A Hermenêutica bíblica entre a hermenêutica do texto e a hermenêutica do ser The biblical hermeneutic: between the hermeneutic of the text

and the hermeneutic of the being Cláudio Vianney Malzoni* UNICAP - Recife Sinopse O presente artigo procura tratar da Hermenêutica bíblica de um modo geral. Ele começa por traçar um breve itinerário histórico da exegese e da hermenêutica bíblica para desembocar na complexidade dos métodos atuais de interpretação da Bíblia, privilegiando o método hitórico-crítico e os diferentes métodos de análise literária. Em seguida, é feita a distinção entre método e tipo de abordagem. Alguns tipos de abordagem são apresentados. O artigo termina levantando a questão se a vida também não pode ser um princípio hermenêutico de interpretação da Sagrada Escritura e em que condições. Abstract The present article spots to treat about the biblical Hermeneutic in a general way. It begins tracing a soon historic way of exegesis and biblical hermeneutic to discharge in the complexity of the present methods of interpretation of the Bible, privileging the historicalscientific method and the literary analysis methods. After, is made the distinction between method and kinds of approach. Some kinds of approach are showed. The article ends rising the question if can the life be also a Holy Writings hermeneutic principle and in what conditions.

Pode um mesmo texto bíblico ser interpretado de várias maneiras? Existem critérios que nos permitam identificar uma interpretação correta da Bíblia de uma interpretação incorreta? Há apenas um método válido de interpretação da Sagrada Escritura ou vários? Qual a diferença entre um método de interpretação e um tipo de abordagem da Escritura? A opção preferencial pelos pobres, típica da teologia da libertação, pode ser considerada como um tipo de abordagem bíblica? Quem pode fazer uma interpretação da Bíblia: apenas o especialista em Sagrada Escritura ou todo fiel? Estas perguntas, e outras, aparecem quando começamos a estudar a Bíblia. Este estudo ao qual nos referimos pode ser mais especializado, como também aquele estudo inicial, próprio dos cursos de teologia. Ou ainda perguntas de quem se interessa pela Bíblia e quer aprender sempre mais. Em geral, estas perguntas não aparecem numa primeira leitura, mas surgem quando se faz uma leitura reflexiva que se pergunta pela própria leitura. Esta leitura reflexiva, mesmo se implícita, levanta a questão da interpretação da Sagrada Escritura, e quem fala em interpretação da Sagrada Escritura, na verdade, já está pressupondo uma relação, que é aquela entre um sujeito (individual ou coletivo) e o texto. Podemos adiantar que, a nosso ver, o sentido que a interpretação da Sagrada Escritura quer alcançar não está nem no sujeito, nem no texto, mas na relação que irá se estabelecer entre eles. Esta é uma relação hermenêutica. Mas que é mesmo hermenêutica? É a ciência ou a técnica que tem por objeto a interpretação de textos. Etimologicamente, vem do grego hermeneuo que significa traduzir, interpretar. Muitas vezes, é usada como sinônimo de exegese, palavra que também vem do grego. Atualmente, se convencionou chamar de exegese a busca do sentido que o autor queria exprimir a seus contemporâneos e de hermenêutica o sentido que um texto pode

retomam outros livros do AT escritos anteriormente e os reinterpretam. mas também fora do ambiente rabínico. cuja finalidade é a atualização da Escritura. Há dois tipos de midrashim segundo o objeto da interpretação: o midrash halaká que é a interpretação e atualização da Lei (texto jurídico) e o midrash haggadá que é a interpretação e atualização de um texto teológico. e de forma mais facilmente perceptível. Elas se aplicam a todo tipo de texto e. 4 P. os primeiros cristãos continuaram lendo e interpretando o AT. uma tradução ao AT do hebraico ao aramaico. GRECH. feita versículo por versículo.5 Os evangelhos nos mostram o próprio Jesus interpretando passagens do AT. Ermeneutica. havia a interpretação praticada pelos essênios. qualquer tipo de texto. na literatura sapiencial mais tardia. além de textos literários. Enfim. É por isso que são releituras hermenêuticas. A hermenêutica bíblica: breve percurso histórico Podemos dizer que a hermenêutica bíblica começa com a própria Bíblia. 3-4. era a vida. 2. sua interpretação é do mesmo tipo que a praticada em seu tempo. De um modo geral.adquirir hoje. temos que certos escritos do Antigo Testamento (AT) passaram por diversas releituras antes de chegarem à forma como nós os conhecemos hoje. fora do ambiente rabínico da Palestina.2 Primeiramente. e de modo bem evidente. que dizia respeito à própria comunidade de Qumran e que era revelado apenas àqueles que dela participavam.1 Em si mesmas. Ele. e de derash uma interpretação mais alegórica. aos textos mais antigos. e que pressupunha que o texto bíblico possuía um sentido escondido. Na Palestina. temos que certos livros do AT. 5 P. 1990) 16-21.3 A interpretação da Sagrada Escritura que se fazia no tempo de Jesus é comumente chamada de midrash. MURA. PIB. acrescida de glosas explicativas devedoras dos midrashim. que ficou conhecida com o nome de midrash pesher. morte e ressurreição de Jesus que davam sentido pleno às Escrituras. P. mas a partir de um princípio inteiramente novo: para eles. Città Nuova. podemos identificar certos métodos ou princípios metodológicos. de um modo especial. Ermeneutica. Textos dos filósofos antigos também são objeto de estudos exegéticos e hermenêuticos. Segundo. GRECH. 3 P. 1. O termo hermenêutica provém do nome do deus Hermes da mitologia grega. G. nem a hermenêutica.4 Nas sinagogas. temos os escritos do Novo Testamento (NT) que constantemente reinterpretam os escritos do AT abrindo novas possibilidades de leitura para aqueles. e outros. 2 Cf. Estas releituras introduziram novas interpretações a estes textos na direção de atualizá-los em um contexto posterior. nem a exegese são próprias da Bíblia. porém. Ermeneutica e verità: storia e problemi della filosofia dell’interpretazione (Roma. O princípio básico que norteia estas releituras é que o significado da Sagrada Escritura não se esgota nas circunstâncias nas quais foi proclamada primeiramente. Enfim. em Qumran. 2 . uma interpretação alegórica propriamente dita dos textos bíblicos era praticada por Filon de Alexandria. de modo especial. 1991) 1. estes modos de interpretar a Escritura influenciou o aparecimento do Targum. Depois de Jesus. chamava-se de peshat uma interpretação mais literal. Quanto ao método. GRECH. quase sempre de caráter narrativo. Ermeneutica (Roma. e às questões de metodologia tanto da exegese como da hermenêutica. Ermeneutica. Na maneira como o NT interpreta o AT. vamos nos limitar primeiramente ao texto da Sagrada Escritura. que era aquele que conduzia os viajantes e as almas dos mortos no Hades. Ela consistia em uma interpretação muito simples. 2-3. parece menos dependente do texto bíblico como tal do que o eram os intérpretes de então. Aqui. Por este tempo. GRECH. Enunciemos alguns: 1 Cf.

Ainda outro exemplo seria o discurso de Estêvão. Este método é utilizado sobretudo para os Profetas e Salmos. bem simples. confessado no batismo e transmitido pela tradição. c) Profecia e realização. Também aparece nos evangelhos sendo usado por Jesus.8-11. GRECH.2. Este método é usado várias vezes na Carta de Tiago: 2. 1. O próprio Jesus aparece usando este método. 7-8. que aponta toda ela para o Cristo.26-27 interpretando Ex 3.: 7.23). O segundo é a analogia fidei.20-25. Este princípio.24.23-26.22. Devemos a Irineu dois princípios básicos de interpretação da Sagrada Escritura.18-22. 9. É um método bastante comum no Apocalipse. Jo 4.35-37 interpretando Sl 110.5. Exemplos: Mc 12. Para tomar apenas dois exemplos: Ap 4. Ele começa marcado sobretudo pela polêmica contra o judaísmo e contra o gnosticismo.1.26-30. O evangelho de Mateus utiliza muitas vezes deste método. 2. Talvez quem mais utilize este método no NT seja Paulo. não explica a Escritura.15. 5.30-33. Mc 12. buscava o significado primeiro e literal de uma passagem. Ermeneutica. 3 .7 No século III. Ela tende para uma interpretação de tipo gramatical. Toda a Carta aos Hebreus está construída sobre este método. GRECH. Parecido com o anterior. ainda muito próximo da hermenêutica neotestamentária e compartilhando muito de seus métodos. nenhuma passagem deve ser tomada isoladamente. As palavras dos profetas e salmistas são retomadas pelos escritores do NT como sendo cumpridas nos acontecimentos da vida de Jesus e da Igreja nascente. Já na polêmica contra o gnosticismo.5-6 que reescreve Ex 2. Exemplo: 1Pd 3.10-11.28-30. o assim chamado Evangelho da infância de Jesus em Mateus (cf. Ermeneutica. b) Exemplificação. Exemplos: Jo 6. Podemos marcar o início deste novo período no século II.10-11.26-28. é aquele praticado pela patrística. em última instância. Estes textos evocam episódios que são compreendidos como figuras de outros episódios que se realizaram na vida de Jesus e da Igreja nascente. ex. cinco vezes somente nos capítulos 1 e 2. sendo encontrado também nos evangelhos. o destaque fica por conta de Irineu. O primeiro é a chamada regula fidei. Mc 12.6. interpretando Sl 78. primeiro com Clemente e depois com Orígenes. é a chamada Escola de Alexandria que passa a se destacar. Um belo exemplo se encontra em Rm 5. Trata-se de elencar um ou vários exemplos ilustrativos a respeito de um tema. Exemplos: Mc 2. e ainda que uma passagem da Escritura se explica primeiramente por outra passagem da Escritura e que.. Jo 19.16b-18. P. a unidade da Escritura. cf.12-21. At 2. Lc 17.a) Interpretação literal ou simples. Isto significa que o mesmo Deus fala em toda a Sagrada Escritura. f) Reescritura.8 que reescreve Is 6. No NT.6 O primeiro na polêmica contra o judaísmo foi Justino. e) Expansão. mas dá o enquadramento dentro do qual uma interpretação deve manter-se para poder ser considerada eclesialmente verdadeira. Esta interpretação. ou seja. este princípio é utilizado para o AT de maneira mais ampla. sobretudo para textos narrativos.22-31 interpretando Sl 16. Esta Escola distinguia o sentido literal e o sentido 6 7 P.17. o princípio do credo apostólico.15. ela aparece sendo usada inclusive por Jesus. no capítulo 7 dos Atos dos Apóstolos. de fato. ou seja. p. O período seguinte da hermenêutica bíblica. d) Figura e realização. tendo como base uma expansão da reflexão do Dia da Purificação.

Ermeneutica. Também neste século começou a florescer a Escola da Capadócia. o primeiro sendo a base para se chegar ao segundo. como de todas as Escrituras divinas. pelo ensino da Sacra Pagina nas escolas e universidades e pela composição de copilações de comentários patrísticos que eram chamados de catenae. The Image of the Image Maker in the Poetry of St. 19-20. mostra não as ter ainda compreendido”. in E. e praticou a crítica textual (escolha entre as lições dos manuscritos disponíveis daquela que apresentava maior probabilidade de ser original). é o amor: o amor do Ser de que devemos beneficiar e do ser que é chamado a beneficiar dela conosco. Quem. o princípio da Sola Scriptura acabou sendo levado ao exagero por alguns. Nesta Escola. A poesia foi o principal gênero literário através do qual Efrém expos sua interpretação bíblica. inclusive. preferia aquele da antiga versão latina. o sábio persa. GRECH. 1993) 258-269. distinguia-se entre o sentido literal ou histórico e o sentido superior ou theoria.).. pregando que o evangelho 8 9 P. Para este último.XXXVI. esse dúlpice amor de Deus e do próximo. ao menos. a finalidade última do estudo da Sagrada Escritura é o amor. o centro da interpretação bíblica desloca-se para a Escola de Antioquia. na Palestina. A Sagrada Escritura foi valorizada. sobre os evangelhos. A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. a Igreja siríaca. Ele também conhecia o modelo rabínico de interpretação das Escrituras. LIVINGSTONE (ed. uma sua parte.9 Por esta mesma época. O primeiro.11 No período seguinte. mas se insistia que entre um e outro há uma continuidade necessária. Vale reproduzi-la também aqui: “É fundamental compreender que a plenitude da Lei. o Concílio de Trento reafirmou a importância da Tradição. Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo. enquanto que somente o alegórico ou espiritual pode revelar o significado da Escritura. com Gregório de Nissa. 10 S. Em seu método de explicar a Sagrada Escritura. julga ter compreendido as Escrituras ou. Ermeneutica. Studia Patristica XXV. GRECH. portanto. sem empenhar-se em construir. 24. Há no recente documento preparatório para a XII Assémbleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos uma longa citação tomada de Agostinho a este respeito. para a nossa salvação.alegórico de um texto bíblico e privilegiava o sentido alegórico. Estes deram um destaque maior à Escritura em detrimento da Tradição.8 Já Agostinho.XXXV. mostrava toda sua vitalidade. Ephraem. através da inteligência das mesmas. Jerônimo considerava importante expor as diversas opiniões existentes sobre uma determinada passagem. 12 P. também ele. A. a mais famosa de todas foi a Catena Aurea. Sínodo dos Bispos. No século IV. composta por Tomás de Aquino. 20-23. GRECH. na região da Mesopotâmia. 4 . como texto da Sagrada Escritura. toda a economia temporal. Foi Jerônimo que deu ao Ocidente cristão sua mais importante versão da Bíblia: a Vulgata. Papers presented at the Eleventh International Conference on Patristic Studies held in Oxford 1991 (Leuven. 11 P. Ermeneutica. tanto a Escritura como a natureza estão repletas de símbolos que falam do Cristo e de sua Igreja. GRECH. carecer de sentido. Segundo Agostinho. Lineamenta. Ele admite que um texto bíblico tenha um sentido querido pelo seu autor (que pode. mas. e que possa ter também um sentido em si. com Deodoro de Tarso. aramaico e grego. 27. apesar de sua ligação com o Ocidente.10 O Ocidente medieval cristão se caracterizou pela lectio divina praticada nos mosteiros. É para dar-nos a conhecer esse amor e torná-lo possível. como num efeito colateral. Para Orígenes. não previsto pelo autor humano mas sim por Deus como autor. a leitura tipológica era privilegiada. no Oriente. viveu em Belém. inclusive. Tomado do De doctrina Christiana I. H. Na patrística latina. Ermeneutica. o sentido literal pode.39 e I. que a divina Providência criou. a Vetus Latina. Peeters.12 De sua parte. Cf. de toda Sagrada Escritura. P.. duas figuras se sobressaem: Jerônimo e Agostinho. XII Assémbléia Geral Ordinária. e o de Efrém de Nisibe. a edificação da vida cristã. GRIFFITH . feita a partir do texto grego da Septuaginta (LXX). Já na theoria.40. temos o surgimento da exegese protestante ou aquela que emerge de Lutero e dos primeiros reformadores. Os nomes mais expressivos desta Igreja são os de Afrahat. Jerônimo valorizou o texto original: hebraico. ser não apenas um).

do Concílio Vaticano II. GRECH. levada em conta a Tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé" (DV 12).se encontra seja em livros escritos que na tradição não escrita. o texto e o leitor. o que será nosso próximo assunto. para quem a linguagem simbólica da Sagrada Escritura precisava ser reinterpretada.13 O início da exegese moderna se deu a partir do século XVII. foi sentida apenas no mundo protestante. pois. Ermeneutica. Era uma linguagem mítica e o homem moderno tinha adquirido uma visão científica do mundo. Barth e de R. foi a filosofia hermenêutica de W. como um freio para o avanço de novos estudos. 43. A regula fidei ou o credo apostólico. Ermeneutica. Podemos dizer que a perspectiva hermenêutica no trato com o texto bíblico passa para um segundo plano. porém. o aparecimento de novos métodos críticos no tratamento de textos antigos e a revalorização da história e as novas descobertas que ampliaram o conhecimento da história. mas em sentido contrário. e a Constituição Dogmática Dei Verbum (1965). a linguagem dos autores bíblicos tinha deixado de ser compreensível. a encíclica Divino afflante Spiritu (1943). Tomemos um trecho desta última que toca no tema deste artigo: "Mas como a Sagrada Escritura deve ser também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita. no campo filosófico. preciso retraduzir aquela linguagem nesta outra para que o texto bíblico voltasse a ter sentido. Na seqüência. Já para Bultmann. É no seio do Povo de Deus que a Sagrada Escritura pode ser corretamente interpretada. substituída. Por outro lado. 16 P. Um passo importante. Ambos recolocaram a questão hermenêutica. deixando o primeiro plano para a perspectiva exegética. Dilthey. e o do Pentateuco. No campo bíblico.16 Em ambiente católico. porém. mas cada um a seu modo.17 Durante o século XX. Este estado da questão nos conduziu a uma pluralidade de métodos de interpretação das Escrituras.14 Nos séculos seguintes. Ermeneutica. Ermeneutica. P. 29-30. que começaram a preparar novos estudiosos. Na virada do século XIX para o século XX. GRECH. foi a criação do Pontifício Instituto Bíblico de Roma e da Escola Bíblica de Jerusalém. começava um lento despertar para as novas questões colocadas para a interpretação da Sagrada Escritura. Ermeneutica. 13 14 P. Antes. I. não. no cristianismo. G. Era. a criação da Pontifícia Comissão Bíblica funcionava. a descoberta de manuscritos bíblicos mais antigos que os manuscritos até então conhecidos na Europa. vindos do Oriente. expressa por Irineu. Primeiramente. Barth se perguntava sobre o significado do texto bíblico para o homem moderno. GRECH. deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura. M. tudo isso provocou uma completa revolução. 5 . de Pio XII. 28. por este tempo. 15 Pela mesma via. de modo especial. Bultmann. dois documentos oficiais contribuíram para que a exegese no mundo católico se recolocasse em dia. GRECH. 17 P. pela nova maneira de se compreender a relação entre o autor. e definiu a lista dos livros canônicos da Escritura. mas que. foram os trabalhos de P. há uma relação muito íntima entre Povo de Deus e Sagrada Escritura. GRECH. vieram os trabalhos exegéticos de K. para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados. podem ser elencados fatores externos que conduziram a mudanças: o racionalismo e o iluminismo. 15 P. Ricœur. Heidegger e H. 48-49. vejamos três princípios básicos que podemos colher deste nosso percurso histórico e que poderiam servir para nós hoje como critérios de verificação de toda interpretação bíblica. 50. dois campos foram os que passaram por uma crítica mais profunda: o da vida de Jesus. Segundo este critério. Gadamer que provocaram mudanças na exegese. com o surgimento da “questão sobre o Jesus histórico”.

novas chaves interpretativas podem ser introduzidas. também é certo que no Oriente Antigo. o que. No decurso da transmissão oral a própria tradição vai sendo reelaborada. 2. Em 1993. de certa forma. O exercício da caridade. necessariamente. Se a finalidade última do estudo da Sagrada Escritura é o amor. sua justa compreensão não só admite como legítimo. 30. o processo redacional mais comum era o de fazer acréscimos. passando pelas mãos hábeis de editores que deram unidade a textos que antes existiram separadamente. nomes de personagens e de localidades podem sumir ou serem transformados. segue que toda boa interpretação deve conduzir à maior fraternidade entre os povos. Na Antigüidade. é o oposto do que ocorre na transmissão oral. Os livros dos Salmos e dos Provérbios ilustram muito bem a formação destas coleções. um texto começa a se fixar. Hoje. ao serem juntadas. todos eles apresentando vantagens e desvantagens. Por outro lado. O mais provável é que ela misture tudo. Métodos de interpretação bíblica Como acabamos de mencionar.II. no qual apresenta diversos métodos de interpretação da Sagrada Escritura. se existe uma pré-história do texto e uma história redacional. Outro processo comum era o de formar coleções juntando peças que antes tiveram uma existência separada. pode remontar a um acontecimento histórico e ou a lendas. Mas também outros escritos como o livro de Isaías ou o Pentateuco se formaram a partir deste processo. percebe-se melhor que muitos textos nasceram já como obras literárias escritas e não remontam. foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes. por sua vez. III. expressa também por Irineu. Uma tradição oral. dava-se uma importância muito grande à tradição oral. não será veraz qualquer interpretação que produza divisões entre as pessoas e entre os povos. O primeiro método a ser apresentado e aquele que é tratado com maior destaque é o método histórico-crítico. Assim o Documento começa sua apresentação deste método: "O método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. o sentido da Sagrada Escritura aparece no seu todo e nenhuma passagem deveria ser interpretada isoladamente. Vozes. podendo acontecer que. 6 . ou pode ter uma pré-história: uma tradição oral que o precede. a transmissão oral desempenhou um papel significativo na transmissão da cultura. A analogia fidei ou a unidade da Escritura. Alguns ambientes aparecem 18 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . como em muitos povos em que a escrita é o privilégio de uma elite. Segundo este critério.18 O método histórico-crítico investiga o contexto histórico no qual um texto surgiu: quando foi escrito. dito negativamente. Como a Sagrada Escritura. Um texto pode ter sido criado quando foi escrito. mas ainda pode ser retrabalhado. O método histórico-crítico também procura estudar o ambiente no qual uma determinada tradição surgiu e foi preservada e transmitida. 1994). enquanto “Palavra de Deus em linguagem humana”. estas peças adquiram um novo sentido. A Interpretação da Bíblia na Igreja (Petrópolis. Detalhes podem desaparecer. a uma tradição oral anterior. no momento atual. Há algum tempo atrás. mas pede a utilização deste método”. Uma vez posto por escrito. ou. critério que remonta a Agostinho. existe uma pluralidade de métodos de interpretação bíblica. a Pontifícia Comissão Bíblica publicou o documento chamado A interpretação da Bíblia na Igreja.

preferencialmente. 18-19. Já para o NT. Deutsche Bibelgesellschaft. A Interpretação da Bíblia na Igreja. 7 . num texto. em seguida. Por outro lado. Crítica literária.21 Podemos incluir juntamente com a análise lingüística a determinação do gênero literário de um texto. Consiste no levantamento de pontos de sutura que podem ser tomados como indícios de que se está diante de um texto que foi retrabalhado. Tais ambientes podiam ser encontrados nos santuários. Um dos pioneiros do método histórico-crítico no campo da exegese católica foi M. no século XIX. como verdadeiras tapeçarias textuais. o método se estendeu para outras partes da Bíblia. outros veiculam tradições diferentes sem grandes preocupações de harmonização. recebendo influências de outras línguas. a análise lingüística de seus textos pode trazer resultados. no final do século XIX. lá pelo início do século XVII. Análise lingüística. palácios reais e nas escolas. 21 Há que se levar em conta que a Bíblia Hebraica levou alguns séculos para se formar. 199327). Quem arcava com estes custos produzia o que era de seu interesse. ELLIGER et W. a presença de certas formas arcaicas do hebraico é considerada como um bom indício de um texto mais antigo. Não podemos nos esquecer que a produção de um livro na Antigüidade tinha um custo muito mais elevado que hoje. As origens deste método podem ser encontradas na exegese patrística. Biblia Hebraica Stuttgartensia (Stuttgart.como privilegiados no desempenho dessa função.16-20 que narra a morte de Raquel.10 pressupõe que sua mãe ainda fosse viva e provém de uma tradição diferente de Gn 35. Faz-se. 1990) e B. este método continua sendo largamente empregado a ponto de se poder dizer que ele constitui uma aquisição da exegese bíblica por toda parte. principalmente em Orígenes. Delimitação de uma unidade textual. fundador da Escola Bíblica de Jerusalém. Esta crítica desembocou. as edições críticas principais são: K. Deutsche Bibelgesellschaft. Novum Testamentum Graece (Stuttgart. templos. Jerônimo e Agostinho. Elas poderiam ser assim descritas: I. 20-21 do Sl 51 devem ter sido acrescentados por um editor descontente com as afirmações dos vv. aparece uma palavra de origem persa. Atualmente. Como esta delimitação envolve aspectos de crítica literária. Atualmente. São várias as etapas do trabalho com o método histórico-crítico. Há textos que mostram uma história literária bastante complexa. o hebraico mudou.19 Este método foi desenvolvido sobretudo pela exegese alemã protestante e foi visto com muita desconfiança pelas autoridades da Igreja Católica. é sinal de que este texto ou foi escrito ou passou por uma revisão na época em que o Império Persa exercia sua hegemonia sobre o Antigo Oriente. IV. Outro exemplo: os vv. o intervalo de tempo para sua composição foi bem menor.22 19 20 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . uma delimitação provisória a ser confirmada ou corrigida nas próximas etapas do trabalho. 30-31. por exemplo. por enquanto. Do Pentateuco. em Gn 37. RUDOLF. ele ressurgiu e se estruturou a partir das investigações sobre o Pentateuco. II. na teoria documentária: os quatro documentos (fontes) do Pentateuco. ALAND et alii. Vale lembrar a importância da família e dos clãs na transmissão da tradição oral. Já a transmissão de uma tradição escrita pressupõe um ambiente letrado. Lagrange. ela será. A crítica que se levantou na época foi quanto à atribuição da autoria do Pentateuco a Moisés.20 III. Na modernidade. o levantamento das principais variantes textuais trazidas por estas edições. Durante este tempo. Mesmo assim. Sua intuição básica ao fundar esta Escola era estudar a Bíblia no próprio chão em que foi escrita. Esta análise exige um bom nível de conhecimento do hebraico e do grego. Crítica textual. O texto a ser trabalhado deve ser tomado. 22 Exemplo: o início da história de José. Quando.-J. de uma edição crítica.

A existência de relatos paralelos mostra a existência de tradições diferentes a respeito de um mesmo fato ou tema.41. a origem destas fontes. Elenco dos relatos paralelos. inclusive. Os dados da arqueologia. Esta ciência desenvolveu-se muito nos últimos tempos. 2) É possível ao homem contemplar a face de Deus? Dois textos bem próximos um do outro pressupõem respostas diferentes: Ex 33. mas pouco depois. os textos bíblicos inclusive. também devem ser tomados com cautela. Eles devem provir de fontes diferentes e de ambientes diferentes. mas também no interior de um mesmo livro.24 VIII. Procura investigar possíveis modificações pelas quais um texto possa ter passado antes de se fixar e por que passou por tais modificações.48b. embora concordem na intenção de fundo. questionam informações dadas pela Bíblia e antes vistas como absolutamente seguras. haveria que se levar em consideração que a busca por compreender estes temas não é 23 Há casos. XI. novos métodos de escavação foram aparecendo. podemos inserir aqui a investigação sobre as fontes utilizadas para a elaboração do texto. no capítulo 23. o método trabalhou apenas com o texto em si.4-25. A partir da própria experiência dos arqueólogos. ainda de relativa fluidez. o estudo de passagens paralelas é bastante comum.26 O método histórico-crítico também lança mão das investigações de outras ciências.3 e 2. 8 . uma vez que algumas traduções antigas remontam a uma etapa anterior à fixação do texto. Estes relatos não são possíveis de ser harmonizados em seus detalhes. O texto grego é. 24 Um exemplo interessante é dado pela narrativa do combate entre Davi e Golias. Alguns dados apresentados pela arqueologia. Crítica das tradições. o ambiente do qual provêm e o ambiente no qual foram amalgamadas. mas ele pode se abrir ainda para outras instâncias de trabalho textual. Duas hipóteses podem ser levantadas: ou o texto grego é a tradução de um original hebraico mais breve que depois foi glosado. Esta época foi importante para os estudos bíblicos. portanto.1—2.V.1 de que Jesus batizava. em 1Sm 17. Temos aqui: X. pois um mesmo dado pode ser interpretado de diferentes maneiras por diferentes arqueólogos. 12-31. Temas como a criação do mundo e da humanidade. Atualmente. VII. muitas vezes aparecem tradições diferentes não apenas de um livro para outro.23 Até aqui.43-45 acena para uma conquista total da terra. Crítica redacional. ou o texto grego representa uma tradução abreviada de um texto hebraico original mais longo. 26 Exemplos: 1) Js 21. 25 Exemplo: os dois relatos da criação: Gn 1. A análise comparativa com outros textos do Oriente antigo.7-11. como o acréscimo de Jo 4. Nos evangelhos. Por outro lado. 33. A arqueologia.50. que podem ser chamados de “censuras textuais”. no entanto.2 para corrigir a informação de Jo 4. No relacionamento Bíblia e arqueologia. na versão grega dos LXX não aparecem os vv. Elenco de referências cruzadas. a arqueologia se emancipou e já não trabalha mais a partir da Bíblia. De um modo amplo. o dilúvio e as migrações de povos são comuns nestes textos. Esta comparação também pode ajudar a identificar as etapas do processo redacional pela qual um texto passou. Ao se cruzar referências. com textos religiosos. muito mais breve. Exemplo: a destruição de Jericó (Js 6.55-58.25 IX. É impossível negar que há algumas idéias mestras que perpassam os textos religiosos do Oriente antigo.1-21) não é corroborada pela pesquisa arqueológica. Comparação entre as tradições textuais antigas.18-23. VI. de modo especial. Josué dará instruções de como se comportar diante das nações estrangeiras que ainda permanecem no território. no início. por exemplo. a arqueologia trabalhava a partir do dado bíblico.

em três grandes etapas. A análise comparativa dos arquivos históricos: a Bíblia relata alguns fatos que se inscrevem na história do Antigo Oriente e nos quais entram em cena outros povos. Por exemplo. Vozes. por volta de 722. O método histórico-crítico mostra assim sua grandeza e complexidade. com quem o texto polemiza. Senaquerib. rei da Assíria destruiu Samaria. medem forças junto com os povos. sempre que o ser humano se interrogou sobre Deus. lugares e cenários. Ao se identificar as camadas redacionais de um texto. corre-se o risco de se valorizar apenas a camada mais antiga. capital de Judá. A primeira etapa é a dos panteões com várias divindades. na segunda etapa se dá hierarquização desse panteão. entre estes povos. Eles podem ser utilizados mais facilmente que o primeiro. Um deles nasce de um pré-juízo – típico do romantismo alemão – de que o que é mais antigo é sempre melhor. Ela pressupõe que há várias teologias na Sagrada Escritura e mesmo uma “evolução” na concepção de Deus. Esta expedição de Senaquerib ficou registrada nos arquivos assírios? Enfim. Eles dependem 27 Exemplo: Gn 22. o método histórico-crítico procura determinar o contexto histórico no qual um texto possa ser situado. mas falta consenso em relação a estas teorias. A partir dos textos religiosos do Oriente antigo (incluindo os textos bíblicos) pode-se formular uma teoria a respeito da passagem do politeísmo ao monoteísmo.1-19. Qual a teologia que o texto veicula? Esta questão é mais difícil. Outro limite é a separação entre leitura exegética e leitura espiritual que este tipo de método pode favorecer. Essa questão não é evidente embora não faltem teorias a esse respeito. Paralelamente ao método histórico-crítico. As divindades participam das batalhas. Atualmente. XIII. A questão aqui é a de se interrogar se. algumas perguntas podem ser formuladas para o texto. Um bom exemplo de como trabalhar estas questões é dado por C. surgiram também os métodos de análise literária. 9 . capital do reino de Israel.exclusiva dos povos semíticos. é preciso investigar se o próprio texto não deixa transparecer – nas entrelinhas – a época em que foi escrito. o politeísmo está ligado à polietnia. Qual a função do relato? Pelas personagens e costumes. 1986) 7-13. mas se desenvolveu por toda parte. XII. Uma outra teoria. também alguns de seus limites aparecem com mais clareza. nos últimos tempos. cada Deus tem seu templo. toma como ponto de partida a concepção de divindades nacionais. é identificado como Sagrada Escritura. muitas vezes o texto deixa transparecer o contexto histórico em que surgiu. Mas o fato do povo de Deus ter tomado – e adaptado – tradições religiosas de outros povos é bastante significativo para a teologia da revelação. ligadas à terra: cada povo tem seu Deus.27 XIV. o Deus mais forte vence. em seu conjunto. Mesters nas primeiras páginas de seu pequeno comentário ao livro de Rute: C. MESTERS. Para responder a esta questão. mas também podem se tornar extremamente complexos e especializados. a quem ele quer convencer e de quê. uma vez que é mais importante o contexto histórico no qual um texto foi produzido do que o (suposto) contexto histórico ao qual se refere. ficou algum registro desses fatos. mais complementar que concorrente. devastou o reino de Judá e tentou destruir Jerusalém. Esta questão é de extrema importância. Rute (Petrópolis. na terceira etapa se passa do Deus principal ao Deus único. entre as quais destacaremos duas. Jz 11. esquecendo-se que acréscimos ou mudanças inseridos num texto também fazem parte do texto que. Também haveria que se levar em conta as diferenças entre os textos bíblicos e os outros textos religiosos do Oriente.29-40 podem ter surgido em polêmica contra os sacrifícios humanos. Outra pista importante aparece quando se pergunta qual a função do relato. Para isso. Aqui.

o narrador deixa o primeiro plano. fazendo aparecer certos detalhes que facilmente nos escapam. Um livro de ciências é diferente de um livro de literatura. o aparecimento de uma nova personagem que. como por exemplo. uma receita culinária é diferente de uma poesia de amor. É por isso que um gênero literário não é algo exterior à transmissão de uma mensagem. Na ambientação aparecem as principais informações que o leitor precisa para compreender o relato ou ao menos seu início. O tempo da narrativa. profético. Em geral. Em geral. mas também pode acontecer que se deixe para dar alguma informação relevante durante o desencadear do relato. as informações mais importantes sobre o enquadramento são dadas no início do relato. sem discurso. Mas nem por isso falta à narrativa bíblica o necessário para sua compreensão. de João Cabral de Melo Neto. Subsidia Biblica. não é o mesmo num discurso e numa narração: no discurso. Diferenciar narração e discurso. E muito embora uma mesma mensagem possa ser transmitida de diversas maneiras. inclusive. que se caracteriza por um aumento da tensão. haverá sempre uma maneira que a expressará melhor. Depois vem o enlace ou problematização: a narrativa entra em um clima de tensão. ou então se tratam de informações que o narrador não considera como relevantes para sua história. Um plano narrativo se desenvolve (ou se desdobra) em etapas. as narrativas bíblicas são bastante simples e desprovidas de certos detalhes que um leitor moderno é acostumado a procurar. pode ser muito breve. isto é: encontrar as anotações de tempo e de lugar e quais são as personagens do relato. 13 (Roma. Daí a importância em se compreender bem o que é gênero literário. o leitor pode por si mesmo preencher estas lacunas. a mensagem é veiculada com muito mais facilidade. as etapas principais são: ambientação. 10 . e podem se apresentar misturados. Gênero literário são formas textuais típicas e apropriadas para se transmitir uma mensagem. Encontrar o plano narrativo. o tempo da narrativa é mais breve e. O tempo da narrativa ajuda a compreender onde está o mais importante do relato. terá um papel significativo. Quando há um discurso. e as duas são diferentes de um código de leis de trânsito. Quando se faz análise narrativa.fundamentalmente da identificação do gênero literário de uma unidade textual. o tempo da narrativa é igual ao tempo do que está sendo narrado. Os dois gêneros literários básicos são o narrativo e o poético. há outras duas personagens por trás da narrativa que também são importantes: o narrador e o leitor. PIB. III. sapiencial.28 Os passos para a análise narrativa são: I. na narração. cedendo este lugar importante para as personagens. O narrador também pode deixar algumas lacunas em seu relato. Em geral. Na Bíblia. epistolar e apocalíptico. enfim. Estes gêneros comportam sub-gêneros. Em geral. Determinar o enquadramento do relato. também são importantes os gêneros jurídico. Um relato pode ser formado apenas por narração. passa-se à análise literária apropriada àquele gênero literário. desenvolvimento. enlace. A etapa seguinte é o desenvolvimento. quase sempre direcionado para a busca da solução do problema que apareceu na etapa anterior. clímax e desenlace. ou por uma narração permeada de discurso. por exemplo quando se narra uma história em forma de poesia. Uma vez identificado o gênero literário de um texto. 28 Um bom estudo básico sobre as narrativas bíblicas pode ser encontrado no livro de Jean Louis SKA. isto é. II. quando o problema é solucionado. 1990). O clímax é o momento que antecede a solução do problema. Enfim vem o desenlace. sua duração. como é o caso do poema “Morte e Vida Severina”. Quando gênero literário e mensagem se casam bem. “Our Fathers Have Told Us”: Introduction to the Analysis of Hebrew Narratives. A análise narrativa é usada para textos narrativos e serve para tornar o texto mais conhecido.

A situação no início do relato é de desconhecimento. A função da poesia aqui não é falar do amor. Se o relato começa mal e termina bem se diz que é uma comédia. Ele pode escolher revelar seu “segredo” ao leitor no início. Por exemplo: a poesia hebraica tem formas próprias. Ela está em 2Sm 1. Isso se dá quando o desenlace de uma primeira parte do relato pode ser o enlace de uma segunda parte. Há dois tipos básicos de planos narrativos: planos de situação e planos de revelação. ou seja: para falar por metáforas. Quando ele revela no início. há algo a ser conhecido. para não dizer impossíveis. no final é de conhecimento. Também pode acontecer que o narrador deixe sua narrativa inacabada. A revelação é sempre uma prerrogativa do narrador. Na terceira. É assim que o livro dos Salmos é um dos mais repletos em poesia de toda a Bíblia. Isto é. Nestes códigos. para que tome uma posição. O estribilho desta elegia é: “como caíram os heróis”. todos os versos da estrofe começam com a mesma letra do acróstico. Um gênero típico da poesia bíblica é a lamentação. estas narrativas são um convite ao leitor para que se pronuncie. No plano de situação.1727.29 IV. não aparece no NT.30 Quando o gênero literário é o poético. É bastante comum estes dois tipos de planos aparecem entrelaçados. O gênero literário narrativo pode se estender em narrativas mais longas.Em um relato. ao que parece composta para ser declamada por uma personagem masculina (o amante). Ele é encontrado sobretudo nos “códigos de leis”. Quando Davi recebeu a notícia da morte de seu amigo Jônatas e de seu pai. este esquema pode se repetir mais de uma vez num entrelaçamento. Outro tipo de poesia é a elegia. Há outras muitas formas de poesia. Quase sempre estas poesias surgem quando morrem pessoas queridas. deixando de lado a questão da forma (intraduzível). Usamos a poesia para falar indiretamente das coisas. o tipo de análise literária é diferente. como a poesia romântica do Cântico dos Cânticos. A poesia serve também para se falar de Deus ou a Deus. Em geral. o perdão. o leitor compartilha a mesma situação das personagens. que é a poesia composta em honra de um herói. praticamente. Lc 15. A poesia serve para expressarmos coisas que nos tocam profundamente. cada língua e cada cultura têm seu jeito de fazer poesia. uma elegia tem como objetivo enaltecer as virtudes que levam ao heroísmo. durante ou somente no final de seu relato. cf. Ele é composto de cinco lamentações. A análise de um texto poético. Há inclusive um livro na Bíblia chamado de Livro das Lamentações. O gênero literário jurídico é encontrado no AT e. 29 30 É o que acontece na parábola do filho pródigo. uma vez que as formas poéticas são próprias em cada língua. são temas comuns da poesia. Além de exaltar um herói. As quatro primeiras são em acróstico. Em geral. o interesse se dirige para a situação das personagens. que são difíceis de ser traduzidas. num momento de catástrofe nacional.31-32. Temos um exemplo típico de epopéia nos capítulos 1 a 15 do livro do Êxodo. Nestes casos. Um exemplo de novela nos é dado pelo livro de Tobias. No plano de revelação. se começa bem e termina mal trata-se de uma tragédia. No plano de situação. o rei Saul. Identificar o tipo de plano. Tudo porém pode ser dito poeticamente. mas chamar a atenção para a experiência da dor. outra feminina (a amante) e um coro (as Filhas de Jerusalém). os tradutores optam por traduzir a poesia pelo seu sentido. entram leis de todo tipo. se ele o revela somente no final. 11 . temos a saga ou epopéia e a novela. a amizade. há uma situação que é mudada. compôs uma elegia para eles. comporta certa dificuldade. O amor. no entanto. dizemos que o leitor está numa situação privilegiada em relação às personagens (ou a uma personagem) do relato.

como a vida religiosa. 47. há dois tipos de oráculos: oráculos de condenação e oráculos de salvação. como a conduta moral. O gênero literário sapiencial é encontrado nos escritos sapienciais do AT: Jó. A mensagem central desta primeira fase da apocalíptica é de que nada é imutável. a linguagem apocalíptica teria sido criada para expressar grandes transformações. com 2. há um altorelevo que retrata Hamurabi recebendo o código de leis de Šamaš.20. enquanto que no gênero apocalíptico a mensagem é cifrada. de ordem religiosa ou até mesmo por um simples gosto literário. Uma das formas como a sabedoria vem expressa é através de provérbios. 12 . Foi um tempo de esplendor.11. Eclesiastes. As razões para a linguagem cifrada são várias: elas podem ser de ordem política. Alguns dos livros proféticos contêm trechos com discursos apocalípticos.1-12). a Carta de Tiago e o Sermão da Montanha. damos aos discursos proféticos o nome de oráculos. como fez o sábio Coélet.8. O gênero literário profético aparece nos livros proféticos do AT. O código é uma coletânea de leis referentes à família. Mas no gênero profético.tanto aquelas que regem a vida social. Jr 1. no evangelho segundo Mateus. que quer dizer Instrução. mas há vários escritos extra-canônicos deste gênero. O Código de Hamurabi foi encontrado em 1901.4-10. Eclesiástico e Sabedoria. No AT. “Oráculo de Javé” (cf. razão pela qual ele não é tão importante no AT.22). sobretudo na ordem cósmica. fazendo-se enquadrar uma história no passado ou no futuro. Estes livros são chamados de Torah. cf. Há algumas fórmulas típicas nos oráculos proféticos.). que para o judaísmo são os livros da Lei. em geral. Quanto ao preceito. Is 5.1-3). “Ouvi” (cf. houve vários códigos de leis. como se pode ver pelas coleções de máximas no livro dos Provérbios. O outro é o que chamamos de confissão. com o qual mantém afinidades. Muitas vezes aparece a figura de um intérprete.18. Os textos jurídicos do AT se encontram principalmente no Pentateuco. Ele consolidou a fusão entre as culturas suméria e acádica. É quando o profeta conta como foi que Deus o chamou. aos escravos. Nas confissões. o profeta se dirige a Deus. em forma de cone. além do preceito. As principais são: “Assim falou Javé” (cf. uma justificativa e uma recompensa ou ameaça. O gênero literário apocalíptico se desenvolveu em uma época mais tardia. como ocorre em Dn 2.21. Um são os relatos de vocação. Além das leis.1. 20. Provérbios. ele pode ser formulado de modo positivo ou negativo. Cria-se então uma linguagem fortemente simbólica. No Oriente Antigo.1-17).3).7-18. um dos mais importantes foi o Código de Hamurabi. Por isso dizemos que a missão do profeta é denunciar e anunciar. Há ainda dois subgêneros proféticos importantes. Numa primeira fase. este gênero era bastante apreciado. Outra forma de expressar a sabedoria é através da pergunta sobre o sentido das coisas. No NT. sem contudo ser idêntico. o esquema de um texto jurídico inclui. Basicamente. ao comércio. É o caso de Is 24—27 e Ezequiel (37. ao trabalho. Quando completo. ao cultivo dos campos. Em geral. rei de Babilônia (1792 a 1750 a. O gênero literário apocalíptico é mais difícil de ser definido e parece ter passado por mudanças. “Ai” (cf. a mensagem é direta e clara. por excelência. quase sempre. Am 3. se aproximam do gênero sapiencial. Jr 2. No Antigo Oriente. O princípio básico é a lei do talião: infligir a quem comete um delito o mesmo dano por ele causado. para se queixar das dificuldades de sua missão.1-45. 8. um bom exemplo de texto jurídico é aquele que traz os dez mandamentos (Ex 20. O gênero apocalíptico aparece como o descendente direto do gênero profético. Am 1. em forma de narrativa.1-10. Também pode fazer parte do simbolismo o deslocamento de época.25 m de altura.C.4).

dois grupos de abordagens. é importante levar em consideração a pluralidade destas tradições: a exegese rabínica. Cahiers Evangile Sup. qual atitude ele quer suscitar de seus ouvintes ou leitores. Destaquemos. Por exemplo: a passagem do encontro de Jesus com a Samaritana conheceu diversas formas de interpretação em séculos de exegese. POFFET. os documentos de Qumran. No momento. No final. Tipos de abordagem do texto bíblico Nem sempre se faz uma distinção clara entre o que é um método de interpretação de um texto bíblico e o que é um tipo de abordagem de um texto bíblico. A reconstrução desta história através dos séculos pode se constituir numa abordagem interessante. vinha uma saudação. então ao corpo da carta. havia outra saudação. chamada de abordagem canônica. porém muito interessante. avec la collaboration de G. que nos acontecimentos pascais do Cristo encontrou a chave de interpretação de toda a Escritura. Abordagens baseadas na tradição. Percebemos o quanto estes métodos foram se especializando e se tornando cada vez mais complexos. outro proclamado (mesmo se hipoteticamente). Em seguida. tipos de abordagem são modos de interpretação do texto bíblico segundo determinadas perspectivas.como. Quais as grandes linhas desta história?31 Muitas 31 Um breve estudo. Por isso. O gênero epistolar tem certas afinidades com o gênero profético. Outro modo consiste na pesquisa das tradições judaicas de interpretação da Escritura situando aí os textos bíblicos. Também é preciso estar consciente da diferença de perspectiva destas tradições com o cristianismo. a este respeito foi feito por J. Na Antigüidade. Outros métodos de interpretação da Bíblia ainda existem. Além destes métodos há diferentes tipos de abordagem pelas quais um texto bíblico pode ser visto. Seguindo o documento da Pontifícia Comissão Bíblica. 93 (1995). o que é nosso próximo passo. Nesta análise. estes dois gêneros também se prestam à análise de tipo retórica. 3. quais as técnicas de persuasão utilizadas pelo orador. todo ele em linguagem apocalíptica.. Todo texto bíblico também formou uma história de interpretação. No NT. a exegese simbólica de Filon de Alexandria. por exemplo. Um primeiro modo deste tipo de abordagem consiste em procurar situar o texto bíblico no contexto da própria tradição bíblica. A interpretação da Bíblia na Igreja. BERCEVILLE et al. I. Jésus et la Samaritaine (Jean 4. inicialmente. Passava-se. Para alguém de fora.-M. Nos primeiros tempos do cristianismo. busca-se identificar quem era o interlocutor ao qual o discurso se dirige. basta-nos a apresentação destes dois: o método histórico-crítico e os métodos de análise literária. as comunidades cristãs se serviram largamente de cartas para estabelecer uma rede de comunicação entre elas. temos um livro que se chama Apocalipse. estas perguntas também poderiam ser feitas para qualquer um dos gêneros literários uma vez que quem comunica uma mensagem sempre quer suscitar uma determinada atitude. 13 . Aliás. uma carta começava quase sempre com a identificação dos emissários e dos destinatários.1-42). Nesta pesquisa. as tradições da LXX e dos targumin aramaicos. Estas perspectivas são parciais e podem funcionar como complementares aos métodos de interpretação expostos anteriormente. Ambos reproduzem discursos: um escrito. Isto é o que chamamos de função pragmática do discurso. esta complexidade assusta e deixa a impressão de que interpretar a Sagrada Escritura é coisa somente para especialistas. O gênero literário epistolar é mais utilizado no NT que no AT. o Livro de Henoc.

9-15. Na base desta leitura.33 III. talvez numa “abordagem” excessivamente crítica. Por exemplo: como a parábola do filho pródigo foi retratada nas diversas artes?32 II. A Interpretação da Bíblia na Igreja.34 A primeira delas é a abordagem a partir do mundo dos pobres ou a abordagem a partir da teologia da libertação.25-26. 44-50. Ainda um grupo de tipos de abordagens do texto bíblico é aquele constituído pelas abordagens contextualizadas. aquela que se preocupa menos com compreender o texto e mais com compreender a existência com o auxílio do texto. trata deste tema nas páginas 56-62. O documento aborda apenas dois temas. Este tipo de abordagem nasceu na América e se serviu amplamente de pressupostos da sociologia em sua leitura da Bíblia. formas básicas de construção do pensamento. uma vez que nela há textos que parecem contradizer o que estas abordagens propõem como princípios de seus respectivos pontos de partida. que são. 34 O documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . outras abordagens contextualizadas podem ser propostas: a abordagem a partir das mulheres (feminista ou feminina). ou a partir da ecologia. de fato empobrecidos por sistemas econômicos injustos e por regimes políticos opressores. A sociologia propôs que se compreendesse melhor as sociedades ou grupos que produziram os textos bíblicos. modos de celebração. e outras. Eclo 50. vista em seu conjunto. Do ponto de vista da hermenêutica. Mesters propõe a necessidade do encontro entre a exegese científica. Abordagens baseadas nas ciências humanas. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Na seqüência da abordagem a partir do mundo dos pobres. 1Cor 14. a teologia da libertação não é propriamente um método de interpretação da Bíblia.26-27. Estas abordagens colocam o acento primeiramente na situação do leitor do texto bíblico. ou a partir de questões étnicas. feita de modo especial nas Comunidades Eclesiais de Base. por sua vez. as várias escolas de psicologia e psicanálise chamaram a atenção para o que poderíamos chamar de arquétipos do comportamento humano. Rm 1. com a leitura popular da Bíblia. 33 Sobre estes tipos de abordagem pode-se ver o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . todas estas perspectivas de leitura colocam uma questão de suma importância para a Sagrada Escritura: há preconceito na Bíblia? A Bíblia ajuda a libertar ou ajuda a oprimir quem vive numa situação de opressão? Como refletir sobre estas questões?35 32 Sobre estes tipos de abordagem pode-se ver o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . segundo a edição que estamos citando. ou a partir de questões de sexualidade (homossexuais). A Interpretação da Bíblia na Igreja. papel das relações interpessoais. compreender a situação do povo de Deus na Bíblia ajuda a compreender a situação dos pobres hoje. notadamente aquela devedora do método histórico-crítico. aparece a compreensão de que há semelhanças muito grandes entre a situação vivida pelo povo de Deus na Bíblia e a situação dos empobrecidos hoje e que. 14 . 1Tm 2. buscou compreender os aspectos culturais destas sociedades e grupos: suas festas. Enfim. a antropologia cultural. 50-56. portanto. Todas estas abordagens colocam questões de grande importância para a Sagrada Escritura.passagens bíblicas influenciaram diversas expressões artísticas. que chama de abordagem da libertação e abordagem feminista. elas pressupõem uma hermenêutica da vida ou existencial. De fato. mas ela suscita uma preocupação de que a Bíblia seja lida a partir da realidade vivida pelos pobres. presentes nos textos bíblicos enquanto expressão da experiência humana. Um grande nome deste tipo de leitura é o de Carlos Mesters.20-21.33-38. Ele escreveu não apenas para estudiosos mas também para o próprio povo. 35 Poderíamos ilustrar a questão levantada acima com alguns textos como Dt 23. religioso ou não. As principais ciências humanas que contribuíram para a criação de tipos de abordagem do texto bíblico foram a sociologia. e a psicologia e a psicanálise. A antropologia cultural. Enquanto teologia. mitos. ou seja.

também os profetas criticaram muitas maneiras de se cultuar a Javé. Ainda mais. Situar os textos bíblicos na história da humanidade. mas que a mesma revelação do passado deve 15 . A questão é que este leigo. Para quem não tem especialização alguma nem em exegese. É este o próximo passo que queremos assinalar. Para as outras pessoas restaria uma possibilidade de interpretação com um referencial mais ou menos reduzido conforme seus anos de estudos. não apenas filosóficos e teológicos mas sobretudo de línguas. Por quê? No NT. o sujeito – enquanto pessoa – descobre-se em situação de interpelação. ainda que em outras áreas do conhecimento. Neste trabalho seria preciso: I. uma vez que o sujeito vê-se implicado e tem que ou responder ou refugiar-se. o que dizer para quem tem acesso às informações da exegese científica? Também este especialista deve reconhecer que a vida pode valer como princípio hermenêutico? No final deste percurso. Em seguida. Deus ainda continua se revelando. II. uma vez que. o conflito de Jesus e dos primeiros cristãos com o farisaísmo é aquele de modos diferentes de como compreender a Deus. Uma outra questão deve. desde o ponto de vista econômico até o das relações familiares e interpessoais. a resposta a esta questão somente pode ser positiva. Ora. Apesar da contradição dos termos. O círculo hermenêutico torna-se completo e delicado. como vimos acima. de filologia e de exegese propriamente dita. Sua vida vê-se implicada em sua interpretação. 4. Isso não implica que haja algum dado novo da revelação. ser colocada: se para quem não tem acesso às informações da exegese científica a vida pode valer como princípio hermenêutico. Em que se pretendia que Javé fosse um deus diferente dos outros? Mas mesmo dentro do próprio javismo. segundo a qual este leigo tem sua própria vida como ferramenta hermenêutica de interpretação da Sagrada Escritura. ele pode deixar a impressão de que apenas o especialista pode interpretar a Sagrada Escritura porque somente ele possui ferramentas capazes de abrir o sentido desta Escritura.Para responder a estas questões. Os fariseus eram homens piedosos! Por que eles se opuseram a Jesus? Questões como estas nos ajudam a pensar e a situar a hermenêutica bíblica em um ponto de cruzamento com nossas próprias vidas. perguntar-se em que medida os autores bíblicos assumiram e trouxeram para dentro da Bíblia os preconceitos de seu tempo e em que medida foram críticos destes preconceitos. descrevendo o mais detalhadamente possível cada uma das grandes épocas desta história. não possui ferramenta hermenêutica alguma. para adquirir estas ferramentas são necessários anos de estudos. nem em área alguma afim. A vida como princípio hermenêutico de interpretação da Bíblia Se o mundo da exegese científica é um mundo repleto de especializações. enquanto não chega o especialista para fazer a interpretação decisiva e definitiva. O AT refere-se a muitos deuses. Mas é justamente neste ponto de cruzamento que surgem muitas resistências. uma interpretação como que provisória. o que propomos aqui é uma visão inteiramente diferente. Vejamos: I. teríamos que fazer um longo trabalho de hermenêutica bíblica. o que parece é que esta pessoa faz uma “interpretação não hermenêutica”. segundo esta visão. sua própria vida pode lhe valer como princípio hermenêutico. então. Em outras palavras. Assim como no passado. caminhando em direção da interpretação do texto. Identificar as grandes linhas teológicas presentes na Sagrada Escritura. ainda ficaria uma última possibilidade: a de fazer uma interpretação não especializada. Mas é necessário fundamentá-la.

seja a vida de cada pessoa. A Interpretação da Bíblia na Igreja. para a vida. III. também lhe conferindo autoridade. esta Palavra chama este povo de Povo de Deus. portanto. cujo título é A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Esta atualização. Terminamos com uma citação do documento preparatório à XII Assémbleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Portanto. que pode dar à sua interpretação e atualização uma luz mais penetrante. que. Mas para isso. desperta novas possibilidades desta revelação antes adormecidas. a história do Povo de Deus não se encontra apenas na Bíblia. reunido por Deus. que primeiro viveu e contou o que depois foi posto por escrito. para vos enriquecer pela sua pobreza” (2Cor 8. Lineamenta: “Antes de mais. instrumento) de leitura da Bíblia também tem que ser usado com sinceridade. Desde então. fez-Se pobre por vossa causa. conferindo-lhe autoridade. II. e sempre pronto a evangelizar os pobres (cf. Lc 4. pois isso corresponde plenamente ao Verbo de Deus. a vida pode ser um princípio hermenêutico de interpretação da Bíblia. do que a que vem de uma ciência segura de si mesma”. 115. 36 As últimas frases são uma citação do documento PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . “É motivo de alegria ver a Bíblia nas mãos de gente humilde e pobre. Ora se este povo chama a Bíblia de Palavra de Deus.ser atualizada no presente. que era rico. IV. Mas permanece sempre certo que o Povo de Deus é anterior à Bíblia. de São Paulo. este povo é um povo peregrino. palavra escrita. “Nosso Senhor Jesus Cristo. A Bíblia ensina que este povo começou com um arameu errante. segundo a edição que estamos seguindo encontra-se na p. Foi este povo. Antigo diretor da Escola Dominicana de Teologia. 16 . com total desapego das coisas.”36 * Doutor em Ciências Bíblicas pela École Biblique et Archeologique Française de Jerusalem Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Deus continua chamando na vida.9). a Palavra de Deus deve ser encontrada com o espírito do pobre. Ora. o lugar privilegiado da manifestação de Deus é a vida.18). Assim. seja a história dos povos como tal. um modo de ser. guardada e transmitida de forma oral e no próprio modo de vida daquele que crê. ela deve ser vivida com sinceridade. do ponto de vista espiritual e existencial. O chamado de Deus para cada pessoa é primeiramente um convite para fazer parte do Povo de Deus. No mais. qualquer outro método (ou seja. inclusive. tanto interiormente como também exteriormente. baseado no mesmo modo como Jesus escutava a Palavra do Pai e a anunciava a nós. como palavra vivida. mas também na memória popular.

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