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Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia

Cláudia Benedetti

UNIDADE 1 -

INDÚSTRIA CULTURAL E CULTURA DE MASSA ................6

1.1 O que é Indústria Cultural? ............................................................ 8 1.2 Atividades ....................................................................................... 19 1.3 Reflexão .......................................................................................... 19 1.4 Leitura Recomendada .................................................................. 20 1.5 Referências Bibliográficas............................................................ 20
UNIDADE 2 SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E CULTURA

MIDIÁTICA ......................................................................................................21

2.1 Atividades ....................................................................................... 24 2.2 Reflexão .......................................................................................... 24 2.3 Leitura Recomendada .................................................................. 25 2.4 Referências Bibliográficas............................................................ 25
UNIDADE 3 A MAIORIA SILENCIOSA: JEAN BAUDRILLARD ................26

3.1 A maioria silenciosa: existe social nas massas? ...................... 28 3.2 A informação e o sentido nas massas ....................................... 30 3.3 As massas e o enfraquecimento do político ............................. 31 3.4 Atividades ....................................................................................... 33 3.5 Reflexão .......................................................................................... 33 3.6 Leitura Recomendada .................................................................. 33 3.7 Referências Bibliográficas............................................................ 34
UNIDADE 4 A SOCIEDADE VIRTUAL ..........................................................35

4.1 A sociedade virtual ........................................................................ 36 4.2 Atividades ....................................................................................... 39

4.3 Reflexão .......................................................................................... 39 4.4 Leitura Recomendada .................................................................. 39 4.5 Referências Bibliográficas............................................................ 40
UNIDADE 5 A CIDADE: O NÃO-LUGAR ......................................................41

5.1 A cidade: o não-lugar .................................................................... 42 5.2 Atividades ....................................................................................... 43 5.3 Reflexão .......................................................................................... 43 5.4 Leitura Recomendada .................................................................. 44 5.5 Referências Bibliográficas............................................................ 44
UNIDADE 6 REDE ELETRÔNICA, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO.............45

6.1 EaD e rede eletrônica ................................................................... 46 6.2 EaD: A FUNDAMENTAÇÃO HISTÓRICA DE UMA NOVA RELAÇÃO DE APRENDIZAGEM ............................................... 47 6.2.1 O início do EaD no Reino Unido .............................................. 47 6.2.2 A criação da “Open University”: novas ferramentas, novas possibilidades de interlocução ......................................... 48 6.2.3 O EAD surge no Brasil ............................................................... 49 6.3 Atividades ....................................................................................... 51 6.4 Reflexão .......................................................................................... 51 6.5 Leitura Recomendada .................................................................. 51 6.6 Referências Bibliográficas............................................................ 52
UNIDADE 7 O EAD E OS USUÁRIOS DA INTERNET ...............................53

7.1 O EAD e os usuários da internet ................................................ 54 7.2 Os anos 2000 e a tecnologia por trás do EAD ......................... 55 7.3 Usuários on-line versos usuários Off-line .................................. 57 7.4 Atividades ....................................................................................... 60 7.5 Reflexão .......................................................................................... 60

............................2 Aluno e professor: sujeitos de um discurso nas malhas do digital ..........................................62 8...................................3 Atividades ........................... 68 8... 63 8........... 60 7... 68 8..........................................7 Referências Bibliográficas..... 64 8...... 68 8........................................6 Referências Bibliográficas........................................4 Reflexão ......5 Leitura Recomendada ....6 Leitura Recomendada ....7........................... 60 UNIDADE 8 OS SUJEITOS E AS MALHAS DO DIGITAL........................................................................................................................... 68 ...........................................................................................1 Os sujeitos e as malhas do digital ....................................................................

TV. pensar em sociedade contemporânea é pensar em tecnologia. jornais. e pensar em tecnologia é pensar em linguagem. Dessa forma. .Vivenciamos hoje um novo tipo de relação com o espaço-tempo. É justamente sob esta tríplice relação que nos assentamos neste Módulo. Tais tecnologias fundam-se principalmente na linguagem. rádio. internet exploram as diversas linguagens disponíveis para produzirem os efeitos de sentido que nos chegam cotidianamente. pautado principalmente pelo avanço das tecnologias de informação e comunicação.

abordaremos um tema muito atual e bastante sugestivo: os conceitos de Indústria Cultural e Cultura de massa. e neste contexto de compra e venda de bens simbólicos e compreendermos de que forma a linguagem se coloca como elemento fundamental. uma interpretação sobre a mídia como instrumento de configuração da . percebermos que no capitalismo. a partir de uma perspectiva marxista. Compreendendo com a linguagem midiática é capaz de promover uma cultura homogeneizante. Um conceito sociológico importante para analisar seu alcance é o de Indústria Cultural. também a cultura se tornou mercadoria. ambos atrelados à interpretação marxista da sociedade. Objetivos da sua aprendizagem Esta unidade permitirá a você compreender o conceito de Indústria Cultural e massificação. Com ele teremos.INDÚSTRIA CULTURAL E CULTURA DE MASSA Nesta unidade. Você se lembra? Os meios de comunicação têm um importante papel de cimentar a ideologia vigente. Será possível pontuarmos os propósitos consumistas da Indústria do Consumo e do entretenimento.

A "mídia" é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova. assim. A indústria cultural vende Cultura. vulgarizando as artes.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 vida social. Para vendê-la deve seduzir e agradar o consumidor. Massificar é. 7 . banalizar a expressão artística e cultural.

que durante a década de 20.. por isso. com as diferentes matrizes históricas presentes e a convivência constantemente articulada entre o moderno e arcaico.. moda e estilo de vida. Dentre estes autores. com capacidade de estimular o desejo. 8 . As influências dos estudos marxistas contemplaram também o âmbito da cultura. com o tema Cultura de massa é possível relacionar alguns aspectos importantes à sociabilização dos indivíduos por meio das linguagens contemporâneas. Dentre elas destacamos a importância da Escola de Frankfurt e seus pesquisadores. é importante contextualizar este conceito no Brasil. na Alemanha. sua massificação e padronização destinando-se apenas ao entretenimento da chamada “camada média” da população. Ainda no que se refere á Indústria Cultural. discutiu: “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” e apontou novos caminhos e alternativas para as artes pós-auráticas (fotografia e o cinema). muitos se destacaram. A indústria da atual TV brasileira é indiscutivelmente poderosa.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 1. embora à margem do grupo de formação inicial. Tudo é meticulosamente preparado para criar uma atmosfera de sonho na qual se insere o telespectador. decidiram discutir as implicações e modificações da cultura mediante o desenvolvimento do capitalismo. associando-os aos artistas famosos. Adorno e Horkheimer. O objetivo principal destes teóricos foi criticar a transformação da cultura em mercadoria.1 O que é Indústria Cultural? O tema da comunicação tem importantes implicações. por exemplo. com o intuito de vender seus produtos. definiram o conceito de Indústria Cultural. (1922) Walter Benjamim. ditar comportamentos.

superficial e efêmera. alguns teóricos latino-americanos. Barbero. ilusões e entretenimento vazio. sonhos. Benjamin defendia o potencial emancipatório e até mesmo revolucionário que as artes pós-auráticas (cinema/fotografia) poderiam promover caso fossem bem utilizadas na criação de uma perspectiva mais crítica e reflexiva nas pessoas. esvaído de crítica ou de reflexão. particularmente a televisão. discutem e questionam em seus estudos sobre a recepção (Canclini. difundindo padrões (estereótipos). levantando a hipótese de uma resignificação do conteúdo veiculado pelos meios de comunicação de massa por parte dos sujeitos/receptores. difundida através de veículos massivos que atingem a imensa maioria da população sem a preocupação com critérios de qualidade do conteúdo.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 alvo da Sociedade de Consumo. mas apenas com o número da audiência/ consumidores. são relativamente os novos agentes de socialização. Estes produtos vendidos em larga escala teriam como principal característica a padronização e o enredo facilitado. Os meios de comunicação de massa. também a arte e a cultura seriam passíveis de comercialização pelos grandes conglomerados que venderiam junto com “produtos” culturais. atitudes e incentivando novos hábitos (especialmente os de consumo). Como contraponto a esta perspectiva pessimista adotada pelos Frankfurtianos. Assim como qualquer outro produto vendável. Temos então a Cultura de Massa. Sarlo) esta mera transposição da cultura como mercadoria. atendendo a exigências dos modismos e tendências ditados pela Sociedade Capitalista de Consumo. 9 . Nas últimas décadas. influenciando comportamentos. inclusive sendo possível uma reinterpretação que contemple a reflexão sobre sua própria condição social. projeções.

" (Adorno) “Ela introduz a divisão social entre a elite culta e a massa inculta. independentes. em última instância.” (Adorno) 10 .” "A industria cultural. fazendo com que em sua própria forma e conteúdo conformem as mentes para a importância do ato de “Consumir” para pertencer ao grupo social e ao mesmo tempo diferenciar-se dos demais grupos existentes. Inserir-se na massa é socializar a si mesmo." (Adorno) "Embora a indústria cultural faça das massas seu objeto. A alienação e a ideologia do consumo orientam a produção e a divulgação destes produtos. o povo degenerado. justifica-se através da propagação da idéia da existência de uma massa que seria uniforme e homogênea. trocando-a pelo amorfo e medíocre “eu coletivo” da multidão. atribuindo-lhes um valor simbólico (Fetichização) que suplanta em muito o seu valor de uso/utilidade ou função. existe o importante papel exercido pelo discurso publicitário que associa produtos a valores socialmente aceitos às determinadas marcas e produtos. Para reforçar este processo.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 Mas. A massa é portanto. o que constitui. pensar. agir. obrigatoriamente. para poder insuflar sua ideologia de que o consumidor é rei. a sua ideologia. desta forma. estar sempre. Vejamos algumas considerações importantes sobre a Indústria Cultural: “Ser. capazes de julgar e de decidir conscientemente. “como os outros” é amoldar-se inexoravelmente a esse implacável Deus “chamado “todo mundo””. uma crítica contundente ainda válida dos estudos Frankfurtianos reside no aspecto central da manipulação ideológica presente nos produtos da Indústria Cultural. a essa precisa se adaptar porque se trata. de uma questão de mercado. É renunciar à própria individualidade.” (Orlando Fedeli) “A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos.

é preciso compreender o conceito de Indústria Cultural. Esses dois ditadores 11 . GOEBELS apostou no rádio e no cinema. emigraram para os EUA e aí permaneceram vivendo em um período muito importante deste país. Quando Hitler assumiu o poder em 1933. que em sua grande maioria não apoiaram o movimento. O nazismo era plenamente consciente da eficácia do rádio. um sistema controlado pelo Estado. empresa de filmes do Estado italiano. pois este foi criado na Europa como sistema público. A partir de 1930/31. a estratégia já desenvolvida por MUSSOLINI na Itália. Ora. através de uma competente política de comunicação desenvolvida por Goebels. de certa forma. Ao assumir o poder em 1922 na Itália. que fugindo do nazismo em 1933. Theodor W. contando com a adversidade dos jornais alemães. apesar do surgimento recente do rádio. o Partido Nacional Nazista começou a influir na nomeação de diretores de rádio. O nazismo. Adorno e Max Hockeimer. ele já havia delineado claramente sua política para este veículo. como vai ser o modelo americano. ou seja. ADORNO e HORKHEIMER conheceram a propaganda nazista.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 Antes de se olhar de maneira crítica para essas afirmações acima. ministro da Propaganda do governo nazista. Ele criou a Cineccittà. Theodor e Max eram dois professores judeus do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt. Assim. repetindo. Eles viram o que o nazismo fez com o rádio. já que o partido não tinha condições de controlar os jornais. Esse conceito foi utilizado pela primeira vez por dois filósofos alemães. Mussolini também usou esses dois veículos. das indústrias e do comércio. na obra “Dialética do Iluminismo”. aperfeiçoando o uso do rádio e do cinema. havia apostado nas novas formas de comunicação. em 1947. Vai ser nítida a diferença entre uma Indústria Cultural que surge a partir do Estado e aquela que advém das empresas.

é. claramente explicitado em uma frase de ADORNO e HORKHEIMER que impressiona muito: "O rádio é a voz do Führer". de desespero e de falta de esperança. Em nenhum momento na análise desses autores sobre a cultura do século XX. depois do surgimento dos meios de comunicação de massa. 12 . de um lado. mas para a libertação. Tal decadência foi estabelecida em função de um paraíso imaginário da cultura do século XIX. a origem desse conceito. Então. É importante aprender com esses exemplos. onde as crianças absolutamente tinham jornadas hoje. se formos ler também o que esses dois autores escrevem sobre a sociedade americana. Assim. e. encontra-se o reconhecimento de que o paraíso da cultura.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 desenvolveram políticas de comunicação que podem ser consideradas as mais competentes que já existiram. pois eles podem ensinar a mobilizar uma sociedade não para o autoritarismo. trazia uma série de elementos completamente desconhecidos na Alemanha do mesmo período. de certa forma. de outro. esse eldorado do século XIX. impensáveis Esse é um período em que a arte. que se traduzia no horror pela cultura de uma sociedade que. a criatividade e a emancipação. perceberemos o clima de real desencanto. Trata-se de uma sociedade que eles aprenderam a conhecer a partir de 1933 e que nunca deixou de representar o desprezo que intelectuais europeus exilados tinham pelos Estados Unidos. o nazismo. Indústria Cultural. a literatura e a pintura não estavam sendo assediadas pela cultura decadente que os meios de comunicação de massa então veiculavam. a sociedade de massa americana e sua cultura. foi também contemporâneo de um dos mais violentos períodos da história. O livro: “Dialética do lluminismo” anunciava a decadência cultural do Ocidente. Nas fábricas havia um trabalho quase-escravo. Perceberam o grande potencial de mobilização das massas através do cinema e do rádio.

examinando como o público via o casamento da Princesa Beatriz da Holanda com o Sr. que se chamou "Tempo Livre". Infelizmente. Tratava-se de uma coisa banal que não despertara nenhum interesse. No Brasil. A partir de suas idéias. tem um baixo custo. três meses antes de morrer. fez uma conferência numa rádio alemã. infelizmente. que produz não uma mercadoria qualquer. mas sim uma mercadoria que possui um valor simbólico muito grande. Klaus. apesar da grande cobertura da televisão alemã. embora ela se organize da mesma forma que uma fábrica de automóveis. a sociedade americana vista pelos filósofos judeus emigrados como o sintoma da decadência cultural do Ocidente.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 É preciso. quando ele e HORKHEIMER criaram este conceito de Indústria Cultural. porque Adorno. De um lado. ADORNO encerrou a conferência. portanto. é padronizada. Por quê? Sua produção é em grande escala – basta ver as tiragens dos jornais e as audiências da televisão e do rádio. Por que essa afirmação? Porque ele havia feito uma pesquisa sobre a televisão alemã. continua-se a definir essa indústria da mesma forma que em 1947. dizendo que. A conclusão a que ele chegara foi de que os alemães não deram a menor atenção ao casamento. Este conceito não servia mais para designar a nova realidade. o nazismo. Foi a partir dessas três características que os autores tentaram mostrar como essa indústria realizava uma verdadeira manipulação das consciências. tentou-se definir uma indústria muito especial. de outro. um diplomata alemão. em 1968. afirmando: "A televisão ainda não se apropriou 13 . cometeram alguns equívocos. porque se beneficia da economia de escala. pois é a eterna repetição do mesmo. interpretar o conceito de Indústria Cultural a partir do seu contexto histórico.

Incorporam-se conceitos de forma acrítica. Para Herbert MARCUSE. a sociedade americana não pode ser identificada como uma sociedade totalitária. psicanalistas e historiadores – à Escola de Frankfurt. a sociedade de massa é também uma sociedade totalitária. Os pontos de partida das teorias desenvolvidas pelos dois autores mencionados são o Marxismo e a Psicanálise. Ao se adotarem esses conceitos sem nenhuma análise crítica. a sociedade de massa contemporânea é uma nova forma de totalitarismo. tanto a do nazismo como a da sociedade americana do pós-Guerra. porque este totalitarismo não é percebido como tal. corre-se sempre o risco de ser chamado de "frankfurtiano". corre-se o risco de uma dependência teórica. Para esses autores. Mas é comum designá-los como pertencentes – ao lado de outros filósofos. só que muito mais perigosa. também filósofo alemão ligado a esse grupo e que morreu nos Estados Unidos na década de 70. que na verdade nunca existiu. As duas experiências mencionadas anteriormente. existe um espaço que nós podemos trabalhar". 14 . como a suprema forma de totalitarismo e de perversão da cultura. Enquanto o nazismo e o fascismo são identificados como formas totalitárias de governo. essa denominação é agradável. existe ainda um espaço de liberdade. Assim. sociólogos. cada vez que se fizer uma denúncia em relação à Indústria Cultural. ou melhor. mas sim o Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 da consciência dos alemães. Havia uma certa coerência teórica entre aqueles que denunciavam a sociedade de massa. porque os dominados não percebem até onde vai essa dominação. porque não existe a consciência da denominação. que ainda é muito forte no Brasil. não têm nada a ver com a sociedade brasileira.

mas tem já suas manifestações no século XIX claramente delineadas.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 o que conduz a análises completamente equivocadas. Um exemplo disso. podemos dizer que a Indústria Cultural traz consigo todos os elementos característicos do mundo industrial moderno e nele exerce um papel especifico. o de portadora da ideologia dominante. fará segundo o seu coração-máquina. nessa Indústria Cultural. o homem ganha um coração-máquina. na Indústria Cultural. O consumidor não precisa se dar ao trabalho de pensar. O que antes era um mecanismo de lazer. Portanto. Esquemas prontos que podem ser empregados indiscriminadamente só tendo como única condição a 15 . que tem como guia a racionalidade técnica esclarecida. A Indústria Cultural. agora se tornou um meio eficaz de manipulação. dirá ele. nós temos de analisar essas teorias a partir de uma perspectiva crítica e pensando na história cultural da América Latina e do Brasil. isto é. para Adorno. Portanto. Tudo que ele fará. o homem. seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática e programada exploração de bens considerados culturais. É a lógica do clichê. uma arte. não passa de mero instrumento de trabalho e de consumo. Segundo Adorno. É importante salientar que. objeto. segundo a ideologia dominante. é só escolher. Com relação à comunicação de massa. pode-se dizer que ela não é uma característica do século XX. é o cinema. qual seja. O homem é tão bem manipulado e ideologizado que até mesmo o seu lazer se torna uma extensão do trabalho. ou seja. a qual outorga sentido a todo o sistema. prepara as mentes para um esquematismo que é oferecido pela indústria da cultura – que aparece para os seus usuários como um “conselho de quem entende”. Enquanto negócios. Portanto. tudo se torna negócio. ou seja.

a respeito de Ulisses. a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 aplicação ao fim a que se destinam. Ela é a própria ideologia. principalmente. 1997. ordena que o amarrem ao mastro para que.) paralisam essas capacidade em virtude de sua própria constituição objetiva (ADORNO & HORKHEIMER. o comandante Ulisses. livres do controle de seus dados exatos.. Nada escapa a voracidade da Indústria Cultural. o filme não deixa mais à fantasia e ao pensamento dos espectadores nenhuma dimensão na qual estes possam. portanto. dizem os autores: 16 . Atualmente. Toda vida torna-se replicante. Dizem os autores: Ultrapassando de longe o teatro de ilusões. Na Dialética do Esclarecimento. daqueles que são formadores de opinião. Ulisses preocupado com o encantamento produzido pelo canto das sereias tampa com cera os ouvidos da tripulação de sua nau. a grande intenção da Indústria Cultural: obscurecer a percepção de todas as pessoas. Adorno e Horkheimer exemplificam este fato através do episódio das Sereias da epopéia homérica. possa enfrentá-lo sem sucumbir à tentação das sereias. Ao mesmo tempo. Assim. Os próprios produtos (. Fica claro. e é assim precisamente que o filme adestra o espectador entregue a ele para se identificar imediatamente com a realidade. Até mesmo a felicidade do individuo é influenciada e condicionada por essa cultura.119). p. Os valores passam a ser regidos por ela. passear e divagar no quadro da obra fílmica permanecendo. no entanto. sem perder o fio. mesmo ouvindo o cântico sedutor..

Nesse sentido. não da sua beleza. p. 17 Para compreender um pouco mais as idéias de Theodor Adorno e da Escola de Frankfurt. como diz Max Jimeenez. É importante frisar que a grande força da Indústria Cultural se verifica em proporcionar ao homem necessidades. as necessidades do sistema vigente (consumir incessantemente). Os bens culturais estão em exata correlação com o trabalho comandado e os dois se fundamentam na inelutável coação à dominação social sobre a natureza (ADORNO & HORKHEIMER. comentador de Adorno. não aquelas necessidades básicas para se viver dignamente (casa. como fará o público de um concerto. consumir e o campo de consumo se torna cada vez maior. e assim por diante) e. Assim o prazer artístico e o trabalho manual se separam na despedida do antemundo. educação. e deixam-no atado ao mastro para salvar a ele e a si próprios. querendo. lazer.com. O acorrentado assiste a um concerto escutando imóvel. Com isso. porém tarde demais: os companheiros. Mas. 45). Eles reproduzem a vida do opressor ao mesmo tempo que a sua própria vida e ele não pode mais fugir a seu papel social. e seu grito apaixonado pela liberação perde-se num aplauso.br . acesse: http://educaterra. 1997. sim. tem sua mola motora no desejo de posse constantemente renovado pelo progresso técnico e científico. em arte. Tal dominação. que não podem escutar. e sabiamente controlado pela Indústria Cultural. o consumidor viverá sempre insatisfeito.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 O escutado não tem conseqüências para ele que pode apenas acenar com a cabeça para que o soltem. A epopéia já contém a teoria correta. comida. sabem apenas do perigo do canto. Os vínculos pelos quais ele é irrevogavelmente acorrentado à práxis ao mesmo tempo guardam as sereias à distância da práxis: sua tentação é neutralizada em puro objeto de contemplação. constantemente.terra.

18 . Além disso. a antítese mais viável da sociedade selvagem é a arte. portanto. podemos dizer que Adorno foi um filósofo que conseguiu interpretar o mundo em que viveu. pois. além de configurar-se como um universo de “coisas” constituiria um espaço hermeticamente fechado. encontrando dentro dela o próprio antídoto: a arte e a limitação da própria Indústria Cultural. Ele pôde vivenciar e apreender as amarras da ideologia vigente. Segundo ele. a visão “pessimista” da realidade é passada pela ideologia dominando. Para ele. todas as tentativas de se livrar desse engodo estão condenadas ao fracasso. encontra-se na própria cultura do homem: a limitação do sistema e a estética. para Adorno. assim. é que liberta o homem das amarras dos sistemas e o coloca com um ser autônomo. para ele. Exemplo disso ocorreu no nazismo e em outras guerras. existe uma saída. e esta. e não por Adorno. E. É preciso que esses remédios cheguem a consciência de todos (a filosofia tem essa finalidade). é que conseguiremos um mundo humano e sadio. um ser humano. na arte é um ser livre para pensar. obra que Adorno tentará explanar seus pensamentos sobre a salvação do homem. sentir e agir. portanto. sem cair num pessimismo. A arte é como se fosse algo perfeito diante da realidade imperfeita. Mas. Na Teoria Estética. A arte. dirá ele que não adianta combater o mal com o próprio mal. e. só assim.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 o universo social. os remédios contra as imperfeições humanas estão inseridos na própria história da humanidade. Enquanto para a Indústria Cultural o homem é mero objeto de trabalho e consumo. Por fim. Portanto. pode desaparecer. a Indústria Cultural não pode ser pensada de maneira absoluta: ela possui uma origem histórica e.

pode-se constatar a presença de uma cultura de massa. porém. contraditoriamente. Isto acaba impondo ou reforçando uma mentalidade materialista. Elabore uma resenha do texto sobre Adorno indicado no Box CONEXÃO. A cultura de massa não é imposta. 19 .3 Reflexão Nos Países das Américas. apresentadas em crescente velocidade. Exemplo: As pessoas gostam de assistir novelas.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 1. os mesmos modelos e até os mesmos vícios de comportamento e de consumo. Na realidade. o próprio acúmulo de informações e de imagens. às aspirações. Muitas vezes. Caracteriza-se por ser produzida segundo as normas de fabricação industrial. molda-se a esses desejos. muito dinâmica. a "cultura de massa" se apresenta como extremamente permissiva e oferece (em teoria) a liberdade de escolha. pois vêem nos personagens algo que gostariam de ser em sua vida. em que tudo é subordinado ao lucro. 1. de concretização daquilo que é suprimido na “vida real”. que serve para esquecermos do mundo. impede o desenvolvimento de qualquer atitude reflexiva e crítica. reduzindo a cultura de massa a "entretenimento". tornando-se local de auto-realização. procura impor a todos. propagada por técnicas destinadas a uma massa social. nem reflete as necessidades e desejos culturais do público.2 Atividades 1. alimentada e difundida pelos grandes meios de comunicação social. produzindo sempre novas e passageiras modas de consumo. Assim.

Coleção Grande Cientistas Sociais. Há um nivelamento das diferenças sociais. Conflito ou cooperação. O que é indústria cultural. THALMANN. D.5 Referências Bibliográficas BENJAMIN. 1988. SP: Cortez. Vol I. Cultura de massas no século XX. RJ: Jorge Zahar. Col. 20 . M. 1. CHAUÍ.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 1 Tem-se.1999. R. SP: Ática. 1988. E. 1. COELHO. E. PENTEADO. 1988. RJ: Forense Universitária. Edgard Morin elabora uma consistente reflexão sobre a Indústria Cultural e a massificação da cultura no século XX. W. O que é Ideologia? Col. e Vol II.4 Leitura Recomendada MORIN. T. SP: Brasiliense. A República de Weimar. RJ: Forense Universitária. 1980. Cultura de massas no século XX. 1975. veiculados pelos meios de comunicação de massa. portanto. cujo consumo homogeneizado cria uma identidade de valores (de consumo). 1975. e Vol II. Primeiros Passos. Vol I. a criação de um novo público. Neste Livro. MORIN. Televisão e escola. Primeiros Passos. como parte da padronização dos gostos. SP: Brasiliense. H.

271).SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E CULTURA MIDIÁTICA Vimos na Unidade anterior que a Indústria Cultural mercantilizou a cultura e a informação. por utilizarmos a razão. no entanto. p. Por isso veremos a visão de um grande estudioso dos processos de comunicação da cultura contemporânea: Edgard Morin. produzem e re-produzem comportamentos. da pretensão de. Você se lembra? “Há que dizer que até agora o sociólogo-decifrador. . que esta linguagem é produzida socialmente e que produz saberes que circulam como verdades. Objetivos da sua aprendizagem Ao final desta unidade você será capaz de entender como ocorrem os processos de comunicação e informação na sociedade contemporânea pelo prisma da cultura de massa. Sendo um bens simbólicos. É desta armadilha que temos de escapar. Sabemos. a informação e a cultura passam essencialmente pela linguagem e seus mais variados suportes. tudo o que pensamos pode ser tido como verdadeiro e certo. introduzia de facto a sua mensagem para extrair triunfalmente o seu código” (MORIN. julgando introduzir o seu código na obra para extrair a sua mensagem.

306). Seu trabalho com o imaginário é tentador. Para que isso possa ser absorvido é preciso superar a divisão que a ciência fez do homem. precisamos ter claro que também a filosofia. compreendendo melhor. etc. interpenetrar-se. como utilizamos o saber e se esse saber é realmente o que pretende ser. Morin traz à tona estas partes “esquecidas” do homem social: seu inconsciente e sua estrutura fisiológica. isto é. é um pensador considerado pós-moderno. história. a unidade na multiplicidade. as ciências do homem: filosofia. cortando-o em fatias e distribuindo-as em especialidades que passaram a julgar-se donas dessas fatias e do saber sobre essas partes. tornaram invisível o homem biológico fazendo-se institucionais e sistêmicas. não tanto numa colaboração como numa unidade” (MORIN. fragmentada. a sociologia. elementos sem os quais é impossível compreendermos a complexidade do processo de socialização na sociedade contemporânea. sociologia. como Morin. dissociada do próprio mundo. antropologia. p. e a pergunta que ele faz à ciência é fundamental. a antropologia. sua condição e sua existência. economia etc. Edgar Morin é indispensável para que entendamos o que são. que a primeira exigência das ciências humanas “consiste não só em congregar as diferentes ciências já constituídas mas também em fazê-las BOX EXPLICATIVO: Morin ainda vive e produz conhecimento. Temos que ter em mente. porém difícil de ser respondida: como não liquidar o Homem? Morin contribui principalmente porque nos ajuda a pensar e como pensar.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 2 Edgard Morin e a compreensão da Morin questiona a própria ciência e sua forma de pensar. Diz que é preciso pensar também na comunicação entre os saberes. 22 . e que levantou questões essenciais sobre o homem. na verdade. o que fazemos do conhecimento. Em fim.

E o cinema? Essa grande indústria de sonhos? Será que as observações e conclusões de Morin sobre ele têm alguma propriedade para nós? Sim. nos nossos amores. nas nossas fidelidades. nos nossos ritos inconscientes. na nossa cólera. e é esse cotidiano que permite detectar os sonhos e os mitos: o imaginário – essa fonte onde bebem a literatura. do nosso arcaísmo vivido (MORIN.) continua ainda desconhecida enquanto traduz a presença inesperada da magia nos nossos gestos. p. o drama. se revela no cotidiano das coisas. o homem.. ao consolidar-se em decisões anteriormente elaboradas. constituindo uma 23 . tem algo a acrescentar para pensarmos o processo de socialização? Os modelos realizados pela cultura de massa são importantes para pensarmos a socialização porque. nos nossos sonhos.até mesmo a jurisprudência. já pensamos na família e em outras instituições sócias. Mas.. nos nossos atos. recorrendo a eles encontraremos os modelos que vemos cotidianamente e que são colocados como únicos e verdadeiros..308). a filosofia. a psicanálise.. e a cultura de massa? A mídia? Tão presente em nossas vidas? A conclusão moriniana de que ela cria modelos de evasão e de realização da civilização burguesa e de que ela proporciona – principalmente através dos mass media – uma difusão massiva à uma massa humana.. nos bibelôs que nos rodeiam. A vida cotidiana é o domínio da nossa própria “primitividade”.. suas participações. se pensarmos que nos serve como quadro de referência à vida cotidiana – “esse desconhecido das coisas demasiado conhecidas” – que (.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 2 Por falar em mundo atual. este ser bio-cultural-social. pelos seus sonhos. Produzido por seus utensílios. o cinema.

p. Dessa forma. ao mesmo tempo que irá sempre extrair uma consciência nova” (MORIN. na medida do possível. no qual encontrará sempre o sonho e a magia do duplo. Ainda que não estejamos fazendo um estudo do consumo do imaginário (“mercadoria impalpável”). estabelecer conexões entre o processo de socialização e o cotidiano pautado pela indústria cultural.1 Atividades Explique qual a visão de Edgard Morin sobre o Cinema. mesmo assim. 2. principalmente no que diz respeito àquilo que ambos oferecem ao homem: “um reflexo de si próprio e do mundo. percebê-lo e à sua manifestação nos oferece sua dimensão e sua universalidade. Morin nos auxiliou a compreender que a mídia é responsável pela consolidação de um processo socialização pautado no investimento em comunicação. Mais importante é que esse imaginário é percebido como real ou mais real que o real e. como imaginário.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 2 espécie de “imaginário jurídico”. podemos concluir que a cultura de massa nos oferece e reproduz os modelos de socialização. possibilita-nos. 24 .315). 2.2 Reflexão Esta unidade nos fez pensar sobre o processo de massificação a partir da cultura de massa.

Cultura e Comunicação. 1984 Galeano. E. 1989 ________. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil. e Silva. ________. G. “A indústria cultural”. 2003. Cortez: São Paulo. Castro. Marialice Mencarini Foracchi e José de Souza Martins.3 Leitura Recomendada MORIN. In: Sociologia e Sociedade. Editorial Notícias: Lisboa.4 Referências Bibliográficas BOURDIEU. 2006. Complexidade à flor da pele: ensaios sobre Ciência. As grandes questões do nosso tempo. 2. J (orgs).Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 2 2. 1997. Org. Publicações Europa-América: . 25 . O poder simbólico. A. Rio de janeiro: LTC. Sociologia.

as Massas. na qualidade de fenômeno altamente positivo. Suas obras giram em torno de questões como a Verdade. foi um dos maiores pensadores da contemporaneidade. talvez mesmo irredutível a qualquer prática e a . uma profunda reflexão sobre as formas de comunicação. Veremos neste capítulo um dos conceitos fundamentais para compreendermos os processos comunicativos hoje: o conceito de Massas. que Baudrillard chama de Maioria Silenciosa. irredutível a qualquer prática e teoria tradicionais. Objetivos da sua aprendizagem Ao final desta unidade você será capaz de entender como ocorrem os processos de comunicação e informação na sociedade contemporânea pelo prisma da cultura de massa. falecido em 2007.A MAIORIA SILENCIOSA: JEAN BAUDRILLARD Jean Baudrillard. em fim. o Homem e a Sociedade. Você se lembra? Baudrillard inicia seu livro À sombra das maiorias silenciosas: o fim social e o surgimento das massas dizendo: “a massa é característica da nossa modernidade. a Realidade Virtual. os Mecanismos de Manipulação e Convencimento na Sociedade da Informação e do Consumo.

assim.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 qualquer teoria simplesmente”. a grande questão deste autor é: existe social nas massas? ou melhor. é possível identificar algum indício de social quando falamos de massa? 27 .

não há retorno na massa. ao mesmo tempo. dissipar os significantes e diluir qualquer significado. cultural.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 3. Por ser um complexo emaranhado lingüístico. só é possível pensar em massa em uma sociedade informacional como a nossa. Compreendemos massas por um amontoado social que absorve o social e o político. Buraco negro em que o social se precipita.1 A maioria silenciosa: existe social nas massas? Para responder a questão apresentada. Para Baudrillard a massa é um conceito da modernidade. Exemplo disso são as várias formas de apropriação da informação. religioso etc. para finalmente desabar sob seu próprio peso. em que os suportes midiáticos atingem. de resíduos do social e de impulsos indiretos: opaca nebulosa cuja densidade crescente absorve todas as energias e os feixes luminosos circundantes. não há passado e nem futuro nas massas. não há como esperar qualquer tipo de resposta vinda das massas. Tal é a massa. social. pessoas em escala mundial. então. as massas “desconfiguram” os significados. neutralizando-os. 28 . 1994) As massas são um “fenômeno implosivo” que têm como base os sistemas de significações para. o social está diluído em um imenso grupo heterogêneo e indistinto. um enunciado ganha sentidos e significações diferentes daqueles imaginados pelos emissores da mensagem (se formos falar nos termos da Teoria da Comunicação). começamos por delimitar o que o autor entende por massas.( BAUDRILLARD. seria impossível captar as massas teoricamente: as massas não têm história. um conjunto no vácuo de partículas individuais.

assim como a verdade. são trabalhadores. sem predicado. a um contexto social e histórico.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 Baudrillard chama as massas de vácuo social. que não chegam a integrá-los e que finalmente só os apresentam como resíduos estatísticos”. um “avesso sociológico” pois a idéia de que não há social nas massas faz sucumbir o próprio pensamento sociológico. há uma cena em que o livro de Baudrillard aparece com a personagem Neo. “anulados” (presos nas infinitas “redes”) e destinados a serem apenas o inumerável terminal dos mesmos modelos. pertencem a um campo semântico significativo. (1994) Segundo o Baudrillard as massas são um emaranhado liberado de obrigações simbólicas. a uma condição produtiva: são trabalhadores! Matrix – trilogia declaradamente inspirada nas idéias de Baudrillard sobre o que é real e o que é virtual. por exemplo. para isso? Identificar as massas seria atribuir significado e então deixariam de ser massas e passariam à 29 . sem preferência” (1994). “massa de trabalhadores” partimos de um princípio de identidade que transforma a “massa” em um grupo social. grande contradição contemporânea que coloca em xeque se o próprio conceito é possível. um conjunto de indivíduos que não estabelecem relações sociais entre si. portanto. pois possui identidade. ou enunciado identitário. “A massa é sem atributo. não há sentido em falar em massas como processo de identificação. No primeiro filme. um resíduo do social e. sem qualidade. já que as massas são uma noção fluida e imprecisa. “massa de trabalhadores” não é massa. Como falar em preferência de uma enorme quantidade de pessoas? Como qualificar bilhões de pessoas ao mesmo tempo sem diferenciá-las. Só se comportam como massa aqueles que estão liberados de suas obrigações simbólicas. Quando falamos.

não há social nas 30 . Dessa forma Baudrillard conclui que as massas distorcem os sentidos. Por isso a massa “não tem realidade sociológica”. do social. nem se refletem no social – é o espelho do social que nelas se despedaça” (1994). “as massas resistem escandalosamente a esse imperativo da comunicação racional. o religioso. nos termos de Baudrillard. já que a comunicação não se resume ao caminho Emissor – mensagem – Receptor. O que as massas buscam são os signos os estereótipos. processo informativo. elas não refletem o social. é um composto de práticas dispersas. do saber. repugnam qualquer contradição. Baudrillard conclui: as massas reduzem todos os discursos em nome do espetacular e têm como estratégia o aniquilamento da cultura. 3. que são o princípio do processo comunicativo. o cultural. não é possível qualificá-la.2 A informação e o sentido nas massas A informação que chega até as massas. Podemos perceber nas massas apenas vestígios do social. o pedagógico. tem como propósito filtrar o sentido. do poder e. por fim. são uma espécie de buraco negro que absorvem o social e “implodem” os significados. também não há possibilidade de circulação do sentido. afastam-se da complexidade dos significados.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 condição de grupo social. Ou seja. “As massas são o “espelho do social”? Não. ou seja. O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo” (1994). em velocidade quase imediata se vislumbrarmos o meio técnico-científico no qual circula. sendo assim. elas não têm nada a dizer e ao mesmo tempo contêm todos os discursos. neutralizar o político. ou. elas rejeitam a chamada “dialética” do sentido. As massas conservam imagens e não idéias.

além da sua pequena dose inofensiva de imaginário cotidiano. a pesquisa de opinião transforma-se na atitude política. resultado de um processo de sondagem. as sondagens são na verdade um referendo de opiniões formadas por aqueles que detêm os meios de produção midiáticos. ou silenciada. É. tornam-se. como bem traduziu Baudrillard. sim. é estatístico. isso porque não há ninguém que possa falar em seu nome. portanto. povo. permite a circulação de modelos que são recebidos por uma “maioria silenciosa”.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 massas. de pesquisa de opinião que é colocada como representante da massa.3 As massas e o enfraquecimento do político Quando falamos em político pensamos em seus referenciais clássicos como governo. porém. as massas não possuem um significado social para o significante político. ou representá-la politicamente já que massa é diferente de povo. uma simulação do referente político. um menosprezo pelo sentido. isso porque não há referencial social real. a sondagem no social! A massa é então um simulacro do social. ela não liga para nada: “O que ela reivindica aos seus patrões é ser paternalizada e tranqüilizada no que é preciso. Estado. nem de classe e muito menos de proletariado. não podemos chamar as massas de povo. há nas massas um enfraquecimento do político. As massas “não são mais sujeito” (1994): não há identificação. 31 . uma simulação do social. é. O referente “massa” não é social.” (1994). classe etc. Há. uma maioria que não se expressa e nem representa. não há como fazê-lo. As massas não se expressam. 3. tomamos por social aquilo que não o é. então. de classe. um “silêncio que proíbe que se fale em seu nome” (1994). e esta estratégia põe fim a qualquer dialética. Assim.

as massas são o fim do processo político: o “político se deteriora como vontade e representação” (1994). não é espelho. retirar-lhe algum oráculo.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 pois qualquer uma destruiria a massa enquanto representação. isso porque não há negação de sua condição. da adivinhação pura e simples – de onde o reino universal da informação e da estatística: é preciso auscultá-la. pois não há expressão. não há esperança revolucionária nas massas. não há representação. sua especificidade se perde. que. eleitoralmente. senti-la. Há a esperança de fazer falar as massas. A MASSA.. o político não existe.(1994) Baudrillard conclui. que a massa não é sujeito não é alienada. sua qualidade histórica e sua idealidade desaparecem em benefício de uma configuração em que não só o político se volatilizou. distorcida nas massas.O poder depara-se com um grande problema: o silêncio das massas. AS MASSAS. pois a imagem do social está diluída. de que elas existam socialmente. ela cai sob o golpe do diagnóstico. portanto. mas em que o próprio social não tem mais nome. exaspera-se em tentar fazer falar massas emudecidas pelos meios de comunicação. Como não é mais do reino da vontade nem do da representação.(1994) 32 .. A energia do social se inverte. Anônimo. então. sexualmente. O poder articula uma massa passiva que volta-se contra o próprio poder.

sem qualidade. 1994. produz mais massa! Neutraliza mais ainda o “campo social”. sem predicado. Jean. 33 .Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 3. é preciso produzir a demanda.5 Reflexão Temos assim uma massa bombardeada pela informação. À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. 3.6 Leitura Recomendada Baudrillard. invertendo uma relação econômica “óbvia” ao sistema. “é preciso liberar a “energia da massa para dela se fazer o “social”” (1994). Brasiliense:São Paulo. hoje. ao invés de propiciar uma expansão política e social. 3. é necessário produzir consumidores. Este efeito devastador é percebido no processo de produção e consumo. mais do que produzir a oferta. Mas a informação tem um efeito contrário.4 Atividades Explique a afirmação: “A massa é sem atributo. cria uma massa impermeabilizada “às instituições e à própria informação”. corrobora para um processo entrópico que não estabelece relação com o social. antes a produção de mercadorias era suficiente. sob a visão de Jean Baudrillard. sem preferência”. o consumo era somente uma conseqüência. produção mais custosa que a de “simples” mercadorias.

Coleção Grande Cientistas Sociais. São Paulo. ed.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 3 3. 1998. W. A arqueologia do saber. Cortez: São Paulo. Michael. Relógio D’água: Lisboa. ______________. LÖWY. Simulacros e simulação. 1973.7 Referências Bibliográficas ADORNO e HORKHEIMER. BENJAMIN. Temas básicos da sociologia. Michel. Rio de Janeiro: ForenseUniversitaria. Cultrix. SP: Ática. 1991. 1987. Ideologias e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista. 1995. Foucault. 34 .

uma outra relação dos sujeitos com os lugares e com as diversas linguagens. a virtualidade permeia nossas referências e relações cotidianas. por veículos midiáticos. Objetivos da sua aprendizagem Ao final desta unidade você será capaz de entender como as relações sociais são intermediadas pela tecnologia. mas também na sociedade virtual. . Vivemos não só na sociedade da informação. sobre as mediações cotidianas em nossas relações sociais. suportes informacionais que nos fazem refletir sobre nossa socialização.A SOCIEDADE VIRTUAL A contemporaneidade trouxe juntamente com o desenvolvimento tecnológico um outro espaço-tempo. Esta é a temática deste capítulo: como nossas relações sociais estão intermediadas pela tecnologia criando o que chamamos de sociabilidade tecnológica. Assim. em nossas práticas culturais. Você se lembra? Estamos circundados por meios de comunicação.

e sua principal característica está no excesso de informação difundida pelos meios de comunicação. Discutimos então que realidade é essa? A virtualidade é a realidade construída. temos acesso a um mundo midiatizado. aportada por suportes virtuais: uma realidade virtual. e nem por isso deixa de ser real. Podemos nos dizer pertencentes a uma sociedade do hipertexto. celulares etc. jornal impresso. revistas. busdoors. internet. é uma realidade virtual.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 4 4. por exemplo. televisão aberta. verdadeira. Assim. a uma realidade midiática. Porém esta não deixa de ser real ou verdadeira. Rádio. somos bombardeados por uma infinidade de dizeres desconexos mediados por suportes midiáticos eficientes ao que se propõem: fazer chegar a informação. isso porque os suportes midiáticos permitiram a expansão da informação a uma distância e a uma velocidade nunca antes imaginada. obviamente por interesses mercantis resultantes da consolidação do capitalismo. fazem-se presentes em nosso cotidiano. construída. Sociedade da Informação! Denominação sociológica e política dada à nossa sociedade atualmente. jornal on-line. A sociedade da informação realiza-se pela distribuição e circulação das mensagens. pautado.1 A sociedade virtual Nossa sociedade viveu e vive ainda hoje os resultados de um intenso processo de transformação tecnológica. A literatura. pertencem às práticas mais banais de comunicação e perfazem uma nova relação dos sujeitos com o mundo. televisão a cabo. É só pararmos para pensar: como enviávamos mensagens antes dos e-mails? Como 36 . imaterial. outdoors. não deixa de existir enquanto materialidade.

Nosso psíquico será então moldado por esse tempo instantâneo. pelo tempo instantâneo. tempo em linha reta infinita. que precisa ver perecer o novo para consumir o novo! Substituímos o tempo linear. modular. o presente e o futuro como se fosse um só tempo. o tempo do aqui e agora. A vida hoje parece mais fragmentada. A novidade é efêmera. “há um embaralhamento de tempos. o jornal diário deixa de ser a referência de rapidez na informação. Realidade que só existe sob o suporte do desenvolvimento tecnológico. sem futuro” (SANTOS. notícias e fatos tornam-se obsoletos instantaneamente.. dispersa. fragmentado. Um tempo que os estudiosos do assunto chamam de “presente eterno” dado pela renovação constante da informação. onde se vive o passado. mais volátil. o tempo eterno. as tecnologias fornecem concretude à liquidez informacional. visibilidade à abstração das mensagens. É o que denominamos “tempo real”.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 4 ligávamos para as pessoas antes dos celulares? Como nos deslocávamos de um lugar ao outro sem os automóveis. Tente imaginar o tempo que uma carta levava para atravessar o oceano. Ao que parece. o da velocidade absoluta. Uma nova espacialidade e um novo tempo. seqüencial. o avião? Estes novos recursos trouxeram também um novo mundo. necessário à sociedade da informação. materialidade fluida. mas também um outro tempo. concomitância incessante entre o novo e o velho. o espaço físico 37 . cheia de deslocalizações e re-localizações. substituição imediata do novo. o tempo dos grandes fatos marcados e marcantes. em questão de horas ou minutos. cujo passado se dilui no presente.. 2003).quanto tempo um e-mail leva para chagar ao seu remetente? Vivemos não só em um outro tempo.

pois só insere-se no tempo real quem tem acesso às tecnologias do tempo real. redes digitais. as cidades se modificam. virtualizados pela linguagem midiática. que estão intrinsecamente interconectadas com as disritmias do tempo: dos ricos em velocidade. os sujeitos em tempo real são também sujeitos deslocalizados. Sendo assim. construção).Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 4 perde a importância para um espaço social dilacerado pela velocidade e composto por diversas formas de sociabilidades. o espaço urbano passa a ter ligação direta com os veículos midiáticos: câmeras de segurança. deixa de existir tal qual o conhecemos. as distâncias são rompidas pelo mundo virtual. sua temática principal é o controle exercido pelos meios de comunicação e as tecnologias de poder. em um tempo diferente e ao mesmo tempo igual. excluídos deste processo e da riqueza a ele ligada. noticiários. encontramos novas formas de sociabilidade. A alteração do tempo promove também uma alteração da idéia de espaço. e dos pobres que não possuem esse recurso. o lugar. painéis publicitários. Está submetido à fragmentação do tempo aquele que possui recursos para dispor da diversidade dos suportes midiáticos. prédio. O espaço físico. Posso contatar pessoas distantes. sujeitos virtuais. ou pelo menos com esta fisicalidade referencial (casa. Principalmente aquelas dadas pela internet.(2003) A sociedade da informação não deixa de ser excludente. A cidade é um espaço virtualizado. Nossos amigos tornam-se “amigos”. . ligado a uma grade eletrônica que permite fluxos instantâneos de pessoas e informação. Nossa referência clássica de localidade é transformada. Se pensarmos 38 Assista: 1984 – filme baseado no livro de George Orwell. por disporem de tecnologia e de informações para uma vida de rapidez. Pertencemos a um espaço social “dilacerado pela velocidade” (2003).

compartilham o mesmo sistema. sustentam a vida urbana. o presente e o futuro como se fosse um só tempo. Se o corpo perde sua territorialidade. A. 4. 39 . J (orgs). a língua e a linguagem também seguem a nova lógica. Cultura e Comunicação. mas que no entanto podemos já apontá-la como fundamental.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 4 nas grandes cidade. cujo passado se dilui no presente. cada vez mais permeada pó vias invisíveis: as infovias. e Silva. então.2 Atividades Analise e explique a afirmação: “há um embaralhamento de tempos. o tempo do aqui e agora. pertencente à filosofia da linguagem. tornando-se mais fluida. o tempo eterno. Esta reflexão faz parte de uma discussão mais ampla. G. 4. onde se vive o passado. de novos espaços e vias. Cortez: São Paulo. Castro. 2003. mais afoita. 4.4 Leitura Recomendada Galeano. por exemplo? Pessoas que jamais se viram ou que sequer supõem a existência umas das outras.3 Reflexão È tempo de deslocalizações. este fluxo se intensifica:quantas pessoas passam diariamente pelo metrô de São Paulo. neste sentido devemos pensar como a linguagem também se modifica. sem futuro”. Complexidade à flor da pele: ensaios sobre Ciência.

Editorial Notícias: Lisboa. In: Sociologia e Sociedade. Sociologia. 1997. Org. 1984 40 .5 Referências Bibliográficas MORIN. 1989 ________. Rio de janeiro: LTC.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 4 4. E. “A indústria cultural”. Publicações Europa-América: . As grandes questões do nosso tempo. Marialice Mencarini Foracchi e José de Souza Martins. ________.

. conhecemos também um novo tipo de sociabilidade. conglomerado de construções. O universo da cibercultura traz à baila o conflito com a cultura real. que é local e global ao mesmo tempo. de habitações. surgem arquiteturas e espaços modificados. Objetivos da sua aprendizagem Compreender o conceito de não-lugar. e mediada pela tecnologia. espaço de indivíduos e de sociabilização. não é possível estreitar laços em uma grande cidade. pautados pela produção e pelo consumo frenético. E das contradições inerentes ao processo. Você se lembra? Tomamos como referência de espaço as cidades.A CIDADE: O NÃOLUGAR Com a constituição de novos espaços. Vimos surgir no último século as grandes metrópoles e com elas o referencial do distanciamento dos sujeitos.

facom. o não-lugar imaterial. O processo de socialização se altera e o corpo recebe as conseqüências da transformação. por onde transitam as informações. com diversos artigos sobre o tema. torna-se passivo diante da tecnologia. porém torna-se um não-lugar imaterial. 2003) Construímos uma outra arquitetura. O local de encontro não é mais a praça. “navegamos” nas infovias. A cidade. antes ativo. Levantamos cidades globais http://www. é o “MSN”. Não passeamos nas ruas. de corpo operacional passa a corpo contemplativo. que 42 .ufba. as vias de tráfego de carros. Invisibilidade esta que – contraditoriamente – não deixa de ser percebida como espaço. Ambas têm em comum a velocidade dos transeuntes e dos veículos. “desconectadas” de sua localidade. amplia as fronteiras. devido à velocidade dos fluxos comunicacionais. um espaço cibernético no interior do concreto. o corpo. construto das tecnologias informacionais (apud.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 5 5.1 A cidade: o não-lugar O período atual vê surgir uma outra cidade. tornase menos visível e modifica a percepção do espaço como lugar. entramos nos “links” e não nas casas. redimensionando-o para um outro.br: site de estudos sobre cibercultura. É preciso ser rápido na cidade. modifica as marcas locais. as vias têm de fluir. menos visível – como nos explicita Beltrina Pereira – já que também são invisíveis suas vias e construções. pessoas. passam a conviver com as vias de comunicação. A relação entre os suportes midiáticos e as tecnologias elaboradas pela sociedade da informação redimensiona os lugares. ônibus.

Uma nova sociabilidade. a rua. a igreja) e passa a freqüentar o não-lugares: o shopping. de observação e não de participação. espaços também de solidão e de clausura. Novos caminhos. espaços utilitários. O espaço público é substituído pelo espaço domiciliar. 43 . surge. a sala de estar. 5. dando origem a novos tipos de relações sociais. o computador.2 Atividades Explique o conceito de não-lugar. real e virtual. construídos principalmente para consumir. Transita-se pelo espaço virtual e estabiliza-se no espaço real. o aeroporto. por ser ao mesmo tempo global e individual. contraditória. o que foi chamado (2003) de sedentarismo nômade.3 Reflexão Vimos como as relações sociais são transformadas pela tecnologia e pela informação. fazendo chocar-se os mundos da cibercultura e da cultura real.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 5 abandona os lugares (a praça. 5. os sujeitos se aproximam no tempo (real) e se afastam no espaço (virtual). Espaços de transitoriedade. novos tempos e espaços emergem da freneticidade da produção em massa. novas arquiteturas. o carro.

________. Cultura e Comunicação. 1984 Galeano. Campinas: Papirus. 1994.4 Leitura Recomendada AUGÉ. J (orgs).5 Referências Bibliográficas MORIN. Editorial Notícias: Lisboa. Sociologia. 1989 ________. Org. Marc. Publicações Europa-América: . 2003. Complexidade à flor da pele: ensaios sobre Ciência. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Marialice Mencarini Foracchi e José de Souza Martins.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 5 5. Cortez: São Paulo. e Silva. 44 . A. 1997. Rio de janeiro: LTC. In: Sociologia e Sociedade. G. (Coleção Travessia do Século). As grandes questões do nosso tempo. “A indústria cultural”. Castro. E. 5.

ou melhor. que se embrenham em seu emaranhado de nós e transpassam seus buracos labirínticos. fragmentada. Você se lembra? Para pensarmos essa rede virtual e os sujeitos e discursos que nela se constroem estaremos ancorados na teoria do discurso de origem francesa que prevê a interface entre a Sociologia e a Lingüística. Objetivos da sua aprendizagem Estabelecer a relação entre os processos educativos e a utilização da internet.REDE ELETRÔNICA. Sua materialidade nos permite uma nova relação tempoespaço dada pela velocidade com que faz circular os sentidos em sua infovias. essa fisicalidade dispersa. essa materialidade. faz surgir também novos sujeitos. abordando o ensino a distância como referência. líquida. novos discursos. novas relações sociais. . SOCIEDADE E EDUCAÇÃO A rede eletrônica oferece possibilidades múltiplas para os sujeitos que mergulham nesse oceano de informação.

Essa nova fisicalidade na relação professor-aluno. Segundo um discurso já consolidado pelas instituições de ensino e pelo aparelho educacional do Estado. Baseado nisso as idéias que dão suporte ao EAD começaram a surgir e foram rapidamente testadas. 46 . absorvidas e desenvolveram-se como nova ferramenta para a educação. modalidade que também já conhece uma historicidade e possui sentidos constituídos antes de se apropriar desse novo suporte – a internet. assim como sobre o que é o ensino a distância. é o ensino a distância que usa como principal ferramenta a internet. constrói também novos sentidos.do já dito – por uma rede de filiações que estão colocadas sobre o que é ser aluno e o que é ser professor. Consiste também no fato de que qualquer interessado em um assunto tem a chance de obter conhecimento do mesmo autonomamente. É claro que inicialmente o processo de aprendizagem é recíproco e tanto os usuários deste sistema quanto aqueles que o criaram podem trocar muitas informações e com isso aprender e aperfeiçoar o sistema.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 6. tema do trabalho que se segue. porém esses não estão livres dos sentidos já dados . o ensino à distância (EAD) foi criado com o objetivo de desenvolver o processo de ensino e aprendizagem através do uso das tecnologias da informação e assim fornecer um aprendizado de qualidade para aquelas pessoas que não teriam acesso a educação tradicional.1 EaD e rede eletrônica Nossa página inicial.

apresentou um projeto que explicava como funcionaria uma “universidade sem fio”(uma universidade que não necessitaria de um “fio” ligando o aluno a instituição.2 EaD: A FUNDAMENTAÇÃO HISTÓRICA DE UMA NOVA RELAÇÃO DE APRENDIZAGEM 6. Este respaldo seria dado por um tutor que faria o auxílio ao aluno pessoalmente.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 6. Depois disso a idéia foi sendo estudada e desenvolvida até os anos 60. Em resumo. onde não fossem necessárias aulas presencias). os projetos sistematizavam que aulas transmitidas pela TV seriam acompanhadas de textos enviados por correspondência e eventuais visitas por parte dos alunos a pontos prédeterminados para que sua educação pudesse receber um maior respaldo. tal projeto consistia em transmitir informações sobre um assunto e permitir que assim. quando vários projetos envolvendo o assunto começaram a surgir e a serem aplicados momento em que o nome “tele-universidade” foi primeiramente usado. Foi também na década de sessenta que o conceito de “multimídia” foi usado para educação. O uso de som e imagem começa a ser entendido Trecho do Trabalho publicado nos Anais da ABED: BENEDETTI. os ouvintes pudessem adquirir conhecimento sem depender do sistema tradicional de educação da época. Inicialmente. 47 .1 O início do EaD no Reino Unido A idéia inicial começou por volta de 1926 na Inglaterra quando o educador e historiador J C Stobart. Ensino a distância: sujeitos na rede. Cláudia Regina e VASCONCELOS.2. enquanto trabalhava na rádio BBC. Marilda.

O processo consistia em organizar os tópicos a serem estudados pelos alunos. vimos que os correios. Dentre as diversas ferramentas que foram usadas para agregar experiência no uso do sistema de EAD. 6.000 cidadãos europeus fora do Reino Unido.2 A criação da “Open University”: novas ferramentas. Veremos mais adiante que a administração deste sistema de educação por uma instituição acadêmica e a popularização do computador puderam contribuir bastante para a transformação do EAD. Ainda na mesma década a OU expandiu seu atendimento a outros países europeus como a Bélgica e nos anos seguintes pode atrair mais de 10. Este método ou a combinação destes métodos foi testada de diversas formas no Reino Unido desde a apresentação do projeto por J C Stobart.2. o rádio e mais tarde a televisão foram avanços tecnológicos que funcionaram como facilitadores para que este novo sistema de educação pudesse obter sucesso. A OU possuía escritórios espalhados por vários lugares que serviriam como pontos de apoio ao estudante. Nesse mesmo período cursos de pós-graduação começaram a ser oferecidos e 48 .Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 como uma nova forma auxiliadora da educação. novas possibilidades de interlocução Foi em 1983 que a Europa viu nascer a “Open University Business School” (OU) cujo imediato sucesso fez com que se tornasse a maior escola voltada a negócios através do sistema de EAD. O novo mecanismo de transferência de informações passou a ser o uso de um misto de multimídias. através de um encontro com um tutor. Novos métodos de ensino também foram criados com o início da popularização do computador. fornecer material que desse base para o acompanhamento das aulas transmitidas e também suporte presencial esporádico.

Porém depois de um período de adaptação. as paredes da sala de aula são agora os quatro cantos da tela do computador. No início o uso de transmissões pela BBC e o envio de fitas de vídeo.000 alunos se submetem a cursos de pós-graduação à distância.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 houve outro boom de novos alunos. O sucesso do EAD no Reino Unido se deve ao rápido desenvolvimento da tecnologia e a grande integração de novas medias de comunicação que foram incorporados aos cursos universitários e que puderam preencher as necessidades dos alunos. Na década de trinta o sistema de correios no país ainda era precário e pouco se podia confiar no recebimento de informações. Ainda. O ensino à distância permite transpor as barreiras do tempo e do espaço e fazer o capital circular mais livremente. Atualmente 20. material impresso pelo correio.3 O EAD surge no Brasil No Brasil o caminho que o EAD tomou teve suas similaridades com aquele do Europeu. 49 . juntamente com a assistência que os alunos recebiam através de encontros com seus tutores em pontos espalhados por todo o país deu ao EAD a praticidade e confiabilidade que o sistema precisava para começar a ser usado por outras instituições além da OU e convencer muitos duvidosos da eficácia de tal sistema. O sucesso que este sistema de ensino possui está vinculado ao processo histórico que possuiu e consequentemente a aceitação a qual se submeteu durante os períodos inciais de sua prática.2. número maior do que outras universidades inglesas possuem de alunos tradicionais. havia pouco incentivo por parte das autoridades do sistema educacional da época. O EAD é hoje usado em grande parte por outros países e no Brasil o caminho percorrido também foi importante para seu sucesso. 6.

Na década de sessenta. Em 1939.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 o EAD começou a ser transmitido pelo rádio e foi bem sucedido já que a audiência era grande. Com a popularização da TV. portanto cabia ao aluno-ouvinte procurar material que lhe desse suporte para conhecer um assunto e para isso seguia as recomendações do professor. seguindo um roteiro planejado para o rádio eram transmitidas todos os dias em horários prédeterminados e possuíam um publico fiel. Não havia muita disponibilidade de material. O principal objetivo deste programa era oferecer 50 . para que pudessem aprimorar seu trabalho. um projeto chamado “Rádio-Monitor” foi desenvolvido. mas o que lhes faltaria seria conhecimento teórico. E isso requeria que a pessoa tivesse um conhecimento básico do assunto. realizado pela fundação Roberto Marinho. O objetivo educacional era proporcionar aos cidadãos participantes conhecimento prático para ser aplicado a uma profissão. Nesse projeto. Lições sobre um certo assunto. Dentre eles levar a educação a distantes regiões do Brasil. desejo de aprender e algumas horas livres. foi o Telecurso Primeiro e Segundo Graus. tinham por responsabilidade ler e dar dicas que pudessem guiar os ouvintes na aprendizagem do assunto proposto. a transmissão de cursos se tornou mais eficaz com sessões pré-gravadas e aquelas ao vivo. O mais conhecido sistema de ensino pela televisão. O que faltava era a disponibilizarão de uma ferramenta que pudesse facilitar o desenvolvimento deste projeto. criado na década de setenta. os professores. Muitos deles já deveriam desenvolver esta ou aquela atividade. como eram chamados. Para aquelas pessoas que não tinham acesso as instituições de ensino por conta da distância geográfica. já que muitas cartas chegavam todos os dias. novos objetivos foram estabelecidos para o EAD.

5 Leitura Recomendada SILVERSTONE. desde as mais tradicionais até as mais arrojadas. 6.4 Reflexão Nesse contexto. Por que estudar a mídia?. São Paulo: Edições Loyola. português. 6. 2002. 6. incluindo dentre estas as mais novas tecnologias. A polêmica entre o antigo e o novo surge como transversalidade que se impõe sobre as vantagens e desvantagens de tais métodos. Como o Ensino a distância relaciona-se com a chamada sociedade virtual? Explique e fundamente sua resposta. 51 . ou seja. Roger.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 educação informal através do EAD e dar às pessoas a oportunidade de terminarem o aprendizado de conceitos básicos relacionados a assuntos como matemática. O equipamento usado se resume a televisão e o método é unidirecional.3 Atividades 1. e ciências. O aluno está por sua conta no que se refere a administrar seus estudos. o professor ou tutor não pode acompanhar o progresso do aluno e este não pode participar seu conhecimento ou conclusões com mais ninguém. estudantes e instituições tentam interação utilizando metodologias diversificadas.

Análise do Discurso: princípios e procedimentos. PÊCHEUX. 1997. Bernado. Campinas. Eni Punccinelli Orlandi [et al]. 71. P. p. SP: Pontes. Jornalismo na era virtual. M. Campinas. ORLANDI. 2005. KUCINSKI. 52 .Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 6 6. trad. São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo: Editora UNESP. Ensaios sobre o colapso da razão ética. 1999.6 Referências Bibliográficas GUIA DE EDUCACÃO A DISTÂNCIA 2005. E. São Paulo: Segmento. SP: Editora UNICAMP. 3ª edição. 2005. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio / Michel Pêcheux.

a materialidade é outra. Para o aluno submetido a este novo tipo de linguagem a topologia não é mais a da sala de aula. . à educação. que o novo meio pudesse fazer toda a sociedade ter acesso à informação e. Objetivos da sua aprendizagem Estabelecer a relação entre os processos a linguagem virtual e o EaD . pressupondo. consequentemente. Você se lembra? O sujeito que navega na internet não tem embarcação. termos como sociedade da informação começaram a ser usados. ou pelo menos construindo esse sentido. as ferramentas não são mais o giz a lousa e o caderno de anotações. e seu mapa é construído em concomitância ao trajeto percorrido.O EAD E OS USUÁRIOS DA INTERNET Com a internet.

mais essa se tornará variada e dinâmica. Tal tecnologia também permitiria uma maior interação entre o aluno e o professor no sistema EAD. Foi neste período que se iniciam as idéias em torno do uso de computadores como auxiliares da educação. o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) lançou um livro chamado de “O livro verde” para a sociedade da informação no Brasil. Fazer parte desta sociedade da informação significa ter acesso ao mesmo nível de informações que qualquer outra pessoa em qualquer outro lugar. Isso então proporciona a qualquer indivíduo integrante adquirir o conhecimento desejado sem se importar com as distâncias ou ter que se submeter às barreiras que um curso tradicional ofereceria.1 O EAD e os usuários da internet Ao final da década de 80. Em 2000. Tal livro também é favorável ao comércio eletrônico e a exploração de seus benefícios. A comunicação se tornou mais dinâmica e mais rápida. 54 . produzir e armazenar informações de uma maneira muito mais eficiente. fazendo com que as distâncias fossem menores e superassem os obstáculos geográficos. o uso de computadores ligados a internet se torna comum nas universidades. escolas privadas e também em algumas escolas da rede pública. O acesso a esta tecnologia permite que as pessoas possam organizar.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 7 7. No decorrer dos anos 80 e por toda a década de 90 vê-se que aos poucos. pois acredita que quanto mais pessoas participarem da rede. e isso pode ser visto também na educação. o computador e consequentemente a internet marcaram uma nova maneira de se enviar e receber informações. Ainda tenta fazer com que o acesso à internet se popularize cada vez mais. Este livro incentiva o crescente uso da informação disponível por parte da sociedade brasileira.

para enviar ou receber informação para grupos de pessoas.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 7 A idéia de “democratização” da informação se faz necessária para dar sentido ao novo instrumento educacional. O usuário tem acesso a um grande número de imagens mais rapidamente e ainda consegue armazená-las para posteriormente serem usadas em outros trabalhos e artigos. Como afirmado anteriormente. mas que se esburaca se colocado diante de outras formações discursivas sobre os problemas de acesso à rede eletrônica pela maioria da população: pelo menos 80% da população vive “off-line”. como se as “barreiras” para o acesso à educação fossem somente físicas. A fotografia digital é uma outra importante ferramenta que se tornou bastante popular nos meios de educação. temos um discurso que tenta se construir como uno. o uso de fotos digitais proporciona ao leitor ter contato com uma imagem de maior qualidade e ainda manipular esse tipo de arquivo. Mesmo em livros. preocupando-se em facilitar o entendimento dos assuntos propostos e dar suporte educacional à sua audiência. Nesse caso. o número de pessoas que também pode usar o EAD continua crescendo. Alguns centros usam a associação do aparelho de televisão com satélites. garantindo assim que o usuário de tal sistema possa realmente adquirir o conhecimento proposto e fazer uso do mesmo em sua carreira profissional. com o grande número de pessoas que podem acessar a rede. 7.2 Os anos 2000 e a tecnologia por trás do EAD Como visto anteriormente. a tecnologia por trás do EAD está baseada em se ter acesso a um computador. 55 .

A topologia não é mais a da sala de aula.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 7 Telefones celulares e o que se pode e se poderá fazer com estes aparelhos também está entre as ferramentas que já disponíveis para aqueles que querem melhorar ainda mais a eficácia do EAD. fazendo surgir um outro sujeito-aluno e um outro sujeito-professor. então. os arquivos estão justapostos e permitem vários percursos de leitura em uma arquitetura de nós.org. que é a primeira vez que o homem tem a chance de manipular uma multiplicidade de informações e suportes Acesse o site www2.br E leia o texto disponível: Tecnologia educacional: formação de professores no labirinto do ciberespaço de José Augusto de Melo Neto concomitantemente. sem embarcação. Esse sujeito conta ainda com uma temporalidade e uma espacialidade diferente. Todos estes equipamentos e suas utilidades tiveram um grande impacto na vida das pessoas. as ferramentas não são mais o giz a lousa e o caderno de anotações. à página de acesso ao ambiente virtual. Esse sujeito é um novo sujeito. pode ter acesso a aulas que já foram dadas. Podemos afirmar. As informações ganham. pois a possibilidade de mapeamento está minimizada.abed. a materialidade é outra. sem medo de equívocos. um navegador. O livro não apresenta a fisicalidade de capítulos seqüenciais. de textos e rede de textos. 56 . seu caminho é de marinheiro errante. uma transitoriedade diferente. sem ao menos conhecer pessoalmente esse professor. um fluxo constante e simultâneo. no caso do EAD. conversar com o professor em tempo real sem ocupar o mesmo espaço físico. Esta tecnologia traz a possibilidade de se comunicar e trocar informações com um grande número de pessoas a qualquer hora do dia e em qualquer lugar simplesmente através de um aparelho de mão.

Na verdade esse discurso revela a habilidade em lidar com as possibilidades da rede. seu avanço tecnológico permite a fusão de equipamentos de comunicação (imagem. O segundo tipo abrange aqueles alunos que possuem acesso à internet e usam este mecanismo para 57 . Quanto melhor for a habilidade com esta tecnologia. É preciso pontuar a competência fundamental que os sujeitos – alunos e professor – têm de ter para se conectarem a essa modalidade de ensino a distância informatizada. Além de disponibilizar um instrumental multimidiático o EAD potencializa o caráter industrial da educação. vídeo etc). é necessário que tais níveis sejam administrados de forma eficaz e isso exige o domínio da tecnologia disponível. visto que sua extensão passa a ser mundializada. Estes alunos possuem encontros presenciais com freqüência determinada pela instituição.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 7 Para que o nível de absorção ou entendimento das informações possa ser aprimorado. Esta motivação. O aluno ainda pode entrar em contato com o tutor através de telefone.3 Usuários on-line versos usuários Off-line O suporte dado ao aluno pode ser dividido em dois tipos: o primeiro abrange aqueles que não têm acesso à internet e. segundo o discurso oficial. texto. som. O uso de vários equipamentos para acessar e armazenar e organizar as informações necessárias para se construir o conhecimento desejado juntamente com a assessoria por parte do tutor contribuem bastante para a motivação do aluno. é a chave que o EAD necessita para ser um sistema competente de aprendizagem. portanto. 7. melhor serão os benefícios adquiridos. podem usar o sistema de correios ou máquinas de fax para receber e enviar o material.

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receber e enviar informações, podendo ainda estabelecer uma relação com os outros alunos através de fóruns de discussão ou espaços reservados para a troca de recados entre os alunos e entre estes e o tutor. Outra vantagem que o acesso à internet traz é que o aluno pode desenvolver as tarefas propostas em seu próprio computador, lendo o material recebido, discutindo com seus colegas on-line, realizando pesquisas na rede e, por fim, reenviar o material. Isso tudo sem o consumo de papel ou a necessidade de se deslocar para realizar tarefas distintas. Neste Segundo caso, a interação do tutor com o aluno é maior devido ao mecanismo de comunicação ser mais rápido e interativo do que aquele no qual o aluno se comunica por correspondência não eletrônica com seu tutor. A principal vantagem de se ter acesso à rede, é a troca de mensagens em tempo real, tanto com o tutor do curso quanto com os outros participantes. Fóruns de discussão permitem uma maior integração destas pessoas e portanto dão uma maior motivação para aquele aluno que necessita de maior atenção durante seu aprendizado. Já as videoconferências permitem um relacionamento em tempo real, no qual os alunos estão reunidos num mesmo ambiente integrando-se com os colegas de sala e não com a tela do monitor, a moldura de suas ações será a do tutor/professor. É esperado que o uso destas ferramentas descritas acima possa trazer benefícios
Acesse a revista Educa Online: www.latec.ufrj.br Há vários artigos disponíveis sobre educação a distância.

educacionais. As ferramentas de comunicação são usadas para apresentar a informação do professor/tutor para o aluno e vice-e-versa. O computador pode armazenar esta

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informação e consequentemente o aluno pode usá-la num dado momento desejado. A informação, uma vez armazenada, pode ser acessada a qualquer momento pelo aluno que tem a chance de decidir quando e onde estudar. Há, então, a sensação de que o professor/tutor encontra-se disponível sempre, assim como o conteúdo curricular. Todo esse equipamento de multimídia permite criar uma realidade virtual que supriria a necessidade de um real encontro com o professor. A simulação deste tipo de interação pode ser uma grande motivação para a continuidade do curso já que também há a sensação de não se estar sozinho quando em fóruns de discussão. Essa nova relação levanta questões sobre o tempo e o espaço, sobre a distância e a proximidade. Temos um outro tipo de sociabilidade, que podemos chamar de tecnológica, já que é exclusivamente mediada por um aparato técnico que pretende suprir a necessidade da fisicalidade do professor e do aluno. Supõe-se que este sujeito aluno seja disciplinado o bastante para completar o aprendizado do que lhe foi proposto. Esta disciplina é em parte garantida pelo constante relacionamento com a instituição na troca de informações e no controle virtual e (em parte) presencial de suas atividades. Constrói-se, então, uma nova relação entre sujeitos de um novo discurso sobre uma nova forma de educação, dados pela utilização de novas ferramentas e novas possibilidades de interlocução. A

originalidade que se edifica no EAD retém uma memória discursiva sobre o que é ser professor, o que é ser aluno, o que é uma aula, são essas formações discursivas que permitem o aparecimento de novas posiçõessujeito.

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7.4 Atividades
Explique a afirmação: A idéia de “democratização” da informação se faz necessária para dar sentido ao novo instrumento educacional, como se as “barreiras” para o acesso à educação fossem somente físicas.

7.5 Reflexão
Os sujeitos ganham novas ferramentas, mas continuam assujeitados por uma linguagem tão fluída quanto o mercado e tão veloz quanto o capital. Constrói-se, então, uma nova relação entre sujeitos de um novo discurso sobre uma nova forma de educação, dados pela utilização de novas ferramentas e novas possibilidades de interlocução.

7.6 Leitura Recomendada
CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 13-33.

7.7 Referências Bibliográficas
GUIA DE EDUCACÃO A DISTÂNCIA 2005. São Paulo: Segmento, 2005. KUCINSKI, Bernado. Jornalismo na era virtual. Ensaios sobre o colapso da razão ética. São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo: Editora UNESP, 2005, p. 71.

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E. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. 3ª edição. P. trad. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio / Michel Pêcheux. SP: Editora UNICAMP.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 7 ORLANDI. Campinas. SP: Pontes. Eni Punccinelli Orlandi [et al]. 1997. M. PÊCHEUX. 61 . Campinas. 1999.

. é também por meio da relação homemconhecimento que a linguagem significa. 1999).OS SUJEITOS E AS MALHAS DO DIGITAL Pensar no ensino a distância é pensar em sujeitos conectados a essa rede mundial que transforma a relação tempo e espaço. Objetivos da sua aprendizagem Relacionar a utilização das tecnologias digitais e os novos sujeitos que surgem deste contexto. só funciona se estamos inseridos nela. Uma rede que. uma rede com pontos de esburacamento e entrelaçamento. assim como o processo de aprendizagem. Você se lembra? Se a linguagem é o discurso como percurso. mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social a fim de fazer deste um ser especial com capacidade de significar e significar-se (ORLANDI. que faz circular discursos fragmentados.

como a educação à distância irá se construir nessa nova “sala de aula”. os sujeitos têm acesso a um fluxo frenético de informações e a uma possibilidade ilimitada de interação. como analisa Kucinski (2005). A encruzilhada da internet é paradoxal. ao mesmo tempo em que é a poderosa ferramenta dos libertários. ao definir a rede mundial de computadores como uma promessa (alguns diriam ameaça) de um mundo interativo em que tudo e todos podem ser acessados.1 Os sujeitos e as malhas do digital A rede eletrônica permite localizar conteúdos e recorrer a fontes como sons e imagens fixas ou em movimento. mas que tem uma espacialidade hipertextual e uma localidade indefinida. que continua quadrada. os sujeitos atravessam paredes sem necessariamente abrir e fechar portas. Dentre as discussões apontadas sobre a rede e suas possibilidades fica uma questão para a educação à distância: como se posicionam os sujeitos (aluno e professor) diante da rede? 63 . dos que não se resignaram ao triunfo do neoliberalismo. constitui um espaço no qual se manifesta a fragmentação ética e o individualismo. instantaneamente.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 8. Nos resta saber como os sujeitos estarão inseridos nesse universo contraditório. A rede eletrônica possibilita a rápida locomoção de um local a outro. a propagação do ensino on-line traz consigo indagações complexas a respeito do próprio conhecimento. da sua utilização e do seu impacto sociocultural. como afirma Roger Silverstone (2002).

como tocar um instrumento musical. pelo menos 1. o ensino à distância. como montar uma empresa. Governo do Estado de São Paulo (132. novas profissões.973). Entre essas novas formas está incluída a educação à distância.137.Telecurso 2000 (393. Senac (37.2 Aluno e professor: sujeitos de um discurso nas malhas do digital Como já vimos. Hoje. Senai (10.305).908 de brasileiros se beneficiaram de algum curso de ensino à distância no país.442). Podem escolher como cortar cabelo.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 8. as novas tecnologias causam impacto em diferentes áreas. Fundação Roberto Marinho . abraça mais e mais adeptos. pessoas de qualquer parte do Brasil podem interagir em cursos oferecidos em diferentes áreas estando em qualquer parte do mundo. até mesmo se pós-graduar. que tiveram que se adaptar aos moldes digitais rapidamente.1 milhão. Ainda segundo o levantamento. algo que já conquistou espaço no mercado e que. Recuperando os dados do Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e à Distância (Abraed 2005) vemos que em 2004.957 estavam matriculadas em cursos oferecidos por 166 entidades credenciadas. O meio digital permitiu o surgimento dessa nova categoria de educação. 309. Tais dados são resultado de pesquisa feita apenas com alunos de instituições oficialmente credenciadas com o número das seis maiores instituições que ofertam a modalidade: Sebrae (176.494). A falta de tempo acelerou o ritmo das pessoas. deste total de 1. novas formas de trabalho que englobam mais gente a cada dia. como universidades públicas e privadas que seguem uma 64 . a cada dia.223) e Telemar (77. que ganhou espaço até mesmo dentro das universidades convencionais. Os computadores e a Internet criaram novas oportunidades.514 alunos).

Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 regulamentação específica do poder público.887 estudantes. graduação. médio. G. seguido pela região Sul (17%). Vale lembrar que este levantamento não incluiu cursos livres como música e idiomas. Estes estudantes estão distribuídos pelo ensino Leia o artigo abaixo: ARETIO. junto com uma centena de outros 65 . normalmente de 2 anos). O Nordeste tem o segundo maior grupo.eps. porém não menos eficazes. EJA (Educação de Jovens e Adultos). Conceitos e fundamentos de educação à distância. e pós latu sensu (especialização). em breve será respondido pelo professor ou também por algum outro colega que possa contribuir com alguma experiência. A região sudeste educa 53% do total de alunos a distância do país. técnico (ensino médio profissionalizante). Um aluno interagindo online com um professor remoto pode se sentir mais próximo de seu mestre do que se estivesse assistindo a uma aula local expositiva. E realmente são diferentes. o modo como as aulas podem ser comentadas. Disponível em: www.br fundamental. 1998. como podemos dar vazão às nossas opiniões. Podemos tirar dúvidas a qualquer momento é só escrever um e-mail que. mostrar nossos descontentamentos e criar discussões agora são mais abertos do que em uma sala de aula comum. o equivalente a 163. o modo de ler o conteúdo do curso passa a ser na tela e não mais no papel (embora alguns prefiram imprimir para ler). Os alunos e o professor geralmente não se conhecem pessoalmente. seqüencial (curso superior de curta duração. Ao adentrarmos no ambiente educacional on-line muita coisa nos parece diferente da modalidade que estamos acostumados e vivenciar.ufsc. por exemplo. onde muitas vezes o aluno não consegue ou tem vergonha de se manifestar.7% do total de alunos. com 18.

Alguns sites especializados em EAD disponibilizam depoimentos de seus alunos tratando dos benefícios desta modalidade educacional: Enquanto lia as mensagens do fórum esta noite deparei-me lá pelas tantas com uma grata surpresa. não é medindo-se a distância espacial entre alunos e professores que se terá um parâmetro adequado de comparação. “altos papos”. ou por se achar menos inteligente que os demais.br 66 .104 / www.165. seus pensamentos. PARABÉNS A TODOS e repito: Educação a DISTÂNCIA. Nem na mesa do bar da faculdade com a (maravilhosa) cervejinha. suas qualidades. QUE NADA!!! Depoimento de Luiz Fernando Bonn Henzel. o que o aluno jamais perguntaria na sala de aula presencial por vergonha. online). Como diz meu filho. Disponível em http://209.com. todos impossibilitados de interagir adequadamente com o professor ou entre si. Vejam só. O que realmente importa é a sensação de distância percebida pelo aprendiz (TORI. O aluno torna-se um sujeito potente.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 colegas. pode na aula on-line discutir tudo o que quiser. s/d. Às vezes. capaz de realizar ações que a fisicalidade da sala de aula não permitiria. que a identificação da relação interpessoal não possibilita.senacead.. tinha aprofundado conversas como aqui ocorreu.85. Assim. Nunca estive tão próximo dos meus colega de aula. o curso tem somente um mês e é incrível como já “conversei” com os colegas. DISTÂNCIA. Em todos os cursos que realizei nunca tive tantas informações sobre meus colegas. Essa sensação de distância tende a ser menor em cursos a distância já que esse contato torna-se mais rápido e com menos constrangimento..

Disponível em http://209.85.104 / www. Ávidos pelo conhecimento e bombardeados pelas novas tecnologias. é também por meio da relação homem-conhecimento que a linguagem significa.br 67 .165. não decora! Diante desses enunciados perguntamo-nos: como se dá a construção da relação sujeito educador e sujeito educando no ensino à distância? Quais as condições de construção dessa relação? Que elementos compõem a interação virtual entre o ser o saber? Se a linguagem é o discurso como percurso. Um dos pressupostos para tal preocupação assenta-se na dificuldade das instituições de ensino atenderem à demanda do estudante contemporâneo.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 A comunicação entre os envolvidos é de suma importância para o melhor aproveitamento de conteúdo e principalmente de oportunidades. mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social a fim de fazer deste um ser especial com capacidade de significar e significar-se (ORLANDI. A questão educacional no Brasil é tema que preocupa inúmeros segmentos da população no país. o aprendiz percorre instituições educacionais públicas ou privadas preocupado com uma formação que atenda a seus anseios e também aos do mercado capitalista. Já cursei uma faculdade presencial e posso afirmar que aprende muito mais com curso on-line pois não basta ler as aulas.com. os exercícios avaliam o entendimento e a aplicabilidade do conteúdo. 1999).guiaead. Você aprende mesmo.

5 Leitura Recomendada PÊCHEUX.4 Reflexão A originalidade que se edifica no EAD retém uma memória discursiva sobre o que é ser professor. o que é uma aula. são essas formações discursivas que permitem o aparecimento de novas posições-sujeito. Eni Punccinelli Orlandi [et al]. 8. p. GUIA DE EDUCACÃO A DISTÂNCIA 2005. Campinas. trad. SP: Editora UNICAMP. 1999). mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social a fim de fazer deste um ser especial com capacidade de significar e significar-se (ORLANDI. 8. Manuel. 13-33. é também por meio da relação homemconhecimento que a linguagem significa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 8. São Paulo: Segmento. 3ª edição. 2003. 68 . 1997. 2005. A galáxia da Internet. 8.3 Atividades Analise e explique a afirmação: Se a linguagem é o discurso como percurso. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio / Michel Pêcheux.6 Referências Bibliográficas CASTELLS. M. o que é ser aluno.

Linguística e Língua Portuguesa Linguagem e Tecnologia – Unidade 8 KUCINSKI. SP: Pontes. 69 . p. Campinas. São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo: Editora UNESP. 2005. Jornalismo na era virtual. ORLANDI. P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. 1999. Ensaios sobre o colapso da razão ética. Bernado. 71. E.