Variabilidade Climática: Análise Crítica
Variabilidade Climática: Análise Crítica
/1995
RESUMO
ABSTRACT
The paper discusses the subject climatic variabilityas treated ln a number of papers ela-
borated not systematically, which means they had different purposes, and used different
techniques in different areas. Despite the number of papers, there is no consensus conceming
climatic variability.
nitroso) ao mesmo tempo em que o sistema O presente trabalho apresenta uma discus-
ambiental, que dá o suporte à manutenção da são quanto às formas de tratamento que vêm
vida no planeta, encontra-se profundamente sendo usadas para.essa questão. Longe de se
desestruturado; devido à explotação insustentá- propor a esgotar o tema, pretende-se apresentar
vel dos recursos naturais. Como conseqüência, um panorama parcial dos estudos voltados à
estariam ocorrendo mudanças no padrão de análise da variabilidade climática, demonstran-
precipitação e ventos, esgotamento de vários do que o desenvolvimento dessa temática vem
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se dando de forma não sistemática, dificultando urbano. Para a compreensão das mudanças glo-
a troca de informações entre os diversos estu- bais que vêm afetando o ambiente como um
dos e, conseqüentemente, conclusões mais todo, WOODMANSEE (1988) salienta que são
gerais que possibilítem uma apreensão global necessárias avaliaçqes não apenas na escala
do tema. local, mas no ambiente global. Esse autor clas-
sifica os fenômenos' ambientais em dois tipos:
20S TRATAMENTOS DADOS À fenômenos universais (universal phenomena),
TEMÁTICA que seriam uniformes ao longo de todo o globo
(ex., concentração de certos gases, comoCOz e
ContribuiçÔes isoladas têm sido dadas ao NOz na atmosfera) e fenômenosdisjuntivos
tratamento da variabilidade climática.
(disjunctive phenomena ), que seriam locais ou
Geralmente, são estudos de casos desenvolvi- regionais, mas presentes ,de alguma forma em
dos para atender propósitos específicos, elabo- diferentes partes 'do globo (ex. contaminação de
rados à luz de técnicas e escalas têmporal e água subterrânea, erosão e sedimentação, etc.).
espacial condizentes com essas pesquisas. Há autores que questionam em diferentes
A maior parte dos trabalhos selecionados gralls a validade' de Jtabalhos elaborados na
foram elaborados a partir do final da década de escala local.para a cÔmprêensão da variabilida-
70, em diferentes continentes, porpesquisado- de global, afirmandq.que variações locais e
res com variadas formações e utilizando distin- regionais do tempo',e clima não poderiam ser
tas formas de tratamento.
compreendidas sem a consideração do globo
Os aspectos conflitantes entre os artigos todo. PARKER& FObLAND (1988) manifes-
analisados serão apresentados por temas. Opri- tafu essa idéia, embora admitindo que a variabi-
meiro a se destacar é a diferença quanto ao tra- lidade climática édepêJ)dente não só da com-
tamento escalar da variabilidade ,climática. plex'l dinâmica atJ:Il()sféricae seus processos de
Seguem discussões das técnicas utilizadas na troca com os oceanos e biosfera, mas também
elaboração .dos estudos, impactos da variabili- deinfll1ências extêrnas, como mudanças sola-
dade climática na sociedade e qualidade dos res, erupções vu1cânicase poluição produzida
dados utilizados na elaboração daspesquisas~ pelo homem.
Observam-se não apenas pontos"de vista dife- COUGHLAN & NYENZI (1991), ao
rentes, mas também interesse menor ou até ine- sumarizarem os tipos de tendências e variabili-
xistência de discussão de aspectos de mister dades climáticas a/que uma área pode estar
importância, especialmente relacionado aos sujeita, enfatizama importância de se dirigir
dois últimos temas. estudos para osriíveis local e regional, onde
HARE (1985) discute interações escalares, seus impactos serão .mais sentidos. Ressaltam,
salientando a dificuldade em se detectar even- ta.mbém, a existência de modelos de telecone-
tuais mudanças.e como seria difícil que os 'pro- xão deanomaliasdimáticas sistemáticas e con-
cessos globais fossem afetados "porfatos ocor-
temp9r~neas emdlfên~n'tes partes do gl?bo.
rentes em outras escalas. Essa'Ídéia já havia Entretanto, RIEBSAME & MAGALHAES
sido explorada por MONTEIRO (1978) ao tes- (1991)enfatizam áfato de que muitos.estudos
saltar que a ação modificadora do homem agi- de casos individu,~s de avaliação da variabili-
ria em grau crescente da escala taxonômica dade climática, embora compondo rica base de
(criando as menores unidades e alterando as conhecimento local; não têm contribuído para
médias, ao agir sobre as propriedades extensi- umadh'utunl cbnceitual comum que s~ja mais
vas do clima), aíndaque não dominando a dinâ"'- do que a"soma:ch:l.'spattes. Já GREGORY
mica intrínseca da atmosfera; de onde emanam (f993 ),preocupa-sê com'a repercússão em dife-
os mecanismos geradores da sucessão de seus rentes"11íveísescala,rêsde processos apontados
estados; CLARK (1985), ao avaliar interações comoglobais,aosalienlarque essas alterações
entre clima, ecossistemas e sociedades, põe em podêmêstâr repercutindo de fôrma diferenciada
evidência as diversas ordens de magnitude ou até serem inexistentes a nível local, 6 que
espacial e temporal envolvidas nesses estudos e justificadam estlldbs:nessaescala de maior
ressalta a dificuldade em se combinar escalas detalhe. Investiga dados históricos' de tempera-
de acordo cornos processos e modelos envolvi- tuta e chuva de-ShefHeld, Inglaterra, num
dos. Em seu estudo de caráter'ambiental, IbOM- p~ríôdôde 100 anôs(l891-1990),a nível anual
BARD0 (1985) atesta a significância da ativi'" e;sazÓna.l,conc1uinClô,não'11aver para'essa área
dade urbana no processo de alteração climática evidências ctemuganças, embora apareçam
local, observando existência de ilha de calor na algumas'.tendências,espeeialmente para a tem-
metrópole paulistana,. com maior temperatura peratura.,Ao encontro dessa idéia, PITTOCK já
no centro comercial e declíniono limite rural- manife,st'ara, em\1978, que algumas áreas
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seriam sensíveis às mudanças no padrão mais fatores causais ligados à circulação atmosférica
geral da circulação atmosférica do que outras. de grande escala e efeitos regionaisllocais. Para
Vários outros autores, ao elaborarem estu- a compreensão das diferenças espaciais da plu-
dos para escala de maior detalhe, associam as viosidade na Crdácia, PANDIZIC (1988) atesta
variabilidades encontradas a processos atmos- a importância de aspectos ligados à circulação
féricos de escala global e controles locais. atmosférica abrangendo grandes áreas (passa-
Entre estes, ALDAZ (1971) conclui que a dinâ- gem de ciclones, anticiclones e frentes frias).
mica da atmosfera superior exerceria predomí- Em estudo da chuva por 30 anos nos
nio sobre o regime de chuvas no Brasil, sendo Pampasargentinos, KREPPER. et alo (1989)
que fatores como topografia e insolação teriam avaliam a variabilidade temporal (interanual,
também papel decisivo nas diferentes configu- anual e intra-anual) e espacial pelo emprego,
rações. PITTOCK (1978) assinala que padrões respectivamente, de .função'empírica ortogonal
de flutuação climática em escala espacial e e análise espectral. Notam tendência a aumento
temporal de detalhe são em certa extensão das chuvas e picos máximos de 12-, 6- e 7-
organizados em escala global, ainda que feições meses. Flutuações da chuva anual para
fisiográficas (ex. topográficas) influenciem a Queensland, Austrália, são detectadas por
expressão local desses padrões de flutuação de 'GREGORY (1991) relacionadas a temperaturas
larga escala. MOTHA et ai.(1980) concluem da superfície do oceano Pacífico Tropical
que as variações espaciais da seca na África Oriental. Discorrendo sobre a grande variabili-
Ocidental se devem à posição da Zona de dade natural do clima regional, SHUKLA
Convergência Intertropical (ITCZ), também (1991) ressalta que as anomalias climáticas de
variável devido à influência de fatores zonais. curto período seriam manifestações de intera'-
TALBONY (1981) apresenta os padrões de ções entre atmosfera e biosfera e entre atmosfe-
anomalia de chuva mais importantes na Europa, ra e oceano emescalãs regional e global.
que se' associariam tanto a fatores locais (oro- SUGAHARA (1991) atesta que a Oscilação Sul
grafia) como a eventos de grande escala (gra- afetaria as chuvas no Estado de São Paulo,
diente Norte-Sul). MOLTENI et aI. (1983) associando-se tanto a anomalias positivas como
apontam a relação entre alguns tipos de circula- negativas. WARD & NUNES (1993) sugerem
ção na baixa troposfera da Europa e evolução que o padrão da temperatura da superfície do
de tempo diário no Norte da Itália. GOMES mar, que influencia as chuvas na área tropical
(1984), analisando a variabilidade da chuva na norte da África, interferem também nas chuvas
bacia hidrográfica do Alto Tietê, associa siste- do período mais seco de São Paulo, CO:plclaro
mas atmosféricos e fatores locais que produzem sinal, portantO',de teleconexão. A influência de
os tipos de tempo dominantes na área. eventos fortes de EI'Nifio na organização espa-
NICHOLSON (1986) se apóia em estudos de cial da chuva de outono no entorno da cidade
fenômenos de escala zonal para a compreensão de São Paulo é demonstrada por XAVIER et alo
das anomalias de elementos do clima em seto- .
(1995).
res áridos da África. Muitos estudos têm sido conduzidos tendo
Por outro lado, BARRING (1987) aponta o por propósito principal ou secundário identifi-
inter-relacionamento entre fatores locais como car padrões de variaçãoc1imática que se confi-
orografia ,e interações ar-mar, deabrangência gurem como permanentes em anos mais recen-
espacial bem maior, para a compreensão da tes. Com base em valores de precipitação anual
chuva no Quênia. BRANDÃO (1987) associa a para Barcelona entre 1866 e 1970, ALBENTO-
tendência da chuva e, principalmente, tempera- SA (1975) assinala,que;,principalmente.a partir
tura na região metropolitana do Rio de Janeiro, de 1911, têri.ase iniciadónessa área um período
a fenômenos de grande escala (períodos de bem mais ,chuvoso, não tendo sido possível
maior aquecimento correspondendo a período demonstrar estatisticamente se estaria .ocon;:en'-
de máximas manchas solares). EHRENDOR- do mudança climática'Ilo '.local. TYSON et ai.
FER (1987) atesta também a influência de (1975), analisandO'tendências e .oscilações na
eventos de grande abrangência espacial na chuva da Áfricà do Sul entre 1910-e 1972, con-
compreensão da variabilidade da pluviometria cluemnão haver evidência de que a área estaria
na Austria. Conforme WIGLEY & JONES passando por processo de ressecamento, ainda
(1987), a circulação atmosférica de grande que a' mesma apresente..O'scilações'fracas, de
escala seria o principal controle da variabilida.., 16 a 20 anos, 10 a 12 anos e quasi-biennal,
de da chuva em regiões da Inglaterra e País de que afetariam diferentes setores desse país;
Gales. Em estudo voltado à compreensão da RATCLIFFE et ai. (1978),-analisando anoma-
variabilidade da chuva na Europa mediterrânea, lias de pressãO' em superfície em boa parte do
MAHERAS (1988) comprova a associação de HemisfériO'.Norte, temperatura na parte central
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da Inglaterra e em três outras estações britâni- aumento das chuvas, ,anuais. No' período de
cas e chuvas na Inglaterra e País de Gales em 1941 a 1987 teria' oêblrido aumento estatistica-
períodos de tempo reduzidos (de 5 a 1 ano), mente significativo de até 20% no total anual
não encontram tendência significativa no da chuva no EsÚldo",de.SãÔ'Pauloem todos os
aumento da variabilidade dos elementos anali- meses (exceção de,fêvereito), especialmente de
sados. Pelo estudo de MORAES (1979), não se setembro a dezembro (PINTOet al., 1989).
registra periodicidade para os valores anômalos WOOD (1989), ao examinar a variabilidade
da chuva no Estado de São Paulo. sazonal da pluviometria no período de 1921 a
TALBONY (1979) observa o predomínio 1987 em LondresePlymouth (Sul da
de flutuações randômicas, em seu estudo sobre Inglaterra), conclui 'não haver tendência à
a chuva para a Inglaterra e País.de Gales identi- mudança climática';,..Osresultados das. análises
ficando, também, periodicidades regulares (2,1 de OTTERMAN ,et ai. (1990) para o Sul "de
e 2,4, 3,9, 5 e 6 anos). Ainda esse autor Israel, entre 1942 e 1988, sugerem aumento nos
(1981), interpretando dados de 182 estações de totais de chuva em.toda estação chuvosa nessa
chuva no continente europeu no período de área (outubro a abril}; especialmente em seu
1861 a 1990 e período anterior; detecta existên- início. .
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Parece claro também que alguns temas de incompletos, dificultando uma análise mais
fundamental importância ligados à variabilida- ampla da questão, o atual conhecimento cien-
de climática não têm sido explorados com a tífico, ainda que falho.,justifica preocupações
intensidade necessária, como aqueles ligados à que levam a elaborar estudos de variabilidade
confiabilidade da rede de dados climáticos a climática, dadas as possíveis implicações
nível internacional, mecanismos de troca entre sociais e econômicas das mudanças ambien-
a atmosfera e a sociedade, envolvendo abran- tais do globo, que ante vêem, entre outros
gência espacial, velocidade de resposta, nível aspectos, aumeIítos da variabilidade climática.
de sensibilidade dos diferentes grupos sociais a Deve-se ter em mente'que a pressão da popu-
essa variabilidade, etc. lação crescente do planeta, associada à forma
Ressalta-se aqui o problema da qualidade como se dáo pretensoprocesso de desenvolvi-
dos dados, que pode comprometer seriamente mento econômico, quase que totalmente desar-
resultados de muitos trabalhos baseados em ticulado dos custos ambientais, tem gerado
pressupostos corretos e elaborados com grande profundas alterações, num ritmo muito mais
sofisticação matemática. São comuns proble- acelerado que as mudanças naturais que afeta-
mas como descontinuidade espacial e temporal ram o gloho até então. Esforços têm sido
dos dados, má distribuição dos postos de coleta, devotados para que haja um denominador
dificuldade em se manter equipamentos em comum entre os pesquisadores. Com isso,
áreas inóspitas ou perigosas, mudança dos mes- espera-se que em futuro próximo haja maior
mos' para sítios bem diferenciados das condi- colaboração mútua e ferramental comum de
ções iniciais, leituras comprometidas (desco- modo a promover uma compreensão mais
nhecimento técnico, instrumentos com proble- geral da questão relativa à variabilidade climá-
mas), falta de verba para instalação e/ou manu- tica e suas conseqüências.
tenção de equipamentos, etc.
Apesar de tantos desencontros, dúvidas e 4 AGRADECIMENTO
necessidades a serem providas, a comunidade
científica parece estar de acordo com algumas Aos revisores anônimos, que enriqueceram
questões: se dados e análise existentes são o trabalho comsuàs sugestões e comentários.
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