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Das antinomias jurídicas

Adriana Estigara Elaborado em 08/2005. «Página 1 de 1» Desativar Realce a A 1 – DA INTRODUÇÃO O estudo das antinomias jurídicas relaciona-se à questão da consistência do ordenamento jurídico, à condição de um ordenamento jurídico não apresentar simultaneamente normas jurídicas que se excluam mutuamente, isto é, que sejam antinômicas entre si, a exemplo de duas normas, em que uma manda e a outra proíbe a mesma conduta. Como diz Gisele LEITE: "A antinomia representa fenômeno comum que espelha o conflito entre duas normas, dois princípios, entre uma norma e um princípio geral de direito em sua aplicação prática a um caso particular. É fenômeno situado dentro da estrutura do sistema jurídico que só a terapêutica jurídica pode suprimir a contradição. Apaziguando o direito com a própria realidade de onde emana." [01] O ordenamento jurídico deve encerrar um conjunto unitário e ordenado de elementos em função de princípios coerentes e harmônicos. Todavia, não é isso que se constata quando o mesmo apresenta normas cujas antinomias não possam ser resolvidas por nenhum dos critérios apresentados pela doutrina. E o grande problema de um ordenamento jurídico revelar-se inconsistente ante a existência de antinomias é a dificuldade que causa ao operador jurídico, no momento em que este precisa encontrar uma solução para os problemas que lhe são apresentados. Em algumas ocasiões, a antinomia encontrada pelo operador será considerada aparente porque, ainda que difícil, alguma solução existirá para afastá-la. Em outras ocasiões, no entanto, a remoção da contradição será impossível, porque a antinomia é real, e então a alternativa, na maioria dos casos, será a ab-rogação de uma das normas antinômicas. Ao longo do presente artigo, objetivar-se-á o estudo das antinomias, em todos os aspectos tratados pela doutrina. E a parte mais importante será a que demonstrará a existência de espécies de antinomias, e, nesse passo, a existência de antinomias aparentes, as quais podem ser afastadas mediante critérios apontados pela doutrina e pela jurisprudência, não constituindo, pois, indícios de inconsistência do ordenamento jurídico.

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Assim. Nunca é demais frisar que sistema é um conceito que abriga nexo. uma solução por meio da lógica jurídica. A instrumentalização da hermenêutica jurídica a partir do pensamento de Pierre Bourdieu 2 . um todo organizado. desta forma. unidade no ordenamento jurídico. BOBBIO destacou que as antinomias jurídicas muitas vezes revelam a ausência de coerência. faz-se necessário que este apresente critérios de solução para eventuais antinomias. o Direito não tolera antinomias. Como ele próprio afirmou: . mas de efetividade. Como grande contribuição. ao da hierarquia das normas e ao das relações entre os ordenamentos.     O transconstitucionalismo como instrumento de diálogo entre o Secularismo e o Islã Colisão de direitos fundamentais. Como reconhece Norberto BOBBIO. Assim. considerando que um ordenamento é composto de mais de uma norma. em considerando o ordenamento jurídico uma unidade sistêmica. alinhou o problema das antinomias ao das lacunas. ou pior ainda. que permitam aos operadores jurídicos uma solução pronta e certeira. Análise de alguns casos concretos sob a ótica do STF A decisão do STF sobre a união estável homoafetiva: Uma concepção de democracia à luz da hermenêutica filosófica Estudo de casos de violação do princípio da conformidade funcional ou da exatidão funcional O império da interpretação enquanto poder simbólico. em que cada norma ocupe o lugar que lhe corresponde e desempenhe a função que lhe compete. coerentes entre si. na sua acepção objetiva. Norberto BOBBIO." [021] E isso porque a complexidade dos problemas que atingem a sociedade exige a existência de normas harmônicas. a ausência de um sistema. A desordem provoca tumulto social e é exatamente isso que o ordenamento jurídico quer evitar. por exigência social. é representado pelo conjunto de textos legais reunidos em um ordenamento jurídico e este deve representar. localizou o impasse relativo às antinomias jurídicas no grupo dos quatro grandes problemas do ordenamento jurídico. A ordem jurídica constitui a organização da sociedade pelo direito e se rege pelo princípio maior de efetivação da justiça. "A situação de normas incompatíveis entre si é uma das dificuldades frente as quais se encontram os juristas de todos os tempos. A coerência do ordenamento jurídico não constitui condição de validade. Pode-se dizer que a construção do sistema jurídico exige a solução dos conflitos de normas. tendo esta situação uma denominação própria: antinomia. pois todo sistema deve ter coerência interna. possibilitando. isto é.DA CONSISTÊNCIA DO ORDENAMENTO JURÍDICO O Direito. o conjunto de elementos dotado de método como instrumento de análise e que o sistema jurídico não é uma construção arbitrária. para se verificar a consistência de um ordenamento jurídico.

definida como aquela situação na qual são colocadas em existência duas normas. define antinomia como contrariedade de leis que ocorre quando duas leis se opõem ou mesmo se contradizem. um SISTEMA. como a preponderância da lei enquanto fonte do direito e a concepção do direito como sistema. que distinguiu a antinomia em sentido amplo que ocorria entre sentenças e proposições e. 5 – DOS PRESSUPOSTOS PARA A OCORRÊNCIA DE ANTINOMIAS JURÍDICAS . em 1660. A partir daí. como ensina Gisele LEITE [06]. que colocam o sujeito numa posição insustentável pela ausência ou inconsistência de critérios aptos a permitir-lhe uma saída nos quadros de um ordenamento dado. É que nesta época. intensifica-se a importância em conceber o direito como um sistema normativo coerente e harmônico. a antinomia jurídica aparece como um elemento do sistema jurídico e necessitando este ser harmônico (coerência interna) urge a criação de métodos para a solução dos conflitos normativos. ECKOLT já falava em antinomia real e aparente. por meio dos trabalhos desenvolvidos por PLUTARCO e QUINTILIANO. as incompatibilidades entre as normas se tornaram mais e mais freqüentes. o termo só alcançou relevância jurídica em 1613.) a oposição que ocorre entre duas normas contraditórias (total ou parcialmente). Assim.DO CONCEITO DE ANTINÔMIA JURÍDICA Por antinomia jurídica. entendese "(. ZEDLER. com GLOCENIUS. em 1732. Já BAUMGARTEN menciona a antinomia entre direito natural e o direito civil. das quais uma obriga e outra proíbe. No século XIX. No entanto." [04] 4 . além de UNIDADE. quando ocorreu a consolidação de certas condições políticas. o problema das antinomias surgiu precisamente na época da Revolução Francesa. existente entre leis. em sentido estrito.. O problema fundamental que se coloca diz respeito às antinomias jurídicas. na lição de Tércio Sampaio FERRAZ JÙNIOR. o problema das antinomias jurídicas aparece marcado pelo fenômeno da positivação e da crescente relevância da lei. ou uma obriga e a outra permite o mesmo comportamento. [05] Entretanto. Na seqüência."Em segundo lugar." [03] 3 . Mais tarde. emanadas de autoridades competentes num mesmo âmbito normativo. devido à freqüente influência política na confecção das leis e à ausência da técnica apropriada.DO HISTÓRICO DE SURGIMENTO DAS ANTINOMIAS JURÍDICAS A primeira notícia que se tem quanto à utilização do termo antinomia remonta à Antiguidade.. busca-se saber se o ordenamento jurídico constitui.

O fato. Tércio Sampaio FERRAZ JÙNIOR explica que: O reconhecimento desta lacuna não exclui a possibilidade de uma solução efetiva. de forma que uma constitua a negação da outra. entre outros. que o direito não tem o caráter de sistema lógico-matemático. portanto. que se excluem reciprocamente. inclusive no caso de edição de nova norma. cumpre ao operador jurídico conhecer os critérios que podem ser utilizados na solução do impasse ocasionado entre as normas aparentemente incompatíveis. que o operador jurídico esteja diante de todas essas condições para afirmar que constatou uma antinomia jurídica no ordenamento observado. pode suprimi-la no caso concreto. a princípios gerais do direito. mesmo porque qualquer das soluções. Constatada a existência de antinomias aparentes. o que a presença da antinomia real exclui. quer por meios ab-rogatórios (edita-se nova norma que opta por uma das normas antinômicas). que uma permita e a outra obrigue dada conduta. de que estas antinomias ditas reais sejam solúveis desta forma não exclui a antinomia. b) que estejam vigorando. pois sistema pressupõe consistência. para a análise das antinomias propriamente jurídicas. Imprescindível. d) que emanem de autoridades competentes num mesmo âmbito normativo. são necessários os seguintes pressupostos: a) que sejam jurídicas. é proposta a seguinte classificação: a)Antinomias Reais: pressupõem um conflito ou uma colisão entre normas jurídicas. O reconhecimento de que há antinomias reais indica. prescrevendo ordens ao mesmo sujeito. ao nível da decisão judiciária. [07] b)Antinomias Aparentes: pressupõem a existência de critérios que permitam sua solução. por fim. por ser impossível remover a contradição com os critérios existentes no ordenamento jurídico. pois. eliminar uma antinomia e. quer por meio de interpretação equitativa. f) que o sujeito a que se dirigem fique numa situação insustentável. por exemplo. Classicamente. c) que estejam concentradas em um mesmo ordenamento jurídico.DAS ESPÉCIES DE ANTINOMIAS JURÍDICAS Não interessa aqui o estudo das antinomias tratadas genericamente no campo da lógica. Parte-se. porém. até mesmo porque esses são conflituosos. ao mesmo tempo dar origem a outras.Para se constatar a existência de uma contradição entre normas. e) que tenham comandos opostos. 6 . mas não suprime a sua possibilidade no todo do ordenamento. que pode por pressuposição. 7– DOS CRITÉRIOS PARA A SOLUÇÃO DE ANTINOMIAS APARENTES . recurso ao costume. eis que não demonstram verdadeiramente inconsistência do ordenamento jurídico. à doutrina.

A solução mais sensata. apresenta inconsistências. Essa regra se explica pelo fato de a eficácia da lei no tempo ser limitada ao prazo de sua vigência. prevalece a segunda. Além do mais. fazendo-se necessária uma intervenção legislativa eficaz. O contrário. Constatada uma antinomia. e. c) Critério da Especialidade: também denominado Lex specialis. . por mais que se encontre uma solução para o caso concreto. tomado – como dogma como um todo. portanto. que começa com a sua publicação e perdura até a sua revogação. a antinomia permanece. mas as normas jurídicas podem encerrar antinomias. considerando-se os inúmeros posicionamentos doutrinários e filosóficos a respeito. porque inspirado na expressão latina lex superior derogat legi inferiori. a lei só começa a produzir seus efeitos após entrar em vigência e deixa de produzi-los depois de revogada. O único caso de retroatividade permissível é da lei penal favorável ao réu. em função da expressão latina lex specialis derogat legi generali. já que os conflitos jurídicos não podem ficar sem solução. assim. E o problema não para por aí. 8 . mas sim as suas normas. verificou-se que são disponibilizados ao operador jurídico critérios para afastar as antinomias. O entendimento que norteia esse critério diz respeito à circunstância de a norma especial contemplar um processo natural de diferenciação das categorias. a saber: a) Critério Cronológico: na existência de duas normas incompatíveis. se as normas incompatíveis forem geral e especial." [08] b) Critério Hierárquico: também chamado de Lex superior. sem ferir a norma geral. Tércio Sampaio FERRAZ JÙNIOR. a aplicação da lei especial aquele grupo que contempla as peculiaridades nela presentes. uma norma inferior revogar uma superior é inadmissível. O direito pode até ser harmônico. prevalece a norma posterior. pode-se perceber que as "antinomias jurídicas". Por esse critério. Há de se pensar assim. representam um considerável problema para a Dogmática Jurídica. no campo das antinomias aparentes. completo. Este critério é anunciado pelo brocardo jurídico: lex posterior derogat legi priori. no que tange às antinomias reais. numa injustiça.DA CONCLUSÃO Ao longo do presente estudo. prevalece a hierarquicamente superior. Assim. ampla por demais. Como ensina Norberto BOBBIO. mormente as reais. Por esse critério. é partir do pressuposto de que não é o ordenamento jurídico que é incoerente [09].Vários são os critérios para a solução de antinomias no direito interno. Agora. possibilitando. a aplicação da regra geral importaria no tratamento igual de pessoas que pertencem a categorias diferentes. à medida que elas demonstram que o ordenamento jurídico. no entanto. o que acaba repercutindo na eficácia desse ordenamento. "Do princípio de que a lei só tem eficácia durante a vigência. resulta que nenhuma lei pode aplicar-se a fatos anteriores (nenhuma lei tem efeito retroativo). na existência de normas incompatíveis. como bem disse o prof. perfeito e acabado. Assim. imensa é a insegurança que passa a reinar na sociedade: o ordenamento que era o maior centro de segurança passa a difundir a insegurança e a incoerência.

nas mais das muitas vezes. os operadores jurídicos podem defender a tese segundo a qual o ordenamento jurídico é consistente. até porque o fenômeno das antinomias jurídicas ocorre com freqüência por circunstâncias inevitáveis e especialmente porque aqueles encarregados de confeccionarem as leis não possuem. neles se encontram presentes. . de forma que as soluções para todos os impasses. o conhecimento técnico necessário para essa atividade.porque mesmo a ab-rogação de uma lei pelo Poder Legislativo é uma alternativa prevista pelo ordenamento jurídico. Assim. especialmente entre normas.

203949F.080 0850.20394:7J/./..6:.6:00803.20390039703472.7.438890390 /01472.7.50447/03.8.8 .7.6:0.5476:020824.0504!4/0708.908080:3/4..4397.421706QH3.088.884:085..702. 570.82:9..2570803908 .4310.8 2..4F.- 74.43.4/0:2.8808  0850.3.4 47/03.4F:2.203905476:0.9073.4770.808345488:02 3.94/484825.9.8 30088003.39342./48/0..088E745.9E.008 4..547./0   .430.430.8/.:3893.770.4854/02/0103/07.830.20394:7J/./4708:7J/.89.84...8:7J/.9.9F5476:041032034/..4  882 484507..9.