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O Fantasma e o Guarda-Chuva-2

Conto de ficção

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laura.roberta
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O fantasma e o guarda-chuva

Laura Roberta

Não sei quando deixei de existir. Apenas, me vi desaparecendo lentamente desse


mundo. Na escola, eu sentava na frente, sempre na frente. E ninguém me notava.
Talvez, por ser demasiadamente comum, ou muito sem sal? Nem mesmo eu sei o
porquê disso. Meus professores eram os poucos que ainda me notavam. Ligavam pros
meus pais e lhes diziam:

- O seu filho tem algum problema mental?

Os meus pais não entendiam aquela pergunta, e nem mesmo eu. Minhas notas
não eram ruins, eram até que boas, então por que a estranha indagação?

Os meus colegas de sala me estranhavam. Eu sempre estava sozinho, andando


pelos cantos, pelo corredor, pela biblioteca, sem nunca conversar com ninguém. Eu
sentia, já nessa época, o meu corpo desaparecer lentamente. Meus olhos, antes negros,
começaram a ficar de uma cor cinza. Eu tinha medo de ficar invisível sem querer. Será
que estou doente? Me perguntava.

Na minha adolescência, minha pele começou a ficar translúcida, como se fosse


feita de água. Dava pra ver as minhas veias azuis aparecendo. Percebi que meus
professores deixavam de me notar, e os meus colegas esqueceram da minha existência.
A única prova de que eu existia era que ainda chamavam o meu nome na chamada
regular: John. Tentei fazer amigos naquele tempo, mas... como não sabia me “amigar”,
muitas vezes fui ridicularizado pelas pessoas com quem queria fazer amizade. Desisti de
tentar, quando me pegaram pelos cabelos e enfiaram a minha cabeça na privada do
banheiro da escola, toda cheia de imundícies. Imaginei que não valia a pena tanto
trabalho pra deixar de ser um objeto indefinido.

Meus pais, as únicas pessoas que me notavam ainda, morreram de um acidente


de carro. Passei a morar com uma tia. Essa, mal sentia minha presença na casa. Quando
terminei o Ensino médio, estava mais apagado do que um quadro negro. Minha tia me
pediu contas: “Ou estuda pra trabalhar”, ela me disse, “Ou trabalha agora, e fica sem
estudar durante um tempo”. Pra mim, tanto fazia o estudo quanto o trabalho. Não via

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muito sentido em nada. Minhas mãos estavam desaparecendo, meus olhos estavam já
esbranquiçados, e meus cabelos começavam a ficar da cor do papel. Se eu virasse
fantasma, que diferença faria estudar ou trabalhar, ou fazer os dois ao mesmo tempo?
Me perguntei. Mas minha tia queria uma resposta, não aceitava que eu não fizesse nada,
que fosse um peso-morto na casa.

Decidi fazer faculdade de Administração. Esse curso, fiz num piscar de olhos,
quase sonâmbulo, já desaparecendo. Me olhava no espelho, todos os dias, pra ver se
ainda conseguia ver os meus olhos. Se eu não conseguisse me enxergar, quem iria?

Aos vinte e um, consegui um emprego numa grande empresa, trabalhando como
administrador de gastos. Meu uniforme de trabalhador assalariado era cinza, com um
branco amarelado das calças. Como já podia me manter por mim mesmo, deixei a casa
de minha tia, mas nenhuma palavra de gratidão saiu de meus lábios. E ela, fingindo
amabilidade forçada, de vez em nunca, me chamava pra almoçar na sua casa, uma vez a
cada dois meses.

Meus colegas de trabalho, todos muito ocupados em seus trabalhos, não viam o
dia se apagar. Às vezes, eu ficava o dia todo em frente ao computador, fazendo algo que
não me dava nenhum prazer. Eu e mais umas dezenas de pessoas, todas empregadas,
trabalhadoras! Será que seus olhos também já estavam se apagando? Imaginava em meu
cantinho.

Certo dia, passei mais de dezoito horas trabalhando. O meu chefe tinha me
encaminhado um trabalho urgente. Quando terminei o meu serviço, já era de
madrugada. Voltei pro meu cubículo, ambiente pequeno e solitário. Me olhei no maldito
espelho, e senti que meu rosto havia desaparecido!

Voltei pro meu trabalho com uma máscara de fantasia no rosto, pois não queria
que eles vissem a minha “desfacetude”. Meu chefe me pediu contas, enraivecido como
o diabo:

- Pra que usa essa máscara? Está brincando comigo?!

- Não estou me sentindo bem, senhor – eu disse, sem o olhar. – O meu rosto está
um tanto inchado...

Ele não queria saber das minhas desculpas e me falou “Aqui, é uma empresa
séria. Se está doente, vá pra casa! Se não está, tire essa máscara idiota!”
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- Não vou tirar, senhor – eu disse, já amargurado.

Ele me despediu na hora, se lixando em me pagar os trabalhos extras que eu


havia feito na noite passada. Minhas mãos transparentes tremeram de indignação.
Quando me dei por mim, estava destruindo o computador com o qual me matara de
trabalhar muitas horas a fio! Sim, eu destruí aquela máquina, que era mais importante
que eu, mais importante do que todo mundo daquela empresa, jogando-a no chão e a
pisoteando! Todos os arquivos da empresa que demorei tanto pra criar, apagados,
destruídos. Sorri maldosamente. O meu ex-chefe, horrivelmente transtornado, me deu
um murro na cara tão forte que a minha máscara se partiu em pedaços e caí ao chão,
aturdido. Minha face estava sangrando e meus olhos estavam inchados. Meus colegas de
trabalho assistiram àquela cena sem mover um único músculo, todos muito
acovardados. Falei um “Adeus” baixinho, tão baixinho que ninguém deve ter escutado,
e fui pra fora daquele lugar.

Lá na rua, estava chovendo aos montes, e eu não tinha nenhum guarda-chuva.


Decidi que iria embora pra casa, minha solitária casa, mesmo chovendo. Tudo era
melhor do que continuar naquele lugar! Minhas mãos, já totalmente apagadas, o meu
rosto, do qual apenas eu via o meu sangue escorrer... fantasmas não precisam de guarda-
chuva, pensei. No meio da multidão, ninguém me notará, todo ensopado.
Absolutamente ninguém. E assim, dei o primeiro passo pra rua.

Mas um fato estranho aconteceu comigo: não sentia a chuva me molhando


quando pisei fora da empresa, e ainda estava chovendo ao meu redor! Olhei pra trás e vi
uma garota me protegendo com um guarda-chuva. Era a minha ex-colega de trabalho.
Ela estava sorrindo um sorriso gentil, me estendendo o seu guarda-chuva. Eu a tinha
visto antes, era bonita, toda animada, uma garota dessas que nunca, pensava, olharão pra
mim. Eu me espantei com a sua gentileza. Peguei o guarda-chuva de suas mãos como se
ele fosse uma bomba, de tão desajeitado que eu estava.

- Obrigado... – eu disse, mais emocionado do que tímido. – Mas não vai fazer
falta pra você?

- Não vai, não. Fique com ele. O que o chefe fez com você foi cruel...

- Não faz mal. Eu também mereci. Quebrei o seu computador...

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- Eu também me demiti – ela falou simplesmente. – Hoje mesmo, assim que vi
você se demitir, tomei coragem e fiz o mesmo!

- Eu fiz uma besteira... – digo, pensativo, olhando pras minhas mãos e me


espantando. Agora, elas estavam visíveis aos meus olhos!

A moça me olhava, admirada. Seus olhos eram os mais brilhantes e lindos do


mundo.

- Qualquer um queria ter feito essa besteira antes – ela respondeu. – Ninguém
suporta trabalhar aí! Pode ficar com o guarda-chuva. Qualquer dia desses, a gente se vê
de novo, certo?

- Sim... – e meus olhos se inundaram de lágrimas. Enxuguei o rosto com as mãos


e, quando voltei a enxergar, a moça havia ido embora, me deixando o seu guarda-chuva
como uma lembrança. Voltei a casa, me olhei no espelho, espantado. Os meus olhos
voltaram a ser negros, e o meu rosto, machucado e inchado, voltou a ter uma cor viva. O
seu guarda-chuva havia me ressuscitado!

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