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LER E ESCREVER

Ler e escrever aguçam a consciência, ampliando horizontes,


abrindo caminhos e gerando possibilidades.

Desde quanto me tornei escritora, suspeitei que as pessoas que escrevem


ficção estão inebriadas num diabólico jogo, no qual seduzem porque foram
seduzidas. Quer dizer, alguém lê um livro, fica enfeitiçado pelo poder das
palavras de tal forma que passa a escrever um livro para seduzir os leitores.
E sempre observei, as pessoas mais fascinantes eram aquelas que tinham o
dom da palavra ou escrita ou falada. Quantas vezes me vi arrebatada por
uma frase, muito mais do que por um olhar ou uma paisagem, quantas mil
vezes apaixonada por um texto que despertou em mim um sentimento
qualquer. (...) A sedução pela palavra parecia-me um convite para penetrar
um outro mundo.
Um de meus livros prediletos é o Flores da Escrivaninha. Não se trata de um
volume de poesias, como o título sugere. Tampouco é uma novela para moças
(...). É um livro de ensaios sobre literatura, publicado há alguns anos, com
uma capa que lhe dá um tom lírico, uns rabiscos vermelhos que sugerem
flores e folhas, leve toque oriental. Sua leitura é como entrar em um jardim
encantado e descobrir flores de nomes maravilhosos. (...)

Ana Miranda. O Estado de São Paulo. 27/7/97

A autora fala da sedução das palavras. Para ela, as palavras têm uma sedução
secreta, exercida durante o ato da leitura. Ela acredita que as pessoas que
escrevem participam de um “diabólico jogo”: o da sedução das palavras. Ela
confessa que hoje, como escritora, seduz porque foi seduzida, ou seja, escreve
porque leu. Sabe que a leitura é “passagem” para outros novos caminhos, é como
entrar num “jardim encantado”, onde cada palavra é uma flor de nome
maravilhoso.
Você sabe o que é um texto?

A palavra texto origina-se do latim textum, que significa tecido, trama,


entrelaçamento. Você pode perceber que nessa origem está presente a idéia
de que um texto é resultado do trabalho de tecer, de entrelaçar várias
idéias, espressas em palavras e frases, até se obter um todo bem coeso, bem
amarrado.
Esse trabalho de tecelão (aquele que tece tecidos ou textos), além de muito
importante para o conjunto da sociedade, é agradávele gratificante para cada
pessoa em particular, pois permite transmitir idéias, sentimentos e emoções.

Você está no ensino médio e com certeza já passou por muita coisa em sua
vida escolar. Tudo o que leu, ouviu, tudo a que assistiu, os elogios e broncas
que recebeu, estão aí, na sua formação. Sua vida pessoal, afetiva, suas dores,
seus amores, deixaram marcas. Seu país, sua cidade, seu bairro, seu canto,
estão sempre presentes em você.

Hoje seu texto (o seu tecido) é fruto de toda essa história, de sua
sensibilidade, de sua maneira de ser, ou seja, no trabalho de tecelão que você
faz, estão presentes todos os fios da sua vivência. E, já que a formação nunca
termina, saiba que novas águas passarão, outros livros virão, mais TV, mais
filmes, mais música, mais viagens, mais gente. E seu texto irá aos poucos
mudando. Se está contente com o que tem produzido, poderá produzir
sempre melhor. Se está insatisfeito com seu desempenho, acredite em
mudança, em vontade de mudar, para melhor, é claro.

TIPOS DE TEXTO

Descrever, narrar ou dissertar são maneiras distintas de que se


pode fazer uso para falar de todo e qualquer assunto

Existem basicamente três tipos de texto: descrição, narração e dissertação. A


descrição é o registro de características de objetos, de pessoas, de lugares; a
narração é o relato de fatos contados por um narrador, envolvendo
personagens, localizadas no tempo e no espaço; e a dissertação é a expressão
de opinião a respeito de um assunto.

Na prática, esses tipos de texto se misturam, não cabendo só à dissertação o


espaço de manifestação de opinião. Um texto descritivo ou narrativo, no fundo,
nas entrelinhas, na interpretação que faz da realidade, também está revelando
uma postura diante dela. A diferença é que o texto dissertativo faz isso de
maneira transparente, objetiva, direta.

É possível a identificação de elementos descritivos, narrativos e dissertativos


num mesmo texto, com preodomínio de uns ou de outros. O relato de uma
viagem, por exemplo, poderá ser predominantemente narrativo, mas também
pode incluir descrições de pessoas e lugares visitados e ter como fecho uma
reflexão sobre a importância do lazer na vida das pessoas, um elemento
dissertativo.

Na criação de um texto, seja ele descritivo, narrativo ou dissertativo, existe


sempre um contexto gerador, uma maneira de olhar o mundo, uma formação
cultural e uma intenção refletidos.

Leia com atenção o fragmento abaixo, de Rubem Fonseca, autor brasileiro


contemporâneo que descreve as ruas do Rio de Janeiro.

Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em


cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da
cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao
caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas (...)

Agora Augusto está na rua do Ouvidor, indo em direção à rua do Mercado,


onde não há mais mercado algum, antes havia um, uma estrutura monumental de
ferro pintada em verde, mais foi demolido e deixaram apenas uma torre. A rua
do Ouvidor, que de dia está sempre tão cheia de gente que não se pode andar
nela sem dar encontrões nos outros, está deserta. Augusto caminha pelo lado
ímpar da rua e dois sujeitos vêm vindo em sentido contrário, do mesmo lado da
rua, a uns duzentos metros de distância. Augusto apressa o passo. De noite não
basta andar depressa nas ruas, é preciso também evitar que o caminho seja
obstruído,e assim ele passa para o lado par. Os dois sujeitos passam para o
lado par e Augusto volta para o lado ímpar. Algumas lojas têm vigias, mas os
vigias não são bestas de se meterem nos assaltos dos outros. Agora os sujeitos
se separam e um vem pelo lado par e outro pelo lado ímpar. Augusto continua
andando, mas apressado, em direção do sujeito do lado par, que não aumentou a
velocidade dos seus passos, parece até que diminuiu um pouco o ritmo de sua
passada, um homem magro, com a barba por fazer, uma camisa de grife e tênis
sujo, que troca um olhar com o seu parceiro do outro lado, meio surpreso com o
ímpeto da marcha de Augusto. Quando Augusto está a cerca de cinco metros
do homem do lado par, o sujeito da lado ímpar atravessa a rua e junta-se ao
seu companheiro. Os dois param. (...) Augusto continua a sua marcha sem virar
a cabeça, a orelha boa atenta ao barulho de passos às suas costas, pelo som
será capaz de saber se os perseguidores andam ou correm atrás dele. Quando
chega ao cais Pharoux, olha para tras e não vê ninguém. (...)

Espera o dia raiar, em pé na beira do cais. As águas do mar fedem. A maré


sobe e baixa de encontro ao paredão do cais, causando um som que parece um
suspiro, um gemido. É domingo, o dia surge cinzento; aos domingos a maioria
dos restaurantes do centro não abre; como todo domingo, será um dia ruim
para os miseráveis que vivem dos restos de comida jogados fora.

(Rubem Fonseca, “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro” in Romance negro e
outras histórias, São Paulo: Cia. Das Letras, 1992, p.11-50)

1. O texto acima mistura elementos descritivos, narrativos e dissertativos.


Destaque exemplos dos três tipos.

2. Os textos narrativos contemporâneos utilizam-se de uma espécie de


”linguagem cinematográfica”, centrada sobretudo na ação e no
movimento das personagen. Destaque do texto elementos que
exemplifiquem essa afirmação.

A DESCRIÇÃO

Um bom observador sabe que, em todos os seres, objetos e


paisagens, há pormenores que os individualizam e que
impressionam os sentidos.
Descrever é uma atividade na qual se utilizam os sentidos (visão, audição,
gosto, tato e olfato) para captar a realidade e traduzi-la num tecido verbal. Ou
seja, a realidade que nos cerca pode ser apreendida pelos sentidos e depois
interpretada através de imagens lingüísticas.

O texto descritivo, desse modo, vai se caracterizar pela exposição de detalhes


significativos de pessoas, objetos e situações, levantados a partir de um
exercício de percepção sensorial e de imaginação criadora. No entanto, não é
muito comum a criação de textos descritivos puros. Eles sempre aparecem
incorporados às narrativas ou auxiliando a argumentação. Trata-se de um
recurso que, bem utilizado, enriquece, portanto, outros tipos de texto: a
narração de um acidente, por exemplo, deve contar com a descrição de lugares
e pessoas; uma dissertação pode descrever dados e situações que contribuam
para a construção dos argumentos.

A predisposição psicológica do observador –sua simpatia ou antipatia


antecipada, por exemplo- pode dar como resultado imagens muito diversas do
mesmo objeto.

Desse ponto de vista mental, decorrem dois tipos de descrição: a subjetiva e


a objetiva. Na primeira, reflete-se predominantemente o estado do espíritu
do observador, suas idiossincrasias, suas preferências, que fazem com que
veja apenas o que quer ou pensa ver e não o que está para ser visto. O retrato
que faça de uma paisagem, não traduzirá a realidade do mundo objetivo,
fenomênico, mas o seu próprio estado psíquico, onde se gravaram as
impressões (...) captadas pelos sentidos, quase alheios à razão ou à lógica. (...)

A descrição realista ou objetiva é exata, dimensional. Nela os detalhes não se


diluem (...) em penumbra (...)

Othon Moacyr Garcia, Comunicação em prosa moderna, Rio de Janeiro: Fund. G.


Vargas, 1973. p.218)

Houve um período da história da literatura, na segunda metade do século


XIX, em que a grande preocupação dos escritores era descrever a
realidade da maneira mais exata possível, como se fosse um quadro ou uma
fotografia. Não por acaso, esse movimento literário chamou-se Realismo.
Leia o texto seguinte, “O cortiço” do escritor Aluísio Azevedo (1857-
1913) e responda as perguntas abaixo:

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos,


mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas
de chumbo(…)

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono;


ouviam- se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava- se
grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do
café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam- se de janela para janela
as primeiras palavras, os bons- dias; reatavam- se conversas interrompidas à
noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros
abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
destacavam- se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde,
grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos
saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e
os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam- se ruidosamente,
espanejando- se à luz nova do dia.

Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração
tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara,
incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco
palmos. O chão inundava- se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via- se- lhes a tostada nudez dos braços e do
pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os
homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário metiam a
cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas,
fossando e fungando contra as palmas da mão(…)

O rumor crescia, condensando- se; o zunzum de todos os dias


acentuava- se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído
compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda;
ensarilhavam- se discussões e resingas; ouviam- se gargalhadas e pragas; já se
não falava, gritava- se. Sentia- se naquela fermentação sangüínea, naquela gula
viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e
nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de
respirar sobre a terra.

1. Trata-se da descrição de uma dada realidade. Que realidade é essa?


Justifique com elementos do texto
2. Para tornar o seu texto bastante “real”, o autor lança mão de muitos
recursos sensoriais. Retire do texto elementos visuais, auditivos e
olfativos
3. Na sua opinião, o autor faz uma descrição objetiva ou subjetiva da
realidade que focaliza? Explique e justifique sua resposta con elementos do
texto
4. Aponte a passagem do texto em que o autor revela explicitamente o que
pensa sobre a realidade descrita

A NARRAÇÃO E O NARRADOR

A narrativa possibilita, por meio da linguagem, a criação de


outra realidade e a fruição da experiência mágica de criá-la.

Narrar é contar histórias, inventar enredos, tramas, enigmas, criar


personagens, lugares, fatos, tecer os fios da vida em desenhos mágicos.
Podemos narrar coisas sonhadas, vividas, na realidade ou na imaginação; ao
narrar, tornamo-nos construtores, produtores de outra realidade, de outro
mundo, criado pelo mágico poder da linguagem.

A narrativa está muito ligada ao que conhecemos como ficção. Essa palavra
provém do latim fictionem, cuja raiz pertence ao verbo ingere, que significa
fingir. É, então, evidente a relação da palavra ficção com o ato de criar, de
inventar, de dar vida.

Quando lemos um romance, um conto, quando assistimos a um filme ou a uma


novela, com histórias plausíveis ou absurdas, ocorridas num tempo e num
espaço, quaisquer que sejam, estamos diante da ficção. Esse tipo de narrativa é
diferente dos documentários, das biografias, cujos fatos podem ser
comprovados pelos livros de História, pelos jornais ou pelos testemunhos
pessoais.
Contar ou ouvir histórias, reais ou inventadas, são atividades humanas
antiqüíssimas. Desde os relatos orais, em eras remotas, até os relatos
audiovisuais do cinema e da televisão, passando pelos livros, inventar narrrar
histórias, ouvi-las e lê-las são atividades que contribuem para o
desenvolvimento do ser humano.

Seja na linguagem oral, seja na visual ou na escrita, o texto narrativo cria


personagens que atuam num tempo e num espaço, organizados por uma
narração feita por alguém: o narrador.

Tudo em uma narrativa, depende do narrador, da voz que está contando a


história. O ponto vital de uma narrativa é o seu ponto de vista, a sua
perspectiva, o seu modo de contar e de organizar aquilo que conta. Desse modo,
o narrador funciona como um mediador entre a história narrada e o leitor ou
ouvinte.

Existem três tipos de narrador:

 Narrador-personagem: o narrador conta uma história da qual participa


de alguma forma. Ele é, então, narrador e personagem ao mesmo tempo,
e conta a história em primeira pessoa. Esse narrador pode ser a
personagem principal ou uma secundária.

 Narrador-observador: o narrador conta a história como alguém que a


observa. Passa para o leitor apenas os fatos que consegue observar; nada
mais sabe além daquilo que pode ver. Conta a história em terceira
pessoa.

 Narrador onisciente: é o narrador que sabe tudo sobre o enredo e as


personagens. Além de observar, ele sabe e revela os sentimentos e
pensamentos mais íntimos das personagens. Sabe, inclusive, até coisas
que as personagens não sabem. Também narra em terceira pessoa e,
muitas vezes, sua voz aparece confundida com os pensamentos da
personagem.

A NARRAÇÃO E A PERSONAGEM
A criação de uma personagem não implica o simples desenho
de suas características, é preciso dar-lhe vida, gestos,
intenções e traços que a tornem única, inconfundível, em tudo
semelhante à realidade.

Na construção da personagem, assim como em todos os outros elementos


que compõem uma narrativa, é o narrador quem desempenha o principal
papel. Na verdade é ele quem dá vida, quem cria, quem revela, quem produz
as personagens. É ele quem nos conduz até elas, familiarizando-nos mais ou
menos com seus interesses, suas emoções e comportamentos.

A construção de personagens implica uma série de detalhes: de onde vêm, a


que vêm, o que fazem, como são etc. Complexas como os seres humanos,
apresentam características físicas e psicológicas. O conjunto dessas
características vai definir sua atuação na trama criada.

Se você gosta de observar as pessoas, seu comportamento, suas


expressões, provavelmente terá facilidade para criar personagens. O modo
de vestir: por exemplo, fala muito da condição econômica; o jeito de olhar
pode revelar os mais variados sentimentos. O tom da voz, o andar, o sorriso,
também são dados importantes. Até os nomes podem sugerir coisas. Existe
uma etimologia (estudo da origem) dos nomes próprios que pode conduzir
histórias interessantes. Fernando, por exemplo, significa aventura,
coragem; João significa graça divina; Alice, gentileza e Lúcia relaciona-se
com luz.

A NARRAÇÃO E OS TIPOS DE DISCURSO

O discurso das personagens constitui um recurso primoroso para


sua expressividade e conseqüente construção psicológica.

Dentre os elementos da narrativa, as palavras proferidas (ou pensadas) pelas


personagens podem se tornar de grande importância para o enredoque se quer
desenvolver: nelas podem ser evidenciados conflitos, paixões, mal-entendidos,
cumplicidades etc.
Existem basicamente três maneiras de o narrador transcrever o que as
personagens dizen: o discurso direto, o discurso indireto e o discurso indireto
livre.

O discurso direto ocorre quando o narrador reproduz exatamente o que a


personagem fala. A principal característica do discurso direto é o uso de
verbos dicendi (de dizer), que têm a função de indicar o interlocutor que está
com a palavra. São eles: dizer, afirmar, declarar, indagar, interrogar, retrucar,
replicar, negar, objetar, gritar, solicitar, aconselhar, mandar etc. Suspirar,
lamentar, explodir são também usados no discurso direto, mas não pertencem
aos verbos dicendi.

Há diálogos em que o narrador omite os verbos dicendi. Isso ocorre com


freqüência nas falas curtas entre dois interlocutores. O emprego de sinais de
pontuação, sobretudo o dois-pontos e o travessão, pode auxiliar na marcação
das falas das personagens.

O discurso indireto ocorre quando o narrador resume a fala das personagens

O discurso indireto livre ocorre quando o narrador insere, em sua fala, a fala
ou os pensamentos da personagem. O foco narrativo é em terceira pessoa
(trata-se do narrador onisciente); o narrador está, portanto, fora da história,
mas, ao fazer uso do discurso indireto livre, instala-se dentro de suas
personagens, confundindo sua voz com a delas.

O que a personagem diz revela muito do que ela é. Por isso, é preciso um
cuidado especial do narrador com relação à montagem de diálogos ou
monólogos, pois eles revelarão elementos psicologicamente significativos para
a construção da narrativa como um todo. Veja se o que você quer demonstrar
nas palavras de sua personagem é ironia, generosidade, paixão, frieza, hábito,
desprezo ou qualquer outro tipo de emoção ou sentimento, antes de elaborar
seus discursos. Escolha sempre a palavra mais adequada àquela situação, a
frase mais expressiva, o ritmo correto das falas, para que, com tudo isso, sua
personagem ganhe vida e credibilidade.

ENREDO, TEMPO E ESPAÇO


O enredo pode desenvolver-se num romance, num conto, num
filme, numa novela de televisão, num poema, numa história em
quadrinhos, numa canção. E nele sempre haverá um tempo, um
lugar e uma ação, em meio aos quais movem-se personagens.

Como vimos anteriormente, os elementos básicos de uma narrativa são a


personagem, o espaço e o tempo, organizados por um narrador. O espaço em
que as ações acontecem está intimamente ligado ao tempo em que ocorrem, da
mesma maneira que ambos estão ligados à caracterização das personagens. É
nessa articulação –chamada enredo- que se instaura um movimento que faz o
leitor envolver-se no narrado.

Pode-se dizer que o enredo, é o conjunto dos fatos de uma história. Nele estão
envolvidas a apresentação das personagens e das situações, além das
sucessivas transformações pelas quais elas vão passando, ao longo do tempo
transcorrido.

Sintetizando, uma narrativa tem cinco pilares de sustentação:

 Um enredo convincente que mantenha, para o leitor, a pregunta: “o que


vai acontecer?”
 Personagens que “parecem“ existir na realidade como seres vivos
 Um espaço onde ocorrem os fatos
 Um tempo que determina o ritmo e marca a seqüência dos fatos
 Um narrador, que articula os elementos anteriores

O enredo (como?): trata-se aqui da ação da narrativa, da sucessão dos fatos,


das vivências, das situações. É também conhecido como trama. É onde as
personagens se põem em movimento, relacionando-se entre si, como na vida, em
relações que podem ser de colaboração, de afinidade, de oposição, de
competição, etc, que envolvem sentimentos e emoções.
As personagens (quem?): entre as personagens, há aquelas que se destacam
porque agem mais: são as personagens principais. As que se relacionam a elas
por oposição são as antagonistas, que geralmente também estão no primeiro
plano dos fatos. Em volta dessas, há sempre um conjunto de personagens
secundárias, que ajudam a sustentar a trama.

Tempo (quando?): as personagens agem num dado espaço, durante um tempo


dado. Esse tempo pode ser cronológico, o tempo da natureza, aquele marcado
pelo relógio, com o passar das horas e dos minutos. Mas existe também o
tempo psicológico, o tempo da duração interior dos fatos, variável de indivíduo
para indivíduo. Nele podem misturar-se passado, presente e futuro, ao sabor
dos sentimentos e das lembranças.

O espaço (onde?): a ambientação, o conjunto de elementos que compõem, por


exemplo, o quarto, a sala, a rua, o bar, a montanha, a floresta, a escola, a
cidade, o sertão etc, constitui o espaço narrativo. Ou seja, é o lugar onde se
movem as personagens

O que torna o texto verdadeiro para quem o lê é a verossimilhança, ou seja, a


coerência lógica interna do texto. (...) o texto deve ser semelhante à verdade.
Os fatos de uma história não precisam ser verdadeiros, mas devem ser
verossímeis; isto quer dizer que, mesmo sendo inventados, o leitor deve
acreditar no que lê. Esta credibilidade advém da organização lógica dos fatos
dentro do enredo. Cada fato da história tem uma motivação (causa) que
desencadeia inevitavelmente novos fatos (conseqüência).

(Cândida V Gancho. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 1995, p.10)

Para compreender o desenrolar do enredo é preciso estar atento para o


conflito, isto é, o elemento de tensão que organiza os fatos e os faz avançar,
prendendo a atenção do leitos. Esse conflito, de modo geral, determina as
partes do enredo:

 Introdução: é o começo da história, no qual se apresentam os fatos


iniciais, as personagens e, às vezes, o tempo e o espaço
 Desenvolvimento: é onde o conflito se desenvolve, complica-se
 Clímax: é o ponto culminante da história, o de maior tensão, quando o
conflito atinge seu ponto máximo
 Conclusão: é a solução final do conflito, que pode ser feliz, trágica,
inesperada, cômica, surpreendente etc

Diante de uma proposta de narração, é sempre interessante que você faça


inicialmente um projeto de texto. Fique atento ao foco narrativo, isto é,
tenha claro o grau de conhecimento que o narrador terá dos fatos, das
personagens, da ambientação. Pense cuidadosamente em cada personagem,
considerando seus aspectos físicos e psicológicos. Lembre-se de que os
nomes próprios também são carregados de sentido. Monte o cenário de
maneira a torná-lo significativo para o que quer contar. Defina o tempo em
que as ações devem acontecer.

Projeto definido, redija sua história, agora mais preocupado com a


linguagem. É ela o instrumento que vai dar vida ao seu enredo. Verbos,
nomes, pontuação, tudo a serviço de uma boa trama que satisfaça a você e a
seu leitor.