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A TeoriaRealistaeoPoder

LuizCarlosFumiakiMiwa

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ATeoriaRealistaeoPoder

LuizCarlosFumiakiMiwa 1

Opropósitodeste paper é,emumprimeiromomento,apresentarasprincipaisideias contidasnaTeoriaRealistadasRelaçõesInternacionais,bemcomooconceitodepoder,seu principalobjetodeestudo.AanáliseébaseadanostextosdeDoughertyePfaltzgraff,emduas

edições,datadasde1990e2003.Emummomentoposterior,éexpostaumavisãoprospectiva

sobreasRelaçõesInternacionaisrumoaoterceiromilênio.AlémdeDoughertyePfaltzgraff, foramconsultadasobrasdeoutrosautorescitadosàreferência,constanteaofinaldestetrabalho. EntreofinaldoséculoXVIeaRevoluçãoIndustrial,nasegundametadedoséculo XVIII,aEuropaOcidental,principalmenteInglaterraeFrança,protagonizam,segundo Galbraith 1 ,umfortalecimentoprogressivodoEstado-nação.Opoderfeudal,comsuafonte alicerçadanapropriedadedeterrasenapersonalidadedeseusenhor,traduzidosnopoder coercitivo,assimcomoemfontescompensatóriasresultantesdadisposiçãodebensenaimagem dodireitodivino,contribuiuparaessecenário. Galbraith formulaquequantomaioracapacidadeparaimporumavontadeeatingiro objetivoalmejado,maioropoder.Ajuíza,ainda,quetalpoderfazusodetrêsinstrumentos, geradospormeiodetrêsfontes,ouinstituições,oucaracterísticas–asquaisconcedemodireito aousodopoder.Classificaosinstrumentosem:coercitivooucondigno,compensatórioe condicionado.Enquantoasfontessãoenumeradascomosendo:apersonalidade,apropriedade eaorganização. Apropriedadeeariquezadequedispunhamaaristocraciaeosoberano,combinadosà personalidade(baseadanaimagemdopoderdivinoereligioso)eàorganização,trouxeo condicionamento,naformadeconvicçãoedecompensações. Quandocontrariadososinteressessociais,surgiaocastigo,entendidocomomerecido, pelosindivíduosconstituintesdessasociedade. Oconjuntodessesfatores,muitasvezes,veladoseimperceptíveis,constituíaaforçados poderes:político,econômico,empresarialemilitar. Atransição,doperíodofeudalparaaeraindustrial,ocasionoumudançasefezcomque doisprincípiossurgissem,conformeMingst 2 ,comoconsequênciadasrevoluçõesamericanae francesa:asujeiçãodogovernoabsolutistaaoslimitesimpostospelohomem 3 eaideiade nacionalismo,naqualosindivíduosestãoinseridosnasmassaseidentificam-secomseupassado comum,sualíngua,seuscostumesepráticas. NasegundametadedoséculoXIX,aatençãodomundo“civilizado”passouafocar-se nosprocessosdeindustrialização.AGrã-Bretanhaeraalídereganhavadosrivaisnaprodução

1 DoutorandoemCiênciaPolíticapelaUniversidadeFederalFluminense,PhDemCiências

AeroespaciaispelaUniversidadedaForçaAérea.

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decarvão,ferroeaço,enaexportaçãodebensmanufaturados.Alémdisso,tornou-seafontede

capitalfinanceiro,paraocontinentee,noséculoXX,paraomundo.Aindustrializaçãopropagou-

sepraticamenteportodasasáreasdaEuropaOcidentalàmedidaqueasmassasacorriamàs cidades,eempresárioseintermediáriosdisputavamvantagenseconômicas. Comisso,aRevoluçãoIndustrialforneceuaosEstadoseuropeusacapacidademilitare econômicaparadedicar-seàexpansãoterritorial.AlgunsdessesEstadoserammotivadospor ganhoseconômicos,razãopelaqualprocuravamnovosmercadosexternosparaosbens manufaturadoseobtinhamemtrocamatérias-primasparaalimentarseucrescimentoindustrial; sustentadospelasinovaçõestecnológicasquetornaramaexploraçãooceânicamaissegura. 4 Infere-se,ainda,segundoWeber 5 ,queopoderpassaaserpercebidocomoacapacidade queumindivíduoouumanaçãoadquireparaimporsuavontadeaoutros,podendoinfluenciar nocomportamentodessesoutros. Ecomisso,segundoChomsky 6 ,osEstadospassam,cadavezmais,aserveículosque operampelosinteressesdasestruturasinternasdepoder,particularesdesuassociedades. Mingstafirmaque,emboraexistammuitasteoriasqueversemsobreasRelações Internacionais,pode-seconsiderarasmaisproeminentescomosendooliberalismo,orealismo eneorrealismoeasperspectivasradicais,cujasorigenssãoencontradasnomarxismo. ConformeDoughertyePfaltzgraff 7 ,ateoriarealistadominouoestudodasrelações internacionais,principalmente,apartirdofinaldaSegundaGuerraMundialatéoinícioda

décadade1980.Alvodeintensodebate,aquelateoriasurgiu,aomesmotempo,comoumacrítica

ecomoumaalternativaàteoriautópica 8 . Assimcomoateoriautópica,ateoriarealistaénormativaepoliticamenteorientada, desenhadaapartirdahistóriadosistemaeuropeu,comseubalançodepoderclássico.São pressupostosdateoriarealistaclássica:

osistemainternacionalfundadonosEstadoscomoatorescentrais; apolíticainternacionalemumambientedelutapelopoder,anárquico,ondeosEstados dependemdesuascapacidadesparasuasobrevivência; apartirdoprincípiodasoberania,emqueaessênciaéaigualdadeentreosEstados 9 ,instala-se orelacionamentoentreatorescujacapacidadeemmaioroumenordimensãoestabelecemaior oumenorpossibilidadedeatuação; apolíticainternaoudomésticatratadaseparadamentedapolíticaexterna,entreasunidades;os Estadoscomoatoresracionaiseoprocessodecisóriobaseadonosinteressesnacionais;e, opodervistocomoconceitomaisimportantenaexplicaçãoeprevisãodacondutadosEstados. Poderéumadaspalavrasmaisfrequentementeutilizadasnoestudodaciênciapolítica, especialmente nas relações internacionais.Afalta de instituições adequadas em nível internacionaledeprocedimentospararesolverconflitos,comparadosàquelesexistentesna maioriadossistemaspolíticosdomésticos,fazcomqueoelementopoder,sejamaisóbvio,mais sensível,noambienteexternoquenoníveldoméstico.Opoderpodeservistocomoahabilidade

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emsemoverumindivíduoouumacoletividadehumanaemdeterminadadireçãodesejada,por meiodemecanismoscomo:persuasão,compra,permutaoucoerção. EmboraosEstadosformemaliançasecoligações,dependemapenasdeseuspróprios meios,oquefazcomqueelestracemestratégiasparagarantiremasuasobrevivência. DeacordocomCharlesP.Kindleberger 10 ,opoderdeveservistoemseucontexto econômicoepolítico.Eledefinepodercomoacapacidadedeutilizaraforçaeficientemente, somadaàcapacidadedeseuusoefetivo,paradarsuporteaoalcancedealgumobjetivoparticular. Demaneirasemelhante,prestígioéorespeitoqueépagoaopoder,enquantoinfluênciaéa capacidadedeafetarasdecisõesdeoutros.Assim,ousoeficientedopoderpodeserconceituado, entreoutrasformas,comoacapacidadedeinfluenciaraeconomiadeumanaçãoatravésda adaptabilidadeedaflexibilidade.AquelesEstadosououtrasentidadesmaishábeisemmudare seajustarsãomaispropensosapossuirpoderefazermelhorusodeleemsuporteaobjetivos postos.

Deacordocomateoriarealista,apolíticaéderivadadepráticapolíticaedaexperiência histórica.Orealismoprocuraconciliarointeressenacionalcomideaissupranacionais,embora nateoriarealistaoprimeirotenhaprimaziasobreoúltimo. Comoantecedentesdorealismo,DougherthyePfaltzgraff 11 elencamalgunsautores:o primeirodeleséTucídides,queanalisaaguerracomoinevitávelemrazãodocrescimentodo poderatenienseeomedoqueissocausouemEsparta.Aolançareuconceitodaimportânciado poder,juntocomapropensãodosEstadosemformaraliançascompetitivas,Tucídidesécolocado àescolarealista. ConformeTucídides 12 ,omedodeorivalsetornarmaispoderosopodecausaraguerrae fortaleceaideiadequeosconflitosparecemocorrerquandoumEstadodesafiador,insatisfeito, começaaatingironíveldecapacidadesdocompetidor. AligaçãodeMaquiavelàteoriarealistadásepelaênfasequeopensadordispensaàlei, ouàsnormas,necessáriasparaquepadrõesmorais,diferentesdaquelesdosindivíduos,sejam adotadoseasseguraremasobrevivênciadoEstado.Suapreocupaçãocomopoder,suaconcepção dequeapolíticaécaracterizadapelochoquedeinteressesesuavisãopessimistadanatureza humanafazemdeleumprecursordosteóricosrealistas. Hobbesviaopodercomocrucialparaocomportamentohumano,umavezqueohomem temumdesejoperpétuoeincansávelporpoder.Previa,quesemumasoberaniaforte,asunidades seriampalcodecaosedeviolência,pornãohaverpodersuficienteparagarantiraprópria segurançadoshomens,osquaisdeveriamcontarcomsuasprópriasforçasparaassegurarem-se contratodososoutroshomens. Rousseau 13 asseveraqueohomememsuanaturezaépacíficoetemente,porém,ao ingressarnavidaemsociedade,oindivíduoparteparaahostilidade,deondesepodededuzir que,apóstornar-secidadão,umapartedosindivíduosconverte-seemsoldados. HegelacreditavaqueomaisaltodeverdoEstadoresideemsuaprópriapreservação.

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DesdequeosEstadosserelacionamunscomoutros,comoentidadesautônomasequeavalidade

deameaçasdependedevontadesparticularesobem-estarpróprioéoobjetivomaiorquegoverna

arelaçãodeumEstadocomosdemais.

ParaWeber,assimcomoparaosrealistasqueosucederam,aprincipalcaracterísticada

políticaéalutaporpoder.Oelementopoderdavidapolíticaéespecialmenteevidentenonível

internacionalporquetodaestruturapolíticapreferetervizinhosfracosafortes.Emsuma,os

teóricosrealistasassumemfatorescomogeografia,demografia,recursosegeopolítica,alémda

naturezadocomportamentohumanocomoformadoresdacondutainternacional.

Realismonoséculovinte.Ateoriadasrelaçõesinternacionais. 14

Em1933,FrederickL.Schumanafirmaqueemumsistemainternacionalsemum

governocomum,cadaunidadenecessariamenteprocurasegurançapelacrençaemseupróprio

poderevêcominquietaçãoopoderdeseuvizinho.

ReinholdNiebuhrvêopodernacionalcomoaprojeçãodavontadedepoderindividual.

Desdequeavontadedoserhumanodevivertranscendeumdesejodeassegurarasobrevivência

física,surgeaprocurapelasegurançacontraosperigosdanaturezaedahistória,atravésdo

aumentodopoderindividualecoletivo.Aocriticarosproponentesdogovernomundial,Niebuhr

sugerequeateoriapolíticaderivadapráticapolítica:osgovernosnãopodemcriarcomunidades

pelasimplesrazãoqueogovernonãoéprimariamenteaautoridadedaleinemaautoridadeda

força,masaautoridadedacomunidade.Leissãoobedecidasporqueacomunidadeasaceita

comoumacorrespondênciaàsuaconcepçãodejustiça.

Emboraacreditequeoconflitoéinerenteaogrupointernoeàsrelaçõesinternacionais,

NiebuhrnãoconcordaqueohomemdeEstadoéamoral.Elesugere,aoinvésdisso,queo

realismodevesertemperadopelamoralidade,queasnaçõesdevemusarseupodercomo

propósitodefazerdeleuminstrumentodejustiça.Alémdomais,elecriticaaquelesrealistas

queenfatizamointeressenacional,porqueassimcomononívelnacional,nonívelindividual,

oegotismo(monopóliodaatenção)nãoéacuraconvenienteparaumidealismoabstratoe

pretensioso.Desdequecadanaçãointerpretajustiçaporsuaprópriaperspectiva,maisqueaquela

deumEstadocompetidor,issoconduzoshomensdeEstadoaestruturaremsuaspolíticas

baseadasnointeressenacional.

NicholasJ.Spykmanafirmaquesomenteaquelascondiçõesquecaracterizamrelações

nointeriordosEstadosduranteascrisesequebramaautoridadecentralsãonormaisparaas

relaçõesentreEstadosnosistemainternacional.OsEstadosexistemporqueelessãofortesou

têmoutrosEstadosqueosprotegem.Spykmanvêprocessosbásicosnosistemainternacional,

assimcomonosagrupamentossociais:cooperação,acomodaçãoeoposição.Emrazãodopoder

serahabilidadeemfazerguerra,osEstadostêmsempreenfatizadooestamentomilitar.Implícito

emseupensamentoestáabuscadeobjetivosnacionaislimitados.Elerelataaprocurade

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interessesnacionaislimitadosparaequilibraropodereosconceitosgeopolíticos. HansJ.Morgenthaudefineapolíticainternacionalcomoumalutaporpoder,aqual enfatizaocontrolehumanosobrementeseaçõesdeoutroshomens 15 . ParaMorgenthau,acomplexidadedosassuntosinternacionaistornaimpossíveissoluções simpleseprevisõesproféticas,umavezquedeve-selevaremconsideraçãodiferentestendências epotencialidadesinerentesàsdiversassituações.Nessecontexto,éoEstadoquedefineo interessenacional,eestepodesertraduzidoemtermosdepoder. Eleestabeleceseisprincípiosdateoriarealista.Primeiro,sugerequeosrelacionamentos políticossãogovernadosporregrasobjetivasdirecionadaspelanaturezahumana.Desdeque essasregrassãoinsensíveisapreferências,oshomensasdesafiarãosomenteemcasoderisco defracasso.Seessasregrasnãopodemsermudadas,Morgenthauafirmaqueasociedadepode seraprimoradapeloentendimentodasleisquegovernamasociedadee,então,combasenesse conhecimento,estabelecerapolíticapública. Segundo,MorgenthauasseguraqueoshomensdeEstadopensameagememtermosde interesses,definidoscomopoder. Terceiro,Morgenthaureconhecequeosignificadodeinteressedefinidocomopoderé instável.Embora,emummundoemqueasnaçõessoberanasvivemporpoder,todasasnações devemconsiderarasobrevivênciacomooobjetivomínimoparaapolíticaexterna,oqueas compeleaprotegersuaidentidadefísica,políticaeculturalcontrainvasãoedomínioporoutras nações.Ointeresse,então,éaessênciadapolíticaeasnaçõesignoramointeressenacional somentesoboriscodedestruição. Quarto,Morgenthauafirmaqueosprincípiosmoraisuniversaisnãopodemseraplicados paraaçõesdosEstadosemsuaabstração,formulaçãouniversal,masqueelesdevemserfiltrados atravésdecircunstânciasconcretasdetempoelugar. Quinto,Morgenthauasseveraqueorealismopolíticonãoidentificaasaspiraçõesmorais deumanação,emparticular,comasleismoraisquegovernamouniverso. Sexto,Morgenthaurealçaaautonomiadaesferapolítica.Açõespolíticasdevemser julgadasporcritériospolíticos.Umapolíticabuscatantomanterpoder,paraaumentarpoderou parademonstrarpoder. Morgenthauafirmaqueparaalcançarobjetivosimperialistas,osEstadosdevemrecorrer àforçamilitarouameiosculturaiseeconômicosumavezqueapreponderâncialocal, continentaloumundialéoobjetivodopoderimperialista.Issopodeocorrer,inclusiveatravés deumapolíticadeprestígio,quandoumanaçãoganhaumareputaçãodepodertamanha,queo realusodopoder,nosentidodeforça,torna-sedesnecessário. Morgenthauviaoequilíbriodepodercomoamaisefetivatécnicadegerenciamentode poderemumsistemainternacionalbaseadonarelaçãocompetitivaentreEstados.Porém,afirma quenãoéoequilíbriodepoder,masoconsensointernacionalsobreoqualeleéconstituído, quepreservaapazinternacional.

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Morgenthauacreditaqueadiplomaciadeveencontrarquatrocondições,casodesejeser empregadacomotécnicaefetivaparagerenciarpoder:serprivadadoespíritodeluta;definiros objetivosdepolíticaexterna,emtermosdeinteressenacional,esustentadascomopoder adequado;desenvolverumavisãodapolíticaexteriordopontodevistadeoutrasnações;e,ter odesejodesecomprometercomquestõesquenãosãovitaisaelas(nações).Morgenthau conceituaqueoscomponentesqueinfluenciamnopoderdeumanaçãopodemserdivididosem doisgruposdeelementosdistintos:aquelesquesãorelativamenteestáveiseaquelesquesão sujeitosaconstantesmodificações. ArnoldWolfersargumentaquepoderéahabilidadedemoveroutrosouconduzi-losa fazeroquesequerqueelesfaçam.Alémdisso,frisaaimportânciadadistinçãoentrepodere influência,oprimeirosignificaahabilidadeemmoveroutrospelaameaçaoupelaimposição deprivações,easegunda,significaahabilidadedefazerisso,porintermédiodepromessasou garantiasdebenefícios.ComoofocodosestudosserocomportamentodosEstados,como concentração de seres humanos, suas atitudes (dos Estados) repousam sobre reações psicológicas.Nessesentido,delineiatrêsramosbásicosdosobjetivosdapolíticaexterna:

extensãonacional,preservaçãonacionaleabnegaçãonacional,assimcomosolidariedade nacional,legalidadeoupaz.Defendequeoaumentodainterdependênciainternacionalcontribui paraqueasnaçõesatinjamobjetivosnacionaisemantenhamsuapreservação. Ocálculodostomadoresdedecisãoquantoaosinteressesnacionaisébaseadoemuma hierarquiadevaloresdesdeasnecessidadesnapolíticainternacionalatéasesferasdevida, muitasvezes,atravessandooslimitesdamoralidade.SeumhomemdeEstadodecidequeos perigosparaasegurançadeseupaíssãotãograndesquesefaznecessárioumcursodeação quedevelevaràguerra 16 ,elecolocaumaltovaloremjogo,visandoàsegurançanacional.

DeacordocomDougherthyePfaltzgraff(1990),omodelodeMorgenthauéderivado

largamentedeumcontextoeuropeu,aopassoqueodeGeorgeFrostKennanébaseadona

diplomaciaamericanade1776a1812.Kennanobservaqueosobjetivosamericanosforam

fixados,limitadosedestituídosdepretensõesdebenevolênciainternacionalouassunçõesde

superioridademoralouinferioridadesobrepartedeumanaçãooudeoutra.

Osprincípiosmoraistêmseulugarnocoraçãodoindivíduonamodelagemdesuaprópria

conduta,secomoumcidadãooucomoumgovernooficial.Quandoocomportamentoindividual

passapelamáquinadaorganizaçãopolíticaeune-secomaquelademilhõesdeoutrosindivíduos

paraencontrarsuaexpressãonasaçõesdegoverno,entãoissogeraumatransformaçãoeos

mesmosconceitosmoraispassamanãoserrelevantes.

Kennandesaprovaoconceitoqueosnegóciosinternacionaisconduzemumanaçãoa

considerarseusprópriospropósitosmoraiseaquelesdeseusoponentesimorais.Portanto,a

perseguiçãoaprincípiosmoraiséincompatívelcomaperseguiçãodeobjetivoslimitadosda

políticaexterna.Emsuaopinião,napolíticaexterna,aopiniãopúblicanãopodeexercerum

papelsimilaraopapeldesempenhadonapolíticanacional,desdequeosassuntosinternacionais

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sãoumaformaderelaçãoentregovernosenãoentrepessoas.Damesmaformaquenãohá relacionamentos,entreindivíduos,descomplicados,nãohárelacionamentosentreEstados soberanossemesseselementosdeantagonismoemseusaspectosdecompetição. AssimcomoMorgenthau,Kennanatribuiàdiplomaciaumpapelmaiornamitigação dosconflitosinternacionais,emboraelesejacríticoquantoàdifusãonousodacúpula diplomáticanoséculoXXporqueissoconduzàimprecisãonodiscursoenosacordos internacionais,tornadifícilaconduçãodenegociaçõesdelicadasnaesferaprivada,levanta expectativas sem garantias na opinião pública e reduz a efetividade de embaixadores profissionaisediplomatas,cujoconhecimento,treinamentoetemperamentooscapacitammais completamente,queoslíderespolíticosdemocráticos,paralidaremcomtemascomplexosna políticaexterna. Kennanbaseiaseurealismoemconceitosgeopolíticoseassumequeaforçamilitarem escala,capazdeatingirosEstadosUnidos,podesermobilizadasomenteempoucaspartesdo mundo,asaber,naquelasregiõesondeummaiorpoderindustrialécombinadocomgrandes reservasderecursoshumanoseducadosehabilitadostecnicamente. NaconcepçãodeKennansobreapolíticainternacional,opoderédifícildemedirpor causadadificuldadeeminferirsobreasintençõesecapacidadesdosatores.Ascomparações numéricaspodemnãorefletirasvariáveis:tudodependedotempo,dolugar,dopropósitoeda maneiracomo,paraque,eemqueasarmas 17 ouunidadessãoempregadas. Kennanvêasforçasarmadascomonãoapropriadas,senãoirrelevantes,paraamaioria dasquestõesqueosEstadosUnidosenfrentamnoséculoXX–aorganizaçãodeumasociedade global,asdificuldadesparaalimentarapopulaçãoeosproblemasambientais. HenryKissingeracreditaqueosucessonasciênciasnaturaisdependedaseleçãode experiênciascruciaiseparaaciênciapolítica,emassuntosinternacionais,aseleçãodeum

períodoécrucial,portanto,seusestudosenvolvemoperíodode1812a1822.Aoestudaresse

período,Kissingerpostulaqueapazemergecomooresultadodeumaestabilidade,contrastada aumsistemainternacionalrevolucionário.Eleafirmaqueaestabilidaderesultanãodeuma buscapelapaz,masdeumalegitimação 18 geralaceita.AdiplomaciaédefinidaporKissinger comooajustamentodediferençaspelanegociação,oqueépossívelsomenteemumsistema internacionalondealegitimidadeéobtida. Arestauração de uma ordem estável depende do desejo dos mantenedores da legitimidadeemnegociarcomumaforçarevolucionáriaenquantosepreparamparautilizaro podermilitar;nahabilidadeemevitaradeflagraçãodaguerratotal,desdequeoconflitopossa ameaçaraestruturainternacionaleo status quo queaspotênciasdesejampreservar;e,a capacidadedasunidadesnacionaisdeutilizarmeioslimitadosparaadquiriremobjetivos limitados. Nenhumpoderécompelidoarender-seincondicionalmente,epotênciasderrotadasem guerraslimitadasnãosãoeliminadasdosistemainternacional.Portanto,aslimitaçõescolocadas

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sobremeioseobjetivostornampossívelarestauraçãodoequilíbriodepoderentrevitoriosose derrotados. KissingerdefendequeosEstadosUnidospossuamumaforçaconvencionaldegrande escala,bemcomoarmasnuclearestáticas.Elasdevemserconjugadasàdiplomacia,aqual mostraqueaguerratotal 19 nãoéaúnicarespostaparaaagressãoequeexisteumavontadeem negociar.Defende,ainda,aflexibilidade,característicadadiplomacianorte-americana,bem comoosigilocomquesuasaçõesdevamserdesenvolvidas 20 . Osescritoresrealistas,incluídoKissinger,têmbuscadosepararapolíticadomésticada políticaexterna.Kissingernãoalmejatransformarasestruturaspolíticasdomésticascomuma crençaqueossistemaspolíticosdemocráticoseramumpré-requisitoparaummundopacífico, emboraacreditasseque,paraasrelaçõesinternacionais,aestruturapolíticadomésticados Estadoséumelementochave.Pordefinição,governoscomumaestruturapolíticadoméstica estávelnãorecorremapolíticasexternasrevolucionáriasouaventureiras.Poroutrolado, sistemasrevolucionárioscontêmatoresquecontrastamcomosdemais,emsuasestruturas políticasdomésticas. Robert Strausz-Hupé enfatiza a relação entre poder e valores, entre poder e a transformaçãonosistemainternacional,poracreditarqueopoderguardaasociedadecontraa anarquia.Nomundomoderno,opoderévistocomoamaisimportantedasestruturas organizacionaiscomcamadasintermediáriasdedetentoresdepoder.Porconsequência,a relevânciadocrescimentodaforçafísicadopodertemsidoressaltada. Asescolhasdostomadoresdedecisãodependemdeseusgrausdemotivaçãoparaatingir umobjetivoparticular,dotempodisponívelparaseualcance,docusto,doriscoedaextensão comqueumobjetivoconflitacomoutrosobjetivos.Quatrotécnicasbásicasestãodisponíveis paramoldarumcomportamentodooponente:evolução(agradualtransformaçãodaintenção dooponenteoudaclassedominante),revoluçãodecima,revoluçãodebaixoeaguerra. Hupéépreocupadocomalocalizaçãogeográfica,recursoshumanos,bemcomo proficiênciacientíficaetecnológica,psicologianacionaleinstituiçõespolíticascomoelementos dopodernacional.Defendequetamanhoeestruturadapopulaçãosãomensuraçõesvitaisde podernacional.

RaymondAron[1904-1983],filósofosocialfrancês,nãoseencaixafacilmentena

categoriadosteóricosinternacionaisrealistas.Aronengaja-seemumaanálisedasrelações internacionaisbaseadaem:teoria,sociologia,históriaepraxeologia 21 .Oqueelechamateoria correspondeaorganizaçãodedados,seleçãodeproblemasevariáveis.Suaconceitualização incluiodesenvolvimentodeproposiçõesarespeitodadiplomaciaeestratégia,anaturezado poder,noçõesdeequilíbrioemodelosdesistemasinternacionaismultipolaresebipolarese sistemashomogêneoseheterogêneos. Aronsededicaaproblemasderelaçõesespaciais,população,recursoseasorigensda guerra,bemcomooqueeledenominaanação,acivilizaçãoeahumanidadecomocoletivos

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queafetamcondutasnonívelinternacional.

DeacordocomAron,asrelaçõesinternacionaisconsistemderelaçõesentreasunidades

políticasparaquemomundoédividido.Oprincipalobjetivodecadaunidadeéassegurara

própriasegurançae,nofundo,suasobrevivência.Alémdomais,acondutadasnaçõescom

relaçãoàsdemaiséoprodutonãosomentedeseupoderrelativo,mastambémdeideiase

emoçõesqueinfluenciamasaçõesdostomadoresdedecisão.

Lesystèmeinterétatiqueestunsystèmedanslequels’intègrentlesÉtats, chacund’euxsurveillantlesautresafind’assurersasécurite;étatiquepuisque laguerreconstituenonumrapportentreindividus,maisunrapportentre États. 22 .

Ambosossistemas,bipolaremultipolares,contêmmecanismosdeequilíbrio.Nesse níveldeabstração,oequilíbrioconsistedatendênciaencontradatambémemoutrasteorias,de umEstadooucombinaçãodeEstadosparatentarreprimirumEstadooucoalizãodealcançar preponderância.NateoriadeAron,hátrêstiposdepaz:equilíbrio,hegemoniaouimpério.Em qualquerperíodohistórico,aforçadasunidadespolíticasestãoemumadastrêscondições:em equilíbrio;dominadasporumadaquelasunidades;ouultrapassadaspelasforçasdeumadas unidadespolíticas.EntreapazpeloequilíbrioeapazpeloImpério,Aroncolocaoqueelechama depazpelahegemonia 23 . OconflitonateoriadeAronconsistedeumadialéticadeantagonismos–dissuasão, persuasãoesubversão.Oadventodasarmasdedestruiçãoemmassaaumentaoriscodepôrem práticaumaameaçae,então,reduzosinteressespelosquaisousodaforçapodeserumaameaça dignadecrédito.Assim,emseumodelo,atecnologiaafetaacredibilidadedeameaçasfeitas poratorespolíticos. DeacordocomAron,osrealistasamericanosestãoàmargemdasituaçãoidealista, emboraelescritiquemaconcepçãoutópicaouidealista,osrealistasinconscientementeseguem aquelesaquemelesseopõem.Eleacreditaqueolíderpolíticodeverialembrarqueaordem internacionaléoresultadodeumequilíbrioentreasforçasquesuportamapreservaçãodo sistemaemoposiçãoàquelesquebuscamsuatransformação.SeoshomensdeEstadosão incapazes de calcular cada uma de suas forças corretamente, eles falham em suas responsabilidadesprimárias–asegurançadaspessoaseosvaloressobseuscuidados.Parao homemdeEstadoafaltademoralidadeéumacondiçãoparaqueolíderpolíticoobedeçaaseu coraçãosemsepreocuparcomasconsequênciasdeseusatos.Asimplicaçõesnormativasda teoriadeAronresidemnacontradiçãoentreasrestriçõesasquaispesamsobreohomemde Estado,responsávelpelosinteressesdeseupaís,emummundoemqueousodaforçapermanece possívelelegítimo,eaconsciênciamoral,aqualprotegecontraaanarquiadomeiointernacional edemandaapazuniversal. DeacordocomKlausKnorr,poder,influênciaeinterdependênciasãorelacionadose quandoexistecooperação,elessebeneficiamdacriaçãodenovosvalores,materiaisounão,

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diferentementedequandoestãoemconflito.Interdependênciaéditacomoahabilidadedeum Estadoeminfluenciaroutrodealgumamaneiraeseusatributosconsistemde:recursoshumanos; forçaeconômica,ouriqueza;tecnologia;comércio;e,forçamilitar. DeacordocomMichaelP.Sullivan,opodernãodeveserdistintosomentepelas capacidadespuras,elepodesertambémdiferenciadodousodaforçaepodeestarpresenteem situaçõesondeaforçanãoéusada.Opoder,então,podesurgir,porexemplo,atravésdocontrole psicológicosobreoutros. Tambémvendoopodercomoumarelaçãodeinfluência,K.J.Holstisugerequeopoder éumconceitomultidimensionalconsistindodeatospelosquaisumatorinfluenciaoutroator, dascapacidadesutilizadasparaessepropósitoedasrespostasemitidas.Eleconceituapoder comoosmeiosparaumdeterminadofimeacapacidadequeumEstadopossuiparacontrolaro comportamentodeoutros. DavidA.Baldwinasseguraqueopoderéespecífico,conformeasituação.Alguns aspectosdopodersãomaisfungíveis(segastam)queoutrosepodemserordenadosconforme umahierarquia.Seopoderdeveserrelacionadoàsituaçãoemqueéusado,oudisponívelpara ouso,categorizarosEstadoscomograndespotênciasoupequenaspotênciaséinadequadodesde quecadatermosejarelacionadoasituaçõesespecíficas,contextuaisouparticulares,conforme suaárea. DeacordocomJeffreyHart,opoderpodeserobservadoemedidocomreferênciaatrês aproximaçõesdecontrole:sobrerecursos,atoreseeventoseresultados 24 . JackH.Nagelsugerequeédifícilobservaremensuraraspreferênciasnoestudodo poder,oquerestringesuamedição.Afirmaquetalestudoseestendeàteoriamotivacional,em psicologia,bemcomoparaasteoriasdosjogosedadecisão. JacekKuglereWilliamDomkeconstruíramumaestruturabaseadanosrecursos disponíveisparaumgovernoenasuahabilidadeemextrair,mobilizareutilizá-losemsuporte aumobjetivoespecífico.Aforçanacionalédefinidaporeles,comoasomadascapacidades internasdeumEstado(basesocietária)erecursosexternos(naformadeajudadosaliadosou assistênciadeoutrasterras).Afirmam,ainda,queEstadosquesãodiretamenteameaçadosestão maispropensosasermaishábeisqueosdemaisparamobilizarrecursos. Opodertemsidoconceituadoparaincluirfatorestangíveiscomoascapacidades militares 25 eelementosintangíveiscomoasvantagenspolíticas 26 .Medirambosospoderes:real epotencial,emboradifícil,temsidoumapreocupaçãocentraldegovernosemtodasaspartes domundo,oqueprometeganharemimportância,assimqueascapacidadesdosEstados aumentem,comadifusãodetecnologiasnofinaldoséculoXX. Esforçostêmsidofeitosparasemedirpodere,especialmente,influência,tomandocomo referênciaascomunicações–quemsecomunicacomquem,quemconsultaquem(taismedidas têmsidoutilizadastambémnosestudosdeintegraçãopolítica).Lança-secomohipóteseque quantomaisumapessoa,grupoounaçãorecebemaisqueoriginacomunicações,maiora

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influênciaqueessaentidadeexercesobreasdemais.

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Neorrealismo ONeorrealismosepropõearefinarerevigorarorealismoclássicopelodesenvolvimento deproposiçõesbaseadasnadesagregaçãodevariáveisindependentesedependentesepela integraçãoàteoriarealistaclássica,emumaestruturacontemporâneabaseadaemanálises comparativas 27 . Paraoneorrealismo,opoderpermaneceumavariávelchaveemboraeleexistamenos comoumfimemsimesmoquecomoumcomponentenecessárioeinevitáveldorelacionamento político.DeacordocomKindermann,apenascomoinstrumentodepoderedesançõesnãose extingueanaturezadalei.Anaturezadapolíticatambémnãoéextintapelareferênciaprimária dopodercomosuamaisimportanteferramenta.OrealismoestruturaldeKennethWaltzdesenha aconstruçãodossistemasenquantooneorrealismodeKindermann(escolaneorrealistade Munich)temcomobaseumaconstelaçãoouconfiguração,constituídodeumsistemade interação/relaçõesentreEstadoseoutrossistemasdeaçãodapolíticainternacionalemumdado momentoouemumperíododefinidodahistóriapassadaoupresente.Essaaproximação neorrealistacontemplacategoriasinterdependentesdeinquirição:osistemaeadecisão (lideranças);interesseepoder;percepçãoerealidade;cooperaçãoeconflito(estratégia comportamental);e,normaevantagem. DeacordocomWaltz,otermoestruturaédefinidapeladistribuiçãoentreasunidadese temaconotaçãodecaminhonoqualaspartessãoarranjadas.WaltztrataosEstadoscomoatores unitáriosque,nomínimobuscamsuaprópriapreservaçãoe,nomáximodirigem-serumoà dominação universal. O conceito de estrutura é baseado no fato de que as unidades diferentementejustapostasecombinadascomportam-sediferentementee,pelainteração, produzemdiferentesresultados.Asunidadesengajam-seemesforçosinternosparaaumentar suascapacidadespolíticas,militareseeconômicas,paradesenvolverestratégiasefetivas.Em resumo,noquedizrespeitoaorealismoestrutural,eespecialmentenaaproximaçãodesenvolvida porWaltz,resideaproposiçãoquesomenteumatransformaçãoestruturalpodealteraranatureza anárquicadosistemainternacional. RobertGilpinfazumaaproximaçãodepodercomoumconjuntoqueabrangeas capacidadesmilitares,econômicasetecnológicasdosEstados.Consideraqueenquantoprestígio consistedapercepçãodeoutrosEstadosnoquedizrespeitoàscapacidadesdoEstadoesua habilidadeedesejoemexpressarpoder.DeacordocomGilpin,osEstadosengajam-seem cálculosdecusto-benefício,sobrecursosdeaçãodisponíveisparaeles,natentativadeobter vantagenseatingirobjetivos.Ossistemasinternacionaissofremessencialmentetrêstiposde mudanças.Aprimeiraéumaalteraçãonanaturezadosatoresoudostiposdeentidades-impérios, Estadosououtrasunidades–queincluemumsistemainternacionalparticular,queGilpinchama mudançanossistemas.Umsistemamudacasoarazãocusto-benefíciodosmembrosseja

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alterada.

Umasegundadimensãodemudançatemcomofoco,nãoosistemaemsi,masdeseus

componentes.Todosossistemasinternacionaissãocaracterizadospelasubidaedescidade

Estadospoderososqueestabelecemregras,dentrodasinteraçõesinternacionais,pelasquaiso

sistemaopera.Assim,adistribuiçãodepodernosistemaéalteradaàmedidaqueopoderdos

Estadossealteraeháasubstituiçãodeumaentidadedominanteporumoutroator.

Oterceiroelementodessateorianeorrealistadamudançatemcomofocoanaturezade

seusmembros(política,econômicaouinteraçõessocioculturais).Oestudodamudançaabraça

osistema,seuselementosconstitutivoseoprocessodeinteraçãoentreeles.Gilpinconcluique

apolíticainternacionalaindapodesercaracterizadacomofoiporTucídides:umainteraçãoentre

forçasimpessoaisegrandeslíderes.Apolíticamundialaindaécaracterizadapelalutaentre

entidadespolíticasporpoder,prestígioeriquezaemumacoalizãodeanarquiaglobal.Armas

nuclearesnãofazemdasoluçãoemforçaalgoirrelevante,interdependênciaeconômicanão

garantequeacooperaçãotriunfarásobreoconflito,umacomunidadeglobaldevalorese

perspectivascomunsaindatêmquedeslocaraanarquiainternacional,parateremêxito.

Realismo:suaslimitaçõesecontribuições

Fundamentalparaoscríticosdateoriarealistaéoquestionamento,rejeiçãoou

modificaçãodoparadigmatradicionaldasrelaçõesinternacionais,emqueorealismo,emsua

formulaçãoclássica,ébaseado:apolíticadefinidacomoumalutaporpoderemumsistema

centradonoEstado.Nolugardoparadigmarealista,centradonaEuropa,oscríticospropõem

umsistemainternacionalglobalemalcance,oqualencerraumnúmerodeatoresestataisenão

estataissemprecedentes.Alémdisso,questionamaseparaçãoassumidanateoriarealista,entre

oscenáriosinternoseexternosaoEstado,aoalegaremqueessadistinçãotornou,pelomenos,

turvaadistorçãodeumprocessocomplexonoqualfiguraaaçãodoEstado.

Pormuitasrazões,oconceitodeinteressenacionaltemsidooobjetodecrítica.Deacordo

comumadelas,ointeressenacionaléumcritérionecessário,porémnãoiluminado,dapolítica.

NenhumhomemdeEstado,nenhumpublicista,nenhumestudantepodeargumentarcom

seriedadequeapolíticaexternadeveserconduzidaemoposiçãoa,ousemconsiderarointeresse

nacional.Alémdomais,édifícildarsignificadooperacionalaoconceitodeinteressenacional.

OshomensdeEstadosãosemprecativosdaspolíticasdeseuspredecessoreseinterpretam

interessenacionalcomooresultadodeseutreinamentocultural,valoresedadosdisponíveisa

eles,comotomadoresdedecisão.

Abuscaporobjetivosnacionaislimitados,aseparaçãodapolíticaexternadapolítica

doméstica,aconduçãodediplomaciasecreta,ousodoequilíbriodepodercomoumatécnica

paragerenciamentodepodereajustificativadasnaçõesparacolocarumaênfasereduzidana

ideologia,comoumcondicionadordacondutainternacional,tempoucarelevânciaparaosistema

internacionaldehoje.

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NavisãodeStanleyHoffmannéimpossívelsubsumirummundodevariáveistão diferentescomo:poderecondiçãopolítica,podercomoumcritériodepolítica;poderepotencial, poderemuso,poderesomaderecursosepodercomoumestabelecimentodeprocessos.Issoé corroboradoatravésdeumadasprincipaiscríticasdeFreedman 28 ,noquedizrespeitoao realismo.Segundoesteautor,adesconsideraçãodefatoresdomésticosetransnacionaiséuma falha.Eledefendequeserpoderosonãopodeserestringirsomenteàpossedeativoscomo riquezaecapacidadesmilitares.Alémdisso,frisaaexcessivapreocupaçãodosdefensoresdo realismocomasforçasarmadas,oquerelevaaumsegundoplano,osmeiospacíficosparaa soluçãodedisputas. Opodernãopode,ainda,serreduzidoacapacidades,aoinvésdisso,opoderconsiste tambémdefatorespsicológicos,comomoralpúblicaeliderançapolítica,fatoressituacionaise aextensãonaqualopoderéexercidocomumaconsensual,contrastadaeconflituosaestrutura. Apesardascríticas,orealismoéclassificadocomoamaisimportantetentativadeisolar e focalizar uma variável chave no comportamento político – chamada poder – e no desenvolvimentodeumateoriaderelaçõesinternacionais. Tendoisoladooqueelesconsideraramserdeterminantesdocomportamentopolíticono passado,elescomparamapolíticainternacionalcontemporâneacomummodelobaseadono estudodahistória.Osproblemaspelosquaisopensamentorealistatemendereçado–dainteração ecomportamentodossereshumanoscomotomadoresdedecisões,anaturezadopoder,os objetivosdapolíticaexterna,astécnicasparamediregerenciarpoder,oimpactodosfatores ambientaissobreocomportamentopolítico,ospropósitosepráticasquedeveriamguiaros líderespolíticoseoimpactodeestruturasdesistemasinternacionaisalternativos–sãocentrais tantoparaoestudodapolíticainternacionalcomoparaapráticadapolítica.Emadiçãoàsua contribuiçãoparaateoriadasrelaçõesinternacionais,orealismoprovêumgrandenúmerode proposiçõesarespeitodocomportamentopolíticoquepodesersubmetidoaumexamemais aprofundado,comousodeoutrasestruturasemetodologias.

Teoriadasrelaçõesinternacionais:emdireçãoaoterceiromilênio. 29 Oestudodasquestõesinternacionaisdesfrutadaqualidadedetentarexplicaromundo integradoeglobalizado,queenvolve,entreoutros,economia,políticaeproblemassociais,os quaisafligemavidaquotidianadosindivíduos,bemcomo,dasunidadesinfluenciadaspelas decisõestomadaspelosgovernos.Ahistóriadateoriadasrelaçõesinternacionaiscontém evidênciasdateorianormativa(oumoral)baseadaemvontadeepropósito,aomesmotempo quedirigeesforçosparaaanálisedefatosemeios 30 ;saidaalçadadediplomatasemilitareseé encaradasdemaneiradistintadaquelaapresentadapelosprocessosqueocorremnoambiente doméstico. AcontrovérsiadoiníciodoséculoXXqueopôsutópicosarealistasregressou,nas últimasdécadasdoséculo,naformadedebateentreneoliberaiseneorrealistas.Odesafio

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consisteemencontrarcritériosaceitosparaavaliaroméritodasabordagensteóricasalternativas, tarefaquepodetornar-sedifícilemummundomarcadopelacrescentediversidade. SejaqualforadefiniçãodeEstado 3132 quesejautilizada,asuacapacidadeparaexercer soberaniacompletanosassuntosinternosecomplenaliberdadeemfaceainfluênciasexternas épostaemdúvidaeésusceptíveldeenfrentardesafioscrescentesnosanosvindouros. Aprocuraporumateoria 33 torna-seumobjetivomaiscomplexodevidoàtransformação dasestruturasacompanhadapelaaceleraçãononíveldovolumedasinteraçõesentregruposque nãosãoEstados,entreosprópriosEstadoseentreEstadoseatoresnãoestatais.Amudança turbulentaeemaceleraçãoconstantequeconfiguraomundonesteiníciodoterceiromilênio

abrangeumavariedadedeatoresedálugaràquiloqueRosenauchamaeradeumapolíticapós-

internacional. Abaseparaateoriaassentanaprocuradetranscenderasfronteirasdosváriossubcampos quecompõemaciênciapolítica,taiscomoasrelaçõesinternacionaiseapolíticacomparada. Nessascircunstâncias,ecasoRosenauestejacerto,éacondutadosgrupos,interativos,quer estessejamEstadosououtrasunidades,erelacionando-seunscomosoutrosecomoutras entidadesatravésdepadrõesalternativos–embuscaporreconhecimento,estatutosociale independência–quesetornaria(oudeveriatornar-se)objetodaconstruçãoteóricaemnível maisabrangentequeodasimplesteoriadasrelaçõesinternacionais.Asquestõesteóricasincluem aindaanaturezadaestabilidadebaseadanasteoriasdapolaridade,padrõesdealinhamento, forçasintegradoras,conflito,fragmentaçãoeinterdependência. Oestudodosregimestemsidoumaquestãocrucialparaosacadêmicosetemservido comofundamentoparachegaràcompreensãodosquadrosdereferência,normas,procedimentos dedecisãoeprocessosemáreascomoadiplomacia,adefesa,aeconomiaeodireito,emcujo contextosedesenvolvemdeterminadospadrõesdecolaboraçãoemrespostaàsnecessidades internacionais.Osregimessãovistoscomoabasedeestruturaseprocessosmaisintegrados 34 . Nessesentido,oestudodosregimesinternacionaiscentra-senaanálisedosrelacionamentosque resultamdenecessidadeseinteressesmútuosequeconduzemaníveismaiselevadosde integração.Tambémforneceabaseparaaanáliseeaavaliaçãodocomportamentoou desempenhodasorganizaçõesinternacionaisedosseusváriosinstrumentosinstitucionais 35 . OqueficanopósGuerraFria,paraateoriadasrelaçõesinternacionaisincluioesforço paralocalizarasorigensdocolapsosoviéticoentreosváriosníveisdeanáliseeatentativade compreender como e porque ocorrem as mudanças fundamentais no contexto dos relacionamentosinternacionais. Asexigênciasquerecaíramsobreaeconomiasoviéticacomoconsequênciadepesados gastosmilitaresdiminuíramaindamaisasualimitadacapacidadedecompetircomasmais inovadorasedinâmicaseconomiascapitalistas,comasdosEstadosUnidos,notocanteàs tecnologiasdaerapós-industrial.Poroutraspalavras,aestruturasistêmicainternacional associadaaobipolarismoimpôscertasexigênciasqueaUniãoSoviéticanãofoicapazde

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sustentarnodecursodacompetiçãodaGuerraFria. Amanifestaçãodenovasentidadesegruposnoambientepolítico,quetêmsuagênese nosconflitosinternosaosEstados,aliadosàdisponibilidadedearmasletais,resultantesde avançostecnológicos,agravaráosconflitosemdiferentesníveisdeintensidade.Alémdisso,a reduçãonotempoparasechegaradecisõesimportanteslevaaconsequênciasquepodem influenciarcondutaspolíticas,atémesmonoâmbitoexterno,e,porconseguinteasteoriasdas relaçõesinternacionais.

Nosanos1970,foiatribuídamaioratençãoaoestudocomparadodapolíticaexterna,em

relaçõesinternacionais,oquepodesernotadopeloestudodeacontecimentosespecíficos,pela procuradequadrosteóricosdereferênciaparaatomadadedecisões,emespecialemsituações decrise 36 ,e,àconceptualizaçãoeinvestigaçãorealizadas,hámaisdeduasgerações,porRichard C.Snydereosseusassociados,alémdascontribuiçõesdeWolframF.HanriedereJamesN. Rosenau 37 . Desenvolverteorias,deintegraçãoqueabranjamasintoniaqueestabelecelaçosentre aselitespolíticas(osdecisoresgovernamentais),aselitesdasociedade(atoresegruposnão

governamentaisrelevantes)easmassas,comoaconteceunosfinaisdosanos1980,ocasiãoem

queaunificaçãoalemãfoiprecipitadapordemonstraçõesdemassasqueultrapassaramos governos,temsidooutrodesafio. NofinaldoséculoXX 38 ,oestudodasrelaçõesinternacionaispassouportrêsprincipais estágios,denominadosdeutópico,realistaebehaviorista,tendoingressadoemumaquartafase,

pós-modernista,pós-behavioristaoupós-positivista,caracterizadapeladiversidade,discordância edebatessobreaproduçãodeumateoriadasrelaçõesinternacionaisnatentativadeaglutinar ideiasqueexpliquemanaturezaeosistemainternacional,assimcomoosfenômenosque modelamapolíticamundial,atravésdaformulaçãodemétodoseconceitos 39 . DeacordocomDavidEaston,asseguintesrazõessãoresponsáveispeloressurgimento do interesse pela normativa: é mais importante ser relevante para as necessidades contemporâneasdoquesermetodologicamentesofisticado;aciênciabehavioristaescondeuma ideologiaausenteemumconservadorismoempírico;ainvestigaçãobehaviorista,concentrada comoestánasabstrações,perdeocontatocomarealidade;eocientistapolíticotemaobrigação detornaroconhecimentodisponíveledefazê-loembenefíciogeraldasociedade.

NoiníciodoséculoXXI,osistemainternacionalécompostopor185Estados-membros

dasNaçõesUnidasquecontrastamcomos51daépocadafundaçãodessaorganização.A

diversidadedeatores–estataisenãoestatais–juntamentecomassimetriasedisparidadesquanto

àssuasrespectivascapacidadeseconômicas,tecnológicas,militaresepolíticas–representam

característicasfundamentaisparadefinirosistemaglobalnaeradeumapolíticapós-

internacional.

UmatendênciaobservávelquantoaosgovernosdosEstadoséomonopóliodas

capacidadescoercitivasnointeriordasunidades,enquantodescentralizamatomadadedecisões

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bemcomoascapacidadescoercitivasnoseiodosistemainternacional.Alémdisso,as semelhançassãosublinhadas,aoinvésdasdiferençasentreosprocessospolíticosnacionale internacional,porém,adistinçãoentrecentralizaçãoedescentralizaçãocontinuaaparecer relevantenodelineamentodoestudodasrelaçõesinternacionaisedeoutrosfenômenospolíticos. Osestudiososdasrelaçõesinternacionaistêmmostradointeressenaquelessistemaspolíticos emqueasfidelidadestribaiscompetemcomasforçasmodernizadoraseemqueopoderpolítico efetivopermanecedescentralizado.Essetipodeestudocontribuiparaareavaliaçãodasnações a propósito da especificidade dos processos políticos internacionais. O colapso e o

desaparecimentodeEstadosdesdeosprincípiosdosanos1990,onúmerocrescentedeconflitos

fundadosemclivagensétnicasesectárias,assimcomoaincapacidadequeosEstados demonstramparaexercercontrolesobreassuasfronteirasouosseusterritóriosfornecemprovas adicionaisdanecessidadedetranscenderadistinçãotradicionalentreaquiloquesesupõeser dodomíniodointernacionaleaquiloquesesupõeserdonívelnacional. RichardW.MansbacheJohnA.Vasquezclamampelasubstituiçãodoparadigma centradonoEstadoporumoutrofundadoemassuntosemqueapolíticaaparecedefinidacomo adistribuiçãodevaloresatravésdaresoluçãodequestões,ouseja,atravésdaaceitaçãoe implementaçãodepropostasquevisemresolveraquiloqueestáemjogoemumadeterminada contenda. ThomasKuhnsugereque,nasciênciasnaturais,osperíodosderevoluçãocientíficatêm alternadocomépocasde“ciêncianormal”.Umdeterminadoconjuntodeconceitosfornecea baseparaoconhecimentocumulativoatéomomentoemqueédeixadodeladoesuperadopor umnovoparadigma,oqualofereceumnovoquadrodereferênciaparaainquiriçãointelectual eparaadefiniçãodaagendadeinvestigação,assimcomoabaseparaocrescimentocumulativo doconhecimentocientíficoedateoria 40 . EnquantooparadigmacentradonoEstadocolocanocentrodassuaspreocupaçõesa paz,aguerraeaordem,ateoriadadependênciatransfereessapreocupaçãoparaquestões relacionadascomadesigualdade,aexploraçãoeaequidade. SegundoThomasKuhn,asubstituiçãodeumparadigmaporoutroacontececomo resultadodaincapacidadedaquele,queéoparadigmadominante,emintegrarfenômenos importantes.Aevoluçãodateoriapartedarejeiçãodeumparadigmadominanteedependeda capacidadedequedispõeacomunidadeacadêmicaparachegaraumentendimentosobreum novoparadigmaquesirvadefundamentoainvestigaçõesfuturas. Ateoriarealistabaseia-senoesforçoparaisolaravariávelpoder–comoobjetivode explicarepredizerumespectrodecomportamentosinternacionais–eprocuraexplicaraconduta políticatendocomoreferênciaosistemainternacional(macroteoria). Ateorianeorrealista,porsuavez,dispensaatençãoàestruturadosistemainternacional, nointeriordaqualsedesenvolvemasinteraçõespolíticas.Aliteraturaneorrealistasublinhatanto aimportânciapermanentedopoder,comooimpactodaestrutura–aquiloaqueHedleyBulle

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KennethWaltz,entreoutros,chamaramsistemaanárquico–sobreocampodisponívelaosatores, paradefiniremasuacondutaeassuaspolíticas.Ateorianeorrealistarepresenta,portanto,uma evoluçãoouumatentativadeutilizar-sedatradiçãorealista,comopontodepartida,parachegar aumaabordagemteóricabaseadanacompreensãodosconstrangimentosqueseimpõemà condutadosEstadosdevidoàestruturadomundoemqueessesmesmosEstadosexistem. ComamultiplicidadedeEstadossoberanoseainexistênciadeumsistemajurídicoque osimpeçadebuscaraconcretizaçãodesuasambições,conformeosditamesdeseuspróprios anseios,issofazcomqueosconflitospossamsertraduzidos,emúltimainstância,pelaguerra. 41 Mesmoqueateoriaemirjadeumcontextosocialparticular,aindaassimsãonecessários critériosquetranscendamotempoeoespaçoequepermitam,pelomenos,umaaproximação daverdade.Dizerocontrárioénegarabasefundamentalparaqualquerteoriaouconhecimento. Comoconclusão,adiversidadedefenômenosqueenvolvemasrelaçõesinternacionais noiníciodoséculoXXIiluminaanecessidadedeincrementaraspotencialidadesdasdisciplinas, detalmaneiraquetratemdeproblemasligadosaorelacionamentoentreasnações.Essa permaneceassimumainterdisciplina,aqualbuscarecursosàpsicologia(emespeciala psicologiasocial),nodireito,naadministraçãopúblicaeemsociologia,entreoutras,deforma aincorporar,desenvolveresintetizarcontribuiçõesprovenientesdamaioria,senãodetodas,as ciênciassociaise,noscasosapropriados,tambémdasciênciasfísicasenaturais.Quantomaior acomplexidadeeaquantidadedequestõesquedispõemdeumadimensãointernacionaleglobal, maiorseráanecessidadedeumaperspectivamultidisciplinarquesejacapazdeproduzir respostasinterdisciplinares(baseadasnaintegraçãodeabordagens,descobertasecontribuições deoutrasdisciplinas). Oestudodasegurançarepresentaoutroelementofulcraldateoriadasrelações internacionaisemostraseucaráterinterdisciplinaraoabrangerasdimensõespsicológica, cultural,econômicaehistórica,alémdoscomponentestecnológicos,legais,políticose militares 42 .Oestudocomparadodaestratégiaedaopçãodeempregomilitar,bemcomoo estabelecimentodosníveisdeutilizaçãodaforçaedesuacomposição,nocontextodosvalores edacultura,àmedidaqueaumentaonúmerodedetentoresdessascapacidades,pode proporcionarconhecimentossobrequestõesrelacionadascomospropósitosdaestratégiaeo seurelacionamentocomosníveisdeutilizaçãodaforça,osobjetivospolíticoseasdimensões nãomilitaresdasegurança;oprocessodetomadadedecisõesreferenteàscapacidades estratégico-militareseoutroselementosdapolíticadoEstado;apropensãodosEstadospara invocaremdiversasformasdepodermilitarquepermitamalcançarobjetivospolíticos;eos fatorespsicológicos,doutrinaisehistóricosquedeterminamapropensãodediversosgrupos paraconcorreremouameaçaremrecorreràviolênciaemnomedosseusinteressesrespectivos. Oaumentodograudeletalidadedasarmasnuclearesedeoutrosmeiosdedestruição, associadoaocálculoderiscospotenciaiseganhospotenciais,juntamentecomapotencial emergência,nosanosvindouros,deumadissuasãofirmadanadefesa,provavelmenteatribuirá

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umaimportânciareforçadaaoestudodasquestõeséticasassociadasàdissuasãoeàsegurança. Emparalelo,ocampodebatalhadigitalizadoseparaacondutadasguerrasfuturados procedimentospassados,damesmamaneiraquea blitzkrieg (guerrarelâmpago)daSegunda GuerraMundialdiferiudaguerradetrincheirasdaPrimeiraGuerraMundial.Osignificadoda guerraestratégicapodesetransformar,atravésdacapacidadedosatoresestataisenãoestatais, nasabotagemàstransferênciasbancárias,aosmovimentosdecapitaisembolsaeaossistemas vitaisdecomunicação.Aagendadosestudosdesegurançavê-sealargadapeloimpactoqueas tecnologiastêmsobreaestratégia,adissuasãoeasoperaçõesmilitares–sobreateoriaeaprática daguerrapós-industrial.Esseimpactodeveserdiscutidoeinvestigadonosestudosdesegurança. Emconsequênciaaoanteriormenteexposto,surgeanecessidadedeumcontinuado esforçoteórico,concentradonaquestãorecorrentedascausasdaguerra;noparadigmada dissuasãorelativoaopredomínioofensivoedefensivo;noimpactodasnovastecnologiassobre adissuasão,oconflitoeaguerra;nasdimensõesculturaisdosconflitos;noprocessodetomada dedecisõesacercadasegurançanacionalemsituaçõesdecriseeforadelas,emcontextos organizacionaiscomplexos;nonexoentreestabilidadedissuasória(ofensivaedefensivamente) econtroledearmamentos;naproliferaçãoecontraproliferaçãoreferentesàsarmasdedestruição maciçaearmasconvencionais;noimpactodapolíticadoméstica(emespecialemsociedades pluralistas)sobreapolíticadesegurançanacional;nosconceitosdesegurançaenassuas dimensõespolítica,econômicaemilitaremcircunstânciasdeinterdependênciaglobaleregional; nofundamentodadissuasãoconvencionalcasodiminuaopotencialdadissuasãonuclear;nas causas,variedades,estratégiaseconsequênciasdoterrorismo;nopapeldasforçasmilitaresem operaçõescomoamanutençãodapaz,aimposiçãodapazeasatividadeshumanitárias;enas implicaçõesqueafaltadegovernabilidadetemsobreoconflitoemEstadosexistenteseem fragmentação.Nãomenosimportanteéofatodeaguerradainformação–sobaformade sabotagemdasinfraestruturasvitais,incluindoossistemasbancárioscentraiseossistemasde transportedassociedadesavançadas–ter-setornadoumobjetodeestudoeanálise.Destemodo, surgeumaagendaparaosestudosdesegurança,noqueconcerneàgeraçãodeopçõespolíticas emummundopejadodeconflitos. Oconceitodepoderestárelacionadoàexistênciadeestruturasalternativasparaa organizaçãodosistemainternacionalbaseadas,porexemplo,nounipolarismo,bipolarismoe multipolarismo.Apolaridadeéumacaracterísticaestruturaldosistemainternacionalquediz respeito,nãosomente,aonúmeroetiposdeatores,mastambémàdistribuiçãodecapacidades, ouforça,entreessesmesmosatores.Daíqueumrequisitonecessárioparacompreenderas implicaçõesdaestruturasistêmicainternacionalsobreospadrõesdecondutadosatoresrepouse noestudodoprópriopoder 43 .Oestudodaproliferação,enquantoquestãocentralparaapolítica internacionaldosprincípiosdoséculoXXI,representaoestudodaexpansãodopoder,em especial,naformadearmasdedestruiçãoemmassa. Ocentrodeinteressedaliteraturadasrelaçõesinternacionais,desdeaSegundaGuerra

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Mundial,temsidocolocadonoestudodoprocessopolítico–emcomosãoformuladasas políticas,aoinvésdefocarnosinstrumentosqueservemparaformulá-lasenosresultados efetivosdoprocesso.Opoderéconstituídoporinstrumentosfísicoseestratégia,oquecomplica aindamaisasuamensuração 44 enquantovariávelcrucialparaateoriadasrelaçõesinternacionais. Odesenvolvimentoeoestudodaestratégiae,deformamaisabrangente,dosassuntos militares,tempassadodosmilitaresprofissionaisaosteorizadoreseanalistaspolíticoscivis.O resultadodaconstruçãoeverificaçãodateoriadeveriaserodeproduzirumconhecimentocapaz deexplicar,etalvezatédeprever,padrõesdeinteraçãoentreasvariáveispolíticas,oqueainda nãofoialcançado,eprovavelmentenãooseránocurtoprazo,dadasasquestõesepistemológicas emetodológicas. Seoestudodateoriadasrelaçõesinternacionaistivesseatingidoesseestágiode desenvolvimentoter-se-iaalcançadoacompreensãodosfenômenosinternacionaisconsiderados maisimportantesparaosacadêmicosehaveriaàdisposiçãodostomadoresdedecisõespolíticas umconjuntodeteorias.Ummaiorconhecimentodascondiçõesessenciaisparaaintegraçãoou oconflitotornariapossívelacompreensãodosresultadosalternativosderivadosdediferentes opçõespolíticas,umavezqueseriadeseesperarquedeterminadostiposdeopçõespolíticas produzissemdeterminadostiposderesultados. Aaleatoriedade–comqueosfenômenospodemaconteceràmedidaqueaumentaa complexidadedosistema–édestacadapelateoriadocaos 45 ,aquallançadúvidassobrea possibilidadedechegaraumateoriaprospectivadasciênciassociais,anãoserquesejapossível separarosfenômenoscaóticosdosnãocaóticos. Czerwinskidefineanãolinearidadecomoabrangendoosconceitosdeteoriadocaose teoriadacomplexidade.Afaltadeproporcionalidade,adiçãoouaréplica,característicasdanão linearidade,fazcomquenãosejatarefafácildemonstrarsuascausaseconsequências.Além disso,nãosepodeassumirqueosresultadosvenhamaserepetireamesmaexperiênciapode nãoresultarexatamentedamesmaformaduasvezes.Umacausaquecontribuiparaessasituação éofenômenodadinâmicanãolinear,peloqualosresultadossãoarbitrariamentesensíveisa pequenasalteraçõesdascondiçõesiniciais.Aimprevisibilidadedefraudaoplanejamentoeo controle,deacordocomosentidoqueédadoaessaspalavras. Asrelaçõesinternacionaistêmsidomarcadaspelatentativadeestabelecerlaçosentrea teorianormativa,porumlado,eateoriaanalíticaeempírica,poroutro.Dadaaprobabilidade dequeaumenteapressãosobreosproblemaspolíticos,éprementeencontrarumequilíbrio aceitávelentreessasteoriasetambémentreainvestigaçãobásicaeainvestigaçãoaplicada.A teorianormativaéessencialcomobaseparadesenvolverpreferênciaseobjetivosalternativose podeaindafornecerproposiçõesparaposteriorverificação.Porsuavez,asteoriasanalíticae empíricapodemfornecerorientaçãoquantoaostiposdecondutapolíticaessenciaisparaatingir objetivosdesejados.Assim,aprocuradeumateoriaouteoriasadequadasàsnecessidadesde ummundoemconstantemudançadevecontinuarnonovoséculoemilênio.

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Poder,EstratégiaeSociedade,N°0,Vol.1,Fev/2011

Nota s

1 GALBRAITH,JohnKenneth.Aanatomiadopoder.Lisboa:Edições70,2007.

2 MINGST,KarenA.Princípiosderelaçõesinternacionais.TraduzidoporArleteSimilleMarques.Riode

Janeiro:Elsevier,2009.

3 Oprimeiroprincípiocontrariaanoçãododireitodivinodosreis,pregandoqueoestadoéumainstituiçãogerada

porhomensracionaisparaprotegerosdireitosnaturaisdavida,daliberdadeedapropriedade.Confirmaqueo

monarcadevesualegitimidadeaoconsentimentodosgovernados.

4 MINGST,2009.

5 WEBER,Max.Ciênciaepolítica:Duasvocações.TraduçãodeLeônidasHegenbergeOctanySilveirada

Mota.SãoPaulo:Cultrix,1968

6 CHOMSKY,Noam.Paraentenderopoder.TraduçãodeEduardoFranciscoAlves.RiodeJaneiro:Bertrand

Brasil,2005.

7 DOUGHERTY,JamesE.,PFALTZGRAFF,RobertL.,Jr.RelaçõesInternacionais:asteoriasemconfronto.

TraduçãodeMarcosFariasFerreira,MónicaSofiaFerroeMariaJoãoFerreira.Lisboa:Gadiva,2003.

8 Outopismoébaseadonaideiaqueapolíticapodeserfeitaparaajustar-seaumpadrãoético.ConformeBlackburn

(1997),outopismovisaoaconselhamentoecríticadaaçãopolíticaàluzdesistemassupostamenteideaisouutopias.

9 Umavezqueosestadosatuam,noambienteinternacional,emsituaçãodeigualdade,nãoexisteautoridadelegal

superioraoestado,quelhepossaditarasregras.

10 DoughertyePfaltzgraff(1990).

11 DOUGHERTY,JamesE.,PFALTZGRAFF,RobertL.,Jr.ContendingTheoriesofInternationalRelations:a

comprehensivesurvey.3ed.HarperCollinsPublisers,1990.

12 TUCÍDIDES.HistóriadaGuerradoPeloponeso.Traduçãodogrego,introduçãoenotasdeMáriodaGama

Kury–3ed.Brasília,EditoraUniversidadedeBrasília,1987.

13 ROUSSEAU,Jean-Jacques.Rousseaueasrelaçõesinternacionais.SãoPaulo:ImprensaOficialdoEstado,

2003.

14 DougherthyePfaltzgraff(1990).

15 MORGENTHAU,HansJ.Politicsamongnations.NewYork:AlfredA.Knopf,1952.

16 Aguerraévistacomoumaopçãoextrema,colocadaempautaquandoumvalorouinteressevoltado,

principalmente,àsobrevivênciadeumaunidadeestáemjogo.

17 Umaarmaefetivaemterrenoplanopodeserinútilemterrenomontanhoso.Umaarmanasmãosdeumaunidade

altamentetreinadaemotivadapodeterumvalordiferentequandoutilizadasemtreinamentoemotivação.

18 Legitimidade,nestecaso,significanãomaisqueumaconcordânciainternacionalsobrearranjosnaturaisviáveis

earespeitodealvospermissíveisemétodosdepolíticaexterna.

19 Complementaaoafirmarque,havendoumacompreensãotácitaentreasnaçõessobreanaturezadosobjetivos

limitadosépossívellutarambos:conflitosconvencionaiseguerrasnucleareslimitadassemescalarparaaguerra

total.

20 Kissingersustentaarestriçãodaopiniãopúblicanaeventualidadedeaumentodadiscórdiaecasoasobrevivência

nacionalestejaemjogo.

21 Apalavrapraxeologia(dogregopraxis–ação,hábito,prática–elogia–conhecimento,ciência,teoria),foi

A TeoriaRealistaeoPoder

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citadapelaprimeiravez,pelofilósofosocialfrancêsAlfredVictorEspinas.Em1897,oautorpublicouseu

tratadosobrepraxeologia–Lesoriginesdelatechnologie.Defato,apraxeologiapareceternascidomuitoantes,

umavezqueem1890,Espinasescreveuumartigosobreaideiadeestudarasaçõesexecutadaspelosseres

humanosduranteahistóriadahumanidade.ALEXANDRE,Victor[incooperationwithGASPARSKY,Wojciech

Therootsofpraxiology:frenchactiontheoryfromBordeauandEspinastopresentdais.NewJersey:

TransactionPublishers,2000.

22 Osistemaentreinterestataléumsistemaemqueosestadosseintegram,cadaumdelesvigiandoosdemais, afimdeassegurarsuaprópriasegurança;estatal,jáqueaguerraconstituinãoumarelaçãoentreindivíduos,mas

umarelaçãoentreestados.ARON,Raymond.Paixetguerreentrelesnations.Paris:Calmann-Levy,2008.

(Traduçãolivredoautordesteartigo)

23 Asuperioridadeincontestáveldeumaunidadepolíticaéconhecidapelosoutrosmembrosdosistemainternacional. Emboraosestadoscommenorespossibilidadesnãotenhamahabilidadeparamudarseu status quo,oestado hegemôniconãotentaabsorvê-los.

24 Estaaproximação,conformeDougherthyePfaltzgraff(1990),éconsideradaamaispromissoraparaobservare

medirpodernasrelaçõesinternacionais.Issoéexplicadoporqueamaioriadasanálisesdepoderestãobaseadasno

controlesobreresultados,comoexpediçõesmilitares,dimensionamentodascapacidadesmilitares,populaçãoe

níveldedesenvolvimentoeconômico.Porém,amedidadeumresultadoestárelacionadacomaspreferênciasdos

atoresemumrelacionamentodepoder.

25 Talcomplexidadeinerenteàmensuraçãodessadimensãodopoderderivadasdiferenças,ouassimetrias,nas

doutrinasestratégico-militares,qualestadoatacaprimeiro,aprecisãodosmísseisestratégico-nucleares,otamanho

eonúmerodeogivas,ahabilidadedeumladoououtroparadefendercontraumataquenuclearestratégico–isso

é,parasalvaguardarsuasforçasestratégicasretaliatóriasdeumataquededesarmamentoeparaprotegersua

população,especialmente,aquelessegmentosmaisimportantesparaumarecuperaçãopós-ataque.

26 Oqueproduzadificuldadeparaoscientistasquantificaremopoderegeremocontraste,porexemplo,comas

teoriasdecomportamentoeconômicoeeconometria.

27 Oneorrealismocolocaaexistênciadeumsistemainternacionalconsistindodeelementosinterativosquedevem

serestudadospelareferênciaaconceitosderivadosdateoriarealistaclássica,mastambémbaseadaemvariáveis

provenientesdaanáliseculturalcomparativa.

28 FREEDMAN,Lawrence.Doesstrategicstudieshaveafuture?InBAYLIS,John,WIRTZ,JamesandGRAY,

ColinS.Strategyinthecontemporaryworld:anintroductionstotheStrategicStudies.3ed.NewYork:Oxford

UniversityPress,2010.

29 DoughertyePfaltzgraff(2003).

30 NOGUEIRA,J.PonteseMESSARI,Nizar.Teoriadasrelaçõesinternacionais:correntesedebates.Riode

Janeiro:Elsevier,2005.

31 SegundoSkinner(2009),entreosséculosXIIIeXVI,houveaformaçãogradualdoconceitomodernodeestado,

emquesedeuatransformaçãodaideiadogovernanteem“conservarseuestado”-oquesignificavaapenasque

defendiasuaposição–paraaideiadequeexisteumaordemlegaleconstitucionaldistinta:amudançadequeo

poderdoestado,enãoodogovernante,passaaserconsideradocomobaseparaogoverno.

SKINNER,Quentin.Asfundaçõesdopensamentopolíticomoderno.TraduçãodeRenatoJanineRibeiroeLaura

TeixeiraMotta.SãoPaulo:CompanhiadasLetras2009.

32 Oestadoéfrequentementeentendidocomorepresentaçãodeumaconcepçãodeordemnormativa,unidade etnocultural,funcional,detentordousolegítimodaviolência,personificaçãodaclassedirigente,oqualcentraliza osprocessosdecisórios,baseadoemaparatosburocráticos.Écorporificadoemumdirigentequepodeserum presidenteouummonarcaouumsistemapolítico,eumaunidadesoberanaentreoutrasunidadesdomesmogênero. Adistribuiçãodevaloresinvestidadeautoridadeéfeitaporumamultiplicidadedeinstituições–políticas,religiosas, econômicas,culturaisesociais–quenãosãogovernosequemuitasvezessãotransnacionais,ouseja,demonstrando poucorespeitopelasestruturasestataiseàsfronteirasformais,oquelevaainferirqueospadrõesdeautoridadeem quesebaseiaalegitimidadepolítica,porvezes,transcendemeultrapassamoestado.(DOUGHERTYe

PFALTZGRAFF,2003).

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Poder,EstratégiaeSociedade,N°0,Vol.1,Fev/2011

33 Otermoteoriaconsistenaespeculaçãoacercadorelacionamentoentrefenômenos,incluindoareflexão

sistemáticadestinadaaexplicareademonstrarqueessesfenômenosseencontramrelacionadossegundoumpadrão

inteligenteedotadodesignificadoenãosãomeroselementosdispostosaoacasoemumuniversodesprovidode

coerência.

34 Oquemostraqueoestudodaintegraçãoedosprocessosquelevamàformaçãodascomunidadespolíticas,de DavidMitrany,noperíodoentreasduasguerrasmundiais,aindacontinuaaatrairasatenções.(DOUGHERTYe

PFALTZGRAFF,2003).

35 Entende-sequeseinseremnocontextodosatores,aquelesnão-estatais,constituídos,inclusive,pelasempresas

multinacionais,cujaimportânciaécrescentenocontextodeumaeconomiaglobal.

36 Acapacidadeparaanalisarinformaçãoreservadaeoutrosdadosrelevantesmedianteautilizaçãodosindicadores

decrisetrazimplicações,tantoparaagestãodecrises,comoparaatomadadedecisõesrelacionadascomessas

crises,comoparaodesenvolvimentodeteoriasmaisadequadasàgestãodecrises,aescala,ainversãodaescala,

ascomunicaçõeseoutrosfenômenosassociadosaospadrõesdeinteraçãoobservadosnasunidadesresponsáveis

pelasdecisõeseentreelas.MesmocomotérminodaGuerraFria,subsisteanecessidadedeencontrarindicadores

decrise,emummundosusceptívelaumnúmerocrescentedeconflitososquaispodemtransformar-seemcrises.

37 Essatentativaemanalisaroslaçosestabelecidosentreosistemainternacionaleapolíticadomésticaede

compreenderoscondicionantesdomésticoseinternacionaisdapolíticaexternarefleteocrescimentonointeresse

emestudosinternacionaiscomparados.

38 AteoriadasrelaçõesinternacionaisdofinaldoséculoXXfoisendodeterminadaporcontribuiçõesbaseadasno realismoestruturalista/neorrealismo,nateorianeoliberalenodebateacercadaquestãoagente/estruturainseridos noconteúdodosníveisdeanáliseedaquestãodesaberseateoriadasrelaçõesinternacionaisdevesercentradana figuradoestadooutransnacional.Poroutraspalavras,osdiversosteorizadorestêminquiridoacercadequaissão osatores,qualéasuaimportânciarelativaecomoserelacionamouinteragemunscomosoutros.(DOUGHERTY

ePFALTZGRAFF,2003).

39 DoughertyePfaltzgraff(2003)criticamosavançosteóricos,característicosdaeraquantitativa-behaviorista,ao

julgaremasexpectativascomoprematuras,umavezqueosresultadosdosesforçosteóricos,baseadosnas

metodologiasdasciênciassociais,mostraram-seinsignificantes.Segundoosautores,obehaviorismonãotrouxe

umateoriacumulativadasrelaçõesinternacionaisqueviessepreencherantigasesperanças.Talvezporissomesmo

viesseasurgirnaerapós-behaviorista,pós-positivistaoupós-modernistaumaconcepçãomaisalargadaemenos

ambiciosadanaturezadaprogressãodoconhecimentoedateoria.

40 ParaKuhn,asrevoluçõescientíficaspodemdefinir-secomoepisódiosdedesenvolvimentonãocumulativoem

queumparadigmaantigoésubstituído,notodoouemparte,porumnovoparadigmaqueéincompatívelcomele.

41 WALTZ,KennethN.Ohomem,oEstadoeaguerra.TraduçãodeAdailUbirajaraSobral.SãoPaulo:Martins

Fontes,2004.

42 Oestudodaestratégiamilitareodesenvolvimentodeteoriassobreasegurançatêmatraídoaatençãoda

comunidadeacadêmicaedosetormilitardemaneiramaisintensadesdeaSegundaGuerraMundial,sebemque

ascausasdaguerra,opapeldopodermilitar,asnormaslegaisqueregulamousodaforçaeascondiçõesemque

sãoformadasedissolvidasasaliançassejamhámuitoquestõescruciaisparagrandepartedasteoriasdasrelações

internacionais.

43 Apartirdapremissadeaumentodonúmerodeatoresinternacionais–estataisenãoestatais–aolongodoséculo

XXI,juntamentecomaproliferaçãodasarmasdedestruiçãomaciçaedenovasquestõesdeconflito,entãooestudo

dopodernassuasdiversasdimensões–militar,econômica,psicológicaeideológica–continuaráadestacar-se

pelasuaimportância.

44 Grandepartedainformaçãorelevante,porexemplo,paraoestudodatomadadedecisõesempolíticaexterna

(incluindoperfispsicológicosdosdecisorespolíticos)nãoéfácilderecolherepodemesmonãoviraestardisponível

aoacadêmico.

45 Ocaospressupõedesordemeimprevisibilidade,porém,épossívelinclui-lonasleisdanatureza,contantoque

essanoçãosejageneralizadapelainserçãodenoçõesdeprobabilidadeedeirreversibilidade.PRIGOGINE,Ilya.