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HELÔ OLIVEIRA
ALUGA-SE UM AMOR
1ª Edição
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte dessa obra
poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma, meios
eletrônicos ou mecânico sem consentimento e autorização por
escrito do autor/editor.
Capa: Hero Dark
Diagramação: Bianca Carvalho
Revisão: Caroline Ferreira
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora.
Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. Nenhuma
parte desse livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer
meios existentes - tangíveis ou intangíveis sem prévia autorização da
autora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº
9.610/98, punido pelo artigo 184 do código penal.
CONTEÚDO ADULTO
PROIBIDO PARA MENORES DE DEZOITO ANOS.
CITAÇÃO
PLAYLIST
OUTRAS OBRAS
DEDICATÓRIA
SINOPSE
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
EPÍLOGO
NOTAS DA AUTORA
AGRADECIMENTOS
SOBRE A AUTORA
CITAÇÃO
"Foi só um contrato. Mas o que ele fez com meu coração...
não tinha cláusula que explicasse."
PLAYLIST
PLAYLIST OFICIAL — ALUGA-SE UM AMOR
"Do anúncio no jornal ao altar... cada faixa carrega um
pedaço desse amor que começou de mentira e virou tudo."
Entre um beijo no gazebo, uma dança lenta no casamento e
uma declaração inesperada diante de todos, essa playlist é a trilha
sonora perfeita para reviver cada capítulo da jornada de Olivia e
Ethan.
Aqui tem música pra rir com a Tia Margot, chorar com a dor
do passado, suspirar com as promessas sussurradas no escuro e se
arrepiar com os votos de um amor verdadeiro.
Dê o play, feche os olhos e deixe que cada batida te leve de
volta para Seattle...
Porque algumas histórias não terminam no "felizes para
sempre". Elas apenas começam.
Ou clique aqui:
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OUTRAS OBRAS
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câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse a minha loja
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DEDICATÓRIA
Para todas as mulheres que já pensaram que precisavam ser
mais magras, mais calmas, mais perfeitas...
E que hoje sabem que o único “mais” que importa é mais
feliz.
Para as que foram deixadas por babacas e ainda assim
levantaram, passaram um batom e disseram:
“Quer saber? Eu vou virar a protagonista da minha própria
comédia romântica.”
Para as que amam rir, gozar, errar, recomeçar e se apaixonar
por homens que sabem segurar na cintura e no emocional.
E, claro, para todas que sonham com um amor que não vem
de filme…, mas que, se vier com contrato, pelo menos que seja com
cláusula de beijo molhado, gemido abafado e promessas de
eternidade.
Esse livro é pra você.
Que sabe que ser mulher é viver entre o caos e o salto alto
—E ainda arranjar tempo pra amar com tudo.
Com carinho,
De uma autora que também alugaria um acompanhante se
ele parecesse com o Ethan.
SINOPSE
Olivia Carter acreditava no amor verdadeiro… até flagrar seu
noivo em uma performance digna de prêmio e o papel principal não
era dela.
Depois de meses de terapia intensiva à base de sorvete e
maratonas de séries deprimentes, ela chegou a uma conclusão
definitiva: relacionamentos são superestimados.
Agora, seu foco é o trabalho, as amigas e uma vida livre de
surpresas emocionais.
Mas o universo, como sempre, adora uma piada de mau
gosto.
Quando o convite para o casamento de sua irmã chega,
Olivia percebe que terá que encarar o seu maior pesadelo: retornar
à cidade natal, encarar parentes fofoqueiros e, como se não
bastasse, reencontrar o ex-noivo… que agora está noivo de outra.
A solução perfeita surge nas páginas de um jornal: um
acompanhante de luxo, bonito de um jeito irritante e especializado
em interpretações convincentes.
Ethan parece o homem ideal para o papel de “namorado
perfeito”.
O acordo é simples: fingir por um fim de semana e seguir
em frente.
O problema? Ethan é bom demais no que faz.
Bom o suficiente para fazer o coração acelerar, as pernas
tremerem e a mente esquecer que tudo aquilo é só encenação.
Agora, com toda a cidade acompanhando cada passo desse
“casal dos sonhos”, Olivia começa a suspeitar de que possa ter
cometido um erro fatal: contratar um homem que representa um
perigo real para sua sanidade emocional… e uma ameaça deliciosa à
sua resistência física.
Porque algumas mentiras são boas demais para serem
desfeitas.
E certas chamas… simplesmente não se apagam.
PRÓLOGO
OLIVIA
Seattle, Estados Unidos
Se um dia me perguntassem qual seria o pior jeito de
começar uma segunda-feira, eu diria:
Acordar atrasada.
Descobrir que o café acabou.
Ser batizada por uma poça d’água suja no meio da rua.
Adivinha qual foi o meu combo matinal?
— OLHA POR ONDE ANDA, SEU IMBECIL! — berro para o
motorista que passa a toda velocidade, criando um tsunami
particular bem em cima de mim.
A água gelada atinge minhas pernas, meus seios, meu rosto.
Molhada. Encharcada. Destruída.
Ótimo. Simplesmente ótimo.
O motorista nem sequer diminui. O Porsche preto segue seu
caminho como se não tivesse acabado de cometer um atentado à
dignidade alheia.
Filho da puta.
Se existisse um prêmio para a pessoa mais azarada do dia,
eu já podia subir no palco, aceitar o troféu e agradecer à Academia.
Chego ao escritório parecendo um poodle que brigou com
uma mangueira de incêndio. Assim que Hannah me vê, sua boca se
abre em um sorriso malicioso.
— Amiga, resolveu inovar? Tomar banho na rua antes do
trabalho? Só esqueceu de tirar a roupa, né, gata? — ela ri feito uma
hiena descontrolada.
— Um idiota passou voando na rua e me fez virar modelo de
comercial de sabão em pó. Mas sem o sabão.
Hannah gargalha enquanto eu tento me secar inutilmente.
Minha saia parece mais justa do que na semana passada. Alerta
vermelho: menos chocolate, mais dignidade, Olivia.
Mas quem consegue fazer dieta quando tem que lidar com
ex-namorados traidores e uma mãe que acha que sua vida amorosa
deveria ser um projeto social?
— Isso chegou pra você. — Hannah estende um envelope
dourado.
E é aí que minha segunda-feira, que já estava um lixo,
decide atingir o nível catástrofe.
Nem preciso abrir para saber do que se trata. Meu coração
já está fazendo acrobacias dentro do peito.
O convite de casamento da minha irmã mais nova, Claire.
Respiro fundo.
Sim, eu amo minha irmã. Mas voltar para minha cidade natal
significa encarar Steven. O ex. O traidor. O homem que destruiu sete
anos da minha vida e ainda teve a audácia de me trocar pela minha
própria prima.
E, para completar a desgraça, minha mãe provavelmente já
está afiando a língua para me lembrar que:
Eu deveria ser a primeira a casar.
Meu relógio biológico está mais acelerado que uma Ferrari.
Eu preciso largar os doces se quiser “arrumar um marido
decente”.
Ah, família... sempre elevando a autoestima com a sutileza
de um trator.
— Esse dia ia chegar mais cedo ou mais tarde, Liv — diz
Hannah, pousando a mão no meu ombro com um olhar que mistura
pena e diversão.
— Eu preferia que fosse mais tarde. Tipo, nunca — suspiro.
— Você está incrível, Olivia — Cindy, sempre a voz da razão,
me entrega um café.
Elas estão comigo desde a faculdade. Depois que montamos
nosso próprio escritório de advocacia, se tornaram minha rede de
apoio.
Elas me impediram de enviar mensagens humilhantes para
Steven (ok, impediram algumas), me ajudaram a reconstruir a
autoestima, e me lembram todos os dias que eu mereço mais.
Mas...
— Ainda estou sozinha.
— E o que tem de errado nisso? — Hannah cruza os braços.
— Eu só... queria que ele me visse com outra pessoa. Só pra
ele saber que não acabou com a minha vida.
— Você quer vingança — Cindy estreita os olhos.
— Não é vingança.
— “Não” dito desse jeito significa “sim” — zombeteia
Hannah.
— Olha, se você quer chegar lá plena, mostrando que está
melhor sem ele... contrata um namorado de mentira — Cindy
sugere, como se estivesse pedindo pizza no aplicativo.
Ê
— O QUÊ?!
— Vi um anúncio hoje cedo. Um acompanhante profissional
— Hannah puxa um jornal da mesa e abre. — E olha só: ele é ator!
Pego o jornal e encaro a foto do sujeito.
Uau.
O homem é simplesmente... um pecado ambulante. Alto,
corpo definido, sorriso perigoso e um olhar que provavelmente já
causou algumas gravidezes só de existir.
— Isso não faz sentido! Eu não posso gastar meu dinheiro
com um acompanhante!
— Então vai sozinha. Ou melhor, vai com a cara e a
coragem. Ou com uma placa escrita “sozinha, porém fabulosa” —
Hannah sorri.
Reviro os olhos e vou para minha sala.
Mas antes...
Volto, pego o jornal e fecho a porta com um estalo decidido.
Sento à mesa, abro meu notebook e, por impulso, digito o
nome do idiota no Instagram.
Lá está ele. Steven. Ostentando sorrisos ao lado de modelos
que parecem saídas de um catálogo da Victoria’s Secret.
ÓTIMO. Ele com certeza vai levar uma delas para o
casamento. E, claro, a vadia da minha prima.
Antes que possa me arrepender, pego o jornal, anoto o
contato e envio a mensagem:
"Bom dia, estou interessada no seu serviço."
Dois segundos depois, os tracinhos azuis aparecem.
— Ah, droga.
Agora é tarde demais.
CAPÍTULO 1
ETHAN
Seattle, Washington
Minha vida virou uma bagunça deliciosa desde que deixei a
casa dos meus pais em Michigan.
Eles são médicos renomados, daqueles que estampam capas
de revistas e palestram sobre salvar vidas. Eu? Mal consegui
sobreviver ao segundo ano da faculdade de medicina sem sentir que
minha alma estava sendo sugada por um estetoscópio.
Então, cai fora.
Sempre fui do tipo que gosta de conhecer pessoas, viver
experiências novas. E, convenhamos, minha profissão atual me
proporciona exatamente isso. “Acompanhante de luxo” soa mais
sofisticado do que “garoto de programa”, e o dinheiro é ótimo. Além
disso, tenho o privilégio de proporcionar a algumas mulheres algo
que muitos homens por aí nem sonham em oferecer: uma noite
memorável.
Nem todas, claro. Só as que realmente me interessam.
Minha rotina em Seattle é perfeita. Bons contatos, bons
restaurantes, bons drinks e uma cama que nunca fica vazia. O
melhor? Estou longe das cobranças infinitas dos meus pais.
Ou melhor... estava. Porque agora estou a caminho de visitá-
los.
O trânsito em Seattle está um inferno, e já estou atrasado
para o aeroporto.
O sinal abre, piso no acelerador, desvio de um carro parado
e...
Splash.
Uma onda de água suja sobe pelo retrovisor, cobrindo
completamente uma mulher que caminha na calçada.
Ah, merda.
Olho rapidamente pelo espelho e vejo a figura de saia e salto
completamente ensopada — e furiosa.
Pelo movimento da boca, ela definitivamente está me
xingando.
Meu instinto é parar.
Mas então vejo o relógio no painel.
Se eu parar, perco meu voo.
— Foi mal, moça — murmuro, apertando o volante.
E sigo em frente.
Definitivamente não é meu melhor momento.
Aeroporto. Fila de embarque. Tédio absoluto.
Meu celular vibra no bolso.
Mensagem nova.
Cliente nova.
Mas, no exato momento em que tento abrir, a bateria morre
de forma dramática.
— Sério? Agora? — resmungo, encarando a tela preta.
Azar da cliente. Ela vai ter que esperar.
Duas horas e meia depois, desembarco em Michigan. E lá
estão eles: os Bennett.
Minha mãe e meu pai, parados lado a lado, de mãos dadas,
com sorrisos tão forçados quanto o bronzeado da minha tia Glenda
— como se tivessem saído diretamente de um comercial de
margarina vencida.
Eles são a definição viva de “felizes para sempre”. O casal que
nunca briga feio, nunca se desrespeita, nunca tem uma DR épica no
meio de um restaurante. Cresço vendo um casamento baseado no
respeito e na admiração mútua, algo que deveria ser inspirador...,
mas que, pra mim, sempre pareceu falso demais. Ensaiado demais.
Uma peça onde só eu não recebi o roteiro.
Meu pai me olha de cima abaixo, visivelmente incomodado
com minhas roupas despojadas e meu cabelo mais longo do que o
"aceitável" para um Bennett. Já posso ouvir o julgamento silencioso
ecoando em seu olhar.
— Ethan, bem-vindo! — ele diz, como se fosse natural me
receber depois de anos me tratando como um erro de cálculo
genético.
Minha mãe, claro, aproveita para me analisar como se
estivesse avaliando um corte malfeito de carne. Nunca aceitou a vida
que escolhi, e sinceramente? Já estou calejado. Ela provavelmente
me considera o desgosto em forma de filho.
No caminho para casa, recebo a atualização da vez: Daniel,
meu irmão mais novo, está fazendo aniversário e teremos um jantar
“sofisticado”, palavras do meu pai, não minhas.
Ótimo. Mal posso esperar. Será apenas mais uma
oportunidade para me lembrarem, com jeitinho passivo-agressivo,
que sou a decepção da família. O filho rebelde. O que deveria estar
à frente dos negócios, mas preferiu um mundo de sorrisos alugados
e lençóis bagunçados.
A noite segue regada a comida boa, vinho caro e meu pai
tentando, pela milésima vez, me convencer a ficar em Michigan.
— Ethan, por que não fica um tempo por aqui? Poderia ser
bom para todos nós. Você precisa se interessar pelos negócios da
família. Não pode deixar toda a responsabilidade para o seu irmão.
Minha mãe me observa com aquele olhar cheio de expectativa
disfarçada. Daniel, por outro lado, parece alheio, entretido demais
com o próprio celular para sequer perceber que está sendo exaltado
como herdeiro oficial.
Respiro fundo. Sinto o ar me faltar. É sufocante.
— Minha vida é em Seattle, pai — digo, firme.
— Sendo garoto de programa — minha mãe dispara com
veneno na voz.
— Eu sou ator — a encaro, sem piscar.
— Você é um acompanhante, Ethan — ela rebate, mordendo
as palavras.
— Eu interpreto o papel de namorado pelo tempo que minhas
clientes precisarem. E sabe o que mais? Faço isso muito bem.
— Você é uma vergonha para a nossa família.
— Ouvir isso de você não é nenhuma novidade, mamãe —
cuspo as palavras, sem o menor esforço para ser educado.
— Basta! — meu pai bate a mão sobre a mesa. — Não quero
mais ouvir nada sobre esse assunto.
O jantar continua no mais absoluto silêncio. Apenas o som
dos talheres ecoa pela sala de jantar absurdamente elegante dos
Bennett.
E ali, entre uma garfada e outra, tenho certeza: não pertenço
mais a esse lugar. Talvez nunca tenha pertencido.
Mais tarde, quando a casa enfim mergulha no silêncio e todos
dormem, conecto meu celular na tomada.
A tela se ilumina.
NOVA MENSAGEM.
"Bom dia, estou interessada no seu serviço."
Humm… interessante.
Curioso, digito rapidamente minha resposta:
"Claro, posso te contar tudo que precisa saber. Prefere
discutir pessoalmente ou por mensagem?"
Envio a mensagem e deixo o celular de lado.
Por um instante, olho para o teto do quarto onde cresci, e
que agora parece estranho. Pequeno. Apertado demais para quem
descobriu que o mundo lá fora é infinitamente mais interessante.
Poderia ter seguido o caminho tradicional, estudado medicina,
casado com alguma garota previsível de Michigan, e vivido uma vida
previsível com um cachorro previsível.
Mas essa nunca foi minha história.
E, pelo visto, minha próxima aventura acaba de começar.
CAPÍTULO 2
OLIVIA
Estou passando os canais da TV, sem nem lembrar que
mandei aquela mensagem, quando a vibração do celular me arranca
da hipnose televisiva.
"Claro, posso te contar tudo que você precisa saber. Prefere
discutir pessoalmente ou por mensagem?"
Pessoalmente? Nem pensar.
Sou do tipo que trava só de pedir pizza pelo telefone.
Imagine negociar um relacionamento falso cara a cara com um
homem que, pela foto, parece o protagonista de um livro erótico.
Respiro fundo e digito:
"Por mensagem está bem. Pode me dar mais detalhes sobre
como funciona e quais são as suas disponibilidades?"
Enquanto espero, minha mente oscila entre o bom senso e o
desespero absoluto.
Contratar um acompanhante é insano. Mas também é
brilhante. Mas, principalmente, insano.
Só que a ideia de aparecer no casamento sozinha, vendo
Steven com a nova namorada modelo, me dá um embrulho no
estômago.
O celular vibra de novo.
"Claro, vou te explicar tudo. Vamos começar com um bate-
papo sobre suas necessidades e preferências. Podemos marcar uma
conversa por telefone ou, se preferir, nos encontrar pessoalmente."
Necessidades e preferências?
Parece que estou encomendando um sofá sob medida, não
um namorado de mentira.
Mas, bem... eu realmente estou prestes a pagar para alguém
fingir que me ama. Então talvez esse nível de personalização faça
sentido.
Respondo rápido:
"Podemos conversar por aqui mesmo. Basicamente, preciso
de um namorado convincente para o casamento da minha irmã. O
evento dura um final de semana, e eu quero que pareça o mais real
possível."
A resposta vem quase de imediato:
"Entendido. Sou muito bom em fazer as pessoas acreditarem
no que querem ver. Me conta um pouco mais sobre você e o que
espera desse acordo?"
Ótimo. Agora preciso me vender para um acompanhante.
Quem sou eu?
Bom, sou uma advogada de trinta anos prestes a vender a
própria dignidade para parecer bem na frente do ex.
Mas achei melhor suavizar:
"Meu nome é Olivia Carter. Sou advogada, tenho trinta anos,
moro em Seattle e… basicamente, quero que meu ex veja o que
perdeu."
Minutos depois, ele responde:
"Ah, a clássica vingança do ‘olha como estou incrível sem
você’. Adoro. Podemos fazer isso funcionar. Como quer que nossa
‘história de amor’ seja? Algo arrebatador ou mais discreto? Ex-
namorados que se reencontraram? Ou um romance tórrido que
começou na Grécia após um tropeço na praia?"
Reviro os olhos e solto uma risada. Esse cara leva o trabalho
a sério.
"Algo realista, por favor. Nos conhecemos em Seattle e
começamos a namorar há alguns meses. Nada muito exagerado. E o
mais importante: você precisa parecer absolutamente obcecado por
mim. Olhares apaixonados, toques carinhosos, tudo isso. Quero que
pareça que eu sou a mulher mais incrível do planeta."
A resposta vem quase imediatamente:
"Entendido. E, felizmente para você, sou um excelente ator.
Posso fazer até sua avó acreditar que sou o amor da sua vida.
Agora, um detalhe importante: qual o nível de demonstração pública
de afeto você está confortável? Beijos, abraços, olhares cheios de
desejo? Ou só quer que eu carregue sua bolsa e te sirva
champanhe?"
Meu Deus. Eu estou realmente fazendo isso.
Tento manter a dignidade ao responder:
"Se for para parecer real, então… o pacote completo."
Nova mensagem:
"Olivia, você vai adorar fingir que namora comigo."
Merda.
Olho novamente para a foto dele no celular.
Ele é um puto. Mas um puto de um gostoso.
Ninguém vai acreditar que eu arrumei um namorado assim.
Está na cara que é mentira.
Melhor cancelar. Melhor aguentar as lamentações da minha
mãe e o deboche de Steven. Melhor...
O celular vibra de novo.
"Podemos marcar um café para conversarmos pessoalmente
antes de fechar qualquer acordo. Sem compromisso. Apenas um
bate-papo."
Bom, um café não é um contrato de casamento, certo?
Respondo antes que minha covardia me convença do
contrário:
"Ok. Podemos nos encontrar amanhã?"
"Amanhã está ótimo. Escolha o local e o horário, eu estarei
lá."
Pronto.
Eu oficialmente marquei um encontro com um
acompanhante de luxo.
Excelente.
Mais um item riscado da minha lista de ‘decisões altamente
questionáveis’.
O dia começa como todos os outros em Seattle: cinzento,
chuvoso e julgando minhas decisões de vida.
Estou sentada em uma cafeteria charmosa no centro da
cidade, mexendo distraidamente no canudo do meu frappuccino,
tentando não parecer uma mulher que está prestes a pagar um
homem para fingir gostar dela.
Mas, bem… é exatamente isso que estou prestes a fazer.
A porta se abre.
E então ele entra.
O ar do ambiente muda.
Alto. Corpo atlético de quem provavelmente nasceu sabendo
como preencher um terno. Cabelo bagunçado de propósito. Barba
por fazer. Meu Deus.
Ele caminha com aquela confiança arrogante e
perigosamente sexy. O tipo de homem que parece dono do mundo.
Ou, pelo menos, da minha sanidade, que já começa a se dissolver.
Não. Não pode ser ele.
Mas então ele para bem na minha frente, inclina levemente
a cabeça e diz, com uma voz grave e rouca o suficiente para
derreter até meu frappuccino:
— Olivia?
Puta merda. É ele mesmo.
Tento responder, mas a única coisa que sai é um som
estranho. Algo entre um engasgo e um gemido.
ÓTIMO. Começamos bem.
— Sim! Quer dizer, oi! Olá! — corrijo rápido, tentando
resgatar o pouco de dignidade que me resta.
Ele sorri.
E eu juro que um coral angelical começa a cantar em algum
lugar do universo.
Ele se senta à minha frente, entrelaça os dedos e me encara
com um olhar divertido.
— Então… você precisa de um namorado de aluguel?
Respiro fundo. Preciso ser madura e profissional sobre isso.
— Sim. Mas não qualquer namorado falso. Preciso que você
seja o pacote completo: charmoso, atencioso, um homem que todas
vão invejar e que faça meu ex engasgar com o bolo do casamento.
Ele arqueia uma sobrancelha, o sorriso se tornando ainda
mais… perigoso.
— Bem, fazer um homem se engasgar com bolo não está na
minha lista de habilidades, mas todo o resto eu garanto. Qual é a
missão?
Eu abro a boca para responder, mas me perco.
Porque o homem à minha frente é uma afronta à minha
dignidade.
O sorriso dele parece um feitiço embutido, algo entre "vem
cá" e "eu destruo corações". Os olhos? Ah, aqueles olhos…
desnudam a alma. E talvez até minhas roupas, mentalmente.
A barba por fazer dá um ar de canalha charmoso, e o coque
bagunçado grita "não tente resistir".
Mas o pior de tudo?
As mãos.
Mãos grandes.
Oh, céus. Mãos realmente grandes, e com veias, veias
saltadas, aquelas que nos fazem pensar se em outros lugares elas
são assim também.
— Olivia?
A voz dele me puxa de volta à realidade. A maldita voz sexy
e grave.
Eu quase peço para ele repetir. Só para ouvir de novo.
— Ah, sim! — Pigarrinho estratégico. — Desculpe, eu... me
distraí. Bom, basicamente, preciso que o imbecil do meu ex se
morda de raiva ao me ver.
Ele me observa por um instante, como se estivesse tentando
montar um quebra-cabeça.
— Entendi. O que eu não entendi é por que precisa de mim
para isso. — O sorriso torto dele quase me fez esquecer do plano.
Quase.
— As coisas são mais complicadas... — Suspiro, mexendo na
xícara de café. — Depois do término, nunca mais voltei para
Kirkland. Também nunca mais parei de comer guloseimas.
Ele ergue uma sobrancelha, intrigado.
— Então, você está preocupada com sua aparência? Quer
que seu ex babaca te veja com alguém só para esfregar na cara
dele?
O tom dele não é de julgamento. Apenas curiosidade.
— Tá, eu sei que parece ridículo dito assim, mas é mais
complicado do que isso. — Faço uma careta. — Sempre fui
pressionada para casar. Steven era o melhor partido da cidade —
filho de advogados renomados, família tradicional, aquele tipo de
gente que tem brunch aos domingos e um labrador chamado Alfred.
Minha mãe sonhava com esse casamento.
Ethan apoia os cotovelos na mesa e inclina a cabeça de lado.
— Homens gostam de mulheres, Olivia. Não de cabides. Seu
ex é um idiota. E, com todo respeito, sua mãe é uma narcisista sem
noção.
Eu gargalho.
— Bom, algumas sessões de terapia também me ajudaram a
chegar nessa conclusão. — Dou uma risada sem humor. — Mas
enfim, ele me traiu com a minha prima.
Ele fecha a expressão na hora.
— E tudo o que ouvi depois foi que a culpa era minha.
Afinal, eu estava "do tamanho de uma orca". — Faço aspas no ar,
tentando disfarçar a dor.
Ethan solta um suspiro longo e me encara. Intensamente.
— Olivia, isso não tem nada a ver com seu peso. E, aliás,
que peso maravilhoso, viu? Você é gostosa pra caramba.
O QUÊ?
Meu rosto esquenta.
— Mas isso tem a ver com caráter. — Ele continua, como se
não tivesse acabado de soltar essa bomba. — E, claramente, o seu
ex e sua prima não têm nenhum. A culpa nunca é de quem foi
enganado. A culpa é de quem enganou. Então, pare de se culpar.
Engulo em seco.
Por que esse homem diz coisas tão certas com um rosto
tão… perigoso?
— Às vezes ainda é difícil. — Admito, mordendo o lábio. —
Mas estou trabalhando nisso. Só não quero aparecer sozinha no
casamento e parecer a ex gorda e frustrada.
— E não vai. — Ele sorri. Largo. Convicto. — Então, quando
viajamos?
Arregalo os olhos.
— Você aceita? — pergunto, mal acreditando.
Ele estende a mão.
— Negócio fechado.
Eu aperto, tentando ignorar o fato de que a mão dele é
ainda maior e mais quente do que imaginei.
Céus. Isso foi uma péssima ideia.
— Fechado! Agora me passa seus dados bancários para que
eu possa fazer a transferência.
Ethan balança a cabeça.
— Falamos sobre isso depois que terminarmos o trabalho.
Primeiro, precisamos planejar bem essa encenação.
Dou um gole no café, tentando recuperar o controle da
situação.
E então ele solta:
— Hoje. No seu apartamento. Me manda o endereço.
Eu engasgo.
— No meu apartamento?!
Ele dá de ombros.
— Se queremos ser convincentes, precisamos treinar.
E foi nesse momento que percebi:
Eu acabei de entrar numa grande enrascada.
Passei o dia inteiro fugindo das minhas amigas.
Se Hannah e Cindy descobrissem que eu contratei o tal
acompanhante, jamais me deixariam viver em paz.
Saí mais cedo do escritório e fui direto para o meu
apartamento. Meu plano? Organizar a bagunça.
O que eu realmente fiz?
Tirei os saltos, coloquei uma roupa qualquer e me larguei no
sofá enquanto trocava os canais da TV.
Tudo parecia sob controle… até que meu celular vibrou.
"Nos vemos daqui a pouco."
Meus olhos se arregalam.
O QUÊ?! PUTA MERDA...
Levanto num pulo e corro para o espelho.
Meu Deus.
Eu estou um caco.
Parece que fui atropelada por um caminhão de desleixo.
Cabelo bagunçado, camiseta velha com uma mancha de café
misteriosa. Era assim que ele ia me ver?
NÃO!
Disparo para o banheiro. Banho. Cremes. Maquiagem leve.
Uma roupa decente. Algo que diga: “sou sofisticada, mas
despretensiosa; sexy, mas sem esfregar isso na cara de ninguém.”
O resultado?
Um vestido que marca a cintura no ponto exato da tentação,
um decote que eu jurei para mim mesma que era modesto, e um
par de saltos que me fazem questionar todas as minhas decisões de
vida.
Então a campainha toca.
Respiro fundo, confiro no espelho uma última vez e abro a
porta.
E lá está ele.
Diretamente saído de uma maldita capa de revista.
O cabelo ainda preso no coque bagunçado de comercial de
xampu masculino, a barba por fazer e um sorriso que deveria ser
ilegal em pelo menos sete estados.
— Oi, Olivia. — Ele entra como se já morasse ali. Ótimo.
— Oi… — murmuro, sentindo minhas bochechas queimarem.
Isso é só o charme dele. Com certeza.
— Você está incrível.
Ok. Talvez não seja só o charme.
— Ah, obrigada. — Forço um sorriso, tentando não parecer
uma adolescente nervosa. — Então… por onde começamos?
Ele olha ao redor, analisando o espaço como se estivesse
inspecionando o cenário de um filme.
— Primeiro, precisamos tirar algumas fotos. Algo que pareça
real. Você tem um sofá aconchegante?
Arqueio uma sobrancelha.
— Você vai querer tirar uma soneca no meio do trabalho?
Ele ri.
E eu juro que um pedaço da minha sanidade evapora com
aquele som.
— Não, Olivia. Precisamos de fotos espontâneas. Algo que um
casal de verdade faria. Se postarmos algumas no seu Instagram,
seus parentes vão acreditar mais fácil na história.
Infelizmente, faz sentido.
— Certo. O sofá está ali. Quer que eu… sei lá, finja que
estamos assistindo a um filme romântico e você me abraça de lado?
Ele me olha como se eu tivesse falado a maior besteira do
mundo.
— Se vamos fingir que estamos juntos, vamos ter que fazer
melhor do que isso.
Antes que eu possa processar, Ethan me segura pela cintura e
me puxa para o colo dele.
Como se eu fosse leve como uma pluma.
— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! — Meu gritinho é 100%
não planejado.
— Criando química. — Ele pega meu celular e tira uma selfie
antes que eu possa reagir. — Ótima foto. Agora finja que está rindo
de algo que eu disse.
— Você não disse nada!
— Exatamente! Agora ria.
Reviro os olhos, mas sigo o jogo, soltando uma risada
exagerada. Para minha surpresa, ele também ri.
E a foto sai surpreendentemente natural.
Ótimo. Agora, além de acompanhante, ele também é
fotogênico.
— Pronto. Agora vamos planejar nossa história. Como nos
conhecemos? — Ele ainda segura minha cintura. Como se fosse a
coisa mais normal do mundo.
O que não é. Nem um pouco.
— Hm… que tal algo clássico? Nos encontramos em uma
livraria? Soa romântico.
Ele faz uma careta.
— Olivia, com todo respeito, você tem cara de quem compra
livros online e nunca tira do plástico.
Bufei.
— Ok, espertinho. Então sugere o quê?
— Bar. — Ele dá de ombros. — Você estava bebendo sua
terceira margarita, tentando esquecer o seu ex. Eu entrei, pedi um
uísque, trocamos olhares, conversamos e pronto, foi amor à primeira
vista.
Cruzo os braços.
— Eu não bebo margaritas.
— Agora bebe.
— Aff. Tá bom.
— E quanto tempo estamos juntos?
— Uns três meses? — sugiro. Tempo suficiente para parecer
sério, mas sem perguntas desconfortáveis sobre casamento.
Ele assente.
— Ótimo. E eu faço o quê?
Aí sim.
— Ahá! Boa pergunta! Porque você não pode dizer que é um
acompanhante.
Ethan ri, e lá se vai mais um pedaço da minha sanidade.
— Ok, sou… empresário. Trabalho com investimentos.
— Sério? Isso é vago o suficiente para ninguém perguntar
detalhes.
— Exatamente.
— Agora, última coisa: apelidos carinhosos. Tem algum que
você goste?
Faço uma careta.
— Não gosto de "mozão".
— Nada de "mozão", então. — Ele finge pensar. — Que tal
"amor"? "Vida"? Ou melhor… "meu docinho de leite condensado"?
Lanço um olhar fulminante para ele.
— Vamos ficar com "amor". Simples e eficiente.
Ele sorri, satisfeito.
— Ótimo, amor. Agora é só esperar sua família cair nessa
mentira.
Eu assinto, mas, pela primeira vez, uma sensação estranha
toma conta de mim.
Talvez… só talvez… eu realmente tenha me metido em uma
grande confusão.
CAPÍTULO 3
ETHAN
Desde que comecei nesse trabalho, já conheci todo tipo de
mulher.
As ricas e entediadas, as carentes em busca de validação, as
que só queriam provocar um ex e até aquelas que não sabiam muito
bem o que queriam, mas estavam dispostas a pagar para descobrir.
Mas Olivia Carter…
Ela é diferente. Realmente diferente.
Primeiro, porque parece genuinamente desconfortável com
tudo isso, como se estivesse prestes a fugir pela janela e se
esconder no Alasca.
E segundo…
Porque ela é uma das mulheres mais bonitas que já vi na
vida.
Sério. Absolutamente fodidamente linda.
Não daquele jeito óbvio e artificial que muitas das minhas
clientes tentam forçar, mas de um jeito naturalmente hipnotizante.
Aquele cabelo loiro longo e ondulado, que parece carregar
toda a luz do sol. A boca que ela morde quando está nervosa. Os
olhos azuis que brilham quando fala (ou xinga, o que parece ser o
passatempo favorito dela).
E o corpo?
Curvas.
Curvas que dão vontade de explorar com as mãos, com
calma. Coxas grossas, cintura marcada, seios fartos.
Do tipo que qualquer homem normal olharia e pensaria: “puta
merda”.
Mas aí tem o detalhe que me irrita: o idiota do ex dela traiu
essa mulher.
E ainda a fez duvidar do próprio valor, a fez se questionar se
era alguém que valia a pena ser amada.
Isso me deixa puto.
Muito puto.
Pelo que Olivia me contou, esse Steven é o clássico babaca
genérico de cidade pequena. Rico, convencido, mimado.
E, aparentemente, cego e burro também.
Porque não só traiu Olivia, como teve a audácia de fazer isso
com a prima dela, alguém que deveria ser leal, mas não passava de
uma vadia qualquer.
E agora, esse filho da puta está noivo. Noivo da vadia.
Não sei por que, mas a ideia de que ele acha que venceu
nessa história me incomoda profundamente.
E é por isso que estou aqui.
No apartamento dela, sentado no sofá, enquanto ela me
encara como se ainda estivesse tentando decidir se me chuta porta
afora ou segue com o plano.
— Então, empresário que trabalha com investimentos, hein?
— Ela cruza os braços, me avaliando, e deixa os seios ainda mais
evidentes.
Sorrio, tentando manter o olhar no rosto dela.
— Bom, tecnicamente, eu invisto na felicidade alheia.
Ela revira os olhos.
— Você investe na ilusão alheia.
— O que, em muitos casos, é a mesma coisa.
Ela solta um suspiro exasperado e volta a mexer no celular,
provavelmente revisando nossas fotos para ter certeza de que
parecemos um casal de verdade.
E parecemos.
Porque eu mal toquei nela e já senti que essa química vai ser
perigosa.
O vestido que ela está usando abraça suas curvas de um jeito
criminoso. O decote não é exagerado, mas suficiente para me
distrair mais do que deveria.
E mesmo que ela pareça desconfortável, percebo que,
quando chego perto, ela prende a respiração.
Interessante.
Muito interessante.
— O que foi? — Ela estreita os olhos.
Droga. Fui pego.
Dou de ombros, relaxando contra o sofá.
— Nada. Só estou tentando entender como alguém pode
olhar para você e pensar que poderia encontrar algo melhor.
Ela pisca, surpresa.
E então desvia o olhar, claramente sem saber o que dizer.
— Bem… ele encontrou. — Dá de ombros, tentando fingir
indiferença.
Eu não gosto da forma como ela diz isso.
Me inclino para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Escuta, Olivia. Vamos deixar uma coisa bem clara aqui. —
Minha voz sai mais baixa, mais séria. — Esse cara não te trocou
porque encontrou algo melhor. Ele te trocou porque é um babaca
inseguro que não aguenta ter uma mulher incrível ao lado.
Ela engole em seco.
Mas eu não paro.
— E quer saber o que mais? — Inclino a cabeça de lado,
estudando cada microexpressão dela. — O que você quer fazer
nesse casamento — aparecer com um cara fodidamente atraente,
fazendo seu ex babar e questionar todas as escolhas — é
exatamente o que ele merece.
Ela me encara. E, pela primeira vez, vejo uma fagulha de
satisfação nos olhos dela.
Ótimo.
— Então vamos fazer isso direito. — Me recosto no sofá,
pegando meu celular. — Amanhã começamos o treinamento.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— Treinamento?
— Claro. Se vamos convencer sua família e seu ex de que
somos um casal apaixonado, precisamos de prática.
Ela suspira.
— O que exatamente esse treinamento envolve?
Dou um sorriso preguiçoso.
— Coisas básicas. Carinho em público. Beijos casuais. Olhares
intensos. Mãos dadas. Toques sutis.
Ela empalidece.
— Beijos?!
— Você disse que queria que fosse realista, não foi?
Ela abre a boca, depois fecha. Depois abre de novo.
Exatamente a reação que eu esperava.
— Acho que prefiro ser a ex solteira e frustrada.
Dou uma risada.
— Tarde demais, amor. Agora estamos comprometidos com
essa mentira.
Ela me fuzila com o olhar.
Mas algo me diz que, no fundo… ela já está começando a
gostar dessa ideia.
E eu? Bem…
Talvez eu esteja gostando um pouco mais do que deveria.
CAPÍTULO 4
OLIVIA
“Nada. Só estou tentando entender como alguém pode olhar
para você e pensar que poderia encontrar algo melhor.”
As palavras de Ethan ainda ecoam na minha mente.
Eu não sei o que dizer. Ninguém nunca me disse isso antes.
Nunca.
Minha primeira reação foi rir. E rebater com alguma resposta
sarcástica, algo como: “Pois é, meu ex conseguiu.”
Mas não consigo dizer nada.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém olha
para mim e me faz sentir... suficiente.
Fecho os olhos por um segundo, tentando afastar as
lembranças que vêm como uma tempestade.
Mas é inútil.
Porque toda a dor que eu achava ter enterrado decide
ressurgir naquele instante.
UM ANO ATRÁS
O engraçado sobre traições é que ninguém espera por elas.
Ou talvez eu tenha sido ingênua o suficiente para ignorar
todos os sinais.
Sete anos juntos. Sete.
Eu acreditava que conhecia Steven melhor do que ninguém.
Confiava nele.
E jamais teria imaginado que ele me trairia. Muito menos
com a minha própria prima.
E no meu aniversário.
Era para ser uma noite especial. Eu me esforcei para isso.
Passei a semana inteira planejando cada detalhe. Organizei
um jantar romântico no nosso apartamento. Preparei minha
sobremesa favorita, porque Steven nunca foi muito bom em lembrar
do que eu gostava. Comprei um vestido novo, um vermelho justo,
que realçava minhas curvas e minha esperança.
Eu estava ansiosa.
Porque, naquela época, eu ainda acreditava que o amor dele
por mim era real.
Até que ele não apareceu.
Uma hora de atraso. Duas. Três.
Liguei. Caixa postal.
Mandei mensagens. Sem resposta.
Foi então que Hannah me mandou uma foto.
E eu senti o chão sumir.
Era Steven.
Sentado no bar mais badalado da cidade.
Com a minha prima no colo.
A mão dele estava na perna dela. O rosto dos dois, perto
demais. Eles estavam rindo.
Como se nada estivesse errado.
Como se eu não existisse.
Lembro que minhas mãos tremiam quando chamei um táxi.
Meu coração martelava tão forte no peito que eu mal
conseguia respirar.
A única coisa que eu conseguia pensar era: não pode ser
verdade.
Mas era.
Cheguei ao bar e não precisei procurá-los. Eles estavam ali,
bem na minha frente: Steven, homem que dizia que me amava, e
Ashley, a prima que cresceu comigo.
Os dois agarrados, como se fossem um casal, como se eu
fosse um detalhe irrelevante.
Senti minha garganta fechar.
Meus olhos queimarem.
Mas eu não chorei.
Não dei a eles essa satisfação.
Caminhei até a mesa e parei diante deles.
Steven foi o primeiro a me ver. Seu rosto perdeu a cor. Ele
engasgou com a própria bebida.
— O-Olivia!
Ashley também me notou.
Mas ela não pareceu surpresa. Nem arrependida. Apenas
ergueu as sobrancelhas e suspirou:
— Ah, merda.
Ah, merda?
Foi só isso que ela conseguiu dizer, como se eu fosse o
problema ali.
— O que está acontecendo? — Minha voz saiu baixa, mas
afiada.
Steven abriu a boca, mas nenhuma desculpa saiu.
Ele foi pego. E sabia disso.
— Olivia… não é o que parece.
Eu ri. Foi um riso amargo, doído.
— Sério? Então me explica o que exatamente parece, porquê
da minha perspectiva, você está com a minha prima no colo.
Ele olhou para Ashley, como se esperasse que ela dissesse
alguma coisa, mas ela apenas pegou o drink e deu um gole,
entediada.
— Ai, prima… dramatizando como sempre.
Dramatizando?
Eu queria quebrar aquela taça na cara dela. Minha visão
escureceu. O peito queimava de raiva.
— Isso está acontecendo há quanto tempo?
Steven hesitou.
Ashley sorriu.
— Uns três meses.
Foi aí que eu senti meu coração rachar de verdade.
Três meses.
O tempo todo em que Steven dizia que estava “trabalhando
até tarde”.
O tempo todo em que ele voltava para casa com cheiro de
perfume feminino.
O tempo todo em que eu confiei nele.
— Você é um filho da puta. — Minha voz tremeu.
Steven passou as mãos pelo rosto, exausto, como se ele
fosse a vítima.
— Você sabia que isso ia acontecer, Olivia.
Meu estômago revirou.
— O quê?
Ele me encarou, e pela primeira vez, não vi arrependimento
em seus olhos.
Apenas… indiferença.
— Vamos ser honestos. Você não é a mesma de quando
começamos a namorar. Você se acomodou.
Meus olhos se arregalaram.
— Você está dizendo que a culpa é minha?
— Estou dizendo que não sou mais atraído por você. Você…
mudou.
Engoli em seco.
A dor explodiu no meu peito.
— Você está me dizendo que me traiu porque eu engordei?
— Você se olha no espelho, Olivia? — Ele riu, sem humor. —
Simplesmente não é mais a mesma mulher.
As palavras dele me atingiram como uma facada.
Steven se levantou, pegou a jaqueta e jogou uma nota em
cima da mesa.
— Sinto muito que tenha sido assim, mas talvez isso te
ensine uma lição.
E então ele foi embora.
Sem arrependimento. Sem um último olhar.
Como se eu nunca tivesse significado nada para ele.
Meus olhos estavam fixos em um ponto qualquer da mesa.
— Olivia?
A voz de Ethan me puxou de volta.
— Hã?
Ele me olhava com atenção, o rosto mais sério do que o
normal.
— Você sumiu por um instante.
Forcei um sorriso.
— Só estava lembrando do passado.
Ele não perguntou mais nada. Não precisava. Mas seus olhos
diziam tudo.
Então, ele se inclinou um pouco mais perto.
— Eu estou ansioso para conhecer esse cara.
Pisquei.
— Pra quê?
O sorriso de Ethan não foi nada amigável.
— Pra quebrar todos os dentes dele.
Engoli em seco.
Porque, naquele momento, tive certeza de que ele estava
sendo completamente sincero.
E, pela primeira vez… alguém estava do meu lado.
A ameaça de Ethan ficou no ar.
E, por um instante, eu quis acreditar nele.
Quis acreditar que alguém realmente ficaria puto por mim.
Que alguém se importaria o suficiente para querer dar um soco em
Steven e dizer o que eu nunca tive coragem de dizer.
Mas isso seria ingenuidade, certo?
Ethan era um acompanhante. Isso era um trabalho para ele.
Ele estava apenas cumprindo o papel de namorado protetor,
garantindo que eu me sentisse melhor.
Ainda assim…
A sensação de ter alguém do meu lado era perigosa.
Tão perigosa quanto à forma como ele me olhava agora.
Um olhar de quem me estudava. De quem percebia muito
mais do que eu gostaria que ele percebesse.
Eu precisava acabar com isso. Agora.
Levantei do sofá, me espreguiçando exageradamente.
— Bem, acho que já fizemos um progresso decente hoje —
falei com um tom casual. Muito casual. — Podemos continuar
amanhã.
Ele sorriu de lado. O tipo de sorriso que dizia: sei que você
está fugindo, mas vou deixar passar.
— Certo. — Ethan ficou de pé. E foi aí que percebi o quanto
ele era alto.
O apartamento pareceu menor com ele ali, tão perto.
Meu coração deu um salto estúpido no peito.
Ethan pegou a jaqueta no encosto da cadeira e caminhou
até a porta, mas, antes de sair, parou bem na minha frente.
Perto. Muito perto.
Meu cérebro gritou PERIGO, mas meu corpo ficou muito
interessado no perigo.
Ele ergueu a mão e deslizou o polegar no canto da minha
boca, num toque tão leve que eu mal senti.
Mas senti.
Meu Deus, como senti.
— O que…? — Minha voz saiu meio sufocada.
Ethan sorriu.
Lento. Preguiçoso. Sacana.
— Seu batom está borrado — Ele mostrou o dedo, e só
então percebi o resquício de vermelho ali.
Meu rosto pegou fogo.
Ele ia embora. Eu só precisava me afastar.
Mas não me afastei.
Porque ele também não se afastou.
E então, antes que eu pudesse processar o que estava
acontecendo, ele abaixou a cabeça e encostou os lábios nos meus.
Foi rápido.
Mas não foi suave.
Os lábios dele eram quentes, firmes. Ele sabia exatamente o
que estava fazendo.
Foi um choque elétrico direto no meu sistema nervoso.
E quando ele se afastou, lento demais, na minha opinião, eu
fiquei ali, piscando, tentando entender o que diabos tinha acabado
de acontecer.
Ethan me encarou com aquela diversão perigosa nos olhos.
E então disse, casualmente:
— Treinamento.
E saiu, como se nada tivesse acontecido.
FILHO DA PUTA.
Fiquei parada, encarando a porta fechada, o coração
batendo descompassado.
Eu queria correr atrás dele e gritar: “ISSO FOI
SACANAGEM!”
Mas a verdade? A verdade é que eu ainda sentia o gosto
dele nos meus lábios.
E, droga…
Eu queria mais.
Ainda estava parada no meio da sala, tentando processar o
maldito beijo, quando meu celular tocou.
Suspirei fundo.
Número salvo como: "Mãe (usar apenas em caso de extrema
necessidade ou morte)."
Fechei os olhos, rezei por paciência e atendi.
— Oi, mãe.
— Olivia! — A voz dela estava animada. Isso nunca era um
bom sinal. — Liguei para confirmar sua ida ao casamento.
— Sim, eu vou.
— Ótimo. Você vai ficar no quarto com suas tias-avós.
Pisquei.
— O quê?
— Elas precisam de companhia, querida. Você sabe como a
Tia Martha sofre com insônia, e a Tia Lúcia adora conversar até
tarde, e elas não conseguem ficar junto com a Tia Margot e toda
aquela energia dela.
Ou seja: minha mãe queria me jogar num quarto com duas
senhoras que provavelmente discutiriam sobre novelas mexicanas e
remédios naturais até às três da manhã.
Respirei fundo.
— Mãe, eu preciso de um quarto sozinha.
— Sozinha pra quê?
— Porquê… eu não vou sozinha.
Silêncio.
E então, uma risadinha curta.
— Oh, Olivia.
Eu odiava quando ela falava assim. Como se eu fosse uma
criança de cinco anos inventando uma história absurda.
— E quem foi o bom samaritano que decidiu namorar com
você? — O tom dela carregava deboche em cada sílaba. — Um
contador de meia-idade? Um bibliotecário tímido?
Meus dentes rangeram.
Essa mulher…
Senti meu sangue ferver. Mas então, algo dentro de mim
despertou. Uma voz que eu não ouvia há muito tempo. Aquela que
me desafiava. Que me instigava a ser rebelde.
— Você vai se surpreender, mãe.
Meu próprio tom me surpreendeu. Firme. Seguro. Quase
provocador.
Ela também percebeu.
— Ah, é? E por que eu tenho a impressão de que você está
inventando isso só para me calar?
Sorri. Largo. Confiante.
— Porque você ainda não viu meu namorado.
BOOM.
Ela ficou em silêncio.
Pela primeira vez em anos, eu consegui calar minha mãe.
— Humm… — Ela pigarreou. — Então você vai levar mesmo
esse homem misterioso?
— Com certeza. E, mãe?
— O quê?
— Garanto que você nunca viu nada igual.
Desliguei antes que ela pudesse responder.
E então me joguei no sofá, rindo sozinha.
Pela primeira vez em muito tempo, eu senti que estava no
controle.
E a melhor parte?
Minha mãe não fazia a menor ideia do que estava por vir. Ou
melhor: ela não fazia ideia de quem era Ethan.
Eu sabia que ela jamais me deixaria em um quarto sozinha
com um namorado. Até porque ela não acredita que eu seja capaz
de ter um. Então, quando chegássemos ao hotel, haveria dois
quartos reservados em meu nome.
Ela não me achava capaz.
E naquele momento, eu estava grata por isso.
Porque só de pensar em dividir um quarto com Ethan...
Minhas pernas já estavam falhando.
CAPÍTULO 5
ETHAN
Se tem uma coisa que aprendi nesse trabalho, é que a
mentira só funciona quando parece verdade.
E, no momento, Olivia definitivamente não tem cara de
alguém que está apaixonada por mim.
Ela tem cara de quem preferia enfiar a cabeça num buraco
do que me tocar.
— Vamos tentar de novo. — Digo, encostado na mesa da
cafeteria onde paramos para treinar.
Olivia revira os olhos. Ela faz isso muitas vezes.
E, porra... isso é sexy pra caralho.
— Já estamos aqui há quase uma hora, Ethan. Já decoramos
nossa história, já sabemos o que responder se alguém perguntar...
Cruzo os braços e a encaro.
— Isso não é o suficiente.
— Ah, não? — ela arqueia uma sobrancelha.
Inclino a cabeça de lado.
— Você ainda não sabe me olhar como alguém que quer
transar comigo.
Ela engasga com o próprio café.
— O QUÊ?!
— Você ouviu. — Sorrio. Divertido. Sacana.
Ela me encara como se estivesse considerando arremessar a
xícara na minha cara.
— Por que eu deveria te olhar desse jeito?!
— Porque casais olham assim um para o outro o tempo
todo. — Me inclino para mais perto dela. Muito perto. — E porque
seu ex precisa acreditar que eu faço coisas com você que ele nunca
foi capaz de fazer.
Ela pisca, chocada.
E eu vejo, no exato momento, quando a mente dela começa
a pensar em coisas que definitivamente não deveria.
Seus olhos desviam. Ela morde o lábio.
Exatamente como eu queria.
Bom.
Isso vai ser mais interessante do que eu esperava.
— Vamos tentar de novo. — Me ajeito no assento. — Me
olha como se quisesse me beijar.
Ela franze o cenho.
— Isso é ridículo.
— Olivia. — Falo seu nome devagar, arrastado, com aquela
entonação que sempre a desestabiliza. — Me olha.
Ela suspira como se eu fosse a pior coisa que já aconteceu
na vida dela, mas levanta os olhos.
E então…
Nada.
Sem calor. Sem brilho. Sem tensão. Nada.
Ela me olha como se estivesse encarando um formulário do
imposto de renda.
Agora é minha vez de revirar os olhos.
— Eu disse “como se quisesse me beijar”, não “como se
quisesse me matar”.
— Desculpa se não sou uma atriz! — ela gesticula, frustrada.
Sorrio de lado.
— Isso a gente resolve fácil.
E então, eu a beijo.
Sem aviso. Sem introdução.
Só pego o rosto dela e faço o que ela deveria estar fazendo
comigo.
E, como eu já esperava…
Ela não reage, por dois segundos.
Então… algo muda.
Seus lábios se movem. Lentos. Incertos.
Mas se movem.
E eu sei o momento exato em que ela esquece que isso é
um ensaio, porque o corpo dela relaxa… depois se molda ao meu.
A respiração dela fica curta.
E ela geme. Baixinho. Na minha boca.
E porra.
Isso mexe comigo mais do que deveria. Eu não deveria estar
sentindo nada.
Mas estou.
Então, me afasto.
Devagar.
Porque se eu não fizer isso agora… talvez eu não pare nunca
mais.
Devagar. Só o suficiente para vê-la de olhos fechados, ainda
perdida no beijo.
E quando ela finalmente abre os olhos e percebe o que
acabou de acontecer…
Ela fica vermelha.
— O QUE FOI ISSO?! — a voz dela sobe duas oitavas.
— Treinamento. — Sorrio, satisfeito pra caralho.
— ISSO FOI UM ASSALTO!
— Claro que não. — Me levanto. — Agora, vamos embora. Já
está tarde.
Ela ainda está processando.
Quando finalmente recupera a voz, eu já estou segurando a
porta para ela sair.
E então, do nada, ela murmura:
— Foi horrível.
Paro.
Arqueio uma sobrancelha.
— Ah, é?
Ela cruza os braços, erguendo o queixo.
— Sim. Péssimo. Um desastre.
Dou um passo para perto. Ela não recua.
— Bom saber. — Inclino meu rosto devagar, só para vê-la
prender a respiração. — Vamos treinar mais amanhã.
E saio em direção ao carro, como se nada tivesse
acontecido.
Mas algo definitivamente aconteceu.
E eu acho que não fui o único a perceber isso.
O plano era simples: levá-la para casa, desejar boa noite e ir
embora.
Mas então ela abriu a porta do apartamento.
E eu vi o olhar de Hannah e Cindy fixos em mim.
— Ah, merda. — Olivia murmurou.
A loira — Hannah, se não me engano — cruzou os braços e
estreitou os olhos.
— Então você é o tal namorado misterioso.
A morena, Cindy, sorriu com malícia.
— Eu imaginava um contador careca.
Revirei os olhos e sorri, estendendo a mão.
— Ethan. Um prazer conhecer vocês.
Hannah e Cindy trocaram olhares antes de apertarem minha
mão.
— Então você e Olivia estão namorando há três meses? —
Cindy perguntou, sorrindo demais.
Olivia bufou.
— Vocês não têm nada melhor pra fazer?
Hannah ignorou.
— Como vocês se conheceram mesmo?
Sem hesitar, coloquei a mão na cintura de Olivia e a puxei
para mais perto do que o necessário.
— Ela estava na terceira margarita, tentando superar um
babaca. Eu entrei, pedi um uísque e o resto é história.
Olivia ficou tensa no meu abraço.
As amigas ficaram em silêncio por alguns segundos.
Então Hannah assobiou.
— Bom, pelo menos a vida amorosa dela finalmente ficou
interessante.
— Pelo menos isso. — Cindy concordou.
Olivia resmungou algo que não entendi.
Sorri, satisfeito.
Se eu consegui enganar as melhores amigas dela, então o
resto da família não será um problema.
O que talvez seja um problema…
É que eu não estou mais tão certo do que é verdade e o que
é mentira nessa história.
Se eu achava que ia enganar as amigas de Olivia facilmente,
estava redondamente enganado.
Ainda estávamos no apartamento dela, e eu tinha acabado
de soltar nossa história de “como nos conhecemos” quando Hannah
e Cindy se entreolharam…
E explodiram em gargalhadas.
Arqueei uma sobrancelha.
— Qual é a graça?
Olivia gemeu de frustração e cobriu o rosto com as mãos.
— Vocês não podem, por favor, se comportar por cinco
minutos?!
Hannah limpou uma lágrima imaginária do canto do olho.
— Liv, me desculpa, mas você realmente achou que podia
esconder isso da gente?
Cindy deu um gole na cerveja.
— Por favor, a gente sugeriu isso pra você.
Pisquei.
— Espera. O quê?
Hannah sorriu, claramente orgulhosa do próprio plano
maquiavélico.
— A ideia de contratar um acompanhante foi nossa.
Virei o olhar para Olivia, que agora parecia querer evaporar
no ar.
— Sério?
Ela bufou e jogou as mãos para o alto, rendida.
— Sim, tá bom?! Eu achei que era uma ideia absurda no
começo! Mas então olhei o Instagram do Steven e vi a noiva dele
posando de biquíni em Ibiza e, bom… — suspirou. — Aqui estamos.
Cindy sorriu, diabólica.
— E Ethan, querido, pode acreditar: a gente faria qualquer
coisa pra ver aquele babaca do Steven com a cara no chão.
Hannah assentiu, animada.
— Se tivéssemos mais dinheiro, teríamos contratado o
próprio Tom Cruise. Mas Olivia insistiu em alguém mais... realista.
A essa altura, eu já estava rindo.
— Bom, fico feliz por ter atendido aos requisitos.
Olivia cruzou os braços e lançou um olhar mortal para as
duas.
— Traidoras.
Cindy deu de ombros, sorrindo com a maior cara lavada do
mundo.
— Relaxa, Liv. Vamos fazer isso direito.
Hannah estalou os dedos como se tivesse acabado de ter
uma grande ideia.
— E isso significa que a gente precisa conhecer melhor esse
cara que vai fingir ser seu grande amor.
— Que tipo de interrogatório vocês estão planejando? —
perguntei, me divertindo com o caos.
— Nada de interrogatório. — Cindy pegou o celular e
começou a digitar algo. — Só vamos pedir pizza... e jogar cartas.
— Cartas? — arqueei uma sobrancelha.
Hannah sorriu maliciosamente.
— Jogo da verdade.
Pensei por um instante, depois dei de ombros.
— Por mim, tudo bem.
Olivia gemeu, como se já antecipasse a humilhação.
— Ah, pelo amor de Deus…
Cindy piscou pra mim, cheia de segundas intenções.
— Se vai ser da família por um final de semana, melhor se
acostumar.
Quarenta minutos depois, estávamos jogados no chão da
sala, comendo pizza direto da caixa e jogando cartas.
E, para alguém que nunca se imaginou sentado no chão do
apartamento de uma advogada rabugenta com suas duas melhores
amigas, ouvindo histórias embaraçosas sobre ela...
Eu estava me divertindo.
Hannah estava no meio de uma história absurda sobre a vez
em que Olivia ficou tão bêbada na faculdade que tentou dar ordens
a um hidrante.
Cindy ria tanto que quase cuspiu o refrigerante no tapete.
Olivia, por outro lado, estava completamente vermelha.
— Certo! Já deu! — Ela pegou uma almofada e tacou na cara
de Hannah. — Não precisamos compartilhar todas as humilhações
da minha vida, ok?!
Eu estava rindo.
Mas então parei. Porque percebi.
Não era mais a Olivia advogada durona.
Não era a mulher sempre com as rédeas na mão, tentando
manter tudo sob controle.
Era só... Olivia.
Descalça. Sentada no chão com as pernas dobradas.
Vestindo uma camiseta de banda de rock meio larga, um
short jeans curto e o cabelo preso em um coque bagunçado.
A luz baixa do apartamento deixava a pele dela com um
brilho suave, quase dourado.
E, pela primeira vez, eu realmente vi essa mulher.
E porra...
Fodidamente sexy.
Não porque ela estava tentando ser sexy.
Mas justamente porque não estava tentando nada.
Havia algo na forma como ela mordia o lábio distraidamente
enquanto olhava as cartas.
Na maneira como ria alto, livre, sem se importar com o que
os
outros pensavam.
No jeito como os ombros dela relaxavam, como se, pela
primeira vez, ela pudesse simplesmente... existir.
Aquilo me atingiu de um jeito inesperado. Talvez até forte
demais.
— Ethan?
Pisquei.
— Hã? O quê?
Cindy sorriu com aquele olhar que dizia "te peguei, safado".
— Sua vez, galã.
Pisquei de novo, tentando voltar à realidade, antes de olhar
para as cartas nas minhas mãos.
Merda.
Eu tinha esquecido completamente do jogo.
Peguei uma fatia de pizza, fingindo estar concentrado, mas
meu olhar...
Ele voltou. De novo. Para ela.
E só uma coisa passou pela minha cabeça:
Steven é um idiota.
Um completo, absoluto, irremediável idiota.
Se ele tivesse um mínimo de bom senso, teria olhado para
essa mulher e jamais teria soltado a mão dela.
Jamais.
Mas, pensando bem...
Ainda bem que ele foi burro.
Porque agora, ela estava aqui. Comigo.
E eu ainda não fazia ideia do que, exatamente, eu ia fazer
com isso.
CAPÍTULO 6
OLIVIA
Ir às compras com Hannah e Cindy é o equivalente a entrar
num campo de batalha.
Elas têm uma missão.
E essa missão é me fazer arrasar no casamento da minha
irmã.
O problema?
Eu não queria estar aqui.
Estaria perfeitamente bem usando qualquer vestido velho e
confortável que estivesse largado no fundo do meu armário, mas
não…
Minhas melhores amigas tinham outros planos.
E agora, estamos aqui, no meio de uma loja chique no
centro de Seattle, enquanto elas me empurram vestidos como se
minha vida amorosa dependesse disso.
"Isso não é sobre o Steven.", a voz ecoa na minha cabeça,
como um mantra falho.
— Olha esse! — Hannah ergue um vestido azul cheio de
brilhos, praticamente gritando "Barbie no tapete vermelho."
— Muito baile de gala do Oscar. — Cindy torce o nariz. — Ela
precisa de algo que diga: “sou gostosa e inatingível”.
— Eu tô bem aqui, sabiam? — resmungo, quase me
afogando num mar de tule.
Hannah ignora meu drama, como sempre.
— E esse vermelho? Tem fenda. Homens adoram fenda.
— Eu não estou tentando atrair homem nenhum!
Cindy solta uma gargalhada, daquelas que você sabe que
vem acompanhada de ironia venenosa.
— Ah, mas deveria.
Bufei.
Cruzei os braços e fiz minha melhor cara de “por que estou
sendo arrastada por isso?”.
— Por que mesmo estamos fazendo isso?
Hannah me lança um olhar como se a resposta estivesse
tatuada na minha testa.
— Porque você não pode entrar naquele casamento
parecendo uma freira deprimida.
— E mais do que isso, Liv… — Cindy se aproxima e fala num
tom mais suave. — Isso não é sobre o Steven.
Ah, mas é.
Eu queria que não fosse.
Queria poder dizer que estou fazendo isso por mim, pela
minha autoestima, pelo amor-próprio.
Mas eu estaria mentindo.
Queria muito acreditar que era apenas sobre me sentir
bonita.
Mas, no fundo, no mais fundo do meu ser, tem uma vozinha
baixa e irritante gritando:
“Faz ele se arrepender.”
E eu quero.
Quero ver Steven engasgar com a própria saliva ao me ver
entrando naquele salão.
Quero que ele olhe pra mim e pense: “Eu era um idiota.”
E mais do que tudo...
Quero que ele veja Ethan ao meu lado.
E perceba que ele perdeu.
Feio.
Cindy, como se pudesse ler meus pensamentos, sorri com
cumplicidade.
— Vem cá, gostosa. Vamos achar o vestido da sua vingança
com classe.
E eu... eu deixo.
Porque talvez, só talvez… esteja pronta para deixar essa
versão de mim brilhar um pouquinho.
E minha mãe?
Eu quero que ela se arrependa de cada palavra cruel que já
me disse.
Engulo em seco.
Cindy percebe meu momento de hesitação e sorri, com
aquele olhar de quem enxerga além do que digo em voz alta.
— Vem. — Ela me entrega um vestido. — Apenas
experimenta esse. Por mim.
Olho para o tecido vermelho nas minhas mãos.
Um vermelho intenso. Brilhante. Perigoso.
Respiro fundo e entro no provador.
O maldito vestido.
Me encaro no espelho.
O vestido é um escândalo. Justo no ponto exato, abraçando
cada curva com malícia e elegância. A fenda na perna faz meu corpo
parecer mais longo, como se eu tivesse sido desenhada para parar
corações. E o decote…
Bem, digamos que não é nada recatado.
Eu estou…
Diferente.
Sexy. Poderosa.
Mas também vulnerável.
Porque sei, sei mesmo, que basta um comentário maldoso
para me desmontar por dentro. Para me fazer voltar a ser aquela
garota insegura que se escondia atrás de blazers e respostas
sarcásticas.
Respiro fundo.
"Você consegue, Olivia.", a voz sussurra na minha mente,
como um mantra antigo tentando encontrar espaço de novo.
Saio do provador.
Hannah e Cindy, sentadas de frente para a cabine, prendem
a respiração no exato segundo em que me veem.
— Meu. Deus. — Cindy leva a mão ao peito. — Isso está
perfeito.
— Steven vai desmaiar. — Hannah sorri como quem já pode
saborear a vingança. — E Ethan… Ethan vai ter um ataque cardíaco.
Reviro os olhos, tentando não sorrir.
— Isso se Ethan notar. Ele tá nem aí pra mim.
Ah, doce e ingênua Olivia...
Porque é nesse exato momento que a porta da loja se abre.
Um toque no sininho acima da entrada ecoa pela loja, e nós
três viramos o rosto ao mesmo tempo.
E lá está ele.
Ethan.
De moletom cinza, cabelo preso naquele coque que já é
ilegal no mínimo em sete estados, e com o olhar preso em mim
como se tivesse esquecido de respirar.
O mundo para.
Juro.
As clientes ao redor desaparecem. A trilha sonora da loja
vira ruído. Tudo o que existe sou eu… e aquele olhar.
Porque Ethan não pisca.
Não se move.
Não fala.
Ele só me olha. Como se nunca tivesse me visto antes.
Como se tivesse acabado de descobrir o que é desejo.
Meu coração dispara.
Cindy dá uma cotovelada discreta em Hannah e cochicha:
— Tá aí o ataque cardíaco.
Ethan finalmente respira.
Dá um passo à frente.
— Olivia…
O tom da voz dele. Baixo. Rouco. Cheio de algo que me dá
arrepios nos lugares mais impróprios.
— Você vai usar esse vestido no casamento?
Eu engulo em seco.
— Ainda estou decidindo…
Ele chega mais perto. Devagar. Como se eu fosse feita de
vidro.
— Então deixa eu decidir por você.
Meus olhos se arregalam.
Ele se aproxima até que só um suspiro nos separa. Inclina a
cabeça, os olhos colados nos meus.
— Você vai usar esse vestido. E eu vou te acompanhar. E
todos vão saber que você é minha. Nem que seja só por um final de
semana.
Silêncio.
Até Cindy gritar:
— Alguém liga pro Steven e avisa que ele perdeu, porra!
A loja inteira ri. Eu também.
Mas por dentro… Por dentro eu só penso em uma coisa:
"Se isso é atuação... então ele é o melhor maldito ator do
mundo."
Esse vestido não é um disfarce, esse vestido não é só para
Steven ou para minha mãe.
Esse vestido está mexendo com Ethan de um jeito que ele
não consegue esconder.
E talvez…
Talvez esteja mexendo comigo também.
CAPÍTULO 7
OLIVIA
Esse jantar deveria ser um ensaio. Era só um jantar.
Só um treinamento.
Só uma forma de ensaiarmos como agir como um casal
perfeito no casamento da minha irmã.
Mas agora Ethan está com a mão na minha coxa... e eu
estou prestes a perder o controle.
“Lembre-se, Olivia: isso é um ensaio.”
Estamos em um restaurante sofisticado, com velas nas
mesas, música ambiente suave e garçons deslizando pelo salão com
bandejas dignas de filme francês.
Ethan? Ele parece completamente à vontade, como se fosse
habitué do lugar.
Eu? Estou implodindo por dentro.
Porque a mão dele está exatamente onde não deveria estar.
Seus dedos desenham círculos suaves na minha pele nua,
logo acima da barra do vestido. É um toque lento. Preguiçoso.
Experiente. E sacana. Muito sacana.
Ele sabe o que está fazendo comigo. Sabe exatamente.
Tento disfarçar, respiro fundo, engulo em seco, mordo o
lábio. Tudo ao mesmo tempo.
— Você está exagerando. — Murmuro entre os dentes.
Ethan sorri. Aquele maldito sorriso torto, perigoso e
absurdamente convencido.
— Estou treinando, amor.
A palavra escorrega dos lábios dele como um convite
indecente.
E meu corpo? Responde antes da minha mente conseguir
gritar "PERIGO!".
Meus músculos ficam tensos.
Minha respiração falha.
E claro…Ele percebe.
Porque os dedos dele sobem um pouco mais.
Meu coração para. Aperto os lábios. E ele só se aproxima,
inclinando o corpo em minha direção, com a voz baixa e indecente.
— Treinamento não significa que você pode enfiar a mão por
baixo do meu vestido.
Ele sorri de novo. Lento. Lascivo. Letal.
— Ainda não enfiei.
[Link]. PUTA.
Sinto o rosto esquentar tanto que tenho certeza de que
estou corada até o último fio de cabelo. E, claro, ele percebe isso
também.
Porque o toque muda. Fica mais lento. Mais intenso. Mais
torturante.
Um jogo perigoso. Um que estou claramente perdendo.
O garçom aparece, e por um segundo, penso: “Graças a
Deus, agora ele vai parar.”
Mas não. É Ethan. E Ethan não joga limpo.
A mão dele continua ali, como se nada estivesse
acontecendo. Enquanto eu peço um risoto, ele traça com o polegar
uma linha provocante mais acima da minha coxa. Como se estivesse
testando meus limites. Como se quisesse ver até onde eu aguento
antes de explodir.
Eu me mexo na cadeira, tentando fugir.
Ele aperta.
Sutil. Quase imperceptível. Mas o recado é claro: Você não
vai fugir de mim.
E eu? Bem... Talvez eu nem queira.
Os dedos dele apertam minha coxa com mais firmeza, e um
suspiro escapa dos meus lábios antes que eu consiga conter.
Os olhos de Ethan brilham com diversão.
— Olivia... — ele murmura, a voz rouca arranhando os
cantos da minha sanidade.
Olho para ele — e imediatamente me arrependo.
Porque o olhar dele é uma maldita armadilha. Castanho
escuro, intenso, carregado de uma fome descarada. Um olhar que
me consome inteira.
Meu corpo, traidor como sempre, responde antes da minha
mente. A pele arrepia, o calor sobe como uma onda.
E então eu entendo o que está acontecendo.
Ele está me testando.
Quer me ver perder o controle. Quer que eu admita que o
toque dele mexe comigo.
E talvez…
Talvez eu queira que ele descubra.
Quando o garçom se afasta, me inclino para frente com um
sorriso lento, perigoso.
— Quer saber, amor? — uso o mesmo tom doce que ele
vinha usando, provocando.
Então deslizo minha perna por baixo da mesa e pressiono
contra a virilha dele. Agora é a vez de ele ficar em apuros. E eu vejo.
Eu vejo exatamente quando isso acontece.
Ethan paralisa.
Seu maxilar trava. Os olhos escurecem.
E eu sorrio. Vitoriosa.
— Treinamento, não é?
Ele se inclina devagar, até que nossos rostos estejam
perigosamente próximos. O calor entre nós é sufocante.
— Cuidado, Olivia — ele sussurra.
Minha respiração prende na garganta.
— Por quê?
Ethan roça os lábios no meu ouvido, tão devagar que a pele
inteira se arrepia.
— Porque, se você continuar jogando... eu vou ganhar.
Sinto o sangue ferver nas veias.
Merda. Eu precisava mudar de assunto.
Precisava parar de pensar em como seria ceder para ele.
Mas o problema?
Eu não queria parar.
Pego a taça de vinho e bebo um gole longo, tentando
disfarçar o caos interno que o toque dele provoca.
— Você sempre soube que queria ser… acompanhante? —
pergunto, antes que o filtro entre o cérebro e a boca entre em ação.
Ethan para.
Os dedos dele, que até então faziam um caminho torturante
na minha coxa, congelam.
O olhar dele muda. Não é raiva. Mas algo se fecha.
Ele respira fundo antes de responder.
— Não.
Arqueio a sobrancelha, curiosa demais para parar agora.
— Então como foi parar nisso?
Ele pega sua taça de vinho e gira o líquido com um ar
pensativo. O movimento é lento, calculado. Como se ele estivesse
escolhendo as palavras com cuidado.
— Digamos que a vida nem sempre segue o plano original.
Tem algo no tom dele.
Algo mais sombrio. Algo que não combina com o homem
seguro e provocador que ele costuma ser.
Me inclino um pouco mais.
— Qual era o plano original?
Ele sorri. Mas não é aquele sorriso torto e sacana de sempre.
É um sorriso curto. Frágil. Triste.
— Essa é uma história pra outro dia.
Sinto um aperto no peito. Porque eu queria insistir. Queria
saber.
Mas também sei quando alguém não está pronto pra abrir
uma ferida.
Então apenas assinto.
E percebo que, de repente, a tensão entre nós mudou.
Não é mais só desejo.
É algo mais profundo.
Algo que me assusta ainda mais.
Ethan não é só um acompanhante. Ele tem camadas.
Cicatrizes.
Segredos que não se contam em voz alta.
E agora, mais do que tudo, eu quero descobrir cada uma
delas.
O problema?
Talvez isso seja mais perigoso do que o próprio desejo.
Porque conhecer alguém de verdade... pode fazer você se
importar.
E se importar, nesse caso, pode ser o começo do fim.
CAPÍTULO 8
OLIVIA
A inquietação começou pequena.
Primeiro, foi o jeito como ele desviou do assunto durante o
jantar.
Depois, aquele olhar sombrio quando perguntei sobre o
passado. E, por fim, a sensação incômoda de que Ethan não era
apenas um acompanhante. Havia mais ali. Algo não dito. Algo
escondido.
No dia seguinte, no escritório, tentei me concentrar no
trabalho.
Falhei miseravelmente.
Depois de reler o mesmo e-mail três vezes sem conseguir
entender uma vírgula, joguei a toalha.
Abri o Google.
“Ethan + Seattle”
Os resultados não foram exatamente úteis. Um monte de
perfis aleatórios de Instagram de caras chamados Ethan. Algumas
matérias esportivas. Um link de um evento beneficente de cinco
anos atrás.
Arqueei uma sobrancelha.
Cliquei.
Era uma reportagem sobre um jantar de gala beneficente
promovido por uma das famílias mais influentes da cidade. Fotos em
preto e branco, políticos engravatados, socialites sorridentes.
E então, entre uma foto de um senador local e outra de uma
colunista de moda... lá estava ele.
Um pouco mais jovem. Cabelo mais curto, rosto limpo, terno
perfeitamente ajustado. Mas era ele. Sem sombra de dúvida.
Ethan Bennett, herdeiro da Bennett Pharmaceuticals.
Senti meu estômago embrulhar.
Bennett. Aquele nome soava alto. Familiar. Reconhecido.
Eu conhecia esse sobrenome. Todo mundo conhecia.
A Bennett Pharmaceuticals era uma das empresas
farmacêuticas mais respeitadas, e ricas, dos Estados Unidos. E o
homem que eu contratei para fingir ser meu namorado... era
simplesmente o herdeiro de tudo aquilo?
A mentira que eu achava ter começado... já existia antes de
mim.
E agora, eu não fazia ideia de quem era o homem que
estava fingindo ser meu namorado.
Mas talvez... ele também estivesse fingindo ser ele mesmo.
Passei o resto do dia com aquilo na cabeça.
A cada reunião, a cada e-mail, a imagem daquela matéria
não saía da minha mente.
Ethan Bennett.
A porra de um herdeiro bilionário.
De uma família poderosa, tradicional, metida até o último fio
de cabelo.
E ele tinha omitido isso. Completamente.
Então, quando ele apareceu no meu apartamento naquela
noite, eu já estava pronta. Não pra ensaio. Não pra mais uma
rodada de beijos estratégicos e toques provocantes. Eu estava
pronta pra confronto.
Ele entrou com aquele ar despreocupado de sempre, jogou a
jaqueta no encosto do sofá e abriu um sorriso fácil, convencido
como se nada pudesse tocá-lo.
— Você me chamou aqui pra treinarmos mais… ou já
desistiu de resistir a mim?
Não respondi.
Cruzei os braços.
E o encarei.
— Ethan Bennett.
O nome saiu da minha boca como um soco.
E o efeito foi imediato.
O sorriso dele evaporou.
Foi como se eu tivesse apertado um botão proibido.
Os olhos dele, sempre cheios de faísca, ficaram opacos.
Frios. A mandíbula travou. A postura relaxada desapareceu.
— Onde você ouviu esse nome?
Não respondi com palavras.
Caminhei até a mesa, peguei o tablet e deslizei na direção
dele.
A tela mostrava a matéria do evento de gala de cinco anos
atrás.
Uma foto elegante. Ele, mais jovem, mais polido, ao lado de
um casal que só podia ser seus pais. Daniel Bennett em destaque.
Ethan, discretamente à margem.
Ele olhou para a tela por exatos três segundos.
Então fechou o tablet e empurrou de volta para mim.
— Não sou mais esse cara.
Cruzei os braços com mais força.
— Ethan, tá escrito aí. Sua família é dona de uma das
maiores empresas farmacêuticas do país. Você é um Bennett. Você
cresceu nesse mundo. Por que fingir que não?
Ele virou de costas, passou as mãos pelo cabelo preso no
coque, visivelmente incomodado.
— Isso não significa nada. Não pra mim.
— Significa tudo. — Dei um passo à frente. — Isso explica
por que você evita o passado como se ele fosse um incêndio. Explica
por que escolheu seu acompanhante ao invés de herdeiro.
Ele se virou de forma brusca, e por um segundo, pensei que
ele fosse gritar.
Mas a voz saiu baixa.
— Eu escolhi essa vida porque quis.
— Por quê?
Ele passou as mãos no rosto, e só então percebi que não era
raiva. Era mágoa.
Era exaustão.
— Porque eu não sou como eles.
As palavras pairaram entre nós, pesadas.
Ele continuou, a voz rouca, ferida.
— Meu pai me via como um investimento. Meu irmão era o
gênio, o sucessor. E eu? Eu era o problema. O artista. O rebelde. O
desperdício de potencial. A vergonha da família.
Minha garganta apertou.
Ele parecia estar contando algo que nunca tinha dito em voz
alta.
— Eu tentei. Juro que tentei. Fiz faculdade de medicina por
dois anos. Sorri para as câmeras, dei entrevistas, fui o filho perfeito.
Até que um dia… eu parei. — Ele me olhou. Direto. Cruelmente
honesto. — Porque eu percebi que eles nunca iam me aceitar como
eu era.
Ele passou a mão no peito, como se tentasse tirar um peso
dali.
— Então fui embora. Rompi com tudo. Larguei a faculdade,
larguei a vida pré-fabricada, e vim pra Seattle. Comecei do zero. Fiz
teatro. Trabalhei de garçom, de barman. E quando alguém sugeriu
que eu poderia usar minha aparência pra ganhar dinheiro... eu
aceitei. E descobri que era bom nisso. Bom em fingir. Em encantar.
Em ser qualquer coisa, menos eu mesmo.
Ficamos em silêncio.
Minha cabeça girava.
Porque aquela confissão... doía.
Não só nele.
Doía em mim também.
Porque eu sabia exatamente o que era crescer tentando
agradar alguém que nunca estaria satisfeito.
Sabia como era se moldar ao que esperavam — até perder
quem você realmente era.
— Por que você não me contou? — minha voz saiu mais
baixa do que pretendia.
Ele deu de ombros.
— Porque você contratou um acompanhante, Olivia. Não um
drama familiar de novela mexicana.
Soltei um riso sem humor.
— Achei que a gente tivesse passado da fase do "apenas
trabalho".
Os olhos dele encontraram os meus.
— Também achei.
Meu coração tropeçou.
Ele deu um passo à frente, e mais outro. Parou tão perto
que eu pude sentir o calor dele.
— Você quer que eu seja real? Então tá aqui. Essa é a minha
verdade. Essa é minha bagunça. Se você quiser sair agora, tudo
bem.
Eu respirei fundo.
Meu corpo gritava pra correr.
Mas meu coração?
Meu coração queria ficar.
— E se eu disser que eu também sou uma bagunça? —
perguntei.
Ele sorriu, um sorriso triste.
— Então talvez a gente seja o tipo certo de bagunça um pro
outro.
Algo no tom dele me fez arrepiar. Porque aquilo não era raiva.
Era dor.
O silêncio ficou pesado, denso, quase palpável.
E então ele soltou um suspiro longo. Quase cansado.
— Meu pai me queria no comando da empresa. Queria que eu
fosse médico. Minha mãe queria que eu casasse com uma mulher
escolhida por eles. O Daniel sempre foi o filho perfeito. Eu… eu
nunca fui bom o suficiente.
Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu entendia isso. Mais
do que queria admitir.
Ele riu. Um riso amargo, seco, sem nenhum vestígio de
humor.
— Então eu fiz o que eles mais odiariam. Fui embora. E me
tornei exatamente o que eles desprezam.
Eu quis dizer algo.
Quis dizer que ele não precisava carregar esse peso sozinho.
Que ele não era um erro, nem um fracasso, e que ninguém merecia
se sentir assim.
Mas não disse.
Porque ele não queria ser salvo.
E talvez… talvez eu também não quisesse salvá-lo.
Talvez, no fundo, eu só quisesse me perder nele.
E no exato instante em que esse pensamento me atingiu…
Ethan deu um passo à frente.
E depois outro.
E quando ele parou diante de mim, tão perto que meu
coração tropeçou no peito, eu soube.
Dessa vez, não tinha mais jogo.
Não tinha mais desculpas.
Ele me olhou como se eu fosse inevitável.
Como se eu fosse a escolha — e não a exceção.
E antes que eu pudesse pensar, questionar ou fugir, ele me
puxou pela cintura e me beijou.
Mas esse beijo… esse não era um beijo de ensaio.
Esse era um beijo de quem já perdeu o controle. De quem
esqueceu as regras, os limites, as amarras.
E o pior?
Eu também tinha perdido.
O beijo começou intenso, urgente, quase desesperado.
Mas então… Ethan desacelerou.
Ele provou minha boca com calma, com intenção, com aquela
maldita precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo — e
esse desgraçado sabia.
Minhas mãos deslizaram pelo peito dele. Firme. Quente.
Tentador.
Ele gemeu baixo, e o som vibrou contra os meus lábios.
Meu corpo respondeu antes da minha mente. Minhas coxas se
pressionaram uma contra a outra. Meu estômago se contraiu. Meu
coração disparou. E, droga… eu queria mais.
Mas então ele quebrou o beijo.
Ainda perto. Ainda com as mãos grandes me prendendo pela
cintura.
Ele encostou a testa na minha, a respiração dele pesada e
irregular, como se estivesse lutando contra alguma coisa.
Eu estava prestes a perguntar o que era, mas ele me pegou
de surpresa.
Seus dedos deslizaram pela lateral do meu corpo. Devagar.
Explorando cada curva como se estivesse memorizando.
— Você não faz ideia do que está fazendo comigo… — ele
murmurou, a voz rouca, cheia de promessas perigosas.
Minha pele se arrepiou inteira.
Ele segurou meu quadril com mais força, os polegares
roçando a pele nua entre o vestido e minha cintura.
— Você e esse corpo, Olivia… — ele deslizou os lábios pelo
meu pescoço, mordendo de leve.
Eu arfei. Um som pequeno. Entregue.
— Cada curva sua me deixa maluco.
Suas mãos desceram para minha bunda, apertando com
firmeza, arrancando um suspiro involuntário.
— Essa cintura pequena… — ele sussurrou, os dedos
traçando minha lateral.
— Essas coxas gostosas… — ele roçou as mãos nelas,
subindo devagar, sem pressa, saboreando o caminho.
Meu coração batia tão rápido que eu mal conseguia respirar.
— Você não tem ideia do quanto me excita.
Engoli em seco, sentindo seu pau duro roçar na minha barriga
— e, céus, era muito pau.
— Então… faz alguma coisa. — Minha voz saiu mais fraca do
que eu gostaria.
Ele riu. Baixo. Perigoso.
Maldito.
— Não ainda.
— Por quê? — Minha frustração estava tão evidente que
parecia um elefante rosa sentado no sofá.
Ele encostou os lábios na minha orelha, a barba raspando
contra minha pele sensível.
— Porque quando eu finalmente fizer… você não vai querer
que eu pare.
Sua voz era um sussurro sujo.
— Não vai haver “treinamento”, nem “trabalho”, nem ex
idiota, nem casamento de irmã. Vai haver só eu, dentro de você, te
ouvindo gemer meu nome enquanto te fodo gostoso.
Minha respiração falhou.
Completamente.
Ele segurou meu rosto entre as mãos, me olhando com
intensidade brutal. Como se estivesse marcando aquele momento na
memória.
E então… ele recuou.
Simplesmente recuou.
Virou-se, caminhou até a porta e abriu.
Mas antes de sair, olhou por cima do ombro.
— Boa noite, Olivia.
E saiu.
Me deixando ali. Quente. Frustrada. E completamente tomada
pelo desejo.
Desmoronada na minha própria porta.
CAPÍTULO 9
ETHAN
Se alguém tivesse me avisado que fingir ser o namorado de
Olivia seria tão fodidamente difícil, eu teria cobrado o triplo.
Porque agora ela está ali, sentada ao meu lado no carro,
com as pernas cruzadas, um vestido curto que sobe um pouco mais
toda vez que ela se mexe.
E eu não consigo parar de olhar.
Não devia. Mas olho.
Dirijo com uma mão no volante e a outra apoiada na minha
própria perna, me forçando a manter o foco na estrada.
Mas é difícil. Muito difícil.
Principalmente porque, a cada cinco minutos, Olivia suspira
irritada e ajusta o vestido, tentando puxá-lo para baixo. O que só
piora tudo.
— Se esse negócio subir mais um centímetro, eu vou
precisar de uma licença para dirigir com distrações fatais.
Ela vira o rosto lentamente para mim, arqueando uma
sobrancelha com aquele olhar que diz “não me testa”.
— Se você mantivesse os olhos na estrada, não teria esse
problema.
Sorrio, com aquele meu melhor sorriso sacana.
— Impossível.
Ela revira os olhos com força, mas sei que gostou da
provocação. Sempre gosta.
O pior?
Eu não estou brincando.
Esse maldito vestido, essas coxas expostas, o jeito que ela
morde o lábio distraidamente enquanto mexe no celular…
Ela está me destruindo. Completamente.
E o mais insano?
Eu ainda não toquei nela como realmente quero.
Se eu já estou assim agora, o que vai acontecer quando
estivermos sozinhos num quarto de hotel, com uma cama de casal
nos esperando?
Solto o ar, tentando ignorar esse pensamento perigoso.
Mas sei que estou fodido.
Literalmente.
Duas horas de viagem.
E só se passaram trinta minutos.
— Quer parar para tomar um café? — pergunto, tentando
soar casual.
— Pra quê? — Ela me olha, desconfiada.
Dou de ombros.
— Pra você esticar as pernas. E pra eu recuperar o controle
da minha sanidade.
Ela ri. Um som gostoso, livre, que me dá vontade de
cometer pecados.
— Que exagero, Ethan.
— Exagero? Você tem noção do que está usando? — Dou
uma rápida olhada para as pernas dela, depois volto correndo os
olhos para a estrada. — Isso aí deveria vir com alerta de perigo.
Ela morde o lábio de novo. De propósito. Eu sei.
—Está calor. O que você queria que eu usasse? Um macacão
de lã?
— Queria que usasse... menos atitude.
Ela gargalha.
— Ah, meu bem… aí é que você se engana. Essa aqui é a
versão comportada.
Eu gemo baixinho, batendo os dedos no volante.
— Eu vou morrer nessa viagem.
— E eu nem encostei em você. — Ela pisca.
— E esse é o problema.
Ela se acomoda melhor no banco, cruzando as pernas de
novo. E dessa vez, eu quase bato o carro.
— Ethan? — Ela pergunta, fingindo inocência.
— Hm?
— Você está com calor, ou é impressão minha?
Dou uma risada seca, quase desesperada.
— Olivia… você é o próprio inferno.
Ela sorri. Diabólica.
— Então se prepara, amor. A noite só está começando.
Eu realmente preciso de uma pausa.
Ou de um quarto de hotel muito bem trancado.
E talvez, de um balde de água fria.
Ou duas horas a menos de autocontrole.
Porque, nesse ritmo?
Eu não vou sobreviver até o fim de semana.
Estaciono o carro em um posto de gasolina na beira da
estrada, uma daquelas paradas com lanchonete suspeita, café
duvidoso e um banheiro que provavelmente esconde segredos
sombrios desde 1994.
Olivia salta do carro e se espreguiça com os braços erguidos,
os ombros estalando, o vestido subindo um pouco mais.
E eu não devia estar olhando…, mas estou.
— Me dá dois minutos. — Ela avisa, caminhando em direção
ao banheiro.
Eu só balanço a cabeça, mas a verdade? A verdade é que eu
mal consigo respirar direito.
Meu olhar acompanha cada passo. As pernas dela, o
movimento de quadril, a segurança descontraída de quem não tem
ideia do efeito que causa.
Merda.
Corro as mãos pelo rosto, tentando recuperar o controle.
Eu preciso de café. Preciso de um balde de gelo. Preciso de
uma porra de uma intervenção divina.
Entro na loja de conveniência.
Pego dois cafés e algumas garrafas de água — alguém
precisa manter essa mulher hidratada depois do tanto que ela me
faz suar.
Quando volto para o carro, ela já está lá dentro, mexendo no
celular, os pés descalços no painel, o cabelo bagunçado com charme,
como se ela tivesse nascido para ser a estrela de um comercial de
perfume sexy.
Ela ergue os olhos e sorri.
E, sem motivo algum…
Meu coração falha uma batida.
Estamos de volta à estrada.
O silêncio confortável se instala no carro, apenas o som da
música baixa no rádio e o ronco constante do motor.
Mas minha mente? Está um caos.
Porque agora, além do desejo que cresce toda vez que ela
cruza as pernas ou suspira irritada, tem outra coisa ali.
Algo mais perigoso.
Algo que cresce toda vez que ela sorri daquele jeito torto, ou
joga o cabelo para o lado, ou me olha como se... estivesse me
vendo de verdade.
E eu não posso deixar isso acontecer.
Preciso lembrar que essa história tem data pra acabar.
Em poucos dias, o casamento termina. A mentira termina.
Nós terminamos.
E eu vou embora.
Porque é isso que eu faço. Eu não fico. Nunca fiquei.
Mas porra…
Dessa vez, pela primeira vez em anos, eu quero ficar.
E esse é o maior problema de todos.
Quando finalmente chegamos ao hotel, já está escuro.
O lugar? Absurda e escandalosamente luxuoso.
Tapetes felpudos, lustres de cristal que poderiam iluminar
uma cidade pequena, recepcionistas que sorriem com a precisão de
um cirurgião plástico.
E, claro, o caos começa.
— Como assim só tem um quarto? — Olivia pergunta, com a
voz três oitavas acima do normal.
A recepcionista sorri, paciente, mas firme.
— Me desculpe, senhorita. O hotel está lotado devido ao
evento. A reserva consta apenas um quarto de casal.
— Era pra serem dois! — Olivia rosna. — Um para mim. Outro
para meu namorado.
A mulher olha para nós com um sorrisinho profissional.
— Me desculpe, não temos como alterar no momento.
Olivia respira fundo. Fecha os olhos. Solta o ar como se
estivesse prestes a cometer um homicídio.
Eu aproveito.
— Então vamos ter que dividir uma cama, amor? — sussurro
no ouvido dela, com a voz mais doce e maliciosa que consigo reunir.
Ela me lança um olhar mortal.
— Se você me tocar, eu te sufoco com um travesseiro.
Assinto, pensativo.
— Gosto de um pouco de perigo.
Ela me empurra com força — e eu rio.
Mas por dentro?
Por dentro eu estou ardendo.
O quarto é uma obra de arte, cama king size, lençóis que
parecem nuvens, vista para o mar, banheiro de mármore com
banheira de hidromassagem e iluminação indireta que dá vontade de
acender velas e pedir um vinho caro.
Mas nada disso importa.
O que importa é Olivia.
Parada ali no meio do quarto, tirando o casaco, revelando
mais do vestido assassino.
Ela solta um suspiro, joga a bolsa em cima da poltrona e
começa a tirar os brincos, depois os sapatos, sem nem perceber o
espetáculo que está fazendo.
E tudo que consigo pensar é:
Como vou passar essa noite do seu lado sem tocar em você?
Como vou dormir nessa cama, sentindo seu cheiro, ouvindo
sua respiração, talvez até seu corpo encostar no meu…
Sem perder completamente a cabeça?
Ela se vira e me vê encarando.
— Vai ficar aí parado babando ou vai tomar banho primeiro?
Engulo em seco.
— Pode ir primeiro. Eu… preciso de um momento com o ar-
condicionado.
Ela revira os olhos e caminha até o banheiro.
A porta se fecha.
E eu me jogo na cama, soltando o ar com força.
Essa mulher vai ser a minha ruína.
E o pior? Talvez eu queira mesmo ser destruído por ela.
CAPÍTULO 10
Se alguém dissesse que eu passaria a noite trancado num
quarto de hotel com Olivia, sem tocá-la, eu riria na cara da pessoa.
Mas ali estava eu.
De pé, no meio do quarto, observando Olivia desfazer a mala
com a expressão de quem queria esganar alguém, provavelmente a
mãe dela.
— Isso é um absurdo! — ela resmungava, jogando peças de
roupa na cama de qualquer jeito. — Eu pedi apenas um quarto, mas
a minha mãe jamais deixaria que eu ficasse em um quarto sozinha
com um namorado. Ela nunca deixou nem com... — Ela parou e me
olhou. Eu sabia que ela estava prestes a dizer o nome daquele
escroto.
Cruzei os braços e me encostei no batente da porta,
escondendo um sorriso.
— Um acidente conveniente, não acha?
Ela virou para mim com as mãos na cintura, os cabelos presos
em um coque frouxo, o vestido ligeiramente levantado na lateral,
revelando um pedaço de pele tentador.
— Você acha que ela fez isso de propósito? Será que está tão
desesperada para que eu me case que até passou por cima dos
princípios da família?
— Olivia, pelo o que me contou, sua mãe não dá ponto sem
nó.
— Ah, ótimo! Então, além de passar o fim de semana num
casamento com meu ex-noivo e minha prima, agora tenho que
dividir um quarto com… você!
Fingi indignação.
— “Com você”? Nossa, que desrespeito. Sabe quantas
mulheres matariam para estar no seu lugar?
— Pois eu mataria para estar em qualquer outro lugar — ela
rebateu, cruzando os braços.
— Isso doeu. — Levei uma mão ao peito, fingindo estar
ofendido. — Mas não se preocupe, amorzinho. Eu sou um
profissional. Não vou te atacar no meio da noite.
Ela revirou os olhos e voltou a mexer na mala. Eu, por outro
lado, fui até a sacada do quarto, abrindo as portas de vidro.
O ar da noite era quente, com uma leve brisa vinda do
oceano. A suíte tinha uma vista incrível para a praia iluminada pela
lua, o som das ondas quebrando ao fundo.
Seria romântico, se não estivéssemos num relacionamento de
mentira.
Ou se eu não quisesse tanto jogá-la na cama e acabar com
essa tensão absurda.
Porque, verdade seja dita, Olivia me enlouquecia.
Cada curva do corpo dela. O jeito que a boca se torcia em um
biquinho quando estava irritada. As coxas deliciosamente grossas e a
pele macia, aqueles seios nos quais eu poderia facilmente me
perder… e aquela bunda… o que era aquela maldita bunda?
E agora, nós estávamos presos no mesmo quarto.
Eu sabia que era só questão de tempo até alguém cruzar a
linha.
A questão era: quem cederia primeiro?
Depois de uma discussão sobre quem ficaria com qual lado da
cama, Olivia decidiu tomar banho primeiro.
O chuveiro ligou e eu me joguei na cama, encarando o teto,
tentando pensar em coisas banais. Futebol. Contabilidade. O preço
do leite.
Nada funcionava.
Porque tudo o que minha mente conseguia imaginar era
Olivia naquele banheiro.
A pele molhada. A água escorrendo pelos seios. Os gemidos
baixos quando a água quente massageava seus músculos tensos.
Inferno.
Levantei num pulo, precisando de algo para ocupar as mãos.
Peguei meu celular, chequei e-mails, respondi mensagens de clientes
antigos. Mas minha atenção foi completamente sequestrada quando
ouvi a porta do banheiro se abrir.
Virei para Olivia… e quase perdi o controle.
Ela estava usando um daqueles roupões de hotel, mas o
tecido fino e branco grudava em cada curva do seu corpo ainda
molhado.
— O quê? — ela perguntou ao me ver encarando.
Apenas balancei a cabeça.
— Nada.
— Você vai tomar banho ou vai ficar me olhando como se
estivesse prestes a cometer um crime?
— Eu deveria ser preso, na verdade — murmurei, caminhando
até o banheiro.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
Parei ao lado dela, encostando a boca em seu ouvido.
— Porque tudo o que estou pensando agora é ilegal em pelo
menos sete estados.
Ela ficou imóvel. Sua respiração vacilou por um segundo. E eu
percebi, ali, que Olivia não estava imune a mim como tentava
parecer.
Ela me queria.
Quando saí do banho, ainda secando o cabelo com a toalha,
vi Olivia fechar a mala rapidamente, como se escondesse algo.
— O que você está aprontando? — perguntei, arqueando uma
sobrancelha.
— Nada! — ela respondeu rápido demais, se afastando da
cama.
Foi então que algo caiu no chão. Pequeno. Rosa. Um
vibrador!
Eu pisquei.
Depois sorri.
Lentamente, abaixei e peguei o brinquedo.
— Interessante, Liv…
— ME DÁ ISSO! — ela avançou para tirar de mim, mas eu
ergui a mão no alto, mantendo longe do alcance dela.
— Você trouxe um vibrador para um casamento de família?
Isso é bem… ousado.
Ela cruzou os braços, o rosto corando.
— Ele não é um vibrador qualquer. Ele se chama Tico e Teco.
E eu gosto de me virar sozinha.
Meu pau endureceu instantaneamente.
Porra.
Inclinei a cabeça para o lado, observando Olivia com ainda
mais interesse.
— Sozinha, é? E por que Tico e Teco?
— Sim, sozinha. E Tico e Teco porque são dois, não vê? Agora
me devolve.
Observei o objeto rosa em minha mão. De fato, tinha duas
extremidades, dois coelhinhos, na verdade.
Me aproximei devagar, encurtando a distância entre nós.
— E se eu dissesse que tenho um jeito mais divertido de você
usar isso?
Ela piscou, hesitante.
— O quê?
Agarrei sua cintura e a empurrei para trás, até suas costas
baterem contra a parede.
— Deixa eu brincar com você, Olivia. Deixa-me te mostrar
como se brinca com isso aqui.
Ela engoliu em seco, me encarando, sem dizer nada.
Meu corpo estava colado ao dela. Minhas mãos deslizaram
por suas coxas.
— Ethan…
— Shhh…
Minhas mãos foram para a amarração do roupão. Puxei
devagar, sem pressa, saboreando cada segundo.
O tecido deslizou, revelando seu corpo quente e macio, seus
seios encostando no meu abdômen.
Passei o vibrador pela parte interna de suas coxas, subindo
lentamente.
— Eu quero te ouvir, Liv…
Ela arfou.
Liguei o vibrador na velocidade mais baixa e pressionei contra
sua boceta.
— Ahhh… — um gemido doce escapou de seus lábios.
Agarrei seu quadril, controlando seus movimentos enquanto
aumentava a intensidade.
— Você é linda assim, Olivia.
— Ethan… por favor…
Ela agarrou meus ombros, o corpo tremendo.
Aumentei a velocidade e levei a boca ao ouvido dela.
— Goza pra mim. Quero sentir escorrer nos meus dedos.
E ela obedeceu.
Seu corpo se arqueou, a respiração entrecortada, as pernas
tremendo enquanto o prazer a atravessava de maneira avassaladora.
Eu a segurei firme, sentindo cada espasmo contra minha pele.
Quando finalmente relaxou, encostou a cabeça no meu
ombro, ainda ofegante.
— Porra… — ela murmurou.
— Exatamente — sorri, satisfeito.
Mas antes que pudéssemos ir além, meu celular tocou.
Era minha mãe.
E, pela insistência, aquilo não era uma ligação qualquer.
Algo estava errado.
E eu tinha a sensação de que a noite quente, que prometia
ser inesquecível, estava prestes a se tornar uma bagunça
completamente diferente.
CAPÍTULO 11
OLIVIA
Acordei com a luz suave do amanhecer filtrando-se pelas
cortinas do quarto. O silêncio era quase absoluto, exceto pelo som
distante das ondas quebrando na praia. Virei-me na cama, sentindo
o calor residual no lençol ao meu lado. Ethan já havia se levantado.
Levantei-me e encontrei um bilhete sobre a mesa:
"Fui correr na praia. Volto em breve. — Ethan"
Imaginei-o correndo pela areia, músculos flexionando sob o
sol nascente, suor escorrendo pelo peito... Sacudi a cabeça,
tentando afastar as imagens que ameaçavam transformar meu rosto
em um tomate maduro.
Decidi aproveitar o tempo para organizar minhas coisas. Abri
minha mala para arrumar as roupas espalhadas. Foi quando vi o
vibrador, aquele pequeno traidor cor-de-rosa, encarando-me como
se dissesse: “E aí, quando vai me usar?”
Suspirei, lembrando-me da noite anterior. Ethan tinha sido...
bem, ele tinha sido incrível. Mas, depois, ele ficou estranho. Será
que ele se arrependeu? Será que fui ousada demais? Talvez ele
preferisse mulheres mais recatadas, do tipo que cora ao ouvir a
palavra sexo.
Enquanto dobrava uma blusa, ouvi a porta se abrir. Ethan
entrou, cabelo úmido e pele brilhando de suor.
— Bom dia, dorminhoca.
— Bom dia. Como foi a corrida?
— Revigorante. O que você está fazendo?
— Só arrumando minhas coisas.
Ele se aproximou, olhos fixos em mim. Meu coração acelerou.
— Olivia, sobre ontem à noite...
Preparei-me para o golpe. Lá vem o discurso do "foi um erro".
— Se eu fiz algo que a deixou desconfortável, me desculpe.
Espere. O quê?
— Desconfortável? Eu achei que você estivesse arrependido.
— Arrependido? Olivia, eu...
Foi então que percebi: estávamos em um clássico mal-
entendido digno de comédias românticas.
— Então, você não está arrependido?
— Claro que não! Eu só fiquei preocupado em ter avançado
demais.
Soltei uma risada, aliviada.
— E eu pensei que tinha sido ousada demais.
Ele sorriu, aquele sorriso que fazia minhas pernas virarem
gelatina.
— Parece que precisamos melhorar nossa comunicação.
— Definitivamente.
Nos encaramos por um momento, até que ele deu um passo
à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Posso beijá-la?
Em resposta, puxei-o pela nuca, unindo nossos lábios.
O resto da manhã foi uma mistura de risos, beijos e a
promessa de que, desta vez, não haveria mal-entendidos.
Descemos as escadas lado a lado, o aroma de café fresco e
pão recém-saído do forno preenchendo o ar. Ao nos aproximarmos
do salão de refeições, senti a mão de Ethan deslizar suavemente
para a minha, entrelaçando nossos dedos com naturalidade. Meu
coração deu um salto, e uma onda de calor subiu pelo meu rosto.
— Tudo bem? — ele perguntou, inclinando-se ligeiramente
em minha direção, sua voz baixa e reconfortante.
— Sim, só um pouco nervosa. Minha família pode ser...
intensa.
Ele sorriu, aquele sorriso tranquilo que parecia dizer que nada
no mundo poderia abalá-lo.
— Estou pronto para o que vier.
Ao entrarmos no salão, todos os olhos se voltaram para nós.
Minha mãe, sentada à cabeceira da mesa, ergueu as sobrancelhas
em surpresa ao ver nossas mãos entrelaçadas.
— Bom dia, queridos! — ela exclamou, com um sorriso que
não escondia a curiosidade. — Sentem-se, por favor.
Ethan puxou uma cadeira para mim antes de se sentar ao
meu lado. Minha mãe não perdeu tempo.
— Então, Ethan, conte-nos como você e Olivia se
conheceram.
Senti meu estômago revirar. Antes que eu pudesse intervir,
Ethan respondeu com calma:
— Nos conhecemos em Seattle. Foi um encontro inesperado,
mas desde o início senti uma conexão especial com Olivia.
Minha irmã, Claire, que estava se servindo de suco, soltou
uma risadinha sarcástica.
— Inesperado mesmo. Sempre achei que homens como você
preferissem mulheres... diferentes.
O silêncio que se seguiu foi palpável. Senti meu rosto queimar
de vergonha e indignação. Antes que eu pudesse responder, Ethan
colocou sua mão sobre a minha, apertando-a levemente em sinal de
apoio. Ele se virou para Claire, seu olhar firme, mas gentil.
— Claire, devo discordar. Olivia é uma mulher extraordinária.
Ele olhou ao redor da mesa, certificando-se de que todos
estavam ouvindo.
— Ela é inteligente, determinada e tem um senso de humor
que ilumina qualquer ambiente. Sua compaixão pelos outros é
inspiradora, e sua força diante dos desafios é admirável. Além disso,
ela tem um gosto musical impecável e faz o melhor café que já
provei.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas, mas mantive a
compostura. Ethan fez uma pausa, então acrescentou com um
sorriso travesso:
— E, devo dizer, ela é incrível na cama.
Engasguei com o suco que estava bebendo, e minha mãe
deixou cair a colher que segurava, fazendo um barulho alto contra o
prato. O rosto dela era uma mistura de choque e confusão.
— Ethan! — exclamei, minha voz saindo em um sussurro
esganiçado.
Antes que a tensão pudesse se instalar completamente,
minha tia-avó Margot, uma senhora de oitenta e poucos anos,
conhecida por sua franqueza e espírito jovial, soltou uma gargalhada
sonora.
— Ah, se eu tivesse a idade da Olivia, também o levaria para
a cama, querido!
O salão explodiu em risadas, e até minha mãe não pôde
deixar de sorrir, embora ainda parecesse um pouco atordoada.
Ethan inclinou-se em minha direção e sussurrou:
— Acho que passei no teste da família.
Não pude deixar de rir, balançando a cabeça.
— Você definitivamente sabe como causar uma impressão.
E, apesar do embaraço, não pude deixar de sentir uma onda
de gratidão por tê-lo ao meu lado.
CAPÍTULO 12
ETHAN
A aurora mal despontava no horizonte quando saí para correr.
O ar fresco da manhã preenchia meus pulmões, e o som rítmico dos
meus tênis contra o asfalto ecoava na tranquilidade do amanhecer.
Correr sempre foi minha válvula de escape, uma forma de organizar
os pensamentos e encontrar clareza. Mas, naquela manhã, minha
mente estava inquieta.
Enquanto percorria as ruas silenciosas, senti meu celular
vibrar no bolso. Diminuí o ritmo e, ao ver o nome "Mãe" na tela, um
suspiro escapou dos meus lábios. Sabia que não seria uma conversa
fácil.
— Alô?
— Ethan, finalmente! Tenho tentado falar com você.
— Estive ocupado, mãe.
— Você sempre está ocupado, Ethan. Quando se lembrar que
tem uma família, me ligue.
Parei, passando a mão pelos cabelos úmidos de suor.
O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor. Após
alguns segundos, ela desligou sem se despedir. Guardei o celular no
bolso e retomei a corrida, tentando afastar a sensação de vazio que
se instalara em meu peito.
Mais tarde, após o café da manhã tumultuado com a família
de Olivia, decidimos explorar as redondezas do hotel. O sol brilhava
intensamente, e uma brisa suave tornava o passeio agradável.
— Que tal darmos uma volta? — sugeri, entrelaçando meus
dedos nos dela.
— Parece uma ótima ideia. Preciso me distrair um pouco.
Caminhamos por trilhas cercadas por árvores frondosas,
ouvindo o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas sob nossos
pés. Conversávamos sobre trivialidades, rindo de piadas bobas e
aproveitando a companhia um do outro.
Após algum tempo, encontramos um pequeno depósito
abandonado, parcialmente escondido pela vegetação. A curiosidade
nos levou até lá.
— Vamos dar uma olhada? — perguntei, com um sorriso
maroto.
— Por que não?
Entramos no depósito empoeirado, onde raios de sol
penetravam por frestas nas paredes de madeira, criando padrões
dourados no chão. O ambiente tinha um ar de mistério, e a
proximidade de nossos corpos em um espaço tão confinado fez a
tensão entre nós aumentar.
Olivia encostou-se a uma das paredes, mordendo o lábio
inferior de maneira provocante. Aproximei-me lentamente,
colocando as mãos ao lado de sua cabeça, prendendo-a entre meus
braços.
— Você sabe o quanto me deixa louco, não sabe?
Ela sorriu, deslizando as mãos pelo meu peito.
— E o que você pretende fazer a respeito?
Aproximei meus lábios dos dela, roçando-os levemente,
provocando-a. Senti sua respiração acelerar, e seus olhos brilhavam
com desejo.
— Acho que podemos encontrar algo para nos entreter.
Desci os lábios pelo pescoço dela, depositando beijos suaves
e mordiscando levemente sua pele macia. Ela suspirou, inclinando a
cabeça para o lado, me dando mais acesso.
Minhas mãos deslizaram por suas costas, explorando cada
curva, enquanto nossos corpos se pressionavam. O calor entre nós
era palpável, e a tensão elétrica parecia prestes a explodir.
Olivia puxou minha camisa, incentivando-me a tirá-la. Atendi
ao seu pedido, revelando minha pele quente. Ela passou as mãos
pelo meu abdômen, traçando linhas imaginárias que enviavam
arrepios por todo o meu corpo.
Desci minhas mãos até a barra de sua blusa, levantando-a
lentamente. Ela ergueu os braços, permitindo que eu a retirasse,
revelando sua lingerie rendada, que fez meu coração disparar.
Nossos lábios finalmente se encontraram em um beijo
intenso, repleto de desejo e necessidade. As línguas dançavam em
uma sinfonia perfeita, enquanto as mãos exploravam territórios
conhecidos e desconhecidos.
Minhas mãos deslizaram até sua saia, levantando-a e
acariciando suas coxas macias. Ela gemeu contra meus lábios,
incentivando-me a continuar.
De repente, o som de passos do lado de fora nos trouxe de
volta à realidade. Afastei-me ligeiramente, tentando controlar a
respiração ofegante.
— Acho melhor continuarmos isso em outro lugar.
Olivia assentiu, com um sorriso travesso nos lábios.
Saímos do depósito com o corpo ainda quente, o desejo
pulsando sob a pele e um sorriso satisfeito no rosto de Olivia. Aquela
mulher… estava acabando comigo. Do melhor jeito possível.
Voltávamos em silêncio, mas era aquele silêncio confortável,
carregado de energia e cumplicidade. O hotel começava a aparecer
ao longe, os jardins bem cuidados, as famílias circulando, os risos ao
fundo... até que vi o corpo dela enrijecer ao meu lado.
— Droga… — ela murmurou, tensa.
Segui o olhar dela. E lá estava ele.
O infeliz.
Steven sei lá o quê...
De longe, o típico boy lixo que acha que é protagonista de
filme de romance, mas não passa do figurante de filme de terror
ruim.
Ele estava ao lado de uma mulher vulgar: a prima dela. Os
dois parecendo saídos de um catálogo de casal falso feliz.
Senti o corpo de Olivia endurecer ainda mais. Ela parou os
passos. Eu não deixei.
Minha mão passou firme pela cintura dela e a puxei contra
meu corpo. Firme. Posse. Proteção. Território marcado.
— Não faça isso — sussurrei só pra ela ouvir. — Não pare por
causa dele. Você está com alguém que te valoriza de verdade agora.
Caminha como a mulher foda que é.
Ela me olhou de canto. Os olhos azuis brilhando, o orgulho
ferido lutando pra não afundar. Assentiu com a cabeça.
Continuamos andando.
Eu podia sentir os olhos dele queimando nossas costas
enquanto nos aproximávamos.
Quando passamos por ele, vi o exato momento em que
Steven arregalou os olhos ao ver Olivia, e mais ainda quando
percebeu que ela estava comigo.
O olhar dele varreu o corpo dela. E depois parou em mim.
Tentando entender.
Babaca.
Olivia seguiu em frente, cabeça erguida como eu sabia que
ela faria.
Eu, por outro lado, fiquei um pouco pra trás, propositalmente.
Só pra dar o gostinho.
Steven, é claro, não perdeu a chance.
— Ei, cara... — ele chamou.
Virei devagar, como quem dá atenção a uma mosca
insistente. E lá estava ele: camisa polo apertada demais nos bíceps
murchos, sorriso ensaiado e aquele olhar de vou marcar território, só
que o território já tem dono, e esse dono sou eu, mesmo que seja
por um contrato de um fim de semana.
— Pois não? — perguntei, sem me mover.
Ele estendeu a mão, todo confiante.
— Steven Parker. Ex da Olivia. Imagino que você seja o novo
namorado?
Apertei a mão dele. Firme. Firme o bastante pra ver ele
engasgar com a própria arrogância.
— Ethan Bennett. Atual tudo dela. E, diferente de você,
espero ser o último. E você... deve ser o imbecil que a perdeu.
Ele forçou um sorriso amarelo.
— Vocês... estão juntos há muito tempo?
Soltei uma risadinha sarcástica.
— O suficiente pra saber que ela merece infinitamente mais
do que já teve.
O olhar dele escureceu.
— Ela mudou. Engordou um pouco até, não? — Tentou
provocar.
Meu sangue ferveu. Mas meu sorriso continuou no rosto.
— Mudou sim. Pra melhor. Está mais linda. Mais mulher. Mais
segura. E com curvas que homem de verdade sabe valorizar… sabe
apreciar… sabe deixar de joelhos na cama.
Ele soltou uma risadinha cínica, e aí veio o comentário que
me fez ter que respirar fundo pra não rir na cara dele.
— Ainda bem que você tem esses músculos aí, né? — Ele
apontou com um gesto idiota. — Vai precisar de força pra aguentar
a Olivia. A garota sempre foi… intensa. — E com as mãos, fez um
gesto grosseiro, como se estivesse descrevendo algo... grande.
Eu dei um passo à frente. O suficiente pra que só nós dois
ouvíssemos.
Me aproximei do ouvido dele, mas sem perder o sorriso
sarcástico nos lábios.
Ele travou.
— Não se preocupe — continuei — a Liv é perfeita. Gostosa
pra caralho. E eu aguento por horas.
Pausa, só pra ver ele engolir a seco.
— Coisa que você, pelo que soube... nunca conseguiu, né?
O sorriso dele morreu. Morto, enterrado e com lápide.
— E sabe o que é pior, Steven? — encostei o rosto mais
perto. — Ela geme meu nome como se fosse prece. E não é de
desespero. É de prazer. Algo que, claramente, ela nunca sentiu com
você. A Olivia é o tipo de mulher que, quanto mais você conhece,
mais entende o quanto foi idiota em perdê-la.
Dei um passo mais longe dele.
— Mas eu agradeço, de verdade. Porque se você não tivesse
sido tão babaca, eu não teria a chance de ter ela nos meus braços
hoje.
Steven fechou a cara.
— Boa sorte pra você, cara… — resmungou, visivelmente
atingido.
Eu dei um meio sorriso, aquele que diz “eu já venci”.
— Sorte? Não preciso. Com a Olivia eu tenho tudo o que
preciso. E olha… — Olhei pra ele de cima abaixo. — Vai ser difícil
você esquecer o que viu hoje. Principalmente quando perceber que
ela nunca mais vai olhar pra trás.
Virei as costas.
Segui em direção ao quarto, onde eu sabia que a minha
mulher, porque naquele momento ela era minha, estava me
esperando.
E que Steven Parker soubesse… a partir daquele momento,
ele só ia ser lembrado como o cara que perdeu Olivia Carter.
Pra sempre.
CAPÍTULO 13
OLIVIA
Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, encostando-
me nela enquanto tentava controlar a respiração acelerada. Meu
coração martelava no peito, e minhas mãos tremiam. Ver Steven lá
embaixo, tão próximo, trouxe à tona uma avalanche de emoções
que eu pensei ter superado.
Comecei a andar de um lado para o outro, sentindo o pânico
crescer dentro de mim. E se ele descobrisse e contasse para todos
que nosso relacionamento era uma farsa? E se minha família
descobrisse que tudo não passava de um contrato? As lágrimas
começaram a escorrer pelo meu rosto antes mesmo que eu pudesse
detê-las.
Sentei-me na beira da cama, enterrando o rosto nas mãos,
permitindo-me chorar livremente. A sensação de impotência era
esmagadora. Eu havia me metido nessa situação para evitar
constrangimentos, mas agora parecia que tudo estava
desmoronando.
A porta do quarto se abriu suavemente, e eu levantei o
olhar, vendo Ethan entrar. Seus olhos imediatamente encontraram os
meus, e a preocupação estampada em seu rosto fez meu coração
apertar ainda mais. Sem hesitar, levantei-me e corri para seus
braços, buscando conforto na única fonte que parecia sólida naquele
momento.
Ele me envolveu em um abraço apertado, suas mãos
acariciando minhas costas de maneira reconfortante. O calor de seu
corpo e o ritmo constante de sua respiração começaram a acalmar
meu turbilhão interno.
— Estou aqui, Olivia — ele sussurrou contra meu cabelo. —
Estou aqui por você.
Suas palavras, embora reconfortantes, trouxeram à tona a
realidade do nosso acordo. Afastei-me ligeiramente, olhando em
seus olhos.
— Eu sei, Ethan. Você é um profissional excelente. Está
cumprindo sua parte no contrato perfeitamente.
Uma sombra passou por seu olhar, e ele franziu levemente
as sobrancelhas.
— Olivia, eu estaria aqui mesmo que não houvesse contrato
algum. Mesmo que você não estivesse me pagando.
Fiquei imóvel, processando suas palavras. Havia sinceridade
em sua voz, algo que ia além do acordo que tínhamos. Meu coração
acelerou por um motivo completamente diferente agora.
Antes que eu pudesse responder, Ethan inclinou-se e
capturou meus lábios com os seus. O beijo começou suave, mas
rapidamente se intensificou.
Suas mãos deslizaram para a minha bunda, puxando-me
para mais perto, enquanto minha própria vontade se dissolvia na
sensação de seus lábios e no calor que se espalhava pelo meu
corpo.
Ele me guiou em direção à cama, seus lábios nunca
deixando os meus. Quando a parte de trás dos meus joelhos tocou a
borda, sentei-me, olhando para ele com olhos cheios de desejo e
vulnerabilidade.
Ajoelhado diante de mim, Ethan move suas mãos firmes
segurando minhas coxas, os polegares traçando círculos suaves que
enviavam arrepios pela minha espinha.
— Olivia, eu quero você. Não por causa de um contrato, não
por qualquer outro motivo além do fato de que você me enlouquece.
Minha respiração ficou presa na garganta. Assenti
lentamente, incapaz de formar palavras.
Sorriu, aquele riso torto que sempre fazia meu coração
disparar, e começou a deslizar as mãos para cima, puxando minha
calcinha para baixo.
Ethan me olhou antes de abrir as minhas pernas e depositar
um beijo na minha boceta, seus dedos escorregaram pela carne
molhada, e ele começou a fazer movimentos circulares no meu
clitóris com o polegar, enquanto os gemidos saiam pela minha boca
sem pudor algum.
— Aah, isso é tão… — gemi ao senti-lo chupar minha
boceta, como quem chupa o melhor sorvete da terra, e... Puta que
pariu, esse homem sabe exatamente o que faz.
— Bom…? — A voz murmurada de encontro a meu clítoris,
faz um zumbindo ardente percorrer meu interior. — Mas… assim
será melhor! — Diz levando seus dedos entre os lábios molhados até
meu canal.
— Sim… Sim! — Reviro meus olhos nas órbitas, apertando
as coxas ao redor dos seus ombros largos no instante que o primeiro
disparo de êxtase percorre meu corpo. — Deus!
Eu realmente vi estrelas e gozei como uma vadia insana na
língua dele.
— É só o começo — Ethan avisou, afastando-se começou a
tirar a minha blusa. Eu teria vergonha se não estivesse vendo tanto
desejo em seus olhos como agora.
Levantei os braços, permitindo que ele a removesse
completamente. Seus olhos percorreram meu corpo com uma
intensidade que fez meu estômago revirar de antecipação.
— Perfeita! — Murmurou.
Inclinando-se, traçou um caminho ardente com seus lábios
desde meu pescoço até o topo dos meus seios, enquanto suas mãos
habilidosas trabalhavam para remover o restante das minhas roupas.
Cada toque, cada beijo, parecia incendiar minha pele,
deixando-me ansiando por mais.
Fiquei ali, nua exposta para ele, sentindo a minha boceta
pulsar de desejo, enquanto observava aquele homem que parecia
ter sido pintado à mão, se despir na minha frente, aqueles braços,
aquelas mãos ... e porra o que era aquele pau?
Um senhor pau! — Pensei vendo a linha grossa de pré-
Sêmen escorrer pela cabeça gorda até pingar ao chão.
— Que desperdício — engoli a saliva se acumulando em
minha boca, sentindo meu rosto corar.
— Não precisa se preocupar — piscou ao perceber onde
meus olhos focaram. — Tem de sobra e é, todo seu, Olívia!
— Que Deus me dê forças e garganta — sim, porque com
toda a certeza, eu chuparia aquele pau.
Ethan gargalhou, mas foi breve, porque em questão de
segundos, aquele homem gostoso estava me empurrando sobre a
cama, colocando sua boca sobre a minha.
O beijo dele era entorpecente, a língua habilidosa deslizou
entre meus lábios, eu podia sentir o gosto da minha boceta na sua
boca, misturado ao hálito mentolado. Prazer, desejo e submissão se
misturaram em mim, criando um elo com suas mãos me tocando.
— Quero tanto você — a voz rouca em meus ouvidos, o
cheiro do seu corpo e o beliscar dos dentes sobre meu lábio inferior,
era bom demais.
— Faço das suas palavras a minha vontade — foi tudo que
pude dizer antes de ser completamente tomada por Ethan.
Sua boca percorreu meu pescoço até tocar meu peito, cada
chupada nos bicos entumecidos me deixou ainda mais excitada. As
mãos dele mapearam minha pela, teria marcas de mordidas e
apertões no dia seguinte.
Dane-se!
Nos entregamos completamente as carícias e ele me permite
avançar até onde queria, a troca. Ethan inverteu nossa posição
deitando-se na cama e me fazendo sentar sobre seu abdômen.
— Pode brincar o quanto quiser — disse me puxando pela
anca até que minha boceta estivesse na altura do seu rosto e seu
pau preso em minhas mãos.
— Um meia-nove — olhei por sobre o ombro e me perdi na
expressão de tarado dele com a língua de fora pronto para me
devorar.
Fiz o mesmo. Lambi a cabeça robusta e senti prazer ao
perceber que Ethan, espelhava em mim as caricias. Segurei seu pau
com ambas as mãos, era grosso, aveludado, veias salientes e muito
gostoso.
Não me fiz de rogada, queria chupá-lo. O gosto salgado
atiçou minha língua e elevou a libido. Abri a boca e engoli seu pau
até onde conseguia, indo e vindo, ao mesmo tempo o masturbando.
— Caralho, Olivia! — Ethan exclamou, descendo um tapa
forte em minha bunda.
— HUM! — O gemido saiu com a boca cheia — cheia de pau.
Sua resposta era o suficiente para continuar, mas meu corpo
queria mais e no ponto em que eu estava, mais um pouco gozaria
na sua boca. Porém, meu noivo de mentirinha, tinha outras ideias
em mente.
— Chega — anunciou me pegando pela cintura novamente e
derrubando na cama.
— Mas eu… — engoli em seco ao ver sua expressão e
apenas segui as ordens silenciosas que seus toques e movimentos
me davam.
Deslizei meu corpo pelo colchão, abri minhas pernas e
envolvi sua cintura, sentindo seu pau deslizar por sobre minha
boceta, deixando um rastro molhado até pousar sobre meu ventre.
Corpos colados, suados e prontos para um embate, era
assim que me sentia. Tudo muito diferente do que já vivi em minha
vida, não era apenas um conjunto de músculos, tesão e um cara
com sorriso bonito.
Ethan estava me fazendo sentir mulher, desejada e isso era
o combustível para o meu prazer.
— Porra — ele praguejou olhando para o chão em direção as
roupas. — Camisinha — o movimento de se afastar foi interrompido
por mim.
— Está tudo sob controle, a não ser que prefira… — apertei
minhas pernas ao seu redor e como se tivesse atiçado uma bandeira
vermelha na frente de um touro, o safado sorriu para mim.
— Está brincando comigo? — Ethan colocou-se de joelhos,
envolveu minha bunda com ambas as mãos fazendo uma alavanca,
apoiando meu corpo sobre seus joelhos dobrados. — Foder sua
boceta no pelo, é meu maior desejo — disse levando a mão entre
nós, agarrando seu pau para colocar em minha entrada. — Pronta?
— Sim… Aaah! — Gritei com a estocada bruta que me
penetrou até a alma. — Puta que pariu, Ethan, é grande…
— E cabe, gostosa, vem e me fode gostoso — suas mãos
foram para minha cintura e o movimento me fez cavalgar sobre seu
pau.
Meus seios balançando de acordo com sobe e desce. Cruzei
os braços ao redor do seu pescoço e Ethan aumentou a velocidade
das estocadas.
Limpei meus pensamentos de tudo, dos motivos que nos
levaram até aquele lugar e me entreguei. O auge veio em meios as
estocadas firmes e fortes dele em meu canal.
Gozei com um grito de prazer, gemendo seu nome e pouco
depois foi Ethan que urrou esporrando em meu canal.
— Deus!
— Não querida, Ethan — desabamos sobre a cama em risos.
—Apenas Ethan!
— Convencido…
CAPÍTULO 14
OLIVIA
A luz suave da manhã filtrava-se pelas cortinas do quarto,
despertando-me lentamente. Ao abrir os olhos, senti o peso
reconfortante do edredom sobre meu corpo e, por um momento,
permiti-me esquecer onde estava.
No entanto, a realidade logo se impôs: o luxuoso quarto de
hotel, a lembrança vívida da noite passada com Ethan. Meu coração
acelerou, e uma onda de emoções conflitantes me envolveu.
Virei-me na cama, esperando encontrá-lo ao meu lado, mas
o espaço estava vazio. Uma mistura de alívio e decepção percorreu-
me. Sentando-me, passei as mãos pelos cabelos desalinhados,
tentando organizar meus pensamentos.
O que eu fiz? A pergunta ecoava em minha mente. A noite
anterior foi tão intensa, apaixonada, mas agora, à luz do dia, as
implicações começavam a se desenhar. Eu contratei Ethan para um
papel específico, e cruzar essa linha poderia complicar tudo.
Levantando-me, caminhei até a janela e afastei levemente
as cortinas. Lá fora, os jardins do hotel estendiam-se em uma paleta
de verdes exuberantes, com caminhos sinuosos convidando a
passeios tranquilos. O sol matinal lançava um brilho dourado sobre a
paisagem, mas minha mente estava longe dali.
Decidida a enfrentar o dia, tomei um banho rápido, deixando
a água morna lavar não apenas o cansaço, mas também a confusão
que me envolvia. Vesti uma saia midi azul-marinho e uma blusa
branca de seda, buscando uma aparência composta que mascarasse
o turbilhão interno.
Ao descer para o salão de café da manhã, o murmúrio das
conversas e o tilintar de talheres criavam uma atmosfera acolhedora.
Meus olhos percorreram o ambiente até encontrarem Ethan. Ele
estava sentado à mesa com alguns convidados do casamento, rindo
de algo que alguém havia dito certamente. Seu sorriso fácil e
postura relaxada contrastavam com a tensão que eu sentia.
Nossos olhares se cruzaram por um breve instante. Ele
ergueu levemente a sobrancelha, uma pergunta silenciosa em seus
olhos. Assenti quase imperceptivelmente e desviei o olhar, dirigindo-
me a uma mesa próxima. Sentei-me e comecei a servir-me de frutas
e café, tentando ignorar a presença marcante a poucos metros de
distância.
Enquanto mexia distraidamente o café, não pude evitar
notar a atenção que Ethan atraía. Duas mulheres, claramente
interessadas, aproximaram-se de sua mesa. Uma delas, uma loira
elegante em um vestido vermelho vibrante, inclinou-se em direção a
ele, tocando seu braço de forma casual, mas intencional. Ela ria
melodiosamente de algo que ele disse, jogando os cabelos para trás
em um gesto calculado.
Uma pontada aguda de algo que eu relutava em nomear
atravessou-me. Ciúmes? A constatação me pegou de surpresa. Por
que eu deveria sentir ciúmes? Nosso acordo era estritamente
profissional... ou pelo menos deveria ser.
Respirei fundo, tentando dissipar o desconforto.
Concentre-se, Olivia. Isso não significa nada.
Mas, apesar de meus esforços racionais, não consegui evitar
que meus olhos voltassem à cena. Ethan, sempre cortês, sorria
educadamente, mas havia uma rigidez sutil em sua postura que
apenas alguém que o conhecia bem perceberia. Ele não parecia tão
à vontade quanto aparentava.
Terminando meu café da manhã rapidamente, decidi que
uma caminhada pelos jardins poderia clarear minha mente. Peguei
um xale leve e saí pela porta de vidro que levava ao exterior. O ar
fresco da manhã foi um bálsamo para meus sentidos.
Os jardins eram ainda mais deslumbrantes de perto.
Caminhos de pedra serpenteavam por entre canteiros de flores
vibrantes e árvores frondosas. O aroma de jasmim e rosas pairava
no ar, e o som distante de uma fonte adicionava uma trilha sonora
serena ao ambiente.
Enquanto caminhava sem rumo definido, absorvendo a
beleza ao meu redor, avistei Ethan à distância. Ele estava sozinho,
encostado em uma balaustrada de pedra, olhando para o horizonte.
A luz do sol brincava em seus cabelos escuros, e havia uma
expressão contemplativa em seu rosto que eu raramente via.
Por um momento, hesitei. Parte de mim queria virar e seguir
na direção oposta, evitar qualquer confronto ou conversa que
pudesse complicar ainda mais as coisas. Mas outra parte, mais
ousada, impulsionou-me a seguir em frente.
Aproximando-me lentamente, parei a poucos passos dele.
— Belo dia, não é?
Ethan virou-se, aparentemente surpreso, mas logo um
sorriso suave curvou seus lábios.
— Sim, está maravilhoso.
O silêncio que se seguiu foi carregado de subentendidos.
Ambos parecíamos buscar palavras adequadas, mas elas nos
escapavam.
— Sobre ontem à noite... — comecei, mas ele levantou uma
mão, interrompendo-me gentilmente.
— Olivia, não precisamos falar sobre isso agora. Vamos
apenas aproveitar o momento.
Eu poderia ter insistido, poderia ter deixado o lado racional,
advogada controlada e prática falar mais alto. Mas naquele instante,
com ele me olhando daquele jeito... eu só queria um pouco de paz
mental.
— Ok — sussurrei, cruzando os braços. — Podemos deixar o
assunto “noite passada” guardado na gaveta do ‘não precisamos
lidar com isso agora’.
Revirei os olhos, tentando quebrar o clima denso com um
toque do meu sarcasmo habitual.
Ele sorriu de canto. Aquele sorrisinho torto, maldito, que
fazia minhas pernas vacilarem mais do que salto em rua de
paralelepípedo.
— Esse seu sarcasmo afiado vai acabar me matando um dia,
sabia? — ele disse, se aproximando devagar.
O problema não era o sarcasmo. Era o coração. Esse sim,
estava correndo risco de vida.
Ficamos ali, caminhando lado a lado pelos jardins
silenciosos, cada um perdido nos próprios pensamentos. Eu
observava o quanto Ethan era naturalmente charmoso, e o quanto
isso me incomodava profundamente hoje.
Porque, até ontem, ele ser charmoso era parte do pacote
que eu contratei. Hoje... parecia que ele era meu. Ainda que fosse
mentira.
Seguimos até um pequeno gazebo, escondido entre as
árvores, com bancos de madeira desgastados e flores trepadeiras
subindo pelas laterais. Era bonito. Bonito de um jeito que dava
vontade de sentar e ficar ali pra sempre.
Mas a vida não me dava esse luxo.
— Ethan... — chamei, quebrando o silêncio.
Ele me olhou com aquele olhar castanho intenso, como se
estivesse me despindo por dentro, o que era injusto, porque eu já
estava emocionalmente nua na frente dele.
— Você acha que... estamos indo longe demais com isso? —
perguntei, num fio de voz.
Ele ficou pensativo por um instante. Olhou para o jardim ao
redor. Passou uma das mãos pelos cabelos. Respirei fundo, me
preparando para uma resposta evasiva.
Mas, como tudo nele, veio o inesperado.
— Eu acho... — ele começou, dando um passo pra perto —
que você merece alguém que faça de tudo pra ver esse sorriso aí.
Todos os dias.
Meu sorriso morreu na hora. Não porque ele não o
provocou. Mas porque eu estava muito ocupada tentando não me
apaixonar de verdade.
— Não faz isso, Ethan. Não diz essas coisas — murmurei,
quase irritada com ele. Ou comigo. Ou com esse acordo estúpido.
— Por quê? Porque você contratou um acompanhante e isso
não está no contrato? — Seu tom era divertido, mas o olhar... aquele
olhar era sério. — Podemos refazer o contrato.
Antes que eu pudesse responder ou fugir, que era o mais
provável, ele se afastou com as mãos nos bolsos, me lançando um
último olhar.
— Vem, advogada difícil. Ainda temos um casamento pra
sobreviver.
Ele me deu as costas e seguiu de volta ao hotel, deixando
pra trás o perfume amadeirado que grudava na minha pele, e o caos
absoluto na minha cabeça.
Caminhei devagar, tentando recuperar minha compostura.
Mas ao entrar no hotel, dei de cara com uma cena que me travou no
lugar.
Steven.
Em carne, osso, e uma cara de pau que ultrapassava todas
as fronteiras internacionais da vergonha alheia.
Ele estava no hall do hotel, falando com um grupo de
convidados e quando me viu, fez questão de me encarar, com
aquele olhar de “eu te conheço melhor do que você pensa”.
Ele achava que conhecia, na verdade, conhecia uma Olivia
antiga. Uma Olivia burra, iludida e magoada.
E essa definitivamente não era mais eu.
Respirei fundo, endireitei os ombros e fui atrás de Ethan.
Não porque precisava de proteção.
Mas porque, naquele momento, eu precisava dele mais do
que estava pronta pra admitir.
CAPÍTULO 15
ETHAN
Acordei antes mesmo do despertador. Não que ele fosse
necessário. O corpo descansa… a cabeça, nem tanto.
Seattle podia ser minha casa agora, mas essa cidadezinha
pacata e cheia de memórias familiares, me fazia lembrar da minha
própria cidade natal e isso era tudo que eu queria esquecer.
Rolei na cama e olhei pro lado. Lá estava ela...Olivia.
Pensei que ela não estaria ali, no entanto, estava, seus
cabelos loiros espalhados pelo travesseiro.
Sorri de canto. Era bem a cara dela fugir antes que qualquer
conversa sobre o que aconteceu pudesse surgir. Não a culparia. Eu
mesmo não tinha ideia do que dizer, estava tudo confuso dentro de
mim.
Passei as mãos pelo rosto, ainda sentindo o cheiro dela
impregnado em mim.
Isso estava indo longe demais.
Levantei, vesti minha roupa de corrida e desci para a pista
de corrida do hotel antes que eu mesmo inventasse uma desculpa
pra ficar.
O ar da manhã estava fresco. Frio o suficiente pra me
manter acordado. A pista de pedra rangia sob o peso dos meus
passos. Era um hotel muito bonito. Mas bonito daquele jeito que
sufoca quem tem lembranças ruins.
Meus pés sabiam o caminho. Mas minha cabeça… essa
andava perdida.
Por que diabos você deixou isso acontecer, Ethan?
Era pra ser fácil. Fingir. Atuar. Fazer o que eu sempre fiz
melhor: dar para as pessoas o que elas querem ver. Um namorado
perfeito. Um homem encantador. O pacote completo.
Mas com Olivia…
Ela não era só mais um trabalho.
Eu gostava da risada dela. Da forma como ela me enfrentava
de igual pra igual. Do jeito meio torto que ela se escondia atrás de
sarcasmo e bravura, quando na verdade era uma mulher cheia de
inseguranças que merecia ser protegida do mundo e principalmente
de babacas como Steven.
Corri mais rápido, tentando apagar a imagem da noite
passada da cabeça.
Não funcionou.
Meu celular vibrou no bolso. Olhei a tela: Mãe.
Inferno, de novo!
Atendi, já esperando o discurso.
— Finalmente resolveu atender, Ethan.
A voz dela era sempre assim. Ácida. Calculada.
— Bom dia pra você também, mãe.
— Não sei o que você está fazendo tão longe de casa. Seu
pai não está bem. Você devia estar aqui, cuidando das suas
responsabilidades.
Responsabilidades. Palavra favorita dela.
— Eu avisei que estava indisponível — respondi firme. —
Preciso de um tempo longe disso tudo.
— Longe de quem você é? Longe do seu nome? Você pode
tentar correr o quanto quiser, mas é um Bennett. Um fracasso de
Bennett, é claro. Me envergonha ver o que você se tornou.
Fui atingido direto no peito. Não que eu não estivesse
acostumado.
— Eu sou quem eu escolhi ser — respondi com frieza. — E
sinceramente? Não dou a mínima se o sobrenome Bennett gosta
disso ou não.
Silêncio do outro lado.
— Seu pai não tem muito tempo.
Eu fechei os olhos, respirando fundo.
— Se ele precisar de mim de verdade… eu vou. Mas não pra
ser o que vocês querem. Nunca pra isso.
Desliguei antes que ela pudesse me destruir mais do que já
tinha feito a vida inteira.
Voltei pro hotel com os pensamentos ainda fervendo, fui até
o salão do café e encontrei alguns convidados do casamento, os
primos de Olivia me chamaram para me sentar com eles, aceitei
educadamente, apesar dos meus pensamentos estarem no quarto
trezentos e doze e na mulher nua que deixei na cama.
Conversas amenas, mulheres se oferecendo como um
croissant do cardápio, nada daquilo prendia minha atenção.
E foi aí que eu vi.
Olivia.
Linda, vestida para matar, os cabelos soltos emoldurando
seus ombros, o andar confiante, nossos olhos se encontraram, mas
ela não veio até mim, preferiu sentar em outra mesa, e aquilo me
incomodou.
Eu respondia as perguntas que me faziam, sempre as
mesmas, onde a conheceu? O que você faz da vida? Mas que merda
de gente fofoqueira.
Vi quando ela saiu pela porta lateral, inventei uma desculpa
e a segui, eu só queria poder dizer que aquilo estava me
enlouquecendo e tudo que eu queria era poder beijá-la de verdade
sem a sombra dessa porra de acordo pairando entre nós.
A manhã passou naquela lentidão típica de quem está
prestes a ser jogada no ringue familiar, no caso, Olivia. Sentados em
uma parte mais reservada do jardim do hotel, ela me contava
algumas histórias da família Carter. E olha... eu precisava de um
drink pra cada parente descrito.
— A minha mãe acha que dietas são um estilo de vida
obrigatório e que carboidrato é crime inafiançável — ela dizia,
revirando os olhos. — Minha irmã vive num conto de fadas onde o
príncipe encantado nunca ronca, e a minha prima... bom, a minha
prima é um caso de polícia mesmo.
Eu ria, encantado com o jeito dela contar tudo, misturando
sarcasmo e uma doçura involuntária que, eu sabia, era só dela.
Foi quando uma voz conhecida nos interrompeu.
— Ah, vocês fazem um casal tão lindo, que chega dá gosto
de olhar. — A voz doce e levemente rouca de Dona Margot, a tia-avó
de cabelo vermelho cereja, surgiu atrás de nós.
Ela caminhava devagar, apoiada em sua bengala com glitter
— eu juro, tinha glitter na bengala — e um sorriso cheio de malícia
no rosto enrugado.
— Venha, titia, sente-se aqui com a gente — Olivia se
levantou, carinhosa.
Levantei também, ajudando Dona Margot a se acomodar ao
nosso lado. Ela segurou minha mão com força surpreendente e me
olhou de cima a baixo.
— Mas olha só... bonito e cavalheiro. Olivia acertou na
loteria ou contratou?
Eu ri, abaixando a cabeça.
— As más línguas dizem que foi sorte. Eu prefiro acreditar
que foi destino.
— Ah, menino... — ela riu, batendo de leve na minha mão.
— Se for destino ou contrato, pouco me importa. O que importa é
que ela está sorrindo de verdade. Coisa rara nos últimos tempos.
Olivia olhou para mim, com aquele olhar meio desconfortável
de quem sabe que vai precisar encarar a mãe a qualquer momento.
— Liv, sua mãe estava te procurando — avisou Dona Margot,
com aquele tom de "boa sorte, minha filha, vai com Deus".
Ela me lançou um olhar de socorro, quase um "me tira
daqui", mas eu dei de ombros com um sorriso.
— Uma hora ia ter que acontecer, advogada corajosa.
Ela bufou.
— Pode ficar com a tia Margot um pouco?
— Será um prazer — respondi, piscando para ela. E quando
eu disse "prazer", quis dizer "vou adorar ouvir as histórias dela te
defendendo de um passado embaraçoso".
— Não demora, hein? — Dona Margot completou, lançando
uma piscadela safada. — Ou quando você voltar, eu já casei com o
bonitão aqui.
Nós rimos juntos, e eu fiquei observando Olivia se afastar...
os cabelos soltos, o andar nervoso, as pernas que eu já sabia que
eram meu novo ponto fraco.
— Você gosta dela, não gosta? — a voz de Dona Margot me
tirou do transe.
Virei o rosto devagar, encarando aqueles olhos sábios. Ela
sorria, mas havia um fundo de seriedade ali.
— Gosto — respondi sincero. — Mais do que deveria.
Ela assentiu devagar, como quem já sabia.
— Olivia sempre foi intensa. Desde pequena. Se ela ama...
ama demais. Se confia... se entrega. E quando se machuca... ela
constrói muralhas tão altas que nem a própria teimosia dela
consegue escalar.
Suspirei pesado.
— Eu vejo isso nela.
— Pois veja também outra coisa, Ethan... — ela tocou meu
braço de leve. — Ela sorriu hoje. Sorriu com os olhos. Faz tempo que
eu não via isso. E eu sou velha demais pra acreditar em
coincidências.
A encarei em silêncio.
— Se for pra ficar... fique. Mas se for pra partir o coração
dela de novo... — ela fez uma pausa dramática e ergueu a bengala
com glitter — eu te acerto com isso aqui. E não vai ser de leve.
A gargalhada que eu soltei foi sincera.
— Acho justo, Dona Margot.
— Bom menino — ela deu uma piscadinha. — Agora... me
conte você. Quem é Ethan, além desse pacote bonito aí? Porque
beleza, meu filho... passa. Mas caráter, ah... caráter fica.
Ali, sentado ao lado daquela mulher de espírito livre e língua
afiada, eu senti uma coisa que não sentia há muito tempo.
Pertencimento.
Talvez... eu tivesse encontrado mais do que um trabalho
naquela viagem.
Talvez... eu tivesse encontrado o meu lugar.
Passei mais um tempo ao lado de Dona Margot, e eu podia
facilmente dizer que aquela mulher era o melhor ser humano
daquela família. Ácida, verdadeira, carinhosa do jeitinho torto que só
quem ama de verdade sabe ser.
Ela me contou histórias de quando Olivia era criança e, bom,
não vou negar que cada detalhe só fazia meu peito apertar mais.
— Liv era dessas... — ela dizia, ajeitando os óculos no rosto
— que guardava tudo pra ela. Engolia o choro, engolia os desaforos
da mãe, e fingia que estava tudo bem. Você conhece o tipo, não é?
Conhecia. E como.
— A mãe dela... — continuei, sentindo o maxilar travar —
sempre foi assim?
Dona Margot soltou um suspiro cansado.
— Sempre. Vivia preocupada com o que os outros iam
pensar. Com o corpo, com o cabelo, com o vestido certo, com o
marido certo. Menos com o que realmente importava: o coração
daquela menina.
Fechei os olhos por um segundo. Eu podia ver tão
claramente a Olivia pequena, se escondendo em algum canto da
casa, se encolhendo por não ser "perfeita" o suficiente. Uma Olivia
que merecia ter sido amada do jeito que era.
— Eu vejo nos seus olhos, Ethan... — a voz dela veio mansa,
mas firme. — Você gosta dela de verdade. Tá aí se enganando...,
mas os olhos... ah, os olhos não mentem, meu filho.
Abaixei a cabeça, sorrindo de lado.
— A senhora é muito observadora, Dona Margot.
Ela deu uma risadinha sapeca.
— Velha, mas não burra.
Me encarou com uma seriedade súbita.
— E deixa eu te dizer uma última coisa antes que eu vá
tomar meus remédios e cochilar igual um bebê que bebeu vinho... —
ela se inclinou levemente pra frente — Se você fizer essa menina
sofrer de novo... — e ergueu a bengala com glitter reluzente — eu
vou te caçar. Não importa em que buraco desse mundo você se
esconda.
Levantei as mãos em rendição.
— Olha, do jeito que a senhora é brava, eu acredito.
Ela sorriu satisfeita, batendo de leve com a bengala no meu
joelho.
Nesse momento, um homem mais jovem, provavelmente o
cuidador dela, apareceu ao longe.
— Dona Margot, hora do remédio.
Ela revirou os olhos de um jeito muito Olivia de ser.
— Lá vamos nós. — Ela se levantou com minha ajuda, mas
antes de ir me lançou um último olhar divertido. — Nos vemos
depois, bonitão. E trate de fazer essa menina sorrir mais. Nada me
deixa mais feliz do que ver ela rindo de novo.
— Sim, senhora — respondi, e eu quis dizer aquilo com toda
a alma.
Ela saiu de braços dados com o cuidador, deixando pra trás o
perfume leve de lavanda e a presença forte de quem já viu muito na
vida e aprendeu a amar do jeito certo.
Fiquei ali por um momento, olhando pro nada.
Respirei fundo, ajeitei o coque em meu cabelo e deixei
escapar um sorrisinho nervoso.
Que merda você está fazendo, Ethan?
Mas já sabia a resposta.
Eu estava me perdendo. Me entregando. Me fodendo bonito.
Por ela.
Sacudi a cabeça e caminhei em direção ao hotel.
Era hora de encontrar Olivia.
Porque aquele sorriso que Dona Margot tanto amava?
Agora era meu vício também.
Ela estava no jardim lateral do hotel, conversando com um
dos padrinhos do casamento um tal de Mark, se não me falha a
memória. Um cara alto, sorridente, claramente se achando o galã da
vez.
E ela estava rindo.
Rindo de verdade.
Senti um aperto idiota no peito. Ciúmes? Talvez.
Insegurança? Com certeza.
Mas que porra era essa?
Me aproximei com passos lentos. Olivia me viu primeiro. O
sorriso dela vacilou por um segundo, como se o meu olhar tivesse
arrancado ela daquela bolha de distração.
Mark percebeu minha presença logo em seguida e, como
qualquer homem com bom instinto de sobrevivência, deu um passo
educado pra trás.
— Acho que vou deixá-los a sós — disse ele, lançando um
último olhar interessado pra ela.
Boa sorte, campeão. Não vai rolar.
Fiquei ali, parado, encarando Olivia.
Ela ajeitou o cabelo, claramente desconfortável. Era
engraçado… ela se fingia de durona, mas eu já começava a ler os
sinais dela como um livro aberto.
— Eu estava só conversando — ela se defendeu antes
mesmo de eu abrir a boca.
Dei um meio sorriso.
— Não sou seu dono, Liv.
— Não mesmo.
Mas o tom dela… estava estranho. Tenso.
Ficamos em silêncio por alguns segundos longos demais.
— Precisamos conversar sobre ontem — ela soltou, cruzando
os braços.
— Não agora.
Ela me olhou surpresa.
— Por que não?
— Porque se a gente começar… eu não vou querer parar. —
Minha voz saiu mais rouca do que eu planejei. — E temos um
casamento inteiro pra sobreviver.
Ela corou. E foi a coisa mais bonita que eu vi o dia todo.
— Tudo bem, Sr. Acompanhante. Vamos manter o protocolo
— ela ironizou, me lançando um olhar desafiador.
Não resisti.
Dei um passo pra perto, encostando meu rosto no dela, só o
suficiente pra sentir o cheiro do perfume na pele.
— Não me provoca, advogada. Você sabe que eu adoro um
desafio.
E com isso, virei as costas e voltei pro hotel, deixando-a
parada no jardim, respirando fundo e, tenho certeza, desejando me
matar.
Ou me beijar.
Talvez os dois.
CAPÍTULO 16
OLIVIA
O salão de festas do hotel estava deslumbrante, com lustres
cintilantes e arranjos florais que pareciam ter saído de um conto de
fadas. Eu, porém, me sentia como a protagonista de uma comédia
romântica da Netflix, prestes a enfrentar uma cena clássica de
triângulo amoroso.
Ethan estava ao meu lado, impecável em seu terno,
exalando charme e segurança. Eu, por outro lado, tentava manter a
compostura, mesmo com o coração acelerado e as mãos suando.
Enquanto conversávamos com alguns convidados, notei
Steven se aproximando. Ele tinha aquele sorriso que costumava me
encantar, mas que agora só me causava nojo e raiva.
— Olivia, você está deslumbrante — disse ele, com a
confiança de quem acha que ainda tem alguma chance.
— Obrigada, Steven. Você também está bem — respondi,
tentando manter a cordialidade.
Ethan, percebendo a situação, colocou uma mão protetora
na minha cintura. Um gesto simples, mas que falou volumes.
— Steven, este é Ethan — apresentei, tentando aliviar a
tensão.
— Já nos conhecemos — disse Ethan, com um sorriso
educado, mas firme.
— Então, Olivia, lembra daquela viagem que fizemos para a
Toscana? Aqueles dias foram inesquecíveis — continuou Steven,
ignorando completamente a presença de Ethan.
— Isso foi há muito tempo — respondi, tentando encerrar o
assunto.
— Bons tempos eu diria, e que poderiam voltar, se você
quiser — disse ele, com um olhar sugestivo.
Ethan, mantendo a calma, respondeu:
— Steven, Olivia e eu estamos felizes juntos. Agradeço se
respeitar isso.
Steven riu, um pouco desconcertado.
— Claro, claro. Só estava relembrando os velhos tempos.
— Alguns tempos devem permanecer no passado — disse
Ethan, com um sorriso que não alcançava os olhos.
A tensão era sufocante, mas Ethan conseguiu desarmar a
situação com elegância. Ele me conduziu de volta ao jantar,
deixando Steven para trás.
Enquanto caminhávamos, sussurrei:
— Obrigada por isso.
— Sempre — respondeu ele, apertando levemente minha
mão.
Naquele momento, percebi que nossa conexão estava se
aprofundando. E, apesar das complicações, eu estava disposta a ver
onde isso nos levaria.
Caminhamos em silêncio por alguns instantes, mas meu
coração estava a mil. O toque da mão de Ethan na minha cintura
ainda queimava a minha pele e não era só pela encenação.
Era porque ele sabia. Sabia exatamente o momento de me
proteger. Sabia exatamente o quanto aquele encontro com Steven
mexia comigo.
E o pior? Fazia isso com uma naturalidade irritante e
deliciosamente sexy.
Nos sentamos de volta à mesa reservada para os padrinhos
e convidados mais próximos, enquanto o jantar seguia, com risadas
ao fundo e muita gente que, sinceramente, eu não me importava.
Meu cérebro estava ocupado demais tentando desacelerar.
— Você tá bem? — a voz de Ethan veio rouca ao meu lado,
quase num sussurro.
— Eu... tô. Quer dizer, dentro do possível. — Suspirei,
tomando um gole do vinho. — Steven sempre teve esse dom de
aparecer feito uma espinha na ponta do nariz antes de um encontro
importante.
Ele riu baixo.
— Que comparação maravilhosa — ironizou. — Vou lembrar
dessa.
A mão dele ainda estava apoiada distraidamente na minha
perna. Um toque que era pra parecer casual, mas que me deixava
completamente fora do eixo e muito, mas muito molhada.
Olhei em volta e, pra piorar meu estado mental, percebi que
minha mãe nos observava de longe. Olhar clínico. Julgador. E sem
um pingo de sutileza.
Ótimo. Lá vem bomba.
Ela não resistiu muito tempo e veio até nossa mesa. Parecia
até que o jantar dela não descia enquanto ela não destilasse algum
veneno.
— Olivia, querida... — Ela forçou um sorriso. — Ethan, é de
Seatle também?
Sorri educadamente. Sabia que aquilo era a introdução de
uma armadilha.
— Isso mesmo, senhora Carter — respondeu ele, educado
como um lorde inglês... daqueles que escondem uma adaga atrás
das costas.
— Ah sim — ela comentou, com um olhar meticuloso de
cima a baixo. — Faz o quê mesmo da vida, Ethan?
Antes que ele respondesse, me antecipei.
— Ele é empresário, mãe. Cuida de investimentos.
Ela arqueou uma sobrancelha, como se pudesse farejar
mentira no ar.
— Ah... que interessante. — O "interessante" dela soava
mais como "duvido muito".
Eu já estava pronta pra arrancar os olhos dela com o garfo
da sobremesa quando Steven reapareceu, como uma barata que
você pisa e ela insiste em levantar.
— Senhora Carter, boa noite — ele cumprimentou, educado
demais pro meu gosto.
Minha mãe sorriu largo pra ele.
— Ah, Steven, querido! — O tom dela quase me fez revirar
os olhos até a nuca. — Que saudade! Sempre tão educado, tão...
refinado. — O mundo precisa de homens assim hoje em dia — ela
completou, lançando um olhar cortante pra Ethan.
Foi aí que eu senti a mão do Ethan apertar minha perna de
leve, como um aviso silencioso pra eu não perder a cabeça.
E foi então que ele virou o jogo de um jeito que eu nunca
vou esquecer.
— Concordo plenamente, senhora Carter. — A voz dele
estava calma, mas o olhar era puro veneno elegante. — O mundo
realmente precisa de homens que saibam valorizar uma mulher
incrível como a Olivia.
Steven e minha mãe ficaram em silêncio.
Ele não parou por aí.
— Porque ser educado e refinado é muito bom..., mas saber
olhar pra mulher ao seu lado e sentir orgulho dela, admiração, e
principalmente ser homem o suficiente pra não a trair, isso... ah, isso
nem todo mundo consegue.
O ar praticamente evaporou da sala.
Eu fiquei vermelha. Mas não de vergonha.
De um misto de orgulho, desejo e uma vontade louca de
beijar aquele homem ali mesmo, na frente de todo mundo.
Minha mãe ficou muda. Steven pigarreou, desconcertado.
— Agora, se me dão licença, Olivia e eu temos um jantar pra
aproveitar. — Ethan se levantou, puxou minha cadeira e me ofereceu
a mão.
Olhei pra ele como se estivesse vendo um milagre em forma
humana.
Aceitei.
Enquanto ele me conduzia pra longe dali, cochichei, sem
conseguir conter o sorriso:
— Ethan Bennett... você acabou de ganhar um passe livre
pra absolutamente qualquer coisa.
Ele riu baixinho, colando a boca na minha orelha.
— Qualquer coisa, advogada? Gosto disso.
Quando sentamos em uma parte mais reservada do jardim
externo do hotel, longe de olhares inquisidores, soltei o ar que nem
percebi que estava prendendo.
— Obrigada por isso. De verdade.
Ele me olhou com aquele jeito que fazia meu mundo girar de
um jeito torto.
— Não precisa me agradecer. Proteger você... virou meio
que meu esporte favorito.
Me derreti inteira.
Queria beijá-lo ali.
Queria muito mais.
Mas por enquanto... ficava com o sorriso dele.
Com a sensação gostosa de estar ao lado de alguém que,
pela primeira vez em muito tempo, me fazia sentir suficiente.
E amada.
Mesmo que a gente não tivesse dito isso em voz alta...
ainda.
Encarei seus olhos castanhos mais uma vez, profundos,
intensos... e perigosamente viciantes.
Ethan se aproximou devagar, como quem sabia exatamente
o efeito que tinha sobre mim. Sua mão grande subiu até o meu
rosto, os dedos roçando de leve a minha pele, causando um arrepio
imediato. Com um gesto calmo e absurdamente íntimo, ele prendeu
uma mecha solta do meu cabelo atrás da orelha, sem desviar os
olhos dos meus nem por um segundo.
— Você é linda, Olivia — a voz rouca dele deslizou direto
pelo meu corpo... e se alojou bem no meio das minhas pernas,
como um toque invisível e indecente.
Acho que nem tive tempo de reagir ou vontade.
Porque ele me beijou.
E não foi um beijo comum.
Foi o tipo de beijo que rouba o fôlego, que bagunça a alma,
que deixa qualquer calcinha mais úmida do que uma tempestade em
Seattle e olha que, no meu caso, ela já estava um desastre
anunciado.
Os lábios dele me devoraram com fome, com sede, com uma
necessidade que combinava perfeitamente com a minha.
As mãos dele desceram pelo meu corpo até encontrar meus
seios, o toque firme, possessivo, descaradamente delicioso. Quando
apertou, um gemido escapou dos meus lábios sem a menor
cerimônia.
Eu não tinha controle. Nem queria.
— Ahhh... Ethan... — minha voz saiu quase como um
sussurro implorante, carregada de desejo. — Eu preciso de você
dentro de mim... agora.
Ele afastou o rosto, os lábios vermelhos do beijo, e me
lançou um daqueles sorrisos tortos que deveriam vir com aviso de
perigo.
Olhou ao redor, avaliando o ambiente com a tranquilidade de
quem estava prestes a cometer um pecado em público. Os olhos
dele encontraram um jardim suspenso, um gazebo meio escondido
pelas trepadeiras e luzes delicadas.
— Tem coragem? — A voz dele era puro desafio, e puro
pecado.
Mordi o lábio, já sabendo a resposta antes mesmo de
pensar.
— Com você? Sempre.
Me levantei, o corpo fervendo, o coração martelando no
peito. E, no gesto mais atrevido da noite e talvez da minha vida,
deslizei minha calcinha molhada com a maior naturalidade possível,
escondendo o movimento como quem guarda um segredo proibido.
Joguei para ele.
Ele pegou com um brilho selvagem nos olhos, guardando no
bolso do terno com uma reverência debochada.
— Ahhh, Olivia... — ouvi ele murmurar atrás de mim, a voz
rouca, quase um grunhido baixo — você vai acabar me matando.
Subi as escadas para o gazebo com um sorriso vitorioso nos
lábios.
Porque naquele momento?
Era exatamente isso que eu queria.
Matar ele de desejo.
E morrer junto.
O jardim suspenso parecia um cenário saído de um sonho:
luzes suaves pendiam entre as trepadeiras, lançando um brilho
dourado sobre o gazebo envolto por cortinas esvoaçantes. O som
distante da festa se misturava ao sussurrar das folhas, criando uma
trilha sonora perfeita para o que estava por vir.
Ethan me guiou até o centro do gazebo, os olhos presos nos
meus, escuros, intensos, carregados de desejo e uma ternura que
era capaz de desarmar até o mais cético dos corações.
Suas mãos grandes encontraram minha cintura, me puxando
com firmeza para mais perto, colando nossos corpos como se não
houvesse espaço suficiente entre nós. Seus lábios buscaram os
meus, num beijo que não pedia permissão, tomava, exigia. Um beijo
que queimava, que dizia sem palavras que eu era dele ali... agora...
e enquanto ele quisesse.
— Você tem ideia do que faz comigo, Olivia? — ele
sussurrou, a voz rouca e grave ressoando direto no meu corpo... e
no lugar mais sensível entre minhas pernas.
— Acho que estou começando a entender... — respondi, com
a respiração falha, enquanto minhas mãos se infiltravam por dentro
da sua camisa aberta, sentindo o calor da sua pele quente sob meus
dedos.
Ele se sentou em um dos sofás do gazebo, abrindo espaço
entre as pernas, me puxando para perto como se eu fosse feita só
para ele. Suas mãos deslizaram pelas minhas coxas nuas, subindo
devagar, me incendiando com um simples toque.
O sorriso torto apareceu, aquele maldito sorriso travesso que
me desmontava inteira.
— Vamos ver se essa bocetinha está pronta pra sentar no
meu pau, advogada — ele provocou, a voz tão baixa e grave que
minhas pernas vacilaram.
Quando seus dedos alcançaram minha boceta e deslizaram
dentro de mim com facilidade, um gemido rouco escapou dos meus
lábios antes que eu pudesse me controlar.
— Ethan...
Em um movimento rápido ele ergueu a minha perna, a
colocando sobre o sofá, ele me olhou e sorriu com ar safado antes
de mergulhar seus lábios na minha boceta, sua língua circulando
meu clitóris, sugando cada gota do meu prazer, enquanto suas mãos
apertavam a minha bunda, ele enfiou a língua no meu canal antes
de se afastar.
— É... você está mais do que pronta pra rebolar gostoso pra
mim, Liv — ele murmurou com um olhar escuro, faminto. — Vem.
Me mostra o quanto quer ser minha.
Ele sentou-se de novo no sofá e ergueu meu vestido sem
pressa, como se desembrulhasse o presente mais precioso. Me
puxou, me encaixando sobre ele. Senti o pau dele roçar na minha
entrada e desci devagar, gemendo alto quando aquele monumento
inteiro preencheu meu corpo.
Meu corpo se moldou ao dele, minhas mãos buscaram apoio
em seus ombros largos, e comecei a me mover, lenta, provocante,
lembrando com muita gratidão das malditas aulas de dança que
Hannah e Cindy me fizeram fazer.
Deus, eu realmente precisava agradecer por isso.
Sem elas, eu já teria travado igual uma porta emperrada.
— Isso... rebola pra mim, Liv... me dá tudo — a voz dele
estava rouca, embriagada de prazer, e isso deveria ser um crime.
E eu obedeci.
Rebolei pra ele.
Rebolei pra mim.
Rebolei pra quem quisesse ver, a minha bunda grande e
branca estava ali exposta para quem quisesse ver, com o pau de
Ethan enterrado na minha boceta.
O som do jantar, das risadas, do mundo lá fora...
desapareceu.
Só existia ele. Só existia o prazer.
As mãos dele seguraram minha bunda com força, guiando
meus movimentos com precisão deliciosa.
— Logo... vou estar aqui — ele avisou, deslizando a ponta
do dedo no meu cu — provocando de um jeito que deveria me
assustar.
Mas era Ethan.
Tudo com ele parecia certo.
Rebolei contra seu dedo, gemendo mais alto quando ele
pressionou mais, enfiando um pouco.
Eu estava me perdendo.
Estava virando uma puta na mão dele.
Minha melhor versão, provavelmente.
— Olha pra eles, Liv — ele sussurrou no meu ouvido, os
olhos me queimando. — Olha pra esse salão... pro imbecil que te
perdeu, e que nunca te fodeu assim... enquanto você rebola no meu
pau. Enquanto você me mostra o quanto é minha, enquanto eu fodo
a sua boceta gostosa com força.
Foi ali.
Ali eu gozei.
Gozei com força, com vontade, com tudo que eu era.
Gritei o nome dele, sentindo meu corpo desabar contra o
dele, enquanto Ethan segurava minha cintura, cravava os dedos em
mim e gozava dentro da minha boceta com um gemido gutural que
fez meu mundo tremer.
Encostei meu rosto no ombro dele e começamos a rir.
Rimos como dois loucos apaixonados que acabaram de
transar em público.
— Se sua mãe nos visse agora... me odiaria um pouco mais
— ele provocou, rindo.
— E se fosse a tia Margot... ia querer casar com você
também — respondi, rindo alto, sentindo um amor estranho crescer
dentro do peito.
Ali, naquele momento, o mundo podia acabar.
Não importava.
Só existia ele.
Só existia nós.
Entrelaçados, conectados, suados, reais.
Vivos.
E fodidamente apaixonados.
CAPÍTULO 17
OLIVIA
Acordei com cheiro de café e de homem gostoso.
Duas das minhas coisas favoritas.
Por um segundo, pensei que tivesse sonhado tudo. Que o
gazebo, o sexo, os gemidos abafados sob as estrelas e a sensação
de ter sido fodida como se fosse a única mulher no mundo fossem
frutos da minha imaginação fértil e carente.
Mas então ouvi a voz rouca de Ethan, do outro lado do
quarto:
— Adivinha quem pediu café da manhã na cama pra você,
advogada?
Revirei os olhos antes mesmo de abrir completamente. Me
estiquei devagar, como se meu corpo quisesse lembrar cada
segundo da noite anterior. E ele lembrou.
Oh, como lembrou.
Meus músculos estavam deliciosamente doloridos. Aquele
tipo de dor que te faz sorrir em silêncio e dizer "valeu a pena" com
gosto.
— Se o café vier acompanhado de você só com essa camisa
aberta... acho que posso considerar um novo vício — murmurei,
ainda deitada, observando aquele pedaço de homem que Deus
mandou pra me testar.
Ele estava encostado na beirada da cama, pernas cruzadas,
cabelo bagunçado e o peito exposto, com uma xícara na mão e um
sorriso de quem sabe exatamente o que está fazendo comigo.
— Eu devia começar a cobrar — ele brincou, me entregando
o café. — Taxa de sedução matinal: um beijo por gole.
Sorri e puxei sua camisa, trazendo-o pra mais perto.
— Não prometo parar no gole — sussurrei contra os lábios
dele, antes de beijá-lo devagar, provocando.
Ficamos ali por mais alguns minutos, trocando carinhos
preguiçosos, como se o mundo lá fora tivesse apertado o botão de
pausa só pra gente. Mas o mundo, esse cretino impaciente, logo
bateu à porta.
Mais precisamente: minha irmã Claire, mandando
mensagens frenéticas no grupo das madrinhas.
"Socorro, esqueceram de pegar os guardanapos temáticos."
"Alguém pode checar o gerador da iluminação externa?"
"E onde está a Olivia? Ela morreu?"
Suspirei.
— Devo ir salvar o casamento — anunciei, jogando as
pernas pra fora da cama e procurando minha calcinha perdida como
quem procura dignidade depois de uma noite quente.
— Volta viva — Ethan disse, observando-me me vestir com
um olhar indecente.
— Não prometo nada, Bennett. Entre velhas neuróticas e
noivas em colapso, pode ser que eu nunca mais volte.
Beijei sua bochecha e desci para o caos que me aguardava.
No salão de festas, Claire corria de um lado para o outro
como se estivesse prestes a enfrentar uma guerra e não um
casamento elegante para 200 convidados.
Hannah estava tentando convencer o florista de que pétalas
de rosas azuis não são cafonas. Cindy discutia com o DJ sobre o
limite aceitável de músicas da Taylor Swift numa cerimônia
romântica.
E eu?
Tentando não pensar no gosto da boca de Ethan e no fato
de que ainda sentia o cheiro dele em mim.
— Ah, a ressuscitada! — Hannah anunciou quando me viu
chegando. — Estávamos prestes a chamar o IML.
— Muito engraçada — respondi, pegando um dos rádios de
comunicação como se estivesse numa missão da NASA.
— Tá com cara de quem foi acordada com beijos e orgasmos
múltiplos — comentou Cindy, tomando um gole do seu smoothie
verde que ela jurava ser milagroso.
— Tô com cara de quem teve uma noite memorável, se é
isso que você quer saber — rebati, sorrindo como uma idiota
apaixonada.
— Ele é real mesmo? Tipo... humano? Porque aquilo ali,
amiga, parece uma ilusão coletiva.
— Aparentemente real. E pelado, vale dizer, é ainda mais
convincente — comentei, rindo.
— Ethan virou assunto geral — disse Claire, se aproximando.
— O bonitão do quarto 302. Tem madrinha perguntando se ele é
modelo. Tem padrinho querendo saber se ele é gay. E tem tia velha
cogitando pedir uma dança.
— Só não deixem minha mãe ouvir isso. Ela já o odeia mais
do que odeia carboidratos — respondi.
— E ainda assim ele te olha como se fosse capaz de matar e
enterrar por você. — Hannah me cutucou. — Isso aí... não é só
teatro, Liv — ela cochichou para que ninguém ouvisse.
Fingi não ouvir.
Porque no fundo, uma parte de mim queria acreditar nisso.
Mas a parte mais racional, a que foi traída, enganada, chamada de
"orca" pela mãe, ainda achava que aquilo tudo era um papel bem
interpretado.
Peguei uma cesta de flores e me afastei, alegando precisar
ajudar a decoradora.
Fui em direção ao jardim externo, onde haviam deixado
algumas caixas, e aproveitei pra respirar.
E foi aí, naquele instante tranquilo, que o destino, essa
criatura safada, decidiu colocar o próximo teste bem diante dos
meus olhos.
Ao longe, entre as colunas cobertas por heras, vi Ethan... e
Ashley a prima vadia-mor da família.
Ela estava perto. Perto demais.
Com aquele sorrisinho de cobra que ela fazia quando
tramava algo sujo.
Meus passos pararam.
E o coração também.
Mas eu fiquei. Assistindo.
O que viria a seguir... seria inesquecível.
CAPÍTULO 18
ETHAN
O jardim do hotel era um verdadeiro oásis de tranquilidade.
Havia uma fonte borbulhante no centro, flores estrategicamente
dispostas por jardineiros perfeccionistas demais, e um canto com
mesinhas de ferro branco onde o café da manhã era servido para os
hóspedes mais pacientes ou para aqueles que, como eu, precisavam
de alguns minutos de silêncio.
Eu me encaixava no segundo grupo.
Sentado com a xícara entre os dedos, observava as folhas se
mexerem ao vento e tentava manter minha mente longe das
memórias da noite anterior. O problema era que ela, Olivia, estava
em cada resquício do meu corpo. No cheiro do lençol, no gosto
ainda preso à minha boca, no arranhão discreto que ela deixou nas
minhas costas.
Eu não podia negar. Ela estava me invadindo de um jeito que
ia além do contrato, além do acordo, além do fingimento.
E então… o som dos saltos. Precisos, calculados, com o
ritmo de alguém que sabe exatamente o efeito que causa.
Olhei de canto de olho. O perfume veio antes da voz.
— Ethan, certo?
A voz era suave demais para ser sincera. E quando virei o
rosto, ela estava ali: a prima. Aquela. A que Olivia evitava falar o
nome, mas que sempre vinha acompanhada de reviradas de olhos,
histórias de rivalidade e uma raiva contida que dizia muito mais do
que as palavras.
— Isso — confirmei, oferecendo um sorriso contido. — E
você é...
— Ashley. Prima da Liv. A preferida da família. — Ela sorriu
com os lábios, mas os olhos escorriam veneno.
Ela se sentou sem pedir permissão, cruzando as pernas
como se estivesse num editorial de moda ou numa tentativa
desesperada de ser notada.
— Então... você e a Olivia? Sério mesmo?
— Sério mesmo. — Dei outro gole no café, sem tirar os olhos
dela.
— Ela sempre foi... digamos... diferente, não? Meio
deslocada. E agora, com esse corpo mais... cheio, digamos assim...
Dei uma risada curta. Do tipo que avisa: “cuidado com o que
vai dizer depois disso”.
— Olivia é a mulher mais sexy que eu já conheci — declarei,
com a voz firme. — E sinceramente? Ela não precisa se encaixar em
nenhum padrão que você acha aceitável.
Ela fingiu surpresa.
— Nossa, que defensivo. Só estou dizendo que vocês
parecem... incompatíveis. Você parece tão... refinado. Já ela... bom,
Liv nunca teve muito bom gosto. Nem com roupas. Nem com
homens. Digo, o Steven...
— Vamos parar por aí — interrompi. O nome dele já era o
suficiente pra me fazer franzir o cenho.
Ela se inclinou sobre a mesa, tentando soar íntima.
É
— É só que... você poderia ter qualquer mulher aqui, Ethan.
E eu não estou falando só da aparência. A Liv sempre foi
emocionalmente... instável. Frágil. Ela não aguenta um cara como
você. Vai se apegar. Vai sofrer. E você, bem... você não parece ser
do tipo que se apaixona.
Agora eu ri. Um riso amargo, vindo direto do fundo do peito.
— Você está certa — comecei, olhando direto nos olhos dela.
— Olivia realmente não é boa o suficiente pra qualquer um. Ela é
boa demais. Pra homens de verdade. Homens que sabem valorizar
alguém com cérebro, coragem e um coração que já foi partido mais
vezes do que deveria.
Ela arregalou os olhos, surpresa com a firmeza da minha
resposta.
— Não pra qualquer idiota superficial que mede valor por
números de balança ou por conta bancária. — Apoiei os cotovelos na
mesa, encarando-a. — E sinceramente? Se eu fosse o último homem
do mundo, ainda escolheria Olivia. E você continuaria sozinha.
Porque caráter, Ashley... caráter não se compra em salão de beleza.
Ela abriu a boca, mas nada saiu.
Pela primeira vez, o silêncio a venceu.
Ela se levantou com a dignidade falsa de quem acabara de
levar um tapa sem mão. Jogou os cabelos para trás e saiu dali com
os saltos furiosos batendo contra o chão de pedra.
Fiquei ali, respirando fundo, voltando a pegar minha xícara
de café agora morno.
E então eu senti.
A presença.
Me virei devagar e ali estava ela.
Olivia.
Encostada em uma pilastra de pedra, parcialmente
escondida entre os arbustos floridos. Os olhos marejados brilhavam
como se tivessem visto algo que ela nunca esperou ouvir.
— Há quanto tempo você está aí? — perguntei, me
levantando devagar.
— O suficiente — ela disse baixinho, com um sorriso
pequeno, quase tímido.
Ela veio até mim e me abraçou. Sem avisar. Sem pedir
permissão. E eu retribuí com tudo que tinha. Como se dissesse "eu
estou aqui. E não vou embora".
Ela sussurrou algo, e eu quase não ouvi.
— Obrigada por... me defender. Por enxergar em mim tudo
que nem eu consigo ver às vezes.
— Eu só disse a verdade, Olivia — respondi, com a mão na
sua nuca. — Você é foda. E quem não vê isso é cego... ou idiota.
Ela riu contra meu peito, e naquele momento, tive certeza.
Não era mais fingimento.
Era real.
CAPÍTULO 19
OLIVIA
Existem momentos na vida que não pedem permissão pra
acontecer. Eles simplesmente chegam, invadem, bagunçam tudo e
deixam você lá, com o coração apertado, a respiração
descompassada e uma vontade quase infantil de se esconder no
armário e fingir que não é com você.
Foi assim quando ouvi Ethan.
Cada palavra dita por ele à minha prima ressoava dentro de
mim como se fosse algo que eu esperava ouvir desde que aprendi o
que era amor ou o que eu achava que era amor.
“Se eu fosse o último homem do mundo, ainda escolheria
Olivia. E você continuaria sozinha.”
Meu Deus.
Aquelas palavras atravessaram todas as camadas de
insegurança que minha família, meus relacionamentos passados e
até eu mesma havia construído.
E ele disse ali, sem saber que eu estava ouvindo.
Sem plateia. Sem encenação. Sem me olhar nos olhos pra
me convencer de nada.
Foi real.
Eu estava com as costas coladas àquela pilastra, tentando
entender como ainda estava de pé. Meu estômago dava
cambalhotas e meu peito... bom, ele parecia pequeno demais pra
conter tanta coisa de uma vez só.
E então ele me viu.
Ethan largou a xícara na mesa e veio até mim com passos
lentos, mas certos. O olhar dele me prendeu mais do que qualquer
abraço poderia.
— Há quanto tempo você está aí? — ele perguntou, e a voz
dele já parecia saber a resposta.
— Tempo suficiente — respondi, sentindo meu lábio tremer.
Ele não disse nada. Só me puxou pela cintura como se
aquilo fosse o lugar mais natural pra eu estar no mundo. Como se
ele soubesse que o universo ficava menos caótico com nossos
corpos colados daquele jeito.
— Você não precisa se esconder, Olivia — ele disse com
firmeza, os olhos cravados nos meus.
E então vieram as lágrimas. Incontroláveis. Tão silenciosas
quanto teimosas.
Ele limpou cada uma delas com o cuidado de quem segura
uma peça rara. Como se eu fosse frágil e preciosa ao mesmo tempo.
— Você merece tudo o que é verdadeiro e bonito — ele
disse, e eu acreditei. Pela primeira vez em muito tempo, eu
realmente acreditei.
E quando ele me beijou... ah, aquele beijo... não era sobre
paixão. Era sobre abrigo. Sobre encontrar um lar em alguém. Sobre
tudo que a gente tenta fingir que não quer, mas sonha todas as
noites em ter.
Eu quase disse isso em voz alta. Quase.
Mas ele parou antes.
E eu agradeci por isso. Porque se ele dissesse mais uma
frase perfeita naquele tom rouco de fazer vibrador perder a função,
eu teria me ajoelhado ali mesmo e o pedido em casamento.
Horas depois, eu estava no quarto com Cindy e Hannah, as
únicas duas pessoas na Terra que sabiam da verdade e que,
obviamente, não iam deixar passar em branco.
— Então você viu a cena toda? — Cindy perguntou,
enquanto passava esmalte num tom que ela chamou de “vermelho
escarlate da vingança”.
— Vi tudo — respondi, mordendo um pedaço de brownie. —
Até a cara da Ashley murchando igual bolo que leva um tapa no
forno.
— Ethan humilhando vadias ao nascer do sol? Esse homem é
um sonho molhado feminista! — Hannah exclamou, quase
derrubando seu smoothie detox.
— O que mais ele disse? — Cindy quis saber, agora deitando
no sofá como se fosse ouvir um episódio de podcast sobre crimes
emocionais.
— Que eu era boa demais... que se fosse o último homem
na Terra ainda me escolheria... que caráter não se compra em salão
de beleza... — falei, tentando manter a voz firme, mas já sentindo
os olhos marejando de novo.
— Ai que ódio — Hannah resmungou. — Por que ele não é
um babaca como todos os outros? Como é que a gente lida com isso
agora?
— A gente não lida — disse Cindy, pegando um pedaço de
brownie também. — A gente aceita. Agradece. E joga o universo pro
alto com um “me fode com responsabilidade, papai”.
— Vocês acham que ele... sente algo de verdade? —
perguntei, olhando para o chão como se a resposta estivesse
escondida entre as ranhuras do carpete.
Silêncio.
As duas se entreolharam.
— Olivia... — começou Hannah, sentando-se mais perto de
mim. — Esse cara não tá mais fingindo nada. Você viu como ele olha
pra você?
— Eu vi. E senti. Mas... eu ainda o contratei. Ainda paguei
por ele, na verdade vou pagar. Como eu posso confiar que não é só
parte do show?
— Porque homem nenhum, contratado ou não, diria o que
ele disse pra aquela cobra da sua prima — respondeu Cindy. —
Aquilo foi pessoal. Aquilo foi real. E sinceramente? Se você não
agarrar esse deus grego com todas as forças, eu mesma arrasto ele
pro meu quarto e te deserd...
— Tá bom! Entendi! — levantei as mãos, rindo.
Mas por dentro, eu tremia.
Porque a verdade era uma só:
E se isso aqui... não for mais um teatro?
Se for real?
Se eu estiver me apaixonando?
Ou pior...
Se ele estiver também?
CAPÍTULO 20
OLIVIA
Acordar em um quarto de hotel de luxo ao lado de um
homem que parece ter saído de um filme da Marvel devia estar no
topo da minha lista de coisas inacreditáveis. Mas lá estava eu,
encarando Ethan, que dormia de lado, o cabelo bagunçado e a
respiração calma.
E por um breve momento, me permiti esquecer que tudo
aquilo era um teatro.
Ou não era?
— Tá me olhando como se eu fosse uma panqueca com
cobertura de Nutella — ele murmurou com a voz ainda rouca de
sono, abrindo um olho e me pegando no flagra.
— Eu não sabia que acompanhante de luxo vinha com
sensor de olhar — rebati, tentando soar sarcástica, mas falhando
lindamente. Minha cara estava vermelha.
— Não sou qualquer acompanhante de luxo — ele disse, se
esticando na cama, os músculos aparecendo como se soubessem
que tinham uma plateia.
E Deus, como eu era a plateia.
Mais tarde, enquanto ajudava Claire com os últimos detalhes
do casamento, minhas amigas pareciam mais interessadas em
analisar Ethan do que na decoração.
— Olivia, eu sei que você contratou ele e tudo mais, mas
você JÁ olhou de verdade praquele homem hoje? — Cindy
perguntou, abanando o rosto com o cardápio do buffet.
— Eu olho todos os dias, obrigada — falei, tentando parecer
blasé enquanto colava mini florzinhas em potinhos de vidro.
— E você ainda tá pagando? Porque pelo olhar que ele te
deu quando você saiu do quarto... aquilo ali era olhar de gente que
quer pagar pra ficar, não ser pago — completou Hannah, tomando
um gole de espumante "só pra testar se tá bom".
— Ele não me olha de um jeito específico! — protestei.
As duas arqueiam as sobrancelhas em uníssono.
— Ah, claro — disse Cindy. — Ele te olha como se fosse um
husky siberiano faminto e você fosse uma coxa de frango assada.
Mas super casual.
O salão estava lindo. Luzes penduradas como estrelas
particulares, flores por todos os lados e aquele cheiro de champanhe
e promessas de "felizes para sempre".
Claire entrou ao som da marcha nupcial e, mesmo com toda
a tensão dos últimos dias, meu coração se encheu. Ela estava linda.
E eu me sentia orgulhosa por ter conseguido fazer parte daquilo.
Ethan ficou ao meu lado o tempo todo. Silencioso, mas
presente. Meus dedos roçaram os dele em um momento e, sem
perceber, entrelacei nossas mãos.
Ele apertou de volta.
E aquilo... aquilo mexeu comigo.
Na festa, tudo estava leve. A pista de dança já começava a
encher, e as taças de espumante faziam milagres nos sorrisos dos
convidados. Ethan me puxou com um sorriso safado.
— Vem dançar, advogada.
— Ethan, eu não danço bem — tentei protestar, mesmo já
sendo puxada para o centro da pista.
— Você dança do jeito certo. E comigo, qualquer passo vira
coreografia de filme.
Ele me girou com uma leveza que me fez rir alto, e nossos
corpos se encaixaram com uma intimidade que não era mais fingida.
Estávamos colados, mãos, quadris, olhos... tudo entre nós
parecia sincronizado.
E então ele disse:
— Eu nunca gostei de casamentos.
— É mesmo?
— Mas essa noite... eu mudaria de ideia por você.
Eu nem sou romântica. Mas ali, envolta de luzes e música
lenta, com ele me olhando como se eu fosse a única pessoa no
mundo... meu coração pulou uma batida.
Talvez duas.
E naquele instante, eu soube:
Eu estava ferrada.
De verdade.
CAPÍTULO 21
ETHAN
O salão estava puro luxo: luzes penduradas como estrelas
artificiais, arranjos florais estrategicamente posicionados, e
convidados sorridentes se movendo entre mesas como num
comercial de champanhe. A música era boa, a comida impecável, e o
clima, até então, de pura celebração.
E eu ali, no canto da pista, observando Olivia. Meu olhar
seguia cada movimento dela com a devoção de quem sabe que está
prestes a fazer uma besteira maravilhosa, tipo se apaixonar pela
mulher errada, no momento errado…, mas da forma mais certa
possível.
Ela dançava com a irmã e as amigas, rindo com aquele
sorriso que eu já tinha começado a colecionar na memória. Aquilo
não era mais teatro. Aquilo era real. E eu estava pronto pra contar
tudo. Dizer que não importava o que tínhamos combinado, eu queria
algo mais.
Mas o universo adora um plot twist.
E ele veio em forma de um terno amarrotado, hálito de
álcool e uma arrogância que dava coceira só de olhar: Steven.
— Só preciso de um minutinho da atenção de vocês! — ele
anunciou, pegando o microfone como se fosse o apresentador de
um programa de auditório barato.
A música parou. Os olhares viraram. A tensão surgiu do
nada como nuvem de tempestade.
— Eu sei que hoje é o grande dia da minha ex-cunhada,
Claire…, mas eu preciso falar sobre alguém que está aqui também —
ele sorriu torto. — Olivia.
Senti o ar rarefeito. Olivia, parada a poucos passos de mim,
estava dura. Séria. Um pressentimento estampado no rosto.
— Eu fui um idiota, ok? — ele começou. — Eu perdi uma
mulher incrível. E me arrependo. Todos os dias. Mas eu descobri
uma coisinha interessante...
Não. Não. Não.
— Descobri que a Olivia não veio aqui acompanhada por
acaso. — O sorriso dele se ampliou, malicioso. — O namorado dela...
na verdade, é um acompanhante. Pago. Isso mesmo, meus amigos!
Um aluguel. O cara é pago pra fingir que ama.
O salão se encheu de murmúrios. Tias viraram pescoços. Um
garçom quase derrubou a bandeja. O DJ deu um gritinho abafado de
“EITA”.
— E só pra vocês saberem que não é papo de ex
ressentido... olha só isso aqui.
Do bolso do terno, ele tirou papéis dobrados e começou a
jogá-los como confete da vergonha. Cópias do anúncio. Do maldito
anúncio.
“Acompanhante de luxo. Discreto, elegante, experiente.
Perfeito para eventos, casamentos e encontros especiais.”
Uma senhora ao lado da mesa de doces desmaiou. Uma
criança perguntou à mãe o que era “acompanhante de luxo”. Um tio-
avô tossiu e saiu com a esposa pela mão, horrorizado.
E Olivia...
Ah, Liv.
Ela tremia. Os olhos arregalados, cheios de lágrimas,
varreram o salão. Ela viu os olhares, ouviu os cochichos, sentiu o
julgamento como um tapa no rosto. A mãe dela já se abanava com
um cardápio, dizendo “Oh, meu coração... minha filha caiu no
submundo!”
Ela largou a taça e correu. Saiu como se o chão tivesse
virado lava.
E antes que eu fosse atrás dela...
— Ei, playboy — Steven me chamou do palco. — Espero que
tenha cobrado caro. A missão não é fácil.
Foi a última frase dele consciente por alguns minutos.
Subi os degraus do palco em três passos. Não gritei. Não
avisei. Só fechei a mão e POW, meu punho encontrou o queixo dele
como se estivessem predestinados.
Ele caiu. O salão gritou. Eu respirei fundo e saí sem olhar pra
trás.
Eu precisava dela.
De verdade.
CAPÍTULO 22
OLIVIA
Por alguns segundos, ou minutos, não sei, tudo ficou em
câmera lenta.
A música parou. As vozes sumiram. As luzes perderam o
brilho. O mundo ao meu redor virou uma pintura borrada e sem
som, com uma única coisa em foco: Steven. No palco. De microfone
na mão. E a boca abrindo para destruir minha vida.
— O namorado da Olivia... é pago. Um acompanhante. De
luxo.
As palavras pairaram no ar como uma bomba-relógio prestes
a explodir. E explodiram.
O salão foi engolido por um murmúrio uníssono. Como se
todos estivessem tentando entender o que acabaram de ouvir ou
julgando antes mesmo de processar. A senhora da mesa 5 deixou a
colher de mousse cair com um estalo trágico. Uma das tias, a
fofoqueira oficial da família, murmurou “Eu sabia! Um homem bonito
daqueles, com a Olivia? Só podia ser teatro.” E minha mãe...
Ah, minha mãe...
— A minha filha virou garota propaganda de cafetão?! — ela
gritou, antes de desmaiar dramaticamente, derrubando uma bandeja
de brigadeiros e caindo nos braços do tio Josh.
E como se já não fosse uma cena digna de Oscar de “Melhor
Desgraça Pessoal em Público”, alguém gritou:
— Olha isso! É verdade! Tem anúncio no jornal!
E de repente, cópias da maldita propaganda começaram a
circular como panfleto de supermercado em véspera de feriado. Eu
vi fotos de Ethan em algumas. Vi o nome dele grifado. Vi até marca-
texto rosa em volta das palavras “perfeito para casamentos e
eventos”. A cereja no bolo da minha humilhação.
Meu peito apertou. Minha respiração falhou. Minhas mãos
começaram a tremer.
E então, eu fiz o que qualquer mulher razoável faria quando
sua dignidade é rasgada em público.
Corri.
Corri como se o salto não estivesse me matando. Corri como
se meu vestido não estivesse grudando no corpo. Corri como se o
coração não estivesse em pedaços, porque ele estava.
Alcancei o jardim do hotel. Me escondi atrás de uma cerca
viva, como se o arbusto fosse me proteger da vergonha global.
As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir. Grossas,
quentes, desesperadas. Meus ombros tremiam, o batom escorria, e
minha cabeça só repetia: “Acabou. Acabou. Acabou.”
— Olivia!
Ouvi a voz dele antes de vê-lo.
— Liv, espera!
Virei. Ethan vinha apressado, o olhar aflito, o paletó
desabotoado, o cabelo bagunçado… e uma mancha vermelha nos
nós dos dedos.
— Você bateu nele?! — perguntei, sem acreditar no que via.
— Dei um soco. Um só. Merecido. Preciso de gelo. Mas
primeiro... você.
Ele parou à minha frente, o peito arfando, o olhar cravado
no meu.
— Por que você veio atrás de mim, Ethan? Já sabem quem
você é. Não precisa fingir mais.
— Eu não tô fingindo, Olivia. Não desde a primeira vez que
você me chamou de puto com raiva e charme ao mesmo tempo.
A garganta apertou. A vontade de chorar virou nó.
— Eles vão rir de mim, Ethan. Vão me chamar de
desesperada. De patética. De ridícula.
— E o que você vai fazer? Viver de acordo com a opinião de
gente que só tem coragem quando tá em grupo? Ou vai levantar
esse queixo, lembrar quem você é, e mostrar pra todo mundo que
quem deveria estar envergonhado é quem trai, quem julga, quem se
esconde atrás de microfone pra tentar ferrar os outros?
Meus olhos transbordaram de novo.
E então ele se aproximou.
Devagar.
Como se não quisesse me assustar, como se dissesse: "Eu tô
aqui, se você quiser."
E eu quis.
Ethan me puxou pela cintura. Me envolveu como se meu
corpo fosse dele por direito. Suas mãos subiram pelas minhas
costas, me aquecendo por fora e por dentro.
— Eu vim porque me importo. Porque você não é só um
trabalho. Porque você é a mulher mais foda que eu já conheci. E
você não tá sozinha, caramba.
Abaixei o rosto, mas ele levantou meu queixo com um
toque. E então me beijou.
Um beijo quente, firme, carregado de tudo que ninguém
precisava falar em voz alta.
Quando nos separamos, ainda ofegantes, ele encostou a
testa na minha.
— Tá tudo bem agora, Olivia. A gente vai sair dessa. Juntos.
E eu... eu quase acreditei.
CAPÍTULO 23
ETHAN
Depois daquele beijo, eu soube que não dava mais pra voltar
atrás.
Olivia ainda estava com os olhos marejados, as mãos
trêmulas, mas não recuou quando entrelacei meus dedos nos dela e
disse:
— Vamos voltar.
Ela me olhou como se não tivesse certeza se eu estava
falando sério. Como se dissesse "você tem noção do tamanho da
merda?". Mas eu estava. E tinha.
Caminhamos lado a lado, como dois protagonistas saindo da
fumaça de um incêndio emocional, voltando para o olho do furacão
com dignidade e... bem, o pouco de glamour que o vento permitia.
Ao cruzarmos as portas do salão, o burburinho recomeçou
como uma maré mal-intencionada.
— É ele.
— O cara do anúncio.
— Ela contratou mesmo?!
— Pior que ele é gostoso…
Ignorei tudo. Só enxergava ela, ao meu lado. E o palco. O
maldito palco onde Steven fez questão de jogar merda no ventilador
em 360º.
Soltei a mão de Olivia por um segundo. Ela hesitou. Achei
que fosse fugir. Mas não. Ela ficou. E eu subi.
Respirei fundo, peguei o microfone com a classe de quem já
passou vergonha suficiente na vida e falei:
— Boa noite a todos. Ou talvez... boa madrugada,
considerando o nível de caos que meu nome causou hoje.
Algumas risadas nervosas. Eu continuei.
— Sim. É verdade. Eu sou um acompanhante de luxo. Faço
disso minha profissão há alguns anos. E sim, Olivia me contratou
para vir com ela ao casamento da irmã.
Mais cochichos. Alguns olhares indignados. Outros curiosos.
Um ou outro claramente pensando em anotar meu número.
— Mas também é verdade que eu nunca imaginei que, entre
uma mentira e outra, acabaria vivendo a coisa mais verdadeira da
minha vida.
Silêncio.
— Olivia Carter não é só a mulher que me contratou. Ela é a
mulher que me virou do avesso. Que me fez questionar tudo. Que
me deu nos nervos, me fez rir até chorar e me fez sentir como um
garoto de quinze anos só por receber um sorriso. Ela é intensa,
sarcástica, teimosa e linda. Linda de um jeito que não tem a ver com
maquiagem ou vestidos caros. Linda de alma. De verdade.
Vi a mãe dela no fundo do salão fazendo cara de "quem é
essa". Ignorei.
— E se alguém aqui ainda acha que ela é desesperada por
ter me contratado... então talvez não entenda nada sobre o que é
ter coragem de bancar a própria dor pra não se deixar vencer por
ela.
A tia de cabelo lilás chorou. Tio Josh parecia hipnotizado. Tia
Margot cruzou os braços como se dissesse “continua, moleque”.
Desci do palco. Caminhei até Olivia. A mulher que me
contratou. A mulher que me desmontou. A mulher que eu queria ao
meu lado por muito mais do que um final de semana.
Ajoelhei.
O salão parou.
— Olivia, você me deu mais do que um contrato. Você me
deu vida. Riso. Tesão. E amor. E se você ainda tiver um pouco de
sanidade emocional pra apostar em mim... quer casar comigo?
Ela ficou estática por um segundo. E então sorriu com os
olhos cheios de lágrimas, com aquele jeitinho que só ela tem de
parecer brava e apaixonada ao mesmo tempo.
— Sim. Mil vezes sim.
Aplausos. Gritos. Tia Margot levantou a bengala no ar e
berrou:
— Isso aí, garoto! Joga na cara da família!
E foi assim, cercado por julgamentos, fofocas e coxinhas de
frango em bandejas douradas, que eu soube: aquele era o melhor
erro que eu já tinha cometido na vida.
CAPÍTULO 24
OLIVIA
Eu disse sim… e agora?
O salão estava em silêncio absoluto após o pedido de Ethan.
Todos os olhares estavam voltados para nós, e eu sentia meu
coração bater acelerado. As palavras dele ainda ecoavam na minha
mente: "Quer casar comigo? Antes que eu pudesse responder, ouvi
um suspiro dramático vindo da minha mãe, seguido de um desmaio
teatral Tia Margot, sempre pronta para a ação, correu para ampará-
la, mas não sem antes gritar.
— Isso aí, garoto! Eu vou ser madrinha
As risadas começaram a surgir entre os convidados,
quebrando o clima tenso. Olhei para Ethan, que ainda estava
ajoelhado, esperando minha resposta.
— Sim, mil vezes sim
O salão explodiu em aplausos e comemorações, Ethan se
levantou e me envolveu em um abraço apertado, seguido de um
beijo apaixonado
Enquanto processava tudo, percebi os convidados se
dividindo: alguns fofocando, outros aplaudindo, e minha mãe sendo
levada para um canto por Tia Margot, que agora assumia o controle
da situação Ethan me puxou para o centro da pista de dança, onde a
música começou a tocar suavemente. Dançamos lentamente, nossos
olhos fixos um no outro, trocando promessas silenciosas através de
olhares e gestos.
Após a dança, Ethan me levou para um canto mais
reservado do salão. Ele tirou uma pequena caixa do bolso e, com um
sorriso tímido, abriu-a para revelar uma aliança.
— Eu já tinha essa aliança. Vai que...
Ele colocou o anel no meu dedo com carinho, e eu senti uma
onda de emoção me invadir. Mais tarde, no quarto, enquanto olhava
para o anel e para o homem incrível diante de mim, pensei:
Talvez eu tenha alugado um amor…, mas acabei comprando
um para a vida toda.
Ethan me envolveu em um abraço por trás enquanto eu
contemplava a vista pela janela.
— Está pensativa. Já se arrependeu de ter me dito sim?
Sorri, encostando minha cabeça em seu ombro.
— Jamais. Só estou pensando que, mais uma vez, minha
família vai querer me matar.
Ele riu suavemente, apertando-me um pouco mais.
— Liv, sabemos que tanto eu quanto você não nos
importamos com o que nossos familiares pensam de nós.
Virei-me para encará-lo, buscando seus olhos.
— Me fala sobre eles — pedi. — Sobre a sua família.
Ethan soltou um suspiro profundo, como se estivesse
liberando uma tensão guardada há muito tempo.
— Minha família é... complicada. Cresci em uma casa onde
as aparências importavam mais do que os sentimentos. Meus pais
sempre foram obcecados por status e reputação. Quando decidi
seguir um caminho diferente, eles não aceitaram bem.
Ele desviou o olhar por um momento, como se revivesse
memórias dolorosas.
— Fui praticamente deserdado quando escolhi minha
profissão. Para eles, ser acompanhante era inaceitável. Mas eu
precisava encontrar meu próprio caminho, algo que me fizesse sentir
vivo.
Aproximei-me, segurando suas mãos.
— Deve ter sido difícil.
Ele assentiu.
— Foi. Mas também me libertou. Conheci pessoas incríveis,
vivi experiências únicas. E, no fim, me levou até você.
Senti meu coração apertar com suas palavras.
— E agora? Você ainda fala com eles?
Ethan balançou a cabeça.
— Minha mãe que ainda me liga, para exigir que eu volte
para casa. Mas, sinceramente, não sinto falta. Encontrei minha
própria família nas amizades que construí e, agora, em você.
Envolvi-o em um abraço apertado, sentindo a profundidade
de sua dor e a força de sua resiliência.
— Obrigada por confiar em mim.
Ele sorriu, beijando minha testa.
— Sempre.
O silêncio que se seguiu foi carregado de significado. Nossos
olhares se encontraram, e havia uma intensidade ali que dizia mais
do que palavras poderiam expressar.
Ethan aproximou-se lentamente, seus olhos fixos nos meus.
Seu toque era suave, mas determinado, como se cada movimento
fosse uma promessa.
Seus lábios encontraram os meus em um beijo que começou
terno, mas rapidamente se aprofundou, carregado de desejo
contido. Suas mãos deslizaram por minhas costas, puxando-me para
mais perto, eliminando qualquer espaço entre nós.
Senti o calor de seu corpo contra o meu, a firmeza de seus
músculos sob minhas mãos. Cada toque, cada carícia, era uma
declaração silenciosa do quanto ele me desejava.
— Você é gostosa demais Olivia — sua voz saiu rouca em
meu ouvido, minha pele arrepiou, senti minha boceta pulsar.
— Ethan... — minha voz saiu como um sussurro.
Ethan enfiou a mão por baixo da camiseta que eu usava,
encontrando meus seios, com um movimento rápido ele a tirou me
deixando apenas de calcinha, seus olhos varreram meu corpo com
desejo, e tudo que eu sempre quis esconder se tornou sem
importância.
— Eu amo cada curva do seu corpo Liv, cada parte dele faz
meu pau pulsar de desejo.
Ele estava sem camisa, usando apenas uma bermuda que
logo estava no chão também, e a boxer branca revelava o tamanho
do seu pau, ao qual eu já estava acostumada.
Suas mãos grandes me guiaram até a beirada da cama.
— Fica de quatro pra mim...
Meu corpo apenas o obedecia, e logo eu estava com a
bunda empinada para ele, Ethan tirou a minha calcinha devagar e
quando eu pensei que seu pau me preencheria, foi a sua língua que
me invadiu, ele abriu minha bunda com as duas mãos, e começou a
me chupar, primeiro devagar e depois mais rápido, me arrancando
gemidos cada vez mais altos.
Rebolei para ele, enquanto sua língua me invadia.
Ele parou de me chupar e logo seu pau me invadiu, fundo,
forte, cada estocada me fazia gemer ainda mais alto.
— Ahhh que pau gostoso — as palavras saiam da minha
boca sem pudor algum.
— Você que é uma delícia e essa boceta então, é o paraíso
— ele disse ao mesmo tempo que deu um tapa em minha bunda,
me fazendo rebolar de novo.
— Rebola gostoso pro seu macho.
As palavras sujas saiam da boca dele e me faziam molhar
ainda mais.
Nossos corpos se moviam em perfeita sincronia, como se
estivéssemos dançando uma melodia que só nós podíamos ouvir. O
mundo ao nosso redor desapareceu, restando apenas nós dois,
entregues à paixão que nos consumia.
A intensidade aumentava a cada momento, nossos suspiros
e gemidos se misturando em uma sinfonia de prazer. Ethan
explorava cada centímetro do meu corpo com devoção, como se
quisesse memorizar cada detalhe.
— Eu vou gozar! — gritei quando ele entrou ainda mais
fundo em mim.
— Vem comigo gostosa, goza no meu pau — ele disse
aumentando a velocidade me fazendo gemer ainda mais.
Senti a onda de orgasmo me invadir, Ethan me segurou com
força, rebolei enquanto gozava e o senti pulsar dentro de mim.
Quando finalmente gozamos juntos, foi como se o tempo
tivesse parado. Ele saiu de dentro de mim e caímos na cama ali,
abraçados, nossos corpos entrelaçados, corações batendo em
uníssono.
Ele acariciou meu rosto, seus olhos brilhando com ternura.
— Eu te amo, Olivia.
Sorrindo, beijei-o suavemente.
— E eu te amo, Ethan.
A primeira coisa que vi quando abri os olhos foi um peitoral
nu. Forte. Bronzeado. Respirando suavemente, como se o dono
tivesse dormido a noite inteira sem carregar um escândalo nacional
nas costas.
Spoiler: eu, a noiva surpresa de um acompanhante de luxo,
não tinha tido a mesma sorte.
Virei lentamente, tentando não o acordar, Ethan, meu noivo.
Ainda era estranho pensar essa palavra em voz alta. Noivo. Parecia
brincadeira, parecia improviso. Mas também parecia... certo?
Estávamos enroscados na cama do hotel como dois
adolescentes pós-balada, só que com um pedido de casamento
viralizando no TikTok e tias-avós que, provavelmente, achavam que
“escort” era algum tipo de sobremesa francesa.
Suspirei e encostei minha testa no travesseiro.
— Por favor, que tudo tenha sido só um sonho.
— Se for, espero que tenha mais desses — murmurou uma
voz grave, arrastada pelo sono.
Abri os olhos e dei de cara com Ethan me olhando com um
sorriso lento, preguiçoso, e, claro, irritantemente sexy.
— Você estava me olhando dormir? — perguntei.
— Tecnicamente, estava apreciando a vista. — Ele se esticou
na cama, os músculos se movendo como os de um modelo de
comercial de desodorante masculino. — Bom dia, noiva.
Pensei em jogar o travesseiro nele. Em vez disso, dei um
meio sorriso.
— Bom dia... marido alugado.
— Marido temporário, com potencial de tempo integral. —
Ele piscou.
O momento estava quase romântico. Quase.
Porque, no segundo seguinte, a porta se escancarou com a
delicadeza de um furacão e entrou Hannah, equilibrando uma
bandeja de croissants, frutas e duas taças de espumante às nove e
vinte da manhã.
— LEVANTA, CAMPEÃ DO ESCÂNDALO! A NOIVA TÁ ON!
Atrás dela, Cindy entrou com o celular em mãos, olhos
arregalados.
— Gente, vocês estão literalmente em TODAS as redes
sociais. Tem um vídeo do pedido com legenda: “Ela alugou e agora é
dona. Que inveja da Olivia!”
— Ah não — murmurei, enfiando o rosto no travesseiro. —
Me diz que eu morri.
— Quase. Sua mãe tentou te matar com o olhar ontem. —
Cindy gargalhou. — Mas a Tia Margot deu um empurrãozinho nela e
disse que “uma mulher que consegue um homem desses merece no
mínimo respeito e espumante gelado.”
Ethan, ainda deitado, apoiou a cabeça na mão e sorriu para
as duas.
— Estou começando a achar que amo sua família.
— Só a parte que te defende — murmurei, sem conseguir
conter o sorriso.
— Enfim... — Hannah largou a bandeja na mesinha. —
Viemos oficializar que estamos orgulhosas. E também confirmar que
o pau dele é realmente tudo isso, porque agora você pode falar com
propriedade.
— HANNAH! — exclamei, vermelha.
— Amiga, o país inteiro já sabe que vocês transaram. Não se
faz um pedido daquele com pau pequeno. Isso é ciência.
Caímos na risada.
Aquela era a bolha que me fazia esquecer o mundo lá fora.
Que me fazia acreditar que, talvez, o escândalo fosse só mais uma
parte da jornada.
Até alguém bater na porta.
— Olivia Carter? — uma funcionária do hotel apareceu. —
Há jornalistas na recepção querendo falar com você e o senhor
Ethan. E... — Ela hesitou — parece que o vídeo do pedido de
casamento foi compartilhado por uma influencer famosa. Está nos
stories dela agora com quase meio milhão de visualizações.
O quarto virou um túmulo por dois segundos.
— Socorro. — Murmurei.
— Parabéns. — disse Ethan, tranquilamente, enquanto vestia
a camisa com o tipo de calma que só um ex-ator e acompanhante
de luxo podia ter. — Você está oficialmente noiva e viral.
— Isso não é um viral, isso é um colapso social. O escritório
de advocacia! Minha reputação! A cidade inteira vai saber!
Fiquei de pé e comecei a andar de um lado pro outro. O
pânico me subia pela garganta.
— E se disserem que foi tudo uma jogada? Que eu inventei
esse noivado pra me vingar do Steven? Que sou... que sou...
— Gênia? — Cindy sugeriu. — Porque sinceramente, se for
tudo encenação, você merece um Oscar.
Ethan se aproximou, pegou minhas mãos.
— Ei. Olha pra mim.
Levantei o olhar, relutante.
— Você não está sozinha. Nunca mais. Nem pra enfrentar
jornalista, nem pra enfrentar sua mãe, nem pra lidar com tudo isso.
Estou aqui. E vou continuar aqui. Como homem. Como parceiro.
Como... noivo, se você ainda me quiser.
Aquele homem tinha o dom de me desmontar com uma
frase.
— E quanto a todo mundo lá fora?
— Que se fodam. — Ele sorriu. — Mas com classe, claro.
Rimos. E eu o abracei.
Sim, eu tinha contratado um acompanhante..., mas agora,
pela primeira vez, eu sentia que alguém estava pagando pra ficar. E
não o contrário.
CAPÍTULO 25
OLIVIA
O céu de Seattle estava cinzento, como se refletisse o
turbilhão de emoções dentro de mim. O retorno à cidade que
sempre considerei meu lar deveria ser reconfortante, mas, ao abrir
meu e-mail naquela manhã, senti o chão desaparecer sob meus pés.
"Assunto: Repercussão na mídia e implicações contratuais"
As palavras saltaram da tela como facas afiadas. Uma cliente
importante ameaçava romper o contrato, alegando "ética
questionável" devido à exposição do meu relacionamento com Ethan
na mídia. O casamento que deveria ser um momento de alegria
agora era visto como um escândalo profissional.
Senti meu estômago revirar. Tudo pelo que trabalhei
arduamente estava em risco por causa de um relacionamento que,
ironicamente, começou como um contrato. A ironia era cruel.
Ethan percebeu minha inquietação. Ele se aproximou,
preocupado.
— Está tudo bem, Liv?
Olhei para ele, tentando conter as lágrimas.
— Recebi um e-mail do escritório. Uma cliente importante
quer romper o contrato por causa da repercussão do nosso
casamento.
Ele franziu o cenho, claramente irritado.
— Isso é absurdo. Nosso relacionamento é verdadeiro.
Suspirei, sentindo o peso da situação.
— Mas começou como um contrato, Ethan. E agora está
afetando minha carreira.
Ele se aproximou, segurando minhas mãos.
— Vamos enfrentar isso juntos.
Afastei-me, sentindo uma mistura de raiva e tristeza.
— Talvez seja melhor você ir embora.
Ethan me olhou, surpreso.
— Você realmente quer que eu vá?
Hesitei, mas não respondi.
Ele se aproximou novamente, me abraçando com força.
— Eu não sou uma fase ruim, Olivia. Eu sou a melhor coisa
que te aconteceu, e você sabe disso.
Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Apesar de
tudo, ele estava ali, firme ao meu lado.
— Estou com medo — confessei, a voz embargada, como se
estivesse soltando um peso que carregava desde sempre.
Ethan se aproximou, seus olhos fixos nos meus, e falou com
uma firmeza doce que atravessou cada parede que eu havia
construído ao redor do meu coração:
— Olivia... você não está mais sozinha. E nunca mais vai
estar. Eu sei que você passou a vida inteira acreditando que
precisava carregar tudo nas costas, ser forte o tempo todo, resolver
os problemas de todo mundo…, mas isso acabou. Agora sou eu e
você. Nós dois. Vamos enfrentar o que vier, juntos. Vamos encarar
seus fantasmas, e os meus, de frente. De mãos dadas.
Ele me puxou para um abraço apertado, daqueles que
encaixam como lar. E, naquele instante, com o coração batendo no
mesmo ritmo do dele, eu entendi. Meu mundo tinha encontrado
abrigo. E ele tinha nome, cheiro de couro amadeirado e o sorriso
mais seguro que eu já conheci.
— Ainda me lembro do dia em que te mandei aquela
mensagem, meu dia estava horrível, eu tinha recebido o convite de
casamento da minha irmã, a ideia de ver aquele idiota me
aterrorizava, e antes mesmo que eu pudesse chegar no escritório
um idiota passou em alta velocidade por uma poça d’agua e me
molhou inteira — falei rindo.
Ethan engasga com o café e me olha.
— Espera... isso foi em frente ao Café Central, numa manhã
chuvosa? No dia em que me mandou a primeira mensagem?
— Sim! Como você sabe? — o encaro desconfiada.
Ethan me olha e começa a rir como um louco.
— Porque... eu era o motorista daquele carro.
— Você só pode estar brincando — digo incrédula.
Ethan levanta as mãos em rendição.
— Juro que não foi intencional! Eu estava atrasado para o
aeroporto e não vi a poça.
Dou uma gargalhada.
— Então, desde o início, você estava destinado a bagunçar
minha vida.
Ethan sorri e me abraça.
— Ou talvez o universo estivesse apenas tentando nos unir
de uma maneira única.
CAPÍTULO 26
ETHAN
O celular vibrou antes mesmo do sol nascer completamente.
Estava jogado na mesinha ao lado da cama e, por instinto, estendi a
mão e atendi sem nem olhar o número. A luz da tela quase me
cegou, mas aquela voz do outro lado me atingiu mais forte que
qualquer claridade.
— Ethan… — A voz do meu irmão, Daniel, estava falhada. —
É o papai…
Foi tudo o que ele disse antes de respirar fundo e soltar a
bomba que me tiraria do chão.
— Ele morreu.
Três palavras. Só isso. E o mundo que eu conhecia colapsou.
— Como assim? — perguntei, ainda grogue, tentando
entender se eu estava em um pesadelo.
— Ataque cardíaco. De madrugada. Ele não acordou… foi
tudo muito rápido.
Sentei na cama devagar, tentando impedir minha mente de
explodir com tudo ao mesmo tempo. O quarto parecia menor, o ar
rarefeito. Olivia, ainda sonolenta, virou-se ao meu lado.
— Ethan? — Sua voz foi baixa e suave. — O que aconteceu?
— Meu pai… — Respirei fundo, a garganta apertada. — Meu
pai morreu.
Ela não disse nada. Apenas se aproximou, me abraçou com
força e me deixou desabar ali, em silêncio.
O silêncio da dor é um lugar estranho. Eu sentia tudo e, ao
mesmo tempo, nada. Lembranças vieram em ondas, como um mar
agitado trazendo fragmentos de memórias que eu nem sabia que
estavam guardadas.
Meu pai, com aquele olhar severo de cirurgião, tentando me
ensinar a diferença entre "salvar uma vida" e "salvar a própria
alma".
— Você quer brincar de ser artista, Ethan? Quando quiser
brincar de ser homem, a medicina vai estar aqui.
Ele era duro. Exigente. Mas também era quem me ensinou a
nadar, quem me levou para andar de bicicleta sem rodinhas e quem
me abraçou quando quebrei o braço tentando subir no telhado da
garagem.
Ele nunca disse que estava orgulhoso. Mas também nunca
deixou de me ligar no meu aniversário, mesmo depois de anos sem
se falar direito. E agora... ele se foi.
E eu não estava lá.
— Por que eu não fui antes? — murmurei, com a cabeça
entre as mãos. — Por que eu não atendi as mensagens?
Olivia estava sentada ao meu lado na cama, segurando
minha mão com firmeza.
— Ethan… você não podia saber. E seu pai te conhecia. Ele
sabia o quanto isso tudo pesava em você. Você fez o que precisava
fazer por si mesmo. Isso também é amor próprio.
— Não parece, Liv. Parece que eu falhei.
Ela passou a mão pelo meu cabelo, com ternura, e puxou
meu rosto para o colo dela.
— Às vezes, as despedidas não acontecem como a gente
quer. Mas o amor que vocês tinham, ele sabia. E você também. E
isso basta.
Fechei os olhos, respirando o cheiro dela. Era como se o
mundo voltasse a ter chão só porque ela estava ali.
O dia passou em câmera lenta. Tive que ligar para Daniel de
novo, pegar detalhes do velório. Nós pegaríamos o voo para
Michigan pela manhã. Olivia não hesitou nem por um segundo
quando disse que iria comigo. E parte de mim se sentia culpado por
arrastá-la para um ambiente onde eu sabia que ela não seria bem
recebida.
Mas a outra parte? Aquela que estava apaixonada por ela de
forma irreversível? Sabia que eu não conseguiria passar por isso sem
ela.
À noite, arrumamos as malas. Em silêncio, com olhares
cúmplices. Quando sentei na beirada da cama, Olivia se aproximou e
se ajoelhou na minha frente, pegando minhas mãos.
— Você não está sozinho. Eu sei que doeu. E vai continuar
doendo por um tempo. Mas eu estou aqui, Ethan. Pra tudo.
— Eu estou com medo — confessei, a voz embargada. —
Medo de não conseguir perdoar minha mãe… de não conseguir me
perdoar.
— Ethan, entenda… você nunca mais vai estar sozinho. Eu
sei que você passou a vida toda se sentindo assim, tentando provar
algo pra alguém que nunca ia ver quem você realmente é. Mas isso
acabou. Agora a gente enfrenta tudo junto. Seus fantasmas e os
meus, lembra? Até que todos eles cansem da gente.
Ela sorriu com os olhos marejados, e eu me vi ali,
vulnerável, despido de qualquer máscara.
E pela primeira vez em muito tempo… eu deixei alguém me
segurar inteiro.
Na manhã seguinte, já no aeroporto, enquanto esperávamos
o embarque, uma criança pequena brincava de empurrar a mala do
pai na fila ao lado. Aquela imagem me atingiu como um soco no
estômago.
Papai me ensinou a fazer isso também. Com cara séria, mas
um brilho de orgulho no olhar. E naquele momento, mesmo com o
peito pesado, eu fechei os olhos e sussurrei internamente:
“Eu lembro de tudo. E eu te amo, mesmo que nunca tenha
dito.”
Olivia apertou minha mão e me olhou.
— Pronto?
Balancei a cabeça. Não, eu não estava. Mas com ela ao meu
lado... eu podia tentar estar.
— Vamos — respondi.
Porque, mesmo indo enterrar meu pai… se ela estava
comigo, eu ia conseguir.
CAPÍTULO 27
OLIVIA
A chegada a Michigan foi silenciosa. Até o céu parecia
entender que estávamos ali para algo que doía. Nuvens pesadas
cobriam o azul, e uma fina garoa pingava no vidro do carro
enquanto cruzávamos as ruas frias e perfeitas demais da cidade
natal de Ethan.
Ele estava ao meu lado, calado, com os olhos fixos na janela
como se cada paisagem fosse um gatilho. Seu maxilar cerrado
denunciava a tensão. Segurei sua mão no caminho entre o aeroporto
e a casa de seus pais, agora, apenas da mãe. E por um instante,
senti que eu era a única coisa que o ancorava à realidade.
A casa era grande, clássica, com colunas brancas e um
jardim que cheirava a tradição. A fachada estava enlutada com fitas
pretas discretas. Quando o carro parou, Daniel veio ao nosso
encontro.
O abraço entre os irmãos foi algo entre o choque e o
reencontro. Sem palavras. Sem frases feitas. Apenas a linguagem
muda de quem compartilha uma perda que nenhuma preparação
emocional poderia suavizar.
— Sinto muito, Daniel — murmurei, me aproximando.
Ele assentiu, e tentou sorrir, mas os olhos vermelhos não
deixavam dúvidas do que ele vinha enfrentando.
E então, ela apareceu.
Margaret Bennett. Fria. Impecável. Usava um vestido preto
sem um único vinco, maquiagem perfeita, e um coque tão apertado
que parecia um capacete emocional. Ela não chorava. Não tremia.
Apenas olhava como se fosse dona do luto e guardiã da dor alheia.
— Ethan — disse, como se não se passassem anos de
distância emocional entre eles.
— Mãe — ele respondeu, formal.
Os olhos dela, então, pousaram em mim.
— E esta deve ser Olivia.
Eu respirei fundo e estendi a mão, tentando manter o tom
cordial.
— Muito prazer, senhora Bennett.
Ela apertou minha mão como quem segura um pano
molhado.
— Você é... diferente do que eu imaginava — disse com um
leve sorriso de canto. Daqueles que queimam mais que xingamento.
Senti Ethan enrijecer ao meu lado. Mas apenas me
aproximei dele e sorri com a classe que aprendi a usar como escudo.
Durante o velório, o clima era... gelado. Todos os presentes
falavam baixo, como se a morte pudesse ouvir e se ofender. Ethan
estava ao lado do caixão, e eu o observava de longe. Orgulhosa. E
devastada por vê-lo tão quebrado.
Foi quando a noiva de Daniel se aproximou, uma modelo de
editorial, daquelas que parecem ter sido esculpidas por uma fada
desnutrida. Alta, magra, loira. Perfeita. E totalmente sem graça.
Margaret a apresentou com um sorriso genuíno (o primeiro que vi
desde que chegamos).
— Veja, Ethan... Daniel fez uma excelente escolha, não
acha? Ela representa tudo que nossa família sempre prezou.
Elegância, beleza… equilíbrio.
Olhei para Ethan. E vi quando ele explodiu. Lentamente.
Com classe, mas com força.
— Mãe, com todo respeito... pare. Agora.
Ela piscou, confusa, mas ele continuou.
— Olivia é a mulher que eu amo. E ela não precisa se
encaixar em nada do que você considera adequado. Porque ela é
incrível. Forte. Inteligente. Leal. E linda pra caralho. Se a senhora
não consegue enxergar isso, é porque está cega demais pela própria
arrogância.
O silêncio no salão foi quase poético. Margaret ergueu o
queixo, mas não rebateu.
— E antes que me pergunte — ele completou — não, ela
não precisa da sua aprovação. E muito menos da comparação com
qualquer Barbie ambulante.
A tal da Barbie ficou vermelha. Margaret, branca. E eu...
queria muito transar com aquele homem ali mesmo, sobre a mesa
de salgadinhos.
Ok sei que foi um pouco de falta de respeito.
Depois daquilo, ninguém mais falou comigo.
E sinceramente? Nem liguei.
Mais tarde, no cemitério, o céu desabou de vez. A chuva
veio fraca, mas persistente. Todos estavam com guarda-chuvas
pretos, como se fosse parte do figurino. Ethan e Daniel ficaram lado
a lado diante do túmulo.
Eu os observei de longe, enquanto eles se despediam do
homem que os criou.
— Ele tinha orgulho de você, Ethan — ouvi Daniel dizer.
— Espero que sim — respondeu meu noivo.
Eles se abraçaram. E naquele momento, por mais que tudo
estivesse despedaçado ao redor, havia um laço que nem o luto
conseguia romper.
Voltamos para o carro em silêncio. Ethan entrou, mas antes
de ligar o motor, olhou pra mim.
— Desculpa por você ter passado por isso. Pela minha mãe.
Por tudo.
Aproximei-me e segurei o rosto dele.
— Não me peça desculpas por quem você não controla. Você
é a única pessoa aqui que vale a pena.
Ele sorriu. Aquele sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Você tem ideia de como me salva?
— Não. Mas espero passar a vida tentando.
E então, ele me beijou. Com gosto de dor e amor. De perda
e permanência.
Porque mesmo em meio ao luto… havia nós dois. Firmes.
Reais. E absolutamente vivos.
CAPÍTULO 28
ETHAN
A primeira coisa que fiz ao chegar em Seattle foi respirar
fundo. Profundamente. Como se só ali, de volta à nossa cidade,
fosse possível soltar o peso do luto, da tensão familiar, e das
palavras envenenadas da minha mãe.
Mas mesmo com tudo isso, havia algo diferente em mim.
Uma certeza que, antes, era só um pensamento abafado entre os
compromissos, os encontros e a máscara de autossuficiência que
usei por anos.
Agora, sentado no sofá do nosso apartamento, sim havíamos
decidido morar juntos, não fazia sentido manter dois apartamentos,
quando eu passava a maior parte do tempo aqui, com Olivia
aninhada em minha camiseta larga, as pernas cruzadas e os cabelos
presos num coque bagunçado, a certeza era gritante.
Chega.
— Preciso te contar uma coisa — disse, com a voz firme,
mas o coração pulando feito louco.
Ela ergueu os olhos do café com leite e arqueou uma
sobrancelha.
— Se for que você contratou uma segunda acompanhante
para o nosso casamento, eu juro que chuto você no meio da canela.
Eu ri, mesmo sentindo a garganta fechar.
— Eu vou encerrar minha carreira, Liv.
Ela piscou devagar, processando.
— Vai… parar de ser acompanhante?
Assenti.
— Sim. Acabou. Não tem mais espaço pra essa parte de
mim. Não com você aqui. Não depois de tudo que vivemos.
Ela sorriu, mas eu vi, tinha um traço de insegurança. Como
se parte dela ainda achasse que eu pudesse voltar atrás.
— Eu comecei nisso por rebeldia, depois por praticidade. E,
confesso, pelo dinheiro. Mas nunca foi só sexo. Era sobre me
esconder. Sobre evitar criar raízes. Sobre escapar daquilo que minha
mãe esperava de mim... e do que meu pai representava.
Ela se aproximou no sofá e segurou minha mão.
— Você não precisa me explicar, Ethan. Mas obrigada por me
contar.
— Quero que saiba — continuei — que eu escolho você. De
todas as formas. E pra selar esse novo começo... recebi uma ligação
hoje cedo.
— Da Tia Margot perguntando se já pode encomendar os
bem-casados com cachaça brasileira?
Ri.
— Quase. Foi do meu antigo professor de teatro. Tem uma
audição pra uma montagem nova de "Closer", no Teatro Paramount.
Ele disse que pensou em mim pro papel de Dan.
Os olhos dela se acenderam.
— Você sempre falou desse texto... você ama esse
personagem!
É
— É intenso. Real. Cheio de falhas... tipo eu.
Ela balançou a cabeça.
— Você é cheio de camadas, Ethan. E muito mais corajoso
do que imagina.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ela encostou a
cabeça no meu ombro, e eu soltei um suspiro longo. Aquele tipo de
suspiro que limpa o peito.
— Meu pai me levava ao teatro escondido da minha mãe —
confessei, num fio de voz.
Ela ergueu os olhos.
— Sério?
Assenti.
— Quando eu tinha uns doze anos. Ele dizia que os
personagens do palco eram as únicas pessoas que podiam ser quem
quisessem, sem julgamento. “Na vida real, todo mundo veste um
figurino”, ele dizia. “Mas ali, filho... ali você pode ser tudo.”
Olivia apertou minha mão.
— E agora você vai ser tudo. Por você. Por ele. Por nós.
Me virei para ela, tocando seu rosto com as pontas dos
dedos.
— Você me fez querer ser tudo, Liv. Você tirou meu figurino.
— Eu sempre achei você melhor nu — respondeu, com
aquele sorriso safado que me fazia querer largar o mundo só pra
passar o dia inteiro deitado com ela.
— Não me tenta, mulher — murmurei, colando nossos
rostos.
— Tarde demais.
Nos beijamos ali, no sofá, com o sol entrando pela janela e o
mundo lá fora se esquecendo de nós por alguns instantes.
Naquele dia, pela primeira vez em muito tempo, senti que
estava no caminho certo. Sem esconderijos. Sem contratos. Sem
armaduras.
Só eu, Ethan Bennett.
E a mulher que me fez escolher a verdade.
CAPÍTULO 29
OLIVIA
Se eu dissesse que acordei me sentindo uma deusa, estaria
mentindo descaradamente. Acordei enjoada, com a sensação de que
um time inteiro de rúgbi tinha passado sobre mim... de salto.
— Ethan... — gemi da cama.
Nada. O apartamento estava silencioso. Marquei um ponto
mental: recompensar meu homem por não estar roncando ao meu
lado pela primeira vez em semanas.
Cambaleei até o banheiro, com o estômago revirando como
se tivesse comido sushi vencido com milkshake de bacon. Sentei na
privada e respirei fundo, esperando a náusea passar. Não passou.
Corri para a pia. E então...
— BLARGH! — Clássico.
Depois de lavar o rosto e encarar minha aparência no
espelho — olheiras, cabelo armado e olhos arregalados — algo
dentro de mim começou a se formar. Um pensamento. Um medo.
Uma possibilidade.
— Não... Não é possível. — Falei sozinha, como uma
personagem dramática de novela mexicana.
Mas era possível sim. Eu conhecia meu corpo. E ele estava
basicamente me gritando: "PARABÉNS, VOCÊ VAI SER MÃE!"
Saí do banheiro como uma criminosa tentando esconder um
segredo da CIA. Me vesti discretamente, deixei um bilhetinho no
travesseiro ("Volto já. Não morre.") e fui até a farmácia mais
próxima com o coração disparado e a mão trêmula.
Comprei três testes. Porque sou uma mulher de certezas. E
paranoias.
Cheguei em casa suando. Me tranquei no banheiro. Me senti
numa cena de filme de suspense. Aqueles dois minutos de espera
foram os mais longos da minha vida.
Duas. Linhas. Vermelhas.
Positivo.
Engasguei com o próprio ar. Sentei no chão frio do banheiro,
com o teste tremendo nas mãos, encarando aquelas linhas como se
elas fossem um código alienígena.
— Eu estou grávida. — Sussurrei, e o eco daquelas palavras
bateu no azulejo e voltou direto no meu coração.
Chorei. Muito. Primeiro de susto. Depois de pânico. Depois...
de felicidade. Porque, mesmo no meio do caos emocional que sou,
havia algo mágico nisso. Um ser humaninho estava crescendo
dentro de mim. Um ser que era metade meu, metade do homem
que eu amo. Isso era grande. Isso era lindo. Isso era... apavorante.
Mas eu sabia o que precisava fazer. Ethan merecia saber e
do nosso jeitinho.
Passei o resto da tarde decorando a sala com postites
engraçados: “Espero que você esteja pronto pra noites sem dormir”,
“Acho que agora o café vai ter que ser descafeinado” e, por fim,
uma caixinha sobre o sofá, com um par de sapatinhos minúsculos e
um dos testes.
Ethan chegou suado, com cara de quem tinha vencido uma
maratona — ou uma sessão de crossfit.
— Amor? — chamou.
— Sala. Agora. — Respondi, tentando parecer misteriosa e
não desesperada.
Ele entrou, olhou para os postites, leu um a um. Franziu o
cenho. Depois viu a caixa. Abriu. Silêncio. Ele pegou os sapatinhos, o
teste, e me olhou como se estivesse tentando processar tudo.
— Liv... — A voz dele saiu baixa.
— Tô grávida. E antes que você pense qualquer coisa: sim, é
seu. E não, não é pegadinha.
Ele ficou quieto. Me encarando. Me aproximei devagar.
— Ethan?
— Eu vou ser pai?
— Sim. Você. Ethan Bennett. Pai. Do meu baby.
Ele sorriu. Um sorriso torto, emocionado, lindo pra caramba.
— Liv, você acabou de me dar o maior presente do mundo.
Me abraçou forte. Forte de verdade. Como se estivesse
segurando o universo inteiro nos braços.
— Eu tô apavorada — confessei, com a cara enfiada no
pescoço dele.
— Eu também. Mas se tem uma coisa que aprendi com você
é que as melhores coisas da vida nascem do improvável.
— Até bebês? — ri entre lágrimas.
— Principalmente bebês.
Nos beijamos. Rimos. Ele pegou o teste de novo, leu a
embalagem como se fosse um contrato jurídico.
— Isso aqui é 99,9% de precisão?
— Ethan.
— Porque sabe como é, pode ser erro, tipo aqueles testes de
COVID falsos.
— Ethan...
— Eu só estou dizendo que talvez seja cedo pra...
— EU VÔMITEI NO TAPETE DO QUARTO HOJE.
Ele me olhou, arregalou os olhos e ergueu as mãos.
— É... Acho que esse é um argumento sólido.
— E agora?
— Agora... a gente compra fraldas, aprende a cantar Galinha
Pintadinha e faz planos.
— Ah, e eu vou precisar de um vestido de noiva com espaço
pra barriguinha.
— Ou então a gente casa pelado. Afinal, foi assim que essa
criança foi feita.
Joguei uma almofada nele, rindo, chorando e me sentindo...
completa.
Talvez eu tenha começado essa história tentando alugar um
amor, mas agora… eu estava construindo uma família.
E isso, meu bem… não tem preço.
CAPÍTULO 30
ETHAN
Acordei antes do despertador, o que por si só já era um feito
digno de ser celebrado com uma faixa na varanda. O céu de Seattle
estava naquele tom nublado e preguiçoso que eu aprendi a amar, e
o silêncio no apartamento me deu a certeza de que Olivia ainda
dormia.
Levantei devagar, tentando não fazer barulho, e fui até a
cozinha. Preparei um café só pra mim, porque minha noiva agora
estava em fase “não posso nem sentir cheiro de café ou vomito até
a alma”, segundo ela mesma.
Apoiando os cotovelos na bancada, encarei a caneca nas
mãos.
Hoje era o teste. O teste para aquele papel na peça “Closer”,
um dos meus textos favoritos, um papel que era sonho e desafio ao
mesmo tempo. E pela primeira vez na vida, ele não era só sobre
mim. Era sobre o que eu queria construir daqui pra frente.
Era sobre ser exemplo.
Era sobre ser pai.
Encostei a cabeça nos braços por um segundo. Fiquei ali,
respirando devagar, deixando tudo me alcançar. Meu coração batia
acelerado. Mas tinha algo novo misturado com a ansiedade: um tipo
diferente de propósito.
Voltei para o quarto só para vê-la dormindo. Olivia, minha
noiva, minha confusão, meu amor. Enrolada no lençol, os cabelos
desarrumados, uma das mãos apoiada sobre a barriga... a nossa
barriga.
Me ajoelhei ao lado dela, tocando devagar sua pele. Ela
murmurou algo e abriu os olhos devagar.
— Ethan...? — sussurrou, com a voz rouca de sono que fazia
meu coração derreter.
— Só vim dizer que estou indo. Deseja sorte?
— Não precisa. Você vai arrasar. — Sorriu, puxando minha
camiseta para me dar um beijo preguiçoso. — E depois... vem direto
pra casa. Quero comemorar com você.
— Prometo. Nada de bares ou orgias. Só você.
— Espero que sim. Porque agora você é um pai.
Ela dormiu de novo com um sorrisinho nos lábios, e eu saí
com o peito inflado.
O teatro onde seria o teste tinha aquele cheiro familiar de
madeira, cortinas e pó antigo. Senti meu corpo relaxar assim que
entrei. Teatro era meu lar, mesmo quando eu não admitia isso pra
ninguém.
Fui recebido pela assistente de elenco e pela diretora da
peça, uma mulher elegante de cabelo platinado e olhar analítico.
— Ethan Bennett, certo? Já ouvi boas coisas sobre você, e
também vi um certo vídeo que andou circulando pela internet —
disse ela, entregando o roteiro com um sorriso que era meio
aprovação, meio desafio.
— Espero corresponder às expectativas — respondi.
Entrei no palco para o monólogo de Dan, personagem cínico,
intenso, humano demais. Respirei fundo e mergulhei. Cada palavra
saiu como se fosse minha. Cada pausa, cada olhar, cada gesto... Era
como se eu tivesse nascido pra aquele papel. Quando terminei,
houve silêncio por alguns segundos. Depois aplausos.
— Bravo — disse a diretora. — Você é nosso Dan.
E naquele momento, eu senti. Pela primeira vez em muito
tempo, eu sabia: estava no caminho certo.
Cheguei em casa e encontrei Olivia na cozinha, de avental e
colher de pau na mão, com o olhar cheio de expectativa.
— E então, meu ator de Oscar?
— Consegui.
Ela soltou um gritinho de felicidade, largou a colher na pia e
se jogou nos meus braços. Giramos no meio da cozinha como duas
crianças felizes.
— Isso merece jantar especial. Ou sobremesa. Ou os dois.
— Isso merece você nua, só com o avental. — brinquei,
mordendo o lóbulo da orelha dela.
— Que tal tudo isso junto?
Sorri e a beijei com vontade. Era inacreditável como essa
mulher conseguia ser sexy até mexendo no molho.
Depois, sentamos na sala com os pés no sofá e o coração no
céu.
— Você sabe que... eu tô morrendo de medo, né? —
confessei.
— Medo do quê?
— De ser pai. De falhar com esse bebê como meu pai falhou
comigo.
Ela segurou minha mão e a colocou sobre sua barriga.
— Esse bebê vai conhecer o melhor homem que eu já
conheci. Um homem que nunca foge, que encara seus erros, que
ama com tudo. Ele vai ter orgulho do pai que tem. E eu também.
— Você sempre diz as coisas certas?
— Não. Às vezes eu digo que não quero batata frita. E me
arrependo profundamente.
Rimos. E no meio da risada, eu me lembrei de algo que meu
pai me disse quando eu tinha uns dez anos.
“Você nunca vai ser grande coisa, Ethan. Você se distrai
demais.”
Engraçado como essas palavras ficavam martelando por
tanto tempo. E como agora... já não faziam mais sentido. Porque
mesmo distraído, mesmo sem saber exatamente o que estava
fazendo, eu estava construindo algo. Com Olivia. Com o bebê. Com
essa nova versão de mim.
— Promete que não vai deixar eu virar um babaca como ele?
— Prometo. Mas se eu precisar bater com uma colher de
pau na sua bunda, farei isso sem hesitar.
— Perfeito. Era tudo que eu queria ouvir.
Nos beijamos de novo. Nos entrelaçamos. Ficamos ali,
abraçados, planejando um futuro incerto com a certeza de que,
juntos, daríamos conta de tudo.
Eu era um acompanhante de luxo. Ela era uma advogada
com o coração remendado. E agora... éramos só dois malucos,
apaixonados, prestes a construir uma família. E tudo, absolutamente
tudo, valia a pena.
CAPÍTULO 31
OLIVIA
Existem dias em que você acorda, olha para o teto e pensa:
“Hoje vai ser tranquilo, calmo, organizado.” Esse não era um desses
dias.
O grupo da Tia Margot no WhatsApp já tinha mandado 37
mensagens antes das 9 da manhã. Hannah me mandou um vídeo do
Ethan ensaiando sem camisa no teatro, provavelmente vazado por
alguma atriz que queria que eu parisse prematuramente. E Cindy,
bem… ela estava planejando "uma coisa discreta, só entre nós", o
que no dicionário dela significa: stripper vestido de unicórnio e muito
glitter no carpete.
E tudo isso por quê? Porque hoje era a estreia oficial do
Ethan no teatro. A primeira peça desde que ele deixou sua antiga
carreira de acompanhante de luxo, ufa, ainda era estranho pensar
nisso, para se tornar um ator de verdade. Um protagonista. E meu
noivo. E pai do meu bebê.
Respirei fundo e encarei meu reflexo no espelho. Três meses
de gravidez e eu já estava me sentindo uma bolinha de festa junina,
mas segundo Cindy, “você está com aquela barriguinha sexy de
comercial de margarina”. Bom, se margarina significa retenção de
líquido e vontade de bater em quem come a última batata frita,
então sim. Eu era o próprio slogan da margarina.
O teatro estava lotado. Nós, claro, chegamos com o combo
completo: Hannah, Cindy e Tia Margot, que entrou no local com um
chapéu de plumas roxas, um vestido dourado que refletia a luz como
se fosse uma bola de discoteca e um colar que poderia ser usado
como arma branca em caso de emergência.
— Achei que estávamos indo para uma estreia de teatro, não
para o Grammy latino. — Cochichei.
— Querida, eu brilho onde eu quiser — respondeu Tia
Margot, estendendo a mão para cumprimentar um senhor que
provavelmente pensou que estava diante da Donatella Versace
ressuscitada.
Nos sentamos e eu tentei me concentrar, mas a conversa
paralela das minhas amigas era um espetáculo à parte.
— Você acha que ele está nervoso? — Cindy perguntou,
esticando o pescoço como uma avestruz na savana.
— Nervoso nada, aquele homem entra num palco como
quem entra na minha calcinha: confiante e cheio de presença. —
Hannah completou, fazendo a senhora da frente engasgar com a
bala de hortelã.
Quando as luzes se apagaram e Ethan entrou no palco, meu
coração disparou. Ele estava incrível. Natural, intenso, com uma
presença que dominava tudo. Eu me apaixonei de novo. Mesmo. E
isso era completamente ridículo, considerando que eu já estava
planejando meu casamento com ele e gerando um pequeno ser
humano com a cara dele.
Aplausos. Sorrisos. Emoção.
E, claro, a cena final de beijo em que a atriz se jogou nos
braços dele como se fosse Titanic parte 2. Hannah, do meu lado,
levantou a sobrancelha.
— Se ela escorregar a língua na boca do seu homem de
novo, eu invado esse palco.
— Hannah! — ralhei.
— O que foi? Eu sei lutar com salto 15.
Nos bastidores, após a peça, Ethan apareceu suado,
sorrindo, e com aquele olhar que dizia “me elogia ou eu morro”.
— Foi maravilhoso, amor. Você brilhou. — disse, me jogando
nos braços dele.
— Você viu quando eu esqueci uma fala e improvisei? — ele
sussurrou em meu ouvido.
— Ninguém percebeu. Só você mesmo.
— Eu percebi sim. — Tia Margot interrompeu, se abanando
com um leque de lantejoulas. — Mas ficou tão sexy que perdoei na
hora. Se eu não fosse uma senhora respeitável e com artrose, te
jogava no camarim agora mesmo.
Ethan gargalhou, beijando minha testa.
— Vocês são minha torcida do barulho. Obrigado, de
verdade.
— E já que falamos em barulho — Tia Margot se adiantou,
erguendo uma taça de espumante (de onde ela tirou isso, ninguém
sabe) — vamos falar do que realmente importa. O chá de bebê
misturado com despedida de solteira. Com tema. E atrações.
— Atrações? — Cindy perguntou, já arregalando os olhos.
— Claro! Um mágico que também é stripper. Ele tira o
coelho da cartola... e depois tira a cartola.
— Tia Margot! — eu quase gritei.
— E já fechei com três drag queens. O tema vai ser: “Mamãe
Poderosa e o Exército da Purpurina”. Estou fazendo minha playlist de
DJ. Teremos Beyoncé, Cher e, claro, Elba Ramalho.
— Por quê? — perguntei, exausta.
— Porque sou eclética, minha filha. Não tente me entender,
apenas aceite.
Ethan segurava a barriga de tanto rir.
— Eu já posso dizer que essa é a melhor família que alguém
poderia ganhar?
— Pode. Mas não adianta tentar escapar. O stripper mágico
está pago. — Completou Hannah, já com o número dele salvo no
celular como “Sr. Coelho Maravilha”.
Mais tarde, deitada com Ethan na cama, a cabeça no peito
dele, ouvi seu coração bater como uma canção antiga e familiar.
— Você foi incrível hoje. — falei baixinho.
— Você foi mais. Você, suas amigas e a senhora que parecia
a madrinha da Lady Gaga. Vocês são minha plateia favorita.
— E você é o pai do meu bebê... e o amor da minha vida.
Ele apertou minha mão.
— Acho que tô pronto pra ser tudo isso. E se não tiver...
você me ensina.
Beijei o ombro dele e sorri.
O teatro pode ter sido o palco da noite, mas o espetáculo
real estava só começando e era estrelado por nós dois.
CAPÍTULO 32
OLIVIA
Existem eventos sociais. Existem festas. E depois existe
aquilo que a minha família e minhas amigas conseguiram organizar
para celebrar o fato de que eu estava, simultaneamente, grávida,
noiva e completamente sem controle sobre minha própria sanidade.
O convite já dava uma prévia do que viria:
“Chá de Bebê & Despedida de Solteira da Olivia
Tema: Mamãe Poderosa & o Exército da Purpurina
Dress code: glitter, salto ou fantasia, o que sua personalidade
mandar.”
PS: Não recomendado para cardíacos ou conservadores.
PS2: Tia Margot fará um número especial. Leve lenços.
Quando eu abri o armário no dia da festa, fiquei encarando a
camisola de gestante e o vestido preto que escondia a barriga. E
depois encarei o que a Hannah deixou em cima da cama: um body
pink brilhante, com tule, e uma faixa escrita “Mamãe da Bagunça”.
— Vocês me odeiam. — Murmurei, enquanto Hannah e
Cindy riam do outro lado da porta.
— Te amamos tanto que fizemos até uma calcinha
personalizada com “Bennett” bordado atrás. — disse Hannah.
— O bebê vai sair já achando que nasceu em Las Vegas. —
Acrescentei, mas vesti tudo mesmo assim.
Quando cheguei no salão reservado, tive que parar na porta
para absorver… o caos.
Havia uma passarela de glitter no meio do salão. Isso
mesmo, uma passarela. Com holofotes. O DJ era uma drag queen
chamada Baby Boo que vestia um macacão dourado e distribuía
shots de suco para as grávidas e tequila para as outras.
As mesas estavam decoradas com mini-fraldas recheadas
com confetes coloridos, ursinhos de pelúcia usando óculos escuros e
cartazes com frases como:
“Chá de fraldas sim, chá de sossego nunca mais.”
E, claro, no palco: Tia Margot, vestida de Madonna versão
1992, com um microfone brilhante na mão, ensaiando passos com
um stripper vestido de mágico, sim, o tal do Coelho Maravilha.
— Senhoras e senhores! — ela gritou ao me ver. — Chegou
a estrela da noite! A noiva! A mamãe! A mulher que teve coragem
de amar um acompanhante gostoso demais para ser real!
Todo mundo aplaudiu. Eu queria desaparecer.
— Olivia! — gritou Baby Boo do palco. — Vem cá, sua
maravilhosa. Temos um jogo pra você.
Fui arrastada até a passarela, enquanto Cindy e Hannah já
filmavam tudo para garantir que esse momento constrangedor
ficasse eternizado para sempre.
O jogo era “Adivinhe o que está na fralda”, e envolvia
cheirar, lamber e adivinhar doces escondidos em fraldas falsas.
— Isso é… Nutella? — perguntei, quase chorando de nojo e
de riso ao mesmo tempo.
— Errado! É brigadeiro com paçoca! — Baby Boo gritou,
enquanto todo mundo gritava "castigo!".
— Não vai me fazer dançar, né?
— Querida… Vai ter que rebolar no colo do Coelho Maravilha
enquanto toca “Single Ladies”. Grávida ou não.
E eu fui. Rebolei. Rachei o bico. Quase fiz xixi. Foi glorioso.
Mais tarde, enquanto as luzes se acalmavam, e o DJ
colocava uma música lenta, sentei-me com Cindy e Hannah num
sofá de veludo lilás, segurando minha barriguinha com carinho.
— Eu nunca pensei que viveria isso. — falei, emocionada.
— A festa ou o bebê? — perguntou Cindy.
— Tudo. Eu era a solteirona triste do escritório, lembra?
— E agora é a mãe mais gostosa da cidade com um noivo
ator que lambe teus pés — Hannah completou.
— E que vai tirar a camisa na recepção do casamento, se a
gente convencer — Cindy sussurrou.
— Vocês são loucas. — Murmurei, entre risos e lágrimas.
Na hora dos presentes, ganhei desde coisas úteis
(mamadeiras, fraldas, roupinhas) até absurdos (uma mini algema
cor de rosa com pelúcia, obrigada, Cindy). Mas o mais emocionante
foi o presente da Tia Margot.
— Meu presente é esse álbum — ela disse, entregando-me
um caderno rosa com capa brilhante. — Aqui estão fotos suas desde
bebê, com textos meus, cartas da sua mãe (das boas, eu escolhi a
dedo) e até um bilhetinho do seu pai, antes de partir.
Eu abri a primeira página e ali estava uma foto minha com
um ano, careca e babando em cima de um bolo.
Chorei. Todas choraram. Até Baby Boo chorou.
— Esse bebê vai ter muita sorte. Porque ele vai nascer
cercado de amor. E de glitter. — Tia Margot disse, levantando a taça
de suco de morango.
Na volta pra casa, Ethan me esperava com pizza, filme e
cara de “me conta tudo”.
— O Coelho Maravilha arrancou a calça no palco — contei.
— Isso é código para dizer que você ainda vai querer casar
comigo?
— Totalmente. Mas você vai ter que competir com um
mágico com abdômen trincado.
— Aceito o desafio.
Nos abraçamos no sofá, enquanto eu acariciava a barriga e
ele passava a mão nos meus cabelos.
— Isso foi um chá de bebê ou uma rave?
— Uma rave com hormônios. E eu amei cada segundo.
CAPÍTULO 33
OLIVIA
O dia do meu casamento começou assim: com um grito.
— HANNAH, ONDE ESTÁ MEU SUTIÃ DE RENDA BRANCO?
EU VOU CASAR COM O HOMEM MAIS GOSTOSO DE SEATTLE E TÔ
SEM SUTIÃ!
— RELAXA, ELE VAI TIRAR DE QUALQUER JEITO — gritou
Cindy da outra sala.
Respirei fundo. Se eu tivesse um real pra cada vez que ouvi
a frase “relaxa” nas últimas semanas, eu já teria pago o buffet, a
decoração e talvez até um ultrassom em 3D.
Mas agora era real. O casamento. O vestido. O Ethan.
E eu, com o coração a mil, segurando um buquê de flores
brancas e tentando parecer calma enquanto uma vida inteira
explodia em emoção dentro de mim.
O local? Um jardim lindo na região de Kirkland, com toldos
transparentes, arranjos florais com girassóis e rosas (meu pedido),
luzinhas penduradas por todo lado e cadeiras brancas que pareciam
saídas de uma revista de casamento. O céu estava limpo, uma brisa
suave acariciava os cabelos de quem passava e o cheiro de lavanda
se misturava ao perfume das flores.
A música? Uma banda acústica tocando "Can't Help Falling in
Love", versão lenta e tão bonita que até o DJ da despedida de
solteira teria chorado. E se você não chorou, talvez tenha um
coração de gelo.
As madrinhas? Hannah e Cindy, óbvio. Vestidas de verde-
musgo, com decotes ousados e sorrisos cúmplices. Hannah disse
que se alguém ousasse usar branco, ela mesma empurraria a
criatura no laguinho decorativo.
Tia Margot? Entrou de terno branco. Isso mesmo, T-E-R-N-O
branco, gravatinha lilás e um chapéu de abas largas, se tinha
alguém que podia usar branco, esse alguém certamente era a tia
Margot.
— Oi, queridas! — ela disse ao entrar no salão de braços
dados com meu primo mais novo. — A noiva tá maravilhosa, mas eu
sou a PADRINHA! E vamos com classe e glitter até o altar.
E ninguém ousou discordar. Tia Margot era a Beyoncé da
família, ponto final.
Do outro lado, Ethan.
Ai, Ethan…
Ele estava parado no altar como um sonho ambulante. Terno
cinza escuro, sorriso calmo, olhar cheio de promessas. E quando ele
me viu entrando… aquele homem perdeu o ar. Literalmente. Hannah
disse que ele murmurou “puta que pariu” com lágrimas nos olhos.
Meu pai me conduziu, sim, ele superou todos os traumas
com a minha mãe só pra viver esse momento. E até me sussurrou:
— Você merece esse final feliz, minha menina.
Quando cheguei ao altar, Ethan me estendeu a mão. E tudo
fez sentido.
O celebrante? Baby Boo, sim, a drag queen da despedida.
Porque a gente não faz nada convencional nessa família.
— Estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois
loucos. Uma mulher brilhante, sarcástica e linda — que por acaso
está grávida! — e um homem com cara de pecado e alma de
príncipe. Que come pelas beiradas, mas ama com o coração inteiro.
Todo mundo riu. Eu queria rir, chorar e vomitar (obrigada,
gravidez).
Então chegou a hora dos votos.
Ethan respirou fundo e pegou um papel dobrado. Mas depois
sorriu e jogou fora.
— Eu ia ler, mas quer saber? Eu só preciso te olhar pra saber
o que dizer. Olivia… você me contratou pra fingir ser o amor da sua
vida. Mas você se tornou o amor da minha. Você me deu tudo:
risadas, verdade, tapas verbais e uma versão de mim que eu nem
sabia que existia. E agora, você me deu algo ainda maior… uma
família. Eu prometo rir com você, te apoiar, aprender a trocar fralda
(mesmo com nojo), e nunca, nunca deixar que duvide do quanto é
amada.
As pessoas já estavam chorando. E aí chegou a minha vez.
— Eu… — pigarreei. — Eu sou péssima com discursos. Mas…
quando conheci Ethan, ele era só um anúncio num jornal. Um cara
bonito demais pra ser verdade. Mas hoje… ele é minha casa. Meu
melhor amigo. Meu futuro. E, como se não bastasse, o pai dos
nossos bebês.
Houve um segundo de silêncio. E então…
— O QUÊÊÊÊÊÊ?! — Tia Margot gritou.
— É ISSO MESMO, FAMÍLIA. EU TÔ GRÁVIDA DE GÊMEOS!
— ergui o buquê, que tremia junto com minha mão.
Gritos, aplausos, minha mãe desmaiando pela quarta vez no
mês. E tia Margot já puxando o Baby Boo pelo braço:
— Aumenta o som, mona! Vamos comemorar esse milagre
da multiplicação da testosterona!
Depois teve brinde. Teve valsa. Teve Ethan me levantando
do chão na dança e dizendo no meu ouvido:
— Você é a melhor decisão que eu já tomei.
Teve beijo. Teve promessas com os olhos. Teve gente
chorando e se abraçando. Tia Margot dançou com o primo de 20
anos como se tivesse 22. Hannah deu em cima do garçom. Cindy
pegou o buquê e gritou "alguém casa comigo agora!", e eu bem vi
um dos atores amigo de Ethan sorrindo para ela.
E teve um casal, eu e Ethan, descobrindo que o amor pode
mesmo vir de onde a gente menos espera. Até de um anúncio de
jornal.
E naquele fim de noite, olhando pro céu cheio de estrelas,
pensei:
Que assim como no livro da Sue Hecker[1], existe sim o lado
bom de ser traída.
CAPÍTULO 34
ETHAN
A notícia chegou como um sussurro triste no meio de uma
manhã que parecia promissora. Estávamos tomando café juntos, eu
e Olivia, quando o telefone dela tocou. Ela atendeu sorrindo, mas
logo o sorriso desapareceu. O mundo pareceu parar por alguns
segundos.
— Ela se foi — Olivia murmurou, olhando para mim com
olhos marejados.
Tia Margot, nossa padrinha oficial, rainha da irreverência,
coração da festa… havia partido enquanto dormia, tranquila, como
quem sabia que havia deixado o espetáculo da vida bem dirigido até
o fim. Olivia chorou baixinho, abraçada a mim, enquanto eu também
engolia em seco. Eu ainda ouvia a voz dela na minha cabeça dizendo
que se Olivia não me quisesse, ela me levava pra casa dela “nem
que fosse só pra esfregar minhas costas”.
O velório foi tudo, menos tradicional. Porque Margot jamais
permitiria algo cinza, sem graça ou fúnebre. Ela deixou tudo
planejado. Sim, isso mesmo. Havia um envelope selado com
“Instruções da Margot para sua última festa”.
O salão estava decorado com margaridas e girassóis, suas
flores preferidas, espalhadas por vasos coloridos e desconexos,“nada
de arranjo simétrico, isso é coisa de gente sem criatividade”, como
ela mesma dizia. No fundo, tocava uma playlist que ela havia
deixado salva no Spotify: "Toca e chora, amor”, com músicas que
iam de Aretha Franklin a um remix com Pabllo Vittar.
Cada canto do lugar transbordava Margot. O caixão estava
aberto, como ela pediu, e ela usava um vestido roxo cintilante e
batom vermelho. Claire comentou que parecia mais pronta pra um
baile de máscaras do que pra um enterro. E sinceramente? Ela
estava maravilhosa.
Olivia, grávida e emocionalmente mais sensível, mal
conseguia se aproximar do caixão. Ficou abraçada às amigas na
primeira fila. Eu, em respeito e porque sentia no peito a necessidade
de dizer adeus àquela mulher que mudou minha vida com uma
piscadela e uma ameaça com bengala, me aproximei.
A olhei, respirei fundo e murmurei, para que só ela ouvisse:
— Se Olivia não tivesse me fisgado primeiro, eu teria casado
com você, Margot.
E, eu juro, parecia que ela sorriu. Talvez fosse o reflexo da
maquiagem, talvez meu desejo. Mas naquele momento, tive certeza
de que, onde quer que estivesse, Margot gargalhava alto, com seu
copo de gim tônica na mão e um ventilador de glitter ligado no
máximo.
Depois foi a vez dos discursos. Hannah, com lágrimas e
risos, contou sobre quando Margot tentou ensinar ela a “flertar com
elegância” e acabou beijando um entregador de pizza por engano.
Cindy disse que Margot era seu “guru de autoestima” e que graças a
ela, hoje só aceita homens que saibam pronunciar “orgasmo
feminino”.
Olivia, tremendo, subiu ao palco. E com a voz embargada,
disse:
— Tia Margot me ensinou que a gente pode ser amada,
mesmo quando o mundo tenta convencer que não. Ela me deu
coragem pra viver minha história de amor. E agora, eu vou contar
essa história pros meus filhos. Eles vão saber quem foi a mulher que
me ensinou que ser diferente é exatamente o que torna alguém
inesquecível.
O salão explodiu em aplausos. Claire chorava. Até a mãe
delas, que tinha tomado dois calmantes escondidos na bolsa,
porque, claro, “uma dama não chora em público, ela se medica
discretamente”, deixou escapar um suspiro emocionado.
No fim, organizamos um brinde. Copos de prosecco, suco de
uva (para Olivia) e lágrimas em abundância.
— À Rainha Margot! — todos disseram em uníssono.
E foi nesse brinde que entendi: algumas pessoas não vão
embora, elas viram parte da gente. Margot agora vive na risada de
Olivia, no sarcasmo de Hannah, no olhar debochado de Cindy, e até
na minha forma de viver o amor.
No carro, a caminho de casa, Olivia segurou minha mão e
disse:
— Acho que ela sabia. Que estava indo. Por isso fez tudo
daquele jeito.
— Margot nunca fez nada sem estilo — respondi, com um
sorriso triste.
Olivia encostou a cabeça no meu ombro.
— Vamos viver bem. Vamos honrar tudo isso.
— Vamos. E os nossos filhos vão saber quem foi a mulher
que me ameaçou com uma bengala e ainda assim, me conquistou.
Ela riu, e eu beijei o topo da cabeça dela.
Margot partiu como viveu: sem pedir desculpas, sem pedir
licença e deixando todo mundo com saudade.
Mas, sinceramente? Nem a morte foi capaz de apagar o
brilho dela.
CAPÍTULO 35
OLIVIA
Se alguém me dissesse, há um ano, que eu estaria
acordando no meio da noite ao som de dois bebês chorando e um
homem pelado usando uma fralda de pano como tapa-olho tentando
encontrar a mamadeira, eu diria: “Isso é uma fanfic erótica com
toque de desastre”. Mas não. Essa era minha vida. E, por algum
motivo milagroso… eu amava cada segundo caótico dela.
Tudo começou sete semanas antes da data prevista para o
parto, com minhas calças favoritas sendo sacrificadas em nome da
dilatação inesperada.
— ETHAN! AS BOLSAS ESTOURARAM! — gritei da sala,
sentada no puff que, por ironia divina, era branco.
— As bolsas?! Tipo… de couro? De papel? De compras? —
Ethan surgiu correndo, com um lenço amarrado na cabeça,
segurando um pacote de fraldas como se fosse um troféu.
— A MINHA BOLSA, ETHAN! OS BEBÊS VÃO NASCER!
Hospital, enfermeiras, gritos, mais gritos, e um médico que
parecia ter saído direto de Grey’s Anatomy. Entre um insulto
carinhoso e uma contração assassina, eu segurei a mão de Ethan
como se fosse um cabo de guerra olímpico.
— Nunca mais transa sem camisinha comigo! — eu gritei.
— Amor, já estamos aqui… quer aproveitar e fazer o
segundo round? — ele respondeu com um sorriso nervoso.
Horas depois… Ivy e Noah estavam nos meus braços. Dois
seres tão pequenos, tão perfeitos, tão... barulhentos. Eu chorei.
Ethan chorou. A médica chorou porque a gente fez piada durante o
parto.
A volta pra casa foi tipo aquele meme: expectativa x
realidade.
Expectativa? Família sorrindo, bebês dormindo em sincronia,
Olivia com o cabelo preso num coque charmoso e maquiagem
intacta.
Realidade? Fralda até no cachorro, sutiã de amamentação no
ventilador, e um Ethan descabelado tentando decifrar um
esterilizador de mamadeira como se fosse uma bomba nuclear.
— Isso aqui esquenta ou invoca um demônio? — ele
perguntou, com o manual na boca.
Mas, entre o caos, havia magia.
Havia madrugadas em que eu acordava com Ethan ninando
os dois no colo, cantando um mashup de “Bohemian Rhapsody” com
“Twinkle Twinkle Little Star”, usando pantufas de coelhinho e olhos
vermelhos de sono.
— Agora tenho dois amores da vida… — ele dizia. — Não,
três. Você é o maior deles.
E, nessas horas, o mundo ficava em silêncio. Só nós quatro.
Um quarteto desafinado, mas perfeitamente afinado no amor.
A Tia Margot programou um arranjo com a seguinte
mensagem:
“Parabéns pelos filhotes. Que tenham o sarcasmo da mãe, o
tanquinho do pai, e que nunca descubram como vocês se
conheceram. Beijos, Madrinha Imortal.”
Chorei. Rindo, mas chorei, ela sabia mesmo que ia partir,
velha safada.
Certa tarde, Ethan chegou com flores e um par de
babadores escrito “Filho do Gostosão da Mamãe”.
— Achei que fosse apropriado.
— Você é ridículo.
— Mas irresistível.
A gente não dormia direito. Às vezes discutia por motivos
idiotas — tipo qual pomada é melhor ou por que o Lucas prefere
dormir do lado esquerdo do peito dele. Mas cada olhar, cada toque,
cada pequeno gesto, era uma confirmação de que a gente tinha
construído algo real. Inesperado. Nosso.
Uma noite, exausta, sentei ao lado dele no sofá. Ivy
mamava enquanto Noah dormia sobre meu ombro. Ethan me olhou,
os olhos cansados, mas tão ternos, tão cheios de amor.
— Acha que vamos dar conta?
— Não. Mas quem precisa dar conta quando se tem amor e
estoque de café?
Rimos. E ali, naquela bagunça maravilhosa que era nossa
casa, entre fraldas, pelúcias, mamadeiras e amor em forma líquida,
eu soube.
Aquele anúncio de jornal não tinha alugado um amor.
Tinha me dado tudo o que eu jamais imaginei ter: um lar.
EPÍLOGO
OLIVIA
Cinco anos. Parece uma eternidade e, ao mesmo tempo,
apenas um piscar de olhos.
Seattle continua cinzenta e charmosa como sempre, mas
minha vida… ah, essa mudou completamente. Hoje, a nossa casa
tem cheiro de tinta guache, barulho de pezinhos correndo e
risadinhas no meio da madrugada. Ivy e Noah, os gêmeos mais
bagunceiros, espertos e lindos do universo, são o nosso caos
perfeito. E Ethan? Continua sendo o amor da minha vida… e o crush
de meia Seattle, segundo o grupo de mães da escola.
Mas hoje é um dia especial. O teatro está lotado. Luzes,
murmúrios, ansiedade no ar. E não, não é uma premiação nem um
novo casamento (apesar de Tia Margot ter jurado que íamos renovar
os votos a cada ano). É a estreia de Ethan na peça infantil “O
Bosque Encantado”, onde ele além de diretor, também atua como o
Príncipe Cedric, sim, com direito a calça colada e espadinha
brilhante. E sim, ele está ridiculamente gostoso com aquele figurino.
Não me julgue.
— Mamãe, papai vai beijar alguma moça? — Ivy pergunta
desconfiada, com sua tiara de unicórnio e braços cruzados.
— Claro que não, meu amor. É só teatro, lembra?
— Se ele beijar, eu mordo ela.
Sim, minha filha é territorial como um dragão em TPM.
Sentamos nas primeiras fileiras. Ao meu lado, Hannah e
Cindy fazem apostas silenciosas sobre quantos aplausos Ethan vai
arrancar só com o sorrisinho de canto. Hannah trouxe pipoca
escondida na bolsa e Cindy, um cartaz escrito “Príncipe Cedric, me
sequestra”. Essa é a nossa normalidade.
A peça começa. As crianças ficam hipnotizadas. Ethan entra
em cena e... pronto. As mães da fileira de trás começam a suspirar.
Ivy bufa.
Tudo vai bem, até a cena do “abraço da princesa
encantada”. A atriz, lindíssima e talvez um pouco empolgada demais,
se joga nos braços de Ethan. Cena ensaiada, claro. Mas...
— EI, GAROTA! SOLTA MEU PAPAI! ELE É DA MAMÃE!
A plateia congela por um segundo… e depois explode em
gargalhadas. A atriz solta Ethan como se tivesse levado um choque.
Eu quase morro de vergonha, mas Ethan... Ethan ri. Ri com o tipo
de orgulho que só um pai completamente apaixonado sente.
Ele se vira discretamente para Ivy e sussurra:
— Você é minha princesa número um, pequena guardiã.
E o teatro inteiro aplaude a cena, a fala improvisada, a
pequena leoa protetora que geramos juntos.
Depois da apresentação, nos bastidores, Ethan aparece com
Noah no colo e Ivy pendurada no pescoço. Ele me olha com aquele
sorriso torto que ainda me tira o fôlego.
— Ela tem o seu gênio, ciumenta igual a mamãe — sussurra,
me dando um beijo na testa.
E eu, com os olhos marejados, só consigo dizer:
— Ela só cuida só que é nosso — sorri.
E quanto às pessoas que caminharam com a gente?
Hannah e Cindy abriram um canal de podcast chamado
“Amigas com Advogados e Problemas”, onde dão conselhos
amorosos regados a vinho e histórias absurdas e têm mais de 100
mil seguidores. E claro são madrinhas de Ivy e Noah.
Minha mãe... bem, ela ainda reclama de tudo, mas agora
virou avó full time. Nunca erra uma entrega de bolo de aniversário
dos netos e, pasmem, até elogiou Ethan outro dia. "Pelo menos tem
dentes bonitos", ela disse.
Vitória!
A mãe de Ethan? Nunca superou o fato de ele ter escolhido
"uma mulher barulhenta e com curvas", palavras dela. Mas não
aparece há mais de dois anos. E sinceramente? A paz reina.
Daniel, irmão de Ethan, está casado com a modelo esbelta e
antipática (sim, ela continua insuportável), mas ao menos se redimiu
como tio dos gêmeos trouxe um castelo inflável no último
aniversário e ganhou pontos.
E Tia Margot… ah, nossa estrela.
Ela se foi deixando um vazio em nosso peito e uma bengala
com glitter que Ethan guarda em nosso armário até hoje.
Seu último bilhete dizia:
“Se for pra morrer, que seja depois de dançar. Se for pra
viver, que seja com drama, amor e vinho tinto. E se for pra amar,
que seja como Olivia amou Ethan. Sem roteiro. Sem medo. E com
muito palavrão.”
Essa era Margot.
E esses somos nós.
Agora, cinco anos depois, ao ver meus filhos rindo, meu
marido brilhando e meu coração tão cheio, só posso agradecer por
aquele dia em que achei um anúncio no jornal.
Porque às vezes, quando você aluga um amor… é a vida que
faz o upgrade e te entrega o pacote completo.
E a nossa história... essa continua. Em cada riso. Em cada
toque. Em cada “puta que pariu, como eu te amo”.
FIM.
NOTAS DA AUTORA
Quando comecei a escrever Aluga-se um Amor, eu queria
contar uma história que fosse mais do que clichê, queria algo leve e
divertido.
Eu queria escrever sobre mulheres reais, que choram
ouvindo música brega, que passam batom vermelho com a mão
trêmula antes de encontrar o ex, que gritam “EU NÃO PRECISO DE
HOMEM NENHUM!” … e logo depois contratam um.
Eu queria uma protagonista que fosse forte, sarcástica,
inteligente, cheia de traumas e cheia de amor, mesmo quando
tentava esconder isso atrás de uma armadura de humor ácido e
chocolate embaixo da cama.
E queria um mocinho que não fosse perfeito. Que tivesse
feridas, que errasse, que carregasse o peso de uma vida que nem
sempre foi justa, mas que ainda assim soubesse amar com tudo.
Inclusive com a língua, as mãos e aquela voz rouca que derreteu
milhares de leitoras por aqui.
Escrever essa história foi rir sozinha de madrugada, chorar
com cenas que saíram do fundo da alma e sentir meu coração
acelerar toda vez que Ethan dizia algo sujo ou doce. Porque sim, ele
é os dois. E Olivia? Ela é todas nós em algum momento da vida.
Se você chegou até aqui, eu só tenho uma coisa a dizer:
Obrigada.
Por sentir.
Por rir.
Por se ver nessa história.
Por amar essa comédia romântica cheia de putaria, dor,
redenção, amor e uma certa Tia Margot que, vamos combinar,
merecia um spin-off só dela.
Que você nunca aceite menos do que um amor que te olhe
como Ethan olhava pra Olivia.
Que segure sua cintura e o seu emocional.
E que te faça gozar... de prazer e de felicidade.
Com todo o meu amor (e glitter),
HELÔ OLIVEIRA 💋
AGRADECIMENTOS
Primeiro, a você, leitora maravilhosa que chegou até aqui,
provavelmente com o coração derretido, a calcinha meio úmida e a
certeza de que Ethan Bennett agora faz parte do seu top 3 de
“homens que não existem, mas deveriam”.
Obrigada por cada página virada com suspiro, cada print nos
stories, cada surto no WhatsApp com as amigas dizendo
“AMIGA, TU NÃO TÁ ENTENDENDO O QUE ESSE HOMEM FEZ!”
Você fez esse livro acontecer. Sim, você mesma, com seu
amor, sua entrega e sua fome por histórias que te façam rir, chorar e
querer um contrato com cláusula de sexo quente e final feliz.
Agradeço também:
Às mulheres reais que me inspiraram a criar Olivia, com suas
cicatrizes, suas piadas internas, seus medos absurdos e sua coragem
silenciosa de recomeçar, mesmo depois de ter o coração quebrado.
Às amigas Hannah e Cindy, que toda mulher deveria ter. Se
você não tem, procure. Se tem, valorize. Se for uma delas, esse
agradecimento é pra você. Eu tenho até uma a mais, que sortuda
que eu sou (Jo Magrini, Angel Dias e Ane Le[2], esse livro é para
vocês e por vocês).
À
À Tia Margot, que representa todas as divas, peruas, loucas
e maravilhosas que passaram por nossas vidas e deixaram glitter nos
nossos caminhos. Eternamente a rainha da ousadia e da
autenticidade.
E ao Ethan… ah, Ethan. Você nasceu da minha mente e dos
desejos secretos de milhões de leitoras que só queriam um homem
que soubesse dizer “eu te amo” com as mãos, a boca e o corpo
inteiro.
E, claro, a mim mesma.
Por não desistir de escrever, mesmo quando a vida quis que eu me
calasse.
Por transformar dor em arte, gozo em metáfora, e amor em
literatura.
Esse livro é nosso.
E ele só faz sentido porque foi sentido por você.
Com amor, tesão e riso frouxo,
Helô Oliveira
SOBRE A AUTORA
Nascida em 1988, na cidade de Cotia, região metropolitana
de São Paulo, Eloisa Oliveira tem uma trajetória notável. Já casada e
mãe de quatro filhos, ela passou por uma redescoberta fundamental
em 2020, quando emergiu como Helô Oliveira, uma escritora de
romances contemporâneos que celebram o triunfo do amor. Nesse
mesmo ano, lançou sua primeira obra, iniciando de forma
promissora sua carreira literária e consolidando seu nome no cenário
editorial.
Helô Oliveira destaca-se por seus romances sensuais que
exploram uma variedade de enredos, desde contratos de casamento
e histórias envolvendo máfia, fantasia e tramas de romance Dark.
Atualmente, com mais de 25 obras publicadas, ela conseguiu
alcançar o sonho de viver da escrita, e seus livros estão amplamente
disponíveis em plataformas digitais, conquistando leitores em todo o
país. Para ficarem atualizados sobre suas novidades, sigam a autora
no Instagram:
@autorahelooliveira
[1] Escritora brasileira, autora do Best Seller O Lado Bom de ser
traída, o qual foi adaptado para filme pela Netflix, e também minha amiga.
[2]
Autoras de Romances na Amazon.