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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA

PARALISIA DECISÓRIA E EXPANSÃO DO ESTADO – BREVE ANÁLISE DE


ALGUMAS TEORIAS SOBRE A DITADURA MILITAR

Artigo final entregue ao Prof. Dr. Adriano Codato para a


disciplina de Política Brasileira do Programa de Pós-
Graduação (mestrado) em Ciência Política da
Universidade Federal do Paraná.

CAMILA TRIBESS

Curitiba, janeiro/2010
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Apresentação

O período da ditadura militar brasileira suscita diversos estudos, teses e pesquisas, talvez
não tantos quanto o necessário para compreendermos de forma mais aprofundada esse
processo, mas em volume e qualidade razoáveis. Um ponto de grande discórdia entre
diversos intelectuais - sejam sociólogos, cientistas políticos ou historiadores - é quanto aos
motivos que levaram ao golpe e, posteriormente, à ditadura militar em 1964. Por diversas
vezes no Brasil as forças armadas haviam se posicionado na esfera política intervindo
diretamente em vários governos, mas o período de 1964 a 1985 (ou 1989 para alguns) foi o
único até hoje em que os militares de fato governaram o país.

Nesse artigo, utilizando principalmente os textos de Luciano Martins (1985) e Wanderley


Guilherme dos Santos (1986), bem como certa bibliografia complementar, busco
compreender, em primeiro lugar, o debate teórico por trás do argumento desses dois
autores. Chama a atenção o fato de ambos, ao estudarem aspectos diferentes da ditadura
militar, criticarem de forma efusiva as interpretações marxistas chamadas de “dogmáticas”,
“economicistas” e “mecanicistas”, fazendo um estudo essencialmente institucional de seus
objetos.

Incidentalmente mesclarei no decorrer do texto algumas outras questões teóricas e


metodológicas que inevitavelmente aparecem no decorrer das leituras e reflexões. No
entanto, o exercício principal do artigo é perceber qual a questão teórica de cada um dos
textos, buscando explicitar o problema, a quais teorias se contrapõem e o que propõem,
teórica e metodologicamente para sustentarem suas hipóteses.

Tanto o texto de Martins quanto o de Santos, são análises institucionais da política, que
buscam a explicação para seus problemas em fatores propriamente políticos, apesar de não
descartarem as explicações econômicas e sociais, sem ficar, no entanto, no argumento de
que tudo pode explicar qualquer coisa. O texto de Santos busca entender a crise que levou
ao golpe militar de 64, já o texto de Martins pretende entender o que a ditadura militar fez
em relação ao crescimento do aparato estatal e sua posição política em relação a isso.

O texto será organizado da seguinte forma: apresentação dos problemas dos autores,
apresentação da discussão teórica colocada por ambos, breve tentativa de interpretação dos
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recursos teóricos utilizados por ambos os autores com o auxílio de alguma bibliografia
complementar, seguida de algumas considerações finais.

Paralisia Decisória e Expansão do Estado

O argumento de Wanderley Guilherme dos Santos em “Sessenta e quatro: anatomia da


crise” é que o golpe foi a saída ilegal para a crise de paralisia decisória que se instaurou a
partir de 1961. Os fatores econômicos e sociais não são suficientes, segundo ele, mas são
necessários para explicar a crise que levou ao golpe (explicação multifatorial), o autor busca
uma explicação política para a crise.

Santos Faz uma análise institucional e anti-classista do problema. Para ele o cerne da
questão foi a impossibilidade do governo Jango de aprovar suas políticas e a oposição tinha
força apenas para vetar políticas, não sendo propositiva, dessa forma nenhum grupo
conseguia implementar suas políticas e as posições dos diferentes grupos se tornaram cada
vez mais radicalizadas, impossibilitando negociações e acordos. Além disso, o autor traça
uma análise do sistema partidário, que para ele se constituiu em um sistema pluralista e
polarizado, essa polarização faz com que o sistema político como um todo entre em crise a
partir de 61, culminando com o colapso de 64. Assim, o golpe de 64 não foi uma
conseqüência dos fatos políticos ocorridos a partir de 1946, mas sim da política
implementada a partir de 1961, no governo Jango.

Para sustentar sua hipótese, a pesquisa busca encontrar no sistema político brasileiro
provas dessa fragmentação e de radicalização dos atores (sejam pessoas, facções ou
partidos), bem como de formação de coalizões que serviam, unicamente, para vetar
políticas, sem força ou coesão para propor positivamente e tomar decisões. Além disso,
para Santos, a rotatividade das elites, principalmente da base do governo (que estaria em
busca de adesão) seria outra confirmação de sua hipótese.

Através da análise do congresso, dos parlamentares, dos partidos políticos e da ação do


poder executivo, o autor encontra diversas evidências de “paralisia decisória”, bem como,
que principalmente a partir de 1961 nota-se uma grande tendência à fragmentação e à
polarização, tanto no congresso como em outras instâncias, ficando evidentes as oposições
entre direita-esquerda, principalmente quando entram em questão dois pontos-chave, a
reforma agrária e a atuação do capital estrangeiro.
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No livro “Estado Capitalista e Burocracia no Brasil pós 64”, de Luciano Martins, a hipótese
é que a expansão do estado na ditadura militar se deu por forças centrípetas (ou seja, que
centralizam o poder do estado), mas também por forças centrífugas (agências relativamente
autônomas) e que, no caso brasileiro, ambas as forças se dão por atuação do Estado em sua
expansão. Assim, para Martins, a ideologia da ditadura militar não era de “segurança
nacional”, como proclamado no golpe, mas sim de um desenvolvimento do capitalismo
brasileiro através da expansão estatal. Para corroborar sua hipótese o autor busca ver a
capacidade extrativa do estado, seja através de impostos, ou por criação de fundos etc.
Analisa três instituições governamentais que para ele foram principais no processo de
regulação e promoção do desenvolvimento capitalista que o Estado, na ditadura militar
objetivava. E, finalmente, analisa o perfil social, profissional e político de lideranças e
dirigentes de órgãos estatais importantes, tanto do setor que ele denomina de “setor
governo”, quanto de autarquias e outras empresas estatais.

Fazendo essas pesquisas, o autor apresenta dados que comprovam sua hipótese. A partir de
64 há um maior controle do governo central sobre os recursos arrecadados, com
diminuição da porcentagem repassada aos estados e municípios, junto com um maior
controle sobre a utilização desses recursos com a criação de órgãos reguladores (força
centrípeta). Há a criação de 3 tipos de recursos extra-orçamentários (ou seja, que não vem
dos impostos), os fundos sociais dos trabalhadores; as loterias e sobretaxa de exportações;
venda de títulos da dívida pública.

No âmbito das receitas há uma centralização no governo, mas nas despesas, há o


movimento contrário, já que diminuem os gastos operacionais de fato (com exceção dos
gastos militares) e aumentam os gastos na administração pública, mas fora do “setor
governo”, como em autarquias, fundos, fundações e empresas governamentais. No pós 64
cresce muito o número de empresas estatais que são desde prestadoras de serviços básicos,
até bancos, financiadoras e controladores de recursos naturais estratégicos (força
centrífuga). Para Martins, as empresas estatais passam a substituir as repartições públicas,
de onde surge a contraposição entre o funcionário público e o executivo de estado.

Ele verifica uma distancia entre o Estado “representante” da nação e o estado


“protagonista” do mercado, já que não há um controle efetivo do governo sobre as
empresas estatais e se evidencia um isolamento do setor governo, já que as empresas se
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expandem numa lógica propriamente empresarial e não política. Mesmo com tentativas de
implementar controles formais ou então de nomear diretorias submissas, há confrontos
significativos entre a lógica das empresas e o controle estatal.

Também estuda 3 agências governamentais para compreender como, com a expansão do


estado, este age em 3 áreas estratégicas: comércio exterior (CACEX), financiamento
público (BNDE) e indução de investimentos industriais (CDI). Conclui que o Estado tem
se expandido de forma rápida, mas não regulada, o que torna essa expansão problemática.
O conflito entre ser “governo”(CDI) ou “empresa” (BNDE) ou ser ambos (CACEX)
indica o conflito existente entre as diferentes lógicas dentro do próprio Estado. Entretanto,
para Martins, isso não paralisa o Estado, no entanto, o controle autoritário que o Estado
(na época) buscava ter não resolveria o problema de desorganização, este só seria
solucionado com mecanismos de controle social sobre o governo e suas empresas.

Outra pesquisa que realiza é um survey realizado com 107 dirigentes de empresas estatais e
funcionários de alto escalão do setor governo, buscando ver alguns pontos principais:
inserção no Estado e renovação de quadros, contraposição entre setor governo e empresas
estatais, posições econômicas e políticas desses atores. O autor percebe que há a nomeação
de diretores fiéis ao governo nas empresas, mas que isso não gerou bons resultados por
causa dos conflitos que causou com a empresa como um todo. Além disso, fica clara a
determinação política de uma estrutura que se dizia tecnocrática. Desses dirigentes, a
maioria ocupou cargos no governo antes do cargo atual (na época do survey). Esses cargos
se obtêm por indicação pessoal e a formação dos quadros das empresas estatais se dá no
próprio Estado, principalmente no setor governo. Surge aqui a contraposição entre o
“funcionário”e o “executivo”, sendo o primeiro negado e o segundo valorizado. As
empresas estatais seguem a lógica do mercado, com salários mais altos e possibilidades de
estágios no exterior muito maiores do que no setor governo.

As posições e contraposições teóricas

A discussão teórica em que Santos se coloca se dá da seguinte maneira: a) explicações


estruturais, que são dadas por fatores econômicos, como o fazem, por exemplo, Fernando
Henrique Cardoso (ANO) e Guillermo O’Donnell (1972); b) explicações dadas por fatores
sociais e classistas, como faz Caio Navarro de Toledo (2001 e 2004) e pela conspiração
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burguesa anti-progressista (Dreifuss 1981); c) explicações intencionais, ou seja, que


enfocam os atores, são as dadas por fatores da personalidade política (Stepan 1973); d)
explicações da ideologia e valores militares (Soares ANO); e) explicações institucionais, que
é a que Santos utiliza nesse trabalho.

Para o autor, o contexto social e a disputa acirrada pela questão da reforma agrária e de
outras reformas radicalizadas afetam as escolhas e preferências no Congresso, o que
impede negociações entre opostos do continuum político e afasta os atores e partidos do
centro do espectro ideológico. Isso causa o que ele chama de pluralismo polarizado, que
levou à paralisia decisória de 1964. Com essa explicação o autor não exclui os fatores
econômicos e sociais do problema, mas se foca no estudo de fatores essencialmente
políticos para explicar sua questão.

Para ele, as explicações macro-históricas (sociais e econômicas, como o processo de


urbanização e industrialização) são necessárias para uma compreensão do desenvolvimento
político brasileiro, mas não são “suficientes” para explicar uma crise específica, como a que
causou o golpe de 1964. Assim, ele critica o “paradigma clássico da análise social e política
brasileira”, que vem de Celso Furtado (ANO) no período pós 1946 e consiste em perceber
um conflito entre organização popular com liderança populista e suas demandas e a
estrutura das instituições políticas de poder, que se baseia em forma mais antigas
(oligárquicas) de fazer política. Esse conflito gera, segundo Furtado, um impasse que abre
espaço para a atuação das forças armadas como ator político. Para Santos essa explicação
não pode ser utilizada para explicar a crise de 64 se não se agregam a ela algumas “variáveis
políticas específicas” (p.19).

Os eixos dessa explicação clássica são: industrialização e urbanização independentes uma


da outra; crescimento urbano acentuado, o que faz com que as eleições majoritárias sejam
ganhas por políticos progressistas (na maioria também populistas e com orientações
contraditórias) enquanto que as eleições proporcionais continuam a ser dominadas pelos
políticos oligarcas rurais; a industrialização foi financiada pelos proprietários rurais, o que
fez com que não houvesse conflito de interesses entre os proprietários rurais e os
industriais; falta de um movimento operário organizado e relevante.
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Os questionamentos de Santos a esse modelo se dão no seguinte sentido: não há evidencias


de que o legislativo tenha sido sempre conservador em oposição a um executivo
progressista, ao contrário, cita 2 casos em que o congresso aprovou medidas de cunho
progressista, da mesma forma, não está convencido que os executivos tenham sido sempre
progressistas. Sua maior crítica a esse modelo é pelo que ele chama de “mecanicismo”, ou
seja, a noção de que os fatores econômicos e sociais influem diretamente sobre os fatores
políticos. Em suma, Santos quer identificar a explicação política de uma crise que é, em
essência, política. Além disso, para ele, a competição política, muitas vezes, interfere nesses
fatores sociais e econômicos, mas isso, para ele, não é considerado pelas explicações
clássicas da política brasileira.

Santos busca fugir do que, para ele, parece uma explicação determinista, já que acredita que
as mesmas etapas de desenvolvimento econômico levam a conseqüências política diversas,
não havendo uma linha única a seguir. Por exemplo, a soma de industrialização tardia,
urbanização acelerada, poder executivo populista e falta de mobilização operária nem
sempre é igual golpe militar. Ao contrário, ele argumenta que diversos países, com
condições semelhantes à brasileira, tomaram outros rumos. Da mesma forma, para ele,
essas condições já estavam presentes nos anos de governo Kubitschek, que foram, no
entanto, os mais estáveis do período. Nesse sentido, ele também argumenta que apenas a
aliança PTB/PSD não explica essa estabilidade nos anos de governo Kubitschek.

O autor propõe assim uma análise que se enfoque na explicação política e institucional dos
fatores que levaram ao golpe e inicia essa proposição pelo apelo à política comparada, ou
seja, o estudo em análise comparativa de diferentes países, segundo ele, não apenas para
sair do “paroquialismo”, mas também para compreender de forma mais ampla
determinados acontecimentos políticos. Para ele os partidos políticos, principalmente em
nações ainda em fase de desenvolvimento econômico, são as organizações capazes de
transformar as aspirações confusas e dispersas na sociedade em planos e projetos mais
concretos, assim, uma crise no sistema partidário gera desordens políticas amplas. Esse é o
pilar da explicação de Santos para a crise de 1964. Utilizando o conceito de Sartori (ANO)
de “pluralismo polarizado”, Santos argumenta que o sistema partidário brasileiro, a partir
de 1961 torna-se polarizado, abrindo assim o espaço necessário para o golpe militar, já que
causou uma situação de “paralisia decisória”. No entanto, a principal questão do autor é de
que forma um sistema político se torna polarizado, ou seja, o que ocorre para que a
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preferência dos atores políticos se radicalize a ponto de inviabilizar o processo decisório. A


solução para essa crise normalmente se dá através de alguma forma ilegal de mudanças nas
regras políticas – ou seja, os golpes, no caso brasileiro, o golpe militar.

No texto de Luciano Martins, encontramos sua contraposição às teorias marxistas de


autonomia relativa do Estado. Para ele as fórmulas dessas “doutrinas” não podem ser
usadas para entender o desenvolvimento do capitalismo nos países periféricos. Argumenta,
utilizando um conceito de Touraine (1976), que existe uma “desarticulação social” entre a
produção capitalista e a reprodução social por causa das condições distintas de países como
os latino-americanos, que tiveram um desenvolvimento capitalista muito mais rápido e
distinto do capitalismo dos países europeus. Essa desarticulação consiste em que o
capitalismo nesses países periféricos sofre pressão, influência e atuação direta dos países já
desenvolvidos, por seus governos e empresas, além de que, nesses países, como o Brasil, os
conflitos sociais não são, normalmente, a causa dos processos de desenvolvimento
econômico, mas sim suas conseqüências, já que surgem em reação às decisões políticas que
vem, via de regra, dos governos pressionados pelas forças estrangeiras.

Para Offe e Ronge (1975), citados por Martins, os Estados não tem controle do processo
de produção, que é privado e, além disso, o Estado depende desse processo de produção,
que gera valor, para ser sustentado através dos impostos. Assim, é também interesse do
Estado promover a acumulação capitalista, por isso, não haveria a necessidade da
dominação pela classe burguesa do aparelho estatal, já que há uma coincidência de
interesses. Haveria uma “hegemonia”(no sentido gramsciano) do sistema capitalista como
modo de produção na sociedade. Além disso, apesar do partido ou grupo que está no
poder do Estado ser eleito democraticamente (nos casos estudados por Offe e Ronge), os
recursos utilizados pelo Estado para cumprir seus projetos políticos dependem, justamente,
da acumulação capitalista e não de eleições, o Estado precisaria assim manter as condições
de mercadoria nas relações para garantir a acumulação da qual ele depende. Assim, pode-se
pensar que a inserção do Estado, através de suas empresas, no sistema de acumulação
capitalista, favorece a arrecadação de recursos para o próprio Estado, tornando-o ainda
mais firme defensor das condições de produção capitalista, da qual ele agora é participante
ativo e arrecadador.
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Breve tentativa de análise

Em “Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar”, de Carlos Fico (2004), o


autor faz uma breve avaliação das mais importantes análises sobre o golpe militar e suas
causas. Ao fim, não desconsidera nenhuma delas, defendendo uma análise que compreenda
desde os fatores macros aos micros estruturais. Essa parece ser também, em grande
medida, a posição teórica de Santos e Martins, apesar de ambos fazerem uma análise
institucional dos problemas que se colocam, não desconsideram a influência dos fatores
sociais e econômicos, mas lutam para contraporem-se ao que chamam de “determinismo”,
seja ele econômico, classista ou social. Ambos, em suas análises, buscam uma solução em
fatores políticos para os fatos também políticos. Ou seja, consideram que a esfera política
tem uma lógica própria, apesar de, principalmente no texto de Martins, se contrapor à idéia
de autonomia relativa do Estado.

Essa contraposição se torna interessante ao considerarmos os textos de Caio Navarro de


Toledo (2001 e 2004), onde o autor defende a tese de que o período entre 1961 e 1964,
apesar das controvérsias entre os autores de esquerda, foi um período de acirramento das
lutas de classe, culminando no golpe de 64. Para ele esse foi um golpe contra a democracia
ainda incipiente e contra as reformas sociais de base, principalmente a reforma agrária.
Resumidamente, foi um golpe contra a ampliação da democracia no Brasil. Sustenta seu
argumento com uma análise de diversos fatos sociais e políticos, desde a movimentação
estudantil, a relação dos sindicatos com o governo, o surgimento do cinema novo e das
ligas camponesas, a repressão ao PCB e as demandas por reformas sociais de base. Esses
fatos são, para Toledo, evidências da imensa movimentação político-social que havia no
país para a ampliação da democracia e que, segundo ele, o golpe de 64 reprimiu. Para ele,
tanto os líderes de esquerda foram inconseqüentes em seus discursos (“bravatas”), mas sem
dúvida, o golpe foi organizado e levado a cabo tanto pelos militares quanto pelas classes
dominantes e suas representações, ou seja, utiliza a análise classista para entender o golpe
militar, não me parecendo, no entanto “determinista” nem “economicista”. Pelo contrário,
aponta diversas vezes para a possibilidade (perdida) de evitar o golpe, bem como leva em
grande consideração, inclusive, a atuação dos atores políticos.

O livro de D’Araujo, Soares e Castro (1994) parece corroborar em grande medida as


análises classistas do golpe. Ao recolherem depoimentos de diversos militares que eram de
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médio escalão na época do golpe, percebem a recorrência com que todos colocam o anti-
comunismo, a manutenção da ordem e a defesa do capitalismo como os pilares do golpe
militar. Todas as entrevistas, praticamente, falam da insegurança pela postura política de
Jango, a quebra de hierarquia militar e o “alastramento comunista” dentro dos quartéis.
Esses depoimentos não podem, é claro, serem considerados como toda a verdade, mas
demonstram, sem dúvida, o que os oficiais e a grande maioria dos militares pensavam e
sentiam na época. Além disso, fica claro também o apoio de diversos setores sociais,
“assustados” com a onda comunista que, segundo eles, se alastrava pelo país, fazendo com
que empresários, Igreja, classe média e outros setores apoiassem o golpe, contra uma
“república sindicalista” que poderia se instaurar. No mesmo sentido, parece verdade a tese
de Santos que aponta para a crise desde 1961, dentro do governo Jango, como um dos
grandes motivos do golpe. Os militares colocam o golpe de 64 como uma “revanche” por
em 61 Jango ter assumido, parece-me que, se os setores civis apoiaram o golpe, parece
completamente viável, como demonstrou Santos, que vários grupos parlamentares se
unissem para vetar as medidas do governo.

René Dreifuss (1981), também considera que o golpe de 64 foi, em essência, um golpe de
classe. Articulado pelo empresariado através de instituições como IPES e IBAD, que para
o autor eram o verdadeiro “partido” da classe empresarial, junto com militares, intelectuais,
técnicos etc. que atuavam de forma coesa em grupos de pressão reconhecidos,
principalmente no Congresso (IPES). Com um tom um pouco mais conspiratório, o texto
de Dreifuss coloca em meio ao debate a questão da dominação do Estado por uma classe,
no caso, os empresários urbanos ligados ao IPES e ao IBAD. Para Maria Victoria
Benevides (2003), em uma resenha do trabalho de Dreifuss, este mantém a perspectiva
classista e de um Estado como “comitê executivo da burguesia” (p.3), o que torna a análise
um pouco deslocada já que, para ela, essa interpretação não se adéqua à realidade brasileira
da época, mas dá sustentação ao argumento de um golpe de classe.

Quanto ao problema abordado por Martins, relativo à ideologia de expansão do Estado,


Benevides (2003) aponta para questões interessantes, principalmente em relação à
tendência estatizante da ditadura militar, que segundo ela, iria contra as intenções dos
empresários organizados que para Dreifuss foram atores importantes do golpe. Assim,
entramos na questão, nos referindo ao texto de Luciano Martins, da ideologia que guiou a
ditadura. Se seria, como apontam alguns autores, somente de “segurança nacional” ou se,
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desde os primeiros momentos, o planejamento militar já era de fato de uma expansão do


capitalismo brasileiro através da expansão do Estado. Tanto para Martins quanto para
Benevides, desde o planejamento do golpe pelos militares o objetivo era, claramente, de
expansão estatal e consolidação do capitalismo.

Aqui, os dois problemas teóricos colocados acima se entrelaçam: a questão da dominação


no aparelho de Estado e a questão da participação da burguesia no golpe de 64. Ambas as
questões se colocam principalmente àqueles que defendem uma análise classista da política,
mas a questão de quem controla o Estado está tanto em Martins quanto em Santos, apesar
das fortes críticas que ambos tecem às análises marxistas “dogmáticas”. Assim, não se pode
simplesmente imputar à burguesia toda a responsabilidade pelo golpe (golpe de classe), no
entanto a questão dos atores que intervieram no processo é fundamental para uma
compreensão mais ampla do processo. Benevides, novamente relacionando-a com o texto
de Martins, aponta para uma das contradições que este encontrou, principalmente em seu
survey com o alto escalão do governo e das empresas estatais. Para Benevides, os
empresários dependem efetivamente das benesses e auxílios do Estado, enquanto esse, sem
dúvida, possui grandes ambições empresariais e as efetivou, na ditadura militar, através da
expansão estatal tanto do setor governo quanto das empresas e autarquias autônomas.

Considerações Finais

Tendo em vista o debate teórico trazido tanto por Santos quanto por Martins,
principalmente em contraposição aos demais autores aqui mobilizados, percebemos
diversas formas de ver o mesmo problema. Não podemos cair na tentação, como cientistas
políticos, de afirmar que tudo pode explicar tudo, porque então, certamente incorremos no
erro oposto, de que nada pode explicar coisa alguma. A análise institucional, como se viu, é
de grande valia para a compreensão de vários fatos políticos da época, tanto das razões do
golpe quanto do caminho percorrido pela ditadura entre 1964 e 1985.

No entanto, percebemos também ao colocarmos em diálogo essa base teórica com outras,
que a análise classista não pode ser descartada de início, já que existem diversas pesquisas
sérias que apontam para a importância do conflito de classe no desenrolar do golpe e na
sua continuidade. É claro que não podemos nos guiar por teorias transplantadas de outros
contextos, mas sim buscar análises empíricas que confirmem ou não a importância de
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certos aspectos nos fatos em questão. Teorias “deterministas” e “mecanicistas”, que


simplesmente dizem que A causa B, sem maiores preocupações teóricas e metodológicas
devem ser vistas com desconfiança, tampouco se pode tomar o discurso do objeto (no caso
do depoimento dos militares) como se fosse “a” verdade dos fatos, lembrando, inclusive,
que os militares entrevistados no trabalho de D’Araujo et all (1994) não eram “a cabeça” do
golpe e do regime, mas sim o médio escalão, portanto, provavelmente tinham apenas as
informações que os deixavam ter. Além disso, o fato de empresários organizados em
instituições como o IPES/IBAD terem evidentemente uma grande influência no processo
político, não significa que eles tivessem maior controle sobre o decorrer dos fatos,
provavelmente sequer os próprios militares oficiais-generais o tinham.

Entretanto, não se pode negar, ao pensarmos em todo o contexto quase de ebulição sócio-
política, colocado por Toledo (2001 e 2004) e em manifestações como a marcha “da
Família com Deus pela Liberdade” e do comício orquestrado por Jango na Central do
Brasil, que havia sim, de maneira forte e talvez nunca antes vista no país, uma
movimentação social e política que reivindicava ampliação de direitos políticos e
econômicos para as classes populares. O golpe de 64 talvez tenha sido, como quase todos
os processos políticos ocorridos no Brasil, um “façamos a revolução antes que o povo a faça”,
nesse caso, foi a revolução dos militares conservadores apoiados pelas classes altas contra a
revolução da população pobre e excluída, trabalhadores urbanos e camponeses. Não que
essa “revolução” do povo fosse ser, talvez, uma revolução cubana em grandes proporções
como defendem alguns, obviamente não seria. Mas seria, certamente, uma pressão forte
por mudanças estruturais na forma de vida e de fazer política no Brasil.

Assim, a análise institucional adotada por Santos e Martins em seus trabalhos é de grande
importância no que diz respeito a encontrar os fatores políticos dos fatos políticos, em que,
concordamos com ambos, o social e o econômico não são os mestres de um títere plano
político, as três esferas, e outras mais, certamente, como a cultural, a religiosa e a
educacional, por exemplo, são esferas interdependentes, que têm suas lógicas próprias e
seus próprios eventos e direcionamentos, ao mesmo tempo em que interferem,
diretamente, umas nas outras.
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Referências Bibliográficas

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