A Mãe Nevada
Era uma vez, em um rincão distante, vivia uma viúva com suas duas filhas. A filha
mais velha, fruto do casamento anterior da viúva, tinha um coração amargurado e
um semblante sombrio que lembrava muito o falecido pai. A filha mais nova, no
entanto, irradiava beleza interior e exterior, parecendo um reflexo gentil da própria
mãe.
Entretanto, curiosamente, a viúva tinha uma preferência pela filha mais velha. Talvez
fosse por se sentir mais conectada a ela por meio das lembranças do marido. A
filha mais velha vivia uma vida ociosa e despreocupada, desfrutando dos luxos que
a mãe lhe proporcionava. Enquanto isso, a filha mais nova, a enteada, era forçada a
suportar todo o fardo das tarefas domésticas, desde o raiar do dia até as últimas
luzes da noite.
Todos os dias, a enteada carregava um fardo pesado, tanto físico quanto
emocional, e ia até a beira de um poço na estrada. Lá, ela girava um fuso
incansavelmente, tecendo o fio de sua vida com dedicação e, às vezes, com
lágrimas que brotavam de seus dedos machucados. Um dia, enquanto seus dedos
sangravam pela fricção constante, ela decidiu lavar o fuso na água fresca do poço.
No entanto, o fuso escorregou de suas mãos e mergulhou nas profundezas do
poço, desaparecendo de vista.
Em pânico, a jovem voltou para casa, seu coração pesado de desespero, e
compartilhou a terrível notícia com sua madrasta. A mulher, que raramente
mostrava qualquer afeto por ela, explodiu em uma mistura de raiva e frustração:
Como você pôde ser tão negligente? Jogue fora a preguiça e vá recuperar o fuso
imediatamente!
Sentindo-se sem saída, a enteada voltou ao poço, o lugar que agora parecia um
portal para suas aflições. Incapaz de ver qualquer solução, ela se deixou consumir
pelo desespero, saltando no poço com a esperança de resgatar o fuso perdido.
Quando a enteada recuperou a consciência, encontrou-se deitada em um campo
exuberante e vibrante, onde as cores das flores pareciam pintadas por pinceladas
divinas. Ergueu-se, maravilhada com a beleza do lugar que estava tão distante de
sua realidade árdua. Enquanto explorava, deparou-se com um forno coberto de
pães dourados e crocantes. Para sua surpresa, os pães começaram a falar:
Por favor, retire-nos do forno! Já estamos assados e não queremos queimar!
Com gentileza e cuidado, a jovem retirou cada pão dourado do forno, percebendo
que a atitude gentil e atenciosa resultava em recompensas inesperadas.
Continuando sua jornada, ela encontrou uma macieira carregada de frutas
suculentas. As maçãs, maduras e pesadas, clamavam por serem colhidas:
Agite-me! Agite-me! Minha fruta está pronta para cair!
Sem hesitar, a enteada sacudiu a macieira, permitindo que as maçãs caíssem
gentilmente em suas mãos. A cada ação de bondade, o mundo ao seu redor
parecia vibrar com vida e gratidão.
Finalmente, a jovem chegou a uma pequena casa onde uma velha mulher com uma
aparência singular a aguardava. A mulher sorriu com bondade, mostrando dentes
que lembravam as estrelas do céu. Ela se apresentou como Mãe Holle e pediu à
jovem que a ajudasse com suas tarefas diárias. A única exceção era sacudir o
colchão até que as penas voassem, o que causaria a neve na Terra.
A enteada aceitou a oferta da velha mulher e começou a trabalhar com diligência e
alegria. Ela sacudia o colchão com tanto vigor que as penas se transformavam em
flocos de neve, enchendo o ar com uma suave brisa de inverno. Mãe Holle olhava
para a jovem com admiração, pois reconhecia a pureza de coração e o esforço
genuíno que ela trazia a cada tarefa.
Os dias se transformaram em semanas, e a enteada encontrou alegria em servir
Mãe Holle. Seus atos de bondade eram recompensados de maneira mágica. Ela
nunca experimentara um senso tão profundo de pertencimento e propósito.
No entanto, à medida que o tempo passava, a enteada começou a sentir saudades
de sua casa. Ela sentiu falta do cheiro familiar e das lembranças que permeavam
suas paredes. Mesmo que a vida com Mãe Holle fosse encantadora, o anseio pelo
passado a tocava.
Um dia, ela reuniu coragem para expressar seus sentimentos a Mãe Holle:
Mãe Holle, sinto falta de casa. Embora eu ame estar aqui e aprecio cada
momento, ainda anseio pelas memórias que deixei para trás.
Mãe Holle olhou profundamente nos olhos da jovem e sorriu:
Minha querida, sua sinceridade e saudade são tocantes. Por ser uma filha amável
e trabalhadora, merece voltar para casa com uma bênção especial.
Com um gesto gracioso, Mãe Holle acompanhou a enteada até uma grande porta
dourada. Quando a jovem atravessou a porta, uma chuva de ouro caiu sobre ela,
transformando-a em uma visão dourada de beleza. As luzes brilhavam em seus
cabelos e vestes, refletindo a luz do sol em um espetáculo de cores e brilho. A
enteada estava radiante e coberta com a dádiva de Mãe Holle.
Ao caminhar de volta à sua antiga casa, a jovem foi recebida pelo canto triunfante
de um galo que se erguia sobre um poço. A melodia saudava sua chegada,
chamando-a de “a filha dourada”. Sua madrasta e meia-irmã estavam atordoadas
pela transformação esplêndida. Anciosas por ganhar riquezas semelhantes, elas
imploraram para que a filha mais velha também tivesse a oportunidade de visitar
Mãe Holle.
No entanto, a filha mais velha, movida pela ganância, rapidamente revelou seu
verdadeiro caráter. Ela aceitou a oferta de Mãe Holle, mas logo demonstrou
desdém pelas tarefas que lhe foram confiadas. Ela agitou o colchão de forma
desleixada e desobediente, o que resultou em penas voando pelo ar sem qualquer
sentido de ordem. Ela se aproximou da macieira com impaciência, agitando-a com
violência, fazendo com que as maçãs caíssem e se espalhassem pelo chão.
No final de três dias, a filha mais velha estava exausta e mal-humorada. Ela
reclamou com Mãe Holle, alegando que o trabalho era pesado e inútil. Mãe Holle
ouviu suas palavras com paciência, mas sua expressão não denotava aprovação. Ela
então guiou a filha mais velha até a mesma porta dourada pela qual a enteada
havia partido.
Ao atravessar a porta, a filha mais velha esperava ser banhada por uma chuva de
ouro. No entanto, quando as primeiras gotas caíram sobre ela, percebeu que algo
estava errado. Em vez do brilho dourado que esperava, uma substância viscosa e
escura a envolveu. Ela se viu coberta de alcatrão, uma marca de sua falta de
cuidado e respeito pelas dádivas que haviam sido oferecidas.
A filha mais velha retornou à sua casa na vila, encharcada de alcatrão e vergonha. O
galo, que sempre parecia conhecer os segredos do mundo, saudou-a com um
cacarejar de zombaria. Sua madrasta e irmã, em vez de chorar por sua desgraça,
riram da cena lamentável que tinham diante delas.
O alcatrão não apenas cobria a pele da filha mais velha, mas também parecia
grudar em sua alma, lembrando-a de sua avareza e falta de humildade. Ela se
trancou em sua casa, escondendo-se da vergonha e do olhar crítico dos outros. O
alcatrão levou semanas para ser completamente removido de sua pele, mas o peso
de sua atitude negligente levou ainda mais tempo para desaparecer.
Enquanto isso, a enteada dourada retornou à sua casa com um coração cheio de
gratidão e experiências inesquecíveis. Seu rosto brilhava como o próprio sol, e ela
compartilhou suas histórias com sua mãe amorosa. Elas riram e choraram,
compartilhando os momentos de alegria e desafio que fizeram parte de sua
jornada.
O galo continuou a cantar ao amanhecer, lembrando todos os moradores da vila da
importância do trabalho diligente, da generosidade e do respeito por aqueles que
cruzam nossos caminhos. A história de Mãe Holle se espalhou, tornando-se uma
lembrança constante de que as escolhas que fazemos têm o poder de moldar
nosso destino.
E assim, a história de Mãe Holle ecoou através das gerações, um conto de
transformação, virtude e aprendizado. A enteada dourada encontrou seu lugar na
aldeia, iluminando a todos com sua presença radiante. A filha mais velha, após seu
período de escuridão e introspecção, também emergiu com um coração mais
humilde e uma compreensão profunda do valor do respeito.
Nunca mais se esqueceram das lições que aprenderam nas profundezas do poço e
nas terras mágicas de Mãe Holle. A cada amanhecer, o galo cantava a melodia da
história, relembrando a todos que nossas ações, sejam douradas ou escuras, têm o
poder de tocar nossas vidas e as vidas daqueles ao nosso redor. E assim, a jornada
de Mãe Holle continuou, um conto atemporal entrelaçado com os fios do tempo e
da sabedoria.
Referencia: https://historiaparadormir.org/historinha/a-mae-nevada/