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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE GOIÁS – UNI-ANHANGUERA

EVOLUÇÃO CONCEITUAL DE CULPABILIDADE E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Centro Universitário de Goiás – Uni -Anhanguera Direito Penal - Projeto Pesquisa

RESUMO

Glênio Antônio de Araújo Neto Júnior

Para se poder entender de forma clara o conceito de culpabilidade e suas principais características, é necessário antes verificar como se deu a sua evolução conceitual. Foram desenvolvidas precipuamente ao longo dos anos a Teoria Psicológica da Culpabilidade, a Teoria Psicológico-Normativa da Culpabilidade e a Teoria Normativa Pura da Culpabilidade, que buscaram decifrar de modo didático a culpabilidade, bem como todos os elementos que a circundam como o dolo e a culpa. A Teoria Psicológica tomou por base a Teoria Causalista da Ação, já que considerava prescindível o fim a que a vontade do agente se dirigia. Bastava tão-somente observar se o agente, ao praticar a ação típica, tinha agido voluntariamente. Para esta teoria, a culpabilidade nada mais era do que um liame psicológico que se estabelecia entre a conduta e o resultado, por meio do dolo ou da culpa. Estes eram considerados espécies de culpabilidade. Os pressupostos para a culpabilidade eram imputabilidade e dolo ou culpa. Já a Teoria Psicológico-Normativa enxergou que o dolo e a culpa eram insuficientes para caracterizar a culpabilidade, a ponto de não considera-los mais espécies, mas sim elementos dela. Passou-se a atribuir valor ao dolo e à culpa. Com esta teoria, começou-se a fazer um juízo de censura sobre a conduta. Os pressupostos, que foram objeto de estudo em separado, sofreram considerável modificação em relação às teorias anteriores. São eles : imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa.

PALAVRAS-CHAVE

1. Teoria; 2. Dolo; 3. Culpa; 4. Conduta; 5. Reprovação.

INTRODUÇÃO

A culpabilidade chama a atenção do iniciante nas Ciências Jurídicas em razão

das discussões doutrinárias de grande amplitude acerca do tema que se arrastam ao longo

dos anos.

A começar pela própria etimologia da palavra “culpabilidade”, que significa

estado ou qualidade daquele que é considerado culpado, cria-se no intérprete menos avisado, nos dias de hoje, uma noção falsa sobre o instituto penal, pois pode-se entender que a culpa em sentido lato estaria encampada pela culpabilidade. E este, inclusive, foi o entendimento das duas primeiras teorias sobre o tema. A Teoria Psicológica, primeira a debruçar-se sobre o assunto, entendia que a culpabilidade residia numa ligação de natureza psíquica entre o sujeito e o ilícito penal. Dolo e culpa, assim, seriam formas de culpabilidade. Depois veio a Teoria Psicológico-Normativa, que passou a entender que o dolo e a culpa eram insuficientes para definir a culpabilidade, não sendo modalidades, mas elementos desta, de modo que dolo e culpa, como liames psicológicos entre o agente e o fato, deveriam ser valorados normativamente. Com a força que ganhou a teoria da ação finalista de Welzel, passou-se a questionar a Teoria Psicológico-Normativa, uma vez que o dolo não pode ser elemento do fato e elemento da culpabilidade pelo fato. Daí surgiu a Teoria Normativa Pura, que deu uma nova roupagem ao conceito de culpabilidade, ao concluir que o dolo e a culpa pertencem à conduta e a culpabilidade estaria ligada a um juízo de censura, ou seja, a culpabilidade nada tem a ver com o crime, é elemento externo ao crime. Feito esse apanhado, fica claro que para se entender o conceito de culpabilidade com todas as suas nuances, antes é mister que nos atenhamos ao estudo das teorias que buscaram ao longo dos anos definir o instituto. Esta seria a principal razão para nos aprofundarmos nesta seara. No material pesquisado na Internet acerca do tema, constatou-se sua importância em decorrência das discussões doutrinárias, controvérsias, polêmicas, inovações, cujos conteúdos têm por escopo aprimorar e enriquecer ainda mais o instituto.

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Em tal pesquisa, destacou-se o artigo intitulado “A inexibilidade de conduta diversa como excludente da culpabilidade” do ilustre Juiz Federal no Piauí Roberto Carvalho Veloso, em que o autor, antes de abordar o tema principal, faz uma análise crítica acerca da evolução do instituto da culpabilidade, inclusive mencionando as teorias da culpabilidade. 1 Dessa forma, sentimo-nos mais tentados ainda em desvendar todos os caminhos que procuram alcançar os melhores horizontes para a culpabilidade, bem como tentar trazer suas características principais com o intuito de amoldar a culpabilidade à nossa realidade atual. Feitas as considerações iniciais, passamos agora a analisar cada uma das teorias que procuraram conceituar a culpabilidade, de modo a permitir que o leitor compreenda suas principais características.

Teoria Psicológica da Culpabilidade

Esta foi a primeira teoria a estudar a culpabilidade. Antes de trazer suas características principais, vale a pena tecer algumas considerações sobre a teoria causalista da ação, vez que a teoria em estudo teve como mola propulsora os princípios criados por aquela teoria. De acordo com a Teoria Causalista, Tradicional ou Naturalista, estudada por Jesus (2003, p. 230-232), a conduta é um comportamento humano voluntário no mundo exterior, em que se prescinde do fim a que essa vontade se dirige. Houve uma valorização intensa do comportamento, de modo que para se praticar uma ação típica, era irrelevante perquirir o que o agente queria, ou seja, não interessava a finalidade do agente, mas tão- somente a certeza de que o agente atuou voluntariamente.

A Teoria Causalista ignora que toda ação humana tem um fim, ou seja, ela

separa a ação voluntária de seu conteúdo. Os idealizadores desta teoria foram os alemães

Von Liszt e Beling.

A Teoria Psicológica da Culpabilidade entendia a culpabilidade como um liame

psicológico que se estabelece entre a conduta e o resultado, por meio do dolo ou da culpa.

1 http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp, acesso em 26/11/2.004

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Esta teoria a nosso ver deu o pontapé inicial acerca da responsabilidade subjetiva do agente em matéria de Direito Penal, uma vez que para se responsabilizar alguém por um delito, antes deveria se provar a ocorrência de dolo ou culpa. Por esse motivo já se pode entender que houve um ganho em relação às teorias passadas que defendiam a responsabilidade objetiva. O crime pode, portanto, ser doloso (quando o agente quer o fato) ou culposo (quando o sujeito não quer, mas dá causa ao resultado previsível). O Professor Jesus (2003, p. 460) nesse ponto critica severamente esta teoria, ao afirmar : “se o dolo é caracterizado pelo querer e a culpa pelo não querer, conceitos positivo e negativo, não podem ser espécies de um denominador comum, qual seja, a culpabilidade”. Dessa forma, o dolo e a culpa são considerados espécies da culpabilidade. A conduta é vista num plano puramente naturalístico, desprovida de qualquer valor, de qualquer juízo. A ação é considerada o componente objetivo do crime, enquanto a culpabilidade passa a ser o elemento subjetivo, apresentando-se ora como dolo, ora como culpa. Assim sendo, o único pressuposto exigido para a responsabilização do agente é a imputabilidade aliada ao dolo ou à culpa. Outra crítica feita por Jesus (2003, p. 460) à Teoria Psicológica consiste em que na culpa, com exceção da culpa consciente, não há relação psíquica entre o autor e o resultado, ou seja, não há a vontade de se praticar o fato delituoso. “A culpa é exclusivamente normativa, baseada em juízo de valor acerca da possibilidade de antevisão do resultado”. Já o dolo é um conceito psíquico, ligado à vontade do agente. Vale destacar também, conforme leciona Mirabete (2004, p. 195), “que os atos humanos são penalmente relevantes apenas quando contrariam a norma penal. O dolo e a culpa, em si mesmos, que existem em todos os atos voluntários que causam um dano, não caracterizam a culpabilidade se a conduta não for considerada reprovável pela lei penal”, isto é, às vezes há na conduta do agente o dolo ou a culpa, porém não há o crime por falta de tipificação legal. Desse modo, tanto para o dolo como para a culpa, depreende-se que a prática do fato típico e antijurídico em si mesma está intimamente ligada à vontade do agente. Em outras palavras, só comete o fato delituoso quem o faz pela própria vontade. Isso não quer dizer, no entanto, no caso de culpa, que o agente quer o resultado, que tem a vontade de atingi-lo. Muito pelo contrário, o resultado só ocorre por falta de cuidado do agente. Já no caso do dolo, há presente a vontade livre e consciente de produzir o resultado.

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Pelas críticas que foram expostas, nota-se o porquê de tal teoria não ter prosperado.

Teoria Psicológico-Normativa da Culpabilidade

Segundo Mirabete (2004, p. 196), a partir dos estudos de Reinhard Frank, que em 1907 criou a teoria normativa da culpabilidade, chegou-se à conclusão de que o dolo e a culpa eram insuficientes para caracterizar a culpabilidade, não sendo espécies, mas elementos desta. Há a necessidade de se valorar normativamente o dolo e a culpa. Essa teoria exige, como requisitos para a culpabilidade, algo mais do que dolo ou culpa e imputabilidade. Buscava-se, conforme nos ensina o Mestre Capez (2003, p. 283), “uma explicação lógica para situações como a coação moral irresistível, na qual o agente dá causa ao resultado com dolo ou culpa, é imputável, mas não pode ser punido”. Verificou-se que determinadas condutas, embora dolosas ou culposas, não eram culpáveis, uma vez que, diante da inexigibilidade de outro comportamento, não se tornam reprováveis. Desta forma, o elemento caracterizador da culpabilidade é a reprovabilidade. Segundo ensinamentos do Professor Mirabete (2004, p. 196), “há que se fazer um juízo de censura sobre a conduta. O fato somente é censurável se, nas circunstâncias, se pudesse exigir do agente um comportamento de acordo com o direito.” Dessa maneira, alinharam-se como pressupostos para a culpabilidade a imputabilidade; dolo e culpa; e exigibilidade de conduta diversa. Característica apontada por parte da doutrina, inclusive Capez (2003, p. 283), é que esta teoria considera o dolo normativo, ou seja, não basta a intenção do agente, este deve ter conhecimento de que a ação ou omissão é injusta à sociedade. Ainda, em outras palavras, o agente, ao praticar a ação dolosa, tem que possuir plena convicção de que a comete de forma contrária ao ordenamento jurídico. O dolo, portanto, segundo este entendimento, é constituído pela consciência, vontade e consciência da ilicitude. Entende-se, por outro lado, ser suficiente para caracterizar a teoria em comento o dolo natural, ou seja, não se faz necessário que o agente possua consciência da ilicitude, basta apenas que tenha possibilidade de conhecê-la.

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A Teoria Psicológico-Normativa constituiu um avanço na teoria da culpabilidade e é aceita até hoje por inúmeros penalistas. Como críticas principais a essa teoria podemos citar a presença do dolo e da culpa como elementos da culpabilidade, e esta, sendo fenômeno normativo, possuir como elemento o dolo, que é psicológico. O Professor Jesus (2003, p. 461), ao criticar essa teoria, cita um provérbio alemão: “a culpabilidade não está na cabeça do réu, mas na do juiz; o dolo, pelo contrário, está na cabeça do réu”. A Teoria Psicológico-Normativa da Culpabilidade ou Teoria Normativa da Culpabilidade pode ser, então, entendida em síntese da seguinte forma: o dolo ou a culpa são elementos psicológicos da culpabilidade presentes no autor, e a reprovabilidade, um juízo de valor sobre a conduta praticada.

Teoria Normativa Pura da Culpabilidade

Antes de adentrar nesta teoria, necessário se faz trazer à baila alguns conceitos relacionados com a Teoria Finalista da Ação, que, conforme Capez (2003, p. 283), “teve Hartmann e Graf Zu Dohna como precursores e Welzel, professor da Universidade de Göttingen e de Bonn, como seu maior defensor”, de vez que esta serviu de alicerce à Teoria Normativa Pura da Culpabilidade. Para a Teoria Finalista da Ação, como todo comportamento do homem tem uma finalidade, a conduta é uma atividade final humana e não um comportamento simplesmente causal. Toda vontade está dirigida a uma finalidade. Não se cinge a ação — o comportamento — de seu conteúdo (fim da ação). Para esta teoria o dolo e a culpa integram a conduta.

Desse modo, a vontade constitui elemento indispensável à ação típica de qualquer crime, sendo seu próprio cerne. Isso, entretanto, não tem o condão de deslocar para o âmbito da ação típica, igualmente, o exame do conteúdo de formação dessa vontade, estudo que há de se reservar à culpabilidade. Welzel observou que o dolo não pode permanecer dentro do juízo de culpabilidade, deixando a ação humana sem o seu elemento característico, fundamental, que é a intencionalidade, o finalismo.

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A culpabilidade passa a ser puramente valorativa ou normativa, isto é, puro

juízo de valor, de reprovação, que recai sobre a conduta praticada pelo autor do delito. Vale destacar que só há de se falar em culpabilidade se antes houvera um fato

doloso ou culposo tipificado pela lei penal e contrário ao ordenamento jurídico, ou seja, a culpabilidade pressupõe o dolo ou a culpa, mas a recíproca não é verdadeira, de modo que pode haver dolo e culpa, sem, porém, haver a culpabilidade.

O dolo que foi retirado da culpabilidade e transferido para o fato típico é o dolo

natural, composto apenas de consciência e vontade. A potencial consciência da ilicitude,

por outro lado, destacou-se do dolo e passou a constituir elemento autônomo. Diante disso, três são os elementos da culpabilidade para esta teoria, a saber :

imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa.

A culpabilidade não se reveste da característica psicológica, como pensava a

doutrina tradicional. Os elementos que compõem a culpabilidade, segundo Maurach, citado por Jesus (2003, p. 462), “são puros juízos de valor, excluídos de qualquer fator psicológico”. Assim sendo, a culpabilidade, que é um fenômeno normativo, passa a conter somente elementos normativos. Destarte, o entendimento majoritário da doutrina perfila-se a esta corrente, sobretudo porque a culpabilidade está intrinsecamente ligada à idéia de reprovação social, no sentido de se transparecer juridicamente como elemento exterior ao crime, muito embora seu estudo e conceito não possam se dissociar do dolo e da culpa, que são elementos pertencentes à conduta do sujeito ativo do ilícito penal. Convém agora tecer alguns comentários acerca de cada um dos elementos normativos da culpabilidade, uma vez que se entende ter o Código Penal Brasileiro adotado a teoria finalista da ação, correspondente à teoria normativa pura da contabilidade.

Imputabilidade

Existem três importantes sistemas a respeito da imputabilidade: o biológico, o psicológico e o biopsicológico. O nosso Cógigo, segundo Noronha (1991, p. 162-163), ao lado do italiano, suíço, argentino e alemão, adotou o último.

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De acordo com Bruno (1978, p. 39), “imputar é atribuir a alguém a responsabilidade de alguma coisa. Imputabilidade penal é o conjunto de condições pessoais que dão ao agente capacidade para lhe ser juridicamente imputada a prática de um fato punível”.

De acordo com o art. 26, caput, do Código Penal Brasileiro, “É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento”. Assim, tal artigo definiu o conceito de inimputável. A contrario sensu, confome nos ensina o Mestre Jesus (2003, p. 469),”imputável é o sujeito mentalmente são e desenvolvido, capaz de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento”. Dessa forma, para ser considerado imputável, não se exige que o agente tenha consciência de que sua conduta se encontra descrita em lei como infração. Basta apenas que o agente tenha a capacidade de saber que sua conduta contraria a norma penal. Tal capacidade advém de sua saúde mental, de modo que consegue entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento. As causas que excluem a imputabilidade são as seguintes : doença mental, desenvolvimento mental incompleto, desenvolvimento mental retardado, embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior. Os menores de 18 anos de idade, que são considerados inimputáveis, são abrangidos pela expressão “desenvolvimento mental incompleto”.

Potencial Consciência da Ilicitude

Há, segundo Jesus (2003, p. 475), quatro teorias que tratam da consciência da ilicitude na estrutura do delito, variando de acordo com a doutrina adotada em relação ao conceito da ação e da culpabilidade, quais sejam : teoria extrema do dolo; teoria limitada do dolo; teoria extrema da culpabilidade; e teoria limitada da culpabilidade. Abordaremos apenas a teoria extrema da culpabilidade em razão de seu fundamento, que é a teoria finalista da ação e a teoria da culpabilidade normativa pura. Deste modo, conforme já destacamos anteriormente, o dolo, que é elemento psicológico, não pode ser integrado pelo conhecimento do ilícito, cuidando-se de elemento subjetivo do tipo. Já a consciência da ilicitude, que é elemento normativo, não possui dados

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psicológicos, de modo que a falta de consciência da ilicitude não tem influência sobre a existência do dolo, sendo, por conseguinte, analisada na culpabilidade. Segundo ainda Jesus (2003, p. 477), “se o magistrado chega à conclusão de que

o sujeito não teve possibilidade de conhecer o caráter ilícito do fato, deve absolvê-lo, não

por ausência de dolo, mas por inexistir reprovabilidade (culpabilidade)”. Assim, alguém que tenha acesso amplo à informação e é ciente das normas proibitivas ou tenha a possibilidade de conhecê-las, deve ser punido com rigor, ao passo que aquele, por uma razão ou outra, não possuía condições para conhecer o caráter ilícito do fato, não deve ser considerado culpado, uma vez que configura-se a exclusão da culpabilidade, por não existir a potencial consciência da ilicitude. Vale citar Capez (2003, p. 301), para melhor entender a potencial consciência da ilicitude. Assim leciona: “o que importa é investigar se o sujeito, ao praticar o crime, tinha a possibilidade de saber que fazia algo errado ou injusto, de acordo com o meio social que o cerca, as tradições e costumes locais, sua formação cultural, seu nível intelectual, resistência emocional e psíquica e inúmeros outros fatores”. Portanto, fica claro que para se excluir a potencial consciência da ilicitude e, por conseqüência, excluir a culpabilidade, deve-se demonstrar de forma cabal que, à época do cometimento do crime, o agente não sabia ou não tinha condições de saber que estava cometendo um ilícito penal.

Exigibilidade de Conduta Diversa

Para que alguém possa ser considerado culpado, não é suficiente que seja imputável e que tenha cometido o crime com possibilidade de lhe conhecer o caráter ilícito.

É necessário também que o agente, nas circunstâncias do fato, tivesse a possibilidade de

realizar outra conduta, de acordo com o ordenamento jurídico. O que equivale a dizer que se o agente não tinha como proceder de outra forma, ou seja, não havia como nas circunstâncias realizar outra conduta, não restará configurada a culpabilidade, em decorrência de inexigibilidade de conduta diversa. Capez (2003, p. 303) muito bem conceitua a exigibilidade de conduta diversa :

“consiste na expectativa social de um comportamento diferente daquele que foi adotado

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pelo agente. Somente haverá exigibilidade de conduta diversa quando a coletividade podia esperar do sujeito que tivesse atuado de outra forma”.

A lei prevê duas hipóteses que levam à exclusão da exigibilidade de conduta

diversa, quais sejam, a coação moral irresistível e a obediência hierárquica. Nestas condições, segundo a lei, não se pode exigir do agente outra conduta, o que o torna não- culpado em virtude da inexigibilidade de conduta diversa. Dessa forma, só há culpabilidade quando o agente, ao poder agir de outra forma conforme o ordenamento jurídico, age de forma contrária à norma penal ao cometer o delito. Por outro turno, quando a coletividade não exige do agente que cometeu o ilícito penal outra forma de comportamento, não incidirá o juízo de reprovação, excluindo-se a culpabilidade em face de inexigibilidade de conduta diversa.

Conclusão

Por tudo que foi exposto, fica nítido que todas as teorias contribuíram para o aperfeiçoamento do estudo da culpabilidade. Houve um avanço gradual do instituto, de forma que o próprio conceito de culpabilidade e suas características foram sofrendo variações com o passar dos anos.

A Teoria Psicológica da Culpabilidade, que considerava a conduta num plano

puramente naturalístico, desprovida de valor, não obteve êxito sobretudo em razão de caracterizar o dolo e a culpa como espécies da culpabilidade. Essa teoria entendia a culpabilidade como um liame psicológico que se estabelece entre a conduta e o resultado, por meio do dolo e da culpa. Assim, exigia-se para a responsabilização do agente apenas a imputabilidade aliada ao dolo ou à culpa.

Em que pese tal teoria entender irrelevante a finalidade do agente ao cometer um delito, bastando tão-somente a certeza de sua vontade, teve, por outro lado, o mérito de valorizar a responsabilidade subjetiva do agente em matéria de Direito Penal, pois para se responsabilizar alguém por um fato típico, antes se fazia necessário provar a ocorrência de dolo ou culpa do agente.

Já a Teoria Psicológico-Normativa, que é aceita até hoje por vários penalistas,

valorou normativamente o dolo e a culpa, ao exigir como requisito, para a culpabilidade,

além do dolo ou culpa e imputabilidade, a reprovabilidade.

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A idéia da reprovabilidade ganhou destaque ao se verificar que determinadas

condutas, embora dolosas ou culposas, não eram condenáveis, já que, diante da inexigibilidade de outro comportamento, não se tornavam reprováveis. Dessa forma, segundo esta Teoria, os pressupostos para a culpabilidade passaram a ser a imputabilidade; dolo ou culpa; e exigibilidade de conduta diversa. Essa Teoria só não obteve mais sucesso por considerar o dolo e a culpa como elementos da culpabilidade. Ora, se esta é fenômeno normativo, como pode possuir o dolo, que é elemento psicológico, como seu elemento? Destarte, para a Teoria Psicológico-Normativa, o dolo ou a culpa são elementos psicológicos da culpabilidade presentes no autor, e a reprovabilidade nada mais é do que um juízo de valor sobre a conduta praticada. Por seu turno, a Teoria Normativa Pura da Culpabilidade, com base na Teoria Finalista da Ação, considera a culpabilidade um fenômeno puramente valorativo ou normativo, ou seja, puro juízo de reprovação, que recai sobre a conduta praticada pelo autor do delito.

A culpabilidade pressupõe o dolo ou a culpa, vale dizer, só se questiona se

houve a culpabilidade se antes houvera dolo ou culpa na conduta do agente, tipificados, é

claro, na norma penal.

O dolo, composto de consciência e vontade, foi retirado da culpabilidade e

deslocado para a conduta do agente. A potencial consciência da ilicitude, por sua vez, destacou-se do dolo e passou a constituir elemento autônomo. Dessa forma, três são os elementos da culpabilidade para esta Teoria, quais sejam: imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa, de modo que a culpabilidade, que é um fenômeno normativo, passa a conter somente elementos normativos. Assim, a culpabilidade está intrinsecamente ligada à idéia de reprovação social, de forma que se consubstancia como elemento exterior ao crime, a despeito de seu estudo e conceito não poderem se dissociar do dolo e da culpa, que são elementos pertencentes à conduta do sujeito ativo.

Esta é, por conseguinte, a teoria seguida pela maior parte da doutrina e adotada por nosso Código Penal.

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Bibliografia

BRUNO, Aníbal. Direito Penal, Parte Geral, editora Forense, 1.978;

CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal, Parte Geral, editora Saraiva, 6ª edição, 2.003;

JESUS, Damásio E. de. Direito Penal Brasileiro , Parte Geral, editora Saraiva, 26ª edição, 2.003;

MIRABETE, Júlio Fabbrini. Manual de Direito Penal, Parte Geral, editora Atlas, 21ª edição, 2.004;

NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal, editora Saraiva, 2ª edição, 1991;

VELOSO, Roberto Carvalho. A inexigibilidade de conduta diversa como excludente da culpabilidade penal. Jus Navigandi, Teresina, a. 4, n.45, set.

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