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DESIGUALDADES ELEMENTARES

Antonio Caminha Muniz Neto


♦ Nível Avançado.

Pretendemos neste artigo desenvolver ferramentas básicas a fim de que o leitor se torne
apto a resolver uma vasta gama de problemas de competições matemáticas que envolvam
desigualdades. Tentamos tornar nossa exposição a mais auto-suficiente possível. Em certas
passagens, contudo, algum conhecimento de cálculo é útil, ainda que não imprescindível. Em
tais ocasiões indicamos ao leitor a referência [3] como bibliografia auxiliar.

Antes de discutirmos qualquer desigualdade em especial, consideremos um exemplo


preliminar.

1 1 1 1 1
Exemplo 1: Para todo inteiro positivo n, prove que 1    . . . ≥
2 3 4 n 2
 log 2 n1  .
Solução : Veja que, para todo inteiro k > 1,

1 1 1 1 1 1 1
+ + ... + > k + k + ...+ k =
2 k −1 +1 2 k −1 + 2 2k    
2 2 2 2

2 k −1 vezes
Portanto, sendo 2 k a maior potência de 2 menor ou igual a n, temos

( )
n 2k k k
1+ 1
+∑ 1
≥1+ 1
+ ∑ 1j = 1 + 12 + ∑ 1
+ ... + 1
>1 + 12 + ∑ 12 = 1 + k2
2 j 2 2 j −1 +1 2j
j =3 j =3 j =2 j =2

Mas 2 k ≤ n < 2 k + 1 ⇒ k ≤ lo g2 n < k + 1 ⇒ 1 + k2 > 12 lo g2 n + 1 , ( ) e a desigualdade do


enunciado é imediata. ❏

O exemplo acima foi colocado de propósito. Ele chama atenção para o fato de que nem
sempre precisamos de algo mais que raciocínio para resolver problemas envolvendo
desigualdades. A proposição abaixo mostra um pouco mais sobre como podemos derivar
desigualdades interessantes com muito pouca matemática.

Proposição 1 (Desigualdade do Rearranjo): Sejam a1 < a2 < ... < a n reais positivos dados,
e considere a expressão S = a1b1 + a 2 b2 + ...+a n bn , onde ( b1 , b2 ,..., bn ) é uma
reordenação de ( a1 , a2 ,..., a n ) . Então
a1a n + a2 a n −1 + ...+a n a1 ≤ S ≤ a12 + a22 + ...+a n2

Prova : Vamos primeiro tornar S a maior possível. Como só há um número finito (n fatorial)
de possíveis reordenações ( b1 , b2 ,..., bn ) , há uma delas que torna S máxima. Suponha
então que estamos com a reordenação ( b1 , b2 ,..., bn ) que torna S máxima.

Queremos mostrar que essa reordenação é exatamente ( a1 , a 2 ,..., a n ) . Para isso, basta
mostrarmos que deve ser b1 < b2 < ... < bn . Suponha o contrário, i.e., que existam índices i <
j tais que bi > b j . Trocando as posições de bi e b j (i.e., pondo bi ao lado de a j e b j
ao lado de a i ), S varia de a i b j + a j bi − ( a i bi + a j b j ) = ( ai − a j )( b j − bi ) > 0 , quer dizer,
S aumenta. Mas isso contraria o fato de ser a reordenação ( b1 , b2 ,..., bn ) aquela que torna
S máxima. Logo, b1 < b2 < ... < bn e daí bi = a i para todo i, donde o maior valor possível
de S é a12 + a22 + ...+a n2 .
O raciocínio para minimizar S é análogo. ❏

Passemos agora a nosso principal objetivo, o estudo de desigualdades especiais. A mais


importante destas é a dada pela proposição 2 abaixo. Antes, uma definição.

Definição 1 : Dados n > 1 reais positivos a1 , a 2 ,..., a n , definimos

a1 + a 2 + ...+ a n
i. A média aritmética de a1 , a 2 ,..., a n como o número .
n
ii. A média geométrica de a1 , a 2 ,..., a n como o número n a1a 2 ... a n .

Proposição 2 (Desigualdade Entre as Médias Aritmética e Geométrica) : Dados n > 1 reais


positivos a1 , a 2 ,..., a n , sua média aritmética é sempre maior ou igual que a média
geométrica, ocorrendo a igualdade se e só se a1 , a2 ,..., a n forem todos iguais. Em
símbolos:
a1 + a 2 + ...+ a n n
n ≥ a1a2 ... a n

Prova : Façamos a prova em dois passos:

i. A desigualdade é verdadeira quando n for uma potência de 2, ocorrendo a igualdade se e


só se todos os números forem iguais.
ii. A desigualdade é verdadeira em geral, e a igualdade ocorre se e só se os números forem
todos iguais.

i. Façamos indução sobre k ≥ 1, sendo n = 2 k : Para k = 1, temos


a1 + a 2 2
2
≥ a1a 2 ⇔ a1 − 2 a1a 2 + a 2 ≥ 0 ⇔ ( a1 − a 2 ) ≥ 0 , o que é verdade. Há igualdade se e
só se ( a1 − a 2 )2 = 0 , i.e., se e só se a1 = a2 .
a + a + ...+ a n n
Se já provamos que 1 2
n ≥ a1a2 ... a n , com igualdade se e só se a1 = ... = a n para
n = 2 k , então

( a1 +...+ a n ) + ( a n +1 +...+ a 2 n )
2n = 2 [
1 a1 +...+ a n
n +
a n +1 +...+ a 2 n
n ] ≥
n a1 ...a n + n

2
a n +1 ...a 2 n

≥ n a1... a n n a n +1... a 2 n = 2 n a1... a n a n +1... a 2 n

Para haver igualdade, devemos ter igualdade em todas as passagens. Então, deve ser

a1 + ...+ a n a + ...+ a 2 n
= n a1... a n , n+1 = n a n + 1... a2 n e
n n

n a1 ...a n + n a n +1 ...a 2 n
2 = 2 n a ... a a
1 n n + 1... a 2 n
Para as duas primeiras igualdades, segue da hipóteses de indução que deve
ser
a1 = ... = a n e a n +1 = ... = a2 n
A última igualdade ocorre se e só se n a1... a n = n a n +1... a2 n . Estas duas condições juntas
implicam que devemos ter a1 = ... = a n = a n +1 = ... = a 2 n . É também evidente que se os
números forem todos iguais a igualdade ocorre.

ii. Seja agora n > 1 um natural qualquer e a1 ,a 2 ,..., a n reais positivos. Tome k
natural tal que 2 k > n. Usando a desigualdade entre as médias para os 2 k números
a1 , a 2 ,..., a n e 2 k − n cópias de a = n a1a2 ... a n , obtemos

a1 + ...+ a n + a + ...+ a k k
−n 2k k
−n 2k k
k ≥ 2 a1... a n a 2 = a na 2 = a2 = a ,
2

a1 + ...+ a n
e daí a1 + ...+a n + ( 2 k − n )a ≥ 2 k a , ou ainda
n ≥ a = n a1 ... a n , que era a
desigualdade desejada.

Para haver igualdade, segue do item i que deve ser a1 = ... = a n = a = ... = a . Em particular,
todos os números a1 , a 2 ,..., a n devem ser iguais. É fácil ver que se esses números forem
todos iguais então há igualdade. ❏
Corolário 2.1 : Dados n > 1 reais positivos a1 , a 2 ,..., a n , temos

( a1 + a2 + ...+ a n ) ( 1
a1 + 1
a2 + ...+ a1 ≥ n 2 ,
n
)
com igualdade se e só se a1 , a2 ,..., a n forem todos iguais.

Prova : Basta aplicarmos duas vezes a proposição 2 e multiplicarmos os resultados:


1
a1 + a2 + ...+a n ≥ n n a1a2 ... a n e + 1 + ...+ a1 ≥ n n a a 1...a
a1 a 2 n 1 2 n

Exemplo 2 : (Olimpíada Israelense) Sejam k e n inteiros positivos, n > 1. Prove que
1 1 1
kn + kn+ 1 + ...+ kn+ n − 1 > n
n k +1
k ( −1 )
Prova : Basta ver que

 n −1 
∑( kn1+ j + 1)
n −1 n −1 n −1
∑ 1  + n = kn + j +1 kn + j +1
 kn + j  = ∑ kn + j > nn ∏ kn + j =nn k +1
k ,
 j =0  j =0 j =0 j =0

onde aplicamos a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica uma vez. Note que,
kn + j +1
como os números kn + j
são dois a dois distintos, não há igualdade, razão do sinal > acima.

Dentre todas as desigualdades especiais que temos oportunidade de usar em problemas de


competições matemáticas, a desigualdade a seguir se constitui, juntamente com a
desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, num dos dois mais importantes
resultados a serem guardados.
Proposição 3 (Desigualdade de Cauchy): Sejam a1 , ..., a n , b1 ,..., bn reais dados, não
todos nulos (n > 1). Então

| a1b1 +... + a n bn | ≤ a12 +... + a n2 b12 +... + bn2

Além disso, teremos a igualdade se e só se os a i e os bi forem proporcionais, i.e., se e só


se existir um real positivo λ tal que bi = λ a i para todo i.

Prova : Considere o seguinte trinômio do segundo grau


f ( x ) = ( a1 x − b1 ) 2 + ( a 2 x − b2 ) 2 + ...+( a n x − bn ) 2

Desenvolvendo os parênteses, chegamos a

f ( x ) = ( a12 + a22 + ...+a n2 ) x 2 − 2( a1b1 + a 2 b2 + ...+a n bn ) x + ( b12 + b22 + ...+bn2 )


Por ser uma soma de quadrados, temos f ( x ) ≥ 0 para todo real x, e daí deve ser ∆ ≤ 0 , i.e.,
4( a1b1 + a 2 b2 + ...+a n bn ) 2 ≤ 4( a12 + a 22 + ...+a n2 )( b12 + b22 + ...+bn2 )
Cancelando o fator 4 e extraindo a raiz quadrada de ambos os membros, chegamos na
desigualdade de Cauchy. Examinemos agora a igualdade. Se houver igualdade, quer dizer, se
for ∆ = 0 , então o trinômio tem uma raiz real λ :
( a1λ − b1 )2 + ( a 2 λ − b2 ) 2 + ...+( a n λ − bn ) 2 = 0
Mas aí todos os parênteses devem ser nulos, i.e., bi = λ a i para todo i. Então, havendo
igualdade os a i e bi devem ser proporcionais. É evidente que se eles forem proporcionais a
igualdade ocorre. ❏
Temos a seguir alguns corolários importantes.

Corolário 3.1 (Desigualdade entre as Médias Quadrática e Aritmética) : Dados reais

positivos a1 , ..., a n , temos a12 + a 22 + ...+ a n2 a1 + a 2 + ..+ a n , com igualdade se e só se


n ≥ n
a1 = ... = a n .

Prova Fazendo b1 = b2 = ... = bn = 1 na desigualdade de Cauchy, obtemos

a1 + a2 + ... + a n ≤ a12 +... + a n2 n,

com igualdade se e só se existir um real positivo λ tal que ai = λ para todo i, quer dizer, se
e só se os a i forem todos iguais. Para obter a desigualdade do enunciado, basta dividir
ambos os membros da desigualdade acima por n. ❏

Corolário 3.2 : Se n > 1 é inteiro e a1 , ..., a n , b1 ,..., bn são reais positivos, então

( a1
b1
+ ...+
an
bn ) ( a b + ... + a b ) ≥ ( a + ... + a )
11 n n 1 n
2
,

com igualdade se e só se b1 = ... = bn .

ai
Prova : Faça xi = bi
, yi = ai bi e aplique a desigualdade de Cauchy para os números

x1 ,..., x n , y1 ,..., y n . ❏
Exemplo 3 : (Teste de Seleção da Romênia para IMO) Sejam x1 , x 2 ,..., x n +1 reais
positivos tais que x1 + x 2 + ...+ x n = x n +1 . Prove que

x1 ( x n +1 − x1 ) + ...+ x n ( x n +1 − x n ) ≤ x n +1 ( x n +1 − x1 ) +...+x n +1 ( x n +1 − x n )
Prova : Para 1 ≤ j ≤ n , seja y j = x n +1 − x j . Pela desigualdade de Cauchy
temos

x1 y1 +...+ x n y n ≤ x1 +...+x n y1 +...+ yn =

= x n +1 ( x n +1 − x1 ) +...+ ( x n +1 − x n ) ❏

Temos mais duas desigualdades importantes.

Proposição 4 (Chebychev): Sejam a1 , ..., a n , b1 ,..., bn reais, com a1 ≤ a 2 ≤ ... ≤ a n e


b1 ≤ b2 ≤ ... ≤ bn . Então

( n )(
a1 + a 2 +...+ a n b1 + b2 +...+ bn
n ≤ n )
a1b1 + a 2 b2 + ...+ a n bn
,

com igualdade se e só se a1 = a 2 = ... = a n ou b1 = b2 = ... = bn .

Prova :
a1b1 + a 2 b2 + ...+ a n bn
n − ( a1 + a 2 +...+ a n
n )( b1 + b2 +...+ bn
n )=
= 1
n2
[ n( a1b1 + a2b2 + ...+ anbn ) − ( a1 + a2 + ...+ an )( b1 + b2 + ...+ bn ) ] =
n
=
1
n2
∑( ai − a j )( bi − b j ) ≥ 0 ,
i , j =1

já que os a i , bi são igualmente ordenados.

Note que a condição do enunciado é suficiente para haver igualdade. Por outro lado, suponha
que tenhamos a igualdade. Como ( a i − a j )( bi − b j ) ≥ 0 para todos i, j, devemos ter
( ai − a j )( bi − b j ) = 0 para todos os i, j. Suponha que existisse um índice k com bk < bk +1
. Então b1 ≤ ... ≤ bk < bk +1 ≤ ... ≤ bn , e de ( a i − a k +1 )( bi − bk +1 ) = 0 segue que
ai = a k +1 para i ≤ k. Portanto a1 = a2 = ... = a k = a k +1 . De ( ai − a k )( bi − bk ) = 0 e
i > k concluímos que a k +1 = ... = a n . Logo, todos os a i devem ser iguais. ❏

Corolário 4.1 : Sejam a1 , a 2 ,..., a n reais positivos e k um natural. Então


a1k + a 2k + ...+ a nk
n ≥ ( n )
a1 + a 2 + ...+ a n k
,

com igualdade se e só se todos os a i forem iguais ou k ∈ {0, 1}.

Prova : Por indução, o resultado acima é trivialmente verdadeiro para k = 1. Suponha k > 1 e
o resultado válido para k - 1. Como ambos os membros da desigualdade acima são invariantes
por permutações dos índices 1, 2, ..., n, podemos supor sem perda de generalidade que
a1 ≤ a 2 ≤ ... ≤ a n . Daí, a1k −1 ≤ a2k −1 ≤ ... ≤ a nk −1 , e da desigualdade de Chebychev obtemos
a1k + a 2k + ...+ a nk
n ≥ ( a1 + a 2 + ...+ a n
n )  a1k −1 + a 2k −1 + ... + a nk −1 

 n
.

Pela hipótese de indução, vem que


a1k −1 + a 2k −1 + ... + a nk −1
n ≥ ( n )
a1 + a 2 + ... + a n k −1
. Combinando

as duas desigualdades acima segue o resultado. A condição de igualdade é óbvia a partir da


desigualdade de Chebychev. ❏

Por fim, vejamos algo um pouco mais sofisticado.

Definição 2 : Seja I um intervalo da reta e f : I →R uma função. A função f é dita

i. Convexa se f ( )≤
x+ y
2
f ( x )+ f ( y )
2
para todos os x, y em I.

f( )≥
x+ y f ( x )+ f ( y )
ii. Côncava se 2 2
para todos os x, y em I.
Nas aplicações, quase sempre lidamos com funções contínuas (se você não sabe o que vem a
ser uma função contínua, pense na mesma como uma função cujo gráfico não sofre
interrupções ou saltos ao longo de seu domínio). Se f for contínua a proposição a seguir é
geometricamente evidente. A partir de agora, sempre que nos referirmos a uma função
estaremos sempre supondo ser seu domínio um intervalo da reta e a função contínua nesse
intervalo.

Proposição 5 : Sejam f : I → R uma função. Então:

i. f é convexa se e só se, para todos x, y em I e todo t   ∈ [ 0,1] tivermos


f ( ( 1 − t ) x + ty ) ≤ ( 1 − t ) f ( x ) + tf ( y )
ii. f é convexa se e só se, para todos x, y em I e todo t ∈[0,1] tivermos
f ( ( 1 − t ) x + ty ) ≥ ( 1 − t ) f ( x ) + tf ( y )
Façamos o caso em que f é convexa. O outro caso é análogo. Observe que
( 1 − t ) x + ty ∈ [ x , y ] ⊆ I , e que, no trapézio abaixo, (1 −t ) f ( x ) +tf ( y )
é o comprimento da paralela às bases pelo ponto ( 1 − t ) x + ty

f (z)

x z = ( 1 – t ) x + ty y

1
Prova : Suponha primeiro que f satisfaz a condição do item i. Tomando t= 2
concluímos
que f é convexa. Reciprocamente, suponha que f seja convexa. Dados x, y em I, temos
( ) + f ( y) ≤ f ( x) + f ( y)

( )
x+ y
 x +2 y + y  f + f ( y)
f ( y ) Trocando
x + 3y
f ( x) +
2 1 3
f 4
= f 2  ≤ 2
2
2
= 4 4
x por
 
y e raciocinando como acima segue que, para

{
t ∈ 0, 14 , 12 , 43 ,1 } ,

f ( ( 1 − t ) x + ty ) ≤ ( 1 − t ) f ( x ) + tf ( y ) (*)

Por indução sobre k inteiro positivo podemos concluir de maneira análoga que (*) continua
m
válida para todo t da forma k , onde 0 ≤ m ≤ 2 k é inteiro. Como todo real em [0,1] é limite
2
de uma seqüência de números dessa forma, segue que (*) continua válida para todo t em [0,
1]. ❏

As afirmações a seguir são agora bastante evidentes, e vão ser nosso principal guia quando
quisermos decidir se uma dada função é ou não convexa ou côncava.

i. Se para todos a < b em I o gráfico de f entre as retas x = a e x = b estiver abaixo da reta


que passa por ( a , f ( a )), ( b, f ( b )) , então f é convexa, e reciprocamente.

ii. Se para todos a < b em I o gráfico de f entre as retas x = a e x = b estiver acima da reta que
passa por ( a , f ( a )), ( b, f ( b )) , então f é côncava, e reciprocamente.

A figura abaixo para se convencer da validez desse resultado no caso em que f é convexa.

y = f(x)

e (c, e)

d (c, d)

a c b x

Nele,
a+ b
c=2
. É evidente que d = f (c) = f ( a +2 b ) e e=
f (a ) + f ( b)
2
. Daí,

f ( )
a+ b
2 ≤
f (a ) + f (b)
2
e f é convexa.

Para nós, a importância dessa discussão sobre funções côncavas e convexas reside na
seguinte:

Proposição 6 (Desigualdade de Jensen): Sejam I um intervalo da reta e


f : I → R uma função. Se x1 ,..., x n ∈ I e t1 ,..., t n ∈ [0,1] , com t1 + ... + t n = 1 , então
t1 x1 +... + t n x n ∈I e

i. f convexa ⇒ f ( t1 x1 + ... + t n x n ) ≤ t1 f ( x1 ) + ... + t n f ( x n )

ii. f côncava ⇒ f ( t1 x1 + ... + t n x n ) ≥ t1 f ( x1 ) + ... + t n f ( x n )

Prova : Façamos a prova, por indução sobre n > 1, para o caso em que f é convexa, sendo o
outro caso análogo. O caso n = 2 é nossa hipótese. Suponha agora que para um certo n > 1 e
todos x1 ,..., x n ∈ I e t1 ,..., t n ∈ [0,1] , com t1 + ... + t n = 1 , tenhamos
t 1 x 1 . .. t n x n  ∈ I e f ( t1 x1 +... + t n x n ) ≤ t1 f ( x1 ) +... + t n f ( x n )
Considere agora x1 ,..., x n +1 ∈ I e t1 ,..., t n +1 ∈ [0,1] , com t1 + ... + t n +1 = 1 . Se
t n +1 = 1 então t1 = ... = t n = 0 e nada há a fazer. Senão, defina
t x + ... + t x
y = 1 11− t n n = s1x1 + ... + sn x n ,
n+ 1
tj
onde s j = 1− t . Como s1 + ...+ sn = 1 , segue da hipótese de indução que y ∈ I . Daí,
n +1

f ( t1x1 + ... + t n + 1x n + 1 ) = f  ( 1 − t n + 1 ) ( t1 x1 + ... + t n x n


1− t n + 1 )+t  =
n + 1 x n + 1 

( )
= f (1 − t n +1 ) y + t n +1 x n +1 ≤ (1 − t n +1 ) f ( y ) + t n +1 f ( x n +1 ) ,

já que f é convexa. Aplicando a outra metade da hipótese de indução, obtemos

f ( y ) = f ( s1 x1 + ... + sn x n ) ≤ s1 f ( x1 ) + ...+ sn f ( x n ) = f ( x1 ) + ...+ 1− tn f ( xn )


t1 t
1− t n + 1 n +1
Juntando essas duas desigualdades, obtemos a desigualdade de Jensen. ❏
Vejamos agora um exemplo de como aplicar a desigualdade de Jensen.

Exemplo 5: (Olimpíada Balcânica) Sejam n > 1 e a1 , ..., a n reais positivos com soma 1.
n
a1 a2 an n
Para cada i, seja bi = ∑ a j . Prove que + + +
... 1+ bn ≥ 2 n −1
.
j =1, j ≠1 1+ b1 1+ b2

Prova : Veja que b j =1 + (1 − a j ) = 2 − a j , e então temos de provar que

a1 a2 a n
2 − a1
+ 2− a2
+ ...+ 2 − na ≥ 2 n −1
n

Afirmamos que a função f : ( −∞,2 ) →R dada por f ( x) = x é convexa. Para ver


2− x
isso, basta escrever f ( x) = 2
2− x − 1 , e esboçar o gráfico de f, como abaixo.
y f

2 x

Portanto, temos pela desigualdade de Jensen que

n  n 
∑ f (aj) ≥ n f  1n ∑a j  = nf ( 1n ) = n
2 n −1 ❏
j =1  j =1 
Exemplo 6 : Utilizando a função logaritmo natural e a desigualdade de Jensen, vamos dar
outra prova da desigualdade entre as médias aritmética e geométrica.

Prova : Sejam a1 , ..., a n reais positivos. Existem reais x1 , ..., x n tais que a j = ln x j
para todo j. Como f ( x ) = ln x é uma função côncava, vem que

f ( x1 ) + ... + f ( x n )
n
≤ f ( x1 + ... + x n
n
,)
ou seja,

ln n x1 ... x n ≤ ln ( x1 + ...+ x n
n )
Como f é crescente, chegamos ao resultado desejado. ❏

Vale notar, para quem tem familiaridade com derivadas, que é possível provar que, se f ' '
existe, então f é convexa se e só se f ' ' ( x ) ≥ 0 para todo x em I e f é côncava se e só se
f ' ' ( x ) ≤ 0 para todo x em I.

Finalizamos este artigo com alguns problemas onde procuramos oferecer oportunidade de
exercitar o que foi aprendido no texto, além de desenvolver um pouco mais a teoria. É bom
salientar que em alguns deles mais de uma desigualdade pode ser usada.

Problemas onde não precisamos das desigualdades acima, mas de criatividade

1. (Olimpíada Americana): Prove que, para todos a, b, c reais positivos, temos


1 1 1
+ + ≤ 1
a 3 + b 3 + abc b 3 + c 3 + abc c 3 + a 3 + abc abc

2. (Desigualdade de Abel): Sejam a1 , ..., a n , b1 ,..., bn reais dados (n > 1),


com a1 ≥ a2 ≥ ... ≥ a n ≥ 0 . Se M e m são respectivamente o máximo e o mínimo do conjunto
{b1 , b1 + b2 ,..., b1 + ... + bn } , prove que

ma1 ≤ a1b1 + a 2 b2 + ...+a n bn ≤ Ma1 ,


com igualdade se e só se a1 = a2 = ... = a n .
3. (Teste de Seleção de Singapura para IMO): Prove que, quaisquer que
sejam os reais positivos a, b e c, tem-se
c a 2 − ab + b 2 + a b 2 − bc + c 2 ≥ b a 2 + ac + c 2 .

4. (Banco IMO): Sejam n > 1 um inteiro dado. Determine o maior valor


possível da soma ∑ xi x j ( xi +x j ) sobre todas as n-uplas x1 , ..., x n de reais não
1≤i < j ≤n
negativos cuja soma é 1.

Desigualdade entre as médias aritmética e geométrica

5. (Torneio das Cidades) Sejam a, b e c reais positivos dados. Prove que


a3 b3 c3 a + b+ c
2 2 + 2 2 + 2 2 ≥ 3
a + ab + b b + bc + c c + ca + a

6. Dados os reais positivos a1 , a2 , a3 , b1 , b2 , b3 , prove que

3 ( a1 + b1 )( a2 + b2 )( a3 + b3 ) ≥ 3 a1a 2 a3 + 3 b1b2 b3

Desigualdades de Chebychev, Jensen e Cauchy

7. (Olimpíada Turca) Sejam n > 1 inteiro e x1 , ..., x n reais positivos tais


n
que ∑x i2 = 1 . Determine o valor mínimo de
i =1
x15 x 25 x n5
x 2 + x 3 + ...+ x n + x1 + x 3 + ...+ x n + ...+ x .
1 + x 2 + ...+ x n −1

8. (Olimpíada Romena): Seja h a altura de um tetraedro regular e


h1 , h2 , h3 , h4 as distâncias desde um ponto P em seu interior às faces do tetraedro. Prove
que
h − h1 h − h2 h − h3 h − h4
h + h1 + h + h2 + h + h3 + h + h4 ≥ 12
5

9. (Banco IMO) : Sejam a, b, c, d reais não negativos tais que


ab + bc + cd + da = 1 . Prove que
a3 b3 c3 d3 1
b+ c + d + c+d +a + d +a +b + a + b+ c ≥ 3

10. Sejam n > 1 e x1 , x 2 ,..., x n reais positivos cuja soma é 1. Prove que

x1 xn n x1 + ...+ x n
+ ...+ ≥ n −1

1− x1 1− x n n −1

11. Sejam x1 , x 2 ,..., x n reais pertencentes ao intervalo [0, 1] e tais que


x1 + x 2 + ... + x n = a , com 0 < a < 1 . Prove que
1− a
1+ a

1− x1 1− x 2
1+ x1 1+ x 2
1− x
... 1+ x n ≤
n
( )
n− a n
n+ a

Outras Desigualdades

12. (Desigualdade de Bernoulli): Sejam n um inteiro positivo e x ≥ −1 um


real. Prove que ( 1 + x ) n ≥ 1 + nx .

13. (Desigualdade entre as Médias de Potências): Sejam α< β reais


positivos. Então, para todos a1 , a 2 ,..., a n reais positivos, vale

1 1
 a1α + a 2α + ... + a nα  α  a1 + a 2 + ... + a nβ  β ,
β β
  ≤  
 n   n 
com igualdade se e só se a1 , a2 ,..., a n forem todos iguais.

14. (Desigualdade de Giroux): Sejam I1 ,..., I n intervalos fechados da reta


e considere a função f : I 1 × .. . × I n   R de n variáveis, convexa
separadamente em relação a cada variável. Então, se I j = [a j , b j ] , f atinge seu valor
máximo em um dos 2 n pontos da forma ( c1 , ..., c n ) , com ci = a i ou bi para cada i.
Prove isto e enuncie um resultado análogo à desigualdade de Giroux para uma função de n
variáveis f, côncava separadamente em relação a cada variável.

15. (Olimpíada Búlgara): Sejam n ≥ 2 um inteiro e 0 ≤ x i ≤ 1 para 1≤ i ≤ n. Prove que

 2
n
( x1 + x2 + ...+ x n ) − ( x1 x2 + x2 x3 + ...+ x n − 1x n + x n x1 ) ≤

16. Os três itens a seguir visam derivar uma desigualdade difícil.


1
i. (Desigualdade de Young): Sejam p e q reais positivos tais que p + 1q = 1 . Prove que

xy ≤ xp
p +
yq
q
, ∀ x, y ≥ 0
ii. (Desigualdade de Holder): Sejam a1 , a 2 ,..., a n , b1 , b2 , ..., bn reais
1
positivos e p, q reais positivos tais que p + 1q = 1 . Prove que
1/ p 1 /q

∑  ∑ 
n n n
∑ ai bi   ≤ aip biq
i=1 i=1 i=1

iii. (Desigualdade de Minkowsky): Sejam a1 , a 2 ,..., a n , b1 , b2 ,..., bn reais


positivos e p um real maior que 1. Prove que

  a b  
p
1 1
p p p
. ..   a n b n  ≤  a1p. . . a np   b1p . . . b np
p

Sugestão: Faça ci = ( a i + bi ) p −1 e use o ítem anterior para (ai) e (ci) e para (bi) e (ci).
Referências:

[1] Shklarsky, D. O., Chentzov, N. N. e Yaglom, I. M. The USSR Olympiad Problem Book.
Dover. Toronto, 1993.
[2] Rousseau, C. e Lozansky, E. Winning Solutions. Springer-Verlag, 1996.
[3] Lima, Elon L., Análise Real, vol. 1. IMPA, 1995.