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Marcelo Batista e Miho Washington

Ela era velha. E porca. A higiene definitivamente não era uma de suas maiores
virtudes, se é que tinha alguma. Seu quarto era sua fortaleza e alter ego. Tão escuro quanto ela
própria, mal projetado, ocupado por móveis de gosto no mínimo duvidoso. Ali a velha porca
passava a maior parte de seu dia, de seus dias.
O intervalo entre arrumações era variável, mas nunca inferior a uma semana e nunca
feita por ela própria. Não via necessidade. Afinal, pensava, no instante seguinte ao término de
uma limpeza tudo já não estaria sendo desarrumado e sujo novamente? Então se for pra
limpar que seja algo realmente contundente, digno de uma limpeza! Ainda que este
pensamento tenha lá seu resquício de racionalidade não era condizente de maneira alguma
com o que podemos entender como comportamento socialmente aceitável. Sim, pois ela era
porca, sozinha, velha, mas tinha vida social. Resumia-se à visita semanal da sobrinha adotiva.
Miho se fazia presente para tentar lembrar à velha que ela ainda estava viva, com
características e necessidades humanas. Bem, na verdade era mesmo basicamente pra dar uma
bruta faxina, pois se isto não acontecesse a situação daquele apartamento facilmente poderia
migrar de caótica para catastrófica.
As horas transitavam de um lado a outro diante de seus olhos cansados. Se indo ou
vindo não faria para ela a menor diferença. Não se lembrava mais da própria idade, nem
contava de forma alguma o tempo que lhe restava. Poucas coisas realmente lhe importavam:
Os frascos de soníferos e antidepressivos, aquele aparelho estereofônico, o vinil que continha
o dueto gravado ao vivo nos anos de chumbo por Cauby Peixoto e Ângela Maria. Aliás, se
toda regra tem sua exceção entendo então porque a capa do bolachão é o único objeto pelo
qual ela zelava. Tudo bem, Miho também já recolheu esta capa em locais inimagináveis, mas
mesmo assim não se manteve legível e quadrada por mais de trinta anos? Então era objeto de
zelo da velha, só podia ser.
Seus dias em pouco diferiam, mês após mês, ano após ano. Não havia calendário em
lugar algum, relógio só o da torre, visível apenas pelo basculante do banheiro. A pontualidade
de suas ações repetitivas era um espanto. Todos os dias ao cair da escuridão a velha, já com o
único par de pantufas que possuía, hidrofóbico, preparava o café para se deitar. Será que ela
não sabia que cafeína é prejudicial ao sono? Mas o que eram alguns miligramas de cafeína
perto de uma dose eqüina de sonífero, que ela conseguia sem receita médica e sem dinheiro
do sempre tão cuidadoso porteiro?
Na xícara de estimação repousava o resto do café extra-açucarado. No seu criado-
mudo de madeira já não havia local onde a impressão digital da xícara já não tivesse sido
carimbada, redonda, inclusive sobre algumas das muitas correspondências recebidas e não
lidas. Sim, pois além de Miho e do porteiro, as operadoras de cartão de crédito e panfletos de
marketing também nunca se esqueciam dela.
Religiosamente neste momento do dia tomava seus comprimidos, acendia seu cigarro,
entreabria a janela, colocava seu bolachão para tocar e se deitava com a cabeça de lado sobre
o travesseiro marcado pelas brasas de cigarros esquecidos. Os mesmos pensamentos lhe
vinham sempre à mente, e ela sentia que, com o passar dos anos, o tempo entre a ingestão do
medicamento e seu desmaio ia se dilatando. Padecia por horas até que a total confusão e perda
de senso se transformassem em um estado de repouso que lembrava vagamente o sono.
Entrecortado, mas ainda assim sono.
Nestas horas a velha porca achava que vivia. O ópio travestido de medicamento lhe
trazia a falsa e extasiante sensação de ausência total de culpa. Via seus monstros todos
atordoados, fragilizados. Em momentos assim ela não tinha parentes, passado, presente ou
futuro, contas a pagar, portas a trancar, nada, nada. Olhava sempre em torno de seu próprio
quarto, seu universo decadente e em expansão. Os vestidos de chita no guarda-roupa de pinho
sem portas já não lhe contavam nenhuma novidade, mesmo sendo quase tão antigos quanto
ela própria. Definitivamente, resmungava, já não eram os mesmos parceiros de conversa de
tempos distantes.
O mesmo café da noite anterior que propositadamente sobrou na xícara costumava ser
sua primeira ingestão do dia. Às vezes algum fragmento sólido lhe descia pela garganta. Não
interessava o que fosse desde que não a surpreendesse guerreando contra suas amídalas ou
fosse inerte ao seu suco gástrico. Nunca era.
Evitava olhar para o baú de couro de vaca no canto daquele cômodo, onde repousavam
incólumes dezenas de livros, quase todos nunca lidos. Restos de um passado que nunca vivera
realmente. Era como a lápide de uma jovem morta há anos, antes mesmo de ela própria
nascer. Como seria esta jovem hoje? Aí está o pensamento mais proibido de todos. Ela sequer
cogitava pensar em pensar em algo parecido. Por isto nunca mais se abaixara diante dos
livros, nem mesmo para pegar a bituca de cigarro que no baú caíra certa vez afrontando a
ditadura do branco-e-preto daquilo que um dia fora uma vaca malhada. Miho certamente se
encarregaria. E se encarregou mesmo, até com certa satisfação, pois a vaca malhada agora é
chique que nem ela: Tem tatuagem e é tricolor.
Miho sabia que a velha precisava ouvir sua voz, sentir seu abraço, ser admoestada, ser
tratada como criança às vezes. Bem pode ser que estas ações a conservassem em formol,
quase viva, ainda neste século. Caso contrário sabe-se lá o que poderia ser da vida (?) da
velha.
Naquelas dantescas TPMs Miho jurava a si mesma que daria um sumiço na megera.
Sua consciência, ao percebê-la sutilmente maquinando contra o ente, lhe apunhalava a
têmpora. De leve, mas a espetava. Certamente pessoa tão pacífica jamais atentaria contra a tia.
Suas ações de madre Tereza eram seu álibi preventivo e testemunha. Mas ficar horas num
local que mais lembrava a trincheira vietcongue em filme parcial de guerra era o suficiente
para que ela se permitisse viagens aos porões da mente, em instintos neadertais. Haja
sentimento pacifista! Mas até que Miho se divertia com esses delírios controlados e já
ensaiava colocá-los num papel pra ver como fica. Com ou sem seus devaneios o final da tarde
lhe enchia o coração quando retornava ao seu próprio lar deixando para trás uma sobrevida e
uma esperança de que alguém do outro lado da avenida lhe quer muito bem e que se lembra
dela, maldita velha porca. Fora o benefício secundário de, se faltar papo com as amigas na
night, Miho poderia desfilar suas lamentações e intenções desumanas. Sempre dava “ibope”.
Ainda mais se o álcool já estiver com uma das mãos nas rédeas do comportamento e senso do
ridículo. Daí ela tergiversaria filosoficamente acerca da velhice, da solidão, da transição, da
solidariedade, da esperança. Nada que uma boa, fútil e improdutiva fofoca de banheiro não
dissipasse instantaneamente, para alívio imediato da nação de amigas.
Ah, meio dia. Horário maldito para a velha. De novo esse assobio que acha que escuta!
Sabe que não há mais ninguém em casa além dela e sabe que essa música que acha que ouve é
assobiada apenas pela sua mente doentia e cansada. Quem, além dela conhecia a música que
lhe marcou tão amargamente a vida? Desde 1964 ela ouve assim a mesma música que
assassinou a jovem que hoje é o zumbi no baú dos livros. Maldito o dia em que se apaixonara!
O presidente Jango rumava para o Uruguai sem passagem de volta no dia em que ela
passava com o pesado ferro a brasa o vestido amarelo que usaria logo mais na festa de quinze
anos de uma conhecida, alheia ao mundo, pensando unicamente em encontrar-se com um
alguém em especial.
No casarão da grande festa a taça de itu contendo o ponche com cubinhos de maçã era
o carro alegórico de maior destaque naquela avenida cheia de figurantes. Foi dali detrás, entre
o ponche e a bandeja de capetinhas que ela enfim localizara Vanderval com o olhar, pra ela
sempre Vandinho. Sim, ela seria de Vandinho e nada a impediria. Num tempo em que o amor
livre era celebrado e “livre” era só mais uma palavra sem sentido, ela se guardava para uma
minuciosamente planejada loucura de amor e sexo com ele. E seria hoje no jardim, que é pra
impressionar as amigas e de quebra alimentar a tara. E depois se casariam. Faltava passar a
Vanderval a sua parte do script.
Eles se namoricavam, é verdade, mas uma relação definitiva era algo que Vanderval
jamais especulou para si. Claro que gostava dela! À sua maneira. Adorava seus seios, suas
coxas, sua cintura deformada pela cinta modeladora, sua boca deliciosa, seus longos cabelos e
suas unhas vermelhas que pareciam ávidas por carne fresca. Se cheirasse melhor poderia até
ser a mulher de sua vida, mas ninguém é perfeito. Ele pensava com taquicardia nas anáguas
sobrepostas que estaria manuseando naquela mesma noite. Já ela se sentia a mais preparada e
amada das moças, uma vez que lera todos os romances de sabonete e, portanto, possuía vasta
experiência em relacionamentos afetivos, adorando atender esporadicamente como consultora
sentimental das amigas. Tão experiente que não se esquecera do laxante no dia anterior “que é
para murchar a barriga”.
“Hoje serei dele, hoje serei dele”, jurava repetidamente a si mesma em silêncio. Em
ação no local e momento combinados, Vandinho segurava-lhe as anáguas num canto do
jardim, jurando serem três. Hoje vai! Hoje vai!
Não foi.
Vanderval num inesperado grito de “me espera” a deixou entranha e subitamente ali,
sozinha, semi-nua. Decerto fora certificar-se de que ninguém os espionava, cria ela. Como um
fogo de tora grande, ela custara a acender, mas custara também a esfriar-se. Vários minutos se
passaram até que sua respiração voltasse ao normal e suas pernas estivessem como seu pai
mais gostava. Juntas. Muitos minutos mais foram necessários até que ela cresse que fora
abandonada, descartada. Sumiu o desgraçado do Vandinho. Como rejeitar minha entrega? Por
acaso ele não teria visto a calçola nova que comprei exclusivamente pro grande dia? Não fui
boa e quente o suficiente para ele?
A mente mergulha num poço de piche como pedra de pontas, sem a menor pretensão
de retornar à superfície.
Pronto! Estava dado o tiro de partida de uma corrida que jamais teria fim. Justo ela
que nunca foi uma pessoa que podia ser rotulada de mentalmente sadia, agora com o grande
trauma da rejeição para administrar. A idade não favorece. Contar com o apoio dos pais nem
pensar. Amigas? Que amigas? Essas só servem para os momentos alegres de deboche de
outrem. Para as frustrações nunca serviam.
O despreparo não podia ser maior. Nem o impacto. Uma tsunami de emoções
destrutivas abalara suas convicções, seu orgulho, vaidade, confiança, amor próprio, esperança,
feminilidade, temperança, lógica e razão. Definitivamente não estava preparada para enfrentar
qualquer conflito de qualquer natureza, quanto mais um desta magnitude.
A jovem sensual de odor estranho se transformara então na velha porca. Mas não tão
subitamente. Um intrincado processo fora desencadeado a partir dali.
Agora, após tantos anos, a sexagenária rumina o passado e regurgita no presente. Fita
o olhar nos cantos de sua morada, como quem procura algo que lhe chamasse a atenção e que
a tirasse de dentro de si mesma. Não pode se dar aos tranqüilizantes e soníferos agora, a esta
hora do dia. Tem que preservá-los para a nobre função da noite. Então deve sobreviver apenas
com o auxílio luxuoso de seus parceiros um tanto quanto démodés: as revistas de sacanagem
barata, um livrinho kama-sutra ilustrado à mão adquirido por oito e noventa na banca da
esquina, suas lingeries da revista Hermes, seus vidros de alfazema vazios, alguns vinis de
Wando, Benito di Paula e sui generis, um livreto de simpatias que nunca deram certo e as
rasuradas palavras cruzadas. Nas paredes podem ser ainda encontrados pôsteres de Orlando
Silva, Nélson Gonçalves e uma santa ceia desbotada e com moldura suspeita. No corredor, a
caminho do banheiro, na parede esquerda um dia reinara vossa majestade Roberto Carlos e
seu inconfundível medalhão. Hoje, no alto relevo da cola real estão anotados em tinta de
esferográfica azul restos de uma antiga lista de compras. Cortinas baratas de estampa floral
são responsáveis por todas as cores vivas do ambiente juntamente com as flores de plástico na
garrafa pet. “É de ‘práchico’ mas é minha”, exclamava a velha diante das ameaças de Miho de
desaparecer com essa “aberração da decoração de interiores”. Acredita em tudo o que ouve
sobre política nos jornais globais e desacredita na sobrinha que jura um dia mandar aparar o
mato que domina a jardineira da janela e enviar para o Ibama o bicho esquisito que vive lá.
O pote de rapé pela metade é inútil para fazer dar sinal de vida seu vizinho santo
Antônio, tão empoeirado quanto detonado por marcas de objetos pontiagudos, ambos
esquecidos em cima do guarda roupa. O boneco tinha mais cicatrizes que Silvester Stalone em
seus rambos e rockys e estava mais pra voodoo que pra santo.
Recentemente passou a usar pomada Minâncora após os muito raros banhos, mas algo
a dizia que deveria depilar as axilas ou mudar de produto, não estava sendo uma combinação
perfeita, convenhamos. Optou pelo óbvio: Abandonar a idéia de desodorizar e deixar que a
natureza siga seu rumo.
Miho lhe aplicava creme enxaguante nos cabelos e deixava a recomendação de um
bom banho para um bom enxágüe. Boa estratégia, mas de pouca valia. Nunca deu certo. A
velha, sem banho, esquecia o creme nos cabelos, o que lhes conferia excelentes propriedades
de atração e retenção de partículas dos reinos mineral e animal, além de seborréia.
Além dela própria, apenas as pantufas conheciam suas feridas no calcanhar, tão bem
escondidas da sobrinha. Sabe-se lá o que Miho faria se soubesse? Era capaz de até tentar uma
esfoliação, ou cremes, sei lá. Melhor deixar como está.
Há alguns anos a tia era comumente vista usando uma trança embutida que, com
relativo sucesso, domava fios rebeldes. Mas como tudo evolui, ela descobriu que um simples
lenço resolve o problema. Até o pano de cozinha já demonstrara desta forma mais uma das
mil e uma utilidades que o sábio oráculo chamado TV já dizia. Para ela, o fácil é o certo.
Vanderval é um mito, uma lenda, um delírio. A velha às vezes se esforçava para crer
nisto, mas a fotografia debaixo do colchão, ao lado de uma edição setentista do Pasquim que
alguém esquecera, era a evidência objetiva que não. Não era mito. O maldito habitava mesmo
nas suas memórias dilacerantes, vivo como árvores milenares que só crescem e nunca
morrem. Tudo são obstáculos que parecem existir com a única finalidade de deixar mais
distante o momento do Valium manipulado e do pseudo sono. Mas ela esperava, não com
paciência, mas com o sentimento de derrota por saber que nada faz rodarem mais rápido os
ponteiros do relógio da torre.
A caixa de antidepressivos estava com suas últimas unidades. Onde mesmo enfiara
aquela caixa nova? Existe uma caixa nova? Hoje tem Domingo Legal?
Que aceitar o destino que nada! Queria mesmo é que o Vanderval aparecesse um dia.
Pelo menos para dizer que havia sido seqüestrado, ou preso, quem dera morto. Se ele pelo
menos tivesse por ela um décimo do cuidado que lhe reservara o tão sempre amável porteiro,
“seu” Almeida...
***
Naquela noite longínqua de 1964 Vanderval a si mesmo impunha que faria amor. E
que seria a primeira de uma série interminável de vezes. Era jovem, viril, saudável, o que
poderia dar errado? Sua pequena o amava e estava ali, no canto do jardim da casa, deitada
com as belas anáguas agora não mais cobertas, mas cobrindo o lindo vestido amarelo. A
delicada e nova calçola à mostra, as eróticas unhas vermelhas se firmando em suas costas. Era
tudo perfeito. Ou quase tudo.
Vanderval não funcionou.
Ao debruçar-se sobre ela e sentir seu odor que não era de todo terrível, mas certamente
contrastava com o que seus outros sentidos captavam, ele titubeou. Não entendia porque
simplesmente não conseguia a ereção, mas via sua tão aguardada chance escoar pelos seus
braços. Ele próprio na “hora dos parabéns”, quando todos estavam com a atenção sendo
direcionada a um único tema, sorrateiramente batizara o ponche com vodka para deixar sua
companheira mais receptiva. Todos os demais efeitos desta travessura seriam colaterais e,
portanto, desprezíveis. Tinha até uma prévia do relato que faria no outro dia aos seus amigos,
claro, com os devidos acréscimos que é para manter a fama. Mas seu corpo resolvera
dissociar-se de sua mente desejosa e deixá-lo na mão. Ou pior: resolvera dar ouvidos à sua
insegurança e falta de confiança.
Não. Isso pode acontecer com qualquer um, menos com Vanderval, ainda mais na sua
primeira vez. Ele já espalhara por todo o bairro que era homem sexualmente ativo e de larga
experiência, mas o fato era de que não conseguia dar vida ao personagem que tanto alimentara
nos sonhos e devaneios. Vanderval era macho, muito macho, batia nos irmãos menores e
pichava as viaturas da polícia. Espiava donzelas nuas por todas as frestas quanto possíveis e
carregava objetos tão pesados que lembravam as proezas hercúleas. Pelo menos na sua
própria imaginação. Como um varão desses poderia sucumbir diante de uma tão frágil
criatura? Ainda mais adornada por frufrus amarelos e rendinhas?
Saindo dali, seu subconsciente, antevendo a crise de sua prima consciência, tratou logo
de arranjar uma rota de fuga - o cheiro. Era isso! O cheiro dela era tão terrível que
desestimulou seu lado animal. Claro, a culpa é dela e muito dela. Maldita vaca, imunda. Aliás,
maldita porca. Isso! Porca! Porca, porca, porca! Gritava dentro de sua cabeça uma voz cheia
de razão, autoritária, um legítimo advogado de acusação.
Na manhã seguinte as portas negras das enormes viaturas da polícia cederam lugar e
vez ao muro claro e bem acabado da residência de seu novo desafeto: “SUA PORCA
IMUNDA” eram os dizeres, pichados em letras gigantes, que estupraram e esfolaram a alma
daquela que um dia seria a velha mais louca e porca que se teve notícia.
Ela leu. Chorou. Surtou. Enfim, cedeu às acusações de Vandinho e, no tribunal de sua
psique, admitiu-se culpada diante de seus atrozes acusadores imaginários. Não servia mesmo
para ser mulher de ninguém. Com tanta garota bonita e limpa, porque um homem em sua sã
consciência se entregaria às paixões e amores de uma porca imunda cheirando a chorume?
Enquanto Vanderval tentava viver uma vida quase comum, exceto pela ausência de
mulheres, amores e paixões, a velha porca por sua vez nunca teve juventude nem uma fase
adulta normal – pulara de seus dezesseis anos para os atuais sessenta e um. Assim mesmo,
abruptamente, com ou sem processo de muda. No meio do caminho Cauby e Ângela foram
suas únicas companhias na cama e testemunhas das manias que iam surgindo e se somando,
cumulativas.
O outrora belo jovem que um dia teve seu nome sussurrado ao ouvido agora era mais
conhecido na cidade como “seu” Almeida, o porteiro bonachão, gente boa, solícito a ajudar a
todos, em especial à senhora do 202. Um denso, largo e escuro bloqueio psicológico de sua ex
a impedira de ver naquele senhor inofensivo o mesmo jovem que amara décadas atrás e que
lhe dilacerara a vil existência. Melhor assim, para ambos. Para ela, contribuía para a
preservação daquilo que ainda a identificaria como ser humano. E para ele, pois poderia
planejar e levar a cabo suas sádicas lucubrações de vingança e transferência de culpa,
incólume, bem ao lado de sua vítima.
Quando viu que não foi e nem seria reconhecido pela “vaca maldita” esteve muito
próximo de seu primeiro orgasmo real.
Hoje levemente obeso, com um sotaque baiano inventado nada convincente e uma
calvície que era limítrofe ao boné de propaganda política que sempre ostentava, Vanderval
Lopes de Almeida Neto era o mantenedor da velha porca. Como a bruxa da história infantil
que alimenta as crianças a fim de comê-las vivas, Vanderval era seu grande mantenedor. Era
ele quem levava as compras escada acima, fazia o serviço de banco, executava pequenos
reparos e servia de verdadeiro faz-tudo. Tudo para ser visto como homem de confiança, acima
de qualquer suspeita. Minava da senhora qualquer chance de reação, quando, no momento em
que a via mais lúcida passava de largo assobiando a mesma música que embalou o sonho a
dois que nutriam quando jovens e que a bandinha tocava naquele fatídico momento no jardim.
Quase todos os dias o fazia. Sabia onde podia se posicionar para não ser visto, mas muito bem
ouvido.
Ah! Como era boa a sensação de ver aquela mulher que lhe roubara a virilidade
irrompendo um cômodo após outro, julgando ser mentira o assobio que verdadeiramente
ouvia! Valia todo o sacrifício.
Dentre suas muitas benfeitorias à velha estava a principal: Fornecer os antidepressivos
e soníferos. A ela pouco importava de onde ele tirava as drogas, desde que não lhe faltasse.
Era tudo o que ele queria para ir minando aos poucos a já débil saúde física e mental de sua
presa.
No começo eram medicamentos reais, manipulados para outros pacientes,
devidamente roubados de uma farmácia onde fora vigia por alguns anos e que mantinha cópia
de todas as chaves. Mas com o tempo Vanderval colocava, na cozinha de seu barraco, com
toda a paciência, todo tipo de aberração nas cartelas e potes. Doses infinitesimais de
estricnina, chumbinho, soda cáustica, e toda forma de deturpação já foram experimentadas.
Mas o gran finale ainda estaria por vir.
A velha já procurava a caixa de remédios que sabia estar no fim, quando deparou-se
com “seu” Almeida à porta, como sempre fazia, portando um frasco de sonífero novinho em
folha, daqueles bem grandes, sei lá, duzentas, trezentas drágeas. É um anjo esse homem, cria a
carcaça debilitada que se arrastava com a dificuldade imposta pela hérnia de disco. Com a
informação de que se tratava de um medicamento muito mais fraco que o convencional,
Vanderval sugeriu que ela fizesse o uso de várias unidades para que obtivesse o mesmo efeito.
Assim ela fez e realmente o medicamento não era aquele convencional. Era a versão mais
poderosa já produzida, indicada apenas aos pacientes de quadro sintomático mais agudo,
exatamente como descrito no rótulo. O corpo frágil da velha não resistiu, como era de se
esperar. E esperar é exatamente o que fez “seu” Almeida. Esperou pacientemente até que a
mulher se deitasse na cama e parasse de respirar.
O mesmo excitante calafrio lhe percorrera a espinha, exatamente como no dia em que
teve a certeza de não ser reconhecido.
Os dias se passaram e “seu” Almeida recebera até abraços de consolo pela perda
daquela que seria sua única amiga, mais que os reservados à própria sobrinha da falecida.
Trabalho bem feito, acima de qualquer suspeita, Vanderval pede conta quatro meses
após o ocorrido. Já não tinha mais nada a fazer ali naquele prédio velho e mal cheiroso.
Continuaria velho, é verdade, “mas bem menos mal cheiroso com certeza”, ria-se sozinho de
sua negra tirada de humor.
Pela Rua dos Andradas subia agora um senhor calvo, de boné e calça de tergal, com os
olhos opacificados pelo tempo, mas ainda cheios de sagacidade. Levava consigo seu acerto
trabalhista em um envelope pardo A4. Subira por ali inúmeras vezes. Neste percurso já sentira
frio, calor, dor, desesperança, fome, ódio, rancor e o peso de uma existência vazia. Mas desta
vez o sol lhe brilhava no rosto de uma maneira diferente, bem diferente.
Ao assobiar a mesma música rua acima, agora o astro rei lhe parecia muito mais
resplandecente, mais claro, mais vivo, mais leve. Sentia-se jovem de novo.