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CIDADANIA É PARTICIPAÇÃO

Ebenézer Ximenes de Melo*

Tem se falado muito em cidadania nestes dias, no entanto, há um grande vazio de


conhecimento e compreensão do termo. No sentido etimológico “cidadania” deriva do latim,
“civitas” – i.é. cidade – foi usada pela primeira vez na Roma antiga para indicar uma
situação política, e tem seu correlato grego na palavra “politikos” – aquele que habita na
cidade. No sentido ateniense o termo cidadania significa o direito que a pessoa tem de
participar das decisões nos destinos da cidade através da “Eklesia” (reunião dos chamados
de dentro para fora) na Agora (praça publica, onde se agonizava para deliberar sobre
decisões de comum acordo, hoje substituído pelas assembléias legislativas). Desta
concepção surge a democracia grega, onde somente 10% da população determinava os
destinos de toda a Cidade, eram excluídos os escravos, as mulheres e os artesãos. Segundo
o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira: “cidadania é a qualidade ou estado do
cidadão”, entende-se por cidadão “o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de
um estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Para o jurista Dalmo
de Abreu Dallari: “ A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a
possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem
não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de
decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social.”
Dados estes conceitos pode se dizer que cidadania é como uma planta frágil a ser
cultivada; como o palmilhar de um mapa em busca de um caminho; como se garimpa uma
jóia preciosa; conquistar como se conquistam todas as guerras, com estratégias e muita
ação. Cidadania não surge do nada como por um toque de mágica. É necessário que o
homem participe, seja ativo, faça valer os seus direitos para que se torne cidadão de fato e
de direito.
O grande erro do povo brasileiro é acreditar que tudo deve ser dado pelo Estado, que
tudo foi feito pelo Estado, esquecendo-se que o Estado é derivado dele e os direitos que
hoje se tem não foram presenteados beneficamente, mas conquistados arduamente através
de lutas populares como o das feministas, das donas de casa, dos negros, etc. Cidadania
não é nada, é construída e conquistada a partir da capacidade de organização, participação
e intervenção da sociedade.
O exercício da cidadania é a melhor forma de fazer valer direitos, garantias. O
grande desafio é, portanto, além de incorporar novos direitos aos já existentes, integrar
cada vez um numero maior de indivíduos ao gozo dos direitos reconhecidos. Exigir a
observância dos direitos e zelar para que não sejam desrespeitados.
Cidadania, portanto, será sempre uma construção inacabada, algo que deve estar em
constante construção, buscando, criando, descobrindo e ampliando a consciência individual e
coletiva. A cidadania é algo que só pode aprender no seu efetivo exercício e na convivência
com a vida social e pública e com o próprio meio ambiente. A cidadania deve ser perpassada
por temáticas como a solidariedade, a democracia, os direitos humanos, a ecologia, e a
ética.
A cidadania consiste desde o gesto de não jogar papel na rua, não pichar os muros,
respeitar os sinais e placas, respeitar os mais velhos (assim como todas as outras pessoas),
não destruir telefones públicos, saber dizer obrigado, desculpe, por favor, bom dia e quando
necessário até saber lidar com o abandono e a exclusão das pessoas necessitadas, o direito
das crianças carentes e outros grandes problemas que enfrentamos em nosso país.
Fazendo uma metáfora com a lavoura, poder-se-ia dizer que a cidadania é como uma
lavoura. Há que se derrubar o mato, limpar, tombar e arar a terra, escolher o tempo para
plantio, plantar uma boa semente, orar para que chova, adubar, exterminar a erva daninha,
pulverizar contra os insetos, esperar que dê um bom tempo, cuidar muito e só então colher
a semente plantada.
Quando se fala em participação, estamos nos referindo a uma prática que exige do
participante uma ação correta, realizada com um determinado grau de informação e que
inclua um processo de comunicação em busca de um determinado objetivo.
Na educação Fiscal, espera-se a participação pessoal após uma conscientização
adquirida mediante a análise e a crítica das questões ligadas ao tributo.
Essa participação deve ser feita, de preferência, através de Associações, Conselhos.
Clubes, Sindicatos, Igrejas e demais agrupamentos da sociedade que buscam o exercício da
cidadania e a dignificação da pessoa humana.
O Educador e sociólogo Pedro Demo em sua obra “participação é Conquista” – Cortez
Editora, 5ª edição, diz:
“Em nosso meio, a intensidade organizativa da sociedade civil é muito baixa. A
consciência dos processos dominativos pode ser tão restrita ou coibida que proposta
de associação em defesa de interesses específicos aparece estranha quando não
temida. Ao mesmo tempo emerge aí a dificuldade de motivar processos
participativos por falta de organização mínima. Sequer são sentidos como
necessidades básicas, até porque, em situação de pobreza sócio-econômica extrema,
pensa-as mais na sobrevivência imediata, do que na necessidade de garanti-la
como direito definitivo (...) Deixar de ser objeto de manipulação, para sujeito de seu
próprio destino. Instaurar o Estado de direito, contra o Estado de impunidade, de
exceção, de privilégio. Institucionalizar o controle do poder de baixo para cima, de
tal sorte que o Estado sirva à sociedade, não o contrário. (...) Garantir um nível
mínimo de direitos iguais, abaixo do qual instalam-se a selvageria e a violência
incontrolável. Consolidar a cidadania organizada, aquela competente em sua
estratégia democrática de defesa dos interesses. (...) No fundo existe uma ironia,
mas que é profundamente lógica: direito é algo incondicionalmente devido, porém,
só se efetiva se conquistado. Por isso, não basta os direitos na letra, fazer
declarações verbais, aprimorar textos constitucionais, se os interessados não
urgirem na teoria e na prática seus direitos”.