamente, o corpo precisaria de um tônus certo e que agisse
sem a necessidade do uso coordenado e um pouco lento dos centros
cerebrais mais elevados.

À medida que essas mudanças foram sendo efetuadas, os córtices pré-


frontais alertados pelo medo desencadeado pela amígdala e, em seguida,
pelas restantes modificações de todo o corpo, como tomador central
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de decisões que é, fica ciente de tudo isso: do estrondo, ainda de causa
desconhecida e, ao mesmo tempo, das modificações internas no corpo
(batimentos cardíacos acelerados, respiração ofegante, boca seca, tremores
das mãos e pernas etc.)

O córtex frontal de Maria, coordenador das ações e dos acontecimentos


internos, ao mesmo tempo, sintetizava esse conhecimento e fazia com que
Maria ficasse consciente acerca do acontecido, isto é, a avisava a respeito do
seu estado corporal interno (“suas pernas estão trêmulas, sua boca seca”) e
dos acontecimentos externos, para que ela ficasse atenta ao possível perigo
lá de fora, se ele de fato existisse e, ao mesmo tempo, do seu estado físico
e emocional, isto é, do que estava ocorrendo no interior do seu organismo.
Todas essas informações são usadas para que o organismo/fábrica aja de
forma funcional (adaptada) diante do que está acontecendo.

Ora, vamos imaginar – felizmente não aconteceu – que havia um perigoso


assaltante dando tiros. Nesse caso Maria ficaria mais trêmula ainda ao
identificar a origem do estrondo. Sabedora do fato – um homem dando tiros
– ela, examinando sua memória a respeito dela mesma, concluiria que ela
não era outro bandido, não tinha armas, não era policial e estava ali fazendo
compras e, possivelmente, não queria entrar na briga; ela era assalariada,
secretária de dentista. Pensando assim, muito fraca, acharia melhor para ela
naquele momento ficar quieta ou fugir, se fosse possível.

Por outro lado, felizmente, como o barulho fora provocado pela janela que
caiu, não havia nada a temer e fazer, pois o perigo que porventura existiu
terminou. Nesse último caso, seu córtex frontal, que presenciou tudo através
dos olhos e ouvidos, avisou para a amígdala – foi a amígdala que deu o
alarme -, que não precisava se preocupar, pois não era necessário nem correr
nem atacar, portanto, poderia deixar o corpo relaxar e retornar ao estado
anterior ao barulho, para continuar sua compra e não estar preparada para
lutar ou fugir.

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O organismo/fábrica e o
meio ambiente

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O Organismo/Fábrica e o meio
ambiente
A “fábrica/organismo” de cada indivíduo habita um complicado terreno. O
corpo humano, que faz parte da natureza biológica animal, vive num meio
ambiente externo junto a outros animais, mas, também, convive com uma
natureza vegetal, física, química, astronômica e outras, todas elas bastantes
diferentes da biológica. As leis, biológicas e culturais, que regem a vida
de Maria são singulares, elas diferem das leis que regem, por exemplo, a
física, química, economia e a sociedade onde Maria mora. Cada uma dessas
ciências (áreas do conhecimento agrupadas de certo modo) é composta de
“materiais” diversos dos que compõem o corpo de Maria. Além disso, os
elementos que formam os corpos físicos, químicos, por exemplo, se acham
reunidos e interligados (organizados; compostos) conforme princípios
próprios que diferem dos modelos (redes) explicativos que ligam as
substâncias biológicas que deram origem ao corpo de Maria.

Mas, querendo ou não, é nesse ambiente externo agrupado (costurado) e


composto de substâncias estranhas – nesse outro mundo – que Maria terá
que viver. Esse mundo surpreendente e esquisito, regido por leis estranhas
às de Maria, é, ao mesmo tempo, o fornecedor de matéria prima à sua
sobrevivência (alimento, oxigênio, companheirismo, sexo) e, também,
produtor de ameaças e riscos capazes, entre outras coisas, de exterminá-la.
Maria, portanto, é forçada a viver e conviver em constante interação com
um “ninho” estranho: um lar, ao mesmo tempo acolhedor e hostil. Toda
a “fábrica/organismo”, querendo ou não, terá que manter contato íntimo
e continuado com seu habitat natural; alguns organismos tornam-se mais
aptos, outros menos, para se adaptarem nesse problemático ninho.

Entre os fatores necessários ao desenvolvimento de Maria – e de qualquer


ser humano – estão outras pessoas com as quais ela convive. Os outros seres
humanos, como Maria, semelhantes à natureza física e química existente no
exterior e no interior de seus organismos, apesar de serem seres humanos,
portanto, biológicos, são bem diferentes de Maria. Eles todos apresentam um
genoma diferente, o que os tornam também ligeiramente estranhos. Mas tem
mais: as experiências diferentes que tiveram, além de princípios diferentes
que eles usam para reunir os fatos (suas teorias do mundo, de si mesmo,

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das coisas etc.) são, quase sempre, muito diversas do outro indivíduo como
Maria. Tudo isso torna complicada a existência da harmonia entre as pessoas.
Maria sofre por viver nesse complexo mundo físico-químico e na diversidade
de pessoas encontradas. O marido de Maria pensa diferente dela e, sendo
homem, tem um corpo não parecido com o dela e, ainda, foi educado por
outras pessoas com outras idéias. Por tudo isso, o marido de Maria, que
é uma de suas fontes de prazer, é, também, a origem da maioria de seus
sofrimentos, pois seus contatos satisfatórios e insatisfatórios são frequentes.

Resumindo: o mundo externo, coisas e pessoas, são essenciais para nosso


desenvolvimento e prazer, mas é também o contrário de tudo isso. Uma
grande parte dos clientes que atendi durante minha vida de psiquiatra/
psicólogo procurou-me devido aos problemas com o marido/esposa, filhos,
namorados, pais, amigos etc., isto é, os mesmos que, geralmente, produziam
prazer e companheirismo.

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Informação: Curiosidade e
Atenção
O homem está sempre examinando o meio ambiente. Sua atenção focaliza
mais a novidade que o conhecido. A criança recém-nascida tende a fixar sua
mente sobre algum estímulo determinado (uma voz, luz, movimento etc.)
num esforço para distinguir qualquer agente externo ou interno possível de
provocar prazer ou desprazer.

Na sua longa e complicada caminhada, os sinais informativos nascidos nos


diversos locais, fora e dentro do organismo – uma pisada num prego; um
pedaço de pé-de-moleque que não desceu pela garganta; uma vontade
maluca para fazer xixi – primeiramente entram na medula, depois sobem
para o sistema nervoso central se dirigindo ao tronco cerebral. Em seguida
a informação caminha em direção a um núcleo especializado do tálamo e
mais tarde alcança os córtices cerebrais para que seja tomada a decisão
imaginada. Através do tálamo, por exemplo, o organismo executa um controle
da quantidade e da qualidade do estímulo, selecionando os que devem ser
aproveitados e os que serão ignorados. A peneirada e seleção inicial facilitam
o trabalho posterior da região cerebral que analisará os fatos vivenciados.

Lembro ao leitor que a informação neuronal que caminha do tronco cerebral


em direção ao tálamo, em paralelo, isto é, ao mesmo tempo, está também
enviando mensagens importantes para outros lugares, por exemplo, para um
núcleo denominado tractus solitarius que também recebe sinais vindos do
nervo vago. Esses sinais são reenviados para o núcleo parabraquial e para o
hipotálamo.

Sem precisar decorar nenhum desses nomes, quero chamar sua atenção para
um pequeno fato. Ao pisar num prego, esse fato simples dá origem a uma
enorme quantidade de informações provenientes do que está ocorrendo,
inicialmente na sola do pé onde penetrou o prego e, em seguida, numa
grande parte do nosso corpo. De outro modo, a informação gerada num lugar
ativa, ao mesmo tempo, diversas outras regiões do cérebro (do organismo
total) que, uma vez recrutadas, compartilham de ações que precisam ser
tomadas. Ao mesmo tempo, as informações produzidas ao pisar no prego
irão desativar outro grupo de setores que não irão participar da defesa do

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organismo naquele momento.

Entenderam? Entenderam sim! O que eu quis dizer é que uma informação


chega numa determinada estação e, a partir desse centro, diversas outras
informações são distribuídas ao mesmo tempo para setores variados que
devem ser desativados e outros que precisam entrar em ação, isto é, serem
ativados, para contribuir com uma ação final deliberada pelo organismo.

Entre as mensagens enviadas algumas dizem respeito a parâmetros (padrões,


variáveis ou constantes) muito diversos, como o estado de contração dos
músculos lisos das artérias, o fluxo sanguíneo de uma determinada região do
corpo, a temperatura local, a presença de substâncias químicas que assinalam
a lesão de tecidos do corpo, o nível do pH, do O2 e CO2.

Um exemplo simples que senti agora: a queda de temperatura no meio


ambiente fez meu organismo sentir a mudança. Assim, comecei a notar que
minhas mãos estavam ficando frias e, também, com uma cor mais clara.
Aos poucos elas começaram a tremer ligeiramente, que nada mais é que
um esforço do organismo como um todo para aumentar a temperatura
dessa região do corpo e, portanto, normalizar a temperatura naquele local.
Automaticamente esfrego as mãos. Há uma ligeira melhora.

Dia e noite o organismo trabalha assim. Seria péssimo se minha mão esfriasse
e meu organismo nada percebesse e, consequentemente, nada fizesse.
Também, meu organismo poderia não notar o desequilíbrio existente nessa
região em comparação com o restante do corpo. Por exemplo, devido a algum
defeito, ele não mais seria capaz de tomar medidas eficientes para sanar o
problema. De modo simples: se o organismo estivesse doente suas respostas
(defesas) estariam prejudicadas.

As vias transmissoras das informações


Para que a presidência (a chefia coordenadora geral) fique informada do que
ocorre nas profundezas da fábrica e também nos andares intermediários,
logo abaixo da diretoria geral a central dispõe de duas vias de transmissão das
comunicações vindas dos microcomputadores para a central.

Numa primeira via, denominada humoral, as mensagens são produzidas e


transmitidas por intermédio do sangue, da linfa, do líquido cefalorraquidiano
e outros humores. Nesse caso, certas moléculas químicas transportadas,
por exemplo, pela corrente sanguínea ativam diretamente sensores neurais

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(dispositivos ou prescrições que respondem a estímulos apropriados,
transmitindo um impulso correspondente) na região do hipotálamo (aqui
chamado de uma diretoria) ou de outros órgãos do cérebro.

Sabe-se que os sinais captados e enviados pelo sistema nervoso autônomo


estão ligados a regiões evolutivamente mais antigas (amígdala, cíngulo,
hipotálamo e tronco cerebral), enquanto que os sinais para o sistema
músculo/esquelético, mais recentes, originam-se nos córtices motores e
núcleos motores subcorticais.

Portanto, nos porões do cérebro, isto é, nos níveis mais baixos, localizam-
se mecanismos encarregados de manter o organismo, automaticamente,
vivo, isto é, sem a participação da vontade de seu possuidor. Todo esse
mecanismo interno do organismo visa a manter o equilíbrio químico não só
no interior de cada célula, como no conjunto total de células que trabalham
para o desempenho global e satisfatório dos diversos setores da “fábrica/
organismo”: defesa, inteligência, emoção, motor, sensorial, etc.

Uma segunda via é a neural, isto é, relativa ou própria de qualquer estrutura


constituída de células nervosas ou de seus processos. Na via neural os
sinais eletroquímicos são transmitidos em feixes nervosos pelos neurônios
às regiões especiais do cérebro (diretorias próximas à central localizada no
megacomputador da presidência). Um exemplo desse conjunto de circuitos
é o relacionado aos nervos motores e aos sensoriais periféricos, vias que
enviam sinais de todas as partes do corpo para o cérebro e deste para o
corpo.

Deve ser lembrado que o departamento do sistema de informação neural é


auto-organizado. Ele é capaz de cooperar com várias espécies de traumas,
inclusive a morte ou destruição de alguns tecidos participantes do próprio
departamento neural e também de outros. O departamento constituído pelo
sistema de informação (inteligência neural) exibe tanto a plasticidade na
recepção de estímulos do setor de inteligência dendrítico (prolongamentos
especializados na recepção de estímulos), como o do setor de inteligência
axônico (prolongamento único de uma célula nervosa, por onde se
transmite à estimulação ou a ação) em resposta às experiências durante o
desenvolvimento da fábrica.

Explicando melhor: todas as modificações ocorridas na vida útil da fábrica,


durante seu desenvolvimento, que ocorrem no serviço de informação e
inteligência neuronal, são acompanhadas por modificações subjacentes nas

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antigas conexões conforme a estimulação do meio ambiente. Vamos a um
exemplo simples: se você é apresentado a uma pessoa, forma em sua mente
uma imagem desta e fica sabendo que a nova fábrica recém-conhecida se
chama Helena. Esse evento simples modifica as conexões de seu cérebro
(nas informações ou inteligência) por alguns segundos, ou mesmo por muito
tempo e até mesmo por toda a vida. Se você se submete a uma psicoterapia
e mudou sua maneira de pensar, sentir ou de se comportar, suas conexões
neuronais (informações internas) também mudaram para poder ativar tais
condutas ou reações. Em resumo: não há mudança emocional, cognitiva,
comportamental, sem seu correlato neuronal subjacente, pois sempre o
cérebro é modificado em todo aprendizado.

Funcionamento das informações. Duas vias:


ida e volta
Pequenas informações produzidas por cada “célula”, (o mais simples
funcionário da fábrica, operários escravos, cegos e surdos), são enviadas por
meio do terminal (microcomputador) existente em cada ponto do organismo
para outros setores após a produção da mensagem. Cada uma dessas regiões
menores produz e envia – também recebe – informações percebidas ou
captadas através de sinais químicos e ou elétricos. Desse modo, tudo o que
está ocorrendo na sua cela, isto é, numa parte isolada do “subterrâneo” da
fábrica, é informado (comunicado) a outros setores para ser investigado
(processado) e, em seguida, aproveitado ou não.

As áreas do cérebro maciçamente associadas à execução de certas funções


são, na realidade, estações intermediárias no processo de transmissão de
informação neuronal (tálamo, amígdala, hipocampo, hipotálamo, córtex
frontal etc.); lugares onde as informações convergem de outras áreas do
corpo total, inclusive de outras estações cerebrais, entre elas, as encarregadas
de produzirem emoções, cognições, lembranças, percepções etc. Essas e
outros setores do cérebro são estações que recebem as informações que
vieram dos microcomputadores e podem retransmiti-los para outros pontos.

As estações filtram, modificam, analisam e sintetizam as informações


chegadas antes de reenviá-las para as partes mais sofisticadas do cérebro. As
regiões finais do cérebro, as coordenadores, córtex frontal, parietal, temporal,
com a ajuda do occipital, irão examinar o conjunto de informações recebidas
(já semi-processadas) para escolher ou determinar que ações mais complexas
(comportamentos) deverão ser usadas.

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Portanto, à medida que as estações são alimentadas pelo fluxo de
informações oriundas de vários pontos do organismo, circuitos são ativados,
um limiar é transposto e um determinado movimento ou comportamento
é executado, como por exemplo: Maria vai à cozinha; percebe um inseto
voando; focaliza este; identifica-o como uma barata; grita e corre.

Deve ser lembrado que as informações funcionam não numa só via, mas sim
em duas, a de ida e volta. Por conseguinte, de lá de cima (das subestações
e da Central), são reenviadas (retransmitidas) também informações para as
celas existentes na parte de baixo da fábrica, isto é, aos setores controlados,
cada um, pelas secretarias ou estações especiais dos andares mais altos.

Por tudo isso, o funcionário, mesmo o mais simples, deve estar atento
quanto às informações que dele devem partir e das mensagens recebidas de
cima, lhe dando uma idéia geral do ocorrido; sempre buscando a harmonia
do setor. Esse operário, aparentemente sem poder, pode e deve, caso for
necessário, avisar e ser avisado, através de informações químicas e elétricas,
acerca do que se passa em algum setor vizinho ou relacionado a ele. Assim,
por exemplo, o setor “músculos da perna” pode receber informações de
sua chefia que ele deve se preparar para correr para fugir da “terrível
barata” voadora que passeia pela cozinha de um lado a outro; a barata está
parecendo querer pousar em cima da cabeça de Maria. A perna que recebeu
ordens de se movimentar não tem acesso à informação geral dos motivos
da ordem que ela deve cumprir, pois uma perna não enxerga e nem pensa
acerca de baratas; apenas obedece a comandos neurais e químicos; essa é
sua linguagem, e para correr a perna precisa de energia, que será liberada e
enviada por outros setores, conforme o Comando Geral.

Os operários quase-escravos, moradores eternos dos porões durante toda


a vida da fábrica, só se comunicam diretamente com alguns vizinhos; os
próximos deles e com funções semelhantes. Portanto, eles são proibidos
de entrar em contato diretamente com a maioria dos outros empregados,
muito menos com as chefias centrais, pois são raras as secretarias que têm
acesso direto ao córtex pré-frontal e às subestações mais sofisticadas; locais
onde se realiza a reunião de informações e, posteriormente, um balanço
geral e pormenorizado do estado corporal e acerca das decisões que devem
ser tomadas. Um operário/neurônio não pode decidir por si só receber
estímulos de um determinado operário e não de outros aos quais ele estiver
ligado, como também, o operário-neurônio não pode escolher enviar uma
mensagem para somente um ramo do operário/axônio e não para outro;
também, o operário/neurônio não representa um mecanismo que pode ser

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manipulado diretamente por forças externas; só indiretamente através dos
elos das regiões diretoras.

Os operários e grande parte dos chefes, excetuando a Central Cortical, estão


impedidos de se comunicarem com o mundo exterior. Como esses operários
não sabem o que se passa lá fora, a não ser indiretamente, eles agem diante
de um perigo, ou de uma atração, forçados pelas secretarias superiores a
agirem de certo modo. A estimulação do neurônio/operário é determinada
por estímulos internos, modificações nas conexões entre um determinado
operário-neurônio e os outros (sinapses). Portanto, esse mecanismo
demonstra o importante papel das conexões entre determinados operários-
neurônios e ou entre diversos deles na produção de respostas significativas
para a fábrica total.

Nota-se que os operários-neurônios de certas regiões da fábrica, como


os que atuam próximos à Central Decisória da fábrica já adulta, tendem a
formar muitas conexões idiossincráticas com outros operários-neurônios
da mesma região. Portanto, em certos locais da fábrica, como na região da
Central, são desenvolvidas e construídas pontes (conexões informativas) mais
sofisticadas e complexas ligando partes importantes com outras, visando a
percepção e a tomada de decisão mais sábia e eficiente diante do problema.
Essa sofisticação do organismo ocorre principalmente onde se centralizam
as coordenações gerais e complexas (ações, contrações musculares,
comparações, recuperação de memória, emoção, tradução para palavras
do fato, sínteses etc.), isto é, nos córtices cerebrais, especificamente, nos
córtices associativos (zona de ligações entre áreas diversas).

Além disso, é preciso impedir a entrada de estímulos não pertinentes ao


planejado ou imaginado (tálamo, que age como peneira ou filtro, parte do
lobo parietal e cíngulo que permitem que nós possamos nos distrair de certos
estímulos apesar de ficarmos prontos para algo novo que possa surgir).
Também precisamos interligar os movimentos com as emoções (coordenação
do córtex orbitofrontal, reunindo, ao mesmo tempo, o estímulo percebido
com o teor – valência – da emoção que ele provocou).

As emoções como informações eficientes para


a conduta
Uma vez despertado por estímulos corporais internos (interoceptivos), bem
como externos (exteroceptivos), o organismo promove respostas ou condutas

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imediatas diante das estimulações. Mas, ao mesmo tempo em que atua,
ele apresenta também sensações de prazer ou desprazer, de ânimo ou de
desânimo conforme as valências produzidas durante a percepção. A resposta
corporal será muito diferente, por exemplo, se me preparo para encontrar
alguém que sempre me agradou comparada com o encontro com uma pessoa
que sempre a cataloguei de “chata”, “irritante” e “mal-educada”. Assim, as
emoções despertadas, agradáveis ou desagradáveis, diante de um estímulo,
ocorrem em paralelo ao experimentado e/ou percebido.

As emoções, de um ponto de visto evolucionário, não romântico, poético ou


agressivo, são mecanismos neurais visando a manutenção da homeostase
(da harmonia ou do equilíbrio) do organismo. Esse mecanismo assenta-se em
estruturas reguladoras constantes do estado corporal típico do organismo
particular; para sua realização o organismo faz uso de todos os sistemas.

O indivíduo poderá sentir fome diante da visão ou do cheiro de um alimento


atraente. Também, poderá sentir medo diante da visão de um cão agressivo.
Conforme esses sinais, dentro e fora do organismo, o indivíduo se aproxima
do objeto provocador da emoção ou escapa dele. As emoções surgidas
nesses encontros são agradáveis ou desagradáveis e para designá-las usamos
diferentes termos como: medo, raiva, esperança, afeição, tristeza, vergonha,
culpa, etc.

Além de mudanças corporais mais visíveis, entre elas as emoções, o


organismo faz uso também da produção de respostas químicas e neurais
(químico-fisiológicas) ligadas às diversas estruturas subcorticais reguladoras
(hipotálamo, amígdala, estriado etc.) e corticais (córtices pré-frontais
ventrolaterais, dorsolaterais, ínsula, regiões do cingulado etc.). Tipos
diferentes de emoções-sentimentos fazem uso não só de regiões cerebrais
distintas, bem como produzem uma “fisiologia” corporal diversa conforme a
pessoa sinta medo, raiva ou paixão.

A realimentação da informação
O retorno da informação já elaborada (absorvível, assimilada) da chefia
cortical para as chefias das subestações subcorticais e destas para os
microcomputadores (células, operários subordinados) tem uma enorme
importância para as futuras deliberações que serão executadas pelo
organismo/fábrica. Como vimos, cada subsecretaria é possuidora de
conhecimentos diferentes e, por sua vez, envia uma informação singular,
isolada, (dor, calor, muscular etc.), mas necessária à ação conjunta do

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organismo. Por sua vez, o segundo comando – a chefia geral foi contemplada
com o conhecimento de subconjuntos de informações, isto é, das mensagens
selecionadas pelas regiões subordinadas, isto é, pelas subestações afastadas.

Sendo assim, quando há o retorno da chefia para as secretarias (gânglios


basais, tálamo, amígdala, hipotálamo, etc.), estas subestações recebem a
informação original que elas enviaram de forma modificada, mas enxertada
com novos dados: um resultado final da soma e reorganização de dados
individuais de cada secretaria isolada produtora de um aspecto somente
da informação. A falha num único aspecto da informação pode levar a um
grave erro de dedução e, consequentemente, de ação. Por exemplo, como
mostrei acima, Maria se assustou com o barulho e pensava em fugir, mas,
com o auxílio de outras secretarias (rotação do pescoço, observação da janela
caída, de outras pessoas calmas etc.), isto é, de uma informação mais geral,
ela voltou a ficar calma e continuar suas compras. Imagine uma pessoa, que
apresenta um defeito na sensação de calor e dor, colocar distraidamente a
mão na chapa quente. O defeito desse setor irá impedir toda uma série de
informações desencadeadas para não proteger a pessoa.

Concluindo: os últimos detalhes da conduta foram ajustados conforme a


troca de informações em duas vias (ida e retorno) de acordo com a síntese
do conjunto de mensagens. Como disse, após a bruta confusão devido ao
estrondo que assustou Maria, diversas subestações subordinadas ao primeiro
comando entraram em desespero e, assim, enviaram informações para que
todo o organismo entrasse em regime de alerta geral. Nesse caso-exemplo,
o segundo comando (cortical), após examinar fato por fato descobriu que o
estrondo assustador não indicava nenhum perigo para ninguém. Ciente disso,
esse comando acionou as subestações que estavam vigilantes contra possível
perigo, prontas para o pior, de que tudo não passava de um problema que
não causou riscos para o organismo/fábrica. Assim a calma voltou.

As informações existentes em diferentes pontos do corpo são passadas para


as diversas estações apropriadas (secretarias) para serem selecionadas,
valorizadas, usadas ou descartadas para construir uma ação, como ficar
quieto ou fazer alguma coisa: morrer ou matar a barata, fugir dela gritando,
prendê-la para comê-la, não tomar conhecimento, etc. O papel do córtex,
secretaria executiva, amplia a capacidade de reação do organismo. Nesse
aspecto nós somos melhores que as baratas, mas não muito melhor que
vários mamíferos que também têm as suas secretarias-executivas, talvez
menos desenvolvidas que a do homem em alguns aspectos.

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As secretarias examinam, avaliam e tomam medidas, continuadamente,
para julgar a produção de cada reduto do organismo/fábrica. Esse complexo
processo visa a manter um equilíbrio ou harmonia corporal diante das ações a
serem executadas; ativação de certos setores e, ao mesmo tempo, inativação
de outros (desativação de atividades que atrapalhariam a ação determinada;
também, fixação num objetivo, evitando assim se distrair da tarefa principal a
ser executada).

Todo esse trabalho é coordenado, em última instância, pela Central Geral, por
partes dos córtices pré-frontais dorsolaterais e ventrolaterais e, também, do
cíngulo, córtex orbitofrontal, isto é, por um conjunto de regiões do cérebro
que recebem o nome de “cérebro executivo” relacionados à tomadora de
decisões, ou seja, o setor coordenador geral das ações específicas.

Uma palavra sobre o giro cingulado anterior:


porta de acesso à Central Geral
As informações provenientes de regiões importantíssimas das chamadas de
subsecretarias do sistema límbico só conseguem enviar informações ao córtex
pré-frontal através do giro cingulado anterior, que se transformou, assim, no
principal portão de acesso ao córtex frontal.

Por isso, o giro cingulado detém o poder e as ligações entre as motivações


e as emoções. Para exercer esse papel o giro cingulado dispõe ainda de
apropriada dotação sensorial para receber informação visual, auditiva e
olfativa já processada das subsecretarias especializadas e, também, para
receber informações que refletem (revelam) os estados internos das partes
do organismo.

Depois de obter todas essas informações, estado do corpo e as mensagens


visuais, auditivas e olfativas, bem como outras, ele deve transmitir a
mensagem total condensada às regiões especializadas do andar superior.
Nesse local se encontram os córtices pré-frontais, a chefia detentora do
poder de tomar as decisões finais após o exame dos dados a ela transmitidos.
Essa região está capacitada para decidir e promover uma resposta
comportamental adequada tanto com respeito ao estímulo vindo do exterior
como do estado corporal do organismo.

Como o cingulado tem saídas para os gânglios basais, sua estimulação produz
também a reação motora do organismo (tirar a mão do fogo, correr etc.) e,

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como tem saídas, também, para o tronco cerebral, essas permitem ativações
de respostas realizadas pela estimulação fisiológica geral do organismo.
Por tudo isso é gravíssimo ter uma lesão ou tumor nessa região; ficamos
totalmente incapacitados de realizar uma decisão sábia ou eficiente.

Mitocôndria: um operário especial


Centenas de operários, possivelmente, foram presos há muito tempo em
fábricas mais primitivas e lá ficaram encarcerados para o resto da vida no
organismo/fábrica formado. Por exemplo, a mitocôndria (uma organela
citoplasmática inserida em cada célula, cuja principal função é a geração de
energia através da síntese do trifosfato de adenosina) um dia já foi livre, isto
é, ela viveu, por milhões de anos, separada. Nessa ocasião ela recebeu o
pomposo nome de “bactéria”.

Possivelmente, há milhões de anos, a mitocôndria, distraidamente, começou


a ligar-se a organismos que, mais tarde, com a evolução, se incorporaram
nos mamíferos passando a fazer parte do organismo desses e, entre eles,
do homem. No início, antes de serem incorporadas, as mitocôndrias eram,
possivelmente, parasitas ou hospedeiras, isto é, exploravam o pobre
organismo ou, apenas, o abrigavam e lhe davam alimento. Mas, com o
tempo, um foi se acostumando ao outro e ocorreu o que chamamos de
“simbiose” (interação entre duas ou mais espécies que vivem juntas) entre
a bactéria original e a fábrica nos seus primórdios. Com o passar dos anos,
talvez milhões deles, a fábrica incorporou – isso mesmo – a mitocôndria. Ela
foi integrada ao conjunto; passou a fazer parte do organismo/fábrica e nunca
mais viveu livre de outros organismos. Após essa fusão, toda a produção
de energia da fábrica ficou a cargo da mitocôndria, esse foi e é o seu papel.
De outro modo, ela está inserida em cada célula, trabalhando para o
conjunto; não é mais a antiga bactéria livre que podia ir de um a outro lugar.
Entretanto, ela se auto-reproduz como qualquer bactéria, isto é, mantém seu
genoma próprio que é transmitido, não pelo casal, mas somente pela mãe.
Esta característica possibilitou estudos acerca da nossa herança genética
examinada apenas pelo lado feminino.

Não se assustem: o mesmo ocorre com os vegetais. O que dá a cor verde


das folhas era uma bactéria que, também, se incorporou e foi dominada
pelo vegetal e passou a fazer parte da vida deles; a cor verde da clorofila é
a encarregada da fotossíntese. Esta bactéria teve mais sorte, pois ainda é
observada no seu estado livre, isto é, em outros locais fora dos organismos
vegetais como, por exemplo, nas águas podres, dando a essas a cor
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esverdeada típicas dessas bactérias. Durante o seu crescimento exagerado
falamos que a ‘água apodreceu’.

Tudo indica que nosso corpo, como o de outros animais, nada mais é que
um conjunto de genes que estavam isolados ou fazendo conjuntos menores,
ou seja, que vieram de diversas procedências, bem como vários micro-
organismos, como as mitocôndrias. Agora, nossa fábrica não vive sem eles,
pois eles são partes importantíssimas do todo; o conjunto para funcionar
precisa de cada um desses operários altamente obedientes, conservadores e
especializados.

Do mesmo modo, é quase certo que o homem primitivo, bem como diversos
animais primitivos, não tinha o córtex atual, isto é, ele usava para viver
apenas das regiões subcorticais (um só comando: o instintivo, arcaico,
estímulo/resposta), não havia o controlador geral, o uso de conceitos e,
principalmente, de palavras que indicam relações entre as idéias ou eventos
como os relacionados a causas. Possivelmente, no início da fala, há mais ou
menos 50.000 anos – o homem deve ter aparecido há 4 ou 6 milhões de
anos – a fala inicial consistia somente de nomes dados aos objetos (água,
pedra etc.) e não, como agora, de ligações de fatos: “Penso que vou dar uma
parada.”

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Os dois comandos
Dois poderes diferentes coordenam o
comportamento de Maria

Toda uma série de processos que tomaram conta do cérebro de Maria,


e que são fundamentais para sua sobrevivência e seu bem-estar, são
coordenados por dois níveis diferentes. Um desses processos é encarregado
de agilizar ações rápidas e mais grosseiras, quentes, sem fazer uso de
raciocínios, comparações ou palavras e que são, muitas vezes, inconscientes
e automáticas. Essa primeira tomada de ação é a realizada diante das
emergências; o organismo, neste caso, faz uso dos setores do cérebro que,
em conjunto, recebem o nome de região subcortical (muitas vezes chamada
de tronco encefálico), que se situa abaixo da outra região, a “cortical”. Por sua
vez, o outro processador de informações e ações coordena ações mais lentas.
Neste caso, o cérebro raciocina e avalia de modo mais sofisticado e com
lógica. Esse segundo processo é utilizado principalmente quando planejamos
algo para o futuro mais próximo e, também, mais afastado. Essa maneira
lenta de pensar subordina-se à grande região do cérebro chamada de cortical
e a um grande número de neurônios chamados de “neurônios associativos”;
um conhecimento que se desenvolve com a experiência peculiar de cada
indivíduo.

O comando subcortical
De modo simplificado podemos dizer que nosso organismo submete-se a dois
comandos poderosos (dois domínios): um comando muito antigo, o primeiro
comando ou subcortical, visto como inferior, diz respeito mais ao biológico
(gânglios basais, tálamo e outros); sistema límbico (amígdala, hipocampo,
núcleo acumbente, etc.). Nós nascemos com o comando subcortical pronto
já funcionando, por exemplo, uma dor, um susto diante de um barulho, uma
maior necessidade de oxigênio, de alimento, sede, sono, etc. Esse comando
responde rápido e automaticamente diante dos problemas surgidos, sendo
chamado por alguns de “conhecimento quente” ou intuitivo. Este comando
funciona, de certa forma, independentemente do poder e integridade do
outro ou segundo comando chamado “superior”, frio, cognitivo, racional, etc.
(córtex pré-frontal dorsolateral e ventrolateral, ajudando pelo cíngulo, córtex
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orbitofrontal, etc.).

As regiões do cérebro subcorticais são formadas por núcleos diversos,


a maioria deles situados na região chamada de tronco encefálico. Esses
núcleos (setores, centros, estações) fazem parte do cérebro de diversos
animais que apareceram na natureza antes do surgimento do homem, ou
seja, nós compartilhamos com os animais das mesmas ou muito semelhantes
estruturas anatômicas e funcionais situadas nas regiões subcorticais.
Essas regiões se encarregam de executar ações automáticas, ou seja,
independentes de nossa vontade. Além do homem, outros animais também
são dotados de córtices cerebrais, isto é, do segundo comando (mamíferos,
por exemplo), através do qual eles aprendem após o nascimento. Entretanto,
o desenvolvimento do córtex cerebral humano pode, e geralmente é, ser
muito mais desenvolvido que nos outros animais.

Os circuitos e regiões mais antigas do organismo, as subcorticais, são as


que regulam os mecanismos homeostáticos (sistema que permite manter
o estado de equilíbrio das variáveis essenciais). Sem a existência desses
setores não há sobrevivência, pois não seríamos capazes de respirar, regular
nosso ritmo cardíaco, equilibrar nosso metabolismo, procurar comida,
segurança, evitar predadores, acasalar, cuidar das crias, etc. Os pacientes em
coma continuado podem estar sem ação do segundo comando, entretanto,
sobrevivem por ter um sistema subcortical, no mínimo, razoável, entre esses,
o ritmo cardíaco e a pressão arterial, respiração, metabolismo, etc., processos
que dependem da distribuição apropriada de fluxo sanguíneo no corpo, os
ajustamentos da acidez ou da alcalinidade do meio interior, etc.

Mas sua ação não fica só nisso. Os circuitos inatos antigos têm
importantíssimo papel no desenvolvimento e na atividade das estruturas
evolutivamente mais modernas ou recentes do cérebro: as corticais. São as
regiões ditas “inferiores” as que iniciam e dão suporte às ações executadas
pelo organismo global. As regiões cerebrais subcorticais são importantes
para as nossas motivações, emoções e a produção e execuções de diversas
cognições do organismo humano, entre essas estão as cognições implícitas
que são automáticas, inconscientes, como é grande parte de nossos
paradigmas (princípios, modelos), bem como as palavras que usamos sem
pensar.

Esse conjunto de regiões diferenciadas, onde cada uma delas exerce papéis
diferentes, trabalha de forma integrada, possuindo o mesmo objetivo:
manter um estado satisfatório para o organismo. No comando subcortical

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, núcleos de substância cinzenta funcionam como estações recebedoras e
emissoras de informações de outras subestações ou estações. Eles mantêm
conexões diretas e recíprocas com praticamente todos os setores ou pontos
do corpo, (operários do subterrâneo), criando assim relações continuadas
entre os aspectos físicos, químicos e biológicos do organismo e os cognitivos
(pensamento, raciocínio, tomada de decisão ou execução da conduta,
julgamento, avaliação, comparação e, por extensão, o comportamento social,
ético e a capacidade criadora ).

Os poderes dos dois comandos


Estamos, todos nós, acorrentados ao jugo desses dois poderes. O excesso, em
qualquer um, me perece perigoso. O indivíduo muito natural e espontâneo
demais é condenado ao ostracismo, à desconfiança dos outros. Por outro
lado, a pessoa que aprende a ter um severo controle sobre o seu primeiro
comando está semimorta; ela impede a si própria, no momento certo e
no lugar adequado, de liberar alguns de seus impulsos naturais. Esse ser
“racional” exagerado, que vive sob o domínio de uma parte do cérebro,
talvez seja mais aceito, elogiado, engrandecido, votado e sujeito a receber
homenagens por ser um excelente modelo a ser seguido. Esse indivíduo, aqui
denominado de “normopata”, não está totalmente ativado; ele assassinou a
característica espontânea do homem que faz parte do seu organismo.

Um pouco do domínio do córtex sobre o subcortical parece ser preciso; não


há possibilidade de viver em sociedade fazendo tudo o desejado, pois o outro
indivíduo também, possivelmente, pretende fazer o mesmo, ou seja, não
aceitar o que o outro faz. Essa idéia é bem conhecida e falada. A educação,
a lei, a justiça, a polícia e as outras instituições visam a produzir o poder ou
hegemonia do aprendido cultural do denominado “homem civilizado”, que é,
parte, sobrepujar e dominar o primeiro comando, o mais natural, impulsivo,
quente e egoísta. Mas, tem ocorrido, muitas vezes, um exagero do segundo
poder. Por sua vez, o excesso de restrições, segundo alguns, pode provocar
grandes explosões do primeiro comando (crimes violentos, destruições
grupais etc.).

Os dois poderes e a condensação das


informações
Esses dois colossais e complexos macro-computadores, cada um possuidor de
setores com funções diferentes, (sensorial, motora, emotiva, cognitiva), estão
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situados em dois andares do prédio, (cortical e subcortical); eles disputam o
comando do organismo/fábrica, ou seja, qual setor será o encarregado final
de tomar esta ou aquela decisão, por exemplo: comer muito, pois a comida
está deliciosa; ou não comer, pois a fábrica está com seis quilos a mais.

Deve ser sempre lembrado que os dois setores, subcortical e cortical,


apesar da briga interna pelo poder, não atuam separadamente, mas sim,
um complementando o outro. De outro modo, as regiões subcorticais, após
terem enviado informações à região cortical (a da cognição) que a comida
está deliciosa, recebem sinais desse importante setor (cortical), que a fábrica
já está com seis quilos a mais, por isso, o churrasco não deve ser mais
ingerido. O setor subcortical analisa essas informações rapidamente e envia
novamente sinais informativos para o setor cortical, que podem ser, por
exemplo: “Entendi: vou parar de comer”, ou, “Vou comer mais um pouco; não
aguento! O churrasco está sedutor!”

Novamente o setor cortical, de posse do desejado pelo fator subcortical,


envia outra informação para o setor subcortical e assim o ciclo começa e
fecha, começa e fecha, sem parar, conforme cada situação vivida pela pessoa.
Esse troca-troca de informações ocorre 24 horas por dia. Portanto, o setor
subcortical envia e modifica, indiretamente, as funções dos andares de cima,
ou seja, corticais: no caso de Maria, o medo ativado pela amígdala fez mudar
a maneira de pensar no momento da instalação do medo.

Todos nós sabemos que uma maior ativação provocada no setor subcortical
(emoções, desejos, reflexos) desencadeia a diminuição da ativação
(desativação) do setor cognitivo (o raciocínio). De outro modo, se o desejo de
comer o churrasco for intenso, o setor cortical, do pensamento, enfraquece e
pode não ser capaz de impedir a gula do nosso comedor de carne. Por outro
lado, a ativação do cognitivo (chamado popularmente de “força de vontade”)
pode inibir as emoções e, consequentemente, os pensamentos presos a
elas. Também, se a ativação cortical for elevada: “Você já passou dos limites.
Pare! Imediatamente! Não coma mais. Saia de perto do churrasco!”, como
relatei pelas frases, o controle pode passar para as mãos do setor cortical.
Frequentemente usamos esse poder mais sensato para orientar as futuras
ações.

Os estudos mostram que parece não existir nunca uma total ausência
de ativação nos setores emocionais de impulsos, de alerta do organismo
durante as ações (conversar, pensar, comer, ver TV etc.), pois, mesmo quando
há um domínio do cortical (Pedro parou de comer o churrasco), há uma

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emoção agradável por ter sido obtido um objetivo (não comer mais), mesmo
havendo um sofrimento por não ter alcançado outra meta desejada (comer o
churrasco).

O uso do setor cortical


Ao longo do percurso que se inicia, por exemplo, com o cheiro e visão
do churrasco, diversas regiões/estações intermediárias são recrutadas
e participam dos trabalhos para lidar com o fato vivenciado. Durante a
informação atraente (churrasco), ou aversiva (assaltante), o organismo
recruta várias regiões, por exemplo: amígdala (medo); hipocampo (lembrança
de fato semelhante); hipotálamo (sistema nervoso autônomo e controle de
vísceras); tálamo e cerebelo (motora, como movimento corporal e muscular
– perna, braço, pescoço, olho, equilíbrio, etc.); na parte cortical/sensorial a
informação da visão, odor, gosto (churrasco), tacto, etc. e comparações acerca
do que está acontecendo etc. De fato eu resumi muito; a função de cada uma
dessas secretarias é infinitamente mais sofisticada do que a relatada acima.

A tomada de decisão final utiliza as informações focalizadas no momento;


as recebidas pelos diversos setores (sensações captadas, ações motoras,
emoções, memória de si e da história de vida em situações vividas
semelhantes, julgamento, comparações, avaliação da autocapacidade) para a
execução motora final da conduta: comer ou não comer o churrasco.

Como se pode inferir, as tomadas de ações finais deverão ser mais eficientes
conforme haja um maior número de informações úteis e disponíveis para
serem usadas; cada uma delas, para maior eficiência, precisa trabalhar em
harmonia com as outras. Assim, o organismo agirá com mais neurônios
envolvidos no processamento da ação final ou de uma cognição mais precisa,
eficiente e complexa.

Automaticidade de tarefas aprendidas


corticalmente
Os gânglios basais e o cerebelo fornecem o controle do movimento básico
e armazenam muitas das nossas reações primitivas, bem como muitos dos
programas aprendidos que, aos poucos, com o uso continuado, se tornaram
automáticos, entre eles: andar de bicicleta, datilografar, escrever, andar, falar
etc. Todas essas atividades e milhares de outras vão se automatizando à
medida que vamos dominando-as através de ações continuadas. Desse modo,
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o organismo libera, desativando, por momentos, o trabalho mais cansativo
realizado pelas áreas corticais. No caso de automaticidade, a parte cortical
da fábrica e que raciocina, uma vez livre por ter se tornado automática, fica
disponível para ser usada em outras tarefas. Por exemplo, após a pessoa
aprender a dirigir o automóvel de forma automática, sem pensar, torna-se
possível ele se concentrar solitariamente em algum pensamento que nada
tem a ver com o seu trabalho de motorista, ou conversar com alguém. Do
mesmo modo, ao aprendermos uma língua estrangeira (ou a nossa) não mais
ficamos procurando cada palavra ou idéia, elas vão saindo naturalmente, isto
é, de forma automática, sem esforço.

Nos andares mais de cima, os córtices motores e pré-motores, que recebem


diversas informações de outras áreas do cérebro, enviam instruções para
o sistema motor e os órgãos músculos-esqueléticos para serem ativados
ou inativados conforme a ação necessária ao fato acontecido. Assim, para
pegar e levantar um peso, eu preciso, ao mesmo tempo, contrair alguns
músculos e descontrair outros; só assim o movimento poderá ser realizado de
forma adequada. Todas essas ações são feitas sem esforço e sem usarmos a
cognição.

Ações do comando cortical: sensações


corporais e pistas para agir; o anti-social
No andar acima de todos, na cúpula, encontra-se o centro do comando geral,
os córtices pré-frontais. Dessa região partem as deliberações, escolhas, sinais
para inibir ou excitar regiões diversas. Essa região, ao tomar conhecimento
do estado corporal, melhor ou pior quanto à intensidade e qualidade
das sensações geradas por nossas vísceras, nos permite, através dessas
sensações, avaliar nosso prazer ou desprazer e, conforme um ou outro, agir
de um modo ou de outro.

Esses sinais corporais viscerais (somáticos ou mecanossomáticos,


somatossensoriais) têm sido descritos como centrais ou cruciais para
que deliberemos se tomamos uma ação ou outra. Também, sentimos,
naturalmente e sem esforço, esses sinais diante do sofrimento ou da alegria
alheia. Por exemplo, sentimos pena do sofrimento do outro através de
sinais aborrecidos em nossas próprias vísceras, isto é, devido ao nosso
próprio sofrimento ao presenciar o sofrimento do outro. A alegria diante do
prazer do outro decorre do mesmo processo; nesse caso sentimos um bem-
estar interno. As pessoas normais, ao ajudar o outro, estão ajudando a si

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mesmo, pois durante essa ação elas param de sofrer por sentir, em parte, o
sofrimento do outro, portanto, elas se aliviam também.

Alguns indivíduos não têm essas características, entre elas, estão os que
recebem o rótulo psiquiátrico de “Transtorno de Personalidade Anti-social”.
Certos transtornos de personalidade aparecem desde cedo; outros podem
ser adquiridos devido a diversos fatores. Todos esses indivíduos apresentam,
lamentavelmente, para eles e para nós, um defeito no sistema avaliador do
futuro comportamento, por isso sempre estão dando “passos errados” nas
condutas sociais.

A necessidade de um bom funcionamento de


cada setor do cérebro
Como o leitor deve ter percebido, esses andares fictícios devem, a cada
momento, agir ou reagir de modo harmônico com as ações dos outros
setores. A ausência – falha – de um deles deve afetar toda a sequência de
associações, todo o conjunto e, naturalmente, a decisão final a ser executada
pelos córtices frontais. Muitos e muitos fatores atuam modificando,
provisoriamente, uma e outra área dessas (drogas, medicamentos –
ansiolíticos, anti-hipertensivos), alimentos (café, chocolate), lesões diversas,
tumores, cirurgias e, também, problemas hereditários, etc.

Sabe-se que uma emoção elevada prejudica a criatividade do indivíduo,


mas, por outro lado, uma baixa ou ausência de emoções também diminui
a criatividade da pessoa. A conduta cognitiva precisa, para funcionar
adequadamente, de emoções não muito fortes. A cognição nada mais é que
uma ativação de neurônios associativos, geralmente excitados com a ajuda
da ativação dos neurônios subcorticais do tronco encefálico. Mas os córtices
cerebrais se perturbam diante de uma ativação exagerada, como ocorre com
o uso de cocaína e no Transtorno Bipolar (na fase de mania).

Por tudo isso, reitero como é grave um desarranjo no organismo/fábrica,


principalmente quando ocorrido nesse setor da fábrica. Por exemplo, um
simples café pode excitar e elevar um pouco o medo dessa diretoria, às vezes,
impedindo-a de dormir. Por outro lado, a cocaína irá dar à diretoria uma
sensação de euforia e de falso poder, pois foi ativada sem a existência do fato
usual e natural desencadeador. O prazer e a sensação de prazer produzida
pela cocaína, anfetamina e outras drogas semelhantes (excitadoras) têm curta
duração, pois a ativação não foi produzida por um sucesso real da pessoa.

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Horas depois, após terminar o efeito da droga, a pessoa retorna ao estado
anterior, geralmente um pouco pior que antes do uso da droga. Isso força
a pessoa a procurar, insistentemente, mais drogas para aliviar o mal-estar
provocado pela ausência da droga (efeito rebote). Aos poucos vai ficando
difícil viver sem a droga e, ao mesmo tempo, seu organismo/fábrica pouco é
capaz de produzir para que a pessoa possa sentir a euforia real, a existente
a partir de ações concretas, como, por exemplo: arrumar uma companhia
interessante, passar num concurso, ganhar um jogo, ler um interessante livro,
orar ou rezar e acreditar que será atendido por Deus, ter uma idéia ótima,
ganhar na sena ou ser presidente da república.

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Sistema límbico e as emoções
Paralelamente às estruturas encarregadas de executarem uma determinada
função, há um outro grupo de estruturas que nos fornecem o ‘colorido’, as
‘valências’, o bem-estar ou o mal-estar da ação que irá ser, ou que está sendo
executada; esse trabalho orientador da futura ação quanto a sua valência
agradável ou desagradável cabe aos componentes do (muito criticado por
alguns) sistema límbico.

O sistema límbico forma um grupo de estruturas do cérebro, incluindo tálamo


medial, núcleo acumbente, prosencéfalo basal e outras regiões. Circundando
o hipotálamo estão as demais estruturas subcorticais do sistema límbico:
a área pré-ótica, o septo, a área para-olfativa, os núcleos anteriores do
tálamo, porções dos gânglios da base, o hipocampo e a amígdala. Vocês não
devem tentar decorar esses nomes; não há necessidade, para entender o
mecanismo, aprender os nomes acima descritos.

As áreas do sistema límbico, relacionadas aos impulsos, emoções e instintos,


trabalham ao mesmo tempo interligadas e fazendo parte em todos os
sistemas descritos em outras partes do livro. Ele não é bem um sistema
como os outros nomeados, pois resulta de uma idéia teórica, não de regiões
anatomicamente semelhantes ou mesmo localizadas num ponto e outro, com
um tipo de tecido X ou Y. O sistema límbico agrupa estruturas situadas numa
e noutra região, todas em pontos extremos do córtex (daí o nome “límbico”
que quer dizer “limbo”, limite, extremidade). Suas diversas regiões foram
agrupadas por terem, em comum, uma estreita correlação com a emoção e
movimento. Estudos mostram que a ressecção do sistema límbico provoca
uma indiferença afetiva do animal diante dos eventos que antes geravam
emoções agradáveis ou desagradáveis, por isso impossibilitando uma vida
adaptada ao meio ambiente.

Assim, para que os mecanismos neurais possam produzir adequadamente


as emoções sentidas é necessário que os padrões neurais iniciais ou inatos,
relacionados ao sistema límbico, se liguem, também, aos circuitos neuronais
do tronco cerebral, isto é, aos andares de baixo da fábrica humana. Todo
esse desenho neuronal é importante e essencial para a sobrevivência do
indivíduo, pois atua em todas as partes do organismo, como, por exemplo, na
regulação das glândulas endócrinas, da hipófise, tireóide, supra-renal, órgãos

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reprodutores e demais órgãos. Todo esse conjunto, formado por diversas
estruturas subcorticais, está ligado ao giro cingulado anterior, o qual constitui
a principal porta de acesso ao córtex frontal.

Resumindo, podemos dizer que a regulação relacionada e inicialmente


coordenada pelo tronco cerebral é complementada, por outro lado, por
várias regiões do sistema límbico. Este último, além de participar do
estabelecimento dos impulsos e instintos, tem também importante função
nas emoções e sentimentos agradáveis e desagradáveis, possivelmente
detectando mudanças que estão ocorrendo nas vísceras. As sensações
percebidas de mudanças viscerais levariam a pessoa a classificar o percebido
como ruim ou bom e, em seguida, daria nomes diferentes para o acontecido.
Acredita-se que o sistema límbico contém redes de circuitos inatos e estáveis,
mas também alguns que poderiam ser modificados através da experiência.

As estruturas cerebrais encarregadas de perceber o objeto “barata”,


por exemplo, focaliza a atenção nesta, identifica-a como “barata” e,
imaginando-a como perigosa, nojenta ou inofensiva, produzirá respostas
emocionais e comportamentais conforme a atitude despertada. A partir
desse encontro (Maria e a barata) pode existir a produção de contração
muscular, gritos, correria, palpitação, respiração ofegante, etc. Todos esses
processos trabalham em harmonia uns com os outros conforme a postura
tomada diante da barata e ainda avaliados ou sentidos como agradáveis ou
desagradáveis.

Há um acasalamento bem ordenado entre o grupo de estruturas cerebrais


encarregadas da tarefa de percebedor-executor e o grupo avaliador da ação
enfrentada ou imaginada como possível, isto é, a emotiva. Assim há uma
estreita relação entre a emoção e os movimentos desencadeados pelo evento
vivido.

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Palavras finais
Todos os organismos vivos, desde os formados por uma única célula até os
pluricelulares, como o ser humano, nascem com dispositivos apropriados
para solucionar de modo automático, sem fazer uso de qualquer raciocínio, os
problemas básicos da vida: encontrar fontes de energia (ir atrás de alimentos,
de oxigênio etc.); incorporar e transformar energia; manter no interior do
organismo uma harmonia química compatível com a vida. Além disso, é
preciso eliminar detritos resultantes dessas modificações, restaurar os tecidos
gastos, danificados e mortos de forma a manter a estrutura (organização) do
organismo.

De alguns anos para cá se avolumaram os estudos acerca dos defeitos e


lesões cerebrais e a maneira de pensar, de sentir, de agir conforme danos
existentes no cérebro, de acordo com a idade (criança, jovem e idoso) e
o gênero (masculino e feminino); uma enorme quantidade de publicação
mostrou uma nova visão acerca do homem e de seu cérebro.

Como uma grande parte dos estudos da Medicina (neurologia,


neurofisiologia, psiquiatria), da Psicologia (conduta, emoções, motivações,
decisões etc.), do Direito e Filosofia (responsabilidade criminal, valores,
capacidade ou não de inibir condutas, etc.), bem como outras áreas do
saber visam detectar as relações entre os substratos anatômicos do cérebro
e as condutas do ser humano, o estudo do cérebro torna-se de extrema
importância.

Os sistemas cerebrais “altos” e “baixos” funcionam em conjunto visando


a produzir e facilitar atividades necessárias à sobrevivência do organismo
diante de problemas nascidos do meio interno e externo, como, por exemplo,
diante de uma diarréia ou de um assalto, de um novo emprego, do suicídio
ou do casamento. Adianto que todos os tratamentos psiquiátricos utilizados
para normalizar emoções, motivações e cognições dos clientes, sejam físicos
(medicamentos, cirurgias etc.), sejam psicológicos (psicoterapias e outros
semelhantes) atuam, ora num, ora noutro comando, ou nos dois ao mesmo
tempo.

Explicando melhor: os diversos agentes químicos, elétricos ou cirúrgicos,


entre eles, o café, cocaína, nicotina e cerveja, os ansiolíticos, antipsicóticos
e antidepressivos, atuam no comando “inferior”, isto é, no subcortical
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ou mais “biológico”. O seu mecanismo é modificar os pensamentos e,
consequentemente, a conduta do paciente (funções ligadas ao comando
cognitivo executivo), através de ações que atuam e modificam o estado do
primeiro comando, ou seja, do subcortical ou “inferior”.

Por outro lado, a psicoterapia de origem médica, psicológica, religiosa,


mágica, do amigo ou inimigo, atua modificando o comando “superior”, a
região cognitiva (cortical) através da linguagem falada ou expressa de outros
modos; nesse último caso, muda-se a “maneira de ver as coisas”, as crenças,
as percepções da pessoa através das alterações de princípios e paradigmas
aprendidos na cultura onde vive. Como o comando superior está intimamente
ligado ao inferior, existindo a modificação do cortical através da palavra,
poderá haver, possivelmente, mudanças nas regiões dos andares de baixo.
De modo simples: através do sistema de comando cognitivo (palavras, idéias)
modifica-se o funcionamento do sistema biológico, ou seja, do subcortical
(sono, ansiedade, desânimo etc.). Um e outro tratamento tem sua utilidade.

A maioria dos transtornos psiquiátricos pode ser explicada e tratada por


um e outro sistema. Parece que alguns transtornos são mais sensíveis ao
comando químico/físico/orgânico, como ocorre em alguns transtornos mais
severos, como os esquizofrênicos e maníacos. Por outro lado, outros são
mais atingíveis através das ferramentas cognitivas, ou seja, usando o segundo
comando.

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