Eduardo Sterzi

aleijão
este livro foi selecionado pelo programa petrobras cultural

Neste livro, não há ilusões de refúgio ou exílio frente a um mundo fundamentalmente violento: não apenas as ruas guardam sustos e ameaças, mas a própria casa apareçe como “território inimigo”. Nem mesmo a infância ou a família oferecem acolhida: deixou-se para trás a “prisão do paraíso”, da qual restaram sobretudo cicatrizes e feridas ainda abertas. Na cena da memória, que é, desde sempre, também ficção (isto é, reinvenção e comunhão da experiência), as mãos do pai “escondem-se, sanguinárias”. Irmãos se revelam “exímios no embate dos abraços”. Amigos podem ser “quase um país”, mas um país inexistente e imprestável. Mesmo o contato amoroso é aqui – antes, e depois, de tudo – atrito, choque, desgaste. Aleijão é o nome expressivo, e não isento de ironia, que o auor encontrou para o que sobrevive a tanto desastre, a tanta devastação – seja isso homem ou livro. Esta ênfase na negatividade mais funda não nasce de algum gozo perverso com o mal-estar da civilização contemporânea, mas, sim, de uma dialética entre poesia e vida visceralmente pensada e engenhosamente posta em práica. Se nossas casas, ecoando antigas moradas romanas, continuam a alertar “cuidado com o cão” (“cave canem”, como se lê ainda hoje nas ruínas de pompéia), o poeta, de sua parte, pede, no pórtico deste livro, “cuidado AO cão / que morde dentro”. Na sutileza da preposição alterada estranhante, concentra-se a inteligência poética de Eduardo Sterzi. Se por um lado é preciso precaver-se contra o perigo, por outro talvez convenha alimentá-lo, já que ele, capurado no poema, pode representar o momento decisivo de uma antítese radical frente ao real catastrófico e traumático. Sterzi sabe, com Hölderlin, que “onde há perigo / cresce também a salvação”. Mas a radicalidade maior do Aleijão está em deixar esta salvação, ou síntese, para depois do poema, para depois do livro. Pois esta é uma poesia que, na sua

comover: isto é. para dentro e para fora do abismo. antes de mais nada. quer. .4/145 severa tensão. fazer com que o leitor se mova consigo.

Eduardo Sterzi nasceu em Porto Alegre em 1973 e vive em São Paulo desde 2001. É doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e realizou pesquisas de pós-doutorado na Universidade de São Paulo e na Università degli Studi di Roma “La Sapienza”. . conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Autor-Revelação em poesia. além de ter organizado Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos (2006). Seu primeiro livro. É autor também de dois volumes de estudos literários. Por que ler Dante e a prova dos nove (ambos de 2008). Prosa (2001).

tu és um excremento tu és um monte de lixo tu vens para nos matar tu vens para nos salvar Canto de investidura real dos Mossi. La violence et le sacré . segundo René Girard.

BEM VINDO. aleijão: à minha imagem foste feito .

EM GERME .

CUIDADO ao cão que morde dentro .

DE ONDE vim é podre e trago em mim pedaços .

ESTE CADÁVER é nosso almoço Qual será a sobremesa? .

A OCASIÃO faz o cão A escassez define nossos sonhos Teatro é estarmos nus e não estarmos nus .

PRECIPITOU-SE o esquema de fogos (Não há feridos) .

E MESMO O CÉU é um deserto .

DANTE ALIGHIERI. El gaucho Martín Fierro . e alcuno dimandasse se là dentro fosse il fuoco. e un altro rispondesse a lui di sì. non saprei bene giudicare qual di costoro fosse da schernire di più.COÁGULO Se manifestamente per le finestre d’una casa uscisse fiamma di fuoco. Convivio es un telar de desdichas cada gaucho que usté ve JOSÉ HERNÁNDEZ.

Fogo fluente de uma cela a outra (de resto. No guardado. Telhados de Paris Porto Alegre acabou: no abraço compulsório. Fuga é sintaxe. no sonegado. Crime é silêncio. . Acolhe a ratazana. e toda tatuagem. Presume clareza do espaço abandonado. No abraço encardido. No revólver sufocado. Persiste a memória do desastre. Acabou. na asfixia. A noite desova cadáveres neste quarto de outra cidade. Na tosse compartida. No embate adiado. No piano de teclas áfonas (atraente a cupins). No ponto morto dos dias. e é desgaste. acanhado. Nasço velho deste abraço. em véspera de crias. No inexprimido (embora exprimível). Na enciclopédia de fomes vermelhas (agora canceladas). No copo azul. No óxido das grades. Como escapar ao cárcere do nome? Todo retrato é autorretrato.CASA DE DETENÇÃO Há tempos que eu já desisti dos planos daquele assalto. solitário. das festas de família. de boca larga (conforme à sede herdada). incomunicáveis). Todo escrito é registro de gasto. NEI LISBOA.

crescer sob espécie de árvore: o dito pelo não . secreta o espesso cúmulo de vidae-morte represado nunca suficientemente limpo. prisão do paraíso.PRISÃO DO PARAÍSO expele o coágulo. nunca expugnado além da superfície fática conclave de xícaras.

insígnia do mortal. nome secreto gravado no . Assim sepultá-lo. Aquele tronco. vizinha a mim. sacro caroço sangrado. extrema carícia. lapso de árvore. lápis de escrita íntima. dobras de lembra. ferida ínsita. Assim conservá-lo. despenca em mim. em mortalha de vísceras.DEVASTAÇÃO Aquele tronco arrancado. tempo inscrito em círculos de carne estrangeira. cariz da infância.

19/145 carnaz à espera do colapso final. quando o que é vivo. vazará. vácuo. . definitivo.

jamanta. oco de palavras (escondem-se. sangra arrancada para fora d’água – trabalho de arpões improvisados.PARA FORA D’ÁGUA uma âncora (pois que faltam pés) desce do corpo à calçada: na infância. outra. uma arraia dança no aquário. as mãos de meu pai) . sanguinárias.

OU: MAGMA] Quanta distância na carne comum: exímios no embate dos abraços. .IRMÃOS [.

assovia: a lâmina da infância cravada na lembrança. . afiador.ASSOVIA.

meio- fio cortante: esta nuvemluz da infância levo na garganta.UIVO de folhas queimadas. .

o cheiro de guardado e naftalina. o cadeado.ENFANT PHARE De um lado. a noite corroída. De outro. relâmpagos amestrados. a família puída. a saliva ácida: ratos luminosos. a mobília entrevada. .

Dormíamos em nossas cabines: a família toda morreu. . No cais. Não bebemos. Outra festa. silenciosos. não dançamos. nem percebemos. ninguém: ninguém deu por nossa falta. agora. Berrávamos. Era festa no sono: tão entretidos. ninguém nos reconheceu. Ninguém despertou com nossas vozes. nas profundezas. à nossa espera. na memória de ninguém.A BARCA Incendiou-se a barca que nos levava ao continente.

DE NADA Foram tantos que me mataram Não tenho bocas para agradecer .

.AVARIA de novembro : o ar vermelho nas covas labirínticas.

.NOVEMBRO Chego a dezembro? Trepido nos ossos.

BERCEUSE Remédios têm-me roído a memória Às vezes mesmo esqueço tomá-los Respondo imprestável a estímulos vários. perguntas simples (Nenhuma simples bastante) Temos que castrar os gatos (Não há quem durma) .

APAGADO Tenho meus apagamentos (Quando foi ontem mesmo?) .

(AO CADAFALSO) Como quem vai à feira ou sai de férias .

RETARD EN VERRE “Meus poemas” (ele disse. ou água sanitária. como quem diz “estou morto. o fardo. disto estou seguro) do que rompe e queima e gera Mas estou cansado” (agora ele o disse de fato. que me legaram (guardião dos cacos) Entenda: estou seco. esquecido. sob alguma cama. deitando sob vossos pudicos narizes o rastro lúcido (não existe o invisível. ninguém percebe. como quem diz “estou cansado”) “talvez devesse escrevê-los com porra. e andar por aí nestas vestes me mata de novo e de novo e”) “e mesmo quando tento pensar em algo excitante (aquela fuga na tarde. e nada (nem tente) me arranca deste pacto” . o assalto abortado) e finjo deixar para trás.

QUANTO MAIS QUENTE o azedo pensado a termo – lembro do cheiro quando piolhos – desisto a tempo – em flor medraz – retine aparente – mas não seduz – cadente ao berço – deslizo o ventre – matiz fugaz – quanto mais quente – esquece a despesa – no sol solvente a canção – se assim não restam nus .

ÁTROPO a tesoura dos ponteiros agride o fio das horas .

A OBRA. O ESCOMBRO Onde o meu quarto no hotel posto abaixo na praia do futuro? .

QUE DESEJO esqueci na árvore das promessas? .

LÁ Você sabe o que eu quero dizer quando digo agricultura ou caminho de volta ou não há mais lá lá Falo de para-choques largados no meio da estrada De lagartos que põem ovos e correm pelo pátio (e correm do pátio) De atropelamentos e atalhos Havia um campo de nus e toalhas que não eram usadas Qual era mesmo o nome daquela cidade? .

FAROL DA SOLIDÃO [Nunca estive lá] óxido e saudade .

. ao cume. regressa: íngremes nossos poros. íngreme a fala.CÂNTAROS O amargo. em cântaros. de nós depurado.

FONTE DAS ABELHAS boa é a água da fonte das abelhas se eu morasse ali do lado e bebesse sempre daquela água eu seria feliz .

ESCRITÓRIO

O ESCREVENTE

a ranhura da letra na qual me abrigo a memória líquida do corpo inciso o ir-se hesitante da seringa a escória, o ranço no dizer indeciso § a queda-de-asa no fim do caminho o gesto da escrita severo, esquivo a secura noturna, a água dos dias (saturno degusta seus filhos)

ESCRITÓRIO

cemitério ou semeadura insinuam-se dúbios a cada ranhura § na letra, na unha persevera a secura viva do cadáver, sua astúcia § na rota de cruzes a pedra do escrúpulo

44/145 dita o rumo § jato interrupto fruta ou furto tâmara ou túmulo .

UTRUM DEUS SIT SUBIECTUM HUIUS SCIENTIAE Uma voz não sei de Quê de Quando escondido e Onde pouco nítido pede-me que esqueça que é forma não formada Mas não Não caio na lábia do poema seu não ter De Quê nem Porquê Aqui se faz Aqui se prega (O que se arrasta sobre as águas e às vezes se afoga?) É antes uma íngua na fala uma pedra debaixo da língua .

. em forma de colapso. Ou resista: não vale a escrita. agora. Releve a agulha inclusa que te paralisa beijo e protesto.LIÇÃO DE ESCRITA Não meça a temperatura: pouco importa se o corpo dá-se. Reserve uma hora diária para afagar tua miséria. Esqueça a máscara tesa que sequestra o sorriso por sob a pele.

estrito paletó: a argila o sigilo. medrosa): pétala. afronta o sol – o asfalto me veste. o selo do só . refém de sapatos. para o Tarso] 1 mundo mundo ou país bloqueado de onde a poesia. antes.RETRATOS [Com o Tarso. escapa – recolhe o tentáculo: o tempo é de fezes 2 uma flor desponta em subsolo (humana. e. agora. drástico estrume.

que não me lava) 4 mãos imundas. enxurrada (que não me leva. tímida chuva. partículas suspensas (mãos pensas). pressinto a noite – corrosiva – em mim: tempestade anulando a paisagem. o chumbo dos ares inspirados (à sombra esguia de uma girafa intolerável) .48/145 3 sigo. melhor devastá-las: que o papel receba. estado de emergência.

noite em falso 6 nas entranhas desata o cadarço. aos pés – de onde país bloqueado. depois do assalto – vigília ou velório. cabisbaixo. valsa de mortos. vai (não vai) 7 trouxeste o mapa? por quais estradas fugir ao vasto (devastado) . em curtocircuito.49/145 5 no quarto de nus. ferido e calvo.

50/145 coração? toda estrada é pedra sequestrada. rumor de máquina . estrago de ossos.

(PLANO 100) O quanto de esquivo no esguio já rumoreja? O quanto de estigma no estio. ainda ferrão? (O quanto de sufoco na fumaça? ( 31 outubro 2002 (e depois) . lúcida queima? O quanto de estilhaço no bagaço? O quanto de vertigem no cálice? (na caliça) O quanto de agulha no acúmulo? O quanto de esmeril no abraço? (O quanto de centelha. prévia de cinzas.

afogou-se no Adriático. no entanto. Eduardo Strezi. Eduardo Sperb. mal completou um mês de casado. Denise o deixou por um uruguaio. príncipe dos poetas desdentados.PERSONAGENS Eduardo Stenzi matou-se aos 18. que. . não diz a ninguém. Estava na moda. suspeita sua mãe. cujo fraque “foi motivo de destaque” nas colunas sociais. Eduardo Strazzi morreu de tristeza Assim. Não resistiu à “paixão”. pelo menos. Dois ou três amigos seus derramaram óleo no ponto suposto da morte e deitaram fogo ao mar.

Eduardo Stesso sempre foi confundido com seu gêmeo. Desistiu. Atormentava os netos com a informação duvidosa e reiterada . o bobo sem corte. Era pseudônimo. Está desenganado. que desaconselharam. Eduardo Esteves: assim se chamava o técnico do time de futebol do Clube de Regatas. Consultou os amigos. “e não muito distante”. Tentou todos os tratamentos. Seu nome verdadeiro: Mario Babbo Natale. Stern. Eduardo Stern dizia-se parente de H. Roberto. Pensou em pintar os cabelos ou fazer plástica. o idiota da aldeia. Definhou.53/145 Edoardo Stronzo. o filho do delegado: que presente trouxemos para ele da viagem? Eduardo Steso sofria de nanismo severo. Adoeceu de outra doença.

DJ. que já tentou mudar. Eduardo Esterco. simpático. com dois ss. . Escreveu um livro a respeito. A mulher sabe de dois. No ano passado. financista. Dos outros dois. 53 anos. desconfia. enquanto os outros perdiam na Bolsa. Seu segredo? Não conta a ninguém. mas não encontrou quem publicasse. Eduardo Strezzi recebe frequentemente correspondências em que o seu nome aparece com apenas um z ou. acredita que nomes condicionam destinos. Eduardo Stretto. nada. só ele ganhava.54/145 sempre que passava em frente à loja de Copacabana. Eduardo Estéril tem cinco filho bastardos. É prejudicado pelo sobrenome. diz não saber o que é crise. culto. Eduardo Stereo: previsivelmente. Do último. pior. regente da sinfônica de sua cidade. brilhante orador. Eduardo Stecco.

Comenta-se. homeopata. tem uma casa de campo na Toscana. mudou-se para a Austrália. Seu sonho é conhecer a Grande Barreira de Corais. desempenhou magistralmente o papel de Prospero na última montagem do grupo Qual. Edoardo Strozzi é talvez mafioso. Eduardo Straz. Seja como for. perdido que só. Seu nome foi cogitado para todos os prêmios. impossibilitado de não o ser. O que é que vendem lá mesmo? Eduardo Stervi. cansado de ser um clichê. Pratica o montanhismo. Não ganhou nenhum. Ninguém confirma.55/145 Edoardo Stento. onde vive sozinho. Está alugada para um escritor norueguês que há dois anos não escreve uma linha. . Perdeu tudo o que tinha no bingo. Eduardo Stenio. ator. Passa todos os dias sentado à porta do “estabelecimento”. melhor deixá-lo em paz. engenheiro de Milão.

56/145 A filha não o quer ver nem pintado. Namorou uma atriz que lhe passou aids. Aos quinze. e nenhum telefonema. Eduardo Esterházy diz ser conde. mas vive de investimentos na indústria pornográfica. . Eduardo Estêncil espalhou flyers divulgando seus serviços entre os frequentadores do Espaço Unibanco. Eduardo Streb. fará intercâmbio e perderá a virgindade. Ele ainda não sabe. Passaram-se dez dias. estuda no colégio canadense. filho de alemães.

POETAS poetas são todos uns merdas só pensam em dinheiro matá-los seria perfeito não fossem a sujeira e os berros .

(O DIA) então chegou o dia do nojo da poesia .

NA TREVA ya sé no te hace gracia este país Fito Paez. Un vestido y un amor .

a noite dura § o intervalo de prédio a prédio é carne e queda: . cobre-te. parca.À VISTA sob mudos céus mede a distância de uma a outra estrela. renuncia à noção de refúgio. suporta a espessura do silêncio.

defesa. expulso feto no escuro: como desertá-lo? . receosamente violada § o corpo.61/145 como incorporá-lo? § prova a maçã da treva: a casca tesa.

ESTRELA só sem redor .

noite. livro) já não te convém? a palavra sem víscera não convence? que vença o melhor.RINHA a experiência resumida (janela. e o melhor já tem sangue nos dentes .

A LUA é só mais um canivete na coleção de armas brancas. .

turva. .ÁGUAS As estacas do sono fincaram-se aparentes. Nas águas rasas do travesseiro. a leitura se desfaz. proibido pescar.

AQUÁRIO Mergulha no sono como quem num aquário de águasvivas. .

fundir-se – enfim – ao granito. pavio de úmidos estouros. .SONÂMBULO Nunca acordar de todo. periscópio às avessas vasculhando a cegueira. Nunca acordar: o ritmo – somente – deste penhasco: desviar-se dos mísseis. Deixar – o dia em diante – um – sempre – tentáculo imerso no sono: prenúncio de próximo afogo. preservar o fígado.

MANHÃ CARVÃO. manhã carnívora: medo que a sombra morda. olhos abstratos por sobre o ombro esquerdo. .

A tempestade assim nos prepara: agulhas cadentes virão mais tarde. . Cada ruído.A TEMPESTADE assim se prepara: na espessura crescente do ar circundante. de árvore ou vizinho. unha de vento e umidade. ignora a distância e nos arranha.

NA PAULISTA Suger triturava safirs per fer blau de vitralls JOAN NAVARRO Diamante adverso. lavra de cadáveres.) . vulcão dormido. em grãos dissipado. agulhas rabiscadas no chuvisco pela língua dos faróis. (Forçando a carapaça de asfalto e paralisia.

na esquina. a mandíbula das cortinas metálicas mascando o diaa-dia (em baba e silêncio). o mar combustível surrando a avenida. em Copacabana 1 o grito à queimaroupa. de cócoras. .NA MARRA Para Antonio. funis. e nus. concílio de covardes “¡fecha geral!” 2 túneis.

bolhas de paralisia 3 “¡sai dessa pedra. morto e vivo – “¡sai dessa pedra!” 4 “o crime é o crime” – “nossa noite é criminal” .72/145 agravo de sangue. marisco!” – vivo ou morto.

. coagulado. ainda que por um triz. Dormir.17h36 A tarde é ouro falso vazando para o quarto. não veda as janelas. adianta o morrer: peixe arpoado pela luz. O sangue das cobertas.

MONSTRO Fujo aos dentes Garras a rasgar Anzóis Canivetes Ao refúgio me estreito Ouvido à porta Lá fora Todos são estranhos Febre de vidro E quebra Inevitável Quem sabe o pouco Não resta Disso se vive ou Não deixa rastro Desperta Eles são tão assustadores Quando nas ruas .

75/145 se escondem A casa caramujo Permanece o desabrigo Onde for o intruso O que sou .

TEATRO na bolsa de incêndios no balão cadente na balsa dos mortos ensaiamos nosso motoperpétuo o teatro dos cães no asfalto cobaias incapazes rasgando o cobalto a cortina podrida o – digamos – céu § frenético fictício beleléu que não se ensina mesmo implorando o trato o contrato o retrato às raias do terráqueo rinha de mães o escasso impõe nosso ex-voto no altar dos santos tortos fantoches fazendo chão .

ACIDENTE Nessa caixa embalado e pronto para o consumo no rumo do lixo Desde criança adestrado na prática do sumiço Desde carniça afeiçoado ao beijo do abutre Desmemoriado de ubre e placenta Numa curva violenta do ventre expelido Descartado Substituído Ao sol que arrebenta estrebucho em vozes A estrela .

78/145 da manhã me queima com seu pavio Convoco socorro em volapuque Sequer me ouve esta sombra que arrasto Ninguém me aplaude ou reclama meu corpo Com licença estou morto .

cativo. passivo. na cidade. o Ato.RELÂMPAGO (1) Sigo imóvel – morto – neste táxi. – Resisto. o Enforcado no espelho. apesar: – esquivo. alvo de tanta verruma – de tanta espuma –. Pressinto a arquitetura de sigilos – de segredos – desdobrados. o Triste – o Triste –: o Triste definitivo – Resisto – nesta cidade – apesar. . – Desdobrando-se: – no princípio. o Enrabado das esquinas.

O que for me absolve. 300. a canivete. No cemitério. escondo os braços. Irmão de cera. . despisto a polícia.(2) Esqueço o revólver. 600. espremo o medo geométrico. Peço 200. O mel difuso. Persigo o céu nas curvas do Copan: sequela e resto. o tempo me deve. Troco as pernas. O invés do sol impresso no rosto. irmão de barro: irmão decomposto. Pinocchio te quer morto. desisto de ir a Santos. O tempo me perde. o espanto extremo. Meus olhos de saponáceo devolvem terror.

§ O quinto (ou sexto) dromedário na fila de pagas: recurvo. § No extremo em que o presépio desmorona em precipício: preso à escarpa. esmagado. .PERSPECTIVA DO BARRIL C’est moi dans la poubelle Mas onde encontrá-lo? § Cultivando (cego. cambaio) coágulos de treva na concha da tarde. ao (arame) íngreme (farpado).

ANATOMIA Nunca reparou que os dentes vão quase até os olhos Que os dentes na verdade começam nos olhos (e uns como outros choram) Nunca reparou que os cabelos encostam nos joelhos Que o vão da boca é uma catedral rasgada pelo fogo Que o sexo é um porão – fede a cadáveres. tardes subtraídas. perfumes contrabandeados Que ao fim de muitos corredores há mais corredores e uma alegria podre .

NINGUÉM LIGA PARA TEUS SAPATOS Pouco importa que vás não vás Ainda tens pés .

Mas onde estão teus pés? Nem mesmo pegadas.MEIAS NOVAS para teus pés. .

mão de fantoche ou de espantalho. que dança involuntária e desengonçada quando a rua chacoalha. queres apertá-la? . a mão cadáver. apêndice incômodo (oxalá descartável) que às vezes escondo.MÃO MORTA ofereço a mão morta em espetáculo. outras mascaro: eis que salta do bolso a mão (por ora) palhaço.

(É TREVA) (aproveita o sonho de pedra) enquanto (espasmo de luz) é (soluço de treva .

. Canário esmagado. Da fruta o travo.SANGRA Agora o tempo do sangue: o tempo da febre. ouro baço. água de fezes.

NO JARDIM esta é minha irmã com seus filhos soltos no jardim quase bichos é lenta são lentos como as coisas que ficam e por isso mesmo choram às vezes .

DE UM TEMPO SEM PERDÃO 1 [aneurisma] graças a deus que deus existe e que me pôs à prova duas vezes com essa menina: na primeira. não amo não — . quando – 2 não amo ele não. agora. perdeu um olho. na segunda.

TROVOADAS Estão de novo arrastando as trovoadas No andar de baixo minha mãe de pantufas cuida que se ouça pouco não mais que o necessário É tempo de nascer da morte esta fresta criatura de esgueira Tebas tem sete portas que são bocas de mil dentes .

JOGO depois do primeiro chute é fácil alguém pergunta pra que tanta violência aos poucos vai até serenando como se entranhasse a contragosto a lâmina do sono suja do próprio sangue do sangue de outro aos poucos vai até afogando no sono que desce pela garganta vem dos ouvidos só pensa proteger os olhos proteger a nuca proteger a têmpora parece que sorri à espera do último que não vem à espera do próximo é fácil é só esquecer que aquela é a sua (só) a sua cabeça .

GUERRA PERPÉTUA queres que te peguem te castrem? teu corpo-estandarte à frente das hostes no alto? um dia tudo isso virá abaixo guerra é guerra mas é outra também luxo desejo superstição cantar no dia do medo um hino ao traidor cavar a dedo a cova do senhor .

OU: TAMBÉM O SABES] minha mulher tua irmã foi levada tua voz me pergunta o que fazer agora mas só a voz já também o sabes não há por que perguntar as armas nossas armas já estão no porta-malas e o carro está no curso eu dirijo tu mordes o lábio de baixo não digo e não dizes palavra conheces conheço a tocaia de outras datas sabemos o que nos aguarda não festa não artifício não alívio mesmo depois e depois de depois será doído .AS ARMAS [.

nunca.ESTRANGEIRO Nunca estrangeiro o bastante Segunda-feira. satisfatória) O estrangeiro (nunca o bastante) traz na carne (a só bagagem) a única lei inflexível desta cidade: a lei de um rosto desfeito a marteladas . ninguém acorda [porque] Ninguém dorme Todos estão mortos O dragão que os devorou é um dragão mudo Mímica e ensaios de fuga no interrogatório (nenhuma resposta. janeiro.

Ignoro a língua flácida. . Fim de tarde: a mesma. é assim: chove todo dia. O avião que passa me fala de outra cidade. no livro. a palavra aprendida: lezíria. seu convite à fuga. aproveito para o estudo (quando a leseira não bate). Submerso. Tento me aferrar a umas poucas duras páginas. de sóis cadentes. Esqueço.CARTA A OUTRO ESTRANGEIRO Aqui. de uma noite incendiada. no verão. derrota. outra.

Quantos feridos? . na gengiva.1º DE JANEIRO Areia nos lábios. Alguém diz que haverá dança na trincheira. Precipitou-se o esquema de fogos. Cansado mas tranquilo. aqui onde estou e não estou sozinho.

saliva ou água.TERRA. é a forma do silêncio nessas tardes aguadas em que a chuva cai reta . ÁGUA um punhado de terra molhada. sem que eu saiba se sangue.

TELEFONEMA nossas conversas já são boas chuvas nenhuma palavra dissolve a expectativa do dilúvio grumo de dúvida queimando a garganta silêncio de árvore só fala o vento .

onde dormem os peixes. § Isso que é tábua de solidão a que nos agarramos quando falta o chão e. para depois da memória. sonhamos com terra . náufragos. onde morrem duas vezes – isso desfaz-se sombra que a luz do farol atravessa.PAÍS Isso que chamamos “amigos” e às vezes perdemos porque o repuxo os carrega sempre mais para o fundo: para antes das ondas.

Esse país não presta.100/145 – isso é quase um país. Mas esse país não existe. 31 março – 1º abril 2004 .

CISMA Esqueça as palmeiras e a Rua das Palmeiras É outro o cenário .

UM ANO SÓ DE VERÕES: em coma. mais fortes. como enxerto. Mas não novos dentes. ou suspenso entre dois continentes. Unhas novas. brotam do corpo exausto. .

de outra paisagem .ROUPAS ferroados pela estrela precoce e pelo crescente desencaixotamos nossas roupas sujas de outra vida.

ITALIENISCHE REISE Roma está farta de poemas. Veneza também. .

VN ero calvo non mi piacevo e pensavo di non piacere adesso vivo una nuova vita sono ancora calvo (ma ora lo so soltanto io) .

CONVIVIO le pecore cieche l’incendio il campo nevato il tesoro trovato dal contadino .

.ANTES QUE EU POSSA DIZER mais uma vez a palavra pressauro outro Kennedy morrerá baleado e sob meus pés a Terra outra vez como sempre mover-se-á inconsciente no encalço do próprio rabo.

morte de cão” .TODO-OUVIDOS conhecia kafka a frase de nicolau primeiro sobre liérmontov? “a um cão.

. o ano é de merda.MERDA. e o século todo não fede (mal começa) a outra matéria. Sérgio.

DEPOIS DE UMA IDADE todas

as festas são festas de foda mesmo as que não.

DOIS

VAPOR E CIMENTO

Enquanto deslizo – serpente metálica – ao longo do arroio, a proa rasgando o asfalto, temente apenas a radares e outros roedores, meus olhos se despregam do fluxo apático e, de repente, descobrem, ao fundo, formações efêmeras de algodão e reboco, vapor e cimento – o assim chamado “horizonte” – morrendo em rosa e cinzento; poderia ser o fim do mundo, mas aqueles óculos mudaram a percepção de tudo, e ela pôde, ao meu lado, mesmo assustada, sorrir, embora sua fala, no rapto do instante,

cravado no pé esquerdo. mas. hóspede perpétuo da mais ímpia masmorra (onde o chão morde o teto) do palácio gasoso das lembranças. fantasio-me liberto. . áspero de cimento. ao lado de uma privada).113/145 cessasse abrupta. preso apenas a um que outro relâmpago: o prego. à espera de alguém – tigre ou anjo – que. poderia ser o fim do mundo. nos arrancasse do cerrado cipoal das ferragens. o lustre de inúteis tentáculos rebentando no ventre da sala. tua última palavra. o primeiro golpe da adaga (a vítima sobre a pia. munido de ferramentas apropriadas.

114/145 Porto Alegre. 31 dezembro 2002 .

Como amestrá-los ao espetáculo da arena extrema de retângulos flutuantes. .RETÂNGULOS Pequenos animais se formam de pele e pelo acumulados nas arestas do quarto. superpostos? se os amantes – invertebrados – confundem-se aos detritos. do pó dos corpos repentinos no atrito dos abraços.

assim teu corpo.NASCENÇA Assim como a forma (digamos. nasce de novo a cada aniversário. escória cumulada na órbita fraca do gozo originário –. 22 janeiro 2004 . portanto. do poema) é produto de desgaste – resto. exausto e raro (sangue do sangue do poema).

LENÇOL Dormes tão desconhecida tão perdida e tão mais achada mas só dentro de ti .

enquanto (agulhas na voz) desliza entre prateleiras : neve. carícia. higiênico sublime (o corpo remarcado) : (canyon de papelão e sacos) 2 pedra e onda .OUTRA SERPENTE 1 “eu gosto mesmo é de dançar”.

119/145 variável. contra as quais me bato. (dentro) náufrago .

LÍNGUA DE ANJOS des Schrecklichen Anfang solitário ofício de ser anjo trajando as asascachecol de arrasto insuflado ao coraçãocovil da carne atento ao sussurro insuportável dos terráqueos tangente ao incessante balbucio de súplicas. promessas surdo (somente) ao cio (crescente ao nível do .

da sirene. do esmeril) de outros anjos .121/145 grito.

ENQUANTO Só sou se sendo sou sido Não sei o que é ser mulher o que é ser pedra nem peixe em fundas águas Saberei o que é ser homem talvez um dia no dia de nossa morte Não sei o que é ser mulher ou vidro à prova de balas Nem o que ela quer .

JARDIM DE PEDRAS 1 o corpo extenso de vidro e vergonha oferto à janela somente binóculos cogitam sequestrá-lo (o aspecto amnésia de um jardim de pedras) como conciliar distância e desejo ? 2 o amor vegetal retalhando o baldio desistente memória do entulho calar o nome: queda .

124/145 d’água tornada fio gás ausente da luz 3 o corpo numeroso precariamente recomposto à beira do sono (o alarme dos cães) varado pela noite como estancar a dispersão? .

CÃO É outra a cidade. . outro o desejo cão que late a noite inteira no pátio.

NÃO É AMOR ainda enquanto um não cagar em cima do outro se não contrabandeou para a cama seus quatro costados se não pastou quadrúpede nos pentelhos se é o mesmo continente .

LETES

“Como apagar a memória de um cheiro específico?” aquele da nuca úmida e quente depois do sexo. Ela me disse que nunca. Eu não disse que não.

TERRITÓRIO
[...] il arrive qu’on se fatigue de son propre langage. Roland Barthes, em entrevista (1977)

TERRITÓRIO

Mesmo o pó dorme, a esta hora, desprezado pelo sol. Podes vagar tranquilo pelo território inimigo: tua casa. Nenhum perigo que as coisas te assaltem ou te abracem. Os braços das cadeiras, como de praxe, calados. Mal percebes (êxtase ou cansaço) a oclusa cerimônia de coisas a que não foste convidado e que, intruso, profanas.

ALTO-RELEVO Contemplo a gordura na fôrma (resquício do almoço de anteontem) sob o detergente (cordão de estrelas) compondo escamas. . manta de onça. à sombra da geladeira.

OUTRO CISNE. estigmas do voo rasurado. triste lago azulejado e seco. de louça. as asas inúteis. à janela do lavabo. . as rachaduras no branco. o oco à espera de vida (vegetal que seja). o longo pescoço interrogativo. DE LOUÇA O cisne.

NÚMERO I plena inquietude nenhuma serenidade chora no céu noturno estivo no exílio inviável da altura dúzia de gaivotas II voo constrito entre telhas e estrelas cápsula de sol ferindo o sono compulsório nenhum pouso ou repouso em vasto inimigo céu .

nada – nem as asas – que o impeça: menos sina quanto tarefa. desenho de treva. . Quer-se interna voragem.ABUTRE. como a do caruncho. de treva). tatuagem só rascunho: vulto que sobre a carne se projeta e nela emprenha quanto impregna (porém.

muriqui. as fibras sombrias da fala: companhia de aflitos.MURIQUI uma quase palavra. o mais-que-escuro coração. alegria de bichos – . desbasta a trevura. forma fantasma deslocando-se na mata.

inflamável. depois do fogo.ATRESSI CON L’ORIFANZ Ânimo de argamassa mal-sovada. E. andaime de ossos rotos mal e mal sustendo o bruto corpo inflável. quando. depois do dilúvio. a pele escorchada entupir bocasde-lobo: .

esqueça isso que eu era. .136/145 aperte o passo. evite a polícia.

L’ELEFANTE DI TORINO CHE POI MORÌ PAZZO [Daguerreótipo] Elefante. . quebradiço. sim. mas de vidro.

Mergulho – constante – de pedra em pedra. no cume dos ombros? Não te alcançou sorrateira. A tarefa é sem fruto. em trapos. . em golpe de luz e areia? Lápis de sol semeando pegadas.ÁGUA-VIVA Foste ao mar: não surpreendeste? Não te assaltou na carícia de queimar? Não te aviltou. transparente? Não te cobrou refúgio na cova das virilhas.

. sob a pedra. naquele baldio das primeiras punhetas. entre as macegas.TERRENO Ali. o pequeno esqueleto já sem o gato: a pequena morte campeava. desavisada.

FEDE-FEDE Não mata que fede .

O ANIMAL PEDRA o animal pedra – tímido que só – não respira repousa – dia sim – na treva .

◊ .

entrei aqui desavisado. sou filho de outro buraco.MAIS EMBAIXO de onde vim não vim. . saí pelo outro lado.

R.2011 © Eduardo Sterzi Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Coordenação editorial Isadora Travassos Produção editorial Cristina Parga Eduardo Süssekind Larissa Salomé Rodrigo Fontoura Sofia Soter Sofia Vaz Caso o seu dispositivo não permita o acesso direto aos audiopoemas deste livro. você pode acessá-los em http://www.br | www.html ISBN: 978-85-7577-823-4 Viveiros de Castro Editora Ltda. 54. adotado no Brasil em 2009.2009 .com. RJ.7letras. Goethe.com.br/aleijao. (21) 2540-0076 editora@7letras.com. CEP: 22281-020 Tel. Botafogo Rio de Janeiro.br .7letras.

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