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24/03/2005 - Imunidades do Presidente da República

Bom dia,

Na semana passada concluí as respostas às dúvidas dos alunos do


meu curso on-line de Direito Constitucional, enviadas para o Fórum
criado para esse fim – uma excelente oportunidade que tive para
trocar idéias e verificar quais são as maiores dúvidas dos candidatos
por esse Brasil afora. Dentre as centenas de dúvidas enviadas pelos
alunos, algumas são muitíssimo interessantes, como a seguinte:

“Professor, se o Presidente da República cometer um desatino e for


pego em flagrante matando a facadas o jardineiro de sua casa
particular, ainda assim não poderá ser preso em flagrante? E é
também correto afirmar que ele não responderá por esse crime
durante a vigência do mandato?”

A resposta é afirmativa para as duas indagações: o Presidente não


será preso em flagrante, tampouco responderá por essa conduta na
vigência do seu mandato.

Nessa situação, a conduta do Presidente da República está protegida


por duas imunidades constitucionais:

a) a imunidade quanto às prisões cautelares (CF, art. 86, § 3º:


“Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações
comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão”);

b) a imunidade quanto aos atos estranhos ao exercício do mandato


(CF, art. 86, § 4º: “O Presidente da República, na vigência de seu
mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao
exercício de suas funções”).

A primeira imunidade – CF, art. 86, § 3º – impede que o Presidente


da República seja vítima de prisão cautelar, como em flagrante, na
situação hipotética apresentada. Para que o Presidente da República
seja preso, seja qual for o delito por ele praticado, é indispensável a
existência de uma sentença de mérito. Se não houver sentença
meritória, por mais grave que seja a conduta do Presidente da
República não poderá ele ser preso, não se aplicando, em relação ao
Presidente da República, o disposto no art. 5º, LXI, da Constituição
Federal.

A segunda imunidade – CF, art. 86, § 4º - estabelece uma


irresponsabilidade do Presidente da República, na vigência do seu
mandato, por atos estranhos ao exercício de suas funções
presidenciais. Se o Presidente da República cometer um crime
enquanto mero cidadão, sem nenhuma conexão com o exercício do
mandato, como na situação hipotética apresentada (morte do
jardineiro), não poderá ser responsabilizado por essa conduta na
vigência do mandato, isto é, ele não responderá criminalmente por
esse delito enquanto perdurar o seu mandato (ou mandatos, se for o
caso, haja vista que é permitida uma reeleição do Presidente da
República). Evidentemente que o Presidente da República responderá
por esse crime, mas somente quando terminar o seu mandato (ou
mandatos, se for o caso), perante a Justiça Comum – e não mais
perante o Supremo Tribunal Federal, por força da Lei nº 10.628, de
24/12/2002.

Finalmente, vale a pena lembrar que, segundo a jurisprudência do


Supremo Tribunal Federal, essas duas imunidades – CF, art. 86, §§ 3º
e 4º – são exclusivas do Presidente da República, não podendo ser
estendidas ao Governador ou Prefeito.

Um forte abraço, boa páscoa a todos – e até breve.

Vicente Paulo