EOGRÁFICAS
Um tributo a Felisberto Cavalheiro

PAISAGENS GEOGRÁFICAS Um tributo a Felisberto Cavalheiro

Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão Diretor da FECILCAM - Anonio Carlos Aleixo Vice-Diretor - Éder Rogério Stela

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Organizadores Douglas Gomes dos Santos IG-UFU João Carlos Nucci DGEOG-UFPR PAISAGENS GEOGRÁFICAS Um tributo a Felisberto Cavalheiro Campo Mourão 2009 .

Vários Autores. 196 p. 2009.2 . Estudos aplicados.© 2009. Título CDD:910.Campo Mourão: Editora da FECILCAM. Ecologia da Paisagem. -. ISBN 978-85-88753-07-5 1. 4. Dos Autores Direitos desta edição reservados à Editora da FECILCAM Capa: Fotografia de Felisberto Cavalheiro Arte final e diagramação: Fernando Árthur de Medeiros Machado Editoração e composição: Editora da FECILCAM Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S237P PAISAGENS GEOGRÁFICAS: Um tributo a Felisberto Cavalheiro. Geografia 2. /Organização de Douglas Gomes dos Santos e João Carlos Nucci. 3.

Muno Colesanti Paulo Celso D. Muno Colesanti Oriana Aparecida Fávero Valéria Nehme Guimarães . Del Picchia Vânia Rosolen Yuri Tavares Rocha Equipe de Apoio Michelle Camilo Machado da Silva Marlene T. Rodrigues Gert Gröning Humberto Gallo Junior João Carlos Nucci Lívia de Oliveira Marlene T. C.Organizadores Douglas Gomes dos Santos João Carlos Nucci Autores Andréa Presotto Débora Olivato Douglas Gomes dos Santos Fabiane dos Santos Toledo Felisberto Cavalheiro Gelze Serrat S.

Sumário página Apresentação Douglas Gomes dos Santos Felisberto Cavalheiro e um exemplo de cooperação Brasil-Alemanha na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres Gert Gröning Histórico do ordenamento da paisagem Paulo Celso D. C. Rosolen Pau-Brasil e a transformação da paisagem da Floresta Atlântica Yuri Tavares Rocha 08 10 1 2 3 4 5 18 50 65 78 6 103 7 118 8 135 9 10 153 164 11 170 12 181 . Rodrigues Pedogênese e mudanças na paisagem: um exemplo da região Sudoeste da Amazônia Brasileira Vânia S. políticas ambientais. Unidades de Conservação e gestão do território Humberto Gallo Junior Débora Olivato Planejamento e gestão de Unidades de Conservação Humberto Gallo Junior Débora Olivato Percepção ambiental Lívia de Oliveira Educação para o meio ambiente e Geografia Marlene T. Muno Colesanti Gelze Serrat S. Toledo Douglas Gomes dos Santos Legislação. Del Picchia Ecologia e planejamento da paisagem João Carlos Nucci Urbanização e alterações ambientais Felisberto Cavalheiro Planejamento dos espaços livres localizados nas zonas urbanas João Carlos Nucci Andréa Presotto Um índice de áreas verdes para a cidade de Uberlândia/MG Fabiane S.

As temáticas e os capítulos aqui apresentados correspondem de certa forma. o livro em homenagem não só a Felisberto Cavalheiro. que se debruçaram sobre as temáticas da Educação Ambiental e Paisagem. grande preocupação acadêmica de Felisberto Cavalheiro. um estudo de caso. distribuí entre os interessados em compor a obra. A Profa. assim como as Professoras Marlene T. formassem uma linha mestra para a publicação do livro. unidades de conservação e gestão do território. escreveu sobre sua especialidade. A Professora Lívia de Oliveira. . Infelizmente. Toledo e Douglas G. Michelle Camilo Machado da Silva fomos os responsáveis por receber. mas também à sua obra e sobre o conceito de Paisagem para a Geografia. Yuri Tavares Rocha escreveu sobre o PauBrasil e a Floresta Atlântica. João Carlos Nucci. o Prof. Dr. pois não contávamos mais com o apoio do nosso saudoso professor. nos reunimos para dar os encaminhamentos necessários à publicação da obra. O arquiteto Paulo Celso Dornelles del Picchia contribuiu com um importante capítulo sobre o histórico do ordenamento da paisagem. juntamente com a aluna de graduação em Geografia. Felisberto Cavalheiro na Alemanha nos anos de 1970. João Carlos Nucci se encarregou de escrever os capítulos ligados à Ecologia da Paisagem e do planejamento de espaços livres no espaço urbano (juntamente com Andréa Presotto). desenvolvido em Uberlândia/MG. sobre o índice de áreas verdes por habitante na área urbana da cidade. Tomava corpo. Felisberto. às aulas lecionadas pelo Professor. numa homenagem emocionante. a partir do ano 2000. Fabiane S. A aluna Michelle teve. juntamente com seus orientados de Mestrado e Doutorado. que resultaram em seu falecimento no ano de 2003. organizar e colaborar com os autores. Gert Gröening. um dos assuntos de sua tese de doutoramento orientada pelo professor Felisberto Cavalheiro. assim. métodos e técnicas de Ecologia da Paisagem surgiu durante as aulas de TEORIA GEOGRÁFICA DA PAISAGEM. Eu. Vânia Rosolen apresentou um outro estudo empírico. Andréa Presotto e Humberto Gallo Jr. fato que a princípio nos deixou muito desorientados. Prof. O Prof. eu. Felisberto Cavalheiro no Departamento de Geografia da FFLCH-USP. Humberto Gallo Junior e Débora Olivato ficaram responsáveis pelos capítulos sobre legislação e políticas ambientais. fez uma importante contribuição sobre a vida acadêmica do homenageado. Felisberto passou a apresentar uma série de problemas de saúde. base dos estudos da Paisagem. sobre a influência da pedogênese na transformação da paisagem natural na Amazônia. organizaram o material das aulas para que. também. ministradas pelo Prof. a partir das idéias e das temáticas já organizadas pelo Professor. a importante incumbência de refazer todas as figuras constantes nesta obra. Muno Colesanti e Gelze Serrat Rodrigues. durante o EGAL (Encontro de Geógrafos da América Latina) no Departamento de Geografia da FFLCH-USP. Percepção Ambiental. então. desde o início dos anos de 1990. Santos publicam pesquisa empírica. orientador do Prof. e o seu texto foi traduzido para o português por João Carlos Nucci. a cópia das transparências das aulas ministradas por Felisberto para que todos pudessem escrever o seu próprio texto. Douglas Gomes dos Santos.8 APRESENTAÇÃO A idéia de um livro abordando conceitos. O Prof. Assim. Não houve tempo suficiente para a publicação de obra tão importante. Em 2005.

que é referência até os dias de hoje.9 Por fim. Uberlândia. e a escolha foi um artigo publicado em 1994 em obra organizada por Samia Tauk. Douglas Gomes dos Santos Instituto de Geografia Universidade Federal de Uberlândia . eu e João Carlos Nucci discutimos sobre a necessidade de incorporar à obra um texto do Prof. Felisberto. Dr. Março de 2009 Prof.

departamento de parques e recreação. trabalha com Cultura do Jardim e Desenvolvimento de Espaços Livres no Instituto para História e Teoria do Design da Universidade das Artes de Berlim (Berlim. Felisberto contou para sua “Kommilitonen”.000 habitantes por muitos anos. retornei de Berkeley. Alemanha. a qual eu realmente apreciei. ele explicou que. naqueles anos.CAPITULO 1 FELISBERTO CAVALHEIRO: um exemplo de cooperação Brasil-Alemanha na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres Gert Gröning1 Berlim. Durante meus estudos de pós-doutorado em Berkeley. 2006 Tradução: João Carlos Nucci Em 1974. Aquele crescimento anual de São Paulo podia ser comparado ao número de habitantes da cidade de Hanover. Alemanha. . que havia permanecido mais ou menos estável em 300. Em sua apresentação. em Hanover (Alemanha) e. Por alguma razão. Minha experiência em Berkeley fortaleceu uma abertura e orientação internacional em meus campos de pesquisa e ensino. Isto não era tudo. também. ele apontou que as questões relacionadas aos espaços livres eram entendidas muito diferentemente do que se via na Alemanha. Para um estudante da Alemanha em arquitetura da paisagem era absolutamente singular o recebimento de uma concessão americana naqueles dias. Com um bem estabelecido programa de conferencistas e professores visitantes de todas as partes do mundo. eu pude experienciar abertamente todos os tipos de assuntos estrangeiros e. Ele apresentou um discurso sobre “Problemas específicos do planejamento de espaços livres em uma grande cidade de rápido crescimento – o exemplo de São Paulo. Faculdade de Design Ambiental. Isso foi possível graças à eminente arquiteta paisagista americana Beatrix Jones Farrand (1872-1959) que havia decidido doar sua herança profissional e algum dinheiro para bolsas-de-estudo na Universidade da Califórnia em Berkeley. a população de São Paulo crescia a uma taxa de cerca de 300. ter acesso a uma rara biblioteca do Campus. A administração municipal dos espaços livres. atualmente. colegas bolsistas e a mim uma estória sobre espaços livres que nós achamos difícil de acreditar. um brasileiro chamado Felisberto Cavalheiro sentiu-se atraído pelo tópico e participou desse seminário. isto se materializou no seminário “Questões gerais no Planejamento de Espaços Livres” que eu coordenei na Universidade de Hanover em 1974. Os seis meses em Berkeley provaram ser um gratificante suplemento para meus estudos em Arquitetura da Paisagem na Alemanha. Pela primeira vez em minha vida. a Universidade da Califórnia em Berkeley ofereceu uma oportunidade única de familiarização com os aspectos da arquitetura da paisagem que eu nunca tinha ouvido falar. Alemanha). Austrália e América do Sul. encontrei estudantes de fora do mundo europeu. o departamento de cemitérios e o departamento de floresta 1 O professor doutor Gert Gröning foi orientador do trabalho de tese de doutoramento de Felisberto Cavalheiro.000 pessoas por ano. Califórnia para Hanover. A bolsa foi fornecida pelo Departamento de Arquitetura da Paisagem. Alemanha. da Universidade da Califórnia em Berkeley. A bolsa-de-estudos tinha o nome de Beatrix-FarrandGrant. tais como Japão. Brasil”. vindo de uma bolsa-de-estudo concedida para pesquisa a universitários já graduados. Entre outros.

considerados uma liderança na Alemanha2. em 1963.13-33. provavelmente para alguns outros países europeus. Em 1972. suas várias regiões e enormes cidades. assim. Ele trabalhou por doze anos no departamento de parques e recreação da cidade de São Paulo e. a imensidão de seus espaços livres. Campinas. pp. em suas grandes cidades. especialmente. na Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo em Piracicaba. que o planejamento de espaços livres era quase desconhecido na metrópole de São Paulo. Development in a Land of Contrast. os anos de 1970 na América do Sul. que vieram de vários países europeus. descobrimos alguns fatos sobre sua história e constituição social e não sabíamos nada sobre os “paulistas” e os “bandeirantes”. Por exemplo. Population Change in Brazil: contemporary perspectives. 4 veja por exemplo BERQUÓ. a apresentação de Felisberto foi uma real abertura-de-olhos.11 em Hanover eram conhecidos por terem um bom time de funcionários e por serem muito bem equipados. eram muito interessantes. com grandes falhas no hemisfério sul. muito menos qualquer conhecimento acerca da sociedade brasileira. fundada em 1892. Então. Brazil. com São Paulo em meu. mundialmente. CA. ambos originários de São Paulo. Em 2006. No início dos anos 1970. Berlin. especificamente nas cidades do Brasil. Daniel Joseph (org. Esses lugares para a Alemanha. Elza 2001: Demographic Evolution of the Brazilian Population during the Twentieth Century. não tínhamos idéia da evolução demográfica de sua população que havia pulado de 71 milhões em 1960 para mais de 100 milhões em 1972. Apesar do rápido crescimento das cidades brasileiras. O conhecimento de Felisberto ajudou a consolidar algumas ligações com a América do Sul e. a magnitude do crescimento anual da população urbana de São Paulo estava além da imaginação. Felisberto se mostrava muito entusiasmado e compromissado com seu caso brasileiro. Também. Felisberto foi voluntário por três meses no departamento de parques e recreação da cidade de Hamburgo na Alemanha. o planejamento de espaços livres não era o maior problema e não havia nenhum programa universitário para a formação de arquitetos paisagistas. e. vago campo de conhecimentos acerca da arquitetura da paisagem mundial. Em 2 Para maiores detalhes sobre os 100 anos de desenvolvimento da administração de espaços livres em Hanover de 1890 a 1990 veja: GRÖNING. Apesar das numerosas deficiências para o desenvolvimento de espaços livres. todos nós não tínhamos idéia do real tamanho do Brasil. Gert and Joachim WOLSCHKE-BULMAHN 1990: Von der Stadtgärtnerei zum Grünflächenamt. meu relacionamento com Felisberto tornou-se mais próximo. no início do século XXI por Berquó4 e outros que ainda não estão disponíveis para nós. pois ele acreditava pudesse servir como um exemplo da cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres no Brasil e. Aprendi muito com Felisberto e ele queria muito aprender a respeito da situação na Alemanha. Stanford. Tais estudos foram publicados trinta anos depois. Vinod 2006: From Inside Brazil. . para a surpresa dos próprios brasileiros. Além disso. 3 veja THOMAS. está se tornando o quinto colocado em tamanho de sua população e em área3. estariam associados com Carnaval e exotismo. como apresentado. ainda. in: Hogan.). SP. e isto me incluía. Ela permitiu-nos um vislumbre da vida real das cidades brasileiras e uma percepção razoável sobre as questões dos espaços livres. teve um íntimo conhecimento da administração de espaços livres. 100 Jahre kommunale Freiflächenverwaltung und Gartenkultur in Hannover (1890-1990). Para nós. Felisberto enfatizou em sua apresentação. Para os estudantes do seminário. Tomei conhecimento de que ele havia nascido em São Paulo e lá permaneceu até iniciar seus estudos de graduação. o Brasil está se aproximando dos 190 milhões de habitantes e. especialmente. Com esse primeiro encontro.

design. Seu receio se baseava no fato de que a ‘Luiz de Queiroz’ era uma escola de agricultura e não de arquitetura da paisagem. é considerado único em todo Brasil5. Não obstante. um parque para essa escola no estilo paisagístico inglês e supervisionou sua execução em 1909. ele não estava certo de que pudesse fazê-lo. Nós acreditávamos estar justificado que todos os seus estudos e sua experiência eram equivalentes a graduação em arquitetura da paisagem na qual. Henrique Sundfeld 2001: Study of the transformations in display of arboreal/shrubs masses of the park of the Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” using vertical aerial pictures and floristic surveys of different times”. sua educação formal não me parecia suficiente para uma qualificação como estudante de doutorado na Universidade de Hanover na Alemanha. Dr. Naqueles dias. construído no estilo neoclássico em 1895. Embora estivesse claro para mim que o interesse de Felisberto era na arquitetura da paisagem. O parque se localiza em frente ao Museu do Ipiranga. bem como durante sua passagem pela administração de espaços livres em São Paulo. Felisberto havia adquirido conhecimento suficiente em sua Universidade no Brasil. eu escrevi uma carta para o decano da Faculdade de Horticultura e Manutenção da terra (Fakultät für Gartenbau und Landespflege) da Universidade de Hanover juntamente com o professor Konrad Buchwald em outubro de 1976. especialmente. algo de reminiscência dos Jardins de Versailles. organizado por Felisberto. e também com seus estudos adicionais na Universidade de Hanover. Tornou-se claro para mim que Felisberto estava interessado em escrever sua tese de doutoramento e que ele acreditava que eu pudesse ajudá-lo na implementação de alguns aspectos relacionados com espaços livres. ele me contou quão impressionado estava pelo alto grau de realização na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres apresentada por aquela administração e que ele sentia fortemente a necessidade de uma instituição comparável àquela em sua cidade de São Paulo. planejamento. Porém. podem receber o título de Diplom-Ingenieur na Universidade de Hanover. Felisberto veio para a Universidade de Hanover onde queria continuar seus estudos na arquitetura da paisagem. Contudo. e administração no Brasil e. Até hoje o design inglês de Puttemans para o parque de Piracicaba/SP. O interesse em arquitetura da paisagem tornou-se claro para mim quando tive a chance de ver o parque em Piracicaba. convencido de que seu compromisso com as questões profissionais da arquitetura da paisagem era sério e forte. Contudo. Valdemar Antonio Demétrio. com base em nosso ponto de vista. enfatizando seu rápido crescimento das cidades. setores da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ obviamente tratavam de arquitetura da paisagem. assim. Felisberto poderia iniciar sua tese de dou- 5 Ver BARBIN. Puttemans implantou claramente em seu conceito vários eixos de visão e. Com apoio de Luiz Teixeira Mendes. A carta explicava que.12 muitas ocasiões. supervisor: Prof. master thesis. Em 1909. então. na Escola Superior de Agricultura. Após um novo retorno para o Brasil. o arquiteto paisagista belga Arsênio Puttemans projetou. ele também projetou o Parque da Independência. França. forneceu um exemplo local para os estudos de arquitetura da paisagem. que hoje é o Museu Paulista administrado pela Universidade de São Paulo. em Rio Claro/ SP. University of São Paulo. professor de cultura de frutos e florestas da Escola Superior. Department of Forest Sciences. Puttemans também ensinou arquitetura da paisagem no departamento de horticultura da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’. Se o decano concordasse com isso. Brazil. os que são aprovados nos exames. não havia escola de arquitetura da paisagem no Brasil naqueles dias. por volta de 1907. ele era um designer de espaços livres bem conhecido no Brasil. em 2000. na ocasião do I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem e Planejamento Ambiental. .

Ele percebeu que algumas pessoas que ele havia selecionado para as entrevistas tentavam se esquivar das questões. foi solicitado que ele enviasse um título preliminar de sua tese de doutoramento para a reunião do conselho da faculdade em 9 de fevereiro de 1977. embora tivesse garantido que não mencionaria seus nomes. mas não sobre meu tema). isto é. uma verba adicional para a pesquisa empírica que ele planejara ao retornar para São Paulo. Como título de trabalho de sua tese Felisberto entregou Chancen und Probleme der Institutionalisierung einer Freiraumverwaltung in einer wachsenden Großstadt der Dritten Welt.13 torado que seria essencial para seu interesse futuro de estabelecer uma disciplina de planejamento de espaços livres no Brasil. Ele escreveu: “Die meisten wollen über alles sprechen aber nicht über das Thema” (A maioria quer falar acerca de tudo. então. Foi-lhe concedido. Felisberto relatou acerca das dificuldades encontradas em São Paulo. Alguém sugeriu que ele mesmo deveria responder as questões porque ele sentiu que o tópico era sério demais para ser aplicado para o Brasil. No dia primeiro de fevereiro de 1977. Também. Em dezembro de 1977. em meu parecer para o DAAD sobre os planos de Felisberto. O que se seguiu foram semanas e meses intensos de estruturação da tese. Então. e os resultados foram encaminhados para o conselho. Em 11 de janeiro de 1977. e eu fiz um comentário sobre seus propósitos para o DAAD. exemplo de São Paulo/Brasil). o disputatio. Felisberto. Seu tópico era evidente. e outro em planejamento de espaços livres e planejamento do verde (Freiraumplanung und Grünplanung) comigo. mesmo com a concordância no início da entrevista. explicando como gostaria de proceder com sua tese. Além disso. Felizmente. um árduo calendário para uma tese de doutorado. também. Alguns se recusaram a falar quando ele solicitou o nome do entrevistado. Nesse projeto. Em uma carta do início de março de 1978. o DAAD acolheu esse ponto de vista. Felisberto realizou os exames em dezembro de 1976 e janeiro de 1977. Felisberto mostrava acreditar que seria capaz de terminar sua tese no final de setembro de 1978. em um ano e meio. dargestellt am Beispiel São Paulo/Brasilien (Oportunidades e problemas da institucionalização de uma administração de espaços livres em uma metrópole do Terceiro Mundo em crescimento. estudos que o conduziriam ao título de doctor rerum horticulturae na Universidade de Hanover. Algumas delas Felisberto queria verificar por meio de questionário.Landschaftsplanung der Ballungsräume) na Universidade de Hanover. eu senti que deveria ser cauteloso. o Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão (DAAD) concordou em fornecer a Felisberto um suporte para seu Promotions-Studium. Foi a implementação e o estabelecimento da administração de espaços livres na cidade de São Paulo com todas as suas implicações e conseqüências. Um em planejamento da paisagem (Landschaftsplanung) com o professor Buchwald. Outras. determinou que Felisberto teria de fazer três exames adicionais. ele preferiu verificar em entrevistas pessoais. com sucesso. o decano informou a Felisberto que ele havia atingido todos os requisitos para a admissão como estudante de doutorado na Faculdade de Horticultura e Manutenção da terra. realizou sua primeira apresentação em um colóquio de pesquisa que eu ofereci para estudantes de doutorado na cadeira de planejamento do verde – planejamento da paisagem de regiões metropolitanas (Grünplanung . Após intensa preparação. Alguns sentiram . Eu sugeri um ano adicional antes que Felisberto fosse capaz de concluir os exames finais. um em história do planejamento de espaços livres e história de cidades verdes (Geschichte der Freiraumplanung und Geschichte des Stadtgrüns) com o professor Hennebo. O decano apresentou o caso para o conselho da faculdade (Engere Fakultät) que. planejadas para serem aplicadas a pessoas da administração de espaços livres e outros especialistas em São Paulo. viajou para São Paulo e começou seu trabalho com as entrevistas. a mim endereçada. Alguns pareciam estar receosos de que ele pudesse citar suas opiniões em sua tese. de sua tese. Logo após enviou um projeto para o Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão (DAAD). Felisberto desenvolveu uma série de hipóteses.

Logo após retornar para Alemanha. legislação ambiental. e talvez em todo o Brasil. professor Konrad Buchwald. departamento de parques e recreação da cidade de São Paulo e de outras cidades tais como Rio de Janeiro. F. Nós concordamos que eram necessárias pessoas como ele para encaminhar as questões sobre meio ambiente. o planejador da paisagem. Infelizmente. Obviamente devido à sobrecarga de trabalho durante o tempo em que esteve no Brasil.rer. Depois. e muitos outros da educação.14 que por ele ter estado na Alemanha por muito tempo. No final. Aqui Felisberto fazia parte de um grupo de pessoas que escreveu recomendações sobre legislação ambiental. mas uma séria doença favoreceu o atraso de seu trabalho. conforme conselhos médicos. arquitetura. estabelecimento de programas especiais para arquitetos paisagistas em universidades. Todavia Felisberto lutou contra todas as adversidades. a institucionalização da administração de espaços livres. Todos nós concordamos que Felisberto assentou a pedra fundamental do desenvolvimento dos estudos no campo do planejamento de espaços livres em São Paulo. Um deles foi organizado pela Associação Brasileira para o Progresso da Ciência. contudo. ele estava certo de que poderia fazê-lo no final do ano. eu escrevi ao DAAD que Felisberto estava na fase final de sua tese. e ele teve que cancelar os planos de entregá-la ao final de setembro. que realizou seu encontro anual em Setembro de 1978 no Brasil. Como membro da Sociedade Brasileira de Paisagismo. Em meu relato ao DAAD em junho de 1979. o geobotânico. tivesse se tornado um “alemão”. estava no Instituto de Engenharia Ambiental da Universidade Nacional de Taiwan.hort.Gegenwärtige Situation und Chancen zukünftiger Entwicklung (Administração Municipal de Espaços Livres em São Paulo/Brasil – situação atual e oportunidades para o desenvolvimento futuro). Como o professor Buchwald. Isto significou um sério contratempo para o trabalho de sua tese. Cavalheiro para doctor rerum horticulturae. . ele ficou satisfeito com o que pôde conseguir. participou da preparação de dois encontros científicos no Brasil em 1978. e em Ouro Preto falou com funcionários do município. Também. o co-orientador da tese. Felisberto. Comparando o título de seu trabalho com o título final da tese. a data esperada para o disputatio teve que ser postergada por dois meses. Agr. agricultura. Felisberto não seria capaz de realizar o seu disputatio antes do final de março de 1980. ativo como sempre foi. o historiador de jardins. Isso foi aceito pelo DAAD e Felisberto teve a garantia de subsídios na reta final até maio de 1981. economia e proteção da natureza. para enfrentar os múltiplos problemas relatados sobre espaços livres que poderiam acompanhar o futuro desenvolvimento do Brasil. professor Hans Kiemstedt. planejamento. Dr. Belo Horizonte. Finalmente. finalmente. teve a oportunidade de realizar três conferências em São Paulo nas quais explanava sobre a contribuição que o desenvolvimento de espaços livres poderia trazer para o planejamento da cidade. A banca para o mündliche Doktorprüfung (exame oral de doutoramento) foi constituída pelo ecólogo da paisagem. e também. isso acabou sendo a verdade. houve somente uma leve alteração para Die kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/Brasilien . Ele conversou com pessoas do DEPAVE (Departamento de Parques e Áreas Verdes). e devido ao seu interesse de pesquisa. Em maio de 1980. habitação. o conselho do departamento de horticultura e manutenção da terra da Universidade de Hanover concordou com a promoção do Herr Eng. A finalização das entrevistas consumiu muito mais tempo consumido do que Felisberto havia planejado. Felisberto foi para o hospital onde ficou por quase dois meses. assumi que dado ao seu estado de saúde. No início de novembro de 1980. o exame ocorreu em 29 de junho de 1981. mas necessitava de alguns meses até o início de 1981. professor Hans Langer. O outro evento foi organizado pela Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas. professor Dieter Hennebo e por mim. teve que tomar muito cuidado no decorrer do ano. esportes. conseguiu entregar sua tese. Em 22 de abril de 1981.

. Felisberto alcançou a posição de professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia. surgiu seu “Urbanização e Alterações Ambientais” 7 no qual. em Vitória. Rio Claro era quase rural. Em 1983. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). a árvore da qual o Brasil recebeu seu nome. foi abundante. participou ativamente dos encontros dessa sociedade com proeminente contribuição.90. Felisberto estabeleceu vários contatos e promoveu o desenvolvimento profissional do planejamento dos espaços livres no Brasil. conseguiu aulas adicionais em planejamento do meio físico no programa de pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). e foi ali onde iniciou a aplicação de sua experiência adquirida na Alemanha à realidade do Brasil. capital do Brasil. Ele continuava trabalhando em São Carlos. parques. Esse foi. que nunca foi construída. a única região de floresta do sudeste de São Paulo. e qualidade de vida nas cidades. Felisberto 1991: Urbanização e Alterações Ambientais. se refere a literatura alemã e muitas outras fontes internacionais. Pelos 15 anos seguintes. o pau-brasil (Caesalpinia echinata)6. Lá. desde então. Em 1992. Fora os muitos artigos. aqueles interesses em espaços livres. Gobbi. em 1982 e 1983. organizou em 2001 o 5º Congresso de Ecologia do Brasil “Ambiente e Sociedade” em Porto Alegre. Nivar. outrora. p. aqui p. Além de ensinar e orientar. Em 1991. publicou um artigo 6 Para uma breve descrição e algumas imagens ver Caesalpinia echinata Lam. Ele deu aulas sobre vários assuntos abordando a temática do planejamento de espaços livres. RS. De 1998 a 2001. no final de 1981. Ele ensinou sobre planejamento de espaços livres urbanos bem como Teoria Geográfica da Paisagem e Biogeografia no curso de graduação em Geografia. in: Lorenzi. novamente. Sâmia Maria. Análise Ambiental: Uma visão multidisciplinar. FAPESP:SRT:FUNDUNESP. gostaria de apontar apenas um pouco do que acredito indicar melhor seu contínuo interesse nos assuntos de educação e seu interesse em cooperar com os outros. SP. A espécie está agora quase extinta no Brasil. orientou teses e dissertações. Harri 2002: Brazilian Trees. também. um trabalho pioneiro. Contudo. Com sua atividade interminável. ele cooperou ativamente no desenvolvimento de uma série de regulamentações legais e administrativas para o planejamento ambiental na recém criada Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA) em Brasília. lembro-me de sua grande preocupação com a mata atlântica. planejou-se a instalação de uma usina nuclear. Felisberto foi presidente da Sociedade de Ecologia do Brasil e como tal. Felisberto iniciou a publicação em vários periódicos e livros. Em 1986. Ali. 7 CAVALHEIRO. foi responsável pela Ecologia da Paisagem e design ambiental e. ele também orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado. Felisberto teve dificuldades de encontrar um trabalho permanente. Em 1988. explicitamente. Então. Na pós-graduação. De muitas conversas com Felisberto. jardins.88-99. da qual restam somente menos de dez por cento de sua área original. Comparado com São Paulo. Nova Odessa. proteção da natureza e muitos temas associados a esses tópicos encontraram nele uma personalidade e um suporte muito ativos. arborização. pp. in: Tauk. Em 1998. and Harold Gordon Fowler (org. foi membro fundador da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) e.161. São Paulo. planejamento. nesta pequena cidade. A Guide to the Identification and Cultivation of Brazilian Native Trees. Também na mata atlântica do Estado de São Paulo. Eu sou muito grato ao professor Yuri Tavares Rocha que presenteou-me com um exemplar desse livro único.15 De volta ao Brasil. Felisberto pareceu-me florescer.). Espírito Santo. ele se tornou professor do departamento de ecologia da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP) em Rio Claro.

Valdemar Antonio Demétrio. Brazil. In TAUK. 11 Ver GRÖNING. Nucci 1998: Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana. Brazilian Trees. Gert. juntamente com Davis Gruber Sansolo. 9 Ver e. Population Change in Brazil: contemporary perspectives. Harri.10 Esses são apenas alguns exemplos das bem distribuídas atividades de Felisberto. a guide to the identification and cultivation of Brazilian native trees. pp. 52. pp. Felisberto e João C.Ein Pionier der Freiraumplanung in Brasilien. Campinas. São Paulo: Nova Odessa. master thesis. Curitiba/PR. São Paulo. Gert.109-131.). João Carlos 2001: Qualidade Ambiental & Adensamento Urbano: Um estudo de Ecologia e Planejamento da Paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP).g. in: Paisagem e Ambiente .16 sobre “Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana” 8 juntamente com João Carlos Nucci. Stadt und Grün. in: Dos Santos.277-288. agora. Joachim WOLSCHKE-BULMAHN Von der Stadtgärtnerei zum Grünflächenamt. 57-58. 161p. SP. pp. 2003 LORENZI. Felisberto publicou “Geografia e Educação Ambiental”. Brazil. F. 2001 CAVALHEIRO. Daniel Joseph (org. Nucci. 100 Jahre kommunale Freiflächenverwaltung und Gartenkultur in Hannover (1890-1990).). um de seus orientandos. Berlin. Felisberto Cavalheiro (1945-2003) . professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná. 52. Brazil. Davis Gruber e Felisberto CAVALHEIRO 2001: Geografia e Educação Ambiental. Felisberto. in: Paisagem e Ambiente . SP.rer. São Paulo: FAPESP : SRT : FUNDUNESP. que hoje trabalha como professor da Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo.11 REFERÊNCIAS BARBIN. Felisberto Cavalheiro (1945-2003) . Brazil. pp. NUCCI. 1990 GRÖNING. Sâmia et al (orgs).277-288. São Carlos. 12.hort. José Eduardo and Michèle Sato (eds. . 10 Ver SANSOLO.rer. 57-58. outro orientando de Felisberto e. volume 11. Análise ambiental: uma visão multidisciplinar. que também se tornou atuante nessa área.Ensaios. Henrique Sundfeld Study of the transformations in display of arboreal/shrubs masses of the park of the Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” using vertical aerial pictures and floristic surveys of different times. João C. Gert 2003: Professor Dr. p. 2001 BERQUÓ. 12. Department of Forest Sciences. A Contribuição da Educação Ambiental à Esperança de Pandora. 88-99. 2002 8 Ver CAVALHEIRO. Dr. in: Hogan. volume 11. Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana. e com isso eu concluo: por tudo que Felisberto Cavalheiro realizou. supervisor: Prof. Elza Demographic Evolution of the Brazilian Population during the Twentieth Century. Humanitas/FFLCH/USP.9 Em 2001. Stadt und Grün.13-33. Professor Dr.hort. Urbanização e alterações ambientais. ele pode ser considerado o pioneiro da cultura de jardins e do planejamento de espaços livres no Brasil. 1991 CAVALHEIRO. 1998 GRONING.Ein Pionier der Freiraumplanung in Brasilien. University of São Paulo.Ensaios.

17 NUCCI.). São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP. Felisberto. Stanford. CA. Qualidade Ambiental & Adensamento Urbano: Um estudo de Ecologia e Planejamento da Paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). João Carlos. 2006 . pp.109-131. in: Dos Santos. 2001 SANSOLO. José Eduardo and Michèle Sato (eds. Davis Gruber. 2001 THOMAS. Vinod From Inside Brazil. A Contribuição da Educação Ambiental à Esperança de Pandora. Development in a Land of Contrast. Geografia e Educação Ambiental. CAVALHEIRO. São Carlos.

conheceram as barbaridades da Guerra dos Camponeses e as guerras religiosas e pintaram aspectos da natureza que exprimiam as convulsões do espírito humano. É a época dos “jardins do paraíso”. a Virgem. historicamente. Clark (1961) mostra como a cultura ocidental está. estivera impregnada do sentido grego de valores humanos o que levou o conceito da natureza a desempenhar um papel secundário. A representação da paisagem estava ligada à filosofia cristã medieval em que a vida terrena é passageira e o ambiente em que ela é vivida não deve absorver toda nossa atenção. Desde a Idade Média. Flores. ligada à evolução cultural do Homem. A “paisagem fantástica” é a representação do misterioso e do desconhecido que começa já no século XV quando os artistas originários das cidades e que tinham como clientes as populações urbanas. No campo da arquitetura e do jardim. ele fala de uma “paisagem de símbolos”. da “paisagem fantástica”. Percorrendo os caminhos da pintura. Os sentidos nos desviariam da noção de Deus e poderiam induzir ao pecado. A paisagem era usada para fins decorativos sendo seus elementos apresentados como cenário para os feitos humanos. o Homem tem ordenado a paisagem nos locais que habita. ciclo que precedeu a época medieval. frutas. da busca resoluta da verdade. idealizada. A “paisagem de símbolos” da arte medieval não representava os objetos naturais em sua real aparência. da “paisagem ideal” e da “visão natural”. A concepção da natureza e o desenho da paisagem desenvolvem-se acompanhando a evolução histórica da Humanidade. o Unicórnio. o mito da Idade de Ouro na qual o Homem vivia dos frutos da terra numa verdade antes poética que científica. Bellini. Fala da representação da luminosidade. o equivalente seriam os pátios e claustros monásticos. cheio de trevas. isolados do mundo exterior. maldade e fúria. que já tinham aprendido a controlar as forças naturais e passaram a encarar as ameaças da floresta e da inundação e podiam usá-las conscientemente para provocar um sentimento de horror. poética. 12 Arquiteto (FAUUSP). Ao abordar a representação da paisagem na pintura. Como uma característica da espécie humana o fato de o Homem não ter um nicho restrito na face da Terra e o fato de ser cosmopolita determinou a necessidade de modificar o meio ambiente segundo as suas necessidades de sobrevivência. A “paisagem dos fatos” é apresentada por exemplos da pintura flamenga notadamente dos séculos XV e XVI. Poussin. da “paisagem dos fatos”. A “paisagem ideal” reflete uma paisagem arcadiana. a pintura da paisagem é um ciclo em que o espírito humano procura criar harmonia com aquilo que o rodeia. Cita Grünewald. Os elementos de realismo combinam-se com o sonho. jardins encerrados por muros. ainda. que a Antiguidade Mediterrânea. Para ele “a pintura da paisagem marca as fases da nossa concepção da natureza”. Del Picchia12 Desde tempos imemoriais.CAPITULO 2 HISTÓRICO DO ORDENAMENTO DA PAISAGEM Paulo Celso D. Departamento de Parques e Áreas Verdes . Altdorfer e Bosch que haviam visto cidades queimadas pelos mercenários. Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente. pássaros. do estudo minucioso de cada objeto retratado e conclui que seguramente essas pinturas deviam mais à observação que à imaginação. Afirma. Cita Giorgione.

Ele era parte de um recinto cercado plantado com árvores onde os gregos treinavam para os jogos Olímpicos. com água em primeiro plano refletindo o céu luminoso e enquadrada por árvores escuras. Os jardins de Pompéia são jardins urbanos. rua arborizada. Os jardins dessas propriedades. OS JARDINS NA ANTIGUIDADE Os jardins da Antiguidade nos chegaram ao conhecimento mais por relatos literários. Na casa dos Vetii em Pompéia. Se para os gregos o desfrutar da natureza era fortuito. daí os romanos chamarem de Xystus as aléias dos seus jardins. ligado ao conforto da sombra para conversar. os romanos estavam ligados à terra. dos jardins de suas vilas. podemos perceber o que os romanos entendiam ser um jardim (CLIFFORD. Nos peristilos existiam muitas bacias de água. Era constituída por um grupo de edifícios. Cita como expoentes dessa “visão natural” Turner. pequenas estátuas que serviam de condutores. pilares de Hermes e. (Figura 2. Constable. Essa área coberta. Se na Grécia esses pátios eram pavimentados. Se os jardins dessas vilas eram herança dos gregos. entre outras. em Pompéia eles eram em terra. entre os romanos. 1966). o jovem. Esse amor pela natureza os fez constituir vastas propriedades e usufruir de suas belezas naturais. O Xystus. no interior das residências. Longe da idealização. soterrada pela erupção do Vesúvio no ano 79 da era cristã e que foi descoberta em 1748. Em paredes cegas. a paisagem nos princípios do século XIX passa a ser retratada numa “visão natural”. cultural e desportivo. não prezavam o luxo e a ostentação e dedicavam-se mais a uma vida coletiva e. Eram esses os jardins gregos. o peristilo. apareciam pinturas em trompe l’oeil retratando cenas de jardim com treliças cobertas por plantas. Por essas pinturas. Diferentemente dos gregos ligados ao mar. assim. 1966). conhecemos pelas descrições do jovem Plínio. Na verdade. herói lendário da Ática. que podemos considerar de uso público. os contrastes da folhagem. o que nos faz supor a existência de plantas. o peristilo tem cerca de 15 metros de comprimento por 8 metros de largura.19 Claude Lorrain. que entre os gregos significava um pórtico coberto debaixo do qual se exercitavam os atletas e. para os romanos as árvores. São pátios descobertos cercados por colunas. era uma construção de jardim que protegia os atletas em suas práticas do mau tempo. as vilas. Os gregos. sua essência era outra. era algo que toda a gente estava de acordo em reconhecer como belo”. para o encontro social.1). “Uma cena calma. . o que dificulta o seu resgate. Os jardins dos romanos viemos a conhecê-los graças à catástrofe de Pompéia. depois. que era um homem de riqueza. O jardim como arte efêmera dificilmente deixa restos e os poucos que porventura tivessem se salvado foram destruídos por escavações outras que não deram atenção a seus remanescentes. aléia de jardim. Nesses jardins eram erigidas estátuas dos heróis vencedores dos Jogos Olímpicos. estudado e culto. provavelmente. em que eles praticavam seus esportes e discutiam filosoficamente suas idéias (CLIFFORD. Outra fonte de conhecimento são as descrições de Plínio. Eram mais salas que jardins. Corot. aves. a sensação de frescor e paz eram um fim em si mesmo que eles desfrutaram como homens do campo. foi tomada por colunatas ao lado das quais estavam caminhos a céu aberto. mais parecendo uma aldeia. plantas. A vila romana não tinha unidade. bosques com caráter sagrado dedicados a Academus. seus jardins não eram privados como os dos romanos. diferentemente dos romanos.

foram mais funcionais que ornamentais. O JARDIM NA IDADE MÉDIA O jardim da Idade Média formava uma unidade entre o jardim útil e o jardim artístico (ERMER et al. 1996). Estátuas cômicas eram admitidas. os restos do grande passado estavam pesadamente no solo mais do que em qualquer outro lugar (CLIFFORD. Círculos e semicírculos. meu amigo (porque é já tempo). Leone Battista Alberti (1404-1472) em seu De Re Aedificatoria descreveu como um jardim deveria ser. 1966). Água corrente era desejável e seria melhor se jorrasse de surpresa em alguma gruta que tivesse sido decorada com conchas coloridas. delimitados por hera. amigo de Augusto. o jardim de Plínio está. Em buxo eram representadas batalhas navais. essencialmente. pérgolas e grutas de tufo. Arquitetura e verde se integravam e a topiária era um dos primeiros sinais de um amadurecimento e consciência das potencialidades materiais do jardim. As bordas cercadas para evitar as aves e cães transformaram-se no treliçado decorativo e daí desenvolveu-se para a balaustrada de cantaria. voltado ao desfrute privado. cães. cavaleiros. sendo suas prescrições uma mistura de clássico e . 1966). a baixa e sórdida perseguição da vida aos outros e. As estátuas dos jardins gregos foram substituídas pela topiária. então. Não seria uma mera reprodução de Plínio. Esse jardim estático por muito tempo tomou pulso e teve desenvolvimento dinâmico primeiramente na Itália. Diferentemente do jardim grego. as frutíferas deveriam ser mantidas em separado no pomar. Vasos decorativos deveriam ser usados para cultivar flores e o nome do proprietário deveria estar escrito em buxo. neste protegido retiro. Esse crescimento deveu-se à riqueza comercial e à relativa paz reinante na Itália. emancipe-se para seus estudos” (CLIFFORD.Maquete da Vila Adriana Em Tivoli – Roma. Haveria loureiros. além do mais. os quais em formas arquitetônicas como pátios seriam apreciados. caça. o do topiário. Buxo ou alecrim deveria ser usado para fazer as bordas dos canteiros. O JARDIM DO RENASCIMENTO O jardim do Renascimento é concebido como parte integrante do edifício e divide a mesma criatividade que se requeria para a casa. A casa deveria ser colocada numa leve elevação de modo que se obtivesse belas vistas a partir dela. Deveriam existir pórticos. Foto do autor 1999. contrariamente. às outras partes da Europa. o suporte das vinhas desenvolveu-se para a pérgola e o caramanchão. Os jardins. usando como modelo os jardins do jovem Plínio. conforme suas palavras: “Deixe. muitas vezes. ciprestes.20 Figura 2. porém. A água passou de funcional para ornamental. não havendo sinal dela antes dos tempos imperiais.. arte que foi primeiro praticada por Cnaius Martius.1 . o nome do proprietário e.

1444-1514) realizou. Como as vilas dessa época foram construídas em Roma onde não havia muita disponibilidade de água. Figura 2. já que escadas sempre existiram no jardim.com/article. casa e jardim fazem uma unidade reconhecível pelo olhar. Bramante utilizou um magnífico arranjo de escadarias e balaustradas e com isso compensou. jogos de água. Terraços e escadarias aparecem condicionados pela topografia. como vamos encontrar em Versalhes e nos jardins ingleses.Pátio Do Belvedere. é que as escadas tornaram-se o mais importante elemento do desenho do jardim. de 1579 Fonte: www. A Villa Lante atribuída a Vignola é um exemplo da transição entre o jardim do arquiteto e o jardim do escultor. de modo que não foi necessário um maciço arranjo de terraços para vencer a declividade. Detalhe Da Gravura De Hendryck Van Schoel. 1966). Para resolver o problema. (Figura 2. procuravam-se as encostas para satisfazer o desejo de fontes. a água vai desempenhar um novo papel. A Villa está localizada numa elevação suave.3). sendo seu uso mais social que privado. os jardins assumem um caráter de mais ostentação. A presença de bosques fez com que essa vila tivesse um parque ao lado do jardim. Posteriormente. em geral disfarçadas no desenho.2). Como este estivesse em posição mais alta que o Vaticano se fazia necessário procurar uma transição entre eles. O que se pode observar nos jardins desse período é o caráter público que assumem. a Casa Real de Nápoles era aragonesa.2 . Sixto V e Paulo V realizaram obras para trazer a Roma água o suficiente para abastecer a cidade e seus jardins. Na Idade Média a água aparecia no jardim na forma de uma fonte ou poço. a ligação do Vaticano com o Belvedere. o uso era para o deleite do proprietário. Outra característica do sítio era a presença de bosques e abundância de água. no século XV. sob a influência do gosto islâmico que chegou à Itália através da Espanha. o que não sucedeu com as outras vilas próximas a Roma. (Figura 2. A novidade aqui. agora. também. o som e o movimento da água corrente. sob encomenda do Papa. poderia-se olhar sem dificuldade para o mundo fora dele (CLIFFORD. . Bramante (Fermignano. Roma. o desequilíbrio entre as duas construções de proporções desiguais. o jardim italiano se tornou um jardim de arquiteto.suite101. Nos jardins de Plínio. O jardim numa posição elevada. os Papas Sixto IV. pois. No período de 1503 a 1573.21 medieval.cfm/garden_design/111870 Neste período. numa inclinação. No jardim do Renascimento.

1966).htm Distante do espírito da Villa Lante está a Villa D’Este em Tivoli desenhada por Pirro Ligorio.6) e na Villa Borghese em Roma.canino. Segundo Clifford (1966). na Villa D’Este tudo é exagero (CLIFFORD. a Villa D’Este é um dos poucos jardins que preservam uma unidade.4. Se na Villa Lante tudo é moderação.info/inserti/tuscia/luoghi/villa-lante/index.Villa Lante.3 . Bagnaia. Ele não vê a mesma unidade nos jardins Boboli de Florença (Figuras 2.22 Figura 2.5 e 2. 2. Planta Geral do Jardim e do Parque Fonte: www. .

Florença. .5 .Jardins Boboli (Anfiteatro). Figura 2. Foto do autor 1999.23 Figura 2.4 .Planta dos Jardins Boboli. Foto do autor 1999. Florença.

estátuas e as escuras entradas de grutas levam o olhar de volta para cima onde está a grande ênfase horizontal do próprio palácio. cascatas descem pelas escadarias numa engenhosidade espantosa. Eixos paralelos ao principal levam calculadamente para algum enfático elemento arquitetônico (Figuras 2. Para ele.11). cujas águas foram canalizadas para o jardim. se fez amplo uso da água.9. jardins aquáticos com esculturas de fonte. aproveitando a presença do rio Ânio. Florença. 2. Na Villa D’Este.6 . O plano do jardim tem uma certa simplicidade apesar do tamanho e complexidade de suas partes. Jogos de água. o fascínio e engenhosidade de detalhe são os responsáveis por essa falta de unidade.24 Figura 2. Foto do autor 1999.Jardins Boboli (Fontana Del Forcone). o famoso teatro das águas. Construções e grutas em tufo e conchas criam diversos motivos de interesse. 2.10 e 2. .8.7. 2. criando ambientes diversos e imaginosos. fontes. Um linha central marcada por fontes.

8 .25 Figura 2. Foto do autor 1999. Figura 2. Tivoli. Roma.Villa D’este.7 . Vista dos Jardins Junto a Casa. . Roma.Villa D’este. Vista do Eixo Central do Jardim a partir da Casa. Foto do autor 1999. Tivoli.

Tivoli. Roma. .26 Figura 2.Villa D’este.Villa D’este. Figura 2. Roma. Foto do autor 1999. Vista do Eixo Principal do Jardim olhando para a casa.9 . Foto do autor 1999. Fontes e Jogos de Água.10 . Tivoli.

mudando de um para outro em busca de variedade.Villa D’este. Foto do autor 1999. mais frios e mais úmidos que as vizinhanças de Roma. Outra condicionante para essa diferença entre a Itália e a França no desenho dos jardins está na topografia e no clima. O castelo francês oferecia tudo que o proprietário necessitava. retornavam a sua casa da cidade como a aristocracia de Roma e Florença fazia habitualmente. Cellini (1500-1571) e outros de menor fama foram viver e trabalhar na França. Carlos VIII voltou da Itália trazendo artistas italianos e objets d’art. O jardim francês desenvolveu-se em terrenos planos. O centro e o norte da França eram mais planos. por segurança. Os castelos rodeados de fossos e murados. desde os dias de Luís XI. O JARDIM FRANCÊS As aventuras dos franceses na Itália entre 1494 e 1524 colocaram-os em contato com o renascimento italiano. Os reis franceses viviam.11 . levemente inclinados onde era mais fácil obter águas paradas do que cascatas e fontes. Uma série de artistas italianos como Leonardo da Vinci (1442-1519). uma luxuosa cabana de piquenique. fora de Paris. o rei e os nobres viviam em seus castelos o ano inteiro. condicionaram o desenvolvimento dos jardins. vivia no campo só nos meses de verão. A França tornou-se uma monarquia unificada com seu centro de gravidade na planície norte. inicialmente. construções terraceadas. Essa situação permitia vistas em distância. a vila italiana era uma casa de verão. com poucas exceções. O jardim italiano tinha uma unidade com a inter-relação arquitetônica dos terraços. Assim. casa urbana e caça combinados. A diferença entre os jardins franceses e italianos deve-se à estrutura do país e sua história política. A população rica da Itália nos séculos XVI e XVII. Raramente. Vistas nessa topografia só podiam ser obtidas por meio de vistas prolongadas e . A sociedade italiana no século XVI sofreu uma mudança radical que produziu um novo estilo de arte. Roma. o barroco. Tivoli. de Florença ou de Milão.27 Figura 2. Fonte. Na França. As vilas situadas nas baixas encostas das colinas aproveitavam as brisas frescas e o som da água corrente. como no tempo de Plínio. As restrições da Guerra dos Cem Anos impôs aos franceses uma vida cercada e com fossos.

ele pedia. eles já tivessem sido abandonados.htm O jardim do castelo do Cardeal de Richelieu (1627-1637) faz a ligação entre Monceaux e Vaux-le-Vicomte. menos freqüentes e arquitetonicamente menos importantes. (Figura 2. Além da proporção e simetria.Monceaux-En-Brie. O parterre levou ao compartiment de broderie.nodak. A característica essencial do parterre é a perfeita simetria. O italiano Francesco Primaticcio (Bolonha 1504 – Paris 1570) criou em Monceaux-enBrie. eles tendiam a ser menos altos. simetria e variedade. daquela época em diante o jardim francês. a altura das árvores e sebes deveria estar relacionada com o comprimento e largura dos caminhos. . A palavra parterre foi primeiramente usada no meio do século XVI e derivava de par terre.13). Esses caminhos elevados levaram ao parterre e. foi por causa dele que esses caminhos elevados continuaram a ser construídos mesmo quando as exigências defensivas já haviam desaparecido.edu/instruct/dcollito/322/French/Part-two1. variedade. também. jardineiro de Henrique de Navarra escreveu em 1618 “Le Théâtre des Plans et Jardinages”. Embora os terraços existissem. enfatizou em um livro publicado em 1638 a necessidade de proporção. pela facilidade de modelar. pela sua coloração escura. Figura 2. a bíblia do parterrista. Jacques Boyceau (1560-1633). juntando-os no mesmo eixo da casa.12).12 . (Figura 2. revelou-se a planta ideal para a definição do parterre. de acordo com o princípio medieval mesmo quando. Primaticcio – Jardins Para Catarina De Médici Fonte: www. um jardim para Catarina de Médici (1560-1633) que prenunciou o jardim de vista em Vaux-le-Vicomte e Versailles que dispunha um canteiro retangular atrás do outro. no princípio dos século XVII. Claude Mollet (1564-1649). Essa proporção. Caminhos elevados continuaram a ser construídos nos quatro lados do jardim.28 escrupulosamente organizadas.ndsu. Mollet popularizou o uso do buxo que pelo seu crescimento lento. foram os grandes princípios que regeram. na Itália. no chão.

O propósito desses bosques era ajudar a emoldurar a vista.29 Figura 2. herdeiro da grandeza de pensamento de Richelieu. para ser impressionante pelo tamanho. havia um grande tema central ao qual tudo o mais era subordinado. Le Nôtre vinha de uma família de jardineiros.14). Vaux-le-Vicomte deve-se a Fouquet. Le Nôtre não iria planejar um lugar em que um homem culto iria encontrar seus amigos como ocorreu nos jardins dos Médici: foi para criar um estupendo teatro para festas. No jardim de Vaux-le-Vicomte. Como em Monceaux e no castelo de Richelieu havia um bosque em cada lado da cadeia central de parterres. . impetuosa e fracionada do jardim espanhol e no método do pensamento francês com sua evidente confiança na razão e geometria. Em Melun. Ao ser chamado para executar Vaux-le-Vicomte. essas deveriam estar subordinadas ao todo.nodak. deveria ser comprido. ser solicitado a mover-se de lado a lado. baseou-se num grande princípio: de que a completa extensão do enorme jardim deveria ser visível num relance. o ramo do “T” foi prolongado na forma de uma avenida cortada pelo parque envolvente. de grande significação. mas deveria. o jardim de vista nasceu e o pequeno jardim quadrado em fosso desenvolveu-se num enorme tapete estendido do terraço da casa a uma distancia remota que lhe pareceria muito mais um fundo de cenário do que uma realidade. o pintor Charles Le Brun da decoração interna e o projeto do jardim coube a André Le Nôtre (1613-1700). sendo que sua madrinha de batismo foi a esposa de Claude Mollet.13 . As parterres são enfatizadas por avenidas e bosques e. levar o olhar para a frente. também. ele deveria ser relativamente estreito mas. ele vinha de uma tradição jardinística que estava se formando e foi o expoente final dela.edu/instruct/dcollito/322/French/Part-two1.htm Aqui podemos reconhecer a forma em “T” de Versalhes. O jardim de Richelieu é contemporâneo do Buen Retiro do Conde-Duque de Olivarez na Espanha.ndsu. Nesse caminho. Em Vaux-le-Vicomte Le Nôtre. Le Nôtre não surgiu do nada. que atraiu e uniu os grandes espíritos criativos de sua época. Se o jardim era para ser visto num relance. o olhar de uma pessoa no mais alto terraço pode ver na distância. mesmo que houvesse variedade nas partes. (Figura 2.Jardins Do Castelo Do Duque De Richelieu Fonte: www. Fouquet encarregou o arquiteto Le Vau da construção de um castelo. A diferença entre os dois está na forma desequilibrada.

Versalhes foi a apoteose do jardim de vista francês. assim.Castelo De Vaux-Le-Vicomte Fonte: www. que davam a almejada diversidade. tradução de Lucy Norton) Versalhes não era um sítio muito agradável. florestas.15). toda a terra adjacente era areia movediça ou brejo e o ar não poderia. Segundo o Marquês de Saint-Simon (op. que não estava presente na festa inaugural do castelo. aquilo que os jardineiros franceses ao longo da história do jardim na França haviam preconizado: a grande perspectiva unificadora e os jardins em sua volta. além do mais.30 Figura 2.vaux-le-vicomte. água. ser saudável.com/vaux-images-chateau. sem solo e. . e levou a equipe do projeto para construir Versalhes para ela. então. Temos.14 . sem vistas. rodeados por bosques.php (vista aérea-Yan Arthus Bertrand) Luís XIV. cit. (Figura 2. Tudo o que foi dito para Vaux-le-Vicomte pode ser dito de Versalhes como jardim. Em torno da famosa perspectiva outros jardins foram construídos e refeitos ao sabor das necessidades por festas da corte. Ele a descreve como o lugar mais sombrio e falto de interesse. fez prender Fouquet que morreu 19 anos depois na Fortaleza de Pignerol. Saint-Simon at Versailles.

como se fossem três arcos do triunfo e. Um dos famosos exemplos desses arranjos periféricos é a famosa Gruta de Tétis que era descrita. Luís XIV encomendou a seus arquitetos o Palácio de Marly-le-Roy que tinha os mesmos defeitos apontados por Le Nôtre no “Bosquet de la Colonnade” construído por Charles Hardouin-Mansard para servir de substituto das funções teatrais da velha Gruta de Tétis. Pressionado pelo rei a opinar. 2000.Vista Do Eixo Central Dos Jardins Do Castelo De Versalhes. foi arrasado pelo povo durante a Revolução Francesa em seu ódio pelos desmandos da monarquia (CLIFFORD. Paris. havia um grande reservatório de água que alimentava inúmeros dispositivos de gotejamento e esguicho de água. Apolo e suas ninfas e. internamente. como três grandes alcovas ocupadas por grupos de estatuária. os cavalos do deus do sol guiados por tritões. . Enquanto Le Nôtre viajava em missão diplomática a Roma. No teto. 1966). o chão era elegantemente pavimentado. as paredes eram incrustadas de inúmeras conchas. Este castelo que custou imensas somas e trabalhos ingratos. Le Nôtre disse: “Bem Sire. Foto do autor.31 Figura 2. Versalhes. externamente. de cada lado. construído para satisfazer um capricho do rei. o que diria? Vós transformastes um pedreiro em jardineiro e ele levou-vos a um dos truques de seu ofício”.15 .

32 O JARDIM PAISAGÍSTICO INGLÊS Na Inglaterra, na terceira década do século XVIII, houve uma grande revolução na arte do jardim. As muralhas se foram, os fossos se foram, as linhas retas ainda permaneciam no jardim. Iniciou-se a rejeição dessas linhas retas. Despontou a noção da linha ondulante da beleza (the wavy line of beauty). O jardim de vista francês foi substituído por uma nova abordagem do desenho do jardim e foi na Inglaterra que isto ocorreu. Entre as razões para que isto sucedesse na Inglaterra estava o prazer do inglês em fazer um passeio pelo campo. Os jardins da Renascença Italiana eram museus onde os homens vadiavam, discursavam e conspiravam. Os jardins da França eram palcos para paradas e exibição. Os pátios da Espanha e Portugal eram salas ao ar livre nas quais se podia passar a siesta e desfrutar a sombra e o barulho da água corrente. Por outro lado, a Inglaterra não era lugar para a grande ocasião cerimonial en plein air sem a necessidade de um providencial abrigo. O clima inglês era diferente daquele da Île de France. Para os ingleses um jardim deveria ter sempre um lugar para caminhar e jogar e satisfazer a preferência do inglês pelo exercício físico como um prazer em si. O jardim inglês visava à economia, à parcimônia, o que inviabilizava o modelo de jardim francês. A economia passou a ser um dos principais fatores para o bom desenho do jardim, por isso dever-se-ia afastar as decorações com buxo e outros ornamentos e substituí-los por gramados e bosques. O plantio e disposição de árvores constituiu a nova tarefa do jardineiro. Os filósofos haviam descoberto a beleza do mundo antes do pecado original. Os economistas haviam descoberto que a sujeição da vegetação era excessivamente cara. O velho desenho do jardim não permitia mais introduzir novidades. O olhar do mundo elegante estava familiarizado com os padrões assimétricos da porcelana, laca e sedas chinesas. O despotismo monárquico estava morto, o despotismo clerical foi rejeitado, tudo conspirava para o desfrutar de um mundo cheio de surpresas e suspense. Se a paisagem deveria ser admirada, não haveria nada de mais valor que a paisagem inglesa. Negaram-se as árvores podadas e as avenidas retas. Se o jardim até agora era considerado uma extensão da casa e, assim, uma questão arquitetônica, a partir de então a natureza deveria ser “idealizada” até às paredes da casa. O primeiro e fundamental passo para o novo jardim foi a aparente remoção dos limites do jardim. O objetivo do jardineiro francês era que a natureza parecesse subordinada a sua arte. Removendo a inevitável linha divisória para o mais longe do eixo central, ele pode ignorar a existência do dia-a-dia do campo a sua volta. A intenção do jardineiro inglês ao ocultar a linha divisória era fazer parecer que os jardins eram parte do mundo total da natureza, embora sendo uma parte idealizada dela. O método adotado para disfarçar o limite do jardim foi o ha-ha. Perto do final do século XVII, na França, apareceu o método de ocultar a linha divisória por uma cerca oculta dentro de um fosso. No século XVIII, o conceito de natureza só era claro num ponto: era que se detestava a linha reta. Este era o dizer favorito de William Kent (1645-1748) o pioneiro do jardim “natural” que vai desenvolver-se no jardim paisagístico inglês (Figura 2.16).

33

Figura 2.16 - William Kent, Jardins de Stowe. Fonte: CLIFFORD, 1966, prancha 62

Um exemplo remanescente do seu trabalho é o jardim de Rousham em Oxfordshire. A grande influência de Kent foi sua viagem à Itália. No século XVIII, os jardins do Renascimento tinham 200 anos de idade e o que Kent viu e esforçou-se por reproduzir foram imagens isoladas de um bosque super desenvolvido escondendo parcialmente um templo, uma piscina sombreada por árvores, que antes constituíram uma sebe, uma fila de estátuas, um semicírculo de bustos em nichos (CLIFFORD, 1966). Nos primórdios do jardim paisagístico, estavam se desenvolvendo três tipos distintos de jardim “natural”. O primeiro era o “pitoresco”, o segundo era o “poético” e o terceiro era o jardim “abstrato”. O jardim “pitoresco” derivava das técnicas dos pintores paisagistas criando em três dimensões o que estava representado por eles em duas dimensões. O jardim “poético” baseava-se no reconhecimento e na reprodução de aparências. O jardim “abstrato” não deveria suscitar emoção por reconhecimento, nem por imitação de outra arte, porém, dar vida a certas sensações. Um quarto tipo falhou em desenvolver-se, foi a ferme ornèe, fazenda ornamentada. Quem parece ter primeiro tentado este tipo foi Dufresnoy, o sucessor de Le Nôtre no “Hameau de la Reine” em Versalhes, a “fazendinha” de Maria Antonieta. Na Inglaterra, o fracasso da ferme ornèe se deveu ao fato de que a agricultura era regida por linhas retas e linhas retas estavam fora de cogitação para o gosto da época. Dos três

34 famosos jardins da metade do século XVIII que mais devem à paisagem estão Painshill, Leasowes e Stourhead. Leasowes era obra do poeta Shenstone. O trabalho começou em 1743 e, de acordo com Shenstone, as cenas do jardim poderiam ser divididas entre o sublime, o belo e o melancólico ou pensativo. A despretensiosa casa de Shenstone estava em um gramado envolvida por um ha-ha. O restante do terreno estava arranjado numa sucessão de cenas ou perspectivas a serem vistas de um caminho-cinturão. O cinturão no jardim da metade do século XVIII era mais importante que o ha-ha. Consistia em um plantio irregular de árvores envolvendo a propriedade e provendo um caminho ou estrada no seu perímetro. Significativo porque o jardim era para ser visto olhando-se para dentro. O cinturão refletia uma mudança do ponto de vista. Shenstone fez das sucessivas vistas cruzadas de seu “cinturão-caminho” a principal característica de Leasowes. Como ele não era um homem rico como Lord Cobham, ele não pôde construir casas de verão como em Stowe; ao invés disso ele espalhou urnas, bancos de jardim e placas com versos apropriados indicando os sentimentos apropriados a cada lugar. Embora seu jardim fosse desenhado como uma série de paisagens pictóricas, não havia realmente pinturas satisfatórias nele. O segundo tipo de jardim foi o “jardim poético”. O assim chamado “jardim pitoresco” deve muito ao “jardim poético”. A confusão entre um e outro vem da natureza dos pintores que eram, na verdade, pintores poéticos. O “jardim poético” era uma questão de atmosfera. O freqüentador ligava-se na “solenidade”, no “sublime”, na “grandeza”, “dignidade” ou “elegância”, conforme a porção do jardim em que estivesse. Abismos, uma pedra com textos melancólicos, templos clássicos, uma ruína gótica, deveriam evocar as sensações apropriadas. Os arranjos no jardim deveriam criar, evocando, um genius loci, o espírito do lugar. Numa sociedade burguesa, Figuras, estátuas, vasos de flores, urnas etc., pré-fabricados, deveriam fornecer decorações poéticas ao jardim. Assim, o arquiteto voltava ao jardim fornecendo o mobiliário poético a ele. O visitante deveria vagar de uma sensação para outra numa série de cenas evocativas. O resultado foi que esses jardins perderam sua unidade artística. Um dos elementos do “jardim poético” era o “eremitério”, habitado, logicamente, pelo seu “eremita”, uma pessoa contratada para desempenhar um papel relacionado à cena que habitava. Se um tonel no jardim, o eremita evocaria Diógenes. O “jardim poético”, como toda manifestação romântica, sofreu de uma falta de disciplina e, em 1780, a grande revolução do jardim na Inglaterra, e em toda parte, havia perdido seu rumo. A teoria da “linha ondulante de beleza” (the wavy line of beauty) apareceu cedo, no século XVIII, e tornou-se um princípio estético muito forte. William Kent proclamou que “a natureza detesta a linha reta”. A teoria da linha ondulante da beleza foi subscrita por todos os produtores de jardins, seja os poéticos ou os pitorescos. Em 1750, apareceu o grande mestre do jardim paisagístico inglês: Lancelot Capability Brown (1716 – 1783). Os elementos poéticos e pitorescos do jardim foram banidos, restando só o domínio da linha ondulante da beleza. Lancelot Brown recebeu o cognome de Capability porque costumava dizer que podia ver capabilities of improvement nas áreas que deveria tratar paisagísticamente. Ele abandonou o uso de estatuária, usou bem menos edificações que os jardineiros poéticos e concentrou-se quase, inteiramente, oo uso das ondulações contrastadas e relacionadas. A cor desempenhou pouco ou nada em suas idéias. Usou o contraste tonal, luz e sombra para dispor a harmoniosa organização da linha. Ele mesmo comparou sua arte com a composição literária, como se usasse vírgulas, parênteses e, assim, dirigisse a vista e comandasse os temas em seus jardins. Capability Brown usou poucos meios criando tramas simples. Contornos de grama verde, ondulações do terreno, espelhos d’água, poucas espécies de árvores usadas isoladamente ou em grupos ou em cinturões lineares e intencionais (CLIFFORD, 1966) (Figura 2.17).

Brown os havia escondido bem longe da casa. com a qual o cenário é melhorado. O não banimento do jardim de flores. o jardim é um objeto artificial e não tem pretensão de ser natural sendo conseqüência do crescimento das plantas que o adornam. disfarçando-se cuidadosamente ou escondendo-se as divisas da propriedade. Foi o momento de Humphrey Repton (1752 – 1818) que se definiu como um “jardineiro paisagista”. da horta e dos estábulos da vizinhança da casa era o principal objetivo da plataforma de Repton. e ao invés da linha invisível ou cerca escondida (Ha-Ha). Repton era governado pelo pensamento lógico. Repton definiu o que ele considera como os princípios de sua arte. procurando satisfazer as necessidades do jardineiro florista e do colecionador botânico. a “jardinagem paisagística”: primeiro mostram-se as belezas naturais e escondem-se os defeitos naturais de cada situação. por mais que custosa. terceiro.17 . que separa o gramado cortado do gramado que alimenta o gado. Para ele. segundo. na impossibilidade de torná-los ornamentais ou de tomar parte própria no cenário geral. prancha 64 O jardim de Brown com sua economia de meios. O estilo de Repton influenciou a jardinagem vitoriana e. devem ser removidos ou apagados. quarto.35 Figura 2. estudadamente. deve-se. Sob a base de Brown ele procurou construir alguma coisa que pudesse incluir ao mesmo tempo as belezas de Le Nôtre e os jardins pitorescos. o que passou a ser considerado não funcional. dissimular toda interferência de arte. com seu ecletismo. deve-se dar a aparência de amplidão e liberdade. todos os objetos de mera conveniência ou conforto.Os Jardins De Stowe Modificados Por Lancelot Brown. . Repton combateu a necessidade de perspectivas em toda a parte do jardim dizendo que um pouco de reclusão era necessário. sua influência chegou até o Brasil no princípio do século XX. sua cultura deve ser toda trabalho artístico. composto mais de gramados e árvores alcançou um ponto de saturação e o jardineiro florista reagiu e reapareceu com suas flores no desenho do jardim trazendo de volta a cor e o perfume. é mais racional mostrar que os dois objetos são separados. Fonte: CLIFFORD 1966.

de certo modo. . como uma plataforma visual elevada.36 Isto levaria a uma segregação do parque e do jardim o que ele evitou provendo um terraço balaustrado que servia como cerca entre a parte plantada e o parque e servia. a Praça N. densamente plantado e com grande variedade de espécies. Pleasure Ground significa um terreno ornamentado e cercado junto à casa.19). O ESTILO PAISAGÍSTICO MODERNO NO BRASIL É o jardim eclético que vamos encontrar no princípio do século XX no Brasil. Era o chamado estilo “jardinístico” (CLIFFORD. Os elementos dos jardins passaram a ser o gramado. o Jardim da Praça Cônego Joaquim Alves em Batatais-SP. o velho bosquete. com dimensão bastante grande para ser tratado como jardim. poetas e arquitetos. sendo. 13 Hermann Fürst von Pückler-Muskau faz a seguinte observação sobre o „pleasure ground“: „A palavra pleasure ground é difícil de traduzir-se para o alemão e eu tenho por mim que é melhor deixá-la em inglês. uma expansão da grama aparada pontuada com arbustos exóticos e árvores em grande variedade. Foto do autor 2005.18 – Gruta. Foi Repton quem ensinou como a irresistível enchente de novas plantas foi organizada na estrutura de um pleasure ground13 e justificou sua presença no jardim. uma estrutura de ligação entre o parque e os próprios jardins”(PÜCKLER-MUSKAU 1988). Esses terraços elevados constituem uma marca reconhecível de muitos jardins de Repton.S. em São Paulo (Figura 2. Como exemplos podem ser citados o Jardim da Luz. Figura 2. Esse jardim das cidades desenvolveram-se com a riqueza do café em São Paulo. mas de jardineiros. Parque Da Luz. O ecletismo de Humphrey Repton está relacionado com o jardim de todo o século XIX. atravessado por caminhos serpenteantes. o jardim passou a ser obra não de filósofos.18). o caminho-terraço. da Conceição em Franca-SP. arbustos. hoje chamado Parque da Luz. a estufa em estrutura de ferro substituiu a orangerie. 1966). tudo em escala reduzida. que substituiu o parterre. um meio termo. mirava distantemente o parque. em Rio Claro-SP. que assumiu o papel de um parque paisagístico em miniatura. Com a introdução de plantas novas e exóticas e de flores. também. o Parque Municipal de Belo Horizonte-MG (Figura 2. São Paulo. O domínio dos jardineiros no desenho do jardim estabeleceu que as plantas deveriam ser plantadas onde melhor crescessem e não onde tivessem o melhor efeito.

Foto do autor 2005.Parque Municipal. e se espalharam pelo mundo. Minas Gerais. Belo Horizonte.21).19 . .20 e 2. Esses jardins parecem ter chegado até nós através de modelos franceses. 1909) que mostra modelos de jardins semelhantes a esses. estava o livro “Les Parcs et Jardins au commencement du XX éme siécle” (VACHEROT.37 Figura 2. Entre os livros que pertenceram a Arthur Etzel. estão bem descritos por Georges Lefebvre que aborda o “estilo paisagístico moderno”. Esses modelos que se expandiram da Paris de Haussmann. filho de Antonio Etzel que deu ao Jardim da Luz o seu desenho atual. dos trabalhos de Jean Charles Adolphe Alphand (Figuras 2.

Parque De Buttes-Chaumont. Paris.38 Figura 2.20 . . Foto do autor 2000.

na Praça Nossa Senhora da Conceição. sem a fragmentação exagerada do terreno. O estilo misto é um composto do jardim regular ou francês e do jardim paisagístico ou inglês onde se aplica às duas partes da composição as teorias que lhe concernem.Parque De Buttes-Chaumont. 1991) (Figura 2. Enfim. o jardim paisagístico ou inglês foi adaptado a jardins menores. hoje destruído pelas constantes intervenções espúrias. Depois. eclético. . servem para compor corbelhas dispostas sobre os gramados em grupos isolados ou junto aos maciços de arbustos (LEFEBVRE. as flores. e se perdem nas extremidades em direção aos maciços vegetais e aléias. encontrávamos em Franca – SP. nesse novo traçado das aléias. As ondulações do gramado (vallonnement) modelam a superfície em curvas côncavas graciosas no centro do terreno. Um exemplo desse estilo composto. notadamente. Para remediar a insuficiência de extensão das propriedades.21 . as superfícies gramadas maiores. tendo-se o cuidado de estudar o acordo dos dois estilos de modo a criar um conjunto harmonioso (LEFEBVRE. as aléias eram numerosas. antes que esta fosse modificada em meados dos anos 1950 (FERREIRA. no modelado dos gramados em ondulações (vallonnement) e na criação de canteiros floridos. 1983). Paris. criaram-se aléias curvas alongando as distâncias e oferecendo sempre novos pontos de vista ao visitante. As modificações que essa escola moderna fez acontecer no estilo paisagístico antigo vê-se. Esse modelo de jardim ainda encontramos no Parque da Luz e no desenho original da Praça da República em São Paulo. 1897). dividindo terreno em um grande número de pequenos gramados com maciços de vegetação minúsculos. Georges Lefebvre fala ainda do estilo misto ou composto. com o colapso das grandes fortunas. as aléias tornaram-se menos numerosas. que haviam sido abandonadas até Capability Brown e retomadas por Repton e seus seguidores. no projeto de Chauviére (DEL PICCHIA. No início desse novo estilo.22). 1897).39 Figura 2. Foto do autor 2000. Após a Revolução Francesa.

São Paulo.23. flores. destacados da paisagem ao seu redor. Portugal e Espanha apresentam jardins de marcada influência mourisca. Os jardins portugueses e espanhóis se caracterizam por uma sucessão de espaços fechados em si.25. flagrantemente.24. os jardins Boboli.26. 1966). CLIFFORD.40 Figura 2. 2. as tijoleiras. seguindo um eixo ou diretriz principal como os jardins italianos e franceses. vamos encontrar um jardim recluso construído na parte posterior do palácio para Leonor de Toledo. Esse jardim difere. Franca. as latadas. O peculiar uso da água é a mais distintiva característica do jardim islâmico. CARDOSO 1990) (Figuras 2. as plantas em espaldeira. Esse jardim é encerrado por muros e tem uma abertura em janela para observar uma rua com uma vista para a paisagem circundante. do restante dos jardins italianos do palácio. encontramos uma série de elementos singulares que o compõem: os espelhos d’água. filha de D.29). . O uso da água em movimento foi responsável pelos arranjos engenhosos e decorativos das fontes. os azulejos. onde estão os célebres jardins Boboli. Fonte: DEL PICCHIA. É interessante observar que no Palácio Pitti em Florença.120. O controle dos jatos de água foi ensinado pelos árabes à Espanha cristã que depois levou essas técnicas à Itália e a toda a Europa (CLIFFORD.27.28 e 2. 2. CARDOSO.Praça Nossa Senhora da Conceição. O jardim do Alcazar de Sevilha é anterior ao jardim do Alhambra. a topiária e as esculturas (CARITA. 2. O uso da água não era limitado às suas qualidades de espelho ou à sua sugestão de frescor. porém sofreu modificações posteriores pelos reis espanhóis que sucederam os árabes. p. Pedro Alvarez de Toledo. Assim. a caniçada. sendo encerrados por muros.22 . Por causa da influencia da cultura moura. esses jardins têm uma singularidade que os distinguem dos jardins do resto da Europa. os embrechados. perfumes. os jardins portugueses e espanhóis não apresentam uma concepção ordenada. salvo por alguma abertura nos muros que permitem que o espaço exterior seja observado discretamente do interior do jardim. O JARDIM DA PENÍNSULA IBERICA Os jardins do Alhambra e o Generalife de Granada são em sua maior parte mouriscos e datam do século XV e da última fase do governo muçulmano na Espanha. esposa de Cosimo I de Médici. 2. 1990. A tradição helenístico-mourisca da privacidade do espaço domiciliar levou à criação de espaços externos recatados onde se podia gozar uma atmosfera fresca junto aos elementos da natureza: água. Esses espaços independentes entre si mais parecem salas ao ar livre. 1966). segundo um eixo ou diretriz clara e definida. frutos (CARITA. os alegretes. 2. que não se articulam. No jardim português. Vice-Rei de Nápoles. 1991.

Benfica. Figura 2.24 – Embrechados. . Vila Fresca do Azeitão. Palácio dos Marqueses de Fronteira. Quinta da Bacalhoa. Foto do autor 2002.Azulejos e piso de tijoleira. Lisboa. Foto do autor 2002.41 Figura 2. Portugal.23 .

Palácio dos Marqueses de Fronteira. Palácio do Marques de Pombal. .42 Figura 2. Portugal. Lisboa. Foto do autor 2002. Benfica. Oeiras. Foto do autor 2002. Figura 2.25 .Alegrete (Canteiro Elevado).26 – Latada.

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Figura 2.27 – Caniçada, Palácio dos Marqueses de Fronteira, Benfica, Lisboa. Foto do autor 2002.

Figura 2.28 – Topiária, Casa de Mateus, Vila Real, Portugal. Foto do autor 2002.

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Figura 2.29 – Escultura, Palácio dos Marqueses de Fronteira, Benfica, Lisboa. Foto do autor 2002.

É interessante observar que não se conhece similares desses jardins no Brasil, salvo uma observação sobre dois pavilhões que existiram no Passeio Público do Rio de Janeiro de Mestre Valentim. Nos extremos do terraço que descortinava a Baía da Guanabara e que ficava no fim do eixo principal do jardim em oposição ao Chafariz das Marrecas, erguiam-se dois pavilhões hexagonais em que se exibia a arte muralista de painéis com conchas e penas, obras de Francisco dos Santos Xavier - Xavier das Conchas, e de Francisco Xavier Cardoso Caldeira Xavier dos Pássaros (CAVALCANTI, 2004). Esta arte muralista de conchas seria, talvez, a dos embrechados portugueses, existindo no Museu dos Oratórios de Ouro Preto de autoria de Xavier das Conchas.

CHINA E O JAPÃO O jardim chinês se desenvolve sob a influência do pensamento de Lao Tsé e de Confúcio. O primeiro sustenta que não se deve viver a vida mas, deixar a vida viver. O segundo, procurando conquistar a liberdade da calma espiritual recomenda, como meio de atingi-la, uma vida de serviço público e cooperação em uma comunidade bem estruturada, pregando

45 uma vida de moderação. A isto se adicionaram os ensinamentos de Buda que cultivava a calma, a contemplação, a libertação de todas as formas de desejo, num nível místico. No caráter cultural chinês, estavam unidos o amor à natureza e uma magnífica receptividade passiva à sensação. Esta é a origem do jardim chinês, cuja primeira função era induzir um desejável estado de espírito. Por seu caráter selvagem mais do que urbano, a geometria não tinha lugar no jardim chinês. O jardim era projetado como uma série de cenários como num rolo de pintura de paisagens, cada uma delas completa em si mesma. Como esses jardins eram réplicas escalares de cenários naturais, a escala relativa tinha especial importância. O esqueleto do jardim eram as pedras, não as pedras esculpidas, porém, as pedras naturais e elas desempenhavam o mesmo papel que as esculturas no jardim ocidental. O mesmo acontecia no jardim japonês. A qualidade procurada pelos chineses em seus jardins era o “pitoresco/emotivo” (CLIFFORD, 1966). Os japoneses reduziram a uma regra o modo como os chineses usaram os ingredientes da paisagem natural, produzindo, assim, algo original (CLIFFORD, 1966). O jardim japonês aconteceu no século VI, conforme o modelo do jardim chinês. Nas residências da aristocracia nos séculos X a XII, o jardim era colocado ao sul dos edifícios do palácio. Seu ponto central era um tanque com uma colina ao fundo. Nesse tanque, navegava-se num barco exótico desfrutando poesia e música. O jardim era plantado com diversas plantas floridas. Este jardim teve forte influência Zen, cultura do sul da China. Importante é que antes, em relação com o monastério, apareceu uma outra arte do jardim, um jardim plano. Pensamentos filosóficos influenciavam a forma do jardim que tinha uma significação simbólica. Com o desenvolvimento da cerimônia do chá desenvolveu-se um novo tipo de jardim, o jardim do chá. Pedras delineavam o caminho, lanternas de pedra, bacias de água em pedra tornaram-se elementos indispensáveis do jardim da cerimônia do chá. Árvores de folhagem perene, principalmente coníferas, distribuíam uma impressão de calma. O jardim do chá é importante por ser a forma básica que deu origem ao jardim japonês. Dos séculos XVIII até o XIX o jardim japonês tipificou-se, dividindo-se em dois tipos principais: o jardim com colinas (Figura 2.30) e o jardim plano (Figura 2.31).

Figura 2.30 - Jardim Com Colinas Fonte: YOSHIDA 1954 P. 170

Otavio Augusto Teixeira Mendes (1907 . Roberto Burle Marx. engenheiro agrônomo. trabalhou com botânicos. Roberto Burle Marx realizou os primeiros jardins com senso ecológico em Pernambuco utilizando plantas da caatinga. segundo a natureza e tem um aspecto formal. porém. contrariamente ao que usavam os paisagistas como Agache e Glaziou (MOTTA. Em São Paulo. Alfred Agache realizava os jardins da Praça Paris no Rio de Janeiro com um desenho de jardim do ecletismo vigente ainda nos princípios do século XX. entre seus trabalhos como paisagista. .Jardim Plano Fonte: YOSHIDA 1954 P. Gyô e Sô. 2005). No Rio de Janeiro. No Sô. artista plástico. O DESENHO DO JARDIM APÓS O ECLETISMO Por volta de 1929. trabalhou no escritório Burle Marx e carregou um pouco do seu desenho de jardim. Fernando Chacel. 171 Cada um desses dois tipos foi depois estruturado em três tipos: Shin. Shin apresenta um jardim que procura ser construído. destacou-se no desenho de jardins completamente diferenciados dos modelos do passado recente. Roberto Coelho Cardoso e Rodolfo Geiser.31 . Teve ação destacada no Serviço Florestal do Estado de São Paulo como precursor de políticas ambientais e. os japoneses mantiveram no fundo do coração a tradição do próprio jardim japonês (YOSHIDA. 1983). Todos esses jardins foram popularizados e normatizados de modo que sua forma foi tornada possível para cada jardineiro. A influência européia se fez sentir nos jardins japoneses modernos. a natureza apresenta-se simplificada e simbolizada. lembramos quatro Figuras no desenho do jardim contemporâneo. Gyô deve ser observado como uma forma intermediária entre Shin e Sô. arquiteto. Em 1934. ao voltar de uma pós-graduação na Universidade de Columbia nos Estados Unidos. Otavio Augusto Teixeira Mendes. tornando-se uma das grandes personalidades do desenho do jardim contemporâneo. a sensação é leve e amigável. 1954). passou a se autointitular arquiteto paisagista. se destacam o Parque do Ibirapuera e o jardim da atual Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em São Paulo (MARIANO. Waldemar Cordeiro.46 Figura 2.1988).

Projetou e implantou várias áreas verdes de São Paulo. então. também. P. 1. também. fato que só recentemente teve acolhida no planejamento urbano brasileiro. Em São Paulo atuou. Após sua volta da Alemanha.32 . pintor concretista. praças e parques públicos. da elaboração das primeiras leis ambientais federais que organizaram o Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA. Permaneceu no Departamento até sua partida para a Alemanha onde. o engenheiro agrônomo Rodolfo Ricardo Geiser que tem se dedicado ao projeto paisagístico de residências. dão ênfase maior ao uso da vegetação na conformação espacial do jardim como é o caso. projetos paisagísticos para instalações industriais e recuperação de áreas degradadas. fez doutoramento. 1981). influenciou muitos jovens paisagistas que atuam em São Paulo e que trabalharam com ele. Segundo relato do arquiteto João Batista Villanova Artigas. Participou do projeto do Jardim Botânico de Brasília. também. atuou. inclusive por propor afastar o sistema viário das margens do rio. 2004).47 Waldemar Cordeiro (1925 – 1973). trabalhou na Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA que mais tarde se transformou no Ministério do Meio Ambiente. Como professor . MEDEIROS. dos Estados Unidos e passou a lecionar na FAUUSP. Serviço de Parques. sob todos os aspectos. um trabalho pioneiro. diferentemente dos arquitetos que se formaram com Roberto Coelho Cardoso. como paisagista. Figura 2. Participou. Antes de sua partida para a Alemanha. de Otávio Augusto Teixeira Mendes. Dedicou-se. de renaturalização. Seus projetos.32). o engenheiro agrônomo Felisberto Cavalheiro começou a atuar no. em Hannover. Jardins e Cemitérios da Prefeitura do município de São Paulo. também. tendo recebido o título de Doctor Rerum Horticulturae com a dissertação “Die Kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/ Brasilien” (CAVALHEIRO. perímetro urbano” e do projeto de um parque junto ao Rio Jahu em Jahu. No ano de 1967. Departamento de Parques e Jardins. depois. 1986. 239 Trata-se de um projeto de recuperação de paisagem. professor de paisagismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). então.Projeto Paisagístico Para O Vale Do Rio Jahu – Perímetro Urbano – Jahu-SP Fonte: DEL PICCHIA e CAVALHEIRO (1988) Vol. Roberto Coelho Cardoso chegou ao Brasil com uma recomendação de Garrett Eckbo. Roberto Coelho Cardoso. participou da elaboração do “Projeto Urbanístico para o Vale do Rio Jahu. 1987) (Figura 2. Sendo um trabalho desenvolvido em 1974 ele é. Seus jardins refletem os propósitos de sua pintura (BELLUZZO. condomínios residenciais. ao ensino de paisagismo em escolas públicas e privadas. São Paulo (DEL PICCHIA e CAVALHEIRO. sendo que a presença do Modelo Filogenético no jardim foi proposição sua.

G. 1983. 443 p. Acta Botanica Brasilica/Anais do XXXVIII Congresso Nacional de Botânica. Nireu. Preservação e Paisagismo em São Paulo: Otávio Augusto Teixeira Mendes. 319 p. 184 p. São Paulo. A History of Garden Design. Batatais e Franca: Análise da Paisagem Urbana. Brodowski.. Projeto urbanístico para o vale do rio Jahu: projeto paisagístico. MOTTA. il. A. C. Hannover. il. 2004. P. ou da originalidade e desaires desta arte. Lisboa: Editora Ulisseia. 357 p. il. 171 p. M. In: XXXVIII CONGRESSO NACIONAL DE BOTÂNICA. 1897. Waldemar Cordeiro: uma aventura da razão. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo... 1966.48 da UNESP. CARITA. CLIFFORD. K. MEDEIROS. CARDOSO. São Paulo. Die Kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/ Brasilien: Gegenwärtige Situation und Chancen zukünftiger Entwicklung. C. D. F. Franca-SP: Laboratório das Artes de Franca. H. 1986. FERREIRA. PÜCKLER-MUSKAU. H. LEFEBVRE.. 193 p. il. Portugal: Círculo de Leitores. Arte paisagem: a partir de Waldemar Cordeiro.. L. M. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. il. São Paulo: Nobel. Tese (Doutoramento) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. D. L. 2004. 1990. MARIANO. 2 V. 231-241.. 1983.. M. 195 p.. H. G. Sociedade Botânica do Brasil. Fapesp.D e CAVALHEIRO. F. il. A. New York: Frederick A. 2005. Universidade de São Paulo. F.C.. F. CLARK. CAVALHEIRO. il. Vicq-Dunod e Cie. Praeger. São Paulo. DEL PICCHIA. Parcs et Jardins Publics.1. 365p. O Rio de Janeiro Setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte. REFERÊNCIAS BELLUZZO. 1961. P. Roberto Burle-Marx e a nova visão da paisagem. Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Paris: P. p. Universität Hannover. 247 p. Paisagem na Arte. Franca: itinerário urbano. CAVALCANTI.. Plantations d’Alignement: Promenades. São Paulo: Annablume. DEL PICCHIA. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. il. Tese (Doutoramento) – Fakultät für Gartenbau und Landeskultur. 1988. Andeutungen über Landschaftsgärtnerei: verbunden mit der . 1981. os Landespfleger. 1991. 1987. Vol. 252 p. 425 p. Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal. da USP e da pós-graduação da UFSCar deixou um legado inestimável para a questão do planejamento da paisagem de acordo com os princípios defendidos pelos arquitetos paisagistas alemães. il.

1909. Paris: Octave Doin. il.. il. YOSHIDA. 204 p. VACHEROT. Frankfurt am Main: Insel. Das Japanische Wohnhaus. T. Tübingen: Ernst Wasmuth. Les Parcs et Jardins au commencement du XXéme Siècle..(Insel Taschenbuch).. .49 Beschreibung ihrer praktischen Anwendung in Muskau. J. 475 p. 377 p. 1954. 1988. il.

. simplificando o complexo. Departamento de Geografia . e que se baseia em questões isoladas.UFPR . globais. mas também a ignorância e a cegueira (. será abordado o surgimento da Ecologia da Paisagem como uma concepção que prometia um avanço em direção à interdisciplinariedade. agora. Para Monteiro (1992). de modo a estimular a rivalidade e o espírito de “corporação”.. poderia ser considerado como uma possível base teórica para uma visão mais integradora das questões naturais. porém essa transformação realizada sem um planejamento com visão sistêmica. com o objetivo principal de divulgar e. quando os estudos da paisagem passaram a ser considerados científicos. faculdades ou institutos) ajuda a expressar este caos em um negócio de concepções profissionais fragmentadas. Um dos entraves para a busca de um desenvolvimento baseado em um planejamento com visão sistêmica encontra-se na forma fragmentada de produção e aplicação do conhecimento.) os conhecimentos fragmentados só servem para usos técnicos (MORIN. há inadequação cada vez mais ampla. transversais.CAPITULO 3 ECOLOGIA E PLANEJAMENTO DA PAISAGEM João Carlos Nucci14 Transformar a natureza para satisfação das necessidades humanas é um processo inevitável. organizadas em departamentos estanques e estruturadas em unidades (escolas. fragmentados.) os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho. Ao fragmentar a realidade. (. a concepção sistêmica da paisagem. por outro lado. mas que. 2000). Para Morin (2000). quem sabe. na opinião do Professor Doutor Felisberto Cavalheiro. provoca profundas modificações com conseqüências indesejáveis. eliminando a desordem e as contradições existentes. realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares. profunda e grave entre os saberes separados. este capítulo tratará primeiramente do surgimento da Ciência da Paisagem no século XIX. econômicas. separando o que é inseparável. na Universidade a pulverização dos saberes em uma miríade de disciplinas. do confinamento e do despedaçamento do saber. torna-se. a Ciência ignora a multiplicidade e a diversidade. esclarecer algumas questões sobre o Planejamento da Paisagem. transnacionais. Portanto.. um reflexo da visão cartesiano-newtoniana desenvolvida a partir do século XVI. mas também os inconvenientes da superespecialização. atualmente. corre o risco de modificar 14 Biólogo (IB-USP). Sendo assim. o Geossistema. a tentativa de compreender as leis da natureza – sempre vistas “em separado” da permanente e perene ação derivadora do homem sob a coerção das forças sociais e do determinismo econômico – resulta apenas em frustração. sociais e culturais. multidimensionais. conveniente resgatar o Planejamento da Paisagem que. em seguida. planetários.. o que destrói a complexidade do ambiente. Monteiro (1992) afirma que. compartimentados entre disciplinas e. Não só produziram o conhecimento e a elucidação. ou seja. Professor Doutor.

Na língua alemã. na Geomorfologia Ambiental. Geografia Física significava descrever as formas da terra firme como base da vida humana. diferentemente da paisagem com significado de cenário encontrado nas artes e na literatura. nos homens. Geomorfologia. o elemento isolado em um grande sistema da Natureza. quando de forma isolada. desde o início do século XX. no comércio. Para Humboldt. com base na Geologia. continua sendo Geomorfologia e não Geografia.51 seu rumo e. embora a especialização já estivera fixando os domínios de vizinhança entre as disciplinas recém-emergentes. são disciplinas ou ramos independentes como Climatologia. Interessante lembrar que o “Espaço Geográfico desde os tempos mais remotos (gregos) sempre foi encarado de forma integrada. 2004). mas como uma entidade espacial e visual da totalidade do espaço de vida humano. o precário. A Geografia Física de Humboldt não se interessava em descobrir novas espécies. na economia. confundiram. descobrir os nexos (BECK e SCHOENWALDT. visão esta que desapareceu com o tempo até ressurgir com ênfase com A. Humboldt era incansável. o grande pioneiro da moderna geobotânica e geografia física. permaneceu nos biogeógrafos europeus que viam a paisagem não apenas como uma visão estética (como a maioria dos arquitetos da paisagem) ou como parte do ambiente físico (como a maioria dos geógrafos). uma semente. correlacionando a caracterização morfológica da evolução da paisagem. A paisagem foi introduzida como termo científico-geográfico no início do século XIX pelo alemão Alexander von Humboldt (1769-1859). a fim de demonstrar a harmonia invisível que liga a diversidade enorme de objetos naturais. tinha a convicção de que a legitimidade de seus limites nunca constituiria obstáculo para reunir o disperso. por exemplo. Para Troppmair (2004). segmentando a unidade da Geografia Física de Humboldt em um número cada vez maior de disciplinas especializadas (BECK. ao mesmo tempo. Sem negar a astúcia dos estudos específicos. SCHOENWALDT. finalmente. e mesmo que haja pontes para outras disciplinas. Foram também especialistas que. Humboldt aderiu a uma perspectiva. serão apresentados os princípios e metas do Planejamento da Paisagem como uma possível teoria integradora. empírica e filosófica da Natureza. Geografia Urbana. sobretudo as áreas do esquema de ordenamento geográfico com modernas disciplinas individuais. 1999).mente). Ricotta (2003) afirma que. desde 1870. 1999 – p. na Climatologia. as numerosas disciplinas que se originaram da subdivisão da Geografia e das fusões com outras áreas do conhecimento. ou seja. na Hidrologia. . não são Geografia. na Zoogeografia. integrando geosfera. na colonização. biosfera e noosfera (do grego noos . 39). nos transportes. von Humboldt” (TROPPMAIR. entre outras. Geografia Econômica. Mesmo com a crescente especialização da Geografia Física. na cidade e na aldeia e na sociedade. Durante o trabalho de décadas na obra sobre a viagem à América surgiram gradualmente novas disciplinas especializadas. Todavia. vem retomando sua importância nos estudos que tratam tanto da natureza quanto da cultura. mas em correlacionar os fenômenos já conhecidos. como. A CIÊNCIA DA PAISAGEM O termo paisagem apresenta ao longo de sua história vários significados e. o termo paisagem (Landschaft) contém uma conotação geográfico-espacial no prefixo land. na Fitogeografia. Hidrologia. na população.

que podem transformar sua estrutura e suas peculiaridades espaciais.52 Então. o conceito de sistema foi plenamente incorporado aos estudos da paisagem. Hamburgo) e Troll. que se deveríamos considerar apenas as interações funcionais da paisagem natural ou se as ligações funcionais das ações humanas não deveriam ser também pesquisadas e entendidas. em uma determinada porção do espaço. Além do termo Ecologia da Paisagem (Landschaftökologie) Carl Troll também cunhou o termo Geo-ecologia (Geo-ökologie). a ciência da paisagem pôde se desenvolver. A passagem da visão dos complexos naturais de Dokoutchaev para uma visão mais sistêmica. às outras ciências. um complicado sistema de interações do complexo natural. Pedologia. não os componentes da natureza. também se desenvolveu na ex União Soviética com o nome de Geografia Física Complexa. que seria necessário renunciar a determinar unidades sintéticas com base nas unidades elementares delimitadas pelas disciplinas mais especializadas (Geologia. ou à concepção sistêmica da paisagem (PASSOS. cujo estudo se deveria lançar em termos de suas próprias transformações e de suas produtividades bioquímicas. mas as conexões entre eles. um termo utilizado por todos os especialistas da Ciência da Paisagem. Na procura por uma síntese da paisagem. no século XX. em 1963. a paisagem é. aconteceu com Sotchava que lançou. paralelamente. Para ele. e que a Geografia Física deve estudar. então. lançara as bases da Ecologia da Paisagem. como um conceito científico introduzido por Humboldt. método que representou um progresso sobre os estudos fragmentados por tentar reagrupar todos os elementos da paisagem sem se esquecer do ser humano. sendo a sua principal concepção a conexão da natureza com a sociedade humana. mas que. enfatizando que “a síntese vem felizmente no caso substituir a análise”. baseada nos princípios sistêmicos. 2004). em 1939. ou seja. pode ocupar posições firmes na moderna geografia aplicada voltada ao planejamento. Sotchava (op cit. também foi resgatada por Bertrand (1972) como uma entidade holística corroborando. 1988). a Ciência da Paisagem.) afirma. considerando a paisagem dividida em ecótopos (Landschaftzellen) ou células da paisagem e relatava que a paisagem poderia ser considerada um sistema energético. surgindo dessas influências as paisagens antropogênicas. o resultado da combi- . questionando. estrutura funcional e conexões. influenciado pelos fatores econômicos e sociais. o solo é resultado da interação dos elementos da paisagem. ou seja. pelo alemão Neff.) afirma que a Geografia Física. Com os avanços da Ecologia e da Teoria Geral dos Sistemas na primeira metade do século XX. Climatologia. Além da continuidade dada por esses pupilos de Humboldt. entre eles Passarge. devendo-se entender não somente a morfologia da paisagem. os estados variáveis e primitivos dos geossistemas naturais (SOTCHAVA. ao contrário. Para ele. O Geossistema corresponde à aplicação do conceito de “sistema” a paisagem. dado pelo edafólogo russo Dokoutchaev (1848-1903). 1977). etc). graças aos discípulos de Humboldt. que elaborou o primeiro livro dedicado à paisagem (Grundlagen der Landschaftskunde – 1919. na década de 1930. categoricamente. tornando-se. criador do termo Ecologia da Paisagem. A paisagem. a noção de geossistema como um fenômeno natural. Geomorfologia. as idéias de Troll que. assim. Bertrand (op cit. Definiu a paisagem não como uma simples adição de elementos geográficos disparatados. mas também a sua dinâmica. seria preciso procurar talhar diretamente a paisagem global tal qual ela se apresenta. O conceito de Geossistema foi utilizado em 1967 pelo geógrafo inglês Stoddart e em 1969. ainda. uma questão de difícil entendimento para nossa visão ainda fragmentada (NUCCI.

. esboçou uma interessante definição teórica de geossistema considerando-o como o resultado de relações entre o potencial ecológico. a exploração biológica e a ação antrópica (Figura 3. portanto instável.1).53 nação dinâmica. da história. mais um material básico que vem auxiliando na mudança da abordagem somente analítica e linear para uma abordagem com orientação sistêmica. a dinâmica e evolução das paisagens. outros biogeógrafos próximos das Ciências Biológicas. como Tricart. Além de Bertrand.) o meio ambiente toma a dimensão cultural.. em particular.. Figura 3. 1972: 13. hidrologia etc) e bióticos (flora e fauna) ‘é necessário utilizarmos elementos da sociedade. Troppmair destaca a contribuição de Georges Bertrand dada ao estudo dos Geossistemas. em perpétua evolução. muito necessária nos dias atuais (NUCCI. mas da paisagem total integrando todas as implicações da ação antrópica (BERTRAND... analisar o meio ambiente de épocas passadas e.: FÁVERO. 2001). solo. os bióticos (flora e fauna) e os antrópicos (o homem e suas atividades).).) ressalta que na pesquisa dos geossistemas. sintética e integrativa. fazem da paisagem um conjunto único e indissociável. o geossistema seria composto por três componentes: os abióticos (litosfera. Bertrand (op cit. 1972). portanto. Esse seu trabalho constitui. Org. hidrosfera). atmosfera. O esboço metodológico de Bertrand (1972) apresenta uma Geografia Física Global que se nutre dos estudos especializados tradicionais procurando entender as combinações. mas estudar o meio ambiente (. afirmando que Bertrand: (.1 – Esquema das relações entre os elementos de um Geossistema (Fonte: BERTRAND.. (TROPPMAIR. além do estudo dos elementos abióticos (clima. o que passa na história recente (. também influenciado pela visão sistêmica. biológicos e antrópicos que. da economia. 2004) . reagindo dialeticamente uns sobre os outros. não para fazer sociologia. e nós trabalhamos com a diversidade’. avançaram nos estudos atuais das paisagens naturais. como Rougerie seguidos por geomorfólogos. Para Rougerie e Beroutchachvili (1991).) quer dizer. e se abre para os problemas de ordenamento das paisagens. 2004). de elementos físicos. É preciso frisar bem que não se trata somente da paisagem “natural”.

complexo e integrado onde há circulação de energia e matéria e onde ocorre exploração biológica. 1984). entre as várias definições para a Ecologia da Paisagem. introduzido nos EUA e em outros países de língua inglesa. considerando-se o termo “holístico” como uma total integração do natural com o elaborado pelo homem. a sociedade e o meio físico como um conjunto. que conduziu a criação da Internacional Association of Landscape Ecology (IALE) em 1984. a Ecologia da Paisagem despontou com raízes na Europa Central e Ocidental. foi a Ecologia da Paisagem. Troll teve a intenção de incentivar uma colaboração entre a Geografia e a Ecologia combinando. o 1º Congresso Internacional de Ecologia da Paisagem. (Zonneveld. inclusive aquela praticada pelo homem. após a II Guerra Mundial. um termo fundamental e de importante significado para a geografia. no estudo das interações funcionais de um dado lugar. foi cunhado por Troll em 1939. por exemplo. Naveh e Liebernam (1984) afirmam que. pois a paisagem é a fisionomia do próprio Geossistema. atitude e pensamento holísticos. organizado pela The Netherlands Society of Landscape Ecology. Uma importante contribuição para esse campo foi o estabelecimento de áreas especiais para a Ecologia da Paisagem nas principais universidades da Alemanha com o objetivo de se considerar o complexo inter-relacionamento entre o homem e suas paisagens naturais. com a aproximação “vertical” dos ecólogos. culturais e industriais. ou “ecótopo” (NAVEH e LIEBERMAN. o primeiro presidente da IALE: a ecologia da paisagem deveria ser considerada como uma ciência Bio-GeoHumana e com abordagem. Zonneveld. a aproximação “horizontal” do geógrafo examinando a interação espacial dos fenômenos. Entre os anos de 1945 e 1975. na prática. O termo Ecologia da Paisagem. novas fronteiras foram traçadas em relação à Teoria Geral dos Sistemas. o rural e o urbano. Profissionais das mais diversas áreas se uniram com a intenção de criar uma ponte entre o sistema natural. Em 1981. ao mesmo tempo. a mais ampla e compreensível definição foi apresentada por Isaak S. procuravam construir uma noção de Ecologia da Paisagem como uma ciência interdisciplinar que conduzisse a um inter-relacionamento entre a sociedade humana e seu espaço de vida – suas paisagens construídas ou não. A intenção de Troll poderia ser entendida como uma esperança de estudos que pudessem considerar o ser humano. o enriquecimento do ambiente biótico natural. com a Ecologia da Paisagem. e. Para Zonneveld (1990). realizou-se em Wageningen (Holanda). com a inclusão das demandas naturais. culturais e sócioeconômicas e. os trabalhos de Neef (1956. que paisagem é um fato concreto. esses autores sugeriram um novo . A ECOLOGIA DA PAISAGEM Em meados do século XX. como uma disciplina científica emergente. surgiram várias pesquisas nessa área. O primeiro trabalho sobre o tema escrito em inglês por Naveh e Lieberman (1984). Com a sugestão desse termo. 1967) que salientavam o caráter interdisciplinar dessa abordagem. 1982 apud NAVEH. Durante o congresso. 2000). como. Geógrafos e Ecólogos na Europa Central. ao estudar questões relacionadas ao uso da terra por meio de fotografias aéreas e interpretação das paisagens. assim. a Ecologia da Paisagem de Troll foi uma tentativa de casamento entre a Geografia (paisagem) e a Biologia (Ecologia). sendo a Alemanha e a Holanda os primeiros países com a maior quantidade de trabalhos produzidos nessa área.54 Troppmair (2004) conclui que o Geossistema é um sistema natural.

1984). ao arruamento. muitas vezes. O THE seria considerado o mais alto nível de integração ecológica. Existem modelos matematicamente muito sofisticados. a Ecologia da Paisagem necessitaria de uma concepção bem mais holística. afirma logo de início que a ênfase será dada nos processos naturais (relevo. economia. Até mesmo Bertalanffy concorda com uma certa incongruência entre modelo e realidade. às cidades. possivelmente. em um trabalho de 632 páginas sobre Ecologia da Paisagem. Ela sobrepujou os objetivos puramente naturais da bioecologia clássica e tem tentado incluir as áreas nas quais o ser humano é o centro da questão – sociopsicologia. como. nem a existência. exclui propositadamente o ser humano de suas pesquisas. o Total Human Ecosystem (THE) – como um supersistema físico-geosférico. 1993).) seria melhor um modelo não-matemático (verbal) do que iniciar com um modelo matemático e. água. justificando que sendo os mapas produtos humanos estes apresentam uma perspectiva antropocêntrica. clima. principalmente na escola americana. e este deveria ser considerado o maior paradigma holístico da Ecologia da Paisagem. saúde. nem o sujeito podem ser expressos matematicamente ou por meio de fórmulas” (MORIN. manejo. solo. Constata-se. como a Física Naveh (2000). mas que são dúbios quando são aplicados em casos concretos. ao uso da terra. restringir o campo de visão (BERTALANFFY. existem problemas fundamentais para os quais técnicas nãomatemáticas são mais adequadas (. Perante os desafios de salvaguardar e criar sustentabilidade. acreditando que a Ecologia da Paisagem somente poderá alcançar uma “maturidade científica” se for capaz de fazer predições exatas de acordo com uma visão mecanicista. a Ecologia da Paisagem estuda a distribuição de padrões de comunidades e ecossistemas e os processos ecológicos que afetam esses padrões. aos limites políticos e. é condenar todo conceito que não seja traduzido por uma medida: “Ora. no qual os fenômenos só devem ser descritos com a ajuda de quantidades mensuráveis.. é muito aceitável que ocorra uma série de concepções diferentes para a Ecologia da Paisagem. justifica sua escolha por modelos de paisagens. Pearson (2002). Para Forman e Godron (1986). interpretados sob a perspectiva de diferentes espécies (excluindo a humana). assim. portanto. Para Morin (2000). ou seja. A Ecologia da Paisagem. Como uma ciência ainda muito jovem. fogo. por exemplo. uma insatisfação com a atual Ecologia da Paisagem quando Naveh (2000) observa a necessidade da inclusão do ser humano e sua dimensão cultural-social e econômica como parte integral de uma ecologia global. conservação. Há. Formam (1995). 2000). mental e espiritual. um considerável número de ecologistas da paisagem que se agarram a um paradigma mecanicista e reducionista. . planta e animal) e não nos aspectos das ciências sociais e das humanidades. em um capítulo de livro que se propõe a ensinar conceitos e técnicas em Ecologia da Paisagem. no qual os homens seriam integrados com seu ambiente total. não refletem as características importantes da vida selvagem. ainda. paisagens produtivas e atrativas para o próximo milênio. utilizando mapas de cobertura da terra. A Ecologia da Paisagem é vista na Europa como uma base científica para o planejamento. nem o ser. entretanto. uma definição bem biocêntrica.. desenvolvimento e melhoria da paisagem.55 conceito. geografia e cultura (NAVEH E LIEBERMAN. prender-se ao axioma de Galileu. tendendo a se reportarem às necessidades humanas e aos sistemas econômcos.

McHarg. XX) surge a primeira tentativa de síntese geral dos estudos de Ecologia Urbana (Stadtökologie). 714p. Naveh em Israel.. 2000). Urban Ecology – scientific and practical aspects. H. pelo modelo da especialização fechada que formam as mentes tornando insensato um conhecimento para além de uma especialização. fazem com que a ciência seja dividida em inúmeras disciplinas que. alguns pesquisadores que poderiam ser incluídos no campo da Ecologia da Paisagem. Porto e Joly. o biólogo. Neef.) Urban Ecology. Bertrand. J. que surgiu com a integração de duas importantes ciências.56 O professor Felisberto Cavalheiro destacava em suas aulas. inflexíveis. SUKOPP. durante a década de 90 e início do século XXI. como dizia Curien. as resistências são inacreditáveis. Haber. Steinitz e Turner nos Estados Unidos e Monteiro. Tanto no campo da pesquisa quanto no da educação. é claro. Nas décadas de 30 e 40 (séc.. 1993). ainda. portanto. ainda mais. o psicólogo e o cientista social são encapsulados em seus universos privados. Na década de 50 esses estudos investigam as plantas ruderais que cresciam nas ruínas da 2ª Guerra Mundial e somente na década de 70 é que ocorre uma intensificação dos estudos de Ecologia Urbana (SUKOPP. Leser. 1998.) Estes (os professores). Berlim: Springer. A crescente especialização que caracteriza a ciência moderna. se justificadas de acordo com a teoria adotada. H. como Buchwald.. Schmitthüsen e Tüxen na Alemanha. De Groot e Zonneveld na Holanda. 1998). desprezar quaisquer pesquisas sejam elas mais integradoras ou mais analíticas. a complexidade de técnicas e de estruturas teóricas dentro de cada campo de estudo. 15 Segundo Sukopp (1998) foi Schouw que em 1823 usou a expressão “plantae urbanae” para as plantas que ocorriam perto das vilas e cidades e que por volta de 1850 as investigação da ocorrência e distribuição da flora e da fauna de áreas urbanas eram considerados estudos de “História Natural”. poderia ser trabalhada como um aglutinador de diferentes disciplinas com o objetivo de entendimento da complexidade do ambiente e quem sabe não se poderia aventar por uma possível “unidade teórico-metodológica” como sugere Monteiro (1978). são como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram (MORIN. Rougerie e Tricart na França. pois. Não se pretende. A Ecologia da Paisagem deveria dar sua colaboração ao planejamento em geral. Risser. Essa área do conhecimento. e isso não deveria acontecer com a Ecologia da Paisagem (BERTALANFFY. também do Brasil. os mecanismos são rígidos.. ou seja. (Eds. Drosdov. continuamente. Berutchavili. Ellenberg. Felisberto também salientava que havia. levando-se em conta. Gerasimov e Sotchava na Rússia. geram outras novas subdisciplinas. inclusive ao planejamento urbano e não ficar apenas restrita ao estudo das unidades naturais (KLINK. o surgimento da Ecologia Urbana. . sendo muito difícil trocarem palavras de um “casulo” para outro. Godron. um ramo mais especializado surgia. Forman. ainda. In: BREUSTE. apontando como seu mais importante expoente o alemão Herbert Sukopp da Universidade Técnica de Berlim15. 1981). O. fechados e burocratizados (. a uma enorme quantidade de dados. Conseqüentemente. Kiemstedt. o desempenho do ser humano nas relações ecológicas da paisagem e comunicava. já apresentam uma razão de ser. FELDMANN. que se mencionar que em função dos estudos de Ecologia da Paisagem. Ab’Sáber e Troppmair como precursores e divulgadores da obra de Troll no Brasil e citava. UHLMANN. As dificuldades para se alcançar essa “unidade teórico-metodológica” se justificam com a mesma explicação que Morin utiliza para o sistema educacional. o físico. a Ecologia e a Geografia. Liebermann.

de programas com o propósito de combinar os aspectos tradicionais do embelezamento da paisagem com as novas questões relacionadas com a proteção dos recursos naturais. a Ecologia.. pós 2ª Guerra Mundial. mesas redondas e debates. onde é uma atividade prevista em lei. essa área do conhecimento estava voltada mais para o embelezamento da paisagem. especialmente aquelas que se projetam multidisciplinarmente.. o Planejamento da Paisagem se constitui um importante instrumento para a organização do espaço utilizado em diversos países. políticos e a oportunidade de. Até mesmo a nova visão da realidade . de professores e outros pesquisadores. Atualmente. por Capra (1982) pode ser criticada por reduzir todas as questões humanas e da sociedade a peças de engrenagens controladas por mecanismos de retroalimentação. entre outros. foi professor do Departamento de Geografia (FFLCHUSP) e transitava muito bem pelas diferentes áreas que tratam da questão ambiental. Nessa época surgiram na Alemanha os movimentos de “retorno à natureza”.57 Monteiro (1978) afirma que nossa tradição em realizar pesquisas em equipe. a Ecologia da Paisagem passou a fazer parte dos Congressos Brasileiros de Ecologia como área de divulgação de trabalhos. contra a industrialização (KIEMSTEDT et al. vivenciar concretamente as belas paisagens da região. presidido por Felisberto Cavalheiro16 . principalmente. que atravancam os estudos no campo das preocupações ambientais. a Agronomia e a Arquitetura. dos estudos alemães sobre paisagem. bem como a oportunidade para a exposição de trabalhos de alunos. A troca de conhecimento. No seu início.a concepção sistêmica da vida – proposta. . 1998). por meio de excursões. mas durante a Revolução Industrial surgiram preocupações com o desenvolvimento caótico das cidades e com o crescimento da destruição da natureza. fizeram do I Fórum um marco da Ecologia da Paisagem no Brasil (vide programação do Fórum – anexo 1). Houve um grande incentivo para a abertura nas universidades. também. Uma tentativa de se romper essas barreiras. 16 O doutor Felisberto Cavalheiro (1945-2003). aconteceu no I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem e Planejamento Ambiental. o trabalho em equipes multidisciplinares e a utilização de conceitos e teorias mais integradoras trariam uma possibilidade de um melhor entendimento e posicionamento perante as questões relacionadas com a complexidade do mundo. para as conferências. A diversidade de profissionais convidados.) A pedagogia da complexidade ambiental abre o encontro infinito de seres diversos dialogando a partir de suas identidades e diferenças” (LEFF. O PLANEJAMENTO DA PAISAGEM: A BUSCA POR UMA TEORIA INTEGRADORA Acredita-se que nenhuma ciência em particular teria condições de sozinha resolver os problemas da complexidade do mundo de hoje. A eleição de uma única teoria para explicar o mundo parece ser um equívoco. realizado em Rio Claro/SP em junho de 2000. é muito reduzida. principalmente de pós-graduação. entre elas a Geografia. principalmente. Desde então. presença de representantes de diferentes comunidades. o Planejamento da Paisagem teve um papel muito importante na reconstrução do país destruído.. Nos anos de 1990 voltou parte de suas preocupações para um resgate. É necessário compreender que “A complexidade ambiental incorpora um processo de construção coletiva do saber (. muitos conhecidos internacionalmente. presidindo em 2000 o I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem (Rio Claro/SP). Na Alemanha. nos primórdios do século XIX. na Alemanha. 2001).

conceito que significa a tolerância do território para acolher os usos do solo objeto de localização. tem como base a capacidad de acogida del território. renaturalização de cursos d’água. industrial. O Planejamento da Paisagem na Alemanha é um instrumento de proteção e desenvolvimento da natureza com o objetivo de salvaguardar a capacidade dos ecossistemas e o potencial recreativo da paisagem como partes fundamentais para a vida humana e segundo Kiemstedt e Gustedt (1990) e Kiemstedt et al. o Ato Federal de Proteção da Natureza. aprovado em 20. comercial. sendo que essas áreas precisam ser designadas e protegidas do impacto visual. principalmente. revegetação. reflorestamento. as limitações por eles impostas. este último desenvolvido em área urbana. torna-se necessário conhecer as aptidões dos terrenos para construção. tal como residencial.  salvaguardar o solo. etc. Segundo Gómez Orea (1978). combinando os mapas dentro de uma simples composição que indica (por cores e tons usados por vários fatores) a susceptibilidade intrínseca da terra por vários usos. que estuda a problemática econômica e social da população e define os objetivos a conseguir. Segundo Kiemstedt e Gustedt (1990) e Kiemstedt et al. que regulamentam as leis federais. em estudos de planejamento para a localização espacial das atividades para a província de Madrid.12. a água e o clima por meio da regulamentação de seus usos e regeneração dos recursos. (1998). Essa susceptibilidade do solo a certos usos também se encontra no pensamento de Tricart (1977) quando argumenta que a organização ou reorganização do território exige um diagnóstico preliminar. solo e habitat da vida selvagem) e. também. depois. e metas de qualidade ambiental como subsídio à Avaliação de Impactos Ambientais. da permeabilidade dos solos. e uma linha da oferta. Gomes Orea (1978). apontam para a idéia da necessidade de limitar a utilização antrópica da paisagem considerando que o meio natural apresenta fragilidades. Outros trabalhos. dos ruídos e da poluição. geologia. hidrologia. Pode-se citar como propostas metodológicas no campo do Planejamento da Paisagem a de McHarg (1971). dos aqüíferos e da poluição utilizando a vegetação como forma de controle e  definir recomendações sobre a qualidade da natureza e das paisagens. podendo-se citar Ross (1994 e 1995) e Nucci (2001). sem que se produzam deteriorações irreversíveis por sobre os limites toleráveis. seus elementos e os espaços livres em áreas urbanas para fornecer a oportunidade de contato contemplativo e recreativo na natureza em contraste com as atividades recreativas comerciais. controle do escoamento superficial.1976 e os Atos Estaduais de Proteção da Natureza. preliminarmente ao estudo do zoneamento. que examina as carac- . os muitos trabalhos de interesse ambiental publicados. conservação e recreação ativa ou passiva. o processo de planejamento pode estruturar-se segundo duas linhas paralelas: uma linha da demanda.58 Durante a década de 70. suas metas seriam:  salvaguardar a diversidade animal e vegetal e suas biocenoses por meio do desenvolvimento de uma rede interligada de áreas protegidas. (1998). que procura incorporar os fatores do meio físico no planejamento com o mapeamento dos fatores intrínsecos do meio natural (clima. em adição. as conferências internacionais sobre meio ambiente e o surgimento de ONGs influenciaram a política ambiental alemã. essas leis definem os objetivos do Planejamento da Paisagem como os de proteção e manejo da natureza e da paisagem em áreas urbanizadas ou não. ou seja. a composição indica áreas sobre o terreno onde mais de um uso pode ser suportado.  salvaguardar as paisagens. culminando na mais importante fundamentação legal para o Planejamento da Paisagem.

por exemplo. porém com a perda de precisão do termo “ambiente”. pode ser assim resumida: a) Dimensão física da planificação (oferta). Um outro procedimento fundamental no planejamento da paisagem é o da classificação da paisagem em conjuntos de subespaços afins de modo a facilitar sua compreensão e prognósticos. Tal relação tem uma dupla vertente: impacto (mudança de valor dos recursos diante de sua dedicação ao uso concreto) e a aptidão (expressão do potencial de cada recurso para cada uso). abrangendo sempre áreas com centenas e mesmo milhares de quilômetros quadrados. todos esses termos utilizados para nomear os níveis escalares da paisagem (geossistema. por exemplo. etc. Para Troppmair (2004). perceptivas e culturais do território. Entretanto. 17 Interessante ressaltar que Gomes Orea utilizava o termo Planejamento Ambiental ou Planificacion del médio ambiente.  predição que consiste na relação uso x território.2). definindo as possibilidades atuais e potenciais de satisfazer a demanda (Figura 3. é o comportamento do território supondo que sobre ele se estabeleça qualquer dos usos em questão. geótopo. o autor passou a utilizar “planejamento do meio físico”. na forma de mapas temáticos. quando se trata de áreas muito limitadas. fora aplicado às amplas áreas da ex União Soviética. O conceito de Geossistema. entre outros.: NUCCI. DELPOUX.2 – Esquema Genérico de um Processo de Planejamento. a compreensão. para o Prof. portanto. b) Descrição da seqüência. há necessidade de recorrermos a subdivisões como geofácies. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (comunicação pessoal). (Fonte: GÓMEZ OREA. facilitando. A seqüência sumária de um processo de planejamento do meio físico17. Para tanto. podendo-se acrescentar ainda. 1974) buscando identificar as “descontinuidades na paisagem” (BERTRAND. biótopo. ecótopo.  valoração dos temas inventariados em termos de sua qualidade ou grau de excelência intrínseco. .59 terísticas do meio em que se desenvolvem as atividades humanas. deveriam ser substituídos apenas pelo termo “unidade de paisagem” acompanhado da escala.  estabelecimento dos objetivos.  inventário das características físicas.000. Os dados são expressos em mapas e o inventário se expressa. quer dizer. geótopos. geofácies. unidades de paisagens na escala 1:10. Org. pode-se utilizar o “critério da homogeneidade” (GOMES OREA. 2001). 1978. pedótopo. biológicas.). segundo Gomes Orea (1978). ditado por Sotchava (1977) de forma muito flexível. 1978. 1972). Figura 3. portanto.

Pode-se perceber pelo exposto que o Planejamento da Paisagem volta-se mais para as questões da natureza relacionadas com a sua utilização pela sociedade. econômicas. sem se considerar outras questões. mas deve-se acrescentar a ela a prognose de acordo com as diferentes possibilidades de usos requisitados pela sociedade. pode-se. . basicamente. sugere-se entender a paisagem como um termo fundamental e de importante significado para a Geografia. no estudo sobre a província de Madri (GÓMEZ OREA. como as culturais. pode ser entendida como uma proposta de organização do espaço. (GÓMEZ OREA. que pretende evitar a deterioração ou consumo dos recursos naturais. A delimitação de Unidades de Paisagem não pode ser entendida como um fim em si mesmo. Desde que – como já admite a ciência . Talvez o experiente professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro possa fornecer um caminho ao acreditar que a ciência do homem acena com a possibilidade de se desvelar do caos em que se encontra a humanidade.). 1975). vegetação. cit. como o solo agrícola e a água de boa qualidade (LAURIE. um tipo de zoneamento. etc. os planos poderão abrir-se a novas utopias (MONTEIRO. também. sociais e culturais. op. A busca dessa homogeneidade para a delimitação de unidades de paisagem pode se reduzir aos indicadores ambientais mais importantes.60 Essa delimitação de unidades de paisagens. classes de declividade. Cada unidade deve passar por uma avaliação. obrigatória aos projetos de conservação e otimização do ambiente em torno do homem.. 1992) CONSIDERAÇÕES FINAIS Até o momento.não sejamos tolhidos pelo trauma imposto pela obsessão do objetivo. O Planejamento da Paisagem pode ser entendido como o processo positivo que pretende acomodar certos usos nas terras com melhores capacidades de acolhimento para os mesmos e como um processo negativo. a homogeneidade foi estabelecida atendendo.). uma valoração em termos de suas qualidades ou grau de excelência intrínseco (GÓMEZ OREA. formações rochosas. Como ponto de partida e com a intenção de enfrentar esse desafio. do exato. estabelecida em um plano.. Para Sotchava (1977). ao aproximativo. mas conciliemos o físico ao metafísico. Como um fato concreto e a feição (fisionomia) da estrutura. ao mesmo tempo. Além do levantamento da situação original (primitiva) e do diagnóstico da situação atual. a prognose da dinâmica normal é condição necessária para a utilização racional da natureza. por exemplo. em via de elaborar-se no momento presente. ao subjetivo. das questões naturais. 1978). cit. formas de relevo.) o planejamento será presidido por uma nova “razão”. Por exemplo. adicionando ao probabilístico. não se encontrou uma teoria única com base científica capaz de tratar. em sua totalidade. às características da vegetação e das formas de relevo. do verdadeiro. por meio do cruzamento de cartas temáticas. como a Geografia. e afirma que: (. valorizando ou não certas características da paisagem: tipos de solo. sendo alcançado por meio de uma classificação do território em setores homogêneos como. pois a construção desse tipo de teoria constitui um dos desafios das ciências integradoras ou de síntese. características fundamentais do Planejamento da Paisagem. ou seja. sugerir cenários futuros de acordo com o tipo de desenvolvimento imaginado para a paisagem em questão. das inter-relações e da evolução que ocorrem em determinada área. op.

1a. G. a partir dos objetivos centrais da análise. 1968). H. 1999.61 O conceito de paisagem indicado pelo professor Felisberto Cavalheiro em suas aulas e orientações é o proposto pelo geógrafo Prof. 1972). Alexander von Humboldt. para fins de proposições de ordenamento do uso e da ocupação das diferentes unidades de paisagem. espacializada (expressão cartográfica) e integrada (análise sistêmica). Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – DG/FFLCH/USP. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix. visando a um ambiente saudável e viável em longo prazo para o uso humano. 2001. von. . 632 p. (1ª ed. 1995. biológicos e antrópicos). New York: Cambridge University Press. Ainda. (Trad. p. R. BERTRAND. BERTALANFFY. de forma operativa (dados facilmente aplicados ao planejamento). mas individualizadas através das relações entre elas que organizam um todo complexo (sistema) verdadeiro conjunto solidário em perpétua evolução” MONTEIRO (2000. M. Bonn: Inter Nationes. A. F. 257 p. 15). São Paulo: FFLCH/USP. L. São Paulo. CAPRA. Esboço Metodológico. 1972. portanto.T. sugere-se o método “Planejamento da Paisagem” como uma ferramenta de pesquisa e aplicação interdisciplinar que busca uma proposição ótima de uso e ocupação do solo18. DELPOUX. development. FORMAN. de qualquer modo sempre resultado de integração dinâmica e. 1993. 48 p. New York: George Braziller. Paisagem e Geografia Física Global.T. SCHOENWALDT. 1974. P. 18 Estudos de Planejamento da Paisagem. Do Berço da Siderurgia Brasileira à Conservação de Recursos Naturais . Modenesi. Ecossistema e Paisagem. The ecology of landscapes and regions. 01-27 p. Seguindo pelo mesmo caminho. REFERÊNCIAS BECK. Esses estudos apresentam como objetivo principal estudar as paisagens. 13. expressa em partes delimitáveis infinitamente. 1982. Carlos Augusto Figueiredo Monteiro: a paisagem é a “Entidade espacial delimitada segundo um nível de resolução do pesquisador. applications. Dr. FÁVERO.Um Estudo da Paisagem da Floresta Nacional de Ipanema (Iperó/SP). Land mosaics. como subsídio parcial para compreensão e utilização. estão sendo desenvolvidos no Laboratório de Biogeografia e Solos (LABS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ed. instável dos elementos de suporte e cobertura (físicos. São Paulo: Instituto de Geografia – USP. das potencialidades da natureza (limites e aptidões) e necessidades/desejos da sociedade. O último dos grandes. 447 p. O. Caderno de Ciências da Terra No.. Métodos em Questão 7. com ênfase em seus aspectos naturais e culturais. toma-se a liberdade de indicar o trabalho de Bertrand (1972) por apresentar uma Geografia Física Global que se nutre dos estudos especializados tradicionais para entender as combinações. 23 p. General System Theory. Foundations. envolvendo questões da natureza e da cultura. 11ª ed. 295 p. a dinâmica e evolução das paisagens. para uma primeira e possível aproximação dessa complexa questão.

McHARG. RA’EGA – o espaço geográfico em análise. D. Barcelona: Gustavo Gili. 1983 (original em inglês – New York.137-139. 1990. A. E. v. 43-74. 1974). MONTEIRO. Derivações antropogênicas dos geossistemas terrestres no Brasil e alterações climáticas: perspectivas urbanas e agrárias ao problema da elaboração de modelos de avaliação. H. 2º sem. GEOSUL 14. J. What is holistic landscape ecology? A conceptual introduction. 15..Bertrand. Qualidade ambiental & adensamento urbano. de Geografia/USP.1 e v. New York: Wilen et Sons.C. nº 8. São Paulo: Cortez. New York: The American Museum of Natural History. A cabeça bem-feita: repensar a reforma – reformar o pensamento. E. J. 1971. A interação homem-natureza no futuro da cidade. Anais . GÓMEZ OREA. Hanover: The Federal Ministry for the Environment. Biogeografia e Paisagem. M. 1978. 240 p. A. Ed.62 FORMAN. 2001. LAURIE. C. OTT. 2000. de F./1992. São Paulo: Humanitas/FAPESP. Z. C. KIEMSTEDT. p. M. 236 p. 1a. Monteiro. 1998. Design with Nature. L.T. 2001. M. Universidade de Hanover. Landscape Planning: contents and procedures. NAVEH. 1975). Z. 39 p.. Geossistemas: a História de uma Procura. 2004. p. MONTEIRO. São Paulo: ACIESP nº. 1972) PASSOS.S. KLINK.T. Lieberman. von HAAREN. Theory and Application. 1988. GUSTEDT. 127 p. 1981 (Trad.. (Resenha do artigo Paisagem e Geografia Física Global . 105 p. MORIN. M. C.. Introducción a la arquitectura del paisaje. NUCCI. Curitiba: DGEOG/UFPR. MÖNNECKE. E. Epistemologia ambiental. New York: Springer-Verlag. .J. I. TURÍSTICA E ECONÔMICA.C. 1986. H. KIEMSTEDT. Landscape Ecology. Biogeografia 17. de F. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.2. Landschaftsplanung als Instrument umfassender Umweltvorsoge (Conferência Internacional). Presidente Prudente: edição do autor. 198 p. LEFF. 1978. de F. A... ed. dos. C. Madrid: Cuadernos del CIFCA.. GODRON. Naveh. SIMPÓSIO SOBRE A COMUNIDADE VEGETAL COMO UNIDADE BIOLÓGICA. A. Florianópolis: Depto. Nature Conservation and Nuclear Safety. 2000. Geoecologia e regionalização natural (bases para pesquisa ambiental). M. R. H. S. Paperback edition. MONTEIRO. 1984. de Geociências – CCH. 304 p. 128 p.. El Medio Fisico y la Planificación. 619 p. NUCCI. São Paulo: Inst. Landscape Ecology. Landscape and Urban Planning 50 (2000) 7±26. São Paulo: Contexto..

1998.01-52. J. 2003. 714 p.FFLCH/USP. S. S. 1995. ROSS. 1994. J. Análises e Sínteses na Abordagem Geográfica da Pesquisa para o Planejamento Ambiental.. 1990. New York: Spring-Verlag. UHLMANN.63 278 p. de Geografia. L.) Urban Ecology. Ciência e Estética em Alexander von Humboldt. TRICART.. J. São Paulo: Instituto de Geografia/USP.. 130 p. Métodos em Questão nº 16. nº 8 . 2002. nº 09.) Learning Landscape Ecology. São Paulo: FIBGE. ROSS. H.M. H. Natureza. I. In: Zonneveld e Forman (eds.S. (Eds. TROPPMAIR. O Estudo de Geossistemas. de Geografia. Geossistemas. p. Rio Claro: edição do autor. 65-75 p. L. 1977. S. SUKOPP. A practical guide to concepts and techniques. (Eds. In: BREUSTE. 286 p. p. FELDMANN. PEARSON. Ecodinâmica. São Paulo: FFLCH/USP. O. H. 187-198 RICOTTA. L. Revista do Depto.G. ZONNEVELD. V. p. Geossistemas Paulistas e Ecologia da Paisagem. Berlim: Springer. Rio de Janeiro: MAUAD. In: GERGEL. SOTCHAVA. São Paulo. Revista do Depto.) Changing Landscapes: an ecological perspective.E. Scope and concepts of landscape ecology as na emerging science. M. J. Análise Empírica da Fragilidade dos Ambientes Naturais e Antropizados. S. B. TURNER. 1977. 63-74. 215 p. 2004. Urban Ecology – scientific and practical aspects. Berlin: SpringVerlag. . Sistemas. Interprerting landscape patterns from organism-based perspectives.

 Considerações sobre Preferências Culturais e Propostas para Planejamento Ambiental – Henri Décamps (Universidade de Toulouse – França). Ecologia. Sociologia.  Parque Ecológico do Tietê: para contornar problemas de inundação em São Paulo (Ruy Ohtake). Florestal. Civil. Urbanismo.64 ANEXO 1 Programação parcial do I Fórum de Debates ECOLOGIA DA PAISAGEM E PLANEJAMENTO AMBIENTAL Período: de 04 a 08 de junho de 2000 Local: Horto Florestal Navarro de Andrade e Instituto Biociências/Unesp – Rio Claro/SP – Brasil. . Engenharia (Agronômica.  Agenda 21 – Peter Meyer (Parlamento da Alemanha). Geografia. Biologia.  Alcance Profissional da Jardinocultura e Desenvolvimento de Espaços Livres na AleO manha – Gert Gröning (Universidade de Artes de Berlim . Serviços Públicos Federais. Escritórios de Planejamento. Arquitetura. Estaduais e Municipais.  Instabilidade de Vertentes em Áreas Tropicais – Lylian Coltrinari (USP – São Paulo/ SP). outras).  Questões Ambientais no Brasil – Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (USP – São Paulo/SP).Alemanha). Empresas Construtoras e Alunos de Graduação e de Pós-graduação.  Cartografia de Biótopos – Markus Weber (Grupo Brandt Meio Ambiente – Belo Horizonte/MG). Realização: SEB – Sociedade de Ecologia do Brasil CEA – Centro de Estudos Ambientais – Unesp IB – Instituto de Biociências – USP IGCE – Instituto de Geociências e Ciências Exatas – Unesp CEAPLA – Centro de Análise e Planejamento Ambiental – Unesp FFLCH – Faculdade de Filosofia. Geoecologia. Público-Alvo: profissionais de universidades. Letras e Ciências Humanas – USP PPG-ERN/UFSCar – Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais IF – Instituto Florestal – SMA PMRC – Prefeitura Municipal de Rio Claro SBAU – Sociedade Brasileira de Arborização Urbana Programa (principais palestras e convidados):  Ecologia da Paisagem: uma restrospectiva – Helmut Troppmair (Unesp – Rio Claro/ SP).

pelo contrário deve ter-se acentuado. em nível mundial. as alterações ambientais e conseqüente modificações das paisagens vêm sendo registradas.763km. A urbanização consome grande quantidade de áreas. requerer todo um aparato técnico e de equipes de especialistas. (orgs). principalmente. o tipo de paisagem mais severamente ameaçado por poluição do ar. 40. dos 135. se não for bem administrado. ela ainda era alta. Kiemstedt e Gustedt (1990) relatam que 18% da Republica Federal da Alemanha é ocupada por cidades. 1991.500 ha/ano entre 1974-1987 e que. França e Alemanha. 1981). tamponando-as. indústrias e sistemas rodoviários e ferroviários. para então estudar quais devem ser as tecnologias mais compatíveis a serem utilizadas.000 habitantes do Brasil. e que 145 ha/dia são destinados ao desenvolvimento urbano e movimentos de terra. a concentração humana e das atividades a ela relacionada provocam uma ruptura do funcionamento do ambiente natural. dos 8.000 ha/ano. muitas vezes. 88-99 20 DG-FFLCH-USP. principalmente. administrativos e planejadores. No caso da Grande São Paulo. ou seja. Assim. Se por um lado a tendência à urbanização apresenta um desafio para os técnicos. essa situação não se reverteu. Ao que tudo indica.564. 30% da população brasileira concentrar-se-iam em 0. 1. A EMPLASA (1989) divulgou que sua área urbanizada cresceu à razão de 3. o que deverá ser constatado no próximo Recenseamento Geral da Nação. povoados. em cidades. Como lembram Sukopp e Kunick (1973) a discussão sobre o ambiente do ser humano e seus riscos de sobrevivência concentramse.742 km das nove regiões metropolitanas. Rio Claro/SP : UNESP/FAPESP. Baseando-se nos dados de Mota (1981) verifica-se que teria havido um acréscimo proporcional dessa população. além disso.CAPITULO 4 URBANIZAÇÃO E ALTERAÇÕES AMBIENTAIS19 Felisberto Cavalheiro20 A população da Terra vem apresentando um crescimento intenso e. Os processos de urbanização são hoje universais e suscitam na opinião da população e nas autoridades políticas e científicas grande preocupação. solos férteis. para as grandes cidades. De fato. A natureza e a paisagem como sistemas complexos raramente são incluídas nessas reflexões. é bastante oneroso e. 1945-2003 . p. embora entre 1980-1987 tenha havido um decréscimo na taxa.000km estão construídos (CONTI. da ordem de 2. Isso vale. Com isso. em considerações tecnológicas. pois. Cada vez mais chega-se à conclusão de que não basta que se tome mão só de medidas tecnológicas para controle das degradações ambientais. ecossistemas raros e valiosos são perdidos.5% do território nacional. perecível em curtíssimo prazo.861 viveriam nos 43. desde a Revolução Industrial na Inglaterra. preponderantemente.632. da ordem de 3% entre 1975 e 1985. passou a concentrar-se. das águas 19 Artigo originalmente publicado no livro “Análise ambiental: uma visão multidisciplinar” (Sâmia TAUK et al. As estimativas do IBGE (1982) previam que em 1985. biótipos. o mais lógico parece ser: primeiro tirar partido do que a natureza pode oferecer no tocante à auto-regeneração. nos séculos XVIII e XIX.

há necessidade de uma reflexão no conceito de paisagem proposto por Bertrand (1972): A paisagem não é a simples adição de elementos geográficos disparatados. Talvez a aversão que os pesquisadores das ciências naturais têm em relação às cidades deva-se à pressuposição de que estas sejam menos convenientes para estudar-se a natureza e as repetitivas afirmações de que o meio urbano é. (1985) têm buscado dar uma interpretação holística nesse sentido. fazem da paisagem um conjunto único e indissociável. Assim. o resultado da combinação dinâmica. A preocupação da pesquisa das alterações dos diversos componentes da paisagem urbana não é recente. biológicos e antrópicos que. considerá-las e reconhecê-las como unidades funcionais (ecossistemas).1 procura representar. nocivo à vida. entretanto via de regra são pouco perceptíveis. ou. as principais alterações ambientais induzidas pelo ser humano em grandes cidades. sem inter-relacioná-los. porém sempre houve a tendência de estudá-los isoladamente. Deve-se ressaltar que em cidades pequenas as alterações podem ser significativas. esquece-se que a paisagem urbana nada mais é do que uma paisagem alterada. em perpétua evolução. No Brasil. de elementos físicos. em geral. reagindo dialeticamente uns sobre os outros. em uma determinada porção do espaço. estudar. são esparsas as tentativas de estudá-las. derivada da natural. é na paisagem alterada que se deve ir buscar. . Para se fazer uma reversão dessa situação. analisar e prognosticar as degradações e impactos ambientais. portanto instável. como muitos desejam. Embora elas sejam o ambiente mais importante do homem hodierno. Monteiro et al. sobre as quais será feita uma discussão melhor mais adiante.66 e por resíduos sólidos. de forma esquemática. É. Nessas considerações. A Figura 4.

pode-se mencionar Landsberg (1956. todos os estudos enfocam muito mais o efeito clima (TARIFA. Cavalheiro e Caetano (1984). Troppmair (1976. referentes. Como pioneiro. No século XIX Howard (1883) estudou as alterações no clima londrino. Richter (1981). à temperatura e umidade. Michelle C. (1972). Bernatzky (1969. 1987). Monteiro e Tarifa (1973). Org: SILVA. isto é. Entre nós. M. 1973. Milano (1984. 1991).1 . 1974). Chevallerie (1976). Freiburg e Hohenheim (1977). um dos trabalhos que propõe diretrizes nesse sentido é o de Lombardo (1985). Rapoport et al. Sukopp e Kunick (1973). 1970). Carvalho (1982). Eriksen (1983). 1977). Estudos que diferenciam os diversos tipos de cobertura são raros e indicam antes uma constatação do fato do que proposições para o planejamento urbano Bach (1972). cita-se Monteiro (1975).. merecendo maiores referências à vegetação e alguns trabalhos sobre animais: Usteri (1911. (1974). os estudos iniciaram-se com Monteiro et al. sem cruzarem com o tipo de revestimento de solo que induz à modificação. 1977.Principais alterações da biosfera em áreas urbanizadas (Fonte: Sukopp e Kunick. Estes estudos foram isolados. Univ. 2006. Bordreuil (1977). Sukopp et al. Entre os autores da atualidade. Rapoport (1976). Siegler (1981). Outros componentes dos ecossistemas urbanos são ainda escassamente estudados. 1989). Eriksen (1983). Dansereau (1978). Finke (1976). 1919).67 Figura 4. (1983). Nischizawa e Yamashita (1967). modificado por Cavalheiro. No entanto. . Já na literatura alemã se encontra Bernatzky (1974). encaram a cidade como um todo homogêneo. que estudaram de perto a influência da urbanização sobre o clima. principalmente. Entre nós. mormente no que tange ao fenômeno relativo à ilha de calor. no sentido de proposição de teoria relativa ao clima urbano. 1983) e Douglas (1983). Fowler (1982. Sukopp (1972). contudo.

1972). embora regido pelas condições mesoclimáticas. tais como: efeito da transferência de energia nas construções urbanas. Org: SILVA. sem duvida.. quando feita de forma isolada. Figura 4. Os estudos realizados até agora indicam que o fenômeno denominado ilha de calor deve-se menos ao efeito estufa e muito mais a fatores urbanos específicos. evaporação reduzida e conseqüentemente falta .O domo de poluição urbana (Baseado em Marcus e Detwyler. com formas especiais (estruturas verticais. esses casos extremos são os que produzem condições “estressantes” para os seres humanos e têm efeitos ecológicos diretos sobre a biota urbana. se desenvolveu. Pode-se. M. Deve-se ressaltar que os valores apresentados referemse a valores médios. A Tabela 4. peca pelo reducionismo.1 mostra de forma evidente que os parâmetros metereológicos sofrem tal alteração que se pode dizer que a cidade é transferida para um outro local diferente daquele em que.68 Seria importante que as pesquisas de ecologia urbana passassem a ser mais desenvolvidas.2 . que está representado de forma esquemática na Figura 4. também. cores albedo e tipo de material constituinte). Justamente. de não se dar oportunidade para que especialistas de diversos ramos da ciência demonstrem suas capacidades. abandonar o corporativismo tão arraigado entre nós e usado como rótulo de defesa profissional. e isso. mais ou menos. Se melhor interpretado.2. deve ser entendido como uma estratégia de “lobbies”. Michelle C. é diferenciado microclimaticamente em função da cobertura do solo e do balanço térmico urbano. 1972). da paisagem que a circunda é um fato já há muito constatado. alertando-se para o fato de que tal análise. no entanto. mas que em casos isolados podem ser bem maiores. falar de um clima urbano que. mesmo. inicialmente. já que a paisagem é um todo contínuo (BERTRAND. A seguir passa-se a relatar com mais precisão as principais alterações nos diversos componentes urbanos. pressupõe um esforço interdisciplinar de vários especialistas. CLIMA Que o clima de uma cidade diferencia-se. Significaria. 2006.

000-100. respiratórios e de insônia.3).75 < 50. trânsito e residências (ERIKSEN.000 35. “Causa Mortis” p/ Habitantes 10. TABELA 4. dificulta ou mesmo impede a troca de ar da cidade com seu entorno não-urbanizado e a circulação do ar passa a processar-se.000 39.19 Total 120.77 10. Eriksen.12 Zona Rural 31. tais como problemas circulatórios. cardíacos.82 9.65 50.2 – Afecções pulmonares em cidades de diversos tamanhos na Inglaterra.75 48.5ºC mais alta 1-2 ºC mais alta 2% menor 8-10% menor 100% mais 30% mais 5-10% maior 5-10% maior 5-10% maior 10% mais 20-30% menos 5-20% mais 5-25% maior 10 vezes mais menor maior Resumindo.71 102. bem como na formação de corredores de vento que podem ocasionar grandes catástrofes e que frequentemente são relatadas na imprensa. tais como os apresentados na Tabela 4. 1983). internamente. Baseado Muller.90 Bronquite 61. pode-se dizer que a importância do clima urbano para o homem moderno traduz-se no aumento das chuvas fortes.5-1. > 100. radiação global ultravioleta média anual mínima no inverno inverno verão inverno verão cobertura média neve com mais de 5 mm média calmarias gasosa part. de forma “viciada” (Figura 4. 1980.. inundações.60 95. Infelizmente faltam-nos dados brasileiros. 1970. induzidas pela urbanização. produção de energia antropogênica pelos processos realizados nas indústrias.66 78.94 9.56 Outras 11. quando instalada.000 hab. Não menos graves são os “estresses” bioclimáticos ocasionados na população.55 36.1 – Alterações ambientais em cidade em comparação com o entorno não-urbanizado. Deve-se lembrar que a ilha de calor.22 53. que identifica a natureza como a grande vilã causadora dessas desgraças. 1980.000 Pneumonia 47. sólido calefação refrigeração 15-20% a menos 30% a menos 0. TABELA 4. e Sukopp et al.2 para a Inglaterra. 1974.69 do efeito refrescante a ela associado (pouco revestimento vegetal e rápido esgotamento das águas pluviais por canalizações). Radiação Temperatura Umidade Relativa Neblina Nuvens Precipitação Vento Poluição Gastos financeiros Modificado de Landsberg.15 .

2006. como os deslizamentos de massa havidos em Petrópolis em 1987. em todo o Brasil. no Brasil.. 1988 e 1989. verifica-se a destruição da camada superficial. Essa assertiva vale não só para ecossistemas naturais e agrários. . fértil de solo.70 Figura 4. capaz de suportar a vida vegetal. RELEVO E SOLOS Relevo e solo representam fatores ecofuncionais relevantes em todos os ecossistemas. para a incorporação nas áreas a serem plantadas.03-002. a Associação Brasileira de Normas Técnicas. M. Com o agravante de que. mas também para os ecossistemas urbanos. está desenvolvendo uma norma técnica para proteção do solo “vegetal”. Rio de Janeiro. Isso porque. Conseqüências da falta de reflexões acuradas na ocupação do solo podem ser constatadas. Para tentar solucionar o problema. sem grandes preocupações com as “feridas” abertas nessas paisagens. na Favela Nova Republica em São Paulo. de forma significativa. busca-se solo fértil em ambientes não degradados. infelizmente. se de um lado eles suportam a cidade. Michelle C.3 . a conformação urbana. Org: SILVA. Por falta de normas e legislação específica. quando se deseja ajardinar uma área urbana. proposto pela Comissão Técnica de Poluição do Solo. e pode-se ainda apontar para os casos isolados ocorridos em diversas cidades. 1983). 1989. em quase todas as obras urbanas. através do projeto 1:63. como o clima e ciclos hidrológicos. e determinam.Representação esquemática das radiações e balanço térmico em cidades (Baseado em Eriksen. também influenciam outros ecofatores.

que conta com estações primária e secundária e continua a lançar nos rios e represas grande quantidade de esgotos sem tratamento. O resultado será seu assoreamento ou entupimento. somente 33 contam com Estação de Tratamento de Esgotos. entre as quais citam-se os esgotos domésticos e industriais. à montante dessa obra. poderá causar inundações. nas cidades o ideal é que as águas cheguem com rapidez e também sejam esgotadas em grande velocidade. Há. como também para as canalizações responsáveis pelo esgotamento. como no caso do Município de São Paulo. as administrações municipais canalizam e/ou retificam os cursos d’água que cortam seus Municípios e muitas vezes utilizam o local do antigo leito. o que já foi dito em relação ao poder de transporte das águas nas cidades. que intensificará a pluviosidade. Deve-se considerar.71 ÁGUAS E CICLO HIDROLÓGICO Há uma alteração profunda tanto na configuração quanto no funcionamento e na qualidade das águas dentro das cidades. também. 25 têm tratamento primário e somente 8 secundário (SEADE. também. para a implantação de sistema viário. além de não se importarem com o que vai acontecer. dentro de um enfoque ecológico. Assim. A Figura 4. por sua vez. Freqüentemente. uma vez que. que isso não significa que todo esgoto desses Municípios é tratado.4 proporciona um painel do funcionamento dos ciclos hidrológicos urbanos. se não houver contínua retirada de material aportado aos canais. Enquanto. sendo que desses 33. o que em geral ocasiona um trabalho de erosão intenso. favorecendo as inundações. Com isso. o poder de transporte das águas nas cidades é muito grande. Digno de nota é ressaltar que dos 572 Municípios do Estado de São Paulo. que. para solucionar problemas relacionados com inundações. não se dão conta que estarão agravando o fenômeno ilha de calor. uma poluição significativa das águas de diversas causas. o ideal é que as águas fluam o mais lentamente possível para que a produção de biomassa seja grande. ou as margens dos canais criados. concomitantemente. Deve-se lembrar. grande quantidade de material sólido. 1988). ocorrerão bloqueios que produzirão inundações. levando para os corpos d’água. .

Em levantamento realizado por Camargo. que fez um estudo biogeográfico de líquenes como vegetais indicadores da poluição aérea da cidade de Campinas. A VEGETAÇÃO E A FLORA URBANA Sabe-se de sobejo a importância da vegetação para os ecossistemas. M. por sua vez. Nas cidades. 2006. Um exemplo a ser citado é o caso dos líquenes. sua composição florística é muito semelhante. Michelle C. indicam ambiente não poluído. Org: SILVA. Em relação a este tópico. entre as . constatou-se que.72 Figura 4. cita-se o trabalho de Troppmair (1977).4 – Esquema do balanço hídrico em áreas urbanas (Baseado em Plate. pois. uma influência muito grande sobre eles. que quanto maior for sua cobertura e diversidade. orientado pelo autor em três bairros da cidade de Rio Claro/SP. além de serem influenciadas pelos demais fatores ambientais. podem servir como indicadores biológicos da qualidade ambiental. têm. 1976).. Em relação à flora nota-se uma grande homogeneidade na sua composição nas cidades brasileiras e pode-se quase que generalizar que. além de indicarem que se está em presença de clima úmido. além dessas influências. como já foi comentado no caso do clima. para as cidades onde não ocorrem geadas severas.

(capim-mimoso). lembre-se também que muitas espécies (não nativas) cultivadas nas cidades são exóticas. R. com o agravante da mais freqüente. Digno também para o relato é o caso das plantas ruderais (as que crescem sobre escombros). Michelle C. 2006.. servindo como bioindicadores.73 espécies utilizadas na arborização de ruas. das quais são exemplo a mamona (Ricinus comunis).5 – Espécies utilizadas na arborização de três bairros de Rio Claro (SP). das ulmáceas. conhecidos por caruru. que por serem muito sensíveis à poluição não subsistem em áreas altamente urbanizadas. Embora tenha sido feito o registro de plantas ruderais rasteiras. A. ficoidea. não se deve esquecer de que entre as ruderais urbanas existem muitas espécies arbustivas e arborescentes. perpétua-do-mato. cinco delas perfaziam mais de 80% do total.. o gracioso Eragrostis pilosa Beauv. ou diversas espécies do gênero Euphorbia da família das euforbiáceas e outras. que. entre outras: Alternanthera brasiliana O. Kuntze. diversos Amaranthus. (capimde-pé-de-galinha).5% desse total (Figura 4. conforme já foi relatado para os líquenes. nada mais são que as pioneiras dos ambientes urbanos. Outra particularidade da flora urbana é a grande escassez de epífitas. seja porque as condições ambientais foram tão alteradas que as espécies nativas não têm mais condições de prosperar nesses locais. e a gurindiva (Trema micrantha Blume). da família das euforbiáceas. colonizando trincas de calçamento.Br. conhecidas por sempre-vivas. como o Cynodon dactylon Pers. na verdade. Org: SILVA. seja por razões culturais. . M. Além da homogeneidade florística. Exemplos comuns de ruderais em nossas cidades são. Figura 4. perfazer 52. a sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides Benth). muitas gramíneas. terrenos baldios e outros. a Eleusine indica Gaertn.5). (grama-seda).

poder-se-ia optar por uma composição orgânica das cidades. BORDREUIL. Dessa forma. funcionando como corredores da fauna e contribuindo para a Conservação da Natureza. no geral. La . Série Caderno de Ciências da Terra.Esboço Metodológico. Julgamos.1972.74 OS ANIMAIS NA CIDADE Segundo Müller (1977). setorização de atividades. visando funcionalidade e proporcionalização dos espaços. 27. Em visão não maniqueísta. Claro que se poderia discorrer sobre muitas outras proposições como melhoria das condições de sobrevivência das árvores nas cidades e que importâncias específicas elas desempenham nos ecossistemas urbanos. em Cincinnati (Ohio). G. razão porque deixamos de relatá-las. deve-se identificar essas espécies como importantes para a decomposição de resíduos. C. causam grandes danos e são significativos vetores de doenças. devido a sua grande abundância. demonstraram que os parques urbanos funcionam como ilhas para os dípteros e coleópteros. IG/USP. que em Varsóvia aproveitava-se da grande quantidade de lixo e dos “conduítes” de eletricidade ocos atrás de azulejos habitacionais construídos nas décadas de 1960-1970. Nesse contexto. que o planejamento urbano. p. a preferência de alguns animais pela cidade. O mesmo relata uma bióloga polonesa para o caso da formiga Nonomorium faraonis. culturais e econômicas que as áreas verdes deveriam desempenhar nas cidades. PROPOSIÇÕES Em uma breve consideração sobre o ordenamento de solo urbano. seria necessário que fosse feito à luz de análise e diagnose da paisagem. como para a desobstrução de várias canalizações urbanas. as tendências que se verificam em relação aos animais nas cidades são: diminuição abrupta da diversidade específica de algumas ordens. . REFERÊNCIAS BERTRAND. para a referência bibliográfica. não se dispõem dos dados da publicação. Outra questão a ser tratada é a preocupação com melhor integração dos diversos tipos de espaços urbanos. . Da mesma forma. entretanto. Cruz. São Paulo.Paisagem e Geografia Física Global . muita alimentação. evitou-se abordar as funções estéticas. que tendo à disposição. principalmente os espaços livres de construção. diminuição significativa da diversidade. Estudos realizados por Faeth e Kane (1978). tem-se evidente a importância da arborização de ruas (que deveria ser a mais diversificada possível) para integração das praças e parques. (1983). proliferam em demasia. funcionando para eles a fórmula de biogeografia de ilhas de McArthur e Wilson (1967). além de diversos abrigos. v. Isso para que se tenha mais ou menos claro qual deveria ser a proporção ideal de espaços construídos e livres de construção que suporta o ecossistema.Influence de 1’urbanisation sür Ia pluviometrie de Ia Region Marsellaise. está inserido na estratégia geral do consumo: grande preocupação com o sistema viário eficiente. Porém. Outras espécies são lembradas quando se trata de cidades: ratos e baratas. com o objetivo equilíbrio numérico das diversas atividades urbanas. Infelizmente. e não como lembra Cavalheiro et al. Trad. 13. que essas considerações deveriam ser feitas em trabalhos específicos. O.

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CAPITULO 5 PLANEJAMENTO DOS ESPAÇOS LIVRES LOCALIZADOS NAS ZONAS URBANAS João Carlos Nucci21 Andréa Presotto22

Para muitos, cidade e natureza devem ser consideradas como conceitos opostos. A cidade representaria um meio adaptado às necessidades da espécie humana e não às necessidades das espécies vegetais e animais. A urbanização se caracteriza pela substituição dos ecossistemas naturais por centros de grande densidade criados pelo homem, em que a espécie dominante é a humana e o meio está organizado para permitir a sua sobrevivência. Mas para Sukopp e Werner (1991), expoentes no reconhecimento da importância da conservação da natureza nos assentamentos humanos, a cidade deve mostrar as condições ideais para a conservação da natureza e da paisagem. O Professor Dr. Felisberto Cavalheiro, no prefácio de Nucci (2001), observa que somente depois da década de 1970, principalmente, na antiga República Federal da Alemanha, é que pesquisadores tentam fazer estudos integrados sobre o ambiente urbano, ressaltando que as cidades têm que ser enfocadas tanto pelos estudos sociais e de engenharia como pelos de ecologia de forma integrada. Também, no Brasil, inicia-se uma preocupação com a conservação da natureza em áreas urbanizadas, fato que pode ser comprovado pelo Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001), o qual prevê que para cumprir o objetivo de ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade, a política urbana deverá promover, entre outras diretrizes gerais, a ordenação e controle do uso do solo, utilizando como instrumento a instituição de unidades de conservação (BRASIL, 2001). É evidente a preocupação geral em se conservar a natureza em áreas urbanas. Para tanto, são necessárias pesquisas que forneçam métodos, técnicas e indicadores para a avaliação da paisagem urbanizada objetivando-se a conservação da natureza. Porém, a substituição de hábitats naturais por edificações, derrubada de florestas, erradicação de animais e ervas daninhas, introdução de espécies exóticas, poluição atmosférica, hídrica e dos solos, mudanças nos padrões naturais de percolação das águas, etc, fazem das áreas urbanas sinônimos de perturbação de ecossistemas e de erosão da diversidade biológica (MURPHY, 1997). Para Sukopp e Werner (1991), as condições ideais para a conservação da natureza nas áreas urbanas poderiam ser assim resumidas:  Otimização da distribuição dos espaços verdes na totalidade da área urbana.  Favorecimento de uma ampla conexão entre os espaços verdes do centro da cidade e de seus arredores.  Redução dos gradientes de intensidades de uso entre o centro e a periferia, sendo que somente dois terços da superfície do centro poderiam ser pavimentados e edifi-

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Biólogo (IB-USP), Professor Doutor, Departamento de Geografia - UFPR. Geógrafa, Doutora em Geografia Física (DG-USP)

do uso de fertilizantes e de pesticidas nos pequenos jardins privados. etc). .  Integração dos pequenos jardins privados criando superfícies comuns que sirvam como pontos de união entre os espaços verdes.  Evitar a construção de tanques que não permitem a instalação natural da flora e da fauna. aumento de partículas em suspensão com diminuição da visibilidade. cercados por edificações e fragmentados pelo sisteNos ma viário. que são os recursos alimentícios de pequenos mamíferos e aves.  Implantação de zonas verdes de grandes dimensões e com alto grau de conexão entre elas. comporem o sistema de espaços verdes urbanos. poucas são as áreas urbanas que realmente colaboram com a conservação da natureza e.  Favorecimento das espécies ruderais e das árvores nativas. destruição da vegetação natural das margens. diminuição da pavimentação. deveria ser conservado como zona verde merecedora de proteção e não transformado em estacionamento e posteriormente edificado. consA trução de represas.  edificação em terrenos baldios deve ser considerada perda de espaço verde e deveA ria ser compensada. etc) e agressões (pisoteio. as espécies nativas não resistem e desaparecem.  Substituir o gramado por campo com plantas ruderais que apresentam uma maior diversidade de espécies e cumprem melhor as funções ecológicas para a fauna. apontam problemas nas características dos parques urbanos:  Muitas espécies animais e vegetais não se adaptam aos altos níveis de tensão (ruído. A relação de itens acima poderia ser utilizada como uma lista de checagem na avaliação das paisagens urbanizadas. contaminação. etc) a que estão submetidas. encontra-se um exemplo de como esse fomento poderia ser calculado com base no valor do biótopo.  Adequação e integração da vegetação espontânea da zona verde. podas.  folhas e ramos caídos das árvores não devem ser eliminados. reforço de margens. provocam assoreamento. também.  terreno baldio de grande tamanho e que esteja em um estado avançado de sucesUm são.  Considerar os terrenos baldios com vegetação espontânea como biótopos potenciais muito especiais. pois podem constituir zonas de refúgio para espécies e apresentar grande biodiversidade. etc. assim.  Evitar ao máximo a pavimentação excessiva dos espaços verdes.  parques de tamanho reduzido. Algumas espécies de aves 23 No anexo 1.  Evitar os gramados ornamentais primorosamente cortados e árvores exóticas que são mantidos com alto custo e com utilização de fertilizantes e pesticidas.79 cados. pois são hábitats para As artrópodos. aumento da carga de compostos poluidores. impactos negativos que não permitem a sobrevivência da fauna e flora nativas e de outros seres vivos em condições equilibradas.  cemitérios também deveriam ser planejados com base em programas especiais de Os conservação da natureza e. em se tratando da conservação da natureza sugeridas por Sukopp e Werner (1991).  alteração das condições hidrológicas originais (retificação de cursos d’água.  Fomento ao reverdecimento de telhados e de fachadas23. De acordo com as características da cidade-ideal.

1998) A VEGETAÇÃO NAS ÁREAS URBANIZADAS Constata-se nas grandes cidades que.  parques dos centros urbanos são criados para cumprir uma função fundamentalOs mente recreativa e. Por outro lado. elemento purificador da atmosfera pela fixação de forma mecânica de partículas suspensas. formações de grupos de árvores isoladas sem conexão com os bosques. Os pesquisadores ainda se questionam sobre quais fatores poderiam determinar a qualidade ambiental. formando um “Sistema Combinado Ecologicamente”.2 ha de bosque tranqüilo para nidificar (GOLDSTAEIN et al. aumento da capacidade de assimilação de biomassa.) e a sua superutilização provocam uma diminuição das possibilidades para a vida nativa. Essas atitudes constituem pontos básicos para o planejamento geral da conservação da natureza e proteção da paisagem nas áreas urbanas. a cada dia. corre-se o risco de não se efetivar plenamente a conservação da natureza. que a qualidade ambiental vem.  instalações desportivas e as piscinas públicas ao ar livre não apresentam grande vaAs lor do ponto de vista da conservação da natureza e não deveriam ser incluídas como parte do sistema de espaços verdes se não conseguem cumprir as funções relacionadas com a conservação da natureza. as leis de conservação da natureza da República Federal da Alemanha têm encorajado a conservação da natureza e proteção da paisagem para assegurar o básico para a vida das pessoas e. não atingindo as causas da degradação ambiental. A vegetação em áreas urbanas pode exercer uma série de funções como conservação de biótopos. reflexão e desvio de ruídos. Van Kamp et al. proteção do solo e de cortes de aterros. corredores verdes regionais deveriam contribuir com a conexão entre as áreas verdes intra-urbanas e a paisagem aberta. em Nucci (1996. alta porcentagem de árvores e arbustos não nativos. assegurar a satisfação das necessidades de recreação em contato com a natureza. além dos problemas sócioeconômicos. 1983). (BREUSTE e WOHLLEBER. fornece anteparo .80 de floresta. Breuste e Wohlleber (1998) afirmam que. (2003) afirmam que a identificação da qualidade ambiental urbana é uma estratégia que vem sendo adotada em vários países e que está presente em uma série de publicações científicas.. no plano estético. Os autores recomendam que as paisagens urbanas deveriam ser estruturadas por meio de uma rede de áreas verdes criadas para as pessoas terem contato com a natureza e poderem relaxar nas imediações de seu ambiente de vida. criação de microclimas benéficos ao ser humano. de acordo com suas características. pavimentação de caminhos. que mesmo nos parques urbanos. também. a vegetação facilita a relação ser humano-natureza por meio de adequada distribuição e composição de cenários. por mais de 20 anos.  manutenção excessiva de um parque urbano (eliminação do material vegetal vivo A e morto situado debaixo das árvores. Em um parque urbano há poucas zonas tranqüilas nas quais os seres vivos possam se desenvolver naturalmente. incluindo a cobertura vegetal como um dos indicadores de qualidade. piorando e que as medidas de planejamento sugeridas são paliativas e adeptas do populismo. 2001) pode-se encontrar uma forma simples de avaliar a qualidade ambiental urbana. integra espacialmente ruas e a cidade. portanto. as possibilidades de melhorar a situação da flora e da fauna por meio de sistemas mais naturais são limitadas. etc. por exemplo. necessitam de pelo menos 0. Verifica-se. então.

pesquisas no Brasil sobre o ambiente urbano têm difundido o conceito de cobertura vegetal. sem dúvida o jardim concentra e registra a privacidade retendo uma porção da natureza. de uma administração municipal para outra.5. Todavia. ou seja. também. entre elas.. enquanto que a praça vem a ser um espaço aberto na natureza. geralmente. Pode-se dizer que até mesmo o termo “praça” em oposição ao conceito de “jardim”. Contudo. já que. entre os quais se podem incluir os relativos aos tipos. à qualidade e à distribuição da vegetação urbana. por exemplo. à quantidade.. em escalas cartográficas menores do que 1:10. não deveria.000. 2004). especialmente com cobertura arbórea. ser considerado como uma área verde. como também por estudos que permitam definir metodologias para o estabelecimento de índices de cobertura vegetal como indicadores de qualidade de vida (SBAU. 2001) exige a adoção de padrões relacionados com a proteção e a recuperação do meio ambiente natural e construído. os responsáveis pela fiscalização. pelos projetos e pela formulação de leis. por exemplo. além de exigir o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) que. mas não no levantamento da vegetação em áreas urbanizadas e nem em escalas maiores.81 visual para construções desordenadas. locais onde não existe sequer uma única árvore (LIMA et.) o advento da praça corresponde. al. acerca do conceito de “área verde”.000. bosques. da escala espacial e do método de coleta dos dados. por pequeno agrupamento de árvores.000 e 1:10. pois outras questões também precisam ser respondidas. que já é utilizado no levantamento da vegetação. 2001). por exemplo. evidenciando nitidamente a necessidade de padronização deste conceito. ou melhor. Cavalheiro et al. 2004). (1999) fornecem algumas sugestões. depende de indicadores relativos à qualidade ambiental. pois o índice desacompanhado da definição dos termos. arbustos e outros tipos de vegetação? Esta proporção varia de acordo com o tipo de zona de uso (industrial. como áreas verdes. a uma eliminação da natureza. que poderiam ser consideradas como uma possível resposta para o problema levantado e. Estudos posteriores reafirmaram que uma das dificuldades de utilização do “verde urbano” no planejamento é a existência de uma enorme confusão na conceituação de termos utilizados por várias prefeituras do país que consideram. espaços bem planejados e projetados com o auxílio da vegetação. aqueles que estão na linha de frente do planejamento.1994). etc. os esforços para promover o reverdecimento urbano requerem mais do que conhecimento dos benefícios para a saúde humana. segundo Attwell (2000). clamam por pesquisas que possam ajudar na conceituação. não estabelece parâmetros de comparação (NUCCI. No intuito de colaborar para a solução desses problemas. em muitos casos. entre 1. Lorusso (1992) afirma que o que se considera área verde urbana varia e difere de cidade para cidade. senão contra ela (. Além disso. hierarquização e classificação do verde urbano. fazendo com que a comparação de índices entre cidades seja um equívoco. tais como: qual a proporção de espaços urbanos está coberta por árvores isoladas. podem melhorar a qualidade do ambiente urbano e melhorar também a saúde física e emocional de seus residentes. Para a padronização de conceitos. residencial ou institucional)? Há terras ociosas nas zonas urbanas que poderiam receber um incremento de vegetação? No Brasil. como a . mais do que ocorre com o jardim. segundo Saldanha (1993 apud HENRIQUE. também. a Lei Federal brasileira conhecida como Estatuto da Cidade (BRASIL. Portanto. se encontra a proposta de conceituação do termo cobertura vegetal.

(1999). que poderia também ser utilizado na análise da cobertura vegetal em áreas urbanas. 26% de telhados e 12% de gramados. Os resultados desses levantamentos podem ser encontrados no Anexo 2. Para Akbari et al. Esse fato mostra que se deve tomar cuidado ao se tentar uma relação direta entre quantidade de cobertura vegetal e taxa de permeabilidade dos terrenos. A escala da foto deve acompanhar os índices de cobertura vegetal. (2004) discutiram e aplicaram. Buccheri Filho e Nucci (2005. vem sendo aplicada em bairros de algumas cidades brasileiras. inclusive na zona rural. havia 52% de superfícies pavimentadas. medindo-se as áreas com técnicas tradicionais. podendo-se citar em São Paulo/SP por Nucci e Cavalheiro (1999) e por Nucci (2001). (2003) também enfatizam a necessidade de se classificar a cobertura vegetal com base na propriedade. em Guarulhos/SP por Nucci et al. A definição não inclui está técnica com o intuito de simplificar e facilitar o levantamento da cobertura vegetal com o mínimo de treinamento e sem o auxílio de instrumentos que poderiam onerar o procedimento. bem como uma análise para se saber 24 A esteroscopia é uma técnica utilizada na visualização tridimensional de objetos planos.82 projeção do verde em cartas planimétricas que pode ser identificada por meio de fotografias aéreas. deve ser considerada a localização e a configuração das manchas em mapas. por observação aérea. no caso as fotografias aéreas. Nesse método. Novak et al. Em uma revisão sobre os métodos utilizados para a determinação da cobertura urbana por meio de fotografias aéreas. espaços livres e espaços de integração) e as encontradas nas Unidades de Conservação. 25 Fávero et al. sem auxilio de esteroscopia24. especificando o uso e o tipo de superfície. também. A cobertura vegetal pode ser quantificada com base no mapeamento. verificaram também que. Na área central de Sacramento (EUA). (2000) e por Nucci e Ito (2002) e em Curitiba/PR e região por Nucci et al. Essa conceituação. (1996) consideram importante saber a proporção de copas de árvores em relação ao total de superfícies verdes e. a pavimentação atingia 50-70% da área e que nas áreas residenciais atingia. pois estas também executam um importante papel na qualidade ambiental. sugerida por Cavalheiro et al. o conceito de vegetação natural potencial. Em termos de análise da cobertura vegetal. . Considera-se toda a cobertura vegetal existente nos três sistemas de espaços (espaços construídos. Novak et al. e vem se mostrando de fácil entendimento e de grande utilidade para o planejamento e avaliação da qualidade dos espaços urbanos. Moura e Nucci (2005). Akbari et al. em média. Levantamentos bibliográficos recentes demonstram que essas proposições e suas aplicações não estão descoladas do que vem sendo pesquisado e publicado em outros países sobre o estudo da vegetação urbana. (2003) é importante que se faça uma caracterização do tipo de estrutura encontrada abaixo da copa das árvores. em áreas rurais. por meio de programas de computador ou. (1996) afirmam que o “Scanning method” é o mais preciso e detalhado método de análise. a “vegetação natural potencial”25 que é a vegetação que existiria hoje se os seres humanos não tivessem removido e tivessem permitido a continuidade da sucessão vegetal até o estágio de clímax. que a vegetação cobria 30% da área enquanto que. se pública ou privada. no prelo) e por Netto (2005). abaixo dessa cobertura. na maioria das áreas não residenciais. (2003). simplesmente. os limites de cada área de cobertura vegetal são digitalizados em uma base cartográfica ou delimitados em sua posição exata em uma folha de acetato (overlay) colocada sobre a fotografia aérea. mas isso não desmerece o levantamento da quantidade de cobertura vegetal mesmo que seja apenas constituída por copas de árvores. 35% da área. esses autores encontraram.

mas o tipo de análise utilizado deveria ser aplicado para muitas outras cidades. Porém.. Assim. mas não verticalizada. Attwell (2000). por gramados. segundo Attwell (2000). etc). (1996) fazem um alerta sobre o perigo de se comparar índices de cobertura vegetal de locais muito diferentes. e em cidades localizadas em desertos de 0. apresentam menor cobertura vegetal. Portanto. a extrapolação e a comparação com outras cidades podem ser feitas se forem tomados os devidos cuidados referentes à explanação minuciosa sobre as bases de informações (fotografias aéreas. concluindo que as cidades estudadas são verdes com base na vegetação total. sendo 82% herbácea. do ano de 1996.000.83 o quanto existe de vegetação arbórea. mas não de acordo com a cobertura de árvores e arbustos. a data. Por exemplo. podendo essa classificação ser realizada por meio de fotografias aéreas e verificação de campo. verificaram que a maior parte da vegetação é herbácea. utilizando fotografias aéreas preto-e-branco. sendo 60% herbácea. geralmente. geralmente. terras ociosas.. para cidades localizadas em regiões de savanas. assevera que os gramados podem ser considerados como “desertos verdes” devido a sua baixa biodiversidade e ao dispendioso controle humano para mantê-lo. Attwell (2000) mostra que estudos realizados em cidades da Dinamarca. arbustiva ou herbácea. pois em cidades onde a evapotranspiração é menor do que a precipitação há um potencial para uma maior cobertura vegetal.4 a 26% (média de 10%). 45% de cobertura vegetal com 67% herbácea e. foram encontrados 53% de cobertura vegetal. e o cenário de uma paisagem pastoril das paisagens dos jardins ingleses ainda pode ser visto como uma inspiração costumeira (ATTWELL. Novak et al. o uso da terra é outro fator importante. pois certas estruturas podem criar dificuldades para o desenvolvimento da vegetação. pois muitos fatores podem influenciar no desenvolvimento da vegetação. em áreas ocupadas por apartamentos. imagens de satélite. 2000). com o mapeamento e análise de toda cobertura vegetal (árvores. constatando que os centros urbanos dinamarqueses estudados apresentaram em média 25% de vegetação florestal e que 75% da área vegetada são constituídos. enquanto que cidades que se desenvolvem. interpretadas com auxílio de esteroscopia. suas escalas. parques e áreas residenciais em regiões de floresta. arbustos e herbáceas). em regiões desérticas. 1996). na escala 1:6. Justifica-se o resultado encontrado devido ao fato de que a maior parte das áreas recreativas dos centros urbanos estudados foi elaborada com base na tradição de parques e jardins e não de acordo com o conceito de reflorestamento. antes de se iniciar as comparações seria importante fazer um levantamento das condições de precipitação e de evapotranspiração. foram encontrados 25% de cobertura vegetal sendo 59% herbácea. Akbari et al. dentre eles os autores apontam os dois principais: o ambiente natural do entorno e o uso da terra. gramados e árvores isoladas e alguns arbustos são os elementos predominantes e os agrupamentos de árvores e bosques são raros. (1996) citam estudos em que foram encontrados de 15 a 55% (média de 31%) de cobertura de copas de árvores em cidades localizadas em regiões de florestas. para o município de KØge (Dinamarca). às técnicas de mapea- . em área de habitação unifamiliar. (2003) observam que os índices de cobertura vegetal não devem ser extrapolados para outras regiões. apresentam maiores coberturas e em áreas comerciais e industriais a cobertura vegetal tende a ser menor (NOVAK et al. Dentro da cidade. principalmente. em áreas de alta densidade de residências. pois essa distribuição está relacionada com conforto térmico e qualidade do ar. Novak et al. foram encontrados de 5 a 39% (média de 19%) de cobertura vegetal arbórea. foram encontrados 48% de cobertura vegetal. no centro da cidade. por exemplo.

as áreas ocupadas por florestas devem estar relacionadas ao tipo de uso da terra. valores abaixo de 20% de cobertura vegetal. segundo o Forest Conservation Act – Maryland/1991 (EUA). 50% de área de florestas em zona de agricultura. com utilização de fotografia aérea 1:8. uma caracterização básica (meio físico e uso da terra) da área de estudo. sendo 25% de cobertura de árvores e arbustos. ou seja. Estudos sobre vegetação urbana na Alemanha estabeleceram objetivos para a cobertura vegetal baseados nas melhores práticas executadas em Munique. a preocupação tem se voltado para a conceituação. comerciais e industriais. a cidade ideal de Sukopp e Werner (1991). estão relacionadas com conforto térmico. somente dois terços da superfície do centro. em geral. com a qualidade do ar. um passo deve ser dado em direção à classificação. a metade de qualquer quantidade total de cobertura vegetal deveria ser constituída por floresta (PAULEIT e DUHME. 33% da área central da cidade deveriam ser permeáveis e não edificadas e deveria apresentar ampla conexão entre a vegetação da zona rural e a das zonas centrais. as áreas centrais das cidades podem ser consideradas como um “deserto de epífitas”. Ruszczyk (1986) constatou que em Porto Alegre (RS). Ainda sobre a quantificação. escoamento superficial. sendo que áreas com índice de arborização inferior a 5% determinam características semelhantes às de um deserto26. 27 Sukopp et. afirmam que a área urbana construída de Berlim Ocidental apresenta 32% de sua superfície cobertos por vegetação.000 e quantificação com papel vegetal milimetrado e extrapolação de dados. portanto. afirmando ser uma situação encontrada em desertos (Anexo 1). 2000). para Munique. já que a quantidade e distribuição das principais categorias de cobertura vegetal. Até o momento.000 (NUCCI. ou seja. Como visto. Nas áreas centrais da cidade. 2002) apontam para áreas com alto grau de urbanização. mapeamento e quantificação da cobertura vegetal como um todo. Miller (1997) afirma que. porém. para área ocupada por complexo de apartamentos. poderia edificar ou pavimentar. a cobertura vegetal esteve abaixo de 15%. (1979). no Brasil. com uma quantidade insuficiente de cobertura vegetal (de 4 a 7%).84 mento e quantificação. 25% de floresta em áreas residencial de média densidade e zonas institucionais e 15% de florestas em zonas residenciais de alta densidade. aproximadamente.000 (NUCCI e ITO. a meta é de 30% de cobertura vegetal. a meta é de 20% de cobertura vegetal com 10% para árvores e arbustos. acrescentando-se. sendo que o valor mínimo de 7% ocorreu nas imediações da Estação Rodoviária. a meta para Munique é de 50% de cobertura vegetal. sendo 15% para árvores e arbustos. 1995 apud ATTWELL. anteriormente. Oke (1973 apud LOMBARDO. mal distribuída e desconexa (Anexo 2). . etc. para mostrar condições ideais para a conservação da natureza e da paisagem. (1979). a zona de edifícios altos ou de alta intensidade de urbanização e as áreas industriais e comerciais apresentaram. 2001) e 1:6. para as áreas industriais.27 Resultados de levantamentos realizados com base em fotografias aéreas em escalas que variam entre 1:10. Também. ainda. ou seja. al. herbácea. É interessante salientar que em outros países a preocupação não se restringe mais e tão somente à quantificação e às qualidades estéticas dos espaços livres. Nos estudos realizados 26 Para Sukopp et al. Para as áreas residenciais de baixa verticalização. batizado por Douglas (1983) como “deserto florístico”. arbustiva e arbórea. com uma redução dos gradientes entre esses dois tipos de uso. 1985) estima que um índice de cobertura vegetal na faixa de 30% seja o recomendável para proporcionar um adequado balanço térmico em áreas urbanas.

certamente. na ciclagem dos nutrientes. com conseqüências indesejáveis. erosão do solo. a de se viver em um meio com qualidade e. Justifica-se que as áreas centrais dos municípios apresentam infra-estrutura ociosa e que. Lorusso (1992) ensina que uma das metas do planejamento dos municípios deveria ser a definição dos espaços que não deverão ser urbanizados e as formas de urbanização adequadas para determinados sítios. do tratamento das massas edificadas e do tratamento dos espaços livres de edificação e até de construção. qualificação e quantificação dos espaços urbanos. mas os espaços ocupados por gramado e/ou por superfícies impermeáveis foram considerados como elementos negativos. Como as áreas centrais já são intensamente ocupadas. provoca alterações no clima. da relação entre os cheios e os vazios. nas formas do relevo. que tem sido considerada uma ameaça para as condições de vida nas cidades. Porém. como desconforto térmico. uma intensificação do uso e da ocupação do solo das regiões centrais dos municípios. para isso. Além dos estudos sobre a cobertura vegetal em áreas urbanizadas. que em essência se contrapõe aos espaços construídos. os pesquisadores. ainda. também houve a preocupação de se avaliar a qualidade dos habitats. que os estudos de conceituação. é uma medida que vem sendo proposta com o intuito de se evitar a expansão em direção às áreas periféricas e sem infra-estrutura suficiente para suportar o crescimento populacional. Entre as diversas necessidades do ser humano está. assoreamento dos corpos hídricos.85 em algumas cidades da Dinamarca. poderiam ser adensadas. nas dimensões horizontal e vertical. a quantificação e a classificação da cobertura vegetal podem fornecer subsídios para o esclarecimento e monitoramento pelos cidadãos. há poucos terrenos sem edificação. O adensamento urbano. na distribuição da flora e da fauna. ou seja. tem-se a certeza de que o mapeamento. afirmando ainda que a imagem final da cidade depende dos volumes arquitetônicos. citados anteriormente. a falta de oportunidades para . hídrica e do solo. também. na dinâmica da água. enchentes. No entanto. respeitando-se os impedimentos do meio físico e sem prejuízo para a qualidade ambiental. ESPAÇOS LIVRES A qualidade ambiental é um paradigma atual dos profissionais do planejamento. e uma série de outros problemas relacionados diretamente com as necessidades humanas como. arbustiva e herbácea constituída por plantas ruderais (relvado) e as áreas com água foram consideradas elementos positivos. vários estudos comprovam que o adensamento. aumento da poluição atmosférica. Então. devido a uma ocupação intensa e não planejada. distribuição espacial. da qualidade ambiental dos centros urbanos. acredita-se. Um dos produtos finais desse planejamento seria o estabelecimento de um sistema de espaços livres. Nas áreas urbanas é muito comum um desequilíbrio entre a quantidade e distribuição dos diferentes espaços. portanto. por exemplo. as áreas com vegetação arbórea. se questionam sobre quais fatores poderiam determiná-la. podem contribuir para a avaliação da qualidade ambiental. classificação. o adensamento só pode ocorrer por meio da construção vertical (verticalização das edificações). uma estratégia que vem sendo adotada em vários países e que está presente em uma série de publicações científicas.

foi derrubado por Lötsch (1984 apud NUCCI. trevos/canteiros. ao controle do uso e da ocupação dos espaços para as diferentes atividades humanas como condição essencial para um adequado desenvolvimento urbano. principalmente pelo grande número de apartamentos desocupados.09m2/hab de áreas verdes públicas que englobam praças. um componente significante do abastecimento de alimento e vida social das cidades ocidentais e que o uso temporário para as terras vagas dos lotes com hortas. à recuperação do suporte natural e à ocupação dos espaços construídos. Daí a importância de jardins e quintais com hortas e frutíferas que. Di Bernardo (1998) afirma que o grande aumento das populações urbanas exige uma preocupação com a importância do impacto sobre o suporte natural e que seria necessário estudar os sistemas urbanos com base em um “mosaico de natureza interconectada”. como visto anteriormente. Nucci (1996. que consideram como áreas verdes locais onde não existe sequer uma única árvore. um bairro central do município de São Paulo. ou seja. ou seja. os impedimentos do meio físico. Por exemplo. Para Jackson (2003). uma enorme confusão na conceituação do termo “área verde” utilizado por várias prefeituras do país. considerando-se. Encontrar e utilizar significados precisos para as palavras é questão fundamental para uma boa e confiável comunicação. há fortes argumentos relativos à saúde pública para a incorporação do verde. é importante enfatizar que o mito. pesquisadores e outros interessados quando se trata do “verde urbano”. Pensando. 35. veiculado por interesses escusos. 2. à recuperação do suporte natural nas cidades são questões que dizem respeito ao ordenamento dos espaços urbanos.88m2/hab são arborização de rua. os jardins urbanos e lotes vagos são. alamedas e calçadões. Sobre o tema em questão. 55. ainda. da luz natural. Não há dúvida de que as áreas centrais de alguns municípios apresentam infra-estrutura ociosa. 2.55m2/hab. 2001). do acesso visual e físico aos espaços livres. Lima et al. Essa constatação não permite uma comparação de índices de áreas verdes e de cobertura vegetal entre cidades.55m2/hab de área verde se esse valor não for explicado. além de fornecerem alimento. não estabelece parâmetros de comparação.31m2/hab são Unidades de Conservação. 28 No Anexo 3 encontra-se um fluxograma das conseqüências do adensamento por verticalização das edificações. 2001) já demonstrou isso ao estudar Santa Cecília. apenas. nada adianta dizer que a cidade de Vitória (ES) tem 95. Segundo Douglas (1983). podem influenciar o clima urbano. (1994) constataram. uma trama de espaços com solos destinados à produção de alimentos. já se constatou que não há um consenso entre os planejadores. sobrando. Além disso. Incorporação do verde. de que ocorre um ganho de espaços livres à medida que se verticaliza uma área. pois o índice desacompanhado da definição do termo “área verde”. . mas elas apresentam qualidade ambiental suficiente para suportar um adensamento.86 que o cidadão interaja com a natureza (NUCCI. ao demonstrar que acima de quatro pavimentos o ganho de espaços livres é negligenciável. é um componente vital para o ecossistema urbano. colaborando para a conversão em larga escala da energia solar em alimento. 2001)28. de luz natural e acesso visual e físico aos espaços livres verdes perto das residências e em outros pontos da cidade. ainda.27m2/hab são áreas verdes particulares. de uma trama de espaços com solos destinados à produção de alimentos. Por exemplo. da escala espacial e do método de coleta dos dados. uma análise mais aprofundada mostra que dos 95.

Rede de passeios a pé (6.6m2/hab. poderia ter seus espaços divididos em:  área construída (37. Portanto. de forma simplificada. em português ao pé da letra.86m2/hab).. (1994).. É oportuno citar que Cavalheiro e Del Picchia (1992) apresentam a opinião de que o termo “espaço livre” deveria ser preferido ao de “área verde”. encontram-se índices referentes à cidade de Maringá (PR) que contaria com um índice de área verde de 20.4% de áreas verdes com os 67. dever-se-ia contar com o termo área aberta (que é bidimensional).30m2/hab). uma quadra poliesportiva. necessariamente.32m2/hab. os trevos/canteiros e alamedas. da seguinte maneira: Jardim de jogos infantis (0. bancos. com 17. estaria classificado.0m2/hab).6%). Estas sim. tendo sido. que para existir espaço aberto em urbanismo. retirar dos 2. como contraposición de Ias personas que se mueven por Ia ciudad en un medio motorizado. para poder dar-lhe a tridimensionalidade que seria. mas pela listagem acima dos tipos de espaços livres. seria necessário. quiosques. Ia práctica del deporte y. de água e de esgoto. por ser mais abrangente. pois a palavra inglesa é open space e não free space. a cidade apresenta esse índice somando-se os 32.  sistema viário e estacionamentos (19.) destinado al peatón. um conjunto residencial. cit). deve-se reservar. uma certa quantidade de zonas verdes. Zonas de repouso (2. O Sistema de Espaços Livres. erroneamente traduzido. os caminhos.. devem apresentar poucas edificações. então. a arborização de rua deveria ser computada apenas no índice de cobertura vegetal e não no de áreas verdes. Todavia. em um uso direto da população (recreação em áreas públicas) e em contato com a natureza (áreas com vegetação). também concordam que um conceito mais abrangente e que poderia ser utilizado no ordenamento da paisagem parece ser o de Espaço Livre. el recreo y entretenimiento de sus horas de ocio (. talvez sanitários. A contraposição entre “área construída” e “espaço livre” pode trazer alguma confusão. ainda. pode-se constatar que os espaços livres são livres de edificação e não de construção. incluindo. as áreas de jogos. ainda. Argumentam.8%). Em Henke-Oliveira et al. há espaços livres destinados a jogos. inclusive as águas superficiais e que o termo espaço aberto trata-se de um anglicismo. a falta de definição clara do termo “área verde” e seus correlatos pode levar a falsas interpretações. entendiendo a este. Lima et al. Para Llardent (1982). que pode ser de concreto. revestidos totalmente por vegetação. Todavia.)”.6%) e  sistema de espaços livres (42. de acordo com a proposição de Cavalheiro et al. áreas impermeabilizadas para facilitar as caminhadas e os jogos. en general. Porém.. (1994). ou seja. dentro do sistema de espaços livres.00m2/hab). (1999).30m2/hab) e Zonas verdes (5. O autor também define área verde como “Cualquier espado libre en el que predominen Ias áreas plantadas de vegetación (.6% de ruas arborizadas. tais como rede elétrica. as zonas de repouso. para el descanso. uma infra-estrutura mínima para o uso dos espaços. el paseo.87 portanto. Área de jogos livres (2.09 m2/hab de áreas verdes públicas. os espaços livres não são. ou seja. volvemos a insistir. Para Llardent (1982) um Sistema de Espaços Livres poderia ser definido como sendo o Conjunto de espacios urbanos al aire libre.86m2/hab). destinados bojo todo tipo de conceptos al peatón. devem ser . ou seja. espaço aberto. em português. como por exemplo. porém. segundo Llardent (op. Área de jogos equipados (0. Por exemplo e apenas como sugestão. sempre que possível. certamente apresentam construções.

cit.. “Um grande peso é a distância entre o usuário e o espaço livre” (distâncias maiores do que 10 a 15 minutos. por si. A identificação e análise das funções que um espaço livre pode exercer são ações que ajudam na caraterização da qualidade desse espaço. que estariam mais relacionados com a escala dos conjuntos residenciais ou escala de bairro. se considera como ponto crítico que um município utilize mais de 50% de sua superfície para construção (. sendo 35m2/hab totalmente públicos e livres de regras rígidas. com uma infraestrutura mínima para o uso. a utilização decai) (DI FIDIO.).88 livres de edificação e. é muito importante que os espaços livres sejam localizados em mapas com a indicação de seus raios de influência. 1991). Esses espaços.) na Hungria estão fazendo esforços para não permitir que mais de 50% dos terrenos urbanizáveis sejam edificados ou pavimentados (.) A densidade de edificações determina as possibilidades de reverdecimento do centro urbano. à caracterização de ruas.000 habitantes um total de 21 a 30m2 de espaços livres públicos por habitante. porém esse espaço seria semipúblico pois estaria sob regras mais rígidas de utilização. Observa-se. a pé. andando normalmente. fornecer uma noção de referência escalar. Neste caso. que se possa edificar ou pavimentar no máximo dois terços ‘66%’ da superfície do centro (SUKOPP e WERNER. enquanto Sukopp et al. Um espaço livre poderá ou não. questão fundamental. Parque de Atrações. Zoológico. também. Em um informe sobre as áreas recreativas de Nordrhein-Westfalen (República Federal da Alemanha). são realmente livres com apenas algumas regras mínimas de convivência. Portanto. favorecer o contato entre pessoas. de construção. dependendo de sua qualificação. também. desempenhar a função de facilitador da realização social da personalidade.. de modo que o usufrutuário não tenha que dispender. (1994). variados e pitorescos. pois não basta apenas a existência do espaço livre. pois em exercendo sua função recreativa. A densidade de construção deverá também se planificar de tal maneira que se consiga uma densidade média em vez de uma densidade máxima (por exemplo. Henke-Oliveira et al. as trilhas para facilitar o contato com a natureza. mas devem-se considerar a sua qualidade e sua distribuição espacial. Lorusso (1992) também orienta para uma melhor distribuição e maior ampliação do “Sistema de Áreas Verdes”. como por exemplo. Parques de Esportes. Jardim Botânico. o Sistema de Espaços Livres teria 50.. somente as calçadas isoladas do sistema viário para veículos motorizados devem fazer parte do sistema de espaços livres. mais do que 10 (dez) minutos para alcançar o equipamento mais próximo. Enfim. logradouros com a noção de referencial para toda a cidade. um dos maiores requisitos do espaço livre seria sua localização em relação aos usuários. além da quantificação. os caminhos devem ser agradáveis. Para Llardent (op. os espaços livres podem colaborar na delimitação de espaços e representam. (1979) afirmam que a área urbana de Berlim Ocidental apresenta 32% de sua superfície cobertos por vegetação.. também sugeridas por Llardent (op cit). que devem contar com 4m2/hab.0m2/hab. Áreas para usos Especiais e Parque Urbano. ou quem sabe. o que difere das “dotações esportivas”. pensando na facilidade de uso pela população. 1985). que para Llardent (op cit) a rede de passeios a pé (rede de peatones) deve oferecer segurança e comodidade com separação total da calçada em relação aos veículos. a possibilidade de vivência espacial. ajudando a equilibrar as dimensões e espaços. Jámbor e Szilágyi (1984) sugerem para cidades com mais de 10. além do levantamento quantitativo das áreas verdes de . talvez. O Sistema de Espaços Livres na escala de cidade conta com os seguintes aparelhos: Parque de Jogos.

principalmente para o pré-escolar (abaixo dos 6 anos). calçamento.) As necessidades urbanas específicas não seriam necessidades de lugares qualificados. ouvir. abertura. atividades lúdicas (. não restando quase nada que favoreça um contato maior do indivíduo com a natureza. portanto. pois exercem um importante papel na qualidade ambiental e de vida dos habitantes das zonas urbanizadas. imaginário. bancos. importantes árvores frutíferas (.) necessidades sociais (. o contato com a natureza é fundamental. após a qualificação dos espaços livres dever-se-ia trabalhar com dois índices: um indicando a quantidade total de espaços livres e outro indicando a quantidade de espaços livres utilizáveis pela comunidade de acordo com suas qualificações. avifauna. independência.89 São Carlos (SP). 29 Os espaços livres. unidade..) valor social bastante comprometido.. simbolismo. isolamento visual.. pode ser consultada no anexo 4.) esta praça não tem função social devido à inexistência de manutenção (. a acessibilidade. sombras. Compete ao Poder Público planejar. as barreiras de vegetação que propiciam um isolamento da área em relação aos transtornos da rua. odores. a porcentagem de área permeável. mas também o ordenamento da vegetação. sanitários. pelo comércio e pelo lucro? Não seria também a necessidade de um tempo desses encontros. . a altura da vegetação. Para assegurar o bem-estar dos cidadãos. segundo o seu gosto e sob a própria responsabilidade.. fazem uma análise qualitativa dessas áreas. devido ao intenso tráfego de veículos e o fato de que os canteiros centrais têm pouca extensão (. imprevisto. de modo a facilitar a cada pessoa fazer escolhas acertadas de lazer.. atividade criadora. Às vezes a área verde não apresenta condições de uso. na análise de um espaço livre deve-se considerar não só a sua área. são elementos fundamentais no planejamento dos usos e ocupações. certeza. a legislação que disciplina o desenvolvimento urbano deve observar as taxas mínimas de espaços livres. as espécies vegetais naturais e as exóticas. encontro. o entorno. desperdiçar energia no jogo.) lugares para andar descalço: areia. dessas trocas? Não bastam centros esportivos onde a área construída e os equipamentos ocupem quase a totalidade do espaço. a densidade de vegetação. criar e ajudar a manter ambientes agradáveis e estéticos. tráfego. tocar. acumular energias. diferença.. lugares onde a troca não seria tomada pelo valor de troca. portanto. lugares de simultaneidade e de encontros. isolamento. texturas. uma vez que a acessibilidade é baixa. Sendo assim. Dependendo da qualidade do espaço livre pode-se ter a oportunidade de ter experiências com sons. ver. a função social. aventura. como. de obra. Esse é um procedimento muito importante. 29 Uma lista de checagem para avaliação dos espaços livres. informações. iluminação. previsibilidade.. organização do trabalho e do jogo. além de acomodações e instalações variadas. por exemplo: (. gastar energias.. que está na idade das sensações e impressões.. paladar da natureza. degustar. A recreação é algo mais do que uma atividade física qualquer. os equipamentos de recreação. descrevendo algumas praças. Lefebvre (1969) fala sobre a importância da existência de lugar e tempo para o cumprimento das necessidades sociais: (... manutenção.. a proteção de áreas já existentes e o planejamento da ocupação do solo. pois não basta ter a área à disposição da população. solidão. elaborada pelo professor Felisberto Cavalheiro. comunicação. valor ecológico. estacionamento.). serviços.. valor estético.. etc. telefonia.) segurança.

. Primeiramente deve-se entender que a legislação brasileira estabelece que o município está dividido em zona urbana. ou seja. indica-se o trabalho de Cavalheiro. Com o objetivo de colaborar com os estudos para a padronização de conceitos. indústria. (1999).) experiências que já não encontramos tão facilmente e que fazem parte da segurança e saúde psíquica do cidadão (. observa-se que os espaços de integração viária constituem 10-20% do território urbano. Ficando assim destinados aos espaços livres de construção. que serve como apoio para reflexão sobre a qualidade e disponibilidade de diversas categorias de espaços livres. os locais de passeios a pé devem oferecer segurança e comodidade com separação total da calçada em relação aos veículos.. e como termos de comparação entre cidades diferentes (Anexo 6). etc. em geral. a proporção entre área e população. principalmente.. embora não haja leis. os construídos de 40-50% e os livres de construção outros tanto 40-50%. e os parques e espaços livres têm este papel (. a área mínima para cada categoria. depois de designados no zoneamento urbano.) (LUTZIN e STOREY. descanso. fornecem algumas sugestões: 1. 3.) contato com aves e pequenos mamíferos (. Presotto e Rocha (2003).. os caminhos devem ser agradáveis. garagem subterrânea só podem ser construídas nos espaços destinados à integração viária e as construções”( CAVALHEIRO e DEL PICCHIA. Os espaços livres de construção constituem-se de espaços urbanos ao ar livre. destinados a todo tipo de utilização que se relacione com caminhadas. Cavalheiro et al. . nem normas que obriguem que se siga uma certa proporcionalidade. 31 “Na República Federal da Alemanha. embora não explicitamente colocada na legislação. potencialmente coletivos ou públicos e podem desempenhar. encontra-se uma convenção de representação cartográfica do zoneamento dos espaços urbanos. por:  Sistema de espaços com construções (habitação. passeios. águas superficiais. etc. escolas. 32 No Anexo 5. 1973).)...) sons e cores criados pelas árvores (. de expansão urbana e zona rural. com base no uso da população. 1992). O quadro do anexo 6 apresenta uma classificação para parques e outros tipos de espaços. variados e pitorescos. cujo perímetro declarado por lei municipal. Assim. funções estética.. Cavalheiro e Del Picchia (1992) chamam a atenção para uma indicação de índices urbanísticos para espaços livres sugerida pela “Conferência Permanente dos Diretores de Parques e Jardins da República Federal da Alemanha”. a recreação e entretenimento em horas de ócio. os locais onde as pessoas se locomovem por meios motorizados não devem ser considerados como espaços livres. quase sempre. parques. consideram-se as faixas etárias dos usuários.) Nós precisamos resgatar a vida harmônica com a natureza. um mínimo de 40% e.. práticas de esportes e.) e  Sistema de espaços de integração urbana (rede rodo-ferroviária)31. a distância da resi- 30 Sobre os usos dos termos “construção” e “edificação” em se tratando de Espaços Livres..  Sistema de espaços livres de construção30 (praças. 2.90 gramado (. poderia ser constituída.. A zona urbana. Os espaços livres podem ser privados. não são mais permitidos usos que venham impermeabilizar esses espaços. segundo indicação de Cavalheiro e Del Picchia (1992) e do ponto de vista físico. hospitais. comércio. entre outras32. de lazer e ecológicoambiental.

público. Gert Gröning33 (1976) apresenta. bem como em nível do planejamento das cidades (escalas espaciais maiores). depois de termos realizado muitos estudos. incluindo os detalhes de construção. ou a FAO consideram ideal que cada cidade dispusesse de 12m2 de área verde por habitante. devem ser sempre públicos e oferecem possibilidade de lazer ao ar livre (CAVALHEIRO e DEL PICCHIA. intenções. antes eles servem como apoio científico para o planejamento e que a assertiva. ou a OMS. que o paisagista tenha sua ação. Escalas ainda maiores. visando a uma integração da natureza com a cultura do ser humano. que esse índice (12m2/ hab. apontando as diferentes designações para a ações.000 a 1:500. está relacionado com o planejamento desses espaços. Segundo a lei. ou se há barreiras de acesso como nos espaços privados. 1992). não pôde ser comprovada pelas pesquisas. Como 33 Gert Gröning é professor doutor da Universidade de Artes de Berlim. Para tanto. o Brasil se coloca entre os países que não pretendem considerar cidade e natureza como conceitos opostos. os planos diretores deverão conter diretrizes voltadas à preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído. Segundo Cavalheiro e Del Picchia (1992). é necessário que sejam abordados de forma integrada no planejamento urbano. não é conhecido entre as faculdades de paisagismo da República Federal da Alemanha. podendo-se utilizar como instrumento a instituição de unidades de conservação. em escalas da ordem de 1:100. Segundo Gröning. de 10 de julho de 2001). para a localização de áreas que não devem ser construídas no município e região de entorno. difundida e arraigada no Brasil de que a ONU. Cavalheiro e Del Picchia (1992) ressaltam. na forma de quadro (Anexo 7). conteúdos. sugerindo um adequado ordenamento dos espaços livres urbanos.) se refira. também. Foi orientador no doutoramento do professor Felisberto Cavalheiro em Hanover/Alemanha. pesquisas referentes à eleição de indicadores (qualitativos. ainda. como o modelo do Greenbelt (Cinturão Verde) de Londres . ou seja. de acordo com a escala espacial adotada. quantitativos e de espacialização) para a conservação da natureza nas cidades devem ser incentivadas.000.até a localização de diferentes tipos de espaços livres em bairros. ao se pensar em planejamento. Instituto de História e Teoria do Design e trabalha com Desenvolvimento de Espaços Livres e Cultura de Jardins. . tanto em nível da “grande paisagem” (escalas espaciais menores). suas funções.000 até 1:50. satisfatoriamente. estariam relacionadas com o projeto de espaços livres. A política urbana deverá promover o ordenamento e controle do uso do solo. em escalas da ordem de 1:10. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o Estatuto da Cidade (Lei nº 10. ou seja. já que são os que. dever-se-ia pensar desde o Planejamento do Sistema de Espaços Livres.91 dência e se o acesso é para todos. Somos levados a supor. que os índices não são receitas a serem seguidas. as operacionalidades no planejamento de espaços livres.257. Um outro aspecto muito importante quando se trata de espaços livres. tão somente às necessidades de parque de bairro e distritais/setoriais. que os autores fizeram junto a essas organizações e esse índice. entre 1:500 e 1:5. quadras e conjuntos residenciais. para que os espaços livres possam desempenhar. dentro da malha urbana. por carta.

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exemplos Fator de multiplicação zero 0. . Piso permeável.2 0. concreto.7 Exemplo de cálculo (NUCCI.asfalto. Tipos de áreas 1 2 3 4 5 6 Impermeabilizada Explicação . P a r c i a l m e n t e Piso permeável ao ar e água.0 7 8 9 Org.5 (fator de multiplicação) = 30m 2 2  solo permeável x 1.0 (fator de multiplicação) = 0m 2 2  59m com grades com grama x 0.7 1.5 0.5 0. 2006 Piso impermeável para ar e água. sem vegetação – mosaicos.. 2001).5 0. “Estudos realizados na Alemanha demonstram um interesse no aspecto de reverdecimento de fachadas. paralelepípedos unidos com areia.. grades com grama Com vegetação Jardins sobre laje com menos de 80cm de espessura sem ligação com Jardins sobre laje com mais de 80cm de espessura o solo Com vegetação e ligação com o Áreas propícias ao desenvolvimento da flora e fauna solo Percolação Para cada m2 de telhado – água da chuva conduzida da chuva em para a percolação no solo telhados Vegetação vertical Até 10m de altura em pedras e muros com vegetação Vegetação sobre Telhado cultivado extensivamente e intensivamente telhado 0.96 ANEXO 1 O quadro abaixo foi organizado com base em transparência das aulas do professor Felisberto Cavalheiro..3 0.06 .. impermeável placas. quando realizam classificações dos tipos de áreas associando-se a elas um valor de biótopo que é utilizado nos cálculos do desconto no imposto urbano” (NUCCI. 2001):  Superfície do terreno = 478m2 2  Superfície com edificação = 279m 2  Superfície livre de edificação = 200m Dos 200m livres de edificação: 2 2  140m asfaltados x 0. sem crescimento de vegetação . com percolação de água e com Meio abertas vegetação – placas.0 (fator de multiplicação) = 1m 1m Total = 31m 2 2 Valor do biótopo = 31 ÷ 479 = 0. Nucci. .

Cobertura Vegetal Área estudada Distrito de Santa Cecília Foto aérea Fonte NUCCI (2001) NUCCI e ITO (2002) NUCCI et al. (2003) HARDT (1994) RUSZCZYK (1986) % 7.20 Org.85 NUCCI (2005) MOURA E NUCCI 31. (1994) BUCCHERI FILHO e 16.000 – colorida Centro de Curitiba/PR 2000 Município de Curitiba/ --PR Porto Alegre/RS (Área 1:8.12 HENKE-OLIVEIRA et --al.000 – colorida 2000 1:8.20 (2005) NETTO (2005) 24.60 25.: João Carlos Nucci (2006).70 --- de 7. Tranqüilidade 1:6.00 12.00 m2 hab.000 – colorida 2000 1:5.00 a --15.00 20.000 – colorida 1999 12.000 – colorida (Guarulhos/SP) 2000 1:8.00 77.96 2.000 preto e branco / 1989 Jd. .97 ANEXO 2 Quadro 1 – Cobertura vegetal em algumas localidades brasileiras.52 / 1:10.24 155.000 central) Cidade de Maringá/PR Alto da XV (Curitiba/ PR) Santa Felicidade (Curitiba/PR) Centro de São José dos Pinhais (RMC) --1:8.56 60. 2.00 4.

. de acordo com Nucci (1996. 2001) Org. M. Fonte: Nucci (1996.: SILVA. 2006. C. M.98 ANEXO 3 Fluxograma das conseqüências do adensamento por verticalização das edificações. 2001). .

A. Presotto. 2004) Nome do Bairro: ______________________________________________________________ Endereço da Área: ____________________________________________________________ Privado Potencialmente Coletivo Público CATEGORIAS: 1. Espaço de Lazer Praça Parque Setorial Distrital Regional 3. 2002/ Org. 2002 in Presotto.99 ANEXO 4 Ficha de levantamento de campo de Espaços Livres (Fonte: Cavalheiro. igrejas) Unidade espacial em metros quadrados (aproximadamente): _________________ Impermeabilização Área impermeabilizada Parcialmente impermeável Áreas meio abertas Áreas com vegetação sem ligação com o solo Áreas com vegetação com ligação com o solo Impermeabilização Área impermeabilizada Parcialmente impermeável Estrutura e Situação Bancos Playground Placas Lixeira Sinalização Segurança (pessoas) Portaria Lagos artificiais Cobertura Vegetal [ Gramado [ Canteiros Ajardinado [ Horta (comunitária) [ Vegetação espontânea [ Vegetação vertical [ Arborização com efeito regional [ Cobertura vegetal [ Lagos Relativamente Naturais Lixo (sujeira) [ Amontoado de galhos [ Árvores especiais [ Muros vegetados [ Corredores [ Areia e pedras [ Outros [ Quais:________________________ [ [ [ [ [ [ [ [ ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] [ [ [ [ [ [ [ [ ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] . Horta Comunitária 5. Verde Viário Arborizado Canteiro central Jardim Quintal [ ] [ ] [ ] [ ] [ ] [ [ [ [ ] ] ] ] Clube Escola Terreno Outros [ [ [ [ [ ] [ ] ] ] ] ] [ ] [ ] [ ] Quais: _____________________________________________________________ 4. F. Jardim de Ornamentação 2. Verde Religioso (cemitério.

100 ANEXO 5 Segundo o professor Felisberto Cavalheiro (transparência das aulas da disciplina Teoria Geográfica da Paisagem). inclusive Metrô Cor na planta vermelho marrom (sépia) cinza laranja verde claro verde escuro verde limão azul amarelo violeta . residenciais mistas e centrais industriais especiais verdes conservação da natureza agrícolas com água rodovias e avenidas principais ferrovias. no Exterior a representação em planta do zoneamento é simples e de fácil leitura.: Nucci (2006). Tipos de Uso Espaços construídos Espaços livres Espaços de integração Org.

1. públ. ou partic.75 0.0 12. 4. 1992).0 s/ref.200m ou 30 min. ou partic.5 5.101 ANEXO 6 Sugestão de índices urbanísticos para espaços livres Quadro 2 .Sugestão de índices urbanísticos para espaços livres elaborada pela “Conferência Permanente dos Diretores de Parques e Jardins da República Federal da Alemanha”. (m2/hab) 0. público público público público públ. ou partic.000 m l.2 ha 300 m2 Sem referência Distância residência da Acesso públ.000 m2 10 ha 100 ha 200 ha área com água sem referência 3-5 ha 1.0 Sem referência Área mínima 150 m2 450 m2 5. ou partic. ou partic. Organização: João Carlos Nucci.7. junto ao sistema público viário . Jantzen. 2 ha 0.75 0. públ.500 hab. Categorias de parques Vizinhança até 6 anos 6 a 10 anos 10 a 17 anos parque de bairro parque distrital ou setorial parque regional cemitério área para esporte balneário h o r t a comunitária verde viário Área/Pop. 2004.0 .0 6. 1973 apud CAVALHEIRO.000 m ou 10min. até 100 m até 500 m l.10.0 . DEL PICCHIA./veiculo qualquer parte da cidade sem referência perto das escolas perto das escolas (mod. públ. Sem referência públ.5 1.75 6. ou partic.

000 a 1:20.: Cavalheiro.000 1:50.. conjuntos residenciais modernos etc.000 a 1:100.000 Reavaliação de Planejamento de Sistema de Espaços Livres Plano de Sistemas de Espaços Modelo de Livres Conteúdo Localização de áreas a não serem construídas nas comunidades urbanas e municípios Representação do projeto e fundamentos Intenção para a construção Escalas 1:5 a 1:500 espaciais E s c a l a s + congelada Jardins.000 das 1:20. regiões Representação disparidades 1:10. Org.000 Exemplos Situação de espaços livres em quarteirões deteriorados. chácaras temporais Pátio de escolas Parques Cemitérios Camping etc. 1976 102 .000 a 1:50.ANEXO 7 Operacionalidade no Planejamento de Espaços Livres Projeto de Espaços Planejamento de Espaços Livres Livres Projeto de Instalação Planejamento de Estruturas de Espaços Livres de Espaços Livres Designação Projeto de detalhes do Plano EL Localização ordenamento Espaços Livres com Plano de conjunto de Plano de tipos de Espaços Livres Espaços Livres Localização de diferentes e tipos de espaços livres Localização de um tipo de espaço de em quadras. quarteirões livre em comunidades urbanas ou conjuntos Delimitação de região de Delimitação projeto deficitárias 1:500 a 1:10. 2001 Plano de Play-Grounds Plano de áreas livres de Plano de áreas para esporte Hamburg Plano de “Kleingarten” Plano paisagístico de Modelo de Plano de Cemitérios Salzburg faixa de Regiões para conservação da Ordenamento do verde de natureza Hannover Áreas de proteção ambiental Fonte: Gröning. F.

A partir do cadastro físico das áreas verdes poderá ser estabelecido um diagnóstico sócio-ambiental considerando a densidade populacional. Pode-se falar em muitos índices ou em muitos elementos fundamentais a serem considerados para esse cálculo. O índice de áreas verdes é determinado pela quantidade de espaços livres de uso público por habitante da cidade. diminuem a poeira em suspensão. equilibram os índices de umidade no ar. criam obstáculos contra o vento. colaboram com a saúde do homem e também atenuam o impacto pluvial. tendo em vista que a impermeabilização crescente e progressiva do solo prejudica o escoamento superficial. reduzem o barulho. pois impedem que substâncias poluidoras escorram para os rios. Professor Doutor. perdendo muitas vezes o caráter de prolongamento direto ou indireto da habitação. as áreas verdes são essenciais a qualquer planejamento urbano aliado segundo a análise da distribuição espacial da população atual e futura (estimativa). Segundo Nucci (2001): As áreas verdes estabilizam as superfícies por meio da fixação do solo pelas raízes das plantas. contribuem para a organização e composição de espaços no desenvolvimento das atividades humanas. o percentual de áreas verdes e o Índice de Áreas Verdes. filtram o ar. auxiliando na captação de águas pluviais. Conforme a cidade cresce. o que eleva ainda mais as importância das áreas verdes. qualidade e a distribuição da mesma dentro da área urbana. Atualmente. abrigam a fauna. documento elaborado no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. IG-UFU Geógrafo (DG-FFLCH-USP). Instituto de Geografia . Citada por Barbin (2003) a carta de Atenas (1969). em que a falta de superfícies livres no interior das cidades faz com que as áreas verdes se situem na periferia. Em vários trabalhos de renomados pesquisadores tem-se discutido o valor dessas áreas para a qualidade de vida da população. Para Sanchotene (2004): O inventário e cadastramento das áreas verdes de um município bem como da arborização de vias públicas são procedimentos básicos de capital importância para o estabelecimento de um Plano Diretor de Áreas Verdes. já alertava para esse problema. Foi difundida a idéia de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a ONU utilizam o índice de 12m² de área verde por habitante como 34 35 Geógrafa. O propósito dessas áreas está relacionado à quantidade.CAPITULO 6 UM ÍNDICE DE ÁREAS VERDES PARA A CIDADE DE UBERLÂNDIA/MG Fabiane dos Santos Toledo34 Douglas Gomes dos Santos35 A existência de espaços livres nas cidades é uma necessidade quando também vinculada aos benefícios deles oriundos. não tendo a rede de captação de águas pluviais capacidade suficiente para escoar de modo rápido o grande volume de água que faz transbordar os córregos e se acumula nos vales do sítio urbano.UFU . Há também que se pensar nos locais reservados a essas áreas. protegem a qualidade da água. surge a necessidade da manutenção ou criação das áreas verdes. pois a política de um sistema de áreas verdes não deve se limitar às grandes reservas na periferia da cidade.

O município possui um importante centro urbano regional. Desporto e Lazer e da Proteção ao Meio Ambiente. com população de 501.104 ideal. como os parques e as praças. nem possuem estudos nesse sentido. Lei do Parcelamento do Solo. bem como a associação desses espaços com a população para.” Aprofundar tal questão é de extrema importância tanto para população como para os órgãos públicos. respectivamente. em forma de parques.368 com data de referência em 1º de julho de 2006 também pelo IBGE. sejam parques. já que está em fase de expansão e crescimento populacional acelerado. 2000). Como em várias cidades brasileiras. mediante: I . jardins e assemelhados. também nos artigos 122. já que a política de espaços verdes urbanos é responsabilidade do município e deve ser estabelecida pelos Planos Diretores e Leis de uso do solo dos municípios. (2004) Uberlândia já convive “com a carência de arborização e espaços livres. mas como não existe um padrão único convencionado a comparação entre elas não fará parte deste capítulo. áreas de conservação de mananciais e de cerrado típico. nas cidades em crescimento. além de fornecer subsídios ao planejamento urbanístico-ambiental do município e propor alternativas para tais estratégias. primordialmente. mais precisamente as áreas verdes de maior consideração como os parques e as praças. As pesquisas relacionadas ao índice ideal denotam a existência de diversas metodologias. se fazer o diagnóstico da qualidade de vida dos habitantes. 176 e 202 da Lei Orgânica do Município – do Desenvolvimento e Política Urbanos. como é embasado nos artigos 4º e 22 da Lei 6766/79. nesse contexto. praças e canteiros ajardinados. Cavalheiro e Del Picchia (1992). reverter quadros corrigindo possíveis equívocos. e estimada em 600. o conhecimento sobre a quantidade e a distribuição das mesmas na malha urbana. se for o caso. o que se diversifica acerca dos autores. É importante ressaltar a evidência de que tal análise é apenas uma das primeiras a se considerar para efetuar uma conclusão efetiva da qualidade de vida da população relacionada às áreas verdes. pois como já detectaram Soares et al. Uberlândia tem um número muito pequeno de trabalhos que analisam tal problemática e discutam o papel das áreas verdes nos centros urbanos. assim como há também uma variedade de conceitos para defini-las. consideradas de maior relevância. com autores que propõem outros índices. para que ainda seja possível um planejamento preventivo de caráter ambiental ou. Art. o que torna propensa a avaliação da questão ambiental. posteriormente.214 (IBGE. embasados em outros fatores. Além disso. além da análise e relação entre a proporção dessas áreas com a população no Município. no âmbito do Triângulo Mineiro. . Este capítulo tem a perspectiva de quantificar as áreas verdes da extensão urbana de Uberlândia. como base física da recreação urbana. O planejamento de áreas verdes requer.reserva de espaços verdes ou livres. como destacado abaixo. 176 . Existem várias metodologias para o estudo das áreas verdes urbanas. embasados em consultas e pesquisas. Diante das considerações apontadas torna-se urgente a realização de pesquisas que envolvam os espaços livres. porém tais organizações não reconhecem esse índice.O Município proporcionará meios de recreação sadia e construtiva à comunidade. também não adotam nem declaram sua existência trabalhando. com os objetivos principais de verificar a real existência do Índice de Áreas Verdes proposto na Lei Orgânica. bosques. Uberlândia se enquadra nessas circunstâncias. apesar de serem imprescindíveis pesquisas e estudos nessa composição. inclusive.

em diversas escalas. Cavalheiro e Nucci (1998). embasada nas considerações de Nucci (2001) as quais afirmam que. Utilizouse também figuras. No entanto. A proposta de utilização da cartografia digital como a base principal para representar as áreas verdes do município (parques e praças) encontra respaldo na importante ferramenta que representa na análise urbana. e no outro na SEPLAMA. e outros que se fizeram necessários ao longo do trabalho. a quantificação. Para se obter a somatória dessas áreas. e a análise. praças. Além disso. simplificada. Na execução prática para se definir os aspectos do município proeminentes ao estudo das áreas verdes fez-se o uso do Banco de Dados Integrados de Uberlândia (BDI) 2006 obtido na SEPLAMA. possibilitado assim a compreensão e a escolha do embasamento e dos indicadores que foram considerados. primeiro no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área. considerando o somatório das áreas verdes em metros quadrados (m²) dividido pela população da área estudada. Para identificação das áreas verdes. Como ilustrações dos principais pontos de áreas verdes da área urbana foram realizados diversos trabalhos em campo para o recolhimento de fotografias e informações. na Coordenação do Núcleo de Pesquisa Estatística e Banco de Dados do Município de Uberlândia. junto à Secretaria de Planejamento Urbano e recolhidas informações no memorial descritivo da mesma. já discutida neste livro. primeiramente. sendo talvez. referenciando a idéia de realizar o levantamento. ou seja. ÍNDICE DE ÁREAS VERDES Os índices de áreas verdes são expostos de diferentes formas por diferentes pesquisadores. para diferentes cidades. em km² (quilômetro quadrado) ou m² (metro quadrado) dividido pela quantidade de habitantes de uma cidade. das áreas verdes urbanas de Uberlândia tendo como destaques os parques e as praças. o índice de áreas verdes é aquele que denota a quantidade de espaços livres de uso público. em termos gerais. parques. além da carta base do município. mapas colhidos na PMU/SEDUR (2004). uma conseqüência da falta de consenso entre os conceitos. a cartografia temática já fornece a possibilidade da visão integrada do espaço urbano. pois o índice desacompanhado da definição de termo “área verde” não estabelece parâmetros para comparações. foram realizadas visitas e entrevistas na PMU. entende-se por índice de área verde por habitante a relação entre a densidade populacional e a metra- . posteriormente organizados de acordo com intenção de exibição das mesmas. selecionadas no portal eletrônica da Prefeitura Municipal de Uberlândia (PMU). índices de áreas verdes. Dentre as várias técnicas e métodos existentes para se computar o Índice de Áreas Verdes. Por si só. foi desenvolvida. foi escolhida a metodologia mais utilizada para o cálculo. sabe-se que muitas administrações aumentam seus índices colocando todo espaço não construído como área verde e/ou até consideram a projeção das copas das árvores sobre as calçadas. uma pesquisa teórica acerca dos conceitos como espaços livres. para calcular o índice de área verde. alertam que o confronto de índices de áreas verdes entre cidades pode ser um equívoco.105 Para atingir os objetivos propostos. além de visitas aos próprios locais para confirmação de dados. com o aporte dos principais autores no assunto. áreas verdes. os quais possibilitaram a elaboração e organização dos mapas e a formação de tabelas e figuras para a escala de abordagem necessária. foram usadas. Os dados censitários da área foram recolhidos em dois momentos. Para Sanchotene (2004).

Significa dizr que os pesos atribuídos aos indicadores não são neutros e envolvem. Nucci (2001) afirmou que. A PMU através do artigo 202 da Lei Orgânica do Município. metais. as praças. 1978).estimular e contribuir para a recuperação da vegetação em áreas urbanas. 1998) Oliveira (1996) fez um levantamento das áreas públicas do município de São Carlos/ SP e obteve dois índices diferentes. chamado percentual de áreas verdes (PVA). ao terem seus componentes urbanos construídos com esses materiais. para calcular o índice de área verde. no qual entraram todas as áreas verdes públicas da cidade. com plantio de árvores preferencialmente frutíferas objetivando. posteriormente. Como destaca Magalhães Jr (2007): O índice é um instrumento para reduzir uma grande quantidade de dados a uma forma mais simples. Para Escada (1987). Cavalheiro e Del Picchia (1992) referem-se ao índice mais difundido no Brasil. cerâmica. os autores mencionados e a ONU não o admitem. recalculado. o qual teria sido desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). em última instância. Acrescentando-se que para Guzzo (2003). os índices são instrumentos que devem ser utilizados como guia para questões muito complexas e por isso são muito subjetivos. apud Rondino (2005) essa matemática é feita entre os espaços nos quais o acesso da população é livre. Posteriormente. atingir os índices mínimos de área verde por habitante estipulados pela Organização das Nações Unidas. após uma avaliação do seu estado de uso e conservação. primeiramente. considerando somente as áreas verdes públicas de acesso livre para a população. pela ONU e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). têm como resultante as super- . envolve algum juízo de valor.106 gem quadrada total de áreas verdes de uma cidade ou de partes dela. os parques e os cemitérios. ser calculado em função da quantidade total das áreas existentes e. retendo o seu significado essencial (Ott. demonstrando quantas dessas áreas estão sendo realmente utilizadas. devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área. A construção de um índice sintético pode facilitar a ordenação ou comparação entre comunidades. o primeiro. Porém. especialmente. ou seja. mas “um índice envolve o problema da ponderação dos indicadores. atualizada até 08/02/2006. Todavia. sem contar a acessibilidade da população. sendo substituída por elementos da infra-estrutura urbana constituídos basicamente por concreto. assegura os índices de área verde por habitante embasados nos possíveis valores propostos pela ONU. Para aquele autor. o índice deveria. A citar: XXIII . foi calculado o índice de áreas verdes (IAV). 12m² per capita. 1996). O índice de áreas verdes para a cidade como um todo também foi calculado e considerado um indicador de qualidade de vida da população. ou seja. vidro e asfalto. DENSIDADE POPULACIONAL E ÁREAS VERDES Com o surgimento espontâneo e o crescimento rápido e desordenado das cidades. foi estimado para grandes áreas da cidade. As cidades. aos poucos. necessariamente. a vegetação natural foi. que considerariam como ideal que cada cidade dispusesse de 12m² de área verde/habitante. a introdução de algum nível de arbítrio” (Ipea/FJP/Pnud. o que. este índice está intimamente ligado à função de lazer que desempenham ou que venham a desempenhar. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) propôs como índice mínimo para áreas verdes públicas destinadas à recreação o valor de 15 m²/habitante (SBAU.

congestionamentos. é necessário que se tenha idéia das alterações ambientais provocadas pela urbanização. o número ideal para a densidade populacional varia entre 100 e 500 habitantes/ha. de espaços de integração urbana. já com a Revolução Industrial. Martinésia. sua área total é de 4. que se encontravam sem efeito diante dos novos meios de transporte e. escassez de espaços livres para o lazer e falta de participação popular. da crise ambiental atual. A alta concentração da população gera a deterioração da qualidade de vida urbana acarretando o desconforto da mesma por meio da deficiência no abastecimento em geral. LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO O município de Uberlândia localiza-se a 18º55’07” de latitude Sul e 48º16’38” de longitude Oeste. modificar as dimensões das ruas. PRUDENTE.82km2 de zona rural (BRITO. a cidade transformou-se em joguete dos interesses da especulação financeira e imobiliária. 1º da Lei 5969. Região Sudeste do Brasil. Barbin (2003). cultural. artístico. aproximadamente. Miraporanga e Tapuirama). O perímetro urbano de Uberlândia foi estabelecido pelo Art.  Aumentar as chamadas “áreas verdes” visando gerar maior lazer e menor estresse aos novos trabalhadores urbanos. Buscando as origens da crise urbana e. poluição. 2005).107 fícies com elevado índice de reflexão. questiona-se um número que expresse a densidade populacional ideal (Nucci. conseqüentemente. destes 219. Segundo Lima (1991).896. bem como a impermeabilidade quase total dos solos. Cruzeiro dos Peixotos.115.. ter-se-ia que procurar as causas e o período em que começaram a se dissolver os limites da cidade e as mudanças sócio-culturais que acompanharam essa dissolução.) visando uma integração da natureza com a cultura do ser humano”.. devido ao crescimento da área do município. Está situado na Mesorregião do Triângulo Mineiro/ Alto Paranaíba. no qual. em seu Art. Para este autor. as cidades são constituídas.82km². Segundo Guzzo (1999). proteção ao patrimônio histórico. No final do século XIX e início do século XX. ou seja. surge o “urbanismo moderno” baseado em quatro objetivos fundamentais:  Descongestionar o centro das cidades para cumprir as exigências de fácil circulação. espaços construídos e espaços livres “(. LEGISLAÇÃO REFERENTE ÀS ÁREAS VERDES É preciso indicar. 24 esclarece que compete À União. primeiramente. turístico e paisagístico. aos Estados e Distrito Federal legislar corretamente sobre: VII.00km2 são de área urbana e 3. o aumento populacional e a expansão da zona urbana. Sendo este um problema que atinge a maioria das cidades de médio a grande porte. os preceitos da Constituição Federal para o patrimônio histórico e paisagístico. do ponto de vista físico. Estado de Minas Gerais. . de 07 de março de 1994. É dividido em 05 Distritos (Uberlândia – Distrito Sede.  Aumentar os meios de circulação. ruídos. competição.  Aumentar a densidade do centro das cidades para realizar o contato exigido pelos negócios oriundos no crescente mundo capitalista. problemas na eliminação e deposição de lixo. 1996). Para tal.

no Art. 176 estabelece que o município proporcionará meios de recreação sadia e construtiva à comunidade. são estruturados com base no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano que é o instrumento básico de definição do modelo de desenvolvimento para municípios com mais de vinte mil habitantes. as áreas mínimas e máximas de lotes e os coeficientes máximos de aproveitamento. exceto nos loteamentos maiores que 15. não podendo ser inferiores a 35% (trinta e cinco por cento) da gleba. alínea III. histórico. turístico e paisagístico. A Lei Complementar nº. legalmente instituído pelo Poder Público. Os Sistemas de Áreas Verdes. em geral. a redução dos problemas de drenagem e a criação de áreas para lazer na concepção dos parques. com objetivos de conservação e limites definidos. na qual a porcentagem destes espaços não é mais quantificada e deve ser prevista pelo Plano Diretor ou aprovada por Lei Municipal para a zona em que se situem. sob regime especial de administração. obrigatoriamente. bosques e parques. calculadas sobre a área total loteável: I . parágrafo 10.” Para o caso dos grupos de áreas verdes.10% (dez por cento) para áreas de uso institucional. incluindo. 2004). “garantir a proteção dos recursos hídricos e vegetais.20% (vinte por cento) para o sistema viário. a bens e direitos de valor artístico. em seu artigo 4°. esportivas e contemplativas da população. Modernamente está incorporando o enfoque ambiental passando a chamar-se Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (SANCHOTENE. como base física da recreação urbana”. alínea XXIII esta Lei propõe: “estimular e contribuir para a recuperação da vegetação em áreas urbanas. áreas de preservação e unidades de conservação”. VI . Os loteamentos e reloteamentos deverão destinar ao Município as seguintes áreas mínimas. com características naturais relevantes. este dispositivo legal foi atualizado e alterado pela Lei n° 9.766 de 19 de dezembro de 1979. dispõe sobre o parcelamento e zoneamento do uso e ocupação do solo do município de Uberlândia. regulamentou o parcelamento do solo urbano.7% (sete por cento) para áreas de recreação pública. Lei Complementar n. especialmente. bosques. A Lei n° 6. do loteamento e reloteamento: Art. no art. o SNUC define em seu art. de 19 de outubro de 2006. ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. caso em que a porcentagem poderia ser reduzida. responsabilidade por dano ao meio ambiente. com plantio de árvores preferencialmente frutíferas objetivando.785 de 29 de janeiro de 1999.108 VIII. Define ainda nessa Lei. cívicas. atingir os índices mínimos de área verde por habitante estipulados pela ONU. II . jardins e assemelhados. mediante “reserva de espaços verdes ou livres. 202. 2º: I – Unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos ambientais.000m² (quinze mil metros quadrados). tais como praças. estético. subseção I.” O Plano Diretor de Uberlândia. 13. preconizando que os loteamentos deviam possuir áreas destinadas a espaços livres de usos públicos.º 432. Com relação ao que se dispõe ao lazer a Lei Orgânica do Município. no art.proteção integral: manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por inter- . proporcionais à densidade de ocupação prevista para a gleba. No Art. ao consumidor. inciso 1. 14. III . 5º “Área de Recreação” sendo “aquela reservada a atividades culturais. tem como diretriz ambiental. 245 de 30 de novembro de 2000. Porém. incluindo as águas jurisdicionais. que definirá os usos permitidos e os índices urbanísticos de parcelamento e ocupação do solo. em forma de parques.

as Leis Federais e Estaduais existentes como a Lei 4. recreativos e com caráter ornamental. Art. da fauna e das belezas naturais com a utilização para objetivos educacionais. admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais. § 4o As unidades dessa categoria. constatou-se: Parques Em termos de classificação foi verificado que o município não tem nenhum documento legal ou mesmo concordância entre as secretarias responsáveis pelo meio ambiente e patrimônio no que se refere ao conceito de parques municipais. 017. respectivamente. quer seja nativa ou não. conciliando a proteção integral da flora. Ainda. 11.383 de 04 de setembro de 1997. . das pesquisas em documentos no Núcleo de Coordenação das UCs e da análise dos decretos de criação dos espaços livres em Uberlândia. criados para a proteção e preservação permanente de regiões dotadas de excepcionais atributos da natureza. O que se menciona sobre parques. ainda que Parques Florestais. categorizando parques e praças (Mapa 1). nos quais as espécies vegetais e animais.Os Parques Estaduais são bens do Estado de Minas Gerais.017. cultural. possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental. Assim fica estabelecido para este estudo. recreativos e científicos. “Art. A possível definição de praças é citada em um documento legal apenas para efeito do Decreto nº 7.” A PMU define área verde como “toda área onde predominar qualquer forma de vegetação. 2º .771. O Parque Nacional tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica. de 15 de setembro de 1965. educativo e recreativo. 2º considera Parque Nacional aqueles que: I . ÁREAS VERDES NO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA De acordo com o memorial descritivo da SEPLAMA. de domínio público ou privado”. ou onde existam paisagens naturais de grande valor cênico. conforme se aplica no art.Possuam um ou mais ecossistemas totalmente inalterados ou parcialmente alterados pela ação do homem. Decreto nº 21. com finalidade de instalação de equipamentos de lazer. 164 da Lei Complementar nº. naquela mesma Lei é que estes são unidade de conservação permanente destinada a resguardar atributos de natureza. mas para as categorias ainda não há um Regulamento específico que defina essas áreas. de 23 de novembro de 1981 que regulamenta os Parques Estaduais. Parque Estadual e Parque Natural Municipal. No Decreto no 84. os sítios geomorfológicos e os “ habitats “. serão denominadas. no art. Para o Estado. de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. ou de valor científico ou histórico. postos à disposição do povo. que aprova o Regulamento do Parques Nacionais Brasileiros. contemplativo e de melhoria da qualidade de vida”. de 21 de setembro de 1979. o qual regulamenta o projeto “adote uma praça ou um canteiro central” como “logradouro público situado em vias públicas.724.109 ferência humana. ofereçam interesse especial do ponto de vista científico. quando criadas pelo Estado ou Município.

Para ressaltar. “de resguardar atributos excepcionais da natureza. no BDI. admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais. da fauna e das belezas naturais com a utilização para objetivos educacionais.2 – Distribuição de áreas dos Parques Municipais – DECRETOS PARQUE Santa Luzia Luizote de Freitas Distrito Industrial Mansour Sabiá Victório Siquierolli Natural do Óleo TOTAL Área (m²) 271. referindo-se aqui ao total geral.º 7. F.936.897.SEPLAMA Fonte: SEPLAMA .611. e ainda acrescentam a responsabilidade sob as condições do bem-estar público.110 o Código Florestal.486. parte dessas áreas se comprovaram.270.83m².19 187. 2006.1 e 6. Org.747.: TOLEDO.304.554.48 1.400.00 282.09 2.452 de 27 de novembro de 1997. Para este estudo foram consideradas as áreas referentes aos Decretos por se tratarem de medidas com respaldo legal e por contemplarem uma área maior. .95 202.35 2. conforme Tabela 6. que permite a criação dos parques nos termos do artigo 5º. Em relação à área total dos mesmos foi comprovada uma divergência nas informações da SEPLAMA com os Decretos mencionados.2. ou seja. recreativos e científicos”.º 9. n.3. F.Divisão de Planejamento Integrado.849.348. Todos os Decretos de criação determinam a finalidade dos Parques conforme o mesmo artigo 5º. a qual foi revogada pelo SNUC. 2006.984. a diferença dos totais resulta em 44.900.: TOLEDO. que de acordo com o 2º art.” Assim. é de se ressaltar também que ao observar as individualidades constata-se disparidades em todas as áreas.80 232. os Parques Municipais Santa Luzia.00 117. por vezes menores em uma e maiores em outra e vice-versa.25 238.696. alínea VI do SNUC entende-se por “manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana. no grupo de Unidades de Proteção Integral.16 Como se verifica. S. Victório Siquierolli e Natural do Óleo são UCs. a qual também demonstra pequenas distorções nas quantidades. Org.527.º 8.311. já que comparando os dados observam-se discrepâncias individuais. PARQUE Santa Luzia Luizote de Freitas Distrito Industrial Mansour Sabiá Victório Siquierolli Natural do Óleo TOTAL Área (m²) 268. Tabela 6. 2006.33 Fonte: SEPLAMA – Divisão de Patrimônio.24 339.19 1.. alínea “a” do Código florestal.05 51.1 – Distribuição de áreas dos Parques Municipais . o município de Uberlândia possui sete Parques Municipais de acordo com os Decretos n.498.939.166 de 05 de maio de 2000 e n.198.505 de 02 de junho de 2004. conciliando a proteção integral da flora.840.56 223. S. alínea “a”. Além disso. Tabela 6.34 55.967. 2006. conforme resumida nas Tabelas 6.

Fica criado o Parque Ecológico São Francisco. Acerca do Parque Municipal São Francisco de Assis. Uberlândia possui 189 praças. observado na Tabela 6. têm gramado. Destas. somando um total de 909. meio-fio. 9 são pré-urbanizadas. o que significa que há a disponibilidade da área.83m². a área estudada.185 de 09 de junho de 2003). mas que ainda se encontram sem infra-estrutura. Unidade de Conservação da Natureza de Proteção Integral. A distribuição dos parques urbanos e das praças no perímetro urbano de Uberlândia está apresentada no Mapa 1. 1º.3. 2006 Para os cálculos até 2000 não foi considerada a área do Parque Natural do Óleo. (Decreto n. POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA Realizou-se um levantamento dos dados acerca do crescimento populacional da área. e 48 não são urbanizadas. tendo como referência os dados censitários de 2000 e estimativas para 2006. do IBGE e da Secretaria de Desenvolvimento e Planejamento Urbano.956. geográficos. bancos. 132 são consideradas urbanizadas. portanto. do ano de 2000. o qual quantificou 488.982 habitantes na área urbana do Município. .3 – Unidades de Conservação Ambiental – BDI (2006) Fonte: PMU/BDI. Art. de acordo com a subdivisão do perímetro urbano. firma-se que o mesmo é localizado na zona rural do município. playground e quadra esportiva. Apesar de o presente trabalho ter como foco principal as medidas totais foi imprescindível o estudo particular de cada parque para constatação de dados estatísticos. Praças De acordo com a conferência na lista de praças fornecida pelo Departamento de Serviços Urbanos da PMU.º 9. localizado na zona rural do Município de Uberlândia. apresentam arborização e grama.4. Primeiramente foram analisados os dados populacionais segundo estudos do IBGE. pois sua criação é de 2004. A fim de conhecer a densidade populacional de cada setor os dados foram compilados e distribuídos na Tabela 6. ou seja. estruturais e coletas fotográficas. não integrando. calçada.111 Tabela 6.

afirma que para calcular o índice de área verde. 2006) ÍNDICE DE ÁREA VERDE NO MUNICÍPIO Indicadores e índices são números que procuram descrever um determinado aspecto da realidade. 2006) Foi constatada uma população urbana de 585.645 600.). conforme a seguinte fórmula: . S. 2006 (Org.503 114.662 23. 2006) Setor Central Oeste Leste Norte Sul Total Área (km2) 13.982 A Tabela pode denotar futuras conclusões no que se refere à população em relação à distribuição de áreas verdes.723 14.6 – População 2000 e Estimativa 2006 Área Urbana Rural Total 2000* 488.309 25.247 488.982 12.723 habitantes para o ano de 2006. Dentre alguns indicadores que expressam a qualidade ambiental de uma cidade destacam-se: o Índice de Áreas Verdes (IAV) que mede a relação entre a quantidade de área verde (m²) e a população que vive em determinada cidade (OLIVEIRA.682 90.5 – Estimativa populacional – Uberlândia / perímetro urbano (2006) Setor Central Oeste Leste Norte Sul Total Área (km²) 13.: TOLEDO.: TOLEDO.: TOLEDO. sendo tal cálculo para todo o município de Uberlândia.274 25.5.368 * Censo/IBGE 2000/ ** Cálculos realizados pela estimativa/IBGE 2006 Fonte: IBGE/SEPLAMA.686 População 104. Planejamento e Desenvolvimento Urbano.728 34. Tabela 6. Adotando-se técnicas para determinação dos valores podem ser criados índices que sintetizem um conjunto de aspectos da realidade e que representem conceitos mais complexos como a qualidade de vida.961 133. 2006 (Org.234 14.947 23.356 113. S.190 103. Esses dados foram resumidos e finalizados na Tabela 6. expresso em metro quadrado. 1996.436 População 87. dividido pelo número de habitantes da área urbana.511 111. Tendo a configuração mostrada pela Tabela 6. 2006 (Org. F.623 135. ou apresentam uma relação entre vários deles. Para se obter o IAV neste estudo foi escolhida a metodologia mais utilizada para o cálculo.108 585. Nucci (2001). a qual considera o somatório total das áreas verdes urbanas.728 37. aqui nas categorias parques e praças.368 – também segundo o IBGE.6. devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área.186 86.232 501. Posteriormente foi utilizado o mesmo procedimento para a população estimada para 2006 – 600. Tabela 6.234 11. Planejamento e Desenvolvimento Urbano.214 2006** 585.4 – Dados populacionais – Uberlândia / perímetro urbano (2000) Fonte: IBGE/Sec.503 108.723 Fonte: IBGE/Sec.112 Tabela 6.841 108. F.

é de 6.812. TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) TAVC = 2.796. O que nos atesta uma falha nos objetivos . nas categorias praças e parques.956.818. ou seja.818.16 + 909. para o ano de 2000 (Censo IBGE) e 2006 (Estimativa e ano de parte da realização deste estudo).44 Assim.81 + 909.984. TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) TAVC = 2.304.706.348.861. o índice de áreas verdes.64 IAV = TAVC NH IAV = 3. os cálculos dos índices foram realizados em dois momentos com seus respectivos fatores. Obtendo os seguintes resultados: Para 2000.64 Para 2006.6m²/habitante.83 TAVC = 3.956.113 TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) IAV = TAVC NH Onde: TAVC = Total de áreas verdes consideradas (parques e praças) IAV = Índice de área verdes NH = Número de habitantes No intuito de analisar o índice de áreas verdes foram considerados os períodos relacionados tanto à população quanto à criação dos parques.894.706.200. para a área urbana do município de Uberlândia.83 TAVC = 3.99 IAV = TAVC NH IAV = 3.

que envolvam o lazer. Nos parques onde a visitação pública é permitida. já que se deve lembrar que a ciência se preocupa com uma acumulação de conhecimento da humanidade e que se deve ter o apoio do que já foi gerado. planos de manejo e tantos outros. sem ao menos o conhecimento da população. é necessário que se aponte que o sistema de regras de áreas verdes não pode se limitar à aquisição e reserva de grandes áreas na periferia da cidade. daí o alcance do objetivo das tabelas populacionais por setores e época. Ainda sobre a distribuição espacial dos parques que não recebem visitantes. além de servir como instrumento de reivindicação para a criação de novas áreas verdes públicas. pois as mesmas podem perder seu caráter funcional. daquelas em que a visitação não pode ocorrer (ou porque a praça é “não-urbanizada” ou o parque encontra-se fechado. por falta de infra-estrutura e pessoal). verificou-se que. além da análise da distribuição populacional segundo sua densidade. E para finalizar. em alguns espaços livres visitados. É de se concordar com Velasco citado por Escada (1992). gura os índices de área verde por habitante embasados nos possíveis valores propostos pela ONU. Com os cálculos realizados para os períodos censitários. Sendo o ambiente urbano heterogêneo. o mesmo autor recomenda que se deve considerar as necessidades e desejo da população de acordo com a composição etária. da falta de infra-estrutura e em alguns casos de pessoas capacitadas para atender a função social dos parques e praças. como é o caso das 48 praças não-urbanizadas do município.114 propostos pela PMU promulgados na Lei Orgânica do Município 001/91 (2006). com certeza. Um novo estudo. é preciso concordar com Cavalheiro e Del Picchia (1992): é importante que se ressalte que os índices existentes não são receitas a serem seguidas. hábitos e costumes. É preciso considerar também que alguns espaços livres não têm a função destinadas às áreas verdes. 2000 e 2006. antes eles servem como apoio científico para o planejamento. da estrutura urbana. Observou-se que a distribuição das áreas verdes não segue a densidade populacional. que separe as áreas onde o lazer e a recreação podem acontecer de forma pública (como é o caso das praças consideradas pela PMU como urbanizadas). quanto nos conseqüentes qualitativos. este estudo teve o objetivo de apresentar os Procedimentos para o estabelecimento de um índice de áreas verdes por habitantes no perímetro urbano de Uber- . o que acaba minimizando a eficiência das mesmas para os fins propostos. 12m² per capita. mesmo com criação de mais um parque. De uma forma geral as condições ambientais segundo o índice encontrado é de desejável alerta. ou seja. nível sócio econômico. necessários de serem estudados e aprofundados em projetos futuros. técnicos especializados. mas que aqui foram computadas. entre outras funções. há a necessidade de alguns projetos voltados para a informação do público. Os espaços livres para recreação devem ser planejados segundo a análise da distribuição espacial da população atual e futura (estimativa). a recreação e a educação dos freqüentadores. isto é. quando diz que a distribuição de espaços livres no tecido urbano depende das características físicas do sítio. tanto nos aspectos quantitativos (objetivo dessa análise). Em nenhum parque existe o real Plano de Manejo que. voltados para a preservação. do uso do solo urbano. a qual asse. Houve a constatação. é de vital importância na garantia da conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas dessas áreas. apresentará um índice mais alarmante para a cidade de Uberlândia. como também da distribuição da população residente no espaço urbano e de suas características (espaços recreacionais). neste caso o Natural do Óleo. o índice diminuiu em torno de 13% no período em referência. da composição de infra-estrutura. da existência de áreas históricas. Desta maneira.

. Piracicaba. 1982 CAVALHEIRO. S. Estudo dos espaços livres de uso público da cidade de Ribeirão Preto com . Dispõe sobre o parcelamento do solo urbano BRASIL. Espaços livres e qualidade de vida urbana. Altera a Lei de uso e parcelamento do solo BRASIL.115 lândia.771. F. p. NUCCI. utilizando as imagens CCD/CBERS 2. In: Congresso Nacional Sobre Essências Nativas. DEL PICCHIA. L. I. P. C. objetivos e diretrizes para o planejamento.985 de 18 de Julho de 2000. Campos do Jordão. 29-35. Constituição Federal. REFERÊNCIAS BARBIN. D. J. 29-38. Caracterização dos espaços livres de uso público de São José dos Campos. Lei Federal no 4. 214 p. Revista Caminhos de Geografia. 1998 ESCADA.. de 29 de Janeiro de 1999. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) BRITO. Vitória/ES. de 15 de Setembro de 1965 – Código Florestal BRASIL. Rio Claro: UNESP : Instituto de Biociências. F. F. Jun/2005 CAVALHEIRO. Paisagem Ambiente Ensaios no 11. para a qualidade de vida. por fim. A espacialização das áreas verdes pela cidade deve obedecer a critérios de acessibilidade. de 19 de Dezembro de 1979.. Mapeamento do uso da terra e cobertura vegetal do município de Uberlândia – MG. 13(15). Lei Federal no 84. Tese (Doutorado). como sempre ensinou e defendeu Felisberto Cavalheiro. 277-288. C. PRUDENTE.785. O planejamento de espaços livres: o caso de São Paulo. Áreas verdes: conceitos. além de permitir o contato direto do morador com os elementos do meio físico. P. Anais I e II. S. Lei Federal no 9. funções sociais e ecológicas. Lei Federal no 6. H. S. 1992 CAVALHEIRO. 1988 BRASIL.766. Anais São Paulo: Silvicultura em São Paulo. J. Lei Federal no 9. Histórico da evolução do uso do solo e estudo dos espaços livres públicos de uma região do município de Piracicaba/SP. 144-153. p. I. M.. 1987 GUZZO. In: Congresso Brasileiro sobre Arborização Urbana. de 21 de Setembro de 1979 – Aprova o Regulamento dos Parques Nacionais brasileiros BRASIL.017. pois acreditamos que é a divulgação do índice o instrumento para reivindicação. T. p. 2003 BRASIL. ressaltando a importância da conservação e da preservação para a qualidade ambiental urbana e.

p. T.) Gestão ambiental na bacia do Rio Araguari – rumo ao desenvolvimento sustentável. Planejamento ambiental na cidade de São Carlos/SP com ênfase nas áreas públicas e ares verdes: diagnóstico e propostas. 181 p. Carta a Londrina e Ibiporã. p. Londrina.gov.969. no 5. UBERLÂNDIA. 1996 UBERLÂNDIA. A. et al.116 detalhamento da cobertura vegetal e áreas verdes públicas de dois setores urbanos. Indicadores ambientais e recursos hídricos: realidade e perspectivas para o Brasil a partir da experiência francesa. Lei complementar no 017. no 3. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Conceitos e composição do índice de áreas verdes. controle e conservação do meio ambiente. S. E. 2004 SOARES. J.uberlandia. Itu e Campinas. www. PMU. In: LIMA. R. v.724. Dinâmica urbana na bacia do Rio Araguari (MG) – 1970-2000. www. B..383. Dissertação (Mestrado). que estabelece o perímetro urbano da sede do município de Uberlândia UBERLÂNDIA. Decreto no 7. Áreas verdes como redestinação de áreas degradadas pela mineração: estudo de casos nos municípios de Ribeirão Preto. 2004 SOCIEDADE BRASILEIRA DE ARBORIZAÇÃO URBANA – SBAU. 2007 MINAS GERAIS.. C. Londrina: UEL. 2005 SANCHOTENE. Retifica e dá nova redação à Lei 4. C.mg. p. Boletim Informativo. M.gov. Lei no 5. Lei no 21. 4-9. C.uberlandia. Uberlândia: UFU : IG. Instituto de Biociências/UNESP.htm UBERLÂNDIA. 3. Verde urbano: uma questão de qualidade ambiental. J. 1991. Regulamenta o projeto “adote uma praça ou um canteiro central” . 27-39. de 23 de Novembro de 1981.br/pmu/jsps/cidade/PATRIMONIO. de 04 de Dezembro de 1991 – Dispõe sobre a política de proteção.. Brasília : CNPq. 1999 IBGE.790/88. S. In: Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana. Dissertação (Mestrado).. 125 p. PMU. ESALQ/USP.. 1996 RONDINO. São Carlos. de 04 de Setembro de 1997.gov.br (acesso em nov/dez/2006) LIMA. In: Encontro Nacional de Estudos Sobre o Meio Ambiente. SANTOS. Anais. Aprova o Regulamento dos Parques Estaduais NUCCI.br/pmu/site UBERLÂNDIA. de 07 de Março de 1994. São Paulo: Humanitas. www. P. Dissertação (Mestrado). Qualidade ambiental & adensamento urbano: um estudo de ecologia e planejamento da paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). no 1. 126 p.mg. UFSCar. H. Rio Claro. 2001 OLIVEIRA. C. Piracicaba. (orgs. C. Estado de São Paulo. 3. 1991 MAGALHÃES JR.ibge.

Dispõe sobre a criação da Unidade de Conservação do Parque Ecológico São Francisco de Assis UBERLÂNDIA. revoga a Lei Complementar no 078 de 27 de Abril de 1994 . 2006 UBERLÂNDIA. de 19 de Outubro de 2006. de 09 de Junho de 2003. Aprova o Plano Diretor do município de Uberlândia. Decreto no 9.185. Lei complementar no 432.117 UBERLÂNDIA. Lei complementar no 245. Parcelamento e zoneamento do uso e ocupação do solo do município de Uberlândia UBERLÂNDIA. Lei Orgânica do Município de Uberlândia. de 30 de Novembro de 2000. 8ª edição. estabelece os princípio básicos e as diretrizes para sua implantação.

Pesquisador Científico do Instituto Florestal / SMA-SP. A EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS AMBIENTAIS NO BRASIL No Brasil. com a criação do Código das Águas. da política referente aos sistemas de unidades de conservação. em 1937. analisando-se os seus objetivos. a gestão integrada de recursos naturais. do Código de Minas e do Código Florestal Brasileiro. teve início em 1934. a Política Nacional de Meio Ambiente de 1981 e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) de 2000. o planejamento territorial. Monosowski (1989) fez uma análise do processo histórico de evolução das políticas ambientais no Brasil. o controle da poluição industrial. Este capítulo apresenta uma análise do papel e da importância das políticas ambientais. bem como no que tange à formulação de uma legislação específica para a conservação da natureza e proteção ambiental. o Decreto Federal 750/93 e a Lei 9. . o capítulo de Meio Ambiente da Constituição Federal de 1988. particularmente. A primeira etapa. foram focadas as leis e demais instrumentos legais e normativos cuja aplicação pressupõe a delimitação de áreas no espaço físico-territorial. POLÍTICAS AMBIENTAIS. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E GESTÃO DO TERRITÓRIO. 2. coordenação. finalidades. para o ordenamento e a gestão do território brasileiro.771/65).Proteção Integral e Uso Sustentável. Em relação à legislação ambiental. Geógrafa. Humberto Gallo Junior 36 Débora Olivato37 No Brasil. fiscalização e gestão nas diversas escalas de atuação. as políticas ambientais estão ancoradas na formulação de uma base legal e na construção de uma estrutura administrativa. implementação.CAPITULO 7 LEGISLAÇÃO. normas e inserção no ordenamento territorial brasileiro. a administração dos recursos naturais. 3. São analisados importantes marcos legais do processo de formulação das políticas ambientais em âmbito federal. O SNUC é enfocado do ponto de vista das categorias de manejo que integram as duas modalidades previstas . do Parque Nacional de Itatiaia e da legislação de prote- 36 37 Geógrafo. estabelecendo uma categorização em que o subdivide em quatro etapas: 1. no primeiro mandato do presidente Getúlio Vargas. além da criação. particularmente o Código Florestal Brasileiro (Lei 4. com a criação de órgãos e agências responsáveis pelo seu planejamento. como o Código Florestal Brasileiro de 1965. que deu início às primeiras ações em relação à proteção do meio ambiente em território nacional. e 4. Doutor em Geografia Física / USP. Mestre em Geografia Física / USP. uma análise da evolução das políticas ambientais permite verificar que houve muitos avanços no que diz respeito ao aumento da capacidade institucional.985/2000. que instituiu o SNUC.

os planos de zoneamento de uso e ocupação do solo e os planos de zoneamento para bacias hidrográficas. devido à considerada má participação do Brasil naquela Conferência Internacional. como uma autarquia do Ministério da Agricultura. Segundo Nogueira Neto (1991). em especial. A Lei nº. 289 de 1967. estabelecendo os órgãos responsáveis pela gestão dos recursos naturais em âmbito nacional. Essa primeira etapa se caracterizou pelo controle do Estado sobre a utilização dos recursos naturais. com a participação de órgãos governamentais. fiscalizar. apenas. 73.938. Coube ao Estado. da iniciativa privada e da sociedade civil organizada. 6. O quadro se completou com a instituição do Código de Pesca em 1938. os Parques Nacionais. ficando este último sob domínio da União. Em relação às áreas protegidas. demonstrando uma postura reacionária em relação aos problemas ambientais em discussão. A terceira etapa teve início com a formulação de um conjunto de instrumentos de proteção ambiental e podem ser destacadas as leis metropolitanas de zoneamento industrial e de proteção dos mananciais. desta forma. o governo federal criou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais . dissociou o direito de propriedade do solo do direito de exploração do subsolo. 6. as ações de controle implementadas nesta fase estão voltadas para o setor privado e os projetos governamentais são objeto de controle. no caso de pressões externas exercidas por agências de financiamento internacional. ficando vetadas as possibilidades de ocupação e uso humano dessas áreas. com o encargo de orientar. duas novas categorias de proteção em relação aos Parques Nacionais e Reservas Biológicas criadas e administradas pelo IBDF. a criação da SEMA objetivou a conservação do meio ambiente e o uso racional dos recursos naturais.421. fiscalização e outorga da utilização dos recursos naturais no Brasil. de 31 de agosto de 1981. um ano após a realização da Conferência de Estocolmo. A quarta e última fase iniciou-se com a promulgação da Lei nº.030. A SEMA promoveu o estabelecimento de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental. A criação desta Secretaria. com ênfase no controle da poluição. que inicialmente esteve vinculada ao Ministério do Interior. de 02/07/80.803. A criação da SEMA foi uma resposta às pressões internacionais. educação ambiental e conservação de ecossistemas. de 19/12/1979. que institui a Política Nacional de Meio Ambiente e o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). que estabeleceu as diretrizes de zoneamento industrial podem ser citadas como exemplos dessa fase.766. incumbindo ao Estado e à coletividade a responsabilidade pela manutenção de sua qualidade. por meio da instituição de áreas de preservação permanente e áreas legalmente protegidas. 4. controle. coordenar e elaborar programas de trabalho para os “Parques Nacionais”. marca o início da criação de uma série de outros órgãos responsáveis pela fiscalização e controle de poluição industrial.119 ção ao patrimônio histórico e artístico nacional. Em 1989. A segunda etapa teve início com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) em 1973. que dedica um capítulo ao Meio Ambiente e o torna um bem comum de todos. Segundo a análise de Monosowski (1989). que foi transformado no Instituto Brasileiro para o Desenvolvimento Florestal (IBDF) pelo decreto-lei nº. que além de definir critérios para a prospecção e exploração de jazidas. A sua consolidação se deu com a promulgação da Constituição Brasileira de 1988. Brito (2000) destaca que o Serviço Florestal já havia sido criado em 1921 pelo Decreto legislativo nº. a administração. 6. que definiu as diretrizes de parcelamento do uso do solo urbano e a Lei nº. Um exemplo claro desta postura é o Código de Mineração. Em 1963 o Serviço Florestal foi substituído pelo Departamento de Recursos Naturais Renováveis. O que caracteriza essa etapa é a pretensão de uma gestão integrada dos recursos naturais. pelo Decreto Federal nº.

a Política Nacional de Recursos Hídricos (lei nº. que teve a sua primeira versão promulgada em 1934. Deve ser também citada em relação à temática ambiental.000 e ISO 14. como o IBDF (Secretaria da Agricultura). 9. O estabelecimento do Sistema Nacional de Unidades de Conservação em 2000. A criação de áreas protegidas toma uma dimensão nacional. ambas do Ministério da Agricultura. fundindo a SEMA a órgãos de florestas. sendo substituída pela Lei nº. os selos ISO 14. posteriormente alterada pela lei nº. 7803. regulamentado pela Lei nº. A redemocratização do país levou a uma nova fase de expansão e reestruturação da proteção da natureza no país. entendendo que a política de criação de áreas protegidas no Brasil é resultado de um longo e lento processo de aparelhamento e estruturação do Estado. pela lei federal nº. c) Pós 1985. de 22 de fevereiro de 1989. a SEMA (Ministério do Interior) e das Superintendências do Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE) e do Desenvolvimento da Borracha (SUDHEVEA). que marca o surgimento os primeiros instrumentos legais voltados para a criação de áreas protegidas no país. concedidos para empresas que adotem práticas que promovam a diminuição dos impactos causados ao meio ambiente. O CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO Uma das mais importantes leis federais para a conservação da natureza em território nacional é o Código Florestal Brasileiro. Este autor destaca três grandes fases no movimento de criação de unidades de conservação no país: a) Os primeiros anos da República até 1963. Além disso. representou um marco fundamental neste processo. de 1965. 4771. Conforme ressaltou BRITO (2000). mas.433/97). devem ser mencionados os sistemas de certificação ambiental. tendo como resultado prático uma clara mudança de estratégia em relação à tradição empregada nos períodos anteriores. de . pesca e borracha. quando os instrumentos criados no período anterior são revisados e outros novos são instituídos. sobretudo na década de 30.001. visando à manutenção da qualidade ambiental e à recuperação de áreas degradadas. fruto da estratégia geopolítica do Estado de integrar e desenvolver todas as regiões do país. No que diz respeito à participação do setor privado. Medeiros (2004) reconhece as unidades de conservação como um instrumento geopolítico de controle do território. cuja culminância é a instituição do primeiro Parque Nacional. bem como a obrigatoriedade de licenciamento e estudo de impactos ambientais para a instalação de empreendimentos e atividades potencialmente danosas ao meio ambiente.985. 7. foram estabelecidas uma série de normas e critérios para a utilização dos recursos naturais. O IBAMA resultou da consolidação das instituições de meio ambiente anteriormente existentes. como por exemplo. 9. A seguir passaremos à análise dos principais marcos legais que caracterizam a evolução das políticas ambientais no Brasil. b) O período que compreende a ditadura militar (1964-1984). Também merece destaque a Lei de Crimes Ambientais de 1998. que prevê a responsabilização e a aplicação de penalidades para os causadores de danos ao meio ambiente.120 Renováveis (IBAMA).735. que visa ao gerenciamento dos recursos hídricos em território nacional por meio da delimitação de bacias hidrográficas e da formação de comitês para a sua gestão.

166-67. 3) de 100 (cem) metros para os cursos d’água que tenham de 50 (cinqüenta) a 200 (duzentos) metros de largura. e pela Medida Provisória nº. A retirada da vegetação em Áreas de Preservação Permanente só é admitida em virtude da necessidade de execução de obras. proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.08. qualquer que seja a vegetação. saneamento e energia. coberta ou não por vegetação nativa. Área de Preservação Permanente foi definida na Medida Provisória nº. a biodiversidade.121 1989. f) Nas restingas.166-67. em faixa nunca inferior a 100 metros em projeções horizontais. c) a formar as faixas de proteção ao longo das rodovias e ferrovias. entre outros aspectos. Também são consideradas de preservação permanente. parcela da propriedade rural obrigatoriamente reservada para a proteção ambiental. como: área protegida nos termos dos artigos 2º e 3º desta Lei. a estabilidade geológica. d) a auxiliar a defesa do território nacional. 5) de 500 (quinhentos) metros para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros.800 metros. de 24 de agosto de 2001. o fluxo gênico de fauna e flora. b) a fixar as dunas. São consideradas de interesse social as atividades imprescindíveis à proteção da in- . e a Reserva Legal. 2) de 50 (cinqüenta) metros para os cursos d’água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinqüenta) metros de largura. com a função ambiental de preservar os recursos hídricos. de 24. e) Nas encostas ou partes destas com declividade superior a 45º. 2. num raio mínimo de 50 metros de largura. qualquer que seja a sua situação topográfica. lagos ou reservatórios d’água naturais ou artificiais. as Áreas de Preservação Permanente. as obras essenciais de infra-estrutura destinadas aos serviços públicos de transporte. g) Nas bordas dos tabuleiros ou chapadas. g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas. b) Ao redor das lagoas. ainda que intermitentes e nos chamados “olhos d’água”. embora necessitando de Declaração do Poder Público (federal. h) Em altitude superior a 1. Para efeito da aplicação da referida lei. a partir da linha de ruptura do relevo. c) Nas nascentes. estadual ou municipal). 2. atividades ou projetos de utilidade pública e interesse social. 4) de 200 (duzentos) metros para os cursos d’água que tenham de 200 (duzentos) a 500 (quinhentos) metros de largura. e as demais obras. planos. como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues. atividades ou projetos previstos em resolução do CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente. f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção. planos. destinadas exclusivamente à proteção integral dos recursos naturais. O Código Florestal instituiu. São consideradas de utilidade pública as atividades de segurança nacional e proteção sanitária.2001. montanhas e serras (terço superior). foram consideradas áreas de preservação permanente: a) Ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima seja: 1) de 30 (trinta) metros para os cursos d’água de menos de 10 (dez) metros de largura. sendo proibido qualquer tipo de uso. d) No topo de morros. as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão de terras. h) a assegurar condições de bem-estar público. devendo obter autorização prévia do Poder Executivo Federal. montes. e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico. a paisagem.

2) propriedade rural – a) aproveitamento racional e adequado. como: área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural. que reivindicava a diminuição do percentual correspondente à Reserva Legal na Amazônia. 35% em área de cerrado localizada na Amazônia Legal. função social da propriedade e proteção ambiental.2001. passou de 20% para 50%. em média. Desta forma. necessária ao uso sustentável dos recursos naturais. que apresentava elevados índices anuais de desmatamento registrados por meio de imagens de satélite. de 24. para criação de Unidades de Conservação. apontando a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente como requisitos básicos para o cumprimento da função social da propriedade rural. a bancada ruralista também pretendia permitir o uso econômico das APPs. controle da erosão. tais como: prevenção. conforme resolução do CONAMA. planos. e as demais obras. que não descaracterizem a cobertura vegetal e não prejudiquem a função ambiental da área. Para ele. atividades ou projetos definidos em resolução do CONAMA. houve uma alteração pela Medida Provisória 2. d) exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores (BRANDÃO. as atividades de manejo agroflorestal sustentável praticadas na pequena propriedade ou posse rural familiar. Depois de ampla discussão com a bancada ruralista no Congresso Nacional. ficando a distribuição atual da seguinte forma: 80% em área de floresta localizada na Amazônia Legal. da Constituição Federal de 1988.122 tegridade da vegetação nativa. o que condiciona o seu uso à satisfação do interesse coletivo. 30% a menos no valor das indenizações pagas aos proprietários desapropriados. No caso da Amazônia. que era de 80%.166-67. a Constituição de 1988 consagrou a trilogia propriedade.atender às exigências fundamentais de ordenação da cidade contidas no plano diretor. variando de acordo com a região em que está situada. de acordo com artigo 5º. 2. que ampliou o percentual das Reservas Legais em cada propriedade rural. Segundo Brandão (2001). No restante do país. Reserva Legal foi definida na Medida Provisória nº. combate e controle do fogo. c) observância das disposições que regulam as relações de trabalho. O autor explica que as APP não são indenizáveis por não serem de uso econômico e representam. 20% em área de floresta ou outras formas de vegetação nativa nas demais regiões do País. excetuada a de preservação permanente. A Constituição Federal definiu os seguintes requisitos para o atendimento da função social da propriedade: 1) propriedade urbana . o Código Florestal foi alterado por meio de Medida Provisória editada pelo Presidente da República. prevalece atualmente no direito brasileiro o princípio da função social da propriedade. à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna flora nativa. à conservação e reabilitação dos processos ecológicos. erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas. b) utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente. 2001) . se a proposta de permissão do uso econômico das APPs fosse aprovada. Segundo Guillaumon (2000). XXIII. passou de 50% para 80% da propriedade. Estações Ecológicas e outras Unidades de Conservação aumentaria significativamente.166-67. além de reduzir os percentuais das APPs e Reservas Legais. o valor das indenizações em processos de desapropriações para fins de reforma agrária ou para criação de Parques. que é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana obrigatório para as cidades com mais de vinte mil habitantes. 20% em área de campos gerais localizada em qualquer região do país. Em 1996. principalmente. O percentual da propriedade que deve ser declarado como Reserva Legal não é uniforme em todo país.08.

tendo em vista a manutenção do meio ambiente ecologicamente equilibrado.274. A seguir. o subsolo e os elementos da biosfera. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. superficiais e subterrâneas. V – recursos ambientais – a atmosfera. no País. o solo. destaca-se o que se refere ao controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. as APPs e as Reservas Legais instituídas pelo Código Florestal fazem parte dos limites internos do direito de propriedade. visando assegurar. IV – O licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras. atendidos os seguintes princípios: Dentre os princípios apresentados pela referida Política. V – Os incentivos à produção e instalação de equipamentos e criação e absorção de tecnologia. as águas interiores. o mar territorial. ao poluidor e ao predador. VI – A criação de RESECs.939. e ÁRIES (Federal/Estadual/Municipal). bem como o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. . definidos na Lei federal supra-citada: I – O estabelecimento de padrões de qualidade ambiental.939/81. concorrendo para manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida. VII – à imposição. que permite. III – A avaliação de impactos ambientais. de 31 de agosto de 1981 (regulamentada pelo Decreto nº. condições ao desenvolvimento sócio-econômico.123 Assim. 6. bem comum de todos e essencial à sadia qualidade de vida. abriga e rege a vida em todas as suas formas. instituindo o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). APAs. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. conforme segue: A Política Nacional de Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. são apresentados os objetivos da Política Nacional de Meio Ambiente. 99. ficou definido que a Política Nacional do Meio Ambiente visará: I – à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. ao usuário. são apresentados alguns dos instrumentos definidos pela Política Nacional de Meio Ambiente. leis. No artigo 4º da Lei 6. II – O zoneamento ambiental. aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. estabeleceu a Política Nacional de Meio Ambiente. A POLÍTICA NACIONAL DE MEIO AMBIENTE A Lei nº. No artigo 2º. e o de Recursos Ambientais: I – meio ambiente – o conjunto de condições. química e biológica. pelo fato de ser a primeira vez em que é definido legalmente. influências e interações de ordem física. Dentre os conceitos a serem empregados na implementação desta Política. de 06 de junho de 1990). os estuários. conforme preconiza a Constituição brasileira de 1988. III – ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais VI – à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. destaca-se o de Meio Ambiente.

direta e indireta. sendo responsável pela formulação de normas e padrões de qualidade ambiental a serem aplicados nos Estados da Federação. VIII – O Cadastro Técnico Federal de Atividades e instrumentos de defesa ambiental X – As penalidades disciplinares e compensatórias. doações e uma parcela do orçamento. e o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA). constituídos por órgãos e entidades estaduais e municipais responsáveis pela aplicação da Política. exclusivamente). por meio de medidas restritivas. coordenar o Sistema e promover a articulação entre os órgãos que o compõem. VI . como as Secretarias e Fundações da Administração Pública federal. que tem representantes na maioria dos Órgãos Colegiados do Sistema. criada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso em 1997.Órgão Consultivo Deliberativo . É permitido aos Estados e Municípios formular a sua Política de Meio Ambiente.Órgãos Setoriais .Órgão Superior . como o zoneamento. bem como as responsabilidades atribuídas a cada componente do Sistema. Cabe ao Ministério do Meio Ambiente. fundações e órgãos e entidades estaduais. com o intuito de manter o controle sobre as atividades potencialmente danosas ao meio ambiente.Órgãos ou entidades da Administração Pública Federal direta ou indireta. É importante destacar a possibilidade de participação da sociedade civil organizada. O Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) funciona como Órgão Consultivo-Deliberativo. . contando com empréstimos do BIRD – Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento. inclusive no Fundo Nacional de Meio Ambiente. como Órgão Central. tendo como finalidade assessorar o Presidente da República na formulação de políticas relacionadas ao meio ambiente. sendo responsável pela implementação e aplicação da Política. das quais estão destacadas no organograma a Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional. com leis específicas. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) é o Órgão Executivo do Sistema. V . o IBAMA sofreu uma reformulação que o dividiu em dois. o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (responsável pela administração e controle das Unidades de Conservação). Em 2007. de acordo com as competências estabelecidas pela Constituição Federal. controle e fiscalização. que seleciona e financia projetos que visem à defesa do meio ambiente. a estrutura do SISNAMA apresenta a seguinte configuração: I . dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal. e o IBAMA (responsável pelos licenciamentos. IV . o licenciamento e a avaliação de impactos.Órgão Central . estabelecendo um Sistema de gestão. e Órgãos Locais. O MMA possui diversas Comissões para o tratamento de assuntos específicos. dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA). bem como à administração das Unidades de Conservação em nível federal.Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). O Conselho de Governo é um Colegiado Interministerial. com o intuito de implementar a Agenda 21 brasileira. A Lei também define os órgãos e competências relacionadas à implementação e aplicação da Política.Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). que funciona como Órgão Superior. De acordo com MMA (1998).124 VII – O sistema nacional de informações sobre o meio ambiente. controle e fiscalização das atividades em sua área de atuação. Os itens e artigos destacados demonstram que a Política Nacional do Meio Ambiente busca estabelecer padrões e critérios para a utilização dos recursos naturais.Ministério do Meio Ambiente.Conselho de Governo.Órgão Executor . O Sistema conta ainda com Órgãos Setoriais. estabelecendo uma estrutura hierárquica de atuação.Órgãos Locais . III .órgãos ou entidades estaduais e municipais. concentrando atribuições relativas à fiscalização e controle. no CONAMA e no Conselho de Governo. II .

dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente. o Pantanal MatoGrossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional. determinando que todo cidadão tem o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. impondo a obrigatoriedade de reparo dos danos causados e mencionando a possibilidade de sansões penais e administrativas. a Mata Atlântica. espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos. 225 . como por exemplo as recobertas por Cerrado e Caatinga: § 4º. na forma da lei. § 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores. diretamente ou mediante autorização.Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção. e o Poder Público tem a responsabilidade de criação e gerenciamento de áreas de proteção ambiental no país: Art. inclusive quanto ao uso dos recursos naturais. na forma da lei. um dos instrumentos da Política Nacional estabelecida em 1981. relativa à obrigatoriedade de avaliação de impacto ambiental de obra ou atividade potencialmente danosa ao meio ambiente. Dentre as incumbências delegadas ao Poder Público no § 1º. incluído no Título VIII – Da Ordem Social. Em relação à distribuição de competências. planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas. na forma de lei. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. A Floresta Amazônica brasileira. de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente. O 4º parágrafo do artigo em questão considera algumas áreas do território brasileiro como patrimônio nacional. demonstrando a tendência à restrição e controle. Os parágrafos 2º e 3º do referido artigo corroboram a tendência da legislação federal a responsabilizar e punir os causadores de impactos ambientais. em detrimento de outras. 1998) tem o Capítulo VI destinado ao Meio Ambiente. a sansões penais e administrativas.125 O MEIO AMBIENTE NA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 A Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL. no que tange ao meio ambiente. os serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos d’água. IV – Exigir. impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios . pessoas físicas ou jurídicas. no que diz respeito à utilização dos recursos naturais: III – definir. sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei. a que se dará publicidade. em articulação com os Estados onde se situam os potenciais hidroenergéticos. a Serra do Mar. ficou estabelecido que cabe exclusivamente à União: explorar. em todas as unidades da Federação. as secas e as inundações. independentemente da obrigação de reparar os danos causados. estudo prévio de impacto ambiental. especialmente. e a IV. para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. e sua utilização far-se-á. destacou-se a III. conforme segue: § 2º Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente degradado. que se refere à criação de áreas legalmente protegidas em território nacional.

ficou estabelecido que compete privativamente à União legislar sobre: águas. . proteção do meio ambiente e controle da poluição. defesa do solo e dos recursos naturais. neste caso. III – os lagos. IV – as ilhas fluviais e lacustres nas zonas limítrofes com outros países. V – os recursos naturais da plataforma continental e da zona econômica exclusiva. caça. aérea e aeroespacial. fauna. responsabilidade por dano ao meio ambiente. os Estados e o Distrito Federal devem legislar concorrentemente sobre os seguintes assuntos: florestas. É competência comum da União. as obras e outros bens de valor histórico. excluídas. e promover. registrar. No que diz respeito aos aspectos legais.Incluem-se entre os bens dos Estados: I – as águas superficiais ou subterrâneas. enquanto que aos Municípios cabe legislar sobre assuntos de interesse local. navegação lacustre. II – as terras devolutas indispensáveis à defesa da fronteiras. das fortificações e construções militares. acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios. dos Estados. artístico. bem como os terrenos marginais e as praias fluviais. A Constituição determina que os Estados devem organizar-se e reger-se pelas Constituições e leis que adotarem. regime dos portos. a fauna e a flora. que a União. baseado nos Artigos 20º do Capítulo II e 26º do Capítulo III da Constituição Federal de 1988. os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio. telecomunicações e radiodifusão. os monumentos. que estiverem no seu domínio. as áreas referidas no art. pesca. com a possibilidade de suplementar a legislação federal e estadual no que couber. inclusive os do subsolo. 26. artístico e cultural. atividades nucleares de qualquer natureza. IX – os recursos minerais. das vias federais de comunicação e à preservação ambiental. 26 . do parcelamento e da ocupação do solo urbano. conservação da natureza. Capítulo III – Dos Estados Federados. proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas. excluídas aquelas sob domínio da União. minas. VII – os terrenos de marinha e seus acrescidos. ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham. marítima. a bens de valor artístico. jazidas.126 de outorga de direitos de seu uso. na forma da lei. energia. sirvam de limites com outros países. II. XI – as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. ao consumidor. preservar as florestas. turístico e paisagístico. histórico. fluvial. informática. Municípios ou terceiros. ou que banhem mais de um Estado. II – as áreas. definidas em lei. Capítulo II – Da União. no que couber. as paisagens notáveis e os sítios arqueológicos. emergentes e em depósito. outros recursos minerais e metalurgia. nas ilhas oceânicas e costeiras. Abaixo segue a distribuição de bens entre União e Estados. proteção ao patrimônio histórico. turístico e paisagístico. estético. III – as ilhas fluviais e lacustres não pertencentes à União. as ilhas oceânicas e as costeiras. ressalvadas. 20 – São bens da União: I – os que atualmente lhe pertencem e os que lhe vierem a ser atribuídos. fluentes. mediante planejamento e controle do uso. adequado ordenamento territorial. VI – o mar territorial. IV – as terras devolutas não compreendidas entre as da União. as praias marítimas. as decorrentes de obras da União. Art. X – as cavidades naturais subterrâneas e os sítios arqueológicos e pré-históricos. Art. do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos. Ficou estabelecido. VIII – os potenciais de energia hidráulica. também. populações indígenas. cultural.

. segundo a delimitação estabelecida pelo Mapa de Vegetação do Brasil do IBGE de 1988. Floresta Ombrófila Mista. restingas. atividades ou projetos de utilidade pública ou interesse social. resoluções. premissas e normas a serem seguidas em âmbito federal. 9. objetivos. sob regime especial de administração. Alguns juristas defendem a inconstitucionalidade deste Decreto. transformou-se em Projeto de Lei em 1992. Porém.939/81. Unidade de Conservação foi definida como: Espaço territorial e seus recursos ambientais. só é legalmente permitida em casos de execução de obras. com a apresentação de EIA/RIMA. Floresta Estacional Decidual. Após ampla discussão no Congresso Nacional. elas são editadas para regulamentar o que determina a Lei 6. proibiu o corte. especificando os trâmites. portarias etc. bem como do entorno de unidades de conservação e em áreas de preservação permanente (APP) definidas pelo Código Florestal Brasileiro. elaborado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN) em duas etapas (1979 e 1982). Esta lei instituiu oficialmente o Sistema Nacional de Unidades de Conservação brasileiro. Floresta Ombrófila Aberta. Floresta Estacional Semidecidual. alegando que ele impõe restrições em nível de direitos e deveres. brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste. definindo as categorias de áreas protegidas e suas respectivas finalidades. planos. de 10 de fevereiro de 1993. O Decreto 750 também proíbe a exploração de vegetação com função de proteção de espécies da flora e fauna silvestres ameaçados de extinção. foi aprovado na Câmara Federal no ano de 1999 e recebeu a sanção presidencial em 18 de julho de 2000. do ponto de vista legal. Cabe aos decretos. o que segundo a Constituição Federal. regulamentar o que foi estabelecido em lei. A supressão de vegetação inclusa nessas formações. No caso das Resoluções CONAMA. com características naturais relevantes. 2000). um dos principais instrumentos de proteção dos remanescentes florestais do Domínio da Mata Atlântica. que tem força de lei. o fato é que o Decreto 750 tem sido aplicado e. foram consideradas como integrantes deste Domínio as formações classificadas como Floresta Ombrófila Densa Atlântica. incluindo as águas jurisdicionais. 750.985 (BRASIL. Também são proibidas de utilização as formações vegetais que formam corredores entre remanescentes de vegetação primária ou em estágio avançado e médio de regeneração. que criou a Política Nacional de Meio Ambiente. transformando-se na Lei nº. em estágio avançado ou médio de regeneração. . só pode ser efetuado via Lei. ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. manguezais. O SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA (SNUC) O Plano do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). formas. padrões e limites para a sua efetiva aplicação. a exploração e a supressão de vegetação primária ou nos estágios avançado e médio de regeneração no domínio da Mata Atlântica. com objetivos de conservação e limites definidos. ainda é. campos de altitude. legalmente instituído pelo Poder Público.127 O DECRETO FEDERAL 750 O Decreto Federal nº. anuência do IBAMA e autorização do CONAMA. Para efeito de aplicação da lei.

Entre os usos possíveis. sendo dada ênfase à preservação dos ecossistemas presentes no interior da unidade. exceto com objetivos educacionais Proibida. 4. 2000 / Organização: GALLO JUNIOR. a manutenção. o solo. a utilização sustentável. de 22 de agosto de 2002.1 – Unidades de Proteção Integral do SNUC (Lei no 9. desde que previamente autorizadas pela administração da unidade.9. procedimentos e políticas que visem a proteção a longo prazo das espécies. singulares ou de grande Público / beleza cênica. e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral.128 Conservação da natureza foi definida como: O manejo do uso humano da natureza. . Por meio do Decreto nº. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade.1) e Uso Sustentável (Quadro 7. 2004) Nas categorias de uso sustentável é possível o uso direto dos recursos ambientais38. Quadro 7. possibilitando a realização de P a r q u e pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades Público Nacional de educação e interpretação ambiental.985) CATEGORIA OBJETIVOS POSSE / VISITAÇÃO DOMÍNIO PúBLICA Proibida. para que possa produzir o maior benefício. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade PESQUISA CIENTÍFICA Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC E s t a ç ã o Preservação da natureza e realização de pesquisas Público científicas Ecológica Preservação integral da biota e demais atributos naturais R e s e r v a existentes em seus limites. o mar territorial. Preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica.340. a visitação é permitida exclusivamente para fins de educação ambiental. além da manutenção dos processos ecológicos. Nas categorias Estação Ecológica e Reserva Biológica. As unidades de conservação integrantes do SNUC foram divididas em duas categorias: Proteção Integral (Quadro 7. de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade Permitida. compreendendo a preservação. Preservação foi definida como: conjunto de métodos. Nas unidades de proteção integral não é permitida a utilização direta dos recursos ambientais. às atuais gerações. Monumento Preservar sítios naturais raros. mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras. Privado Natural R e f ú g i o Proteger ambientes naturais onde se assegurem condições Público / de Vida para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades Privado da flora local e da fauna residentes ou migratória Silvestre (Fonte: BRASIL. estão a pesquisa científica e a visitação pública para fins de educação e recreação em contato com a natureza. superficiais e subterrâneas. desde que seja efetuado de forma a garantir a sua manutenção.2). os elementos da biosfera. de acordo com as diretrizes e restrições do plano de manejo elaborado para a área. o subsolo. os estuários. as águas interiores. habitats e ecossistemas. sem interferência humana direta Público Biológica ou modificações ambientais. Permitida. prevenindo a simplificação dos sistemas naturais. exceto com objetivos educacionais Permitida. em bases sustentáveis. a fauna e a flora”. que regulamenta alguns 38 Na lei 9. a restauração e a recuperação do ambiente natural.985 é apresentada a seguinte definição para recurso ambiental: “a atmosfera.

Área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica. disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. residentes ou migratórias. para aprofundar o conhecimento dessa diversidade biológica. Área de Proteção Ambiental Público / Privado Área de Relevante Interesse Ecológico Público / Privado Floresta Nacional R e s e r v a Extrativista Reserva de Fauna É admitida a permanência de populações tradicionais. e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica. cuja subsistência baseia-se no extrativismo e. com certo grau de ocupação humana. Visitação permitida. o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida das populações. Público Visitação e pesquisa permitidas. Visitação e pesquisa permitidas. dotada de atributos bióticos. QUADRO 7. terrestres ou aquáticas. ao mesmo tempo. sendo regulado de acordo com o disposto no Art. Natural. a Reserva da Biosfera foi incorporada como mais uma categoria de proteção integrante do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Reserva Particular Área privada. e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações. desenvolvido por estas populações POSSE / DOMÍNIO OBSERVAÇÕES Disporá de um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos. com o Privado do Patrimônio objetivo de conservar a diversidade biológica. de organizações da sociedade civil e da população residentes. com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas. o monitoramento ambiental. recreativos e educacionais. estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas. Tem como objetivo básico preservar a natureza e. com a finalidade de planejar. a Reserva da Biosfera é definida como: um modelo de gestão integrada. 9. e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas. Área natural com populações animais de espécies nativas. Área utilizada por populações extrativistas tradicionais. adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos Área natural que abriga populações tradicionais. Área em geral de pequena extensão. desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica. Será gerida por um Conselho Público. No referido Decreto. É proibido o exercício da caça Público amadorística ou profissional. coordenar e supervisionar as atividades relativas ao Programa. Fonte: BRASIL (2000) / Organização: GALLO JUNIOR (2004) Só serão permitidas a pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos. complementarmente. com pouca ou nenhuma ocupação humana. 23 desta Lei e regulamen-tação específica. gravada com perpetuidade. e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade. bem como valorizar. Reserva de Desenvolvi-mento Sustentável Público. É admitida a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis. conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente. Será gerida por um Conselho Deliberativo. de que trata o Decreto de 21 de setembro de 1999. A responsabilidade pelo seu gerenciamento fica a cargo da Comissão Brasileira para o Programa “O Homem e a Biosfera” . na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte. assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais. a educação ambiental.985. Deliberativo. Uso concedido às populações tradicionais. de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação de natureza. Disporá de um Conselho Consultivo.985) CATEGORIA OBJETIVOS Área em geral extensa. 9.COBRAMAB. Uso concedido Visitação pública e pesquisa às populações permitidas.129 artigos da Lei nº. com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional. Maretti (2001) efetuou uma correlação entre as categorias de manejo do sistema nacio- . que tem por objetivos básicos a preservação da biodiversidade e o desenvolvimento das atividades de pesquisa científica.2 – Unidades de Uso Sustentável do SNUC (Lei nº. participativa e sustentável dos recursos naturais. extrativistas Exploração de recursos minerais tradicionais e caça amadorística proibidas. cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais.

à autorização para exploração de bens e serviços nas unidades de conservação. e à gestão compartilhada das unidades de conservação. Desta forma. pesquisa e turismo. ao reassentamento das populações tradicionais. Estaduais e Municipais. o Ministério do Meio Ambiente com a responsabilidade de coordenar o Sistema.340/2002 regulamentou aspectos relativos à criação das unidades de conservação.  Categoria VI – Uso sustentável dos ecossistemas – incluindo o manejo dos recursos da área protegida. estabelecendo diretrizes para a constituição de um Conselho de Mosaico.  Categoria V – Conservação de paisagens territoriais.  Categoria II – Conservação de ecossistemas e turismo – para fins principalmente de conservação. enfocando a necessidade de estudos técnicos e a obrigatoriedade de realização de consulta pública.  Categoria III – Conservação de características naturais específicas – correspondendo aproximadamente aos usualmente chamados Monumentos Naturais. que habitam o interior de unidades de conservação de Proteção Integral. o Conselho Nacional de Meio Ambiente ficou com a responsabilidade de acompanhar a implementação do Sistema. praticamente sem correspondentes diretos no Brasil. correspondendo aproximadamente às nossas Reservas Biológicas e Estações Ecológicas. para tanto. Em relação à gestão do SNUC. como as Reservas Extrativistas. preferencialmente na unidade de conservação ou no mesmo bioma. com a responsabilidade de implementar o Sistema e administrar as unidades de conservação. à compensação por significativo impacto ambiental. correspondendo aproximadamente às nossas Áreas de Proteção Ambiental (APAs). Estaduais e Municipais. e o IBAMA e órgãos estaduais e municipais de caráter executivo.  Categoria IV – Conservação com gestão ativa – com manejo ativo de habitats naturais e espécies. correspondendo aproximadamente às nossas Reservas Extrativistas e Florestas Nacionais. e que comprovem a realização de atividades de proteção do meio ambiente ou desenvolvimento sustentável. ao Mosaico de unidades de conservação. dois requisitos básicos: que tenham dentre seus objetivos institucionais a proteção do meio ambiente ou a promoção do desenvolvimento sustentável. encontrando a seguinte correspondência:  Categoria I – Proteção estrita – com fins principalmente de preservação e pesquisa científica. preferencialmente por comunidades locais e tradicionais. o que deve ser efetuado por meio de termo de parceria firmado junto ao órgão executor.130 nal unidades de conservação no Brasil e a classificação internacional estabelecida em 1994 pela UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza. à formação de Conselho Consultivo e Deliberativo para assessorar a gestão das unidades de conservação. abriu-se a possibilidade de gestão de unidades de conservação por organizações não governamentais. à elaboração do Plano de Manejo das unidades de conservação. Florestas Nacionais e Reservas de Desenvolvimento . correspondendo aproximadamente aos nossos Parques Nacionais. estaduais e municipais.OSCIP. geográficas de terra e mar – incluindo o uso humano integrado e harmônico. que é constituído pelo conjunto de Unidades de Conservação federais. sendo delas solicitado. O artigo 21º do Decreto de regulamentação do SNUC trata da possibilidade de gestão compartilhada das unidades de conservação integrantes do Sistema com Organização da Sociedade Civil de Interesse Público . O Decreto Federal 4. Algumas categorias do SNUC permitem a presença de populações humanas no seu interior.

131 Sustentável. Porém, nas unidades de proteção integral, a presença humana não é legalmente permitida. Um grande problema para a gestão dessas áreas é o fato de que grande parte das unidades de conservação de proteção integral brasileiras possuem comunidades vivendo no seu interior. A legislação determina que essas pessoas sejam realocadas, sendo sua permanência permitida apenas de forma temporária nas unidades de conservação, devendo ser regulada por contratos estabelecidos junto ao órgão gestor. O artigo da lei do SNUC, que tratava da conceituação sobre as comunidades tradicionais, foi vetado na íntegra, o que dificulta a caracterização e a tomada de decisões em relação a estas populações. Outro aspecto fundamental no SNUC é a questão da posse e domínio das terras protegidas pelas unidades de conservação. A presença conjunta de terras de domínio público e privado é permitida em algumas categorias, como as APAs, ARIEs, Monumentos Naturais e Refúgios de Vida Silvestre. Porém, a lei determina que nos Parques Nacionais, Reservas Biológicas, Estações Ecológicas, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas, Reservas de Fauna e Reservas de Desenvolvimento Sustentável, a posse e o domínio da terra deve ser integralmente do Estado. Desta forma, as terras particulares no interior das unidades das categorias citadas acima devem ser desapropriadas. Nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), a posse e o domínio da terra são integralmente particulares, sendo que a criação de unidades nesta categoria de manejo depende da iniciativa dos proprietários. As RPPN’s são relativamente recentes, tendo sua criação se iniciado no início da década de 1990. Segundo os dados do IBAMA39, no ano de 2001 existiam mais de 300 RPPN’s em território nacional, cobrindo uma área de mais de 450.000 ha.

AVALIAÇÃO DE IMPACTOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL Como um dos principais instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) consiste em exame sistemático dos impactos ambientais de uma ação proposta e de suas alternativas locacionais e tecnológicas, proposição de medidas de proteção ao meio ambiente (medidas mitigadoras) e proposição de medidas de compensação de impactos. A Resolução CONAMA nº. 001/86 define impacto ambiental como:
... qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia... que, direta ou indiretamente, afetem: I – a saúde, a segurança e o bem estar da população; II – as atividades sociais e econômicas; III – a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais.

A Lei Federal nº. 6.938/81 (Política Nacional de Meio Ambiente) estabeleceu em seu artigo 10º que a construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades que utilizam recursos ambientais, considerados efetiva e potencialmente poluidores, bem como os capazes de causar degradação ambiental, dependerão de prévio licenciamento. Em seu artigo 225º, a Constituição brasileira de 1988 tornou obrigatória a exigência, na forma da lei, de estudo prévio de impacto ambiental para instalação de obra ou atividade

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Dados compilados do site do IBAMA (www.ibama.gov.br). Consulta efetuada em setembro de 2004.

132 potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. O Artigo 2º da Resolução CONAMA 001/86 condicionou a elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), à aprovação do órgão estadual competente, o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, tais como:
I – estradas de rodagem com 2 (duas) ou mais faixas de rolamento; II – ferrovias III – portos e terminais de minério, petróleo e produtos químicos; IV – aeroportos; V – oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários; VI – linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230 kv; VII – obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos; VIII – extração de combustível fóssil; IX – extração de minério, inclusive os de Classe II (Código de Mineração); X – aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos; XI – usina de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte de energia primária, acima 10 MW; XII – complexos e unidades industriais e agroindustriais; XIII – distritos industriais e Zonas Estritamente Industriais; XIV – exploração econômica de madeira ou lenha (acima de 100 ha.); XV – projetos urbanísticos, acima de 100 ha.; XVI – qualquer atividade que utilizar carvão vegetal (acima de 10 t/dia); XVII – projetos agropecuários que contemplem áreas acima de 1000 ha.

A Resolução CONAMA 237/97 estabeleceu a distribuição de competências no que diz respeito ao licenciamento ambiental. Ficou definido que os empreendimentos e atividades serão licenciados em um único nível de poder público, contemplando a opinião das demais esferas. Cabe à União o licenciamento de empreendimentos e atividades com significativo impacto ambiental de âmbito nacional ou regional. Aos Estados e Distrito Federal cabe o licenciamento de empreendimentos ou atividades nas seguintes condições: a) empreendimentos localizados ou desenvolvidos em mais de um Município; b) em unidades de conservação de domínio estadual; c) nas florestas e demais formas de vegetação natural de preservação permanente, decorrente de normas federais, estaduais ou municipais; d) empreendimentos ou atividades cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites de um ou mais municípios; e) empreendimentos ou atividades delegados pela União ao Estado por instrumento legal ou convênio. Aos municípios foi delegado o licenciamento de empreendimentos ou atividades de impacto ambiental local e daquelas que lhes forem delegadas pelo Estado por instrumento legal ou convênio. É necessária a manifestação do IBAMA quando houver intervenção em área de preservação permanente (APP) e dos órgãos gestores de unidades de conservação, quando houver intervenção nessas áreas, incluindo o entorno de 10 km estabelecido pela Resolução CONAMA 13/90.

133 O processo de licenciamento ambiental é dividido em três fases:  Licença Prévia (LP) - É concedida na fase preliminar do planejamento do empreendimento ou atividade para aprovação da localização e concepção tecnológica, atestando a sua viabilidade ambiental. Possui validade de até 5 anos.  Licença de Instalação (LI) - Autoriza a instalação do empreendimento ou atividade, de acordo com as especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados e condicionantes estabelecidas. Possui validade de até 6 anos.  Licença de Operação (LO) - Autoriza a operação do empreendimento ou atividade, após a verificação do efetivo cumprimento do que consta nas licenças anteriores. Possui validade mínima de 2 anos e máxima de 10 anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise da evolução das políticas ambientais brasileiras permite verificar que houve muitos avanços no que diz respeito ao aumento da capacidade institucional, bem como no que tange à formulação de uma legislação específica para a conservação da natureza e proteção ambiental. Existem atualmente leis específicas para diversos temas atinentes à questão ambiental e seria exaustivo referenciar toda a legislação existente. A instituição do SNUC pela Lei 9.985/2000 marca a tentativa do estabelecimento de uma política integrada para as áreas protegidas em território nacional e a sua regulamentação e aperfeiçoamento contribuirão, significativamente, para a conservação do patrimônio ambiental brasileiro. É importante ressaltar, porém, que a maioria dos órgãos responsáveis pela aplicação da legislação ambiental não dispõem de recursos humanos, técnicos e financeiros suficientes para promover as atividades de fiscalização e controle sobre os danos causados ao meio ambiente. Desta forma, conclui-se que embora exista um amplo aparato legal para a conservação da natureza e defesa do meio ambiente e dos recursos naturais no Brasil, ainda, não há uma estrutura administrativa compatível e a operacionalidade adequada para a sua efetiva aplicação. Quanto ao planejamento da paisagem, é fundamental que se considere, além dos aspectos do meio físico, biológico e antrópico, toda a legislação pertinente, principalmente, no processo de identificação e mapeamento de unidades de paisagem e na análise e elaboração de projetos que prevêem intervenção direta sobre o território.

REFERÊNCIAS BRANDÃO, J.C.L. Aspectos jurídicos das Florestas de Preservação Permanente e das Reservas Legais: Proteção ambiental e propriedade. In: Revista de Direito Ambiental V. 22, Ano 6, abril-junho de 2001, Ed. Revista dos Tribunais, p.114-146, 2001 BRASIL. Lei nº. 4.771/1965 - Institui o Novo Código Florestal Brasileiro.

cria o Sistema Nacional de Meio Ambiente e o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental BRASIL. de 18 de Julho de 2000. p. São Paulo: Instituto Florestal.W. M. R.134 BRASIL. 9.. Cadernos FUNDAP. Curitiba-PR. Constituição da República Federativa do Brasil. Editora Empresa das Artes. 601-611. 1998 MONOSOWSKI. 4º Edição. E. 103 p. 1º. 224. 74 p. Ed. In: Anais do IV Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. P. Comentários sobre a situação das Unidades de Conservação no Brasil. promulgada em 5 de outubro de 1988. p. Código Florestal Brasileiro: dados sobre as últimas atualizações do Código Florestal.. São Paulo. Estações Ecológicas: uma saga de ecologia e de política ambiental. Ed. contradições e conflitos.C. III e VII da Constituição Federal. Políticas ambientais e desenvolvimento no Brasil. institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e dá outras providências. BRITO. 633-645.985. Lei nº.939/1981. Lei nº. Revista dos Tribunais. 2001 MEDEIROS. incisos I. 283 p.. Planejamento e gerenciamento ambiental. In: Revista de Direitos Difusos. J. p.R. 2004 MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. A Política de criação de Áreas Protegidas no Brasil: Evolução.. 1991 . Vol. Institui a Política Nacional de Meio Ambiente. Primeiro Relatório Nacional para a Conservação sobre Diversidade Biológica – Brasil. 1989 NOGUEIRA NETO. Esplanada-ADCOAS. DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA LEGAL (MMA). São Paulo: FAPESP : Editora Annablume. 1988 BRASIL.5 – fevereiro/2001 – Florestas s Unidades de Conservação. Brasília.Intenções e Resultados. 2000 GUILLAUMON. Regulamenta o art.. C. 16(9): 15-24. 230 p. Brasília. Unidades de Conservação . 6. II. 66 p. 2000 MARETTI.

critérios e categorias de gestão. Doutor em Geografia Física / USP. Pesquisador Científico do Instituto Florestal / SMA-SP Geógrafa. b) que fossem estabelecidas para propagação.985/2000. ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas. O presente capítulo analisa a evolução do planejamento de áreas naturais protegidas. proteção e preservação da fauna silvestre e da vegetação nativa. EVOLUÇÃO CONCEITUAL DO PLANEJAMENTO DE SISTEMAS DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO Paralelamente ao movimento de criação de Parques Nacionais. a menos que decidido pelas autoridades legislativas competentes. bem como ao controle e à manutenção destes recursos para utilização futura. e cujos limites não poderiam ser alterados.CAPITULO 8 PLANEJAMENTO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO Humberto Gallo Junior40 Débora Olivato41 As áreas naturais protegidas ou unidades de conservação. considerando-se a base legal pertinente e os avanços trazidos por pesquisas realizadas no meio acadêmico. com a imposição de restrições à ocupação da terra e ao uso dos recursos naturais. à manutenção e melhoria da qualidade ambiental. estabeleceu duas modalidades de categorias de unidades de conservação: Proteção Integral e Uso Sustentável. como são designadas no Brasil. . populações e comunidades em seu habitat natural. critérios e procedimentos utilizados para o planejamento e o manejo adequado destas áreas. onde nenhuma parte poderia estar sujeita a alienação. instituído pela Lei Federal 9. A criação e implementação de áreas protegidas é a forma mais adequada de se proteger ecossistemas naturais e garantir a conservação a longo prazo de espécies. onde foram apresentadas algumas diretrizes para os parques nacionais. Uma das primeiras realizações no âmbito internacional foi a Convenção para Preservação da Fauna e Flora em seu Estado Natural. Mestre em Geografia Física / USP. que são fundamentais para subsidiar o planejamento e manejo das áreas naturais protegidas. Reservas Florestais e outras categorias de proteção em diversos países. normas. são áreas delimitadas. 42 O Sistema Nacional de Unidades de Conservação. ocorreu um processo de estruturação e planificação das áreas protegidas. tem se desenvolvido diversos estudos nas áreas de biologia da conservação. considerados como áreas: a) que fossem controladas pelo poder público. pré- 40 41 Geógrafo. espacialmente. na tentativa de estabelecimento de um sistema internacional com objetivos. apresentando alguns dos principais conceitos. Recentemente. e para a preservação de objetos de interesse estético. conceitos. realizada em Londres em 1933. com foco nas unidades de conservação de proteção integral42. geológico. às quais são atribuídos diversos graus de proteção. visando à conservação da natureza.

e a destruição ou a coleta da flora. com a missão de influenciar e ajudar as sociedades de todo o mundo a conservar a diversidade e a integridade da natureza e assegurar que qualquer utilização dos recursos naturais ocorra de maneira eqüitativa e ecologicamente sustentável. econômica e social. em 1982. educação e comunicação. culturais e recreativos. em 1969. em Durban (África do Sul).136 histórico. foi realizada em Seatle (EUA) a I Conferência Mundial sobre Parques. 2000) Em 1940. geomorfológicos ou estéticos que justificaram o estabelecimento das referidas áreas. foi realizada. da Fauna e das Belezas Cênicas Naturais dos Países da América . direito ambiental. e política ambiental. deveriam ser proibidos. a partir de 1965. Em 1972. (BRITO. em Bali (Indonésia). a Conferência para a Proteção da Flora. em Nova Delhi. arqueológico e outros de interesse científicos. para o benefício e o desfrute do público em geral. educacional e recreativo. e c) que fosse permitida a entrada de visitantes sob condições especiais. a exploração ou a ocupação de toda a área. a UNESCO criou uma categoria de proteção de áreas 43 As outras comissões da UICN estão relacionadas à sobrevivência de espécies. e sítios geomorfológicos e habitats fossem de especial interesse científico. c) onde a caça. . foi criada e instalada a Comissão de Parques Nacionais e Áreas Protegidas (CPNAP) na UIPN. Na 10º Assembléia Geral da UICN. e onde espécies de plantas e animais. os aspectos ecológicos. A UICN é uma organização internacional que reúne organizações governamentais e não governamentais. a CPNAP passou a se chamar Comissão Mundial de Áreas Protegidas (CMAP). o Congresso Mundial de Parques foi realizado em Yellowstone (EUA). em Washington. realizada. efetivamente. pelo fato de os Parques Nacionais serem somente uma das diversas formas atualmente possíveis para as áreas protegidas. (BRITO. exceto sob a direção ou controle das autoridades responsáveis. 2000) No início da década de 1970. e mantivesse. gestão de ecossistemas. termo genérico tradicionalmente utilizado pela UICN.“Convenção Panamericana”. abate ou captura da fauna. d) onde seriam construídas instalações para auxiliar o público em geral a observar a fauna e a flora. em 1992 em Caracas (Venezuela) e em 2002. b) que a mais alta autoridade competente do país tomasse medidas no sentido de prevenir ou eliminar. passou a atuar com a denominação de União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). na medida do possível. Um dos grandes marcos internacionais para as áreas naturais protegidas. Em 1960. Em 1996.43 Em 1962. foi concluído que um Parque Nacional deveria possuir uma área relativamente extensa e respeitar às seguintes condições: a) que um ou mais ecossistemas não estivessem materialmente alterados pela exploração e ocupação humana. para fins educativos. ou contivessem paisagens naturais de grande beleza. foi a criação pela UNESCO da União Internacional para a Proteção da Natureza (UIPN) em 1948 e que. com o objetivo principal de incentivar o comprometimento dos países sul-americanos no processo de criação de áreas naturais protegidas. A CMAP é uma das seis comissões que atualmente integram a IUCN e sua missão é promover o estabelecimento e gestão de uma rede mundial de áreas protegidas terrestres e marinhas. marcando o início de uma série de encontros internacionais para discussão de uma política internacional em relação a essa categoria de proteção.

de acordo com a UICN. de tal sorte que produza o maior benefício sustentado para as gerações atuais. a conservação foi definida como: a gestão da utilização da biosfera pelo ser humano. Zona Primitiva ou Silvestre. a conservação é positiva e compreende a preservação. bem como com a destruição das matas . as principais premissas das Reservas da Biosfera são: O envolvimento dos tomadores de decisão e a população local em projetos de pesquisa. Zonas com Antigas Formas de Cultivo. a manutenção. são a manutenção dos processos ecológicos e dos sistemas vitais essenciais. devido à má utilização e conseqüente perda de solos e intensificação do processo de desertificação. como os Parques Nacionais. Reserva da Biosfera. Portanto. De acordo com a UNESCO (1984). Zona de Interesse Especial. Monumento Natural. Paisagem Protegida. internacionalmente. em 1972. Parque Nacional. o princípio de zoneamento em parques nacionais foi incorporado na 11º Assembléia Geral da UICN. Reserva Manejada. No final da década de 1970. que foi aplicado em muitos países e incluía as seguintes categorias: Reserva Natural Estrita. no qual define prioridades. foram criadas 11 zonas. incorporou a questão da ocupação humana dessas áreas. treinamento e demonstração no campo e a conjunção de disciplinas da área das ciências sociais. Brito (2000) menciona também que. Zona de Interesse Histórico. c) Zonas Protegidas de Interesse Arqueológico ou Histórico: Zona de Interesse Arqueológico. em Banff no Canadá. em 1978. Reserva Antropológica. o que normalmente vinha sendo desconsiderado em outras categorias. para um desenvolvimento sustentado” (UICN. Segundo Brito (op cit). Essa categoria reconhecida. Neste documento. a União Internacional para a Conservação da Natureza publicou o documento intitulado “Estratégia Mundial para a Conservação: A Conservação dos recursos vivos. mas que mantenha sua potencialidade para satisfazer as necessidades e as aspirações das gerações futuras. Área de Uso Múltiplo. a preservação da diversidade genética e o aproveitamento perene das espécies e dos ecossistemas. Reserva de Recursos. que são apresentadas a seguir: a) Zonas Naturais Protegidas: Zona de Proteção Integral Zona de Manejo dos Recursos. também em 1972.137 naturais protegidas denominada Reserva da Biosfera. As finalidades da conservação. sendo ratificadas pelo II Congresso Mundial de Parques Nacionais. a utilização sustentada. biológicas e físicas para o direcionamento de problemas ambientais complexos. e Sítio do Patrimônio Mundial. a UICN demonstrava uma preocupação especial com os sistemas agrícolas. com o objetivo de delimitar áreas nos países membros da ONU para a proteção dos ecossistemas naturais e para a realização de pesquisas científicas. a IUCN aprovou um sistema de áreas protegidas. b) Zonas Antropológicas Protegidas: Zona de Ambiente Natural com Culturas Humanas Autóctones. a restauração e a melhoria do ambiente natural. 1984). estratégias e metodologias para a conservação da natureza em nível global. Na época. realizado em Yellowstone. Na referida Assembléia.

com usos e atividades não conflitantes com as premissas e objetivos da conservação. 1984) / FONTE: UICN (1984) / Organização: GALLO JUNIOR (2002) .1 . FIGURA 8. a UICN apresenta alguns princípios a serem utilizados para a sua delimitação. O referido documento. um dos requisitos considerados prioritários para a conservação da natureza. Também foi sugerida a implementação de um sistema de áreas naturais protegidas como apoio à manutenção da diversidade genética. Em relação à forma e à dimensão espacial das áreas naturais protegidas. em que as espécies são conservadas fora de seu habitat natural. (UICN. sendo suas determinações adotadas em diversos países. Também se reconheceu a necessidade de minorar o efeito de borda sobre a área abarcada pela unidade de conservação. Tal sistema foi designado pela UICN como conservação In situ.Princípios geométricos. propostos para o projeto das reservas naturais. quanto maior for o tamanho da área protegida e quanto maior for o grau de conectividade entre os fragmentos isolados. como pode ser verificado.138 e a degradação dos sistemas costeiros e das massas d’água continentais. Uma outra forma de apoio é a conservação Ex situ. no capítulo destinado ao Meio Ambiente da Constituição de 1988. na Política Nacional de Meio Ambiente de 1981 e no Sistema Nacional de Unidades de Conservação de 2000. serviu de base para as políticas ambientais nacionais. bancos de germoplasma e de embriões. recomendando-se a imposição de gradientes de proteção no seu entorno. por exemplo. em jardins zoológicos e botânicos.1). Esses requisitos influenciaram a formulação das políticas ambientais adotadas em diversos países e inclusive no Brasil. pois as espécies são preservadas em seu ambiente natural. que sugere um conjunto de estratégias internacionais e nacionais. maior será a possibilidade de conservação dos processos ecológicos vitais e da diversidade biológica. Assim. a fim de propiciar melhores condições para a conservação da diversidade genética (Figura 8. procedentes de estudos biogeográficos insulares.

Área protegida manejada principalmente para a conservação de ecossistemas e para fins de recreação: (Parque Nacional). b) falta de respaldo legal dos sistemas existentes. A Comissão de Parques Nacionais e Áreas Protegidas da UICN estabeleceu.  Preservação das espécies e da diversidade genética.  Proteção da vida selvagem. de acuerdo al estado de conservación de los recursos y a los objectivos que se hayan fijado en el país para las áreas protegidas. um sistema de categorias de áreas naturais protegidas.  Proteção dos aspectos naturais e culturais específicos.Área protegida manejada principalmente para a conservação de pai- .  Categoria IV . g) falta de critérios adequados para a seleção de áreas a serem protegidas. Neste trabalho. h) falta de sistemas adequados de classificação da diversidade natural de cada país. metas. d) duplicidade ou insuficiência de categorias de manejo. f) falta de correspondência entre as características das áreas protegidas e os requerimentos das categorias em que foram declarados. sendo definidas as seguintes categorias de manejo:  Categoria I – Área protegida manejada principalmente com fins científicos ou para a proteção da natureza: (Reserva Natural / Área Natural Silvestre). objectivos e características y tipos de manejo muy precisos y especializados y diferentes entre ellas y que al considerarlas y administrarlas como conjunto. e) falta de correlação entre os objetivos primários de conservação e as categorias de manejo existente nos países. logren que el sistema funcione como um sólo ente y además presente la gama de posibilidades de manejo más amplia que sea recomendable.  Categoria V .139 Em 1988. fornecendo uma série de informações.  Categoria III . en forma individual posean definiciones. c) falta de definição dos objetivos de conservação.  Recreação e turismo.Área protegida manejada principalmente para a conservação.Área protegida manejada principalmente para a conservação de características naturais específicas: (Monumento Natural). com intervenção em nível de gestão: (Área de manejo de Habitais / Espécies). em 1994. Moore e Ormazábal (1988) definiram o Sistema Nacional de Áreas Protegidas como: un conjunto coordinado e plenamente armónico de categorias de manejo que. critérios e um roteiro metodológico para o estabelecimento dos sistemas nacionais de áreas protegidas nos países latinoamericanos. CMMC (1994) apresentou um rol com os principais objetivos de manejo a serem implementados pelas diversas categorias de áreas naturais protegidas:  Pesquisa científica.1988).  Uso sustentável de recursos de ecossistemas naturais. A UICN/CPNAP.  Manutenção de atributos culturais tradicionais.  Categoria II .  Educação. Foram elencados por estes autores os principais problemas relacionados ao planejamento dos sistemas nacionais de áreas protegidas: a) falta de estruturação e manejo sistêmico.  Manutenção de serviços do meio ambiente. conceitos. a Oficina Regional da FAO para América Latina e Caribe publicou em parceria com o PNUD o Manual de Planificacion de Sistemas Nacionales de Areas Silvestres Protegidas en America Latina (MOORE e ORMAZÁBAL.

a tendência é que os países definam. existindo um maior reconhecimento dos vínculos entre as populações humanas e o meio ambiente.  fazer com que as áreas protegidas sejam geridas por. teve como tema “Benefícios para além das fronteiras”.  Tem-se desenvolvido medidas para melhorar a efetividade de manejo.  elevar os níveis de gestão e capacitação para que essas metas sejam atingidas. No intuito de demonstrar a importância das áreas protegidas para os programas econômico. Desta forma. o seu Sistema Nacional de Unidades de Conservação.  povos indígenas e as populações locais participam cada vez mais. foram identificados neste evento os principais desafios para as áreas protegidas no século XXI:  mudar o enfoque das áreas protegidas de ilhas para redes.  número de áreas protegidas e a proporção da superfície da Terra que tem a condiO ção de área protegida duplicou desde 1992 e agora abarca mais de 12% da superfície terrestre total.  quantidade de bens naturais e mistos do Patrimônio Mundial aumentou de 101 para A 172. com 19% estritamente protegido no continente Antártico. demonstrando o intuito de ampliar o sistema mundial e fortalecer uma política internacional para as áreas protegidas. Brito (2000) salienta que dentre todas as categorias de áreas naturais protegidas propostas. As em alguns casos. O V Congresso Mundial de Parques.  fazer com que as áreas protegidas se integrem às outras políticas públicas. de acordo com as suas especificidades.Área protegida manejada principalmente para a utilização sustentável dos recursos naturais: (Área Protegida com Recursos Manejados). realizado na Austrália. social e ambiental.  Diversas áreas protegidas têm sido ligadas por redes e corredores ecológicos no marco de grandes iniciativas regionais. Neste evento. para e com as comunidades locais. realizado em Durban (África do Sul) em 2002. Os  Estão se explorando novas formas de governar e se estão redescobrindo formas tradicionais de governar para fins de conservação. os Parques Nacionais e as Reservas da Biosfera são as únicas que possuem uma política internacional delineada.  Está para entrar em vigor o Protocolo de Kyoto. Em 1997 a CMAP organizou um evento denominado “Áreas Protegidas no Século XXI: de ilhas a redes” (Protected Areas in the 21st century: from islands to networks).140 sagens terrestres e marinhas e com fins de recreação: (Paisagem Terrestre e Marinha Protegida).  Categoria VI .  Tem-se estabelecido em diversas partes do mundo planos de ação regionais e nacionais.  Tem-se reconhecido o valor dos conhecimentos tradicionais e outros conhecimentos sobre a conservação. . representam uma contribuição significativa para a paz. observando os princípios estabelecidos pela UICN. foram apontados os seguintes avanços em relação às áreas protegidas:  áreas protegidas se reconhecem como decisivas para a aplicação da Convenção As sobre Diversidade Biológica.  áreas protegidas têm-se conectado com êxito para além das fronteiras nacionais e.

5 % 11.  Ação nacional por parte dos governos nacionais e outros grupos de interesse. órgãos e organizações pertinentes. burocracia da administração pública (a relação hierárquica entre as unidades e entre os órgãos).1 % 8. falta de pessoal para manejo e gerenciamento.4 % 4.  Ação local por meio de administradores com autoridade delegada e da sociedade civil. foram identificados diversos problemas que podem ser considerados como ameaças à integridade das unidades de conservação na América do Sul (Tabela 8.0 % 21.  Ação das autoridades responsáveis pelas áreas protegidas.9 % 16.5 % 10. foi elaborado um plano de ação para as áreas protegidas.6 % 21.2 % 11. o que também pode ser considerado um grande obstáculo ao manejo dessas áreas protegidas. IDENTIFICAÇÃO DE AMEAÇAS À INTEGRIDADE E AO MANEJO DAS ÁREAS NATURAIS PROTEGIDAS No trabalho realizado por Amend e Amend (1995).7 % 2. organismos. Milano (1993) apontou as principais dificuldades enfrentadas para o funcionamento das unidades de conservação no Brasil: falta de regularização fundiária. convênios e tratados. com base na aplicação de questionários e análise de dados secundários.1). que está dividido em quatro categorias (níveis):  Ação internacional em nível intergovernamental por meio das Instituições da Nações Unidas. denominado “Plano de Ação de Durban”. identificou as principais ameaças as unidades de conservação brasileiras (Tabela 8.2). o que compete a todas as autoridades. (1997).141 No V Congresso Mundial de Parques.3 % 16.1 % 6.2 % 12. É possível verificar nesta tabela que em grande parte das unidades de conservação brasileiras não existem informações relativas às ameaças a sua integridade.1 % 5. falta de recursos financeiros ou indisponibilidade de uso dos existentes.1 % 27.1 – Principais problemas enfrentados pelos Parques na América do Sul Tipo de ameaça Extração de recursos Naturais do Parque Falta de pessoal qualificado Conflitos de propriedade de terra Exploração agropecuária Planejamento deficiente do manejo do Parque Ocupação ilegal Limites do Parque inadequados ou mal definidos Falta de controle ou vigilância Queimadas Ocupação ilegal Falta de recursos financeiros Falta de instalações físicas e infra-estrutura Colonização nos arredores do Parque Extração mineral e exploração de petróleo Pressão do turismo Poluição Falta de apoio político e institucional Organização supra-regional Atividades guerrilheiras e narcotráfico Introdução de espécies exóticas Percentual de parques que apresentam o problema (=148) 33. Modificado por Morsello (2001) .8 % 6.7 % Fonte: Amend e Amend (1995). falta de qualificação e treinamento do pessoal existente.8 % 12.6 % 20. Tabela 8.  Ação regional em nível intergovernamental por meio de convênios e outros mecanismos regionais.8 % 10. O trabalho de Queiroz et al.2 % 16.

2 % 6.8 % Sem informação 62. grau de vulnerabilidade. 5 estações ecológicas e 2 parques ecológicos administrados pela Divisão de Reservas e Parques Estaduais (DRPE) do Instituto Florestal e 1 parque estadual administrado pela Fundação Florestal. o uso de defensivos agrícolas e a falta de regularização fundiária. O principal conflito identificado em relação aos objetivos e finalidades das unidades de conservação é a expansão urbana. construção de reservatórios.142 Tabela 8. o desmatamento. a mineração e a extração ilegal de madeira. Também devem ser citadas como ameaças a falta de funcionários dos órgãos responsáveis pela gestão das áreas protegidas. utilizou-se a aplicação de questionários aos gestores das unidades de conservação e oficinas participativas. captação de água. presença de gado. O estudo foi dirigido a 17 parques estaduais.4 % 62.5 % 60. gás natural.7 % 18. Modificado por Morsello (2001) O relatório síntese elaborado pelo IBAMA (1997) apontou as principais ameaças às unidades de conservação brasileiras: caça. 2004). instalação de torres de alta tensão e construção de dutos foram apontados como os problemas mais críticos em relação à implantação de infra-estrutura na área das unidades de conservação.7 % 4. extração de petróleo. a poluição por mineração. a pressão urbana foi considerada . queimadas: comércio de animais silvestres: retirada ilegal de madeira e outros produtos vegetais. que avaliou a efetividade de gestão e manejo das unidades de conservação no estado de São Paulo. o tráfico de animais e vegetais.3 % 42. coleta de ovos de tartaruga.9 % 60. A discussão e análise dos dados focaram temas como a importância biológica e sócioeconômica. apresentando os resultados do trabalho desenvolvido pela WWF-Brasil em parceria com o Instituto Florestal e a Fundação Florestal / SMA-SP. Em relação à tendência de ocorrência de pressões. como a introdução de espécies exóticas.2 % 60. a agricultura.9 % 60.4 % Fonte: Queiroz et al. pesca comercial. o fogo. Recentemente. Com relação aos impactos do uso público. sal-gema e carvão e presença de gasodutos. fragmentação de ecossistemas no entorno das unidades.4 % 18. o turismo desordenado foi indicado como principal vetor de pressão.2 % 63. (1997). tendência e probabilidade de ocorrência de pressões e ameaças sobre as unidades de conservação. turismo mal orientado.6 % 6. Litoral Norte. pressão de grandes núcleos urbanos sobre as unidades. envolvendo as regiões do Vale do Paraíba. o impactos das atividades do entorno. mas também foram identificados outros problemas. Litoral Centro. criticidade.1 % 26. Para o desenvolvimento do trabalho.8 % 51. Também são destacadas a ocupação irregular.4 % 25. garimpo. Litoral Sul. linhas de transmissão de energia. Constatou-se que as principais pressões e ameaças à biota são a caça e a extração ilegal de palmito. invasões. foi publicado o RAPPAM (Implementação da Avaliação Rápida e Priorização do Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Florestal e da Fundação Florestal de São Paulo). considerado o principal vetor de pressão sobre as áreas sob proteção.4 % 20.2 % 61. priorizando a análise integrada do sistema de áreas protegidas (WWF/IF/FF. a pesca. presença de rodovias e transporte fluvial atravessando as unidades. a extração de plantas ornamentais.2 – Principais ameaças às UCs brasileiras Ameaça Caça e pesca Queimadas Garimpagem Mineração Conflito com áreas indígenas Conflitos com população residente Exploração de madeira Pressão de pólo de desenvolvimento Alteração do regime hídrico Estradas Existente 32. Vale do Ribeira e Metropolitana. A construção de estradas. o pastoreio. os conflitos de uso. seguido pela abertura de trilhas e a depredação do patrimônio ambiental.1 % 58.

a caça e a pressão urbana foram indicadas como principais vetores no que se refere à probabilidade de ocorrência de ameaças à integridade dos ecossistemas protegidos. suas entradas e saídas. estando submetidas a diversos tipos de pressão e ameaças. portanto. devem ser considerados os custos de manejo. Para Gee e Johnson (1988) o manejo de ecossistemas envolve: a regulação da estrutura e da função internas do ecossistema. sendo enfocados aspectos relativos às dimensões ecológica. contextualizadas de forma sistêmica. Em relação aos aspectos econômicos. . base legal. tendo como objetivo geral proteger a integridade de ecossistemas nativos ao longo do tempo Morsello (2001) efetuou um amplo levantamento sobre os critérios e parâmetros para a seleção e manejo de áreas protegidas públicas e privadas. Diversos pesquisadores têm se dedicado a estudos para identificação dos impactos das atividades humanas sobre as áreas naturais protegidas e a busca de estratégias de manejo para a resolução dos problemas acarretados aos ecossistemas abrangidos. A extração ilegal de palmito. considerando-se as fases de planejamento. vendas.143 como o maior problema. a construção de estradas. doações etc. entre outros aspectos. implementação e monitoramento. dentro de uma determinada. doenças da fauna silvestres. o que tem gerado um contínuo processo de fragmentação e perda de território. Inclui o espectro usual de atividades de planejamento e manejo. econômica e político-institucional. mas não estática. PLANEJAMENTO E MANEJO DE ECOSSISTEMAS NATURAIS O planejamento e o manejo de ecossistemas são pressupostos fundamentais para que as unidades de conservação consigam atingir seus objetivos e metas. em decorrência do crescimento dos centros urbanos. presença de população e conflitos e questão fundiária. participação da sociedade na gestão da unidade de conservação. recursos de organizações privadas. No que diz respeito aos aspectos ecológicos. Os aspectos político-institucionais dizem respeito à organização interinstitucional e intra-institucional. caça. Verifica-se. concessões. afetando consideravelmente a biota existente. cobrança de ingressos. cobrança de outros serviços e taxas. lucro das atividades no local (autofinanciamento). fundos. em virtude da sua crescente expansão em direção às unidades de conservação. correspondendo ao aporte de recursos financeiros para a manutenção das unidades de conservação. devem ser considerados os fatores que podem influenciar a integridade dos ecossistemas abrangidos pelas unidades de conservação: remoção de fauna. retirada da vegetação etc. para alcançar condições socialmente desejáveis. introdução de espécies exóticas. bem como as diversas possibilidades de fonte de recursos: recursos governamentais. queimadas. participação de ONGs. Grumbine (1994) define o manejo de ecossistemas como: a integração de conhecimentos científicos das interações ecológicas a um complexo sóciopolítico e um quadro e valores. funcionários e capacitação. delimitação geográfica. que as unidades de conservação paulistas apresentam um alto grau de vulnerabilidade. pesca e tráfico de animais.

No entanto. As APAs funcionam muito mais como um instrumento de ordenamento e gestão do território. e ameaças. Por outro lado. características biogeográficas. e não deveriam estar integradas no sistema de unidades de conservação da natureza. . Global Gap Analysis: towards a representative network of protected areas. conhecimentos. principalmente. 44 Sobre a metodologia de análise de lacunas de conservação ver RODRIGUEZ et al. ferrovias. político. 2003. planejamento. A lei federal 9. incluindo a construção de estradas. (2004) desenvolveram um estudo em que constatou-se que de 104 espécies de vertebrados ameaçadas (“espécies-lacuna”) analisados. Cifuentes et al. Foi estipulado um prazo de dois anos para a finalização dos planos e um intervalo de 5 anos para as atualizações subseqüentes. usos legais e ilegais. 2004. Lacunas de conservação e áreas insubstituíveis para vertebrados ameaçados da Mata Atlântica. e PAGLIA A. linhas de transmissão e dutos. In: Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. grande parte das unidades de conservação brasileiras. Curitiba (PR) p. legal. dentre outros aspectos. tanto em nível federal quando estadual. método que visa analisar a efetividade do sistema de áreas protegidas para a conservação das espécies animais e vegetais e identificar as áreas representativas que não possuem unidades de conservação legalmente instituídas. PLANEJAMENTO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL NO BRASIL. Atualmente. ainda não conseguiram elaborar os seus planos. Uma tendência dos estudos relativos a esta temática tem sido a análise de lacunas de conservação44. controlar a gestão e o uso de seus recursos e direcionar o desenvolvimento dos programas de manejo. O estudo aponta a necessidade urgente de ampliação das unidades de conservação no domínio da Mata Atlântica. (2000) desenvolveram uma metodologia para a avaliação da efetividade de manejo das unidades de conservação. 39. em virtude dos diversos tipos de uso e atividades permitidas. Washington DC: Conservation International. Paglia et al.50. estabelecendo uma série de variáveis e sub-variáveis para análise. Utilizando-se desta metodologia. tem sido priorizada a criação de áreas protegidas pertencentes ao grupo de Uso Sustentável. 57 (mais de 50%) não estão protegidas pelo atual sistema de unidades de conservação da Mata Atlântica. No âmbito das ameaças às áreas protegidas. agrupadas de acordo com o âmbito pertinente: administrativo. Áreas de Proteção Ambiental. Advances in Applied Biodiversity Science 5. o avanço dos assentamentos humanos e a implantação de infra-estrutura para desenvolvimento. para a proteção da fauna ameaçada. visto que não há necessidade de desapropriação das terras e nem tampouco grandes investimentos por parte do Estado.985. programas de manejo. determina que todas as unidades de conservação devem elaborar o seu Plano de Manejo. essas áreas protegidas não possuem a mesma efetividade em relação à conservação da natureza que as unidades do grupo de proteção integral. documento que deve guiar o funcionamento da unidade. a maior dificuldade para sanar a questão das lacunas identificadas é viabilizar politicamente a criação de novas unidades de conservação. foram apontados como variáveis fundamentais para análise. No entanto. que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).144 Uma preocupação crescente entre os estudiosos e gestores das unidades de conservação tem sido a busca de critérios e parâmetros para a avaliação da sua efetividade de manejo. Há também uma preocupação crescente com o estabelecimento de critérios e parâmetros para a criação de novas unidades de conservação.

e também deve contemplar os seguintes aspectos:  Descrição das características físicas. Entretanto. que segundo a definição apresentada pela lei do SNUC.  Lista em ordem cronológica das atividades a serem conduzidas para atingir os programas propostos. estratégias. mão-de-obra necessários à sua execução. O Plano de Manejo deve ser flexível.. ou em virtude de situações não abarcadas ou previstas em seu Plano de Manejo. determina o zoneamento de um Parque Nacional. de acordo com suas finalidades. é importante que o referido plano esteja baseado em um processo contínuo. regional e local. dentro do contexto nacional. indicar as formas e os meios necessários para que se atinjam essas metas e as formas de monitoramento e avaliação. bem como os bens. que deve ser efetuadas em um período . também. sociais e culturais da área. com o propósito de proporcionar os meios e as condições para que todos os objetivos da unidade possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz. se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais. Manejo foi definido de forma ampla.145 O Decreto nº.: definição de setores ou zonas em uma unidade de conservação com objetivos de manejo e normas específicos. sua localização.. é a. Além dos Planos de Manejo. realizado por pessoal treinado e com responsabilidade direta pelo manejo da unidade de conservação implantada. o que serviria de subsídio para a revisão e reformulação deste Plano.  Listagem dos materiais. O Plano de Manejo foi definido na lei 9. caracterizando cada uma de suas zonas e propondo seu desenvolvimento físico.017/79. Deve-se. incluindo os custos e o tempo necessário para implantação. utilizando técnicas de planejamento ecológico. Desta forma. ações e atividades necessárias à gestão da unidade de conservação. normas. conforme novas informações sobre a área forem sendo obtidas. a escolha da categoria de manejo da área. com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação. intensidade de uso.  Identificação dos itens que induziram a criação da unidade. interativo e sistemático de planejamento. inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade”. tamanho. 84. equipamentos e materiais necessários à sua implementação. 6º a seguinte definição para o Plano de Manejo: Entende-se por Plano de Manejo o projeto dinâmico que. pois está sujeito a modificações.985 (SNUC) como: documento técnico mediante o qual. entre outros aspectos. todas as modificações devem ser realizadas de maneira a assegurar a continuidade do plano. equipamentos. distribuição de atividades por zona de uso e metas de manejo. biológicas.  Definição e mapeamento dos usos e zonas específicas dentro da área. como “todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas. apresenta em seu art. para ações a curto prazo. Deve estar contido no plano de manejo o zoneamento da área. que regulamentou os Parques Nacionais Brasileiros. sua categorização e os objetivos específicos de manejo. as unidades também podem elaborar Planos de Ações Emergenciais (PAE) e Planos Operativos Anuais (POA). Este processo de planejamento inclui. forma. O Plano de Manejo deve estabelecer as diretrizes.

O primeiro passo é a contextualização da unidade de conservação nos enfoques internacional. envolvendo todos os atores relacionados com a unidade de conservação. Aspectos Institucionais da UC (Pessoal / Infra-estrutura. Sócioeconomia 5. 5.) 7. O roteiro estabelece que o processo de planejamento deve ser contínuo. reuniões técnicas com pesquisadores. Situação Fundiária 6. 2. aspectos culturais e históricos. e c) Proposições.. formação de conselhos consultivos para as unidades de conservação. enchentes.Parque Nacional. e deve ser definido de acordo com suas características físicas. contextualização. deslizamentos. o Plano de Manejo deve envolver a área abrangida pela unidade de conservação. Ocorrências Excepcionais (Fogo. planejamento. equipamentos e serviços / Estrutura organizacional / Recursos financeiros / Cooperação Institucional). buscando avaliar a sua relevância para o sistema de áreas protegidas. Patrimônio Cultural Material e Imaterial 4. b) Diagnóstico (contextualização. Em relação à participação. O zoneamento é um aspecto fundamental para o ordenamento da área abrangida pela unidade de conservação. O IBAMA estabelece dois . de acordo com os objetivos a serem atingidos. visão das comunidades sobre a unidade de conservação. alternativas de desenvolvimento econômico sustentável. 3.146 de 5 anos. a área de entorno ou zona de amortecimento e. Informações gerais sobre a UC (Localização / acesso / origem do nome / histórico de criação). análise regional e analise da unidade de conservação).. projetos específicos. monitoria e avaliação. organizações governamentais e não governamentais. Declaração de Significância. oficinas de planejamento.1 Atividades ou Situações conflitantes 8. 9. Em 2002. Em relação à análise da região em que está inserida a unidade. federal e estadual. Estadual e Municipal pertinente e potencial de apoio à unidade de conservação. realização de reuniões abertas nos municípios. e busca de cooperação institucional. quando for o caso. legislação Federal. os corredores ecológicos. As três abordagens propostas pelo IBAMA envolvem: a) Enquadramento. Os tópicos foram divididos em 6 encartes: 1. Estação Ecológica e Reserva Biológica (IBAMA. 6. são relacionados os seguintes requisitos: 1. gradativo. que é um dos pressupostos fundamentais do roteiro. Para a análise da unidade de conservação. é fundamental que sejam considerados os seguintes aspectos: caracterização ambiental. flexível e participativo. uso e ocupação da terra e problemas ambientais. o IBAMA publicou um roteiro metodológico para a elaboração de planos de manejo nas unidades de proteção integral . características da população. 2. De acordo com o roteiro proposto. análise da unidade de conservação. 2002). Atividades desenvolvidas na UC (Fiscalização / Pesquisa / Educação ambiental / Relações públicas / Divulgação / Visitação) 7. são sugeridas como forma de envolvimento dos diversos atores nas diversas etapas de elaboração do plano: visitas a prefeituras. etc. análise regional. biológicas e antrópicas. 4. 3. Caracterização dos fatores abióticos e bióticos (Geologia / Relevo / Geomorfologia / Solos / Espeleologia / Hidrografia / Hidrologia / Limnologia / Oceanografia / Vegetação / Fauna). também.

utilizou uma metodologia tendo como pressupostos básicos a elaboração participativa e aberta a todos os atores sociais interessados na UC. com as definições legais e os objetivos de manejo.147 tipos de critérios para a definição do zoneamento das unidades de proteção integral:  critérios físicos e mensuráveis. a ocorrência de áreas de transição entre ecossistemas. Cubatão e Santa Virgínia). o litoral paulista e parte do Vale do Paraíba. Picinguaba. como o grau de conservação da vegetação e a variabilidade de ambientes dentro da UC. Parque Estadual da Ilha do Cardoso. com mais de 315. Estação Ecológica do Bananal. Curitiba-PR.234-247. a susceptibilidade ambiental e a existência de sítios arqueológicos e paleontológicos. Vol. Foram realizados Planos de Gestão Ambiental para cinco dos oito núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (São Sebastião.  critérios indicativos das singularidades da UC. a análise dos problemas e vetores de pressão que afetam a área abrangida e a definição de estratégias. compreendendo o levantamento de dados primários e a definição do zoneamento para a unidade de conservação. 45 Sobre a definição da metodologia dos Planos de Manejo do IF ver MARETTI et al .000Km2. p. O Quadro 8. como os valores para a conservação e a vocação de uso da área abrangida. Parque Estadual de Pariquera-Abaixo. 1997 46 O Plano de Manejo do PESM foi aprovado pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) em 19 de setembro de 2006. Estação Ecológica de Chauás. presença de infra-estrutura. podem ser citados como elementos norteadores o potencial para visitação e educação ambiental. a ocorrência de usos conflitantes com os objetivos da UC e a presença de populações no seu interior. No que se refere à vocação de uso. In: Anais do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. um importante avanço na metodologia de elaboração dos Planos de Manejo foi o desenvolvimento dos Planos de Gestão Ambiental. alternativas e ações emergenciais para a sua resolução. a riqueza e/ou diversidade de espécies. Ao longo dos anos de 2005 e 2006 foi elaborado o Plano de Manejo do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM). numa cooperação financeira Alemanha-Brasil por meio do banco Kreditanstalt fur Wiederaufbau (KfW) e do Governo do Estado de São Paulo. A partir de um aprofundamento e maior detalhamento do processo de planejamento. incluindo o Vale do Ribeira. a maior UC de proteção integral do Estado de São Paulo. foram estabelecidas as metas e atividades a serem desenvolvidas em cada programa de manejo.II. A metodologia utilizada para a realização dos Planos de Gestão Ambiental foi desenvolvida no âmbito do Projeto de Preservação da Mata Atlântica (PPMA). O processo de elaboração envolveu o levantamento de informações sobre a unidade de conservação e a região em que está inserida. . Plano de Gestão do Parque Estadual de Intervales e Plano de Manejo Fase I do Parque Estadual Xixová-Japuí. A Construção da Metodologia dos Planos de Gestão Ambiental para Unidades de Conservação em São Paulo. a elaboração em fases.  Dentre os valores para a conservação destacam-se a representatividade. Parque Estadual da Ilhabela.1 aresenta as Zonas estabelecidas pelo IBAMA (2002) para a implantação das unidades de conservação de proteção integral federais e estaduais. abrangendo uma área de cerca de 17. No Estado de São Paulo. e a preocupação com aspectos mais próximos da gestão (administração prática)45.000 hectares de área46. Caraguatatuba.

Estas O objetivo geral do manejo é minorar o impacto da áreas serão escolhidas e controladas de forma a implantação das estruturas ou os efeitos das obras no não conflitarem com seu caráter natural e devem ambiente natural ou cultura da Unidade. oleodutos. Zona Provisória. limitada até 1. será incorporada a uma das zonas permanentes. USO ZONA HISTÓRICOCULTURAL ZONA DE RECUPERAÇÃO ZONA DE ESPECIAL USO ZONA DE USO CONFLITANTE ZONA DE O C U P A Ç Ã O TEMPORÁRIA Esta zona é dedicada à proteção integral de ecossistemas. São ocupadas estabelecendo procedimentos que minimizem os impactos por empreendimentos de utilidade pública. 9. para fins educativos e humanas. metodologia em que são identificadas áreas de amostragem . É aquela constituída por áreas naturais ou alteradas O objetivo geral do manejo é o de facilitar a recreação pelo homem. captação de água. O ambiente é mantido o mais próximo intensiva e educação ambiental em harmonia com o possível do natural. onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas.148 Quadro 8. O objetivo geral do manejo é a preservação do ambiente natural e ao mesmo tempo facilitar as atividades de pesquisa científica e educação ambiental permitindo-se formas primitivas de recreação O objetivo do manejo é a manutenção de um ambiente É aquela constituída em sua maior parte por áreas natural com mínimo impacto humano. manutenção e serviços da UC. sempre que possível. uma vez restaurada. conflitam com os O objetivo de manejo é contemporizar a situação existente. linhas de transmissão. devendo conter: centro de meio. como sobre a UC. introduzidas deverão ser removidas e a restauração deverá será incorporada novamente a uma das Zonas ser natural ou naturalmente induzida.500 há conforme previsto em lei. estudadas. uma vez realocada a população. estabelecidos antes da criação da Unidade. 2º inciso XVIII). É aquela onde tenha ocorrido pequena ou mínima intervenção humana. O objetivo básico do manejo é a preservação. representando o mais alto grau de preservação. sujeitas a alterações definidas no Artigo 9º parágrafo 4º e seus O seu objetivo é o desenvolvimento de pesquisas incisos da Lei do SNUC mediante o desenvolvimento comparativas em áreas preservadas. barragens. superpondo partes da UC. estradas.985/2000. correspondendo ao máximo de três por cento da área total da estação ecológica. uma vez regularizadas as eventuais superposições. cabos óticos e outros. São áreas dentro das UC’s onde ocorrem concentrações de populações humanas residentes e as respectivas áreas de uso. de pesquisas. contendo espécies da flora e da fauna ou fenômenos naturais de grande valor científico. garantindo a evolução natural. que serão preservadas.1 – Zonas Definidas Pelo IBAMA para as Unidades de Conservação de Proteção Integral ZONA ZONA INTANGÍVEL DEFINIÇÃO ZONA PRIMITIVA ZONA DE EXTENSIVO ZONA DE INTENSIVO USO É aquela onde a primitividade da natureza permanece o mais preservada possível. apesar de oferecer naturais. gasodutos. objetivos de conservação da área. Zona provisória. Art. As espécies exóticas antropizadas. não se tolerando quaisquer alterações humanas. cujos usos e finalidades. servindo à pesquisa. oficinas e outros. Constituem-se em espaços localizados dentro de uma UC. Específica para as estações ecológicas. dos recursos genéticos e ao monitoramento ambiental. Esta Zona permite Permanentes uso público somente para a educação É aquela que contêm as áreas necessárias à administração. O objetivo geral do manejo é deter a degradação dos É aquela que contém áreas consideravelmente recursos ou restaurar a área. com o propósito de minorar os impactos negativos sobre a unidade (Lei nº. recreativos. O entorno de uma UC. restauradas e interpretadas para o público. antenas. será incorporada a uma das Zonas Permanentes É aquela que contêm áreas ocupadas por uma ou mais etnias indígenas. educação e uso científico. localizar-se. São áreas subordinadas a um regime especial de regulamentação. outras facilidades e serviços É aquela onde são encontradas amostras do patrimônio histórico-cultural ou arqueoO objetivo geral do manejo é o de proteger sítios históricos paleontológico. visitantes. ou arqueológicos. é constituída por áreas naturais ou alteradas pelo homem. abrangendo habitações. podendo apresentar algumas alterações acesso ao público com facilidade. sujeitas a negociação caso a caso entre a etnia. na periferia da UC. a FUNAI e o IBAMA. museus. OBJETIVOS DO MANEJO ZONA DE SUPERPOSIÇÃO INDÍGENA ZONA DE INTERFERÊNCIA EXPERIMENTAL ZONA DE AMORTECIMENTO FONTE: IBAMA (2002) / Organização: GALLO JUNIOR (2005) O levantamento de dados primários do meio biótico foi realizado por meio de uma avaliação ecológica rápida (AER). em harmonia com o meio ambiente. Zona Provisória.

1992.  Interação sócioambiental: relação com os atores. a forma utilizada pelo Instituto Florestal para as UC do Estado de São Paulo tem sido a formação dos conselhos consultivos para as unidades de conservação.. Uso Público e Operações. Pagani et al. PROGRAMAS DE MANEJO MEIO AMBIENTE USO PúBLICO Recreação Interpretação da natureza Educação Turismo Relações Públicas Extensão OPERAÇÕES 1. P. geomorfologia. EUA: The Nature Conservancy. Os programas de manejo estabelecidos atualmente pelo Instituto Florestal para as unidades de conservação de proteção integral do Estado de São Paulo são os seguintes:  Gestão: administração. Em relação à participação da sociedade.  Visitação pública: educação ambiental e ecoturismo. conservação do patrimônio histórico-cultural. flora).2) Quadro 8. (Quadro 8. uso público (trilhas. (1996) apresentaram uma subdivisão dos programas de manejo em três grandes categorias: Meio Ambiente. risco). ações. da biodiversidade (vegetação. Manejo de Recursos 4. patrimônio histórico e cultural. . Educação Ambiental. conforme estabelece a lei que criou o SNUC. Investigação 3. 2. e Operacionalização. Os conselhos são constitu- 47 Sobre a metodologia de avaliação ecológica rápida ver SOBREVILLA. Edición preliminar.  Comunicação e marketing. infra-estrutura para visitação). regularização fundiária. (1996) 1. do uso da terra. instituições e comunidades no interior e entorno da unidade de conservação. 3.  Proteção: fiscalização e vigilância. fauna. atividades. Evaluacion Ecologica Rapida .un manual para usuários de América Latina y el Caribe. 6.  Pesquisa científica. 3. Fonte: PAGANI et al. Monitoramento 5.  Manejo de recursos: manejo de fauna. Os programas de manejo são estabelecidos de acordo com a categoria de manejo e suas finalidades. 2.231p. 1. VA. Arlington. C.149 para a coleta e análise integrada de dados primários referentes aos diversos grupos biológicos47. BATH. Pesquisa e monitoramento. solos. vetores de pressão. recuperação de áreas degradadas. Para a definição do zoneamento são cruzadas as informações das cartas temáticas realizadas nos diagnósticos do meio físico (geologia. sendo que para cada programa são planejadas as metas. 2. Alternativas de desenvolvimento. Integração externa. investimentos. infra-estrutura. cronogramas e recursos necessários para que se consiga atingir os objetivos de manejo e gestão da unidade de conservação. Proteção Manutenção Administração O Roteiro Metodológico do IBAMA (2002) sugere o enquadramento das ações gerenciais nos seguintes programas temáticos: Proteção/manejo. planejamento.2 – Programas de Manejo das Unidades de Conservação.

K. et al. v. A criação dos Conselhos Consultivos nas Unidades de Conservação de Proteção Integral: Estudo de caso no Estado de São Paulo. além de um conselho gestor para o Parque como um todo.C. 1995 BRITO.48 O Decreto Estadual 49. What is ecosystem management?. M. que é o seu coordenador e por representantes do governo e da sociedade. 1988 AMEND.985.R. e JOHNSON. São Paulo: FAPESP / Editora Annablume. Desta forma. Quito and Gland: UICN and Parques Nacionales Y Conservacion Ambiental. S. considerando-se os princípios da paridade e representatividade.8. (eds) Ecosystems management for parks and wilderness. de 05 de junho de 2005. S. No caso do Parque Estadual da Serra do Mar. critérios e indicadores para o planejamento e manejo das áreas protegidas.W. T. na perspectiva de gestão integrada e participativa. tanto em nível federal quanto estadual. 449-466.In: Anais do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Institutos de Pesquisa. 48 Sobre a metodologia da constituição dos conselhos consultivos ver RAIMUNDO. visando à integração de esforços para a conservação da natureza e para a manutenção da qualidade ambiental. 2000 GRUMBINE. A maior parte das unidades de conservação brasileiras.Intenções e Resultados. R. In: Conservation Biology. instituído no ano de 2000 pela lei federal 9. o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. apresenta um rol de possibilidades de manejo para as áreas legalmente protegidas em território nacional. é fundamental que se alie os conhecimentos oriundos de pesquisas científicas realizadas em Universidades.. J. ainda não possuem planos de manejo ou documentos que especifiquem estratégias de gestão para as áreas abrangidas.1. CONSIDERAÇÕES FINAIS No Brasil. que envolve 23 municípios.E. a fim de implementarem projetos integrados de pesquisa sobre os parâmetros. REFERÊNCIAS AGEE. a idéia é a de implantar conselhos consultivos para os seus oito núcleos administrativos. Em face da carência de recursos humanos e financeiros dos órgãos gestores das áreas protegidas no Brasil.150 ídos pelo diretor da unidade. Seatle and London: University of Washington Press. n. Unidades de Conservação . Balance sheet: Inhabitants in national parks – an unsolvable contradiction? In: National parks without people? The South American experience. p. p. Neste sentido. E AMEND. 230 p . D. ONGs e outras entidades. Grande parte das unidades de conservação estaduais está em fase de criação e estruturação dos seus conselhos consultivos. seria interessante que o meio acadêmico estivesse também evolvido com a execução e implantação dos planos de manejo destas áreas. com o conhecimento empírico dos gestores e demais funcionários das unidades de conservação. 2002 .672. faz-se necessária uma maior aproximação entre os órgãos gestores das unidades de conservação e o meio acadêmico. regulamentou o processo de criação e funcionamento dos Conselhos Consultivos das unidades de conservação de proteção integral do Estado de São Paulo.

Suiza. Parque Nacional – Reserva Biológica – Estação Ecológica. 2002 MARETTI. e ORMAZÁBAL.uicn. p..151 27-38. DF: MMA.L. 2001 PAGANI. Hucitec. Um banco de dados para a Rede de Unidades de Conservação do Brasil. Nature and Resources. 2004 . C. Oficina Regional de la FAO para America Latina y el Caribe. A criação dos Conselhos Consultivos nas Unidades de Proteção Integral: Estudo de caso no Estado de São Paulo. nº 4. 17 p. Curitiba-PR. 234-247. São Paulo: CESP. 137 p. In: http//www.. 2002 UICN. 343 p. A. Seleção e Manejo. Áreas Protegidas: beneficios más allá de las Fronteras. 135 p. São Paulo. 1996 QUEIROZ. H. et al. In: http// www. Paris: UNESCO.org.C.I.org/themes/wcpa/wpc2003. 1984 UICN / CMAP / CMMC. 2003 UNESCO. 2000 UICN. et.. p. Santiago: Proyecto FAO/PNUMA. S. et al. Estratégia Mundial para a Conservação: A Conservação dos recursos vivos. XX. v. la CMAP em acción. A Construção da Metodologia dos Planos de Gestão Ambiental para Unidades de Conservação em São Paulo. São Paulo: Ed.uicn. Brasília.PR. p. In: LEMOS. 261 p. 1984 WWF/IF/FF. M. VHT IUNC World Parks Congress User Guide and Daily Programme. In: Anais do III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. C. 46 p. Áreas Protegidas Públicas e Privadas. Directrices para las Categorias de Manejo de Areas Protegidas.. In: Anais do I Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. As trilhas interpretativas da natureza e o ecoturismo. para um desenvolvimento sustentado. A.. p. (Org) Turismo: impactos Sócio-ambientais. Gland. 223-233. Manual de planificación de sistemas nacionales de areas silvestres protegidas en La America Latina – Metodología y recomendaciones.. 1994 UICN / CMAP.I. 151-163. 901-912. 1988 MORSELLO. São Paulo: FAPESP : Editora Annablume. al. Fortaleza-CE. 1997 RAIMUNDO. 57 p. 1997 MOORE. Gland. et al. RAPPAN: Implementação da Avaliação Rápida e Priorização do Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Florestal e da Fundação Florestal de São Paulo.. 1994 IBAMA. Action Plan for Biosphere Reserves. Curitiba. In: Anais do I Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Roteiro Metodológico de Planejamento.

naturalmente. NOÇÕES BÁSICAS SOBRE PERCEPÇÃO/COGNIÇÃO A superfície da Terra é extremamente variada. Convém lembrar que o que penetra pelos sentidos são os estímulos sensoriais. Nossa responsabilidade é dupla. mas são mais variadas as maneiras como as pessoas percebem e avaliam essa superfície. partindo das noções básicas para melhor compreender e explicar a própria percepção ambiental. Esta é variável de acordo com o aparelho sensorial que estamos usando. nossas palavras-chaves são as seguintes: sensação. governo para o bem comum. atingindo a própria conduta. olfativa. fazer uma varredura geográfica. cognição e representação conceitualmente. e um grande pesquisador. ou melhor. passando pela rural. naturalmente. A porta de entrada. segundo Piaget. mais do ponto de vista geográfico. nos propusemos a tecer algumas considerações sobre percepção ambiental. Aqui. o paladar e o tato-cinestesia. Topofilia (p. Procuraremos levantar questões de percepção ambiental urbana. o olfato. pesquisador e mestre. que consideramos básicas quando tratamos da percepção ambiental. porque Felisberto Cavalheiro foi um grande professor de Biogeografia. Para tanto. As sensações. necessariamente passam pelos fil- 49 Geógrafa e Historiadora.21) Neste capítulo queremos prestar nossas homenagens ao nosso saudoso e tão admirado colega de tantas lutas em prol da paisagem e do meio ambiente: o eminente biogeógrafo. a audição. procuraremos analisar a conduta humana em relação ao meio ambiente. auditiva. chegando às regiões selvagens e tentando vislumbrar as perspectivas para uma percepção ambiental. Cada órgão desempenha uma atividade correspondente: visual. Professora Voluntária Livre-Docente – UNESP-Rio Claro . Yi-fu Tuan. Ao partir da realidade que comporta as possibilidades de ocorrência. A realidade “entra” em nosso mundo interior mediante: a visão. nos propiciando a sensação. É difícil separá-los na prática. 6) Convém. do que ecológico. pois suas investigações procuravam sempre relacionar as pessoas com seu meio ambiente. percepção. atividade perceptiva. estabelecer as definições conceituais sobre as noções. Nossos órgãos sensoriais agem concomitantemente. desde o início. René Dubos: Uma Terra Somente (p. pois suas aulas cobriam uma gama enorme de assuntos ligados ao meio ambiente. Tentaremos.Mesmo um conhecimento casual com uma geografia física e a abundância de formas de vida.CAPITULO 9 PERCEPÇÃO AMBIENTAL lívIa de OlIveIra49 O Homem deve aceitar a responsabilidade de administração da Terra. gustativa e tato-cinestésica. de maneira seletiva e instantânea. o nosso contato com o mundo exterior se dá através dos nossos órgãos sensoriais. a palavra administração implica. por conseguinte. muito nos dizem.

A função intelectual. esta atividade perceptiva está intimamente vinculada à cognitiva.. em seu aspecto dinâmico. a apreensão da realidade sempre envolve múltiplas inter-relações entre ações cognitivas e entre conceitos e compreensão que essas ações expressam. Estas duas compreendem um modo de organização. Cada ato de inteligência presume um tipo de estrutura intelectual e um modo de organização. da necessidade e da motivação. Entre a percepção e a inteligência se interpõe como um continuum em ambas direções. econômicas). é também caracterizado pelos processos invariantes da assimilação e acomodação. Assim sendo. não sendo uma cópia do objeto. sociais. que constituem a cognição. em um determinado momento correspondente à sensação. em nossa percepção. comparações no tempo. com a percepção visual. enfim explorações. a percepção como uma construção empírica que progride por etapas e que jamais se apresenta como uma “leitura da experiência”. a atividade perceptiva. entendemos. Portanto. M. que muitas vezes determinam as tomadas de decisões e nos conduzem às tomadas de consciência. São tão importantes.1). segundo Piaget. Assim. Como exemplo. Piaget reconhece atividades mentais intermediárias e define essa atividade perceptiva como um processo que supõe deslocamentos dos órgãos sensoriais no espaço. A percepção só se dá no córtex cerebral. Figura 9.1 . transforma-os em estímulos visuais que são projetados em duas dimensões na superfície plana da retina e são levados como impulsos nervosos até o ponto da visão. na região occipital do córtex cerebral. engendrando nossa percepção visual em três dimensões. mas. transposições. sim um correlato (Figura 9. Os filtros culturais e individuais são produtos do interesse. e. pois é esta que engendra aquela e a resposta do indivíduo se apresenta como resultado da equilibração entre as suas estruturas internas (biológicas e mentais) e as externas (ambientais. apenas.: CAMILLO. usaremos o da visão.153 tros culturais e individuais para se tornarem percepções. a conduta humana é tão complexa . Enquanto conhecer consiste em construir ou reconstruir o objeto do conhecimento para poder apreender o mecanismo de sua construção. A luz refletida pelos objetos. culturais. inteligência como um sistema de ações e operações que são grupadas em estruturas sucessivas de acordo com um processo e um ritmo genéticos regidos pelas leis de equilíbrio. 2007) Entre a percepção e a inteligência. a imagem mental será considerada como uma imitação interiorizada. Isto se justifica porque em percepção e cognição ambientais trabalhamos quase que.Esquema do Processo Perceptivo Cognitivo (Org. é aí que se recupera a terceira dimensão. antecipações. Por sua vez.

Isto equivale a dizer que subjacente à ação (perceptiva e cognitiva) exercida sobre um determinado espaço se constrói sempre uma noção de espaço e. o que parece é que a maioria dos estudiosos vêm trabalhando mais com a percepção ambiental.154 que não pode ser reduzida a simples termos convencionais. ecológica. intuitivo. homogeneização de valores e de transformação dos símbolos tendendo a se dissolver pela ação avassaladora da industrialização e urbanização modernas. desde arquitetos. histórica. proceder a um parêntese para tecer algumas considerações sobre meio ambiente. PERCEPÇÃO AMBIENTAL Os meios utilizados para atingir os resultados geralmente são mais impressionantes do que os próprios resultados. O que sabemos é que cada profissional atribuirá significados diferentes à percepção ambiental que pesquisará ou empregará em sua investigação. Convém lembrar que tanto a percepção/cognição como a conduta espacial estão na dependência do conhecimento. ou empírica. a adoção de uma teoria que conceitualize o espaço em termos de definição. simbólico. Todas estas observações necessitam ser encaradas diante das tendências contemporâneas de uniformização de atitudes. limitação. São estes termos que determinam a escolha da representação cartográfica do espaço. organização etc. geográfica. economistas. perceptivo. mais ainda. juristas. econômica. biólogos. Os processadores deste sistema não atuam somente em um plano. atingindo um público em geral. O que fica claro nesta obra. pois o sistema homem é alimentado por um tipo de energia tremendamente dinâmico e segundo ritmos e regulações muito sofisticados que é a afetividade. 3) Alguns autores preferem a denominação percepção do meio ambiente. função. Topofilia (p. da atitude. já um clássico. Enquanto conceito difere segundo o estudioso. também. Percepção ambiental. O que importa em se tratando de percepção ambiental é que todos se preocupam com os impactos ambientais que ocorrem no meio ambiente natural ou construído. afetiva. mais compreensivo. educadores até planejadores. Contudo. Necessário se faz. não é de fácil definição. do que propriamente com a percepção do meio ambiente. a noção de impacto ambiental se ampliou consideravelmente. As atitudes. à sutileza de compreensão. ao termo percepção ambiental. independente da percepção. a representação é a capacidade e evocar por um signo ou símbolo o objeto ausente ou a atividade realizada. quer científica. representativo. Cada um atribuindo maior ou menor intensidade ao aspecto abordado. Porém. artística. hierarquização. Yi-fu Tuan. opinião que o indivíduo tenha do espaço. que se está iniciando. ecólogos. . Del Rio e Oliveira (1996) denominaram o seu livro pioneiro de “Percepção Ambiental: a experiência brasileira”. tais como: sensório-motor. todos aplicarão métodos qualitativos. mais vale experienciá-la do que definila. mas sim em vários. é que foram abertas novas perspectivas para uma gama de profissionais e estudiosos. será variada: cultural. quando adjetivamos a percepção restringimos o seu significado. Por outro lado. os valores e os símbolos revelam características espaciais em termos da natureza e da cultura. geógrafos. cada um dando ênfase à sua especialidade. ou. urbanistas. ainda ao modo de expressão. operatório (concreto e formal). e em particular aqueles interessados em meio ambiente. muito mais que quantitativos. sociólogos. psicólogos. Neste século. classificação. A resposta dada à percepção ambiental. pois o primeiro é mais abrangente.

como nos séculos XIX e XX foi a questão social. é experienciada em grupo ou particularizada. ao contrário. O que queremos dar ênfase. muito dinâmico e implica afetividade. pesquisar o meio ambiente deve-se recorrer a uma equipe interdisciplinar. o sentido que se atribui ao termo meio ambiente é tudo e todos que nos rodeiam: o natural e o construído. Suas construções indicavam a organização social. também serão intricadas. Maria Elaine Kohlsdorf. Contudo. um valor. para expressar os laços afetivos que desenvolvemos em relação ao nosso meio ambiente. podendo-se dizer que é transdisciplinar. trata-se. o visível e não visível. direta ou simbolicamente. simbolizavam o orgulho nacional.155 Atualmente. a partir de sua forma física. não estamos preparados tanto política quanto afetivamente para enfrentar as questões referentes às relações entre natureza e sociedade. jardins e palácios e. no fundo. o que amamos e não amamos. usando o neologismo topofilia. do cotidiano e nosso planeta é estático. a capital do território. arquitetônicos para atender as necessidades dos habitantes. nem sempre renovável e inesgotável e não desenvolvemos uma afetividade em relação a ele. Em geral. é tanto o social. pode-se. conseqüentemente. como se colocando acima das vicissitudes biológicas. da cidade foi sempre percebida como uma simbolização cósmica. as respostas. aqui. esperando que o planejamento para o ambiental conte um número necessário de profissionais para se chegar a uma solução satisfatória. suas construções seguiam padrões. o perto e o distante. necessariamente. Em outras palavras. o sacerdote. Ou seja. cada elemento contribuindo para sua esfera. Concordamos com a maioria dos intelectuais que consideram a questão ambiental. rituais.31) A cidade sempre se apresentou aos homens como um ideal. concebido. muito mais do que socioeconômico. PERCEPÇÃO AMBIENTAL URBANA A apreensão dos lugares dá-se. Através da história. revelando um mo- . é que a abordagem perceptiva/cognitiva em relação ao ambiente exige uma plêiade de interessados. de visão de mundo. tranqüilo e imutável. não é correta. os problemas cruciais para o século XXI. conforme diversas abordagens arquitetônicas e geográficas da cidade. o concreto e o abstrato. sim complexo. eram homens livres que viviam intramuros nas urbes. de visão do meio ambiente físico. continuaremos a usá-lo e depredá-lo sem misericórdia e sem fim. eram cidadãos que viviam na cidade. é uma atitude. natural e humanizado. uma posição. como oportunidade de realizações. este ambiente se apresenta de maneira explosiva e inesperada. A nosso ver a questão exige que equacionemos a solução para o problema sob um ponto de vista ético. daí os desenhos geométricos de suas ruas. para nós. as pessoas se aglomeravam em grupos por atividades. A cidade atendia as necessidades simbólicas. Como as indagações são imbricadas. para se estudar. pois o problema não é simples. mesmo. e também nos estudos centrados nos mecanismos cognitivos. A apreensão da forma da cidade (p. comerciais e culturais de um povo. uma avaliação que se faz do nosso ambiente. praças. afirmar que é multidisciplinar. Desde o início. enquanto os servos e camponeses viviam no campo. de uma nação. quanto o religioso. na maioria é sociocultural e parcialmente é individual. A cidade sempre representou o poder. Assim. apesar se ser silencioso e aprazível. Enquanto ignoramos que o meio ambiente é finito. Quanto se trata de percepção ambiental. a idéia de que o meio ambiente é uma paisagem banal. e a percepção ambiental. mas. sempre sediou o rei. o governante.

os distritos comerciais e culturais são partes do todo e não pólos da realidade. Do ponto de vista ambiental. de uma extensão que comporte os equipamentos de recreação. desde sofisticados aparelhos de diversão até uma simples bola. as edificações começaram a se especializar em: oficinas. Aqui os artesões. as periferias. Ao ser fundada uma cidade. de templos religiosos. que cresceram. o uso. e talvez. de acervos de museus. A tendência é perceber em separado e procurar a resolver as questões. insistir na informação básica e na comunicação. assim sendo as favelas. devem considerar a localização. adolescentes e velhos. considerando as dimensões duração e extensão. quando instaladas ostentam-se limpas. os planejadores e urbanistas ao implantarem uma área verde recreacional. a finalidade em relação aos citadinos. de proporções metropolitanas. os bairros residenciais de classes alta e média. Como os indivíduos ou grupos percebem o meio ambiente. o que sonha. Só são lembradas quando. de edifícios públicos. lojas. se divertir.igrejas. arborizadas. que as áreas recreacionais. que sempre foram de seus domínios. acolá os clérigos. perceber e conhecer a cidade como constituída de partes imbricadas e não segmentadas. valorizadas e consideradas. canteiros cheios de mato. não podendo ser enfrentados separadamente. enquanto são usadas. Também. as construções de casas de moradia surgiram e se multiplicaram. Portanto. Precisamos mudar essa maneira de perceber e conhecer a natureza. As cidades modernas são vistas como conglomerados de casas residenciais. também. de playground. elas necessitam de uma concretização no espaço. precisamos reconhecer os direitos da natureza. Em se tratando de percepção ambiental urbana é fundamental prever e organizar áreas recreacionais intra-urbanas. De que maneira este meio ambiente era e é visto pela sociedade. campinhos de futebol ou de basquete. de prédios de trabalho. são locais onde se pode passar o tempo. Lembrar à própria sociedade que a implantação de uma cidade está sobre um relevo. lindas. estas lembranças são esquecidas. lixo espalhado. folgar. As áreas recreacionais têm início e fim. cobrando seus espaços para espraiarem suas águas atingindo as várzeas. ali os comerciantes. palácios. indicando um desleixo generalizado por parte das autoridades e. É preciso planejá-las através do tempo do espaço. A percepção e cognição ambiental precisam ser equacionadas de maneira integrada. Os novos usuários procuram novas áreas de recreação. árvores decepadas. Em geral. pelos usuários. constituído de rochas e sedimentos. sentir prazer ao ar livre. quer denominadas parques de diversão. em cidades grandes. insetos e répteis. desenvolver uma consciência pública e individual. Primeiro fornecer informações dos planos. não são respeitadas as leis da natureza do sítio urbano. O exemplo da metrópole de São Paulo: as várzeas dos . depois saber das necessidades e vontades da comunidade. conduzindo toda a comunidade a reconhecer a topofilia como o elo afetivo fundamental entre as pessoas e os seus lugares. Na realidade. perfeitamente. que abrigava pássaros e animais. o que gosta/não gosta. Aí que entra a percepção ambiental urbana. em geral. mais além os governantes. também. com bancos e canteiros floridos e muito agradáveis Ao correr dos anos se observam: bancos quebrados. Sabe-se. Ao se estabelecerem relações perceptivas e cognitivas com o espaço urbano é preciso considerar os anseios da população: o que quer. áreas verdes. que as águas drenadas eram limpas e potáveis. o que espera do futuro. Especialmente. separadas. se tornaram adultos e se desinteressaram por essas áreas. Os governantes e os planejadores devem partir de baixo para cima. tanto perceptivo como cognitivo. os córregos estouram as tubulações e os rios provocam enchentes. moradores ou visitantes da cidade. não estamos preparados para enfrentar problemas ambientais urbanos de magnitudes metropolitanos. sobre um solo.156 saico urbano. que antes havia uma cobertura vegetal natural. o mais importante formar atitudes e condutas positivas e afetivas para com o meio ambiente. de parques e praças. principalmente por crianças. após as chuvas torrenciais de verão.

que dizem respeito diretamente à percepção e cognição ambientais. . em geral. As características próprias do rural são os campos de cultivo e de criação de animais. são peças de museu e de curiosidade esses implementos agrícolas como a enxada. Essa tendência se repete em todos os bairros. as ruas. do aglomerado das multidões. constituindo um todo inseparável. o preparo das construções. somente em agriculturas primitivas. a grande cidade. São encontrados.157 rios e córregos foram ocupadas indiscriminadamente. o maquinário agrícola. permanece como símbolo cósmico da liberdade individual. os praguicidas. Isso tudo como contraposição aos frágeis arranjos dos sistemas da natureza. cada vez mais moderno. interdependentes. Hoje em dia. cada vez mais utilizado. entremeadas pelos capões residuais de antigas florestas. porém sempre interligados. de outros inúmeros. por sua vez. vários elementos não são visíveis como os adubos. pois a ação humana. No panorama agrícola. Namorando a Terra (p. pois a enxada. Talvez. Este mar verde dos cultivos esconde o mais grave problema ambiental: o uso desregrado dos agrotóxicos. do congestionamento do trânsito. o mais marcante na paisagem rural seja a cor verde das plantações. as estradas vicinais. ainda. imbricados. nem foram preservadas as vegetações ribeirinhas. das experiências estéticas. enchentes. Estes dois aspectos são. do clímax da cultura. nem centrais. a regulamentação do uso da terra etc. mas. PERCEPÇÃO AMBIENTAL RURAL Em quase todos os lugares da Terra. impedidos de perceber que ameaçam. não apenas. da modernidade. constituem a paisagem. as inseminações artificiais. O campo sempre se opôs à cidade. René Dubos. o relevo. o campo necessita de que a cidade consuma seus produtos. o enxadão. escorregamentos de barrancos. do bem-viver. aparecem as questões ambientais como não têm sido consideradas prioritárias. tais como: erosão dos solos (voçorocas) poluição dos rios e dos lençóis freáticos. também não foi respeitado. permitindo o aparecimento de problemas insanáveis. também a nós mesmos. cortam os taludes. constituindo uma paisagem própria. revelando uma falta de percepção e cognição ambientais elementares. o arado. mas intrinsecamente. quando antes eram elementos marcantes nas cenas do campo. Diante disso. a situação do campo. O maquinário agrícola. como resposta à percepção ambiental agrava. não mais como um recurso inesgotável. apenas exemplos. são questões que exigem visibilidade. derrubaram árvores para criar a lavoura e para estabelecer seus povoados. 60-61) O outro lado da moeda da percepção ambiental urbana é a percepção ambiental rural. A cidade necessita das commodities produzidas pelo campo e. não seguindo as curvas de nível. queimadas. a sazonalidade das chuvas. É preciso mudar a maneira de se perceber o meio ambiente rural. bem diferente daquela encontrada na cidade. Acrescentam-se aos outros problemas: a ausência de informação às pessoas sobre o ciclo hidrológico da água. tem marcado a paisagem rural. o arado puxado a animal e o carro de boi vêm desaparecendo. Apesar das questões ambientais relevantes. da violência. as moradias. o meio ambiente. às vezes. que tem sido tão prejudicial para o meio ambiente. quanto para a intoxicação dos trabalhadores rurais. as instalações próprias. pois estamos usando e consumindo o nosso patrimônio ambiental em ritmos absolutamente desastrosos. a foice. desde o Período Neolítico.

principalmente. onde a pessoa experimenta perplexidade e confusão. todos estes exemplos são partes do planeta. às grandes geleiras (do Ártico e do Antártico). que necessariamente vão influenciar em um futuro próximo ou longínquo. uma conotação de repulsa. sementes (transgênicas / comuns). O meio ambiente selvagem só foi percebido e valorizado. cozinhas aparelhadas bem recentemente. PERCEPÇÃO AMBIENTAL DAS REGIÕES SELVAGENS O uso da frase “Namorando a Terra” por Tagore sugere que o relacionamento entre a espécie humana e a natureza devia ser de respeito e de amor e não de domínio. limitados por estradas e caminhos. Talvez. Porém. Os empresários rurais. ainda carrega. estão sempre submetidos a escolhas entre o mais rentável. Todas essas decisões a serem tomadas dependem diretamente das informações disponíveis e obtidas. René Dubos. às ilhas oceânicas (do Pacífico. é a “selva de pedras”. em geral.. fundiárias (latifúndio / minifúndio). acadêmicos. mas como uma busca de um enobrecimento emocional e intelectual. intercalados de vilas e povoados. econômicas (custo / benefício). e frias (do Alasca). de insegurança e de exótico. financiar ou não a safra. pois. entre pessoas cultas que sentiam necessidade de um contato com um ambiente selvagem. inabitáveis. ainda é considerada como hostil e cruel. selvagem define todo e qualquer meio ambiente não tocado pelas atividades humanas. cultivos (lavouras / pastagens). mais produtivo e menos oneroso. dos Andes). a percepção ambiental rural é tão importante quanto a urbana porque nós. maquinárias (avançadas / obsoletas). Namorando a Terra (p. essas escolhas dependem da percepção e da cognição do momento. pois precisam ser decididas rapidamente: o que plantar/criar. luz elétrica. Essas tomadas de decisões são cruciais.158 Como não deixar de destacar as moradias rurais: com as casas dispondo de água encanada. Para os ecólogos e ambientalistas. refúgio do mal e de bruxaria. intrinsecamente. puro. Esta visão surgiu na Europa. o efeito é mais interessante quando ambos os parceiros conservam elementos de sua individualidade. não por amor. além disso. não separamos a paisagem urbana da rural. o campo está sempre subordinado quanto às dependências: climáticas (pouca / muita chuva). em que terrenos/solos. intocado. do Atacama). contanto com conduções próprias (automóveis e caminhonetes modernas e velozes).. Estas constituem um contínuo territorial geográfico e histórico. sem ou pouco contado com o civilizado. 66) O termo selvagem é genérico e é aplicado às regiões virgens. não pelos rurais. aos extensos desertos (do Saara. Com o romantismo. vários cômodos. de seu próprio estado primitivo. às cadeias montanhosas (do Himalaia. Este cenário variado das plantações imensas e dos rebanhos numerosos marcam indelevelmente a cultura do agronegócio. A natureza selvagem foi e. do Índico). comercial. Muitos. banheiros. culturais (modernas / tradicionais). também denominam de selvagem lugares urbanos de conjunto de edifícios amontoados indicando hostilidade e corrupção. A palavra está ligada a lugar natural ou artificial. mas pelos urbanos quando perceberam e constataram uma separação entre o homem e a natureza. o ambiente selvagem tornou-se tema de . As regiões selvagens correspondem às florestas equatoriais (da Amazônia). voltada para a exportação. às áreas pantanosas (da península da Flórida e do interior da Mongólia). Uma fração de dias ou meses. no atraso da decisão compromete toda uma vida de trabalho e dedicação. mercado (alto / baixo). globalizada e. A percepção ambiental da paisagem rural é sempre eivada de pobrezas e de riquezas. Muitas vezes. quer como donos ou trabalhadores.

vêm despertando cada vez mais interesse e exigindo necessidade de preservar os ecossistemas únicos e incomparáveis e de extensões maiores possíveis. ou as piores enchentes no Sudeste? Talvez porque sempre encaramos ou percebemos a natureza. tais como a floresta. Podemos descrevê-lo. que não é rural nem urbano. uma paisagem tranqüila. somos informados pela mídia. agora denominado. poluição dos rios e dos solos). é mais subjetivo do que objetivo. Temos tido poder de destruição (devastação florestal. uma antítese da outra. ainda sentem medo. seus meandros e lutando bravamente contra a poluição e o seu mau uso. A sociedade sempre utilizou os recursos naturais de uma maneira exploradora. nos esquecemos ou não nos apercebemos que a natureza é extremamente dinâmica. Eram locais que gozavam de mistério e encantamento. feitas inteiramente pelo homem. como as da Amazônia. o selvagem é mais um símbolo dos processos naturais ordenados. de literatura. drenagem de mangues. virou moda e a procura de lugares com belos atributos da natureza. no entanto. não temos poder de reconstruir esses biomas. de pintura. as montanhas. que sempre serão renovados. brasileiro. A natureza selvagem provoca sentimentos opostos. não sabemos como redesenhar a nossa biosfera. de onde surge um termo intermédio. é a beleza rude e exótica. nestes 500 anos de história. Lembramos que o poder que temos sobre o meio ambiente não nos permite exercer controle sobre ele. abrigo de animais ferozes e plantas venenosas. Nem sempre o homem comum ou mesmo os administradores relacionam as causas aos efeitos. O mito da natureza inesgotável. A idéia que sempre prevaleceu entre as relações sociedade/natureza é que os biomas conservados representam entraves ao desenvolvimento econômico. ou com estratégias racionais com a exploração dos minerais. contemporaneamente. O exemplo clássico e mais perto de nós mesmos é a nossa ocupação do território. como estática. os pântanos as ilhas isoladas abrigavam os maus espíritos e eram deformidades da superfície terrestre. que os cientistas e eruditos conheceram e perceberam estes fenômenos da natureza como expressão da ordem natural e das diversas obras humanas construídas. a ocupação desordenada do cerrado do Brasil Central e mais recentemente a derrubada da floresta amazônica. suas várzeas. O que dizermos sobre a proposta governamental da transposição do rio São Francisco? Há milênios. as savanas. é mais uma descrição de uma paisagem longínqua. Foi deixada a idéia de que os desertos. na atualidade. somente mais tarde é que foi enriquecida pela ciência.159 conversas. Tudo isso vem acontecendo diante dos nossos olhos. Não conhecemos inteiramente as leis da natureza e queremos interferir nas mesmas. Esta percepção das regiões selvagens. com a intensificação da tecnologia. como aquela natureza virgem. um cenário silencioso. não se preocupando com a reposição vegetal ou animal. As regiões selvagens. muitas pessoas. aprazível. entretanto é muito perigosa. A alteração do mundo natural atende aos propósitos imediatistas e individualistas. Apesar de terem passados séculos. então. de maneira rápida e eficaz. Tanto o campo como a cidade são construções humanas. de difícil conceituação. tanto habitantes das cidades. que se pode destruir e que sempre existirão recursos. experimentam sensações de insegurança quando se defrontam ou adentram lugares selvagens. é mais como um estado de espírito. é um sistema complexo. A ciência investiga a . que não é o campo e nem o seu oposto que é a cidade. Porque assistimos as piores secas. tem sido a tônica durante os milênios da ocupação do homem sobre a Terra. são duas polaridades. é a criação divina em seu estado puro. muito traiçoeira. os rios. como do campo. diariamente. que é o selvagem. Foi. contendo fluxos de matéria e energia e que o homem surgiu apenas há algum tempo sobre a superfície terrestre. A destruição da cobertura florestal representada pela Mata Atlântica. o rio tem esse curso e vem construindo seu talvegue. Reconhecemos que. ao progresso.

a intervenção humana não era significativa. do ponto de vista ético. “O admirável mundo novo” só previu e trabalhou com os controles biológicos. não previu nem se interessou com os climáticos. reverenciar e aceitar. necessitamos de mais pesquisas de campo e de estudos metodológicos. inundações ou calores intensos. A presença humana é sempre um fator preponderamente nas relações sistêmicas com o meio ambiente. as represas e canais artificiais. apenas aumenta o seu poder. estiagens prolongadas. a questão se revela crucial. Talvez.160 natureza. gerando conflitos entre a recreação e o turismo e a preservação e conservação das regiões selvagens. os seres humanos se vêem dependentes das fúrias naturais. mas sim com a verdade científica. premente e prioritária. ciclones. as pontes de madeiras e das de concreto. porém. Para tanto. Necessitamos desenvolver uma tomada de consciência ambiental ao desenvolver uma atitude ética e afetiva em relação ao meio ambiente. mas com o intelecto. mas tem profundas raízes no passado e é quase universal. que entram os estudos de percepção e cognição ambiental. Urge que modifiquemos. quando atingimos um contingente de bilhões e bilhões de habitantes e dispomos de técnicas sofisticadas de rapidez e eficácia para explorar e devastar a natureza. não com simples emoção. avalanches. com a felicidade do homem. Sabemos que o conhecimento científico é neutro. com a esperança de melhoramentos. A ciência não se preocupa. desenvolver sentimentos de afetividade. Desejamos. em relação a outros sistemas de crença e conhecimento. Mesmo. desempenha um papel decisivo em situações globais ou locais. oceânicos ou terrestres. também. Nossas atitudes são ambivalentes. não abordando separadamente o econômico do social. atualizemos e transformemos nossas condutas. Aí. Os ecossistemas naturais distinguem-se das comunidades humanas. porque reconhecemos seus direitos naturais. primordialmente. PERSPECTIVAS PARA UMA PERCEPÇÃO AMBIENTAL A idéia de que podemos manejar a Terra e aperfeiçoar a natureza é provavelmente a expressão máxima da presunção humana. seja necessário e premente equacionar a questão ambiental como um todo. ambos são dependentes das condições ambientais em escalas variadas. tectônicos. como nos caso de maremotos. terremotos. chegando o mais perto possível da realidade. não libertando o Homem. se sentem impotentes para lidar com os aspectos físicos geográficos da natureza. atualmente. é indispensável amar. desprovido de valor. “cativar”. René Dubos. atitudes e valores. será preciso educar as pessoas a perceber e a conhecer o seu meio ambiente com suas fragilidade e seus poderes e. Namorando a Terra (p. os trajetos das rodovias e ferrovias modernas com seus túneis e viadutos. 74) Para que a percepção ambiental ocupe um lugar de destaque dentre as prioridades atuais. quer urbana. Gostar implica respeitar. com seus biomas. Não basta conhecer. Nestas situações. representantes de nosso patrimônio ambiental humanizado como os vinhedos da França. Por isso. por um lado. De outro lado. Porém. gostar da natureza. rural ou selvagem. as fazendas coloniais. os castelos e os arranha-céus. sociais e culturais. preservar e conservar os animais e as plantas selvagens. Enquanto a população mundial fora relativamente pequena e a tecnologia não tinha atingido os atuais patamares de desenvolvimento. . “o mundo novo” seria quase perfeito e equilibrado. não queremos alterações em relação às nossas paisagens históricas. o meio ambiente. essencialmente.

como uma experiência pessoal e coletiva e persistirá entre nós. do idoso. Reco- . podemos nos defrontar com um topocídio de um lugar. relacionadas com a emoção. ou reconstruir do natural. mas necessitamos delas para nossa sobrevivência psicológica e biológica. As perspectivas para uma percepção/cognição ambiental devem incluir. que os códigos sejam acatados e. as lembranças. das estradas conservadas. Hoje. religião. não apenas admiração pelas belezas exóticas e únicas. patrocinando a recuperação de cidades antigas. que a topofilia floresceu entre os homens. desamparo. que aprofundemos nossos conhecimentos em relação ao meio ambiente. também. não é marcante nas paisagens geográficas. a serem preservados para a posteridade. reclama que as leis sejam cumpridas e implementadas. mas. principalmente. quais são os direitos e deveres para com o natural? O que preservar ou conservar. e a favor da habitação e da vida decentes. Quanto aos aspectos ambientais defrontamos com um quadro mais ou menos semelhante aos demais: a percepção e a cognição em relação ao meio ambiente foram auspiciosas. prepara a seu modo as relações ambientais. preservando a diversidade genética da biota. assistimos revoluções e muitas discussões sobre os direitos humanos: direito da mulher. nos interessamos pelo ambiente natural. “incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material”. recentemente. Mas. no segundo quartel do século vinte. recuperar biomas degradados. Quanto aos aspectos políticos assistimos a luta a favor das eleições livres e do combate ao autoritarismo. valoriza certos aspectos. principalmente nos aspectos sanitário e de higiene: a vacinação de crianças e adultos contra várias doenças endêmicas. fome. cada comunidade percebe de uma maneira. da criança. a coleta e tratamento do lixo. trabalhando nessa área. Estes têm sido e deverão ser os direitos e os deveres humanos para com as construções históricas e modernas. A política ambiental deve ser abordada tanto local como mundialmente. há ecólogos. biólogos e outros mais. geógrafos. assistimos a busca de uma topo-reabilitação para paisagens valorizadas e consideradas únicas. Este elo afetivo para com o lugar surgiu concreta e vividamente. por empresas estatais e não estatais. da água potável. do selvagem? Cada sociedade. estamos desenvolvendo um sentimento de afetividade especial para com os animais e plantas selvagens. relativamente se fez pouco: as diferenças de classes sociais e a distribuição de rendas. Exemplo de desaparecimento de vilas e povoados resultantes da inundação de áreas para construir represas. também apresenta o seu reverso: o sentimento topofóbico. localização geográfica. prioriza algumas atitudes. lá e acolá. Este século será marcado pelos direitos naturais. Mais. Organizamos associações governamentais e não governamentais para lutarem contra a discriminação. as interações acontecem aqui e agora. em todas as partes. obras arquitetônicas e formação de profissionais para esse mister. atingimos patamares razoáveis. Ainda. Lembremos sempre que não vivemos em regiões selvagens. Temos tomado consciência de que a natureza exige atenção respeitosa. da energia elétrica. Chegamos até estruturar uma Nações Unidas para congregar as nações e os povos do planeta. estamos tomando consciência da necessidade da preservação. estudando. Diríamos. como Tuan. às ditaduras sangrentas e indiscriminadas. Quanto aos aspectos socioeconômicos. ambientalistas. Permanecem os ricos e abastados de um lado e os pobres e subdesenvolvidos de outro. pois. o combate de endemias (malária. pesquisando. os transplantes de órgão vitais. em geral. desnutrição). pois nos despertamos para a natureza. Muitas pessoas desenvolvem uma topofobia em relação a certos lugares. edifícios. das minorias raciais e religiosos.161 Nos últimos dois séculos do milênio anterior. conservação e recuperação ambiental. hoje vivemos em uma “aldeia global”. a recuperação de bacias hidrográficas. Não devemos nos esquecer que o despertar de sentimento topofílico. pobreza. Em grande parte. os acontecimentos e sentem verdadeiras fobias por alguns lugares e espaços. independente de etnia. da alimentação básica para todos.

além das econômicas e ecológicas. em seu livro “Um Deus Interior”: Muitas vezes é difícil manter a fé no destino do Homem. Um Deus Interior. R. São Paulo: Melhoramentos e EDUSP. Percepção ambiental. TUAN. 1996. para preservar e conservar paisagens geográficas e históricas. Uma Terra Somente. DUBOS. Brasilia: Editora UnB. J. 1973. Rio de Janeiro: Forense-Universitária.M. Termino com as palavras de René Dubos. Y. para uma afetividade positiva para com o nosso planeta. com a natureza intocada. DUBOS. 1976. São Paulo: Melhoramentos e EDUSP. O nosso contato com o selvagem.E. OLIVEIRA. São razões estéticas e morais. DEL RIO. atingindo a “corte amorosa da Terra”. O pensamento de Jean Piaget. para uma ética em relação ao manejo da Terra. KOHLSDORF. M. PIAGET. mas é certamente uma atitude covarde desesperar dos fatos (p. a experiência brasileira. Quem não aprecia os vídeos e os filmes sobre as regiões selvagens? Quem não sonha em participar de um safári fotográfico no Pantanal ou nas savanas africanas. R. é imprescindível para manter nosso equilíbrio e harmonia com o meio ambiente como todo. 1975. São Paulo: DIFEL. apesar de indireta e passageira. V. Seis Estudos de Psicologia. São Paulo: Studio Nobel. . Topofilia. B. através da mídia.162 nhecemos que a nossa experiência com o selvagem. temos tido. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. corais e algas? Por tudo isso e talvez muito mais é preciso passar da visão utópica para a ação efetiva. 1980. para “ver” os animais e principalmente as aves coloridas? Quem não fantasia uma viagem submarina para descortinar o fundo do mar e seus misteriosos peixes. A.. 1973. 1996. 234) REFERÊNCIAS BALTRO. A apreensão da forma da cidade. L. WARD. indiretamente.

graves problemas ambientais também se processaram. Na verdade. bem como perante a ele próprio. porém. analista ambiental SEMA-MG . inclui dimensões ecológicas. o aproveitamento sustentável dos nossos recursos e o reconhecimento dos direitos dos cidadãos a um ambiente saudável. a necessidade de procurarmos compreender tanto os dinâmicos processos da natureza como as relações que o homem estabelece. a formação de uma consciência ecológica e uma nova postura ética do homem perante a natureza. ainda é possível o resgate de uma relação outrora equilibrada entre o homem e a natureza. 50 51 Geógrafa (UNESP). Concomitantemente a essa grandeza tecnológica. O que adquire certo grau de modernidade são as discussões realizadas por inúmeros especialistas a respeito dos problemas ambientais. A articulação de seus conceitos.CAPITULO 10 EDUCAÇÃO PARA O MEIO AMBIENTE E GEOGRAFIA Marlene T. Ao analisar-se tal paradoxo. A interferência nessa dinâmica. Isso impulsiona a participação de setores da população nos debates e movimentos relacionados à problemática ambiental. Tendo em vista tal preocupação. Tem-se colocado. políticas e econômicas da realidade e a construção de uma sociedade baseada em princípios éticos e de solidariedade. Com uma mudança de mentalidade em relação ao uso dos recursos naturais ainda disponíveis. sociais. também. históricas. propondo uma série de questões relacionadas com as diversas formas de degradação do meio ambiente. reorganização dos valores sociais em benefício de todos e vontade política. o que antes não ocorria. a Educação Ambiental passa a ser um dos eixos fundamentais para impulsionar os processos de prevenção da deterioração ambiental. no tempo e espaço com o meio natural. cada vez mais. Tal processo educacional deve visar à melhoria da qualidade de vida e à preservação do planeta para as gerações futuras. foi no século XX que o acúmulo de saber e poder mais se acentuou. esta não é a conclusão correta. Segundo Oliveira (1998). como por exemplo: poluição de recursos hídricos. contudo. pode-se pensar que o planeta se tornou inviável. Faz-se. muitas vezes catastróficas. métodos. a Educação Ambiental implica uma nova concepção do papel da própria escola. considerando-se a grande revolução dos meios de informação trazida pelas novas tecnologias. fome nas grandes concentrações urbanas. de Muno Colesanti50 Gelze Serrat de Souza Campos Rodrigues51 A degradação das condições ambientais não é um fenômeno novo. culturais. têm suscitado preocupações sobre a possibilidade de vida futura no planeta. Doutora (IG-UFU). Instituto de Geografia -UFU Geógrafa (DG-FFLCH-USP). portanto. muitas vezes operada de forma irreversível e as conseqüências dessas atitudes. necessário que se instrua o homem sobre os processos dinâmicos da natureza e as conseqüências advindas de suas ações e destas para a vida na Terra. Para que isso ocorra é necessário. miséria. Professora Doutora. estratégias e objetivos é complexa e ambiciosa.

após a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. O homem havia conquistado. de forma esparsa. aumentando. Adquiria-se a autoconsciência da possibilidade de destruição completa do planeta. propicia benefícios. ações e pesquisas se sucederam em diversos países. Desde meados da década de 1940. foram formulados vinte e três princípios. o azul do céu transformou-se subitamente em um clarão ofuscante. dispensando-se a devida atenção ao setor das populações menos privilegiadas e aos empresários. mas. atendendo à necessidade de se estabelecer uma visão global comum que servisse de orientação para a preservação e melhoria do meio ambiente. Rachel Carson publica “Primavera Silenciosa”. o pacifismo eram apenas algumas das muitas bandeiras empunhadas por aqueles que começavam a ser chamados de “ecologistas”. com a finalidade de conter o ritmo da devastação ambiental mundial. somente. que tais preocupações começaram a ganhar consistência. Em julho desse ano. por outro traz inúmeras desvantagens. se por um lado. Dois meses depois. indiscriminadamente.164 CONTEXTUALIZANDO . No começo dos anos setenta. dentre os quais um relacionado à Educação Ambiental. com a finalidade de assentarem-se as bases de uma opinião pública bem informada e de uma conduta responsá- . interferindo na hidrodinâmica dos corpos d’água e no uso dos mananciais para consumo de água pelas mesmas populações. em todo mundo. A equipe científica liderada pelo físico Oppnheimer explodia experimentalmente a primeira bomba H. Essa obra tornou-se um clássico do ambientalismo contemporâneo. no deserto de Los Alamos. A proteção da natureza. Nessa Conferência. nas florestas tropicais. já que a necessidade de ampliar as atividades para atender a demanda da população faz com que novas terras tenham que ser preparadas para o plantio. apesar de muitos países não atentarem para a relevância da equação do problema desenvolvimento versus conservação do meio ambiente. Em 1962. a partir de então. já se fazia sentir em todo o mundo preocupações com o meio ambiente. em Estocolmo. já se fazem sentir. lançados no ar. preocupações com o Meio Ambiente. o poder de destruição total de si próprio e de todas as demais espécies sobre a face da Terra. Após o dia 06 de agosto de 1945. seriam jogadas as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Estados Unidos. e causando a destruição da coleção de biodiversidade existente. A expansão da agricultura também estimula investimentos maciços na irrigação que. a expansão das atividades industriais aumenta a poluição das cidades com o excesso de poluentes. Problemas ambientais têm ocorrido decorrentes do aumento populacional. segundo o qual torna-se indispensável o trabalho de educação para o meio ambiente para combater a crise ambiental. água e solo. Associadamente. portanto. Assim. o não consumo. os desmatamentos. mas ao mesmo tempo as primeiras sementes do ambientalismo contemporâneo eram plantadas. Warster (1985) identifica como marco simbólico do início da ecologização das sociedades ocidentais o ano de 1945. a autonomia. realizada em 1972. A crise ambiental enfrentada era totalmente diferente do que havia ocorrido até então. principalmente. Essa proposta visava tanto aos jovens como aos adultos. já que os danos tomavam uma escala mundial e a Terra começava a correr grande perigo.. A ocorrência desse conjunto de situações despertou o homem para a necessidade de conter o avanço dos impactos ambientais. relatando os problemas dos pesticidas na agricultura e mostrando o desaparecimento das espécies. Novo México. causados por suas atividades e para adotar métodos racionais de manejo do ambiente.. o mundo não seria mais o mesmo.

em 1973. para tratar especificamente de Educação e preparar para a Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental. a participação responsável e eficaz da população na concepção e aplicação das decisões que colocam em jogo a qualidade do meio ambiente. destinatários e princípios de orientação para os programas de Educação Ambiental. com a participação de representantes de 60 países. a qual define metas. Fala sobre a necessidade do estabelecimento de um padrão geral para a Educação Ambiental. favorecendo. poderiam ordenar e controlar o meio ambiente. Do final de 1976 a setembro de 1977. então.938/81. o público em geral. sendo necessário. também. O documento afirma. estabeleceu como parte de suas atribuições o desenvolvimento de programas que visassem ao esclarecimento sobre o conceito de meio ambiente e à educação do povo no tocante ao uso adequado dos recursos naturais. deveriam levar em conta. aptidões e motivação que favorecessem a consciência do meio ambiente e o interesse por ele e por seus problemas conexos. com a criação. ainda. para o gozo constante de seu melhoramento. o Seminário Internacional de Educação Ambiental. Preconizava. A Educação Ambiental passaria. portanto. o cidadão comum que vive nas zonas urbanas e rurais. América Latina e Caribe. da adoção de medidas a fim de se formular um programa internacional de educação sobre o meio. realizada em outubro de 1977. realizou-se em Belgrado. o que favorece a existência de comportamentos responsáveis frente ao meio ambiente. Durante o evento foi redigida a carta de Belgrado. visando à melhor capacidade da Terra de produzir recursos vitais renováveis. da organização social. Em 1975. objetivos. Tal esforço seria fruto do trabalho. especialmente. a Educação Ambiental também foi contemplada pela Lei nº 6. Nessa Conferência foram elaboradas orientações gerais sobre Educação Ambiental para os países participantes e membros da UNESCO organizarem e desenvolverem os seus próprios programas. deveria ter como principal preocupação a melhoria do nível de vida de todos os habitantes do planeta. já que é necessário que as pessoas de diferentes idades e meios compreendam as relações fundamentais que vinculam o homem a seu padrão de vida. Ásia. num quadro de desenvolvimento planejado. da Secretaria Especial do Meio Ambiente. também. No Brasil. a intenção de se atingir todos os níveis de ensino. Europa e Estados Árabes. dedicando-se a preservar e a consolidar os equilíbrios essenciais para um melhoramento constante das condições de vida. da tecnologia e.165 vel. URSS. da utilização racional dos recursos naturais. que as soluções para os problemas do meio ambiente não são possíveis sem uma mudança no ensino geral e especializado em todos os níveis. que todos os países empreendessem ações corretivas. nacional e internacional. A tônica do documento produzido nessa Conferência é a de que toda ação política. as quais. em nível nacional e internacional. visando à sua conservação. de enfoque interdisciplinar e com caráter formal e informal. Esta finalidade implicaria no esforço para o desenvolvimento sem o qual não seria possível colocar à disposição dos homens os bens necessários que dão dignidade à sua existência. foram realizadas reuniões regionais na África. os diversos aspectos da vida social em suas inter-relações com o meio biofísico. Em 1981. a necessidade da universalização de uma ética mais humana que induzisse a adoção de atitudes e comportamentos consoantes com o lugar ocupado dentro da biosfera. a qual estabelece que a Educação Ambiental . o que promoveria a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda a sua dimensão humana. que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente. em todos os níveis. Estabelece. Previa-se que tal ação levaria tanto os jovens como os adultos a tomarem medidas protetoras. o governo brasileiro. a ter como meta principal proporcionar um processo de construção de conhecimentos. que de acordo com suas possibilidades. ainda. Tbilise. os jovens e adultos indistintamente.

Para tanto. Assim. os Parâmetros Curriculares Nacionais consolidaram a posição do Conselho Federal de Educação dispondo a Educação Ambiental como tema transversal. durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD/UNCED). como objetivo.166 de ser trabalhada em todos os níveis de ensino. especialmente o cidadão comum que vive tanto nas zonas urbanas quanto rurais. influi de maneira mais intensa sobre o meio ambiente e a conseqüência disso são problemas que hoje enfrentam os países mais desenvolvidos. a qual reafirma o seu papel na consolidação da sustentabilidade e. visando à qualificação de recursos humanos. as iniciativas de Educação Ambiental no Brasil expandiram-se significativamente. Da mesma forma. atingindo todos os níveis de ensino. a Constituição “Cidadã” de 1988 considera no artigo 225. Secretarias Estaduais e Municipais também estão tomando a iniciativa de elaborar material didático e de oferecer cursos. aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina. em um quadro de desenvolvimento planejado. as quais. a Lei 9. As soluções para os problemas do meio ambiente não serão possíveis sem uma mudança no ensino geral e especializado. para professores e técnicos preocupados com a questão ambiental. É necessário que pessoas de diferentes idades e meios compreendam as relações fundamentais que vinculam o homem ao modo de vida. o que indica o seu pleno reconhecimento político. denominada de RIO92. o desenvolvimento. inclusive o público em geral.795 foi promulgada. parágrafo 1º que a “Educação Ambiental deve ser promovida em todos os níveis de ensino. de modo a se adquirir uma perspectiva global para a Educação Ambiental. Ainda nos anos 90. documento elaborado pela sociedade civil e que expressa o entendimento da Educação Ambiental como um processo dinâmico em permanente construção. algumas Universidades têm realizado cursos de pós-graduação. Tendo quase sempre. com a participação do MEC. em todos os níveis.” Em 1992. orientada por valores direcionados à transformação social. realizada no Rio de Janeiro. uma problemática local e imediata. os diversos aspectos da vida social com suas inter-relações com o meio biofísico e dedicar-se a preservar e consolidar os equilíbrios essenciais para um melhoramento constante das condições de vida. A proposição de atividades que levem o ser humano a compreender a natureza com- . em nível nacional e internacional. a Carta Brasileira para Educação Ambiental. EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO: DESAFIOS A Educação Ambiental implica um esforço para o desenvolvimento. favorecendo a existência de condutas responsáveis em relação ao meio ambiente. tanto formal quanto informal. o que talvez sejam indicadores de um futuro mais promissor para a Educação Ambiental brasileira. inclusive na comunidade em geral. como instrumento para a conservação do planeta e para o alcance de uma melhor qualidade de vida. Ao mesmo tempo também foi produzida. foi criado o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. embora nem sempre de forma sistemática. É imprescindível aplicar-se o enfoque interdisciplinar. instituindo a Política Nacional de Educação Ambiental. após anos de lutas dos ambientalistas. sem o qual não seria possível colocar à disposição dos homens os bens necessários que dão dignidade à sua existência. compondo uma parte diversificada e flexibilizada do currículo escolar. mediante o progresso da ciência e da tecnologia. E. apesar dos inúmeros problemas ainda existentes para a sua real concretização. portanto. em parceria com as Universidades. deverão levar em conta. em 27 de abril de 1999. No Ensino Superior. todos os países devem empreender ações integradas. também.

refletida e questionada. acima de tudo. solidificando. as interdependências econômicas. resultante da interação de seus aspectos biológicos. assim. grande parte das vezes. Os geógrafos. políticas e ecológicas do mundo moderno e o fato de que muitas decisões e condutas em um determinado país. profundamente. sem reparar nas mudanças que vão ocorrendo. . em todos os níveis. O que diferencia a abordagem dada pela Geografia é a horizontalidade e. são uma atividade a ser utilizada em Educação Ambiental e que resultam em um grande avanço no processo de desenvolvimento do comprometimento dos alunos em relação à conservação do meio ambiente. por exemplo. flora. apesar do espaço também ser trabalhado por outras disciplinas. presentes e futuras. podem ter conseqüências de alcance mundial. fatos. analisar as relações dos componentes do meio ambiente. muitas vezes percebida em sua aparência. garantindo. eles podem ser realizados em diversos locais como. têm a mesma tarefa que os professores de outras disciplinas. Nesse sentido. EDUCAÇÃO AMBIENTAL E GEOGRAFIA A contribuição da Geografia para a Educação para o Meio Ambiente e Desenvolvimento constitui-se na visão de espaço em seu todo. auxiliam na desmistificação da noção de ambiente como algo restrito à fauna. a interdisciplinaridade. a diversidade de escalas em que os eventos e processos podem ser tratados e. em um centro de pesquisa. sociais e culturais. fenômenos e pessoas. físicos. O ambiente passa. Trabalhar com Educação Ambiental requer uma série de investigações e a contribuição de cada disciplina científica deve estar restrita a sua área de competência. relacionar. sendo pouco conhecida. favorecer. no laboratório de uma indústria. desapercebido. de assegurar que o esquema de estudo seja coerente e apropriado à capacidade e habilidade do grupo. no espaço e no tempo. O trabalho de campo incrementa a observação mais profunda da situação ambiental. corpos d’água. caros aos geógrafos e professores de geografia. de modo a favorecer a utilização mais reflexiva. além de propiciar o estudo da conexão dos elementos ambientais e dos efeitos da ação antrópica sobre o meio. pois nos acostumamos a olhar e a conviver com as mesmas coisas. vem sendo usada em estudos geográficos. especialmente. assim. com clareza. sistematizada. uma participação responsável e eficaz da população nas decisões que colocam em jogo a qualidade do meio ambiente. a visão sistêmica que. Como os trabalhos de campo se constituem atividades fora do contexto de sala de aula. também. frisando-se a importância dos trabalhos práticos. Deve mostrar. para que as pessoas possam entender as leis que regem este planeta e passem a adquirir um certo respeito e um sentimento afetivo em relação ao meio ambiente. segundo Kopkinson (1973). a Educação Ambiental desempenha função importante para a formação de uma atitude democrática de responsabilidade e solidariedade entre as pessoas. em espaços abertos e até mesmo na própria escola. Nesse processo. a conservação e preservação do meio ambiente. A Educação Ambiental deve. cada vez mais.167 plexa do meio ambiente. localizar. às margens de um rio. facilita o entendimento da interdependência dos diversos componentes do meio ambiente. trabalhos de campos e mapeamentos. Essa prática. os estudos de campo. dos recursos para a satisfação de suas necessidades materiais e espirituais. Dessa forma. principalmente. e mais prudente. dando ênfase à importância dos fatores culturais que influenciam a percepção do meio ambiente e às possibilidades de uso desses recursos. a Geografia poderá lançar mão de seus métodos de ensino: descrever.

um compromisso com o desenvolvimento e com a utilização de todas as situações em que a aprendizagem possa ser nutrida através de experiências. geográficos. da compreensão de valores alternativos e pessoais e da real operação dos . auxilia o desenvolvimento dos processos de raciocínio do aluno. por meio de projetos. simulações e jogos que proporcionem oportunidades de examinar e participar das complexidades da tomada de decisões. realização de diagnósticos. culturais e educacionais. incluindo exemplos dos problemas ambientais locais. a vivência inábil de meras situações de levantamento de problemas. relacionado às questões de Educação Ambiental. Isto significa pensar o meio ambiente em seus múltiplos aspectos: ecológicos. econômicos. mas desenvolver um sentimento intuitivo para o comportamento dinâmico deste mesmo sistema como um todo. da compreensão de valores alternativos e da real operação dos sistemas naturais pelo homem. assim. bem como estudos de caso. dramatizações. global e integrado. integrando todas as disciplinas da grade escolar nas escolas de Ensino Infantil. Fundamental e Médio. bem como na relação deste com o mundo natural. chegar-se a uma solução para convencermos as pessoas de que a Terra é. pensar não só racionalmente sobre as partes de um sistema complexo. evitando. especialmente.168 O ensino e a pesquisa em Geografia. e continuará sendo. a Educação Ambiental envolve o desenvolvimento de processos afetivos. As abordagens sobre meio ambiente devem ser feitas em seu sentido amplo. delimitação de áreas. em tempo e lugar variados. Do mesmo modo. a morada do Homem. através de exemplos dos problemas ambientais locais. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Educação Ambiental não deve ser uma disciplina isolada. faz-se necessário que a nossa atuação seja mais ousada e efetiva. que proporcionem oportunidades de examinar e participar das complexidades de tomada de decisões. históricos. nos quais os assuntos sobre meio ambiente tenham um enfoque holístico. requerem um compromisso com a utilização e desenvolvimento de todas as situações que possam ser nutridas através de experiências e atividades que cultivem um profundo respeito e amor pelo mundo. considerando os vários ângulos e implicações de um mesmo problema. considerando a totalidade de ações e concepções produzidas pelos indivíduos e pelos diversos grupos humanos. políticos. é necessário que as pessoas reexaminem os seus valores e alterem suas atitudes. organização de comissões sem. no entanto. da mesma forma. O processo de ensino-aprendizagem de Educação Ambiental implica que se deve aprender a pensar em termos de sistemas de fatores que interagem. Este conhecimento deve traduzir-se em atitudes e atividades favoráveis à conservação e melhoria do meio ambiente já que para a assunção da ética sustentável de vida. estudos de caso. cognitivos e de habilidades. o que pode ser eficiente na solução de problemas ambientais complexos. A Educação Ambiental deve permear todas as disciplinas que compõem o currículo escolar e percolar todos os conteúdos. Neste início de século. Precisamos criticar. na exploração do ego. Deve ser tratada de forma interdisciplinar. para o desenvolvimento de atitudes e valores que motivam as pessoas a se envolverem com a solução de problemas ambientais. ou seja. mas sempre que possível. Requer. e atividades que cultivam um profundo respeito e amor pelo mundo natural. Ligando consciência e construção de conceitos básicos ecológico-ambientais. propormos soluções.

1999. REFERÊNCIAS BRASIL. e não apenas sobre as partes do todo. E. GUIMARÃES. avaliando continuamente o presente. Programa Nacional de Educação Ambiental – ProNEA: documento básico. 2004 CARVALHO. implica. 2004. finalmente. M. 1999. Brasília: Ministério da Educação. Cortez. julho/2000. e. ALOÍSIO (org. Além disso. VIANNA. durante a permanência de uma criança ou adolescente na escola. de modo que possa estabelecer a relação teoria-prática e. Abordagens Múltiplas. assim. L. BRASIL. Deve enfatizar a participação ativa na prevenção e solução de problemas ambientais. 2002. de modo a trabalhar seus conteúdos e princípios. propicie-se a sua participação. SP. com alguma freqüência e profundidade. São Paulo: SENAC. é de suma importância que.). Brasília: IBAMA. Porto Alegre: Artmed. implica em desenvolver um sentimento afetivo para a dinâmica desse sistema. Textos da Série Educação Ambiental do Programa Salto para o Futuro. história. Educação Ambiental: as grandes orientações da Conferência de Tbilisi. em enfatizar a participação ativa de todos na prevenção e solução de problemas ambientais. ser capaz de tomar decisões fundamentadas em bases sólidas de conhecimentos a respeito de um determinado problema. em atividades práticas relacionadas ao meio ambiente. A dimensão ambiental na educação. I. M. formação de professores. C. C. Educação Ambiental. 1997. ONU. Política Nacional de Educação Ambiental. preservação. LEFF. Deve-se ressaltar que essas proposições só serão alcançadas se os professores estiverem preparados para a Educação Ambiental. Campinas: Papirus. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico.169 sistemas naturais feitos pelo homem. . Saber Ambiental. 2002. visando à defesa. conservação e utilização do meio. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. Política Nacional de Educação Ambiental. Brasília: Ministério da Educação e Cultura. Política Nacional de Educação Ambiental e Construção da Cidadania: desafios contemporâneos. In: Ministério da Educação. acompanhando de perto um problema. Petrópolis/RJ: Vozes. et al. Trabalhar com Educação Ambiental implica pensar o meio ambiente como um todo. SAITO.. In: RUCHEINSKI. 55 p. visando à proposição de cenários desejáveis para o futuro. buscando sempre desenvolver individualmente ou coletivamente uma nova ética nas relações entre as pessoas e delas com a natureza. Diretoria de Educação Ambiental : Ministério da Educação : Coordenação Geral de Educação Ambiental. 1995. Educação Ambiental: princípios. F. cujas partes se interagem. CASCINO.

As transformações físicas. Tradicionalmente.CAPITULO 11 PEDOGÊNESE E MUDANÇAS NA PAISAGEM: um exemplo da região sudoeste da Amazônia brasileira Vânia Rosolen52 O intemperismo é um fenômeno fundamental para o desenvolvimento topográfico e a evolução das paisagens (TURKINGTON. é necessária e precursora para todo o tipo de denudação e é considerada como o agente primário e fundamental para a evolução das formas e das paisagens da superfície (VILES. Quando pequenos desvios existem. 2005). mas intervêm como agentes de aplainamento superficial (MILLOT. existem numerosas depressões topográficas. que enchem e transbordam durante as chuvas e secam durante a estiagem. PHILLIPS. a atividade dos processos exógenos é maior. que se desenvolvem desde a borda até o centro dos platôs.UFU . é uma vasta área de terras baixas aplainadas e com interflúvios tabulares. Ao transbordarem. com pequenos desníveis (alguns metros). 1977). químicas e biológicas que ocorrem in situ são fatores de transformação e degradação interna dos solos. 2006). a savana é um enclave dentro da área de floresta. Instituto de Geografia . algumas interligam-se. com a persistência e o crescimento das pequenas perturbações e variações das condições iniciais (SCHEIDEGGER. 2005. Alteração e pedogênese não são apenas desagregação e dissolução. A ação dos processos de intemperismo. segundo a classificação EMBRAPA. TURKINGTON et al. 52 Geógrafa (UNESP-Rio Claro). 1983). que atua desde a escala do mineral até a evolução das paisagens. iniciando a formação de uma rede de drenagem secundária. 2001. da perda de volume e de mudanças nas paisagens naturais. sustentados pelos sedimentos da formação Solimões (Plioceno superior/Pleistoceno inferior). O material gerado pelo intemperismo pode permanecer in situ ou ser removido por erosão. 2005). Nas superfícies dos platôs. Identificadas pelo RADAMBRASIL (1978a) foram denominadas de lagoas. os modelos de evolução das paisagens refletem o balanço entre da taxa de alteração e remoção do manto de intemperismo. como por exemplo irregularidades microtopográficas ou variações litológicas. Professora Doutora. sob forma particulada ou dissolvida pelos fluxos de água superficial ou subsuperficial (PHILLIPS. O objetivo deste capítulo foi o de realizar um mapeamento detalhado dos solos em uma unidade da paisagem e reconhecer se as diferenciações internas provocadas pela pedogênese possuem relações estreitas com a topografia e a vegetação de contato floresta-savana. entre os rios Madeira e Solimões. 1978b) individualizaram duas grandes unidades de solos: o Podzólico Vermelho-amarelo e a Laterita hidromórfica (Argissolo Vermelho-Amarelo e Plintossolo. Neste mosaico vegetacional. A região sudoeste da bacia amazônica brasileira. 2005). A floresta tropical aberta é a cobertura vegetal característica das terras baixas não inundáveis da Amazônia e as savanas (arbórea e campos) constituem em enclaves e recobrem áreas nas posições de interflúvio dos platôs e os vales dos rios secundários. Os mapeamentos do projeto RADAMBRASIL (1978a..

1993). O relevo é aplainado com altitude inferior a 250m. 1978a.: ROSOLEN.200mm com uma curta época seca entre os meses de junho e agosto. 1978b).000. OBSERVAÇÕES DE CAMPO E MAPEAMENTO DA COBERTURA PEDOLÓGICA NA BACIA ELEMENTAR Este trabalho foi realizado em duas escalas de observação: um estudo detalhado dos solos ao longo de uma vertente representativa da paisagem regional e. Essas depressões possuem diferentes formas e tamanhos. Figura 11. Foram identificadas pelo RADAMBRASIL (1978a) e denominadas de lagoas que enchem e transbordam durante as chuvas e secam durante a estiagem. outro. Ambos os estudos foram realizados seguindo o conceito da análise estrutural da cobertura pedológica proposto por Boulet . principalmente. Predominam os sedimentos da Formação Solimões (Plioceno superior/Pleistoceno inferior) e os sedimentos fluviais holocênicos (VILLAS-BOAS. A vegetação natural é. A escala de abrangência do mapeamento do RADAMBRASIL (1:1. iniciando a formação de uma rede de drenagem secundária. 2007) Essa região caracteriza-se como uma vasta área de terras baixas limitadas ao norte pelo escudo das Guianas. Os platôs. pouco ou muito dissecado e com interflúvios tabulares. na escala da bacia elementar em uma paisagem de contato floresta-savana. ao sul pelo escudo Brasileiro e a oeste pela cordilheira dos Andes.171 LOCALIZAÇÃO DA ÁREA A área de estudo situa-se na região sudoeste da bacia amazônica brasileira. As associações de solos são o Podzólico Vermelho-amarelo e a Laterita Hidromórfica (segundo a classificação adotada pelo Radambrasil. próximo ao quilômetro 70 da rodovia BR-319 que liga as cidades de Porto Velho (RO) e Humaitá (AM) (figura 11. separados pelos principais eixos de drenagem.000) associa as Lateritas Hidromórficas com os campos de savana e o Podzólico Vermelho-amarelo com as áreas de floresta. apresentam numerosas depressões suaves. algumas se interligam. com desníveis métricos.1 – Localização da área de estudo (Org. Ao transbordarem. que se desenvolvem desde a borda até o centro dos platôs. constituída pela floresta tropical úmida e pelos campos de savana. entre as coordenadas de 8°18’ S e 63°48’ O. A temperatura média anual é de 23ºC.1). A precipitação média anual é de 2.

dispostos acima de um espesso horizonte manchado. A montante localiza-se na parte alta do platô sob cobertura de floresta e a jusante no centro de uma depressão sob cobertura de savana. Foram feitas 19 toposseqüências numa superfície de 10ha e elaborada a carta de isolinhas de diferenciação dos horizontes de solo. feições ligadas à erosão laminar. depósito e atividade biológica. Esses dados fornecem subsídios para avaliar a dinâmica do escoamento superficial e contribuem para o conhecimento da evolução do modelado e dos solos. principalmente. mais precisamente uma diminuição da pigmentação vermelha sem variação de estrutura ou textura. A formação desta seqüência de horizontes subsuperficiais. espacialmente. Na estação seca. Também foram delimitadas as áreas de floresta e savana. devido à topografia e hidromorfia. O esvaziamento da depressão ocorre através da sua conexão com o igarapé no interior da floresta. Os horizontes subsuperficiais. É o domínio hidromórfico em meio confinado com drenagem parcialmente impedida. Com o início da estação chuvosa a subida do lençol é rápida. os horizontes superficiais da parte alta do platô e da meia encosta da vertente evoluem para os horizontes ricos em matéria orgânica da depressão (o teor de carbono orgânico aumenta de 3% para 10% e o teor de argila aumenta de 40 para 63%).5m a montante e o nível da água na depressão sobe para 0. Com o avanço da estação chuvosa. para esverdeado. porém sempre conservando relíquias dos horizontes precedentes. Na escala da bacia elementar foi realizado o mapeamento através de tradagens em toposseqüências dispostas radialmente a partir do centro da depressão visando localizar o apacimento/desapacimento dos principais horizontes e definir. A mudança da cor está associada à perda de ferro (10% de Fe2O3 no horizonte vermelho. 4. É o domínio ferralítico. especificamente. Foi aberta uma trincheira de 90m de extensão e 2. . 1996). foi realizado um mapa das feições da superfície do solo. A depressão fica submersa por aproximadamente 8 meses ao ano e apresenta uma seqüência de horizontes superficiais ricos em matéria orgânica sobre um horizonte branco. melhor drenado e mais fortemente alterado.5m acima do nível da superfície. da formação de um horizonte amarelo e esverdeado está relacionado ao início das condições de hidromorfia devido à dissolução seletiva dos óxidos de ferro (PETERSCHIMITT et al. O teto do lençol se eleva para 2m de profundidade na montante e alcança a superfície do solo na depressão. Esta etapa da pesquisa foi realizada tomando como exemplo o levantamento proposto por Valentin (1989). O perfil da depressão (jusante) está submetido a condições de hidromorfia temporária. seus limites.8m de profundidade a jusante na depressão. finalmente. ou pelo transbordamento da água da depressão. Há um clareamento da matriz. (1982a. evoluem lateralmente de horizonte vermelho para bruno vivo e. Lateralmente. 1982b).5 a 5..172 et al. o teto do lençol varia de 4. A evolução lateral corresponde à mudança de cor.5m de profundidade. o lençol atinge entre 1 e 1. RELAÇÃO ENTRE OS SOLOS DO PLATÔ (MONTANTE) E DA DEPRESSÃO (JUSANTE) DA TOPOSSEQÜÊNCIA O perfil descrito na posição elevada do platô (montante) apresenta uma seqüência de horizontes superficial bruno e subsuperficial vermelho sobre um espesso horizonte manchado que corresponde à zona de flutuação do lençol. seja por escoamento subsuperficial.8 a 5.5m de profundidade a montante no platô e de 5. Os horizontes manchados têm a gênese ligada à flutuação sazonal do lençol. Em seguida.3% no horizonte bruno vivo e 3% no esverdeado).

. Esta filiação genética entre horizontes desde a rocha alterada até o horizonte superficial é definida por Nahon (1991) como unidade estrutural original. 2002). A atividade da mesofauna é forte (presença de rejeitos e edifícios). freqüentemente estão incorporados à crosta de erosão. a cobertura vegetal cobre aproximadamente 90% sob da superfície. O horizonte subsuperficial vermelho possui matriz homogênea e reflete boas condições de drenagem que provoca a redistribuição de argila (caolinita e traços de vermiculita aluminosa) e difusão dos óxidos de ferro. Rejeitos da mesofauna (micropeds de cupins e formigas). A expansão destes horizontes são discordantes em relação à superfície e leva à transformação e desaparecimento dos horizontes da montante. Sob a serapilheira.  sob vegetação de savana não alagada: esta vegetação cobre aproximadamente 40% da superfície. a seqüência de horizontes sobrepostos e diferenciados refletem uma evolução vertical : os horizontes manchados com predomínio de manchas vermelhas evoluem para o horizonte subsuperficial vermelho. Essa atividade pode ser verificada no horizonte de superfície do solo que apresenta porosidade aberta elevada. Esta seqüência discordante da unidade original é denominada por Nahon (1991) de unidade estrutural derivada. aparece crosta de erosão com superfície lisa. . Em direção a jusante. Austrália. onde se observam aspectos da mesofauna. O horizonte branco apresenta forte eluviação de argila em relação ao horizonte manchado (teor de 23% de argila no horizonte branco a 195 cm de profundidade e 54% no horizonte manchado a 155cm de profundidade).173 A montante. formando pequenas placas de espessura igual ou inferior a 5mm. 1996. progressivamente. WILLIAMS e COVENTRY. pouca ilita e óxidos de ferro.. FEIÇÕES DA SUPERFÍCIE DO SOLO Foram individualizados três tipos de feições de superfície:  vegetação de floresta: na floresta.. os restos vegetais estão incorporados ou não à parte superior do horizonte A do solo. caolinita. pois se inicia com a alteração do sedimento areno-siltoso da Formação Solimões em condições de flutuação de lençol. mais claros e com tamanho maior. A dessecação provoca o rachamento dessa crosta. cor bruna e sem porosidade aberta. Seqüências com horizontes similares foram estudadas em outros países como na Guiana. variando de fina a grosseira (sempre inferior a 1cm de diâmetro). que chega a se separar da superfície do solo. expandem-se os horizontes brancos sob a forma de cunha. FRITSCH e FITZPATRICK. 1975. A interrupção da argila manchada ocorre sob a forma língua próximo ao centro da depressão. Nos espaços entre a vegetação herbácea. cujo resultado é a formação do horizonte manchado composto basicamente por quartzo residual. Exibe serapilheira abundante (2 a 5cm de espessura) que cobre toda a superfície do solo. os volumes cinza do horizonte manchado tornam-se cada vez mais abundantes. Do centro da depressão em direção a montante. 1979. PETERSCHIMITT et al. MELFI et al.. 1999). É composta essencialmente por vegetação herbácea reagrupada em tufos ligeiramente sobrelevados (até 10cm). É litodependente. bastante numerosos na superfície (50%). Índia e são consideradas pelos autores como a evolução pedogenética típica das regiões tropicais (DANIELS et al. Ocorrem zonas circulares (3-5m de diâmetro) de vegetação arbórea que podem ser relíquias de floresta. 1994. enquanto uma densa rede de raízes penetra no solo. Existe uma relação genética entre os horizontes manchados do platô e da meia encosta da vertente com o horizonte branco da depressão (ROSOLEN et al.

a superfície do solo é sob plana e muito macia. O resultado do mapeamento mostrou a estreita relação entre a distribuição dos principais horizontes e da topografia. A partir das zonas deprimidas. de cor cinza. no sentido norte–sul e um eixo secundário no sentido oeste–noroeste/leste–sudoeste que se conectam no sul do mapa e formam um talvegue drenando temporariamente as zonas deprimidas inundadas ao eixo de drenagem local. Percebe-se que a presença dos horizontes ricos em matéria orgânica e dos horizontes brancos é sistemática e exclusivamente associada às áreas deprimidas. No limite com a zona não alagada pode apresentar uma linha descontínua de palmeiras.2a e 11. próximo à depressão. As áreas deprimidas formam dois eixos. Um eixo principal.5m de altura e 1 a 3m de diâmetro. Os cupinzeiros inativos apresentam-se sob a forma de montículos de aproximadamente 0. grosso modo. Os cupinzeiros ativos apresentam-se em forma de domo. A característica mais visível desse limite é a presença de “microfalésias”. . os cupinzeiros estão reagrupados na parte baixa.5m de diâmetro. O recobrimento herbáceo é fraco (30 a 40% da superfície). Na vertente. a superfície do solo revela marcas de forte erosão superficial.  vegetação de savana temporariamente alagada: nessa zona. com crostas pretas de dessecação constituídas de restos vegetais.5m de altura e 1.2b). e podem atingir 0. Podem estar ativos ou abandonados. Nesse local. a distribuição dos horizontes relacionados com as posições elevadas da vertente é radial. apresentando desnível inferior ou igual a 10cm. algumas vezes com zonas mais pretas.174 Os cupinzeiros em forma característica de cone com divertículos verticais são muito freqüentes (algumas vezes muito numerosos). DISTRIBUIÇÃO DOS PRINCIPAIS HORIZONTES NA BACIA ELEMENTAR Há uma estreita relação entre a distribuição dos principais horizontes dos solos e a topografia e discordância com a vegetação (figuras 11.

quanto áreas elevadas. a toposseqüência estudada reflete as diferenciações determinadas pela topografia e não pela vegetação. Deste ponto de vista. Org. com horizontes orgânicos acima de horizontes brancos. .: ROSOLEN. A floresta está recobrindo tanto áreas deprimidas. 2007 A comparação entre o mapa caracterizando a cobertura do solo e a cobertura vegetal mostra claramente a discordância da distribuição da vegetação com a organização dos horizontes. com horizontes predominantemente vermelhos sobre argila manchada.175 Figura 11. O mesmo ocorre sob a vegetação de savana. O limite floresta–savana é discordante com a topografia e com as características do solo.2a – Feições da superfície do solo e relação com a vegetação (Dylat/Amazônia).

MgO e Al2O3. Globalmente. o horizonte cinza da jusante onde foi determinda a perda seletiva de constituintes (óxidos de ferro e caolinita). O horizonte branco é eluvial. Org.: ROSOLEN. A diminuição do teor de argila é fraca na média vertente e forte na depressão e indica uma perda lateral no centro da depressão.2b – Distribuição dos horizontes dos solos em uma área representativa de 10 ha. com perda acentuada de argila e elementos químicos como o Fe2O3. K20. em cunha. 2007 HIPÓTESE SOBRE A AMPLIAÇÃO DA DEPRESSÃO E EVOLUÇÃO DA PAISAGEM As transformações dos horizontes de solo na toposseqüência refletem a dinâmica evolutiva espacial e temporal do sistema na escala da bacia elementar. As mais nítidas frentes de transformação lateral são provocadas pela expansão. Este processo . dos horizontes hidromórficos que avançam para montante a partir do centro da depressão transformando os horizontes manchados e a base do horizonte subsuperficial esverdeado.176 Figura 11. de forma muito mais marcante. a evolução geoquímica indica empobrecimento da cobertura pedológica através da partida do plasma argilo-ferruginoso e afeta os horizontes superficial e subsuperficial esverdeado da meia encosta (aproximadamente da superfície à profundidade de 1m) e.

No caso em estudo. a expansão das coberturas hidromórficas a partir das depressões topográficas é uma dinâmica evolutiva essencialmente lateral que resulta na exportação de matéria fina. a partir do ponto de fuga. A perda de matéria aprofunda a depressão sobre o platô e resulta em uma diminuição do desnivelamento topográfico.177 se expande para o meio da vertente coincidindo com os limites do horizonte branco. 2005) se caracteriza por um progressivo alargamento e amplificação das pequenas variações iniciais. isto é. O resultado é a perda de volume que tenderá a um progressivo aplainamento da vertente e abaixamento do interflúvio na paisagem. ORSTOM. . sér. 2000. acredita-se que o processo de alargamento das depressões é generalizado. modificando a textura. o esqueleto se reorganiza e há perda volume. CHAUVEL. de forma irregular e diâmetro maior (tipo “cárie”).. sobre os sedimentos areno-siltosos da Formação Solimões. . Em estações contrastadas. Considerando que a área de estudo é representativa de uma grande região da Amazônia. com lençol freático temporário superficial. O avanço deste processo denominado de intemperismo centrífugo (FRITSCH et al. Pedol.. X. aplainamento do relevo e aumento da extensão da área a ser alagada sazonalmente.. existe uma regularidade na distribuição das depressões nas superfícies dos planaltos. Há a formação e o aprofundamento da depressão por subtração de matéria. A progressão lateral do horizonte gerado (horizonte banco) é feita em detrimento da organização do solo original (seqüência vertical na montante no platô). CONCLUSÃO Na região sudoeste da Amazônia brasileira. 1982a. PHILLIPS. o plasma migra lateralmente. Nas regiões tropicais. . Y. A evolução das formas de relevo tende a aumentar a extensão das áreas com solos que exibem padrões e propriedades associados à estagnação de água. HUMBEL. a estrutura e as propriedades geoquímicas da matriz. F. Cah. A. LUCAS. O alargamento ocorre pela progressão lateral remontante. O estudo realizado permite predizer que a dinâmica apresentada é típica da paisagem regional. Como resultado há uma homogeneização do tamanho das partículas na matriz do solo com predomínio do esqueleto quartzoso associado ao surgimento de uma nova porosidade. REFERÊNCIAS BOULET. Analyse structurale et cartographie en pédologie: I. a abertura do sistema e a ampliação do “ponto de fuga” é a conexão da depressão com o eixo de drenagem. 1977). os processos de evolução do solo que levam a separação entre o plasma argilo-ferruginoso e o esqueleto quartzoso é o motor de severas transformações internas (MILLOT. Sua extensão espacial é lateral centrífuga em relação ao eixo da depressão (jusante da vertente) com uma dinâmica lateral remontante no modelado. XIX (4) : 309-321. 2005). Prise en compte de l’organisation bidimensionnelle de la coverture pédologique: les études de toposséquences et leurs principaux apports à la connaissance des sols. expondo as transformações na topografia (GUNNELL e LOUCHET. O aumento da porosidade acentua a permeabilidade e o grau de intemperismo. Agradecimentos: Gostaríamos de agradecer à FAPESP (Processos 96/1447 e 97/015500) pelo suporte financeiro ao projeto de pesquisa e ao NUPEGEL/USP pela infra-estrutura. R. 1986) ou divergente (PHILLIPS.

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).]. sobrasil (Colubrina glandulosa). comestíveis e outras das mais diversas utilidades [. desenvolveu-se a civilização brasileira financiada pela mercancia dos estoques de nossos bens naturais sem chance de renovação” (Mello Filho.CAPITULO 12 PAU-BRASIL E A TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM DA FLORESTA ATLÂNTICA Yuri Tavares Rocha53 “Somos o único país do mundo cujo nome é o de uma árvore. 1991). em sua grande maioria. as canelas (Ocotea spp. característica da colonização portuguesa no Brasil (Sodré. 1996). O Domínio da Floresta Atlântica foi o primeiro a ter os recursos florestais explorados: “plantas madereiras. a interferência na natureza brasileira começou com o corte de uma árvore para fazer a cruz de madeira que compôs o altar da segunda missa realizada pelos descobridores portugueses no Brasil. a braúna (Melanoxylon brauna). Nectandra spp. cacau e café e. Depois disso. 1998). Sobre o substrato geobioecológico correspondente a esse sistema. corte. por fim. 2000). o pau-brasil. . A Floresta Atlântica remanescente está. distribuída em fragmentos isolados. a intensa ocupação urbana (. 53 Professor doutor do Departamento de Geografia – FFLCH/USP. o que dificulta a conservação dessa biodiversidade. As atividades de procura. a “devastação atravessou diferentes fases: extração do pau-brasil.. reduzindo a grande floresta a pequenas manchas remanescentes” (Urban...). o Domínio da Floresta Atlântica é que historicamente sofreu “um maior desgaste antrópico.” Mello Filho (1991) INTRODUÇÃO Simbolicamente. o tapinhoã (Mezilaurus navalium). De todos os domínios de natureza brasileiros.. em 1º de maio de 1500. medicinais. dentre as quais destacaram-se o pau-brasil (Caesalpinia echinata). Esse Domínio é um dos 25 hotspots mundiais (Figura 1) de importância para a conservação da natureza (Myers et al. de uma árvore da Floresta Atlântica. cultivo de cana-de-açúcar.. e muitas outras valiosas madereiras como o jacarandá (Dalbergia nigra). 1985). transporte e comércio do pau-brasil deram início a um tipo de economia chamada de predatória.. entre outras” (Guedes-Bruni & Lima. algodão.

A espécie Caesalpinia echinata Lam..181 Figura 12. Coruripe. 2004) . Figura 12. Leguminosae. Usina Coruripe. foram encontradas 458 espécies de plantas lenhosas.2 – Pau-brasil com cerca de 30m de altura. significando um alto índice de biodiversidade e endemismo. 2000) Para exemplificar sua importância em termos de biodiversidade. sendo que 8 mil espécies são consideradas endêmicas (Conservation Internacional do Brasil. Alagoas (Rocha.. 2000). o pau-brasil é uma das cerca de 20 mil espécies de plantas vasculares da Floresta Atlântica. é uma dessas espécies endêmicas da Floresta Atlântica (Figuras 2 e 3). chamada pelos índios de ibirapitanga (madeira vermelha). pode-se citar o grande número de espécies arbóreas da Floresta Atlântica: num hectare dessa floresta no sul do estado da Bahia.1 – Os 25 hotspots mundiais de importância para a conservação da natureza (Myers et al. o pau-brasil.

Em 2007. Coruripe. entre 1876 e 1972. indicando seu status social (Rocha. principalmente pelo corante extraído de sua madeira. seu estudo é de “extrema importância sob o ponto de vista biogeográfico e ambiental. somente pessoas mais ricas podiam ter roupas dessa cor. Em 1992. relativamente caro. 1996). 1977). madeira serrada. Justamente a ocupação do Brasil “se iniciou pela costa atlântica. a Portaria IBAMA n. ainda é pouco conhecida. porquanto foi nessa fase da nossa história que se processaram os grandes desmatamentos que afetaram consideravelmente toda a região. podendo se observar o cerne (avermelhado) e o alburno (amarelado). laminados. Esse corante.182 Figura 12. . era utilizado para o tingimento de lã. a espécie foi finalmente colocada na lista da Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora – CITES (Rocha & Simabukuro. sendo necessária emissão da licença de exportação CITES para exportação de toras. essa espécie foi considerada extinta durante cerca de 100 anos. Dessa maneira. do qual o paubrasil é endêmico. Usina Coruripe. incluindo artigos de madeira não acabados utilizados para fabricação de arcos para instrumentos musicais de corda (CITES. atual uso comercial da madeira. seda e algodão.3 – Tronco de pau-brasil cortado. tanto no que se refere à fitofisionomia quanto à desestabilização das condições ecológicas” (Coimbra-Filho & Câmara.37-N declarou o pau-brasil como espécie da flora brasileira em perigo de extinção. 2008). 2004) A história das alterações sofridas por esse Domínio. inúmeras ações a partir de 1973 têm sido realizadas para mudar essa situação de quase extinção (Rocha. Alagoas (Rocha. na zona de matas que primeiro forneceu o pau-brasil e depois as terras apropriadas para o plantio da cana-deaçúcar” (Ribeiro. Por causa da intensa exploração e posterior diminuição do Domínio Atlântico. O pau-brasil foi explorado comercialmente desde o início do século XVI até meados do século XIX. O pau-brasil está listado no Anexo II. dando a cor vermelha a esses tecidos. durante os primeiros 300 anos de ocupação do Brasil. 2008). principalmente na área de ocorrência do pau-brasil (de estado do Rio de Janeiro até o estado do Rio Grande do Norte). 2008). 2009).

o pau-brasil é considerado a árvore nacional pela Lei Federal n. por causa da fragilidade do domínio português na Índia. 1997). cuja comemoração ocorre em 3 de maio (Rocha. A extração do pau-brasil também provocou a “dissolução dos grupos tribais mais densos e sua dispersão pelas matas através do engajamento dos homens como remeiros e tarefeiros e das mulheres como amásias e produtoras de mantimentos”..1989. 2000). havia [. essências florestais. além de feitorias permanentes onde já havia sinais de posse efetiva da terra. que contrabandeavam o pau-brasil (Andrade. Dryades ou Dríades foi um nome dado em referência às divindades imortais Dryas. já que algumas razões levaram o rei português D.. numa faixa de 200 a 300 quilômetros de largura desde o Nordeste até o extremo Sul do País. a Floresta Atlântica “se estendia ao longo da costa.. como a que foi fundada por Américo Vespúcio no Cabo Frio [no atual estado do Rio de Janeiro] e a de Itamaracá [no atual estado de Pernambuco]. al. Ziebell. para tornar a extração do pau-brasil mais eficiente. 6. algumas dessas feitorias se transformaram em núcleos de colonização do Brasil.. oferecia grande variedade de contrastes em suas grimpadas pela morraria e descambamento sobre vales profundos. pela existência dos acidentes geográficos da costa (Mauro. Na classificação fisionômica e florística das províncias de vegetação do Brasil. Tais feitorias tinham a função principal de fazer o escambo de pau-brasil cortado por indígenas e seu armazenamento. aliados à existência de pau-brasil e de indígenas mais amistosos. DEFINIÇÕES DO DOMÍNIO ATLÂNTICO No século XVI.. e se torna mais rala até confluir com os cerrados” (Ribeiro. A instalação dessas feitorias e a posterior e progressiva ocupação do Brasil foram determinadas.] mata alta e espessa. determinaram a fixação de feitorias. que designava a hoje conhecida Mata Atlântica ou Floresta Pluvial Atlântica (Joly et. fundada por Cristóvão Jaques” (Andrade.] a oeste. [. portos naturais. peles. funcionários e militares para a defesa e servirem de postos de articulação entre as rotas marítimas entre Europa. principalmente de carvalhos (Fernandes. 1977).. e a presença dos corsários e piratas franceses na costa brasileira. em grande parte. 1977).. [. algodão e papagaios. João III (1521-1557) a criar e distribuir as capitanias hereditárias a donatários que tinham a obrigação de colonizar suas áreas: o fracasso do comércio oriental. caracterizando “fenômenos de aculturação e de transfiguração étnica” (Ribeiro.183 Por ter desempenhado importante papel nos primórdios da história do Brasil e por ter fornecido o nome ao país. Ziebell... uma das mais importantes conseqüências da exploração do pau-brasil na história do país. Muitas vezes. vilas e povoados. enleada por parasitas e lianas. mais organizada a partir de 1530. climáticos e geomorfológicos. 1999). 2000. ora alcançando a orla marítima.607 de 1978. em que os habitantes cuidavam de armazenar toras de pau-brasil. Posteriormente.] do sul da Bahia até o vale do rio Doce. Nas três primeiras décadas do século XVI. feita pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius em 1824 (Figura 4). impossível de ser ignorada em qualquer análise da ocupação urbana do território brasileiro. foram estabelecidos pontos de ocupação chamados de feitorias. a área de ocorrência do pau-brasil era a Província de Dryades. ora avançando profundamente para o interior. 2003). madeiras de lei. Com a evolução dos estudos fitogeográficos. outros au- . baías e barras. América e Oriente (Prado Júnior. 2002). acompanhando o curso dos rios. 2002). enseadas. além de manter agentes comerciais. [. “temporárias. que eram responsáveis pelos bosques. a mata se prolonga em galerias.] Na vertente oriental da Serra do Mar. 2004). até a chegada das embarcações que transportariam o pau-brasil para a Europa.

2002). 1979. As Figuras 5.4 – Classificação fisionômica e florística feita por von Martius em 1824 para as províncias de vegetação do Brasil (Fernandes. 2003) Figura 12.5 – Domínios morfoclimáticos brasileiros delimitados por Ab’Saber (1973) . 1973. Fernandes. 6 e 7 mostram as delimitações das províncias ou domínios brasileiros de acordo com vários autores (Ab’Saber. Rizzini. Figura 12.184 tores designaram e limitaram melhor essa mesma província ou domínio.

2003) designou o domínio onde ocorre o pau-brasil como Domínio dos Mares de Morros e Chapadões Florestados do Brasil Atlântico.185 Figura 12. ou simplesmente Domínio Atlântico. 1973.7 – Províncias brasileiras delimitadas por Fernandes (2003) Ab’Saber (1966. a Floresta Pluvial Atlântica. como um domínio onde predominam morros de formas mamelonares e chapadões.6 – Províncias brasileiras delimitadas por Rizzini (1979) Figura 12. com as influências climáticas do Oceano Atlântico e que apresentam a cobertura vegetal predominante de floresta. . 1970.

aberta e mista (Joly et. todas acompanhando o contorno da costa brasileira”. A Floresta Atlântica pode ser entendida. Essa heterogeneidade fisionômica e florística do conjunto de florestas do Domínio da Floresta Atlântica é resultante. aliados aos eventos paleoclimáticos durante o período Quaternário. da combinação de fatores geomorfológicos. 2000). classificando-se essas diferentes florestas “em função das grandes unidades de relevo: matas atlânticas de planície. A Floresta Atlântica é bastante heterogênea em termos florísticos. 63% das espécies da Floresta Ombrófila Densa Atlântica também ocorrem em outras formações florestais (cerrado. 2002). Freqüente presença de solos superpostos. ao longo do Brasil Tropical Atlântico.300m de altitude no Brasil de Sudeste).. hidrológicos e pedológicos. onde predominam chapadões florestados (subdomínio dos chapadões florestados dos planaltos interiores de São Paulo e norte do Paraná). e.100 e 1. Florestas tropicais recobrindo níveis de morros costeiros.186 Segue a descrição de Ab’Saber (2003): “Extensão espacial de segunda ordem. conhecidos ao longo do cinturão de terras intertropicais do mundo. Florestas biodiversas. climáticos. com aproximadamente 650 mil quilômetros quadrados de área. escarpas terminais tipo ‘Serra do Mar’ e setores serranos mamelonizados dos planaltos compartimentados e acidentados do Brasil de Sudeste. das restingas e das planícies litorâneas. apesar das florestas ombrófilas e estacionais serem grupos florística e estruturalmente distintos. 1999). Notáveis paisagens de exceção nos Campos de Jordão e nos altos campos de Bocaina. em regiões costeiras (Rio de Janeiro) ou áreas interiores (Espírito Santo e nordeste de Minas Gerais)”. principalmente no Pleistoceno. precipitações que variam entre 1. coberturas coluviais soterrando stone lines. são de difícil separação de forma estanque já que têm uma grande heterogeneidade florística e substituição de espécies (Scudeller. na maioria dos casos. Planícies meândricas e predominância de depósitos finos nas calhas aluviais. O Domínio da Floresta Atlântica pode ser considerado como “um bloco florestal heterogêneo. ou seja. Bocaina) e de cerrados em diversos compartimentos dos planaltos interiores. Enclaves de bosques de araucária em altitude (Campos de Jordão.100-1. primariamente recobrindo mais de 85% do espaço total. essa por sua vez dividida no Setor da Cordilheira Meridional e no Setor do Planalto Meridional (com o Subsetor de Araucária ou de Floresta Aciculifolia e com o Subsetor Periférico ou de Floresta Latifoliada)”.. serranas e de tabuleiros” (Brasil. uma simplificação pode ser feita. Presença de mais forte decomposição de rochas cristalinas e de processos de convexização em níveis intermontanos. 2000a). como mangue e restinga. afetando todos os níveis da topografia (de 10-20m a 1.5000mm e 3 mil e 4 mil mm (Serra do Mar. floresta estacional semidecidual e floresta montana de Pernambuco). predominam espécies arbóreas com distribuição restrita. de acordo com o Mapa de Vegetação do Brasil. mascarando superfícies aplainadas de cimeira ou intermontanas de pedimentação e eventuais terraços (. Área de mamelonização extensiva. São Paulo). al. como um conjunto de florestas ombrófilas: densa. Fernandes & Bezzera (1990) definiram a Província Atlântica como de “vegetação pluvial atlântica. da floresta estacional semidecidual e da floresta estacional decidual (Conservation Internacional do Brasil. Distribuição marcadamente azonal. além dos ecossistemas associados. . e a cobertura florestal dos vales. podendo ser dividida em Subprovíncia Litorânea e Subprovíncia Serrana.. dotadas de diferentes biotas. vicejante nas vertentes e nos cumes das serras.). Grau mais aperfeiçoado dos processos de mamelonização. 2002). fato que faz suspeitar uma alternância entre a pedimentação e mamelonização nesses compartimentos. porém com substituições contínuas de suas espécies ao longo de toda sua extensão” (Scudeller. Espetaculares setores de mares de morros alternados com ‘pães-de-açúcar’.

00 30. 2007). Estado Rio de Janeiro Espírito Santo Bahia Sergipe Alagoas Pernambuco Paraíba Rio Grande do Norte Total Área (km2) 41.00 0.12 3.42 2.20 45.00 20. Dados mais atuais da Conservation Internacional (2009) indicam uma redução da área original para 99. A Figura 8 mostra essa variação de ocupação de área pela Floresta.87 - % do Brasil 0. cerca de 15% de seu território brasileiro. .000 36.000 170.40 26. De acordo com Urban (1998). restringe-se a menos de 8% de sua área original.1 – Áreas de florestas primitivas nos estados brasileiros de ocorrência do pau-brasil no início do século XVI estimadas Alceo Magnanini em 1961.16 0. das lanças.000 % do Estado 93. Organização: Rocha (2004). Tabela 12.02 90. sendo que a média nacional é de 23 habitantes/km2 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.31 18.944 km2. A Floresta Atlântica já chegou a ocupar 1. 2009).49 0.187 TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM DA FLORESTA ATLÂNTICA Os indígenas brasileiros não tocavam “nas matas senão para o fabrico das flechas.18 0. Presotto & Cavalheiro. limite sul da ocorrência.000 10.000 20. hoje. até o estado do Rio Grande do Norte.000 14.000 10.000 15.12 0. estado do Rio de Janeiro. Já os portugueses começaram a explorar os recursos vegetais por motivos energéticos – lenha e madeira – e alimentares – palmitos e frutas (Filgueiras & Peixoto. aproximadamente 108. em 1961. com uma densidade populacional média de 87 habitantes/km2. limite norte (Rocha. dos tacapes.23 0.800km2 (Conservation Internacional do Brasil.45 50. as áreas de florestas primitivas nos estados de ocorrência do pau-brasil. 2000). o pesquisador Alceo Magnanini estimou. no início do século XVI (Tabela 1).72 Fonte: Urban (1998). das pirogas” (Ribeyrolles.000 316.000 km2 do Brasil. 2002). 1980).300.

em lutas dos colonizadores contra indígenas e no decorrer da expulsão de invasores estrangeiros”. e. Espírito Santo (ES). 2001). com o crescente aumento em seus números e densidades. sendo em seguida substituída pela agricultura e pecuária.8 – Variação de ocupação de área pela Floresta Atlântica na região de ocorrência do pau-brasil. alterada pela “exploração da madeira de suas árvores. muito difundida por . 1989). Bahia (BA).188 Figura 12. é mais um fator de pressão” sobre esse domínio (Landim de Souza & Siqueira. Sergipe (SE). 1996). Alagoas (AL). estados do Rio de Janeiro (RJ). Já se comentou anteriormente que não se concorda com essa afirmação. Várias atividades contribuíram para a eliminação das florestas do nordeste do Brasil: desmatamento para “facilitar a defesa dos colonos contra os ataques constantes de indígenas aguerridos e revoltados”. o que permanece até hoje. “a incessante atividade humana” (Coimbra-Filho & Câmara. Pernambuco (PE). “as queimadas deliberadas no curso das freqüentes escaramuças bélicas entre as tribos rivais. inicialmente. a exploração do pau-brasil e de outras madeiras. Quanto à exploração do pau-brasil. ela provocou “uma destruição impiedosa e em larga escala das florestas nativas donde se extraía a preciosa madeira” (Prado Júnior. Paraíba (PB) e Rio Grande do Norte (RN) – cujos remanescentes estão em verde (Conservation Internacional do Brasil. A construção inicial dos povoados na zona costeira. 2000) A Floresta Atlântica foi.

onde se localizam as principais capitais estaduais (São Paulo. mais de 104 milhões de habitantes. Assim. As Figuras 9. Salvador e Recife) e onde vivem. assinado no Rio de Janeiro pelo conde de Rezende e provavelmente dirigido à Rainha (Folhas 157 frente a 159 verso do volume 8 do Códice 69. cidades e metrópoles. as alterações ocorridas no Domínio Atlântico deixaram “remanescentes secundários reduzidíssimos. resultando na existência de 2. em meados do século XIX. 2000). atualmente. 46% do total do Brasil (Conservation Internacional do Brasil.528 municípios brasileiros no Domínio Atlântico. tornaram-se povoados. vilas. arraiáis. porque depois de três.] entendo ser da maior importância que conserve cada um nas suas matas os paos de Ley. com as atividades agrícolas.]”. mais da metade da população brasileira estimada para 2007 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. até quatro anos é indispensável fazer as ditas derrubadas. e lançar fogo aos paos cortados. entre os quais talvez sucederá perderem-se alguns de boa qualidade. Como conseqüência. e especialmente os que Vossa Majestade tem mandado reservar para o uso das Armadas Reais. 2009). Um ofício de 7 de junho de 1798. porém julgo ser de grande prejuízo aos moradores a proibição de fazerem derrubadas nas suas terras em que se acham algumas madeiras de construção. “os fazendeiros de café queimam hoje mais árvores do que antigamente elas caíam. a ocupação européia e colonizadora fez surgir algumas feitorias e portos que cresceram. 2009). Arquivo Nacional). parece-me conveniente conservar se em seu vigor a cláusula até agora declarada nas Cartas de Sesmarias permitindo-se também o corte dos mesmos paos para usos particulares com pleno conhecimento das suas precisões [. Mais adiante. 1996). Rio de Janeiro. da flora e fauna nordestinas” (Gouvêa. evidenciava o conflito entre o interesse da Coroa Portuguesa em conservar as madeiras de lei e as necessidades dos proprietários de fazendas e engenhos: “[.. em um século” (Ribeyrolles.... A figura 12 mostra a densidade populacional em 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 1998). 10 e 11 mostram a evolução desse povoamento na região de ocorrência natural do pau-brasil de acordo com Brasil (2000b). mas não havendo outro método para continuarem as suas plantações nem para diminuírem o grande consumo que se faz de lenha nas fábricas de açúcar.189 vários autores. distribuídos pelos estados que constituem a região nordeste” do Brasil (Coimbra-Filho & Câmara. a cultura da cana-de-açúcar foi “predatória da natureza. 1980). Depois. .

9 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVI (Brasil.190 Figura 12. 2000b) .

191 Figura 12.10 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVII (Brasil. 2000b) .

11 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVIII (Brasil.192 Figura 12. 2000b) .

Alagoas (AL). Espírito Santo (ES). conseqüentemente. Sergipe (SE). baías . enseadas. de seu Domínio Atlântico.193 Figura 12. já que portos naturais. 2009) CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se considerar que houve certo determinismo geográfico na ocupação inicial do Brasil e. Bahia (BA). estados do Rio de Janeiro (RJ). Pernambuco (PE). considerando os dados demográficos de 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Paraíba (PB) e Rio Grande do Norte (RN).12 – Densidade populacional na região de ocorrência do pau-brasil.

2. Portanto. COIMBRA-FILHO. AGRADECIMENTOS: Ao Prof. AB’SABER. Geomorfologia. O domínio dos mares de morros. havia uma exigência muito maior em abertura de novos espaços e demanda de recursos naturais. Geomorfologia. que auxiliavam essa exploração. não provocaram tantos danos às matas quanto sua total retirada para a implantação da lavoura da cana-de-açúcar. Rio de Janeiro: Centro de Documentação e Disseminação de Informações. atualmente. Governo Federal. 2003. F. água abundante e madeira em grande quantidade. C. pesquisador e professor. As atividades de extração e exploração do pau-brasil. pelo exemplo de pessoa. essa ocupação está consolidada em muitas metrópoles distribuídas na Costa Atlântica Brasileira. BRASIL. Províncias geológicas e domínios morfoclimáticos do Brasil.194 e barras de rios e a existência de pau-brasil a ser explorado e de tribos indígenas amistosas. A. São Paulo: IGEO-USP. determinaram a fixação de feitorias para sua extração e comércio. BRASIL.20. ANDRADE. N. 1970. N. 2000b. A transformação das feitorias em vilas e povoados pode ser considerada uma das mais importantes conseqüências da exploração do pau-brasil e de sua presença na história do Brasil. Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IPJBRJ). A organização natural das paisagens inter e subtropicais brasileiras Geomorfologia. São Paulo: Ateliê Editorial. p. que se transformaram em vilas e povoados. algumas vezes com utilização do fogo. 2000b. A. Salvador (BA) e Recife (Pernambuco). Os domínios de natureza do Brasil. (Org. tais como solo fértil. Recife: Editora Universitária UFPE.41. AB’SABER. M. um orientador e um Mestre. que envolvia corte seletivo. e de transporte do local da extração até os portos dos rios e praias. AB’SABER. atividades também iniciadas no século XVI. S. N. 1966. São Paulo: IGEOUSP. Os descobrimentos portugueses: Brasil e África. Brasil: 500 anos de povoamento. 1973. A.) Brasil 500 anos: reflexões.. G. que era a matriz energética. 2000a. A. no século XVI. n. São Paulo: IGEO-USP. a exploração do pau-brasil motivou a criação dessas feitorias e. para evitar seu contrabando e a posse do Brasil reclamada por outros europeus. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Rio de Janeiro: Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Mata Atlântica: 500 anos. n. Um amigo. incentivou a implantação de sua colonização por parte da Coroa Portuguesa. A derruba da Floresta Atlântica de forma drástica começou na instalação da lavoura da cana-de-açúcar e de engenhos. 13-37. depois em cidades e. In: BRANDÃO. A. CD-ROM (multimídia). Felisberto Cavalheiro (In Memoriam). Os limites originais do bioma Mata Atlântica na . Para a implantação de seu sistema produtivo. CÂMARA. I. Governo Federal. sempre! REFERÊNICAS AB’SABER. n. tais como Rio de Janeiro (RJ). N.

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