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Azevedo, Elciene.

Orfeu de carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperi-


al Cidade de São Paulo. Campinas, SP, Editora da Unicamp/Centro de Pes-
quisa em História Social da Cultura, 1999. 280p.
Mendonça, Joseli Maria Nunes. Entre a mão e os anéis: a lei dos sexagenários
e os caminhos da abolição no Brasil. Campinas, SP, Editora da Unicamp/
Centro de Pesquisa em História Social da Cultura,, 1999. 417p.
Após concluir Orfeu de carapinha, eu maneceu por mais oito anos (1848-
refleti particularmente sobre duas 1856). Demitido desse trabalho, ele
idéias. Primeiro, a crença, muito di- passou 39 dias na prisão por desaca-
fundida após 1835, de que os escra- tar um oficial que o insultou. Logo
vos levados da Bahia para as amplas depois, encontrou trabalho como es-
regiões cafeicultoras do sul do Brasil crivão e, a seguir como amanuense na
criariam problemas foi confirmada no Secretaria de Polícia da Cidade de São
caso de Luiz Gama. Com muita ironia Paulo, onde trabalhou por doze anos
e ações corajosas como advogado, (1857-1869). De novo ele foi demiti-
Gama criou muitos problemas para do do cargo, retribuição por sua defe-
senhores de escravos e oficiais do Go- sa legal de um escravo fugido e de-
verno dos anos de 1850 até sua morte núncias de um juiz reacionário. Gama
em agosto de 1882. E, segundo, este protestou veementemente a perda de
livro confirma que, realmente, existem seu emprego em uma série de artigos
alguns “Grandes Homens na História”. publicados nos jornais. Desse momen-
Filho de um “fidalgo” português e de to até o final de sua carreira, ganhou
uma africana livre, acusada de envol- dinheiro e sustentou sua família como
vimento nas revoltas de escravos na advogado e jornalista.
Bahia nos anos de 1830, Luiz Pinto Em 1859, Gama publicou seu único
da Gama foi vendido por seu pai como livro, uma coleção de poemas, intitu-
escravo e enviado para o Rio de Ja- lado Primeiras trovas burlescas de
neiro em 1840, aos dez anos de idade. Getulino. O livro representou um
Após uma cansativa viagem pelo in- importante momento na vida de Luiz
terior da Província de São Paulo, du- Gama, marcando sua entrada no
rante a qual nenhum fazendeiro se in- “mundo das letras” da elite e a pri-
teressou em comprar o jovem escravo meira grande oportunidade para este
baiano, Gama terminou na Cidade de ex-escravo expressar suas idéias.
São Paulo. Lá ele trabalhou como es- (p.40) Analisando esta coleção de
cravo doméstico e aprendeu a ler e a poemas, Azevedo coloca a literatura
escrever. Oito anos depois (1848) após no contexto histórico do final da dé-
fugir, Gama aparece como praça da cada de 1850. Gama deixou claro, em
Força Pública de São Paulo, onde per- seus poemas, que ele era um afro-

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brasileiro. Falou da discriminação ra- A loja maçônica América de São Pau-
cial e do modo como a escravidão lo, fundada no final de 1868, também
criou ódio racial entre negros e bran- ofereceu importantes oportunidades
cos no Brasil. Escreveu vividamente para Gama expressar seus pontos de
sobre sua infância, sua mãe, que ele vista políticos. Supostamente uma
conheceu durante seus primeiros oito associação secreta e filantrópica, a
anos de vida, e a rica cultura africana Loja América participou ativa e pu-
que florescia por toda a Cidade de Sal- blicamente do discurso político por
vador. Azevedo nota que “o tom dado pelo menos duas décadas. Formada
por Luiz Gama a seus poemas, longe em sua maioria por homens brancos
de trazer uma imagem lamentativa do ricos, pareceria estranho, à primeira
negro, ligado ao trabalho forçado e à vista que Gama se envolvesse com
vitimização do escravo, conduzia o essa associação. No entanto, ele par-
leitor a um mundo negro dissociado tilhou de “uma preocupação comum
do trabalho compulsório e valorizado de criar instituições que difundissem
em seus aspectos culturais”. (p.66) os ideais de instrução e ‘civilização’
De igual importância para a publica- para os ‘populares’”. (p.95) A Loja
ção de Primeiras trovas foi o envol- América também ajudou Gama em
vimento de Gama no emergente mo- diversos casos judiciais, defendendo
vimento republicano na Cidade de escravos que buscavam sua liberda-
São Paulo. Desiludido com o partido de e fornecendo-lhe o apoio moral de
liberal no final da década de 1860, colegas influentes. Apesar de tais li-
sua infelicidade intensificou-se com gações a homens poderosos, o liber-
a queda do gabinete liberal do Go- to Gama reconheceu os perigos e li-
verno Imperial, em 1868. Logo de- mites de sua posição. “[Ele] mostra-
pois, ele se tornou membro do lado va assim ter plena consciência do seu
radical do Club Radical Paulistano e papel de dependente nas relações que
um colaborador no seu jornal, o Ra- lhe garantiam o destaque e o prestí-
dical Paulistano (fundado em 1869). gio”. (p.99)
Gama quis o fim da monarquia, que Durante a década de1870, Gama tor-
ele considerava incompetente e in- nou-se famoso em todo o Brasil por
compatível com as causas liberais. sua defesa de escravos que tentaram
Fazendeiros conservadores do Parti- conseguir sua liberdade nos tribunais.
do Republicano Paulista, muitos de- Ele ajudou centenas de escravos em
les donos de escravos, sentiram ten- ações de liberdade, argumentando di-
sões por causa da sátira incessante de reitos firmados na Lei do Ventre Li-
Gama, seu apoio público à abolição vre de 1871. Muitas vezes, Gama bus-
e sua presença dentro do partido. cou a Justiça para defender escravos

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querendo comprar liberdade com seus búrdia) estava capitaneando uma
pecúlios. Quando era impossível con- tremenda insurreição de escra-
vos!…
seguir um acordo sobre preço, a Justi-
Se algum dia, porém, os respei-
ça convidava três árbitros para deci- táveis juízes do Brasil esquecidos
di-lo: um representante do senhor, um do respeito que devem à lei, e dos
curador representando o escravo, e imprescindíveis deveres, que
uma terceira pessoa indicada pelo juiz. contraíram perante a moral e a
Em outros casos, Gama alegava que nação, corrompidos pela venali-
dade ou ação deletéria do poder,
os donos tinham separado ilegalmen- abandonando a causa sacrossan-
te escravos de seus cônjuges ou filhos. ta do direito, e, por uma inexalá-
Outros temas importantes que apare- vel aberração, faltarem com a
ceram entre 1871 e 1888 eram acusa- devida justiça com infelizes que
ções de ingênuos (crianças nascidas sofrem escravidão indébita, eu,
por minha própria “ronta” [sic],
depois da lei de 1871) mantidos ile-
sem impetrar o auxílio de pessoa
galmente em cativeiro ou não matri- alguma, e sob a minha única res-
culados, como estipulado na lei. ponsabilidade, aconselharei e
Como propagandista astuto, as his- promoverei, não a insurreição,
tórias sobre Gama e os artigos que que é um crime, mas a “resistên-
ele escreveu apareceram com fre- cia”, que é uma virtude cívica,
como a sanção necessária, para
qüência na primeira página dos mais pôr preceito aos salteadores fidal-
importantes jornais de São Paulo. Sua gos, aos contrabandistas impuros,
popularidade causou ressentimento aos juízes prevaricadores, e aos
em muitas pessoas. Opositores ame- falsos impudicos detentores”.
açaram sua vida, e fazendeiros reaci- (Luiz Gama, “Luiz Gonzaga Pin-
to da Gama,” Correio Paulista-
onários do interior de São Paulo di-
no, 10 nov. 1871; p.131-134 em
famaram seu nome. Como sempre,
Azevedo)
Gama respondeu a seus críticos com
Em um episódio marcante, em 1880,
inteligência e eloqüência.
o famoso liberto jornalista e aboli-
Sei que algumas pessoas desta ci- cionista José do Patrocínio fez um
dade, aproveitando caridosamen-
discurso no Teatro São Luiz, em São
te o ensejo do movimento acadê-
mico, mandaram dizer para a cor- Paulo. Sua denúncia contra proprie-
te, e para o interior da província, tários de escravos ofendeu fazendei-
que isto por aqui, ao peso de ros do interior. Um “agricultor” en-
enormes calamidades, ardia en- corajou seus colegas, em um artigo
tre desastres temerosos, e deso-
publicado em A Província de São
lações horríveis, ateados por
agentes da INTERNACIO-
Paulo, a cancelar suas assinaturas da
NAL!… e que eu (que não deve- Gazeta da Tarde, o jornal abolicio-
ria, por certo, faltar à sinistra bal- nista editado por Patrocínio no Rio

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de Janeiro. O autor acusou Patrocí- tabelecer ligações com membros da
nio de incitar rebeliões de escravos e sociedade estabelecida, ele se alinhou
afirmou que os senhores de escravos aos setores mais progressivos da eli-
sabiam bem como distribuir liberda- te branca paulista, trabalhou incessan-
de aos escravos, pessoas que ele des- temente, muitas vezes sob circunstân-
creveu como “inertes, desprotegidos, cias difíceis, em prol do fim da es-
longe das capitais”. (p.180) cravidão no Brasil. Ganhou fama
Gama respondeu imediatamente. No como advogado defensor dos direi-
mesmo dia (1º de dezembro de 1880), tos dos escravos nos tribunais e como
escreveu um editorial muito duro na um jornalista educado, mas crítico de
Gazeta do Povo. Ele declarou que juízes incompetentes e escravocratas.
Patrocínio merecia o respeito dos Mais importante, ele nunca perdeu de
“homens de bem”. vista suas origens. Constantemente
Em nós até a cor é um defeito, afirmou os direitos dos afro-brasilei-
um vício imperdoável de origem, ros de viver em liberdade e conde-
o estigma de um crime; e vão ao nou o modo como a escravidão des-
ponto de esquecer que esta cor é gastou negros e brancos.
a origem da riqueza de milhares Azevedo começa e termina seu livro
de salteadores, que nos insultam;
com a descrição do cortejo fúnebre de
que esta cor convencional da es-
cravidão, como supõe [sic] os Luiz Gama, em 24 de agosto de 1882.
especuladores, à semelhança da Umas 3.000 pessoas (de uma popula-
terra, ao través da escura super- ção urbana de 40.000) acompanharam
fície, encerra vulcões, onde arde o funeral pelas ruas de São Paulo. “As
o fogo sagrado da liberdade.
ruas da cidade de São Paulo foram
Nós, que falando, escrevendo, e
esmolando, de porta em porta, so- tomadas pelos mais diversos grupos
mos acolhidos com impiedoso sociais que queriam, cada qual a seu
sorriso, pelos bondosos estrangei- modo, prestar sua última homenagem
ros, que convivem neste país, sem ao ilustre cidadão”. (p.266) Entre os
temor da negridão da nossa pele, presentes estavam negros, libertos,
que nos franqueiam a sua bolsa, e
senhores de escravos, intelectuais, jor-
nos prodigalizam o seu óbolo,
para a remissão dos elefantes ne- nalistas e funcionários, inclusive o
gros da lavoura, temos, por certo, vice-presidente da província. Durante
sobejo motivo para enojarmo-nos o enterro, um grupo de afro-brasilei-
dessa parolagem sáfia, indigna da ros tomou o caixão para levá-lo até o
imprensa de um país culto. (p.181)
cemitério. Este ato simbolizou profun-
Muitos atributos capacitaram Luiz damente a importância e a grandeza
Gama a tornar-se um grande homem. de Luiz Gama e seu compromisso com
Reconhecendo a importância de es- a população negra.

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Luiz Gama também aparece no livro Nesse mesmo ano de 1880, uma afri-
Entre a mão e os anéis: a lei dos cana da nação benguela chamada Ge-
sexagenários e os caminhos da aboli- nerosa procurou Gama em São Paulo,
ção no Brasil, de Joseli Maria Nunes depois de fugir do seu senhor em Cam-
Mendonça. Em novembro de 1880, o pinas. Ela havia sido transferida recen-
africano Caetano Congo foi preso em temente da Província do Rio de Janei-
São Paulo por ter fugido de uma fa- ro para Campinas. Tinha 50 anos de
zenda no Município de Campinas. O idade. Mais uma vez, Gama entrou na
escravo explicou que havia fugido por Justiça alegando que Generosa fora
ter sofrido “maus-tratos”. (p.173) Os transportada para o Brasil pelo tráfico
médicos que o examinaram concorda- ilegal. Infelizmente, o juiz decidiu
ram: o corpo dele mostrava sinais de transferí-la para ser julgada em Cam-
castigo. Informado sobre a situação do pinas. Sem um advogado abolicionis-
africano, o advogado Luiz Gama apa- ta defendendo-a. Generosa perdeu no
receu. Ele enviou ao juiz de Direito foro de Campinas e foi devolvida ao
Cível e Criminal de São Paulo um pe- seu novo senhor. Joseli Mendonça es-
dido de habeas corpus. Gama decla- creve que, “com efeito, a ilegalidade
rou que Caetano Congo tinha nascido da escravidão dos africanos introdu-
na costa da África e que sua idade era zidos a partir da proibição do tráfico
de 50 anos, conforme constava na ma- era como um barril de pólvora e o
trícula de 1872 (baseado nos requeri- simples agitar-se da questão poderia
mentos da Lei do Ventre Livre, de causar imensos transtornos aos pro-
1871). O advogado notou, contudo, prietários de escravos”. (p.177) Eu
que sua idade real poderia ser 58 anos, gostaria de saber mais sobre a manei-
visto que “os contrabandistas” envol- ra como as ações de Luiz Gama nesse
vidos no comércio de escravos não im- ano importante de 1880, influencia-
portavam crianças menores de dez ram o movimento abolicionista, não
anos. E declarou ao tribunal que Cae- só em São Paulo, mas também em
tano Congo tinha sido trazido para o outras províncias, como a do Rio de
Brasil em 1832, um ano depois da lei Janeiro e a da Bahia.
de 1831, que tornara ilegal o comér- Essa defesa de Gama representa um
cio transatlântico de escravos. Entre- dos importantes temas no livro de
tanto a Justiça não concordou com a Mendonça. Usando registros da cor-
defesa, e Caetano Congo foi devol- te de Campinas, no interior de São
vido ao seu senhor. Tal iniciativa trou- Paulo, ela mostra que “tanto senho-
xe uma publicidade negativa aos se- res como escravos buscaram nas leis
nhores e deu força ao movimento abo- elementos que lhes possibilitassem
licionista. encaminhar seus projetos próprios”.

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(p.371) Com meticulosa pesquisa, a lei de 1871, a autora aplica muitas das
autora demonstra como as leis de mesmas ferramentas e idéias para a
1871 e de 1885 criaram espaço legal interpretação que ela faz da lei de
onde os escravos podiam agir. Com 1885. Muitos desses casos são com-
a ajuda de advogados como Luiz plicados, o que não é surpresa, por-
Gama e, em algumas instâncias, o que os tribunais conservadores e os
apoio moral de juízes simpatizantes, proprietários quiseram tornar qualquer
escravos desafiaram os interesses dos debate legal em algo complicado para
senhores e conquistaram sua liberda- advogados e escravos também. No
de. Muitos casos demoravam meses entanto, temos exemplos extraordiná-
para serem resolvidos, e isso feria os rios, como os de Gama, mostrados
interesses dos senhores. Embora nem acima, em que os escravos demons-
sempre bem sucedidos, esses casos traram um entendimento impressio-
tinham um profundo impacto nos in- nante das leis e trabalharam junto com
divíduos envolvidos. Não apenas os advogados para ganhar a liberda-
isso, mas outros escravos observavam de. Quando não ganhavam, pelo me-
de perto o que estava acontecendo e nos, criavam problemas sérios. E tudo
entendiam que também podiam ter a isso contribuiu, num amplo sentido,
mesma oportunidade de conseguir li- para mudar o regime escravocrata.
berdade na Justiça. Um segundo grande tema do livro tra-
O método de pesquisa empregando os ta dos debates na Câmara dos Depu-
processos cíveis oferece novas inter- tados a respeito da emancipação.
pretações da abolição no Brasil. Uma prioridade para os deputados,
Octavio Ianni, Décio Freitas, Richard particularmente para aqueles repre-
Graham, Emília Viotti da Costa, sentando regiões escravistas, foi con-
Robert Conrad e outros têm enfatiza- trolar a passagem para a liberdade.
do que a Lei dos Sexagenários, de Eles reconheciam, em meados de
1885, que deu liberdade aos escravos 1880, que a abolição era inevitável,
com mais de 60 anos, foi um direito mas quiseram garantir que os ex-es-
dado pelo Estado. A lei supostamente cravos permaneceriam dependentes
garantia que a emancipação ocorreria de seus antigos senhores. Muitos de-
sem distúrbios e refletia os interesses putados manifestaram atitudes racis-
da classe de fazendeiros. Usando os tas nas suas declarações e muitos ti-
processos judiciais, contudo, temos nham pouca confiança na capacida-
uma maneira diferente de examinar a de de discernimento dos afro-brasi-
lei, e conseqüentemente, uma interpre- leiros. Eles afirmaram que os liber-
tação diferente. Usando como chave tos não estariam preparados para a li-
a análise de Sidney Chalhoub sobre a berdade e ainda precisariam da pro-

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teção de seus antigos senhores. Mes- O Projeto Saraiva fez várias altera-
mo eminentes abolicionistas concor- ções na Lei dos Sexagenários, que afi-
davam com essa opinião. Rui Barbo- nal foi aproveitada. Os donos dos es-
sa descreveu o liberto como indiví- cravos sexagenários alforriados rece-
duo cujo espírito, “’imbecilizado, beriam indenização, “na forma de
aviltado, ou desvairado pelo cativei- prestação de serviços por três anos
ro,’ deveria merecer a proteção e a ou até completarem 65 anos de ida-
tutela para que aprendesse a viver em de”. (p.34) Nas palavras do deputa-
liberdade.” (p.77) do Almeida Oliveira, o Plano Sarai-
Em 15 de julho de 1884, o deputado va não emanciparia “de chofre”; além
liberal Rodolfo Dantas apresentou à disso, “fixo o liberto”. Como notou a
Câmara um plano que oferecia liber- autora do livro, isso foi da maior im-
dade imediata para todos os escravos portância no ano de 1885, porque
com mais de sessenta anos, sem for- confirmou, em um sentido legal, o
necer indenização a seus antigos direito dos fazendeiros de manter a
senhores.O plano de Dantas permitia propriedade escrava e de controlar
aos ex-escravos o direito de ausentar- seus ex-escravos. O Plano Saraiva
se da companhia de seus antigos se- também empregou rendas cobradas
nhores. Imediatamente recebeu duras pelo Estado para subvencionar o
críticas por parte dos conservadores e transporte dos imigrantes. Além dis-
de vários liberais, o que resultou na so, libertos sexagenários foram obri-
demissão do.Ministério Dantas, por D. gados a residir por cinco anos no
Pedro II. Em 12 de maio de 1885, o município onde foram alforriados.
novo “Projeto sobre a Emancipação Nas palavras do projeto, aquele que
Gradual do Elemento Servil” apare- se “ausentar de seu domicílio será
ceu sob os auspícios do novo chefe do considerado vagabundo, e apreendi-
gabinete, Senador José Antonio Sarai- do pela polícia para ser empregado
va. Foi aprovado em agosto como a em trabalhos públicos ou colônias
Lei dos Sexagenários e Saraiva agrícolas”. (p.109) Isso mostrava cla-
imediatemente pediu sua demissão. É ramente o preconceito entre os dele-
obvio que houve muita política nes- gados contra os negros libertos. Tam-
ses dias. Para acalmar a direita, fazen- bém mostrava mais uma prioridade:
deiros e deputados que não queriam forçar os negros libertos a continua-
uma abolição “em massa”, Pedro II rem trabalhando na lavoura e nas fa-
escolheu como chefe do Ministério um zendas por pouco dinheiro.
“velho fazendeiro-político pró-escra- Ao final, como escreveu Robert
vatura”, o conservador baiano Barão Conrad, dos 90.713 escravos com
de Cotegipe. mais de 60 anos em 1885, somente

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18.946 foram registrados como exemplo, nos documentos da Justiça.
sexagénarios em 1887. Os números Os dois livros têm erros editoriais. No
parecem substanciar as interpretações caso do livro de Mendonça, existem
de muitos historiadores de que a Lei erros ortográficos (Mississippi, Holt,
dos Sexagenários fez pouco. O fun- “Slaves into Free Men”) e nos nomes
do de emancipação, parte da legisla- dos autores (na bibliografia, Elkins e
ção, não funcionou bem. Muitos se- Toplin). Há referências bibliográficas
nhores não cumpriram a lei. Mas os incompletas, por exemplo Guimarães,
números, ao contrário, como mostra As classes perigosas (p.383 e p.219,
a historiografia da última década, não n.119). Em Orfeu de carapinha exis-
dizem tudo. Em verdade, neste caso, tem, pelo menos, duas datas incorre-
dizem pouco. Muito mais importan- tas: (a data correta da publicação de
te foi a maneira como escravos e ad- uma estimativa da população escrava
vogados usaram as leis (de 1871 e é 1829, e não 1929 (p.73, n.73) e pa-
1885) para defenderem seus interes- rece que a data da publicação do arti-
ses nos tribunais. Como enfatiza go no jornal A Provincia de São Pau-
Mendonça, “a lei de 1885 introduzia lo é 15 de dezembro de 1880, e não
a possibilidade de intervenção direta 15 de dezembro de 1876 (p.182, n.79).
de terceiros que causava enormes Estes dois livros são os primeiros de
constrangimentos aos planos senho- uma série chamada “Coleção Várias
riais, ao gradualismo [da abolição] tal Histórias”, editada pelo CECULT-
como o concebiam”. (p.371) Centro de Pesquisa em História So-
Os dois livros aqui comentados refle- cial da Cultura, da UNICAMP. Os
tem a orientação da “Escola de Cam- editores se propõem a publicar livros
pinas”. São trabalhos de primeira or- “ancorados em sólidas pesquisas
dem, ambos originalmente disserta- empíricas” que “descobrem novos
ções de Mestrado em História na problemas de investigação a partir
UNICAMP. As autoras empregaram das perspectivas abertas pela histó-
muitas fontes e pensam muito bem ria social”. Para mim, isso aconteceu.
sobre as palavras, frases e idéias con- Aprendi muitíssimo com estes dois
tidas nos documentos. Elas mostram livros sobre assuntos e pessoas que
claramente as interpretações correntes me impressionaram por décadas. Es-
na historiografia e o modo como suas tou aguardando os próximos livros da
pesquisas se inserem nesse cenário. coleção.
Estamos sempre diante de um pano- Dale Graden
rama global e comparativo, e depois University of Idaho
de uma “microanálise” baseada, por

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