A Hermenêutica bíblica entre a hermenêutica do texto e a hermenêutica do ser The biblical hermeneutic: between the hermeneutic of the text

and the hermeneutic of the being Cláudio Vianney Malzoni* UNICAP - Recife Sinopse O presente artigo procura tratar da Hermenêutica bíblica de um modo geral. Ele começa por traçar um breve itinerário histórico da exegese e da hermenêutica bíblica para desembocar na complexidade dos métodos atuais de interpretação da Bíblia, privilegiando o método hitórico-crítico e os diferentes métodos de análise literária. Em seguida, é feita a distinção entre método e tipo de abordagem. Alguns tipos de abordagem são apresentados. O artigo termina levantando a questão se a vida também não pode ser um princípio hermenêutico de interpretação da Sagrada Escritura e em que condições. Abstract The present article spots to treat about the biblical Hermeneutic in a general way. It begins tracing a soon historic way of exegesis and biblical hermeneutic to discharge in the complexity of the present methods of interpretation of the Bible, privileging the historicalscientific method and the literary analysis methods. After, is made the distinction between method and kinds of approach. Some kinds of approach are showed. The article ends rising the question if can the life be also a Holy Writings hermeneutic principle and in what conditions.

Pode um mesmo texto bíblico ser interpretado de várias maneiras? Existem critérios que nos permitam identificar uma interpretação correta da Bíblia de uma interpretação incorreta? Há apenas um método válido de interpretação da Sagrada Escritura ou vários? Qual a diferença entre um método de interpretação e um tipo de abordagem da Escritura? A opção preferencial pelos pobres, típica da teologia da libertação, pode ser considerada como um tipo de abordagem bíblica? Quem pode fazer uma interpretação da Bíblia: apenas o especialista em Sagrada Escritura ou todo fiel? Estas perguntas, e outras, aparecem quando começamos a estudar a Bíblia. Este estudo ao qual nos referimos pode ser mais especializado, como também aquele estudo inicial, próprio dos cursos de teologia. Ou ainda perguntas de quem se interessa pela Bíblia e quer aprender sempre mais. Em geral, estas perguntas não aparecem numa primeira leitura, mas surgem quando se faz uma leitura reflexiva que se pergunta pela própria leitura. Esta leitura reflexiva, mesmo se implícita, levanta a questão da interpretação da Sagrada Escritura, e quem fala em interpretação da Sagrada Escritura, na verdade, já está pressupondo uma relação, que é aquela entre um sujeito (individual ou coletivo) e o texto. Podemos adiantar que, a nosso ver, o sentido que a interpretação da Sagrada Escritura quer alcançar não está nem no sujeito, nem no texto, mas na relação que irá se estabelecer entre eles. Esta é uma relação hermenêutica. Mas que é mesmo hermenêutica? É a ciência ou a técnica que tem por objeto a interpretação de textos. Etimologicamente, vem do grego hermeneuo que significa traduzir, interpretar. Muitas vezes, é usada como sinônimo de exegese, palavra que também vem do grego. Atualmente, se convencionou chamar de exegese a busca do sentido que o autor queria exprimir a seus contemporâneos e de hermenêutica o sentido que um texto pode

G. e de forma mais facilmente perceptível. Segundo. temos os escritos do Novo Testamento (NT) que constantemente reinterpretam os escritos do AT abrindo novas possibilidades de leitura para aqueles. Aqui. Città Nuova. feita versículo por versículo. GRECH. Por este tempo. Ermeneutica. aos textos mais antigos. 1. qualquer tipo de texto. 2-3. vamos nos limitar primeiramente ao texto da Sagrada Escritura. 5 P. além de textos literários. na literatura sapiencial mais tardia. parece menos dependente do texto bíblico como tal do que o eram os intérpretes de então. Ermeneutica (Roma. uma tradução ao AT do hebraico ao aramaico.3 A interpretação da Sagrada Escritura que se fazia no tempo de Jesus é comumente chamada de midrash. os primeiros cristãos continuaram lendo e interpretando o AT. Elas se aplicam a todo tipo de texto e. podemos identificar certos métodos ou princípios metodológicos. sua interpretação é do mesmo tipo que a praticada em seu tempo. retomam outros livros do AT escritos anteriormente e os reinterpretam. e de derash uma interpretação mais alegórica. de modo especial. que dizia respeito à própria comunidade de Qumran e que era revelado apenas àqueles que dela participavam. porém. estes modos de interpretar a Escritura influenciou o aparecimento do Targum. PIB. temos que certos livros do AT. A hermenêutica bíblica: breve percurso histórico Podemos dizer que a hermenêutica bíblica começa com a própria Bíblia. O termo hermenêutica provém do nome do deus Hermes da mitologia grega. 1990) 16-21. 2 Cf. O princípio básico que norteia estas releituras é que o significado da Sagrada Escritura não se esgota nas circunstâncias nas quais foi proclamada primeiramente. acrescida de glosas explicativas devedoras dos midrashim. nem a hermenêutica. GRECH. Ela consistia em uma interpretação muito simples. e que pressupunha que o texto bíblico possuía um sentido escondido. chamava-se de peshat uma interpretação mais literal. De um modo geral. e outros. e às questões de metodologia tanto da exegese como da hermenêutica.adquirir hoje. Textos dos filósofos antigos também são objeto de estudos exegéticos e hermenêuticos. Enunciemos alguns: 1 Cf. MURA. É por isso que são releituras hermenêuticas. e de modo bem evidente. Há dois tipos de midrashim segundo o objeto da interpretação: o midrash halaká que é a interpretação e atualização da Lei (texto jurídico) e o midrash haggadá que é a interpretação e atualização de um texto teológico.2 Primeiramente. Enfim. 3-4. P. Estas releituras introduziram novas interpretações a estes textos na direção de atualizá-los em um contexto posterior. 4 P. que era aquele que conduzia os viajantes e as almas dos mortos no Hades. havia a interpretação praticada pelos essênios. Na Palestina. Ele.1 Em si mesmas. Ermeneutica.4 Nas sinagogas. Quanto ao método. Na maneira como o NT interpreta o AT.5 Os evangelhos nos mostram o próprio Jesus interpretando passagens do AT. uma interpretação alegórica propriamente dita dos textos bíblicos era praticada por Filon de Alexandria. 2. quase sempre de caráter narrativo. era a vida. GRECH. mas também fora do ambiente rabínico. em Qumran. 3 P. 1991) 1. de um modo especial. Ermeneutica e verità: storia e problemi della filosofia dell’interpretazione (Roma. Ermeneutica. Enfim. morte e ressurreição de Jesus que davam sentido pleno às Escrituras. temos que certos escritos do Antigo Testamento (AT) passaram por diversas releituras antes de chegarem à forma como nós os conhecemos hoje. GRECH. nem a exegese são próprias da Bíblia. mas a partir de um princípio inteiramente novo: para eles. que ficou conhecida com o nome de midrash pesher. 2 . cuja finalidade é a atualização da Escritura. fora do ambiente rabínico da Palestina. Depois de Jesus.

interpretando Sl 78. que aponta toda ela para o Cristo. As palavras dos profetas e salmistas são retomadas pelos escritores do NT como sendo cumpridas nos acontecimentos da vida de Jesus e da Igreja nascente. 2.2.20-25. o princípio do credo apostólico.a) Interpretação literal ou simples. p. 1.16b-18. É um método bastante comum no Apocalipse. GRECH. Parecido com o anterior. em última instância. buscava o significado primeiro e literal de uma passagem. O próprio Jesus aparece usando este método. primeiro com Clemente e depois com Orígenes. GRECH. Mc 12.1. Ainda outro exemplo seria o discurso de Estêvão. Este princípio. d) Figura e realização. At 2.26-30. O evangelho de Mateus utiliza muitas vezes deste método. Lc 17. ainda muito próximo da hermenêutica neotestamentária e compartilhando muito de seus métodos.22-31 interpretando Sl 16. Ermeneutica. é a chamada Escola de Alexandria que passa a se destacar. tendo como base uma expansão da reflexão do Dia da Purificação.26-28. o assim chamado Evangelho da infância de Jesus em Mateus (cf. Estes textos evocam episódios que são compreendidos como figuras de outros episódios que se realizaram na vida de Jesus e da Igreja nascente.18-22. O segundo é a analogia fidei. ou seja. este princípio é utilizado para o AT de maneira mais ampla. ex. P. f) Reescritura. c) Profecia e realização. 3 . o destaque fica por conta de Irineu. Exemplos: Mc 12. nenhuma passagem deve ser tomada isoladamente. 7-8. e ainda que uma passagem da Escritura se explica primeiramente por outra passagem da Escritura e que. Esta Escola distinguia o sentido literal e o sentido 6 7 P. Jo 19. Ele começa marcado sobretudo pela polêmica contra o judaísmo e contra o gnosticismo. ela aparece sendo usada inclusive por Jesus. 9. cf. Este método é usado várias vezes na Carta de Tiago: 2.28-30. confessado no batismo e transmitido pela tradição. e) Expansão.6 O primeiro na polêmica contra o judaísmo foi Justino.5. Exemplos: Jo 6. No NT.15. Este método é utilizado sobretudo para os Profetas e Salmos. O primeiro é a chamada regula fidei. no capítulo 7 dos Atos dos Apóstolos. ou seja. não explica a Escritura. cinco vezes somente nos capítulos 1 e 2.10-11. Ela tende para uma interpretação de tipo gramatical. Para tomar apenas dois exemplos: Ap 4. Esta interpretação. de fato. é aquele praticado pela patrística.30-33. Mc 12. Talvez quem mais utilize este método no NT seja Paulo.26-27 interpretando Ex 3.10-11. Toda a Carta aos Hebreus está construída sobre este método. mas dá o enquadramento dentro do qual uma interpretação deve manter-se para poder ser considerada eclesialmente verdadeira.17.8-11.12-21.35-37 interpretando Sl 110. Isto significa que o mesmo Deus fala em toda a Sagrada Escritura. Exemplos: Mc 2. sendo encontrado também nos evangelhos. Devemos a Irineu dois princípios básicos de interpretação da Sagrada Escritura.6. bem simples. Também aparece nos evangelhos sendo usado por Jesus. b) Exemplificação. Exemplo: 1Pd 3. Um belo exemplo se encontra em Rm 5.7 No século III.23-26. sobretudo para textos narrativos.22. 5. Jo 4.24..: 7. Ermeneutica. Trata-se de elencar um ou vários exemplos ilustrativos a respeito de um tema. Já na polêmica contra o gnosticismo. O período seguinte da hermenêutica bíblica.23).15.8 que reescreve Is 6. Podemos marcar o início deste novo período no século II.5-6 que reescreve Ex 2. a unidade da Escritura.

Para Orígenes. o sábio persa. XII Assémbléia Geral Ordinária. temos o surgimento da exegese protestante ou aquela que emerge de Lutero e dos primeiros reformadores.11 No período seguinte. como de todas as Escrituras divinas. LIVINGSTONE (ed. A Sagrada Escritura foi valorizada.). e praticou a crítica textual (escolha entre as lições dos manuscritos disponíveis daquela que apresentava maior probabilidade de ser original). pelo ensino da Sacra Pagina nas escolas e universidades e pela composição de copilações de comentários patrísticos que eram chamados de catenae. o Concílio de Trento reafirmou a importância da Tradição. Ermeneutica. inclusive. 10 S. Ele também conhecia o modelo rabínico de interpretação das Escrituras. com Gregório de Nissa. GRECH. 24. é o amor: o amor do Ser de que devemos beneficiar e do ser que é chamado a beneficiar dela conosco. a leitura tipológica era privilegiada. o primeiro sendo a base para se chegar ao segundo. Sínodo dos Bispos. a edificação da vida cristã. Jerônimo valorizou o texto original: hebraico. Cf..8 Já Agostinho.40. Studia Patristica XXV. Ermeneutica. A. como texto da Sagrada Escritura. Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo. 1993) 258-269. O primeiro. preferia aquele da antiga versão latina. que a divina Providência criou. Peeters. distinguia-se entre o sentido literal ou histórico e o sentido superior ou theoria. o centro da interpretação bíblica desloca-se para a Escola de Antioquia. portanto. tanto a Escritura como a natureza estão repletas de símbolos que falam do Cristo e de sua Igreja. e que possa ter também um sentido em si. na Palestina. in E. mas se insistia que entre um e outro há uma continuidade necessária. na região da Mesopotâmia. ao menos. Ermeneutica.alegórico de um texto bíblico e privilegiava o sentido alegórico. inclusive. Ermeneutica.XXXVI. A poesia foi o principal gênero literário através do qual Efrém expos sua interpretação bíblica. de toda Sagrada Escritura. feita a partir do texto grego da Septuaginta (LXX). e o de Efrém de Nisibe. Jerônimo considerava importante expor as diversas opiniões existentes sobre uma determinada passagem. composta por Tomás de Aquino. esse dúlpice amor de Deus e do próximo. 12 P. GRECH. GRECH. Vale reproduzi-la também aqui: “É fundamental compreender que a plenitude da Lei. Para este último. Ele admite que um texto bíblico tenha um sentido querido pelo seu autor (que pode. 20-23. julga ter compreendido as Escrituras ou.12 De sua parte. apesar de sua ligação com o Ocidente. Ephraem. o princípio da Sola Scriptura acabou sendo levado ao exagero por alguns. para a nossa salvação. Há no recente documento preparatório para a XII Assémbleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos uma longa citação tomada de Agostinho a este respeito. Tomado do De doctrina Christiana I. aramaico e grego. a finalidade última do estudo da Sagrada Escritura é o amor. carecer de sentido. Segundo Agostinho. como num efeito colateral. mostrava toda sua vitalidade. 11 P.10 O Ocidente medieval cristão se caracterizou pela lectio divina praticada nos mosteiros. com Deodoro de Tarso. a Vetus Latina. toda a economia temporal. ser não apenas um). No século IV.. uma sua parte. Nesta Escola. Estes deram um destaque maior à Escritura em detrimento da Tradição. Papers presented at the Eleventh International Conference on Patristic Studies held in Oxford 1991 (Leuven. Quem. não previsto pelo autor humano mas sim por Deus como autor. Na patrística latina. GRECH.9 Por esta mesma época. no Oriente. P. o sentido literal pode. pregando que o evangelho 8 9 P. sem empenhar-se em construir. The Image of the Image Maker in the Poetry of St. viveu em Belém. A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Lineamenta.XXXV. 27. Foi Jerônimo que deu ao Ocidente cristão sua mais importante versão da Bíblia: a Vulgata.39 e I. H. Já na theoria. mostra não as ter ainda compreendido”. Em seu método de explicar a Sagrada Escritura. Também neste século começou a florescer a Escola da Capadócia. a mais famosa de todas foi a Catena Aurea. enquanto que somente o alegórico ou espiritual pode revelar o significado da Escritura. através da inteligência das mesmas. sobre os evangelhos. É para dar-nos a conhecer esse amor e torná-lo possível. GRIFFITH . também ele. mas. duas figuras se sobressaem: Jerônimo e Agostinho. Os nomes mais expressivos desta Igreja são os de Afrahat. 19-20. 4 . a Igreja siríaca.

15 P. GRECH. para quem a linguagem simbólica da Sagrada Escritura precisava ser reinterpretada. Na seqüência. Barth e de R. expressa por Irineu. começava um lento despertar para as novas questões colocadas para a interpretação da Sagrada Escritura. P. levada em conta a Tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé" (DV 12). no cristianismo. GRECH. preciso retraduzir aquela linguagem nesta outra para que o texto bíblico voltasse a ter sentido. há uma relação muito íntima entre Povo de Deus e Sagrada Escritura. não. o aparecimento de novos métodos críticos no tratamento de textos antigos e a revalorização da história e as novas descobertas que ampliaram o conhecimento da história.14 Nos séculos seguintes.17 Durante o século XX. Antes. pela nova maneira de se compreender a relação entre o autor. de Pio XII. vindos do Oriente. dois campos foram os que passaram por uma crítica mais profunda: o da vida de Jesus. mas em sentido contrário. deixando o primeiro plano para a perspectiva exegética. M. Por outro lado. Este estado da questão nos conduziu a uma pluralidade de métodos de interpretação das Escrituras. a linguagem dos autores bíblicos tinha deixado de ser compreensível. 43. Ermeneutica. Ermeneutica. foi a criação do Pontifício Instituto Bíblico de Roma e da Escola Bíblica de Jerusalém. vieram os trabalhos exegéticos de K. foram os trabalhos de P. dois documentos oficiais contribuíram para que a exegese no mundo católico se recolocasse em dia. Um passo importante. como um freio para o avanço de novos estudos. e a Constituição Dogmática Dei Verbum (1965). Bultmann. vejamos três princípios básicos que podemos colher deste nosso percurso histórico e que poderiam servir para nós hoje como critérios de verificação de toda interpretação bíblica. I. Na virada do século XIX para o século XX. Ermeneutica. Ambos recolocaram a questão hermenêutica. Barth se perguntava sobre o significado do texto bíblico para o homem moderno. e definiu a lista dos livros canônicos da Escritura. A regula fidei ou o credo apostólico. Já para Bultmann. GRECH. GRECH. Podemos dizer que a perspectiva hermenêutica no trato com o texto bíblico passa para um segundo plano. do Concílio Vaticano II. substituída. 16 P. que começaram a preparar novos estudiosos. a descoberta de manuscritos bíblicos mais antigos que os manuscritos até então conhecidos na Europa. porém. Heidegger e H. 50. Era. podem ser elencados fatores externos que conduziram a mudanças: o racionalismo e o iluminismo. GRECH. tudo isso provocou uma completa revolução. mas que. 28. a encíclica Divino afflante Spiritu (1943). Ermeneutica.se encontra seja em livros escritos que na tradição não escrita. No campo bíblico. com o surgimento da “questão sobre o Jesus histórico”. 15 Pela mesma via. Era uma linguagem mítica e o homem moderno tinha adquirido uma visão científica do mundo. 17 P. Ermeneutica. 5 . de modo especial. e o do Pentateuco. G. Dilthey. deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura. 29-30. o texto e o leitor. Segundo este critério. no campo filosófico. 48-49. porém.13 O início da exegese moderna se deu a partir do século XVII. foi a filosofia hermenêutica de W. foi sentida apenas no mundo protestante. Primeiramente. pois.16 Em ambiente católico. para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados. Gadamer que provocaram mudanças na exegese. Ricœur. mas cada um a seu modo. o que será nosso próximo assunto. Tomemos um trecho desta última que toca no tema deste artigo: "Mas como a Sagrada Escritura deve ser também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita. a criação da Pontifícia Comissão Bíblica funcionava. por este tempo. 13 14 P. É no seio do Povo de Deus que a Sagrada Escritura pode ser corretamente interpretada.

mas pede a utilização deste método”. Hoje. Se a finalidade última do estudo da Sagrada Escritura é o amor. Mas também outros escritos como o livro de Isaías ou o Pentateuco se formaram a partir deste processo. no momento atual. ou pode ter uma pré-história: uma tradição oral que o precede. expressa também por Irineu. 2. A analogia fidei ou a unidade da Escritura.II. nomes de personagens e de localidades podem sumir ou serem transformados. dava-se uma importância muito grande à tradição oral. se existe uma pré-história do texto e uma história redacional. pode remontar a um acontecimento histórico e ou a lendas. sua justa compreensão não só admite como legítimo. Uma tradição oral. O mais provável é que ela misture tudo. O método histórico-crítico também procura estudar o ambiente no qual uma determinada tradição surgiu e foi preservada e transmitida. Vozes. também é certo que no Oriente Antigo. como em muitos povos em que a escrita é o privilégio de uma elite. dito negativamente. todos eles apresentando vantagens e desvantagens.18 O método histórico-crítico investiga o contexto histórico no qual um texto surgiu: quando foi escrito. A Interpretação da Bíblia na Igreja (Petrópolis. a Pontifícia Comissão Bíblica publicou o documento chamado A interpretação da Bíblia na Igreja. No decurso da transmissão oral a própria tradição vai sendo reelaborada. podendo acontecer que. o processo redacional mais comum era o de fazer acréscimos. Por outro lado. segue que toda boa interpretação deve conduzir à maior fraternidade entre os povos. O exercício da caridade. existe uma pluralidade de métodos de interpretação bíblica. O primeiro método a ser apresentado e aquele que é tratado com maior destaque é o método histórico-crítico. a transmissão oral desempenhou um papel significativo na transmissão da cultura. Assim o Documento começa sua apresentação deste método: "O método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. enquanto “Palavra de Deus em linguagem humana”. no qual apresenta diversos métodos de interpretação da Sagrada Escritura. é o oposto do que ocorre na transmissão oral. Um texto pode ter sido criado quando foi escrito. estas peças adquiram um novo sentido. por sua vez. ou. Há algum tempo atrás. Uma vez posto por escrito. Como a Sagrada Escritura. 1994). ao serem juntadas. mas ainda pode ser retrabalhado. passando pelas mãos hábeis de editores que deram unidade a textos que antes existiram separadamente. o sentido da Sagrada Escritura aparece no seu todo e nenhuma passagem deveria ser interpretada isoladamente. o que. III. Os livros dos Salmos e dos Provérbios ilustram muito bem a formação destas coleções. 30. Segundo este critério. 6 . Em 1993. Na Antigüidade. Métodos de interpretação bíblica Como acabamos de mencionar. foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes. não será veraz qualquer interpretação que produza divisões entre as pessoas e entre os povos. critério que remonta a Agostinho. a uma tradição oral anterior. necessariamente. Outro processo comum era o de formar coleções juntando peças que antes tiveram uma existência separada. percebe-se melhor que muitos textos nasceram já como obras literárias escritas e não remontam. Detalhes podem desaparecer. Alguns ambientes aparecem 18 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . um texto começa a se fixar. novas chaves interpretativas podem ser introduzidas. de certa forma.

recebendo influências de outras línguas. de uma edição crítica. 1990) e B. Por outro lado. 21 Há que se levar em conta que a Bíblia Hebraica levou alguns séculos para se formar. Como esta delimitação envolve aspectos de crítica literária. principalmente em Orígenes. fundador da Escola Bíblica de Jerusalém. Há textos que mostram uma história literária bastante complexa. o método se estendeu para outras partes da Bíblia. no final do século XIX. Lagrange. Mesmo assim.-J. Atualmente. Esta análise exige um bom nível de conhecimento do hebraico e do grego.16-20 que narra a morte de Raquel. 22 Exemplo: o início da história de José. Deutsche Bibelgesellschaft.10 pressupõe que sua mãe ainda fosse viva e provém de uma tradição diferente de Gn 35. Esta crítica desembocou. ela será. por exemplo.21 Podemos incluir juntamente com a análise lingüística a determinação do gênero literário de um texto. Análise lingüística.22 19 20 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . O texto a ser trabalhado deve ser tomado. o hebraico mudou. templos. este método continua sendo largamente empregado a ponto de se poder dizer que ele constitui uma aquisição da exegese bíblica por toda parte. RUDOLF. uma delimitação provisória a ser confirmada ou corrigida nas próximas etapas do trabalho. Consiste no levantamento de pontos de sutura que podem ser tomados como indícios de que se está diante de um texto que foi retrabalhado. 20-21 do Sl 51 devem ter sido acrescentados por um editor descontente com as afirmações dos vv. em Gn 37. Quando. Sua intuição básica ao fundar esta Escola era estudar a Bíblia no próprio chão em que foi escrita. Atualmente. o levantamento das principais variantes textuais trazidas por estas edições. 30-31. ELLIGER et W. São várias as etapas do trabalho com o método histórico-crítico. Durante este tempo. 7 . Já para o NT.19 Este método foi desenvolvido sobretudo pela exegese alemã protestante e foi visto com muita desconfiança pelas autoridades da Igreja Católica. Deutsche Bibelgesellschaft. as edições críticas principais são: K. Biblia Hebraica Stuttgartensia (Stuttgart. aparece uma palavra de origem persa. a presença de certas formas arcaicas do hebraico é considerada como um bom indício de um texto mais antigo. 18-19. Um dos pioneiros do método histórico-crítico no campo da exegese católica foi M. Crítica textual. num texto. como verdadeiras tapeçarias textuais. na teoria documentária: os quatro documentos (fontes) do Pentateuco. Crítica literária. por enquanto. Elas poderiam ser assim descritas: I. A crítica que se levantou na época foi quanto à atribuição da autoria do Pentateuco a Moisés. o intervalo de tempo para sua composição foi bem menor.como privilegiados no desempenho dessa função. Do Pentateuco. Jerônimo e Agostinho. A Interpretação da Bíblia na Igreja. outros veiculam tradições diferentes sem grandes preocupações de harmonização. Já a transmissão de uma tradição escrita pressupõe um ambiente letrado. Vale lembrar a importância da família e dos clãs na transmissão da tradição oral. Tais ambientes podiam ser encontrados nos santuários. Outro exemplo: os vv.20 III. palácios reais e nas escolas. ele ressurgiu e se estruturou a partir das investigações sobre o Pentateuco. a análise lingüística de seus textos pode trazer resultados. preferencialmente. Novum Testamentum Graece (Stuttgart. Delimitação de uma unidade textual. IV. II. 199327). no século XIX. é sinal de que este texto ou foi escrito ou passou por uma revisão na época em que o Império Persa exercia sua hegemonia sobre o Antigo Oriente. Não podemos nos esquecer que a produção de um livro na Antigüidade tinha um custo muito mais elevado que hoje. Na modernidade. Faz-se. As origens deste método podem ser encontradas na exegese patrística. lá pelo início do século XVII. ALAND et alii. em seguida. Quem arcava com estes custos produzia o que era de seu interesse.

2) É possível ao homem contemplar a face de Deus? Dois textos bem próximos um do outro pressupõem respostas diferentes: Ex 33. a arqueologia trabalhava a partir do dado bíblico. A arqueologia. Esta comparação também pode ajudar a identificar as etapas do processo redacional pela qual um texto passou. Os dados da arqueologia. Esta ciência desenvolveu-se muito nos últimos tempos. VI. por exemplo. no início. no entanto. 8 . inclusive. De um modo amplo. também devem ser tomados com cautela. portanto. questionam informações dadas pela Bíblia e antes vistas como absolutamente seguras.1—2.7-11. muito mais breve.43-45 acena para uma conquista total da terra. Exemplo: a destruição de Jericó (Js 6.V.2 para corrigir a informação de Jo 4. Alguns dados apresentados pela arqueologia. XI.26 O método histórico-crítico também lança mão das investigações de outras ciências. Elenco dos relatos paralelos. 25 Exemplo: os dois relatos da criação: Gn 1. uma vez que algumas traduções antigas remontam a uma etapa anterior à fixação do texto. pois um mesmo dado pode ser interpretado de diferentes maneiras por diferentes arqueólogos. VII. A partir da própria experiência dos arqueólogos. novos métodos de escavação foram aparecendo. o dilúvio e as migrações de povos são comuns nestes textos. com textos religiosos. que podem ser chamados de “censuras textuais”. No relacionamento Bíblia e arqueologia. 12-31. Procura investigar possíveis modificações pelas quais um texto possa ter passado antes de se fixar e por que passou por tais modificações. os textos bíblicos inclusive. Por outro lado.3 e 2. o ambiente do qual provêm e o ambiente no qual foram amalgamadas. no capítulo 23.18-23. em 1Sm 17.1 de que Jesus batizava. 24 Um exemplo interessante é dado pela narrativa do combate entre Davi e Golias. Crítica das tradições. Atualmente. haveria que se levar em consideração que a busca por compreender estes temas não é 23 Há casos. ainda de relativa fluidez.25 IX. Elenco de referências cruzadas. A existência de relatos paralelos mostra a existência de tradições diferentes a respeito de um mesmo fato ou tema. a arqueologia se emancipou e já não trabalha mais a partir da Bíblia. na versão grega dos LXX não aparecem os vv.23 Até aqui. Estes relatos não são possíveis de ser harmonizados em seus detalhes. Josué dará instruções de como se comportar diante das nações estrangeiras que ainda permanecem no território. Temas como a criação do mundo e da humanidade. a origem destas fontes. podemos inserir aqui a investigação sobre as fontes utilizadas para a elaboração do texto. mas pouco depois. embora concordem na intenção de fundo. Duas hipóteses podem ser levantadas: ou o texto grego é a tradução de um original hebraico mais breve que depois foi glosado. o estudo de passagens paralelas é bastante comum. Eles devem provir de fontes diferentes e de ambientes diferentes. É impossível negar que há algumas idéias mestras que perpassam os textos religiosos do Oriente antigo.1-21) não é corroborada pela pesquisa arqueológica. de modo especial. Temos aqui: X.41. Crítica redacional. A análise comparativa com outros textos do Oriente antigo.48b. Comparação entre as tradições textuais antigas. ou o texto grego representa uma tradução abreviada de um texto hebraico original mais longo. 26 Exemplos: 1) Js 21. Ao se cruzar referências. 33. O texto grego é. mas ele pode se abrir ainda para outras instâncias de trabalho textual. o método trabalhou apenas com o texto em si.24 VIII.55-58. muitas vezes aparecem tradições diferentes não apenas de um livro para outro. Esta época foi importante para os estudos bíblicos. Nos evangelhos. mas também no interior de um mesmo livro.4-25. como o acréscimo de Jo 4.50.

Qual a teologia que o texto veicula? Esta questão é mais difícil. sempre que o ser humano se interrogou sobre Deus. é identificado como Sagrada Escritura. Para isso. capital de Judá. algumas perguntas podem ser formuladas para o texto. o método histórico-crítico procura determinar o contexto histórico no qual um texto possa ser situado. surgiram também os métodos de análise literária. mas se desenvolveu por toda parte. 1986) 7-13. mais complementar que concorrente. Aqui. Eles podem ser utilizados mais facilmente que o primeiro.29-40 podem ter surgido em polêmica contra os sacrifícios humanos. a quem ele quer convencer e de quê. 9 . entre estes povos. mas falta consenso em relação a estas teorias. A partir dos textos religiosos do Oriente antigo (incluindo os textos bíblicos) pode-se formular uma teoria a respeito da passagem do politeísmo ao monoteísmo. Por exemplo. com quem o texto polemiza. em seu conjunto. XII. Eles dependem 27 Exemplo: Gn 22. esquecendo-se que acréscimos ou mudanças inseridos num texto também fazem parte do texto que. XIII. corre-se o risco de se valorizar apenas a camada mais antiga. o Deus mais forte vence.27 XIV. na terceira etapa se passa do Deus principal ao Deus único. Outro limite é a separação entre leitura exegética e leitura espiritual que este tipo de método pode favorecer. Uma outra teoria.exclusiva dos povos semíticos. Um bom exemplo de como trabalhar estas questões é dado por C. Mas o fato do povo de Deus ter tomado – e adaptado – tradições religiosas de outros povos é bastante significativo para a teologia da revelação. A análise comparativa dos arquivos históricos: a Bíblia relata alguns fatos que se inscrevem na história do Antigo Oriente e nos quais entram em cena outros povos. A primeira etapa é a dos panteões com várias divindades. ficou algum registro desses fatos. Essa questão não é evidente embora não faltem teorias a esse respeito. Vozes. Paralelamente ao método histórico-crítico. As divindades participam das batalhas. Jz 11. também alguns de seus limites aparecem com mais clareza. Para responder a esta questão. toma como ponto de partida a concepção de divindades nacionais. mas também podem se tornar extremamente complexos e especializados. em três grandes etapas. muitas vezes o texto deixa transparecer o contexto histórico em que surgiu. medem forças junto com os povos.1-19. A questão aqui é a de se interrogar se. MESTERS. Um deles nasce de um pré-juízo – típico do romantismo alemão – de que o que é mais antigo é sempre melhor. O método histórico-crítico mostra assim sua grandeza e complexidade. Senaquerib. na segunda etapa se dá hierarquização desse panteão. devastou o reino de Judá e tentou destruir Jerusalém. rei da Assíria destruiu Samaria. lugares e cenários. Ela pressupõe que há várias teologias na Sagrada Escritura e mesmo uma “evolução” na concepção de Deus. Qual a função do relato? Pelas personagens e costumes. por volta de 722. ligadas à terra: cada povo tem seu Deus. Atualmente. o politeísmo está ligado à polietnia. Esta questão é de extrema importância. entre as quais destacaremos duas. Outra pista importante aparece quando se pergunta qual a função do relato. Esta expedição de Senaquerib ficou registrada nos arquivos assírios? Enfim. uma vez que é mais importante o contexto histórico no qual um texto foi produzido do que o (suposto) contexto histórico ao qual se refere. Ao se identificar as camadas redacionais de um texto. Também haveria que se levar em conta as diferenças entre os textos bíblicos e os outros textos religiosos do Oriente. Rute (Petrópolis. cada Deus tem seu templo. é preciso investigar se o próprio texto não deixa transparecer – nas entrelinhas – a época em que foi escrito. capital do reino de Israel. Mesters nas primeiras páginas de seu pequeno comentário ao livro de Rute: C. nos últimos tempos.

haverá sempre uma maneira que a expressará melhor. É por isso que um gênero literário não é algo exterior à transmissão de uma mensagem. profético. como é o caso do poema “Morte e Vida Severina”. pode ser muito breve. Daí a importância em se compreender bem o que é gênero literário. que se caracteriza por um aumento da tensão. Um livro de ciências é diferente de um livro de literatura. e as duas são diferentes de um código de leis de trânsito. e podem se apresentar misturados. Estes gêneros comportam sub-gêneros. III. fazendo aparecer certos detalhes que facilmente nos escapam. o tempo da narrativa é mais breve e. sem discurso. O tempo da narrativa ajuda a compreender onde está o mais importante do relato. terá um papel significativo. Diferenciar narração e discurso. II. O narrador também pode deixar algumas lacunas em seu relato. enfim. enlace. A análise narrativa é usada para textos narrativos e serve para tornar o texto mais conhecido. como por exemplo. também são importantes os gêneros jurídico. clímax e desenlace. sapiencial. Subsidia Biblica. epistolar e apocalíptico. 10 . Na Bíblia. uma receita culinária é diferente de uma poesia de amor. há outras duas personagens por trás da narrativa que também são importantes: o narrador e o leitor. passa-se à análise literária apropriada àquele gênero literário. 28 Um bom estudo básico sobre as narrativas bíblicas pode ser encontrado no livro de Jean Louis SKA. as informações mais importantes sobre o enquadramento são dadas no início do relato. Em geral. por exemplo quando se narra uma história em forma de poesia. 13 (Roma. Depois vem o enlace ou problematização: a narrativa entra em um clima de tensão. Quando há um discurso. Na ambientação aparecem as principais informações que o leitor precisa para compreender o relato ou ao menos seu início. Em geral. PIB. Gênero literário são formas textuais típicas e apropriadas para se transmitir uma mensagem. “Our Fathers Have Told Us”: Introduction to the Analysis of Hebrew Narratives. Mas nem por isso falta à narrativa bíblica o necessário para sua compreensão. de João Cabral de Melo Neto. Quando gênero literário e mensagem se casam bem. cedendo este lugar importante para as personagens. Determinar o enquadramento do relato. Encontrar o plano narrativo.fundamentalmente da identificação do gênero literário de uma unidade textual. o narrador deixa o primeiro plano. Os dois gêneros literários básicos são o narrativo e o poético. as etapas principais são: ambientação. o tempo da narrativa é igual ao tempo do que está sendo narrado. quando o problema é solucionado. não é o mesmo num discurso e numa narração: no discurso. Um plano narrativo se desenvolve (ou se desdobra) em etapas. Em geral. inclusive. E muito embora uma mesma mensagem possa ser transmitida de diversas maneiras. Quando se faz análise narrativa. 1990). desenvolvimento. Um relato pode ser formado apenas por narração. Em geral. Uma vez identificado o gênero literário de um texto. ou por uma narração permeada de discurso. ou então se tratam de informações que o narrador não considera como relevantes para sua história. isto é: encontrar as anotações de tempo e de lugar e quais são as personagens do relato. O clímax é o momento que antecede a solução do problema. A etapa seguinte é o desenvolvimento. o aparecimento de uma nova personagem que. as narrativas bíblicas são bastante simples e desprovidas de certos detalhes que um leitor moderno é acostumado a procurar.28 Os passos para a análise narrativa são: I. isto é. mas também pode acontecer que se deixe para dar alguma informação relevante durante o desencadear do relato. o leitor pode por si mesmo preencher estas lacunas. a mensagem é veiculada com muito mais facilidade. na narração. sua duração. quase sempre direcionado para a busca da solução do problema que apareceu na etapa anterior. O tempo da narrativa. Enfim vem o desenlace.

o tipo de análise literária é diferente. o leitor compartilha a mesma situação das personagens. compôs uma elegia para eles. entram leis de todo tipo. Nestes códigos. dizemos que o leitor está numa situação privilegiada em relação às personagens (ou a uma personagem) do relato. A poesia serve para expressarmos coisas que nos tocam profundamente. ao que parece composta para ser declamada por uma personagem masculina (o amante). uma vez que as formas poéticas são próprias em cada língua. Ele é composto de cinco lamentações.29 IV. durante ou somente no final de seu relato. É bastante comum estes dois tipos de planos aparecem entrelaçados. há uma situação que é mudada. Há inclusive um livro na Bíblia chamado de Livro das Lamentações. Um exemplo de novela nos é dado pelo livro de Tobias. É assim que o livro dos Salmos é um dos mais repletos em poesia de toda a Bíblia. que é a poesia composta em honra de um herói. Isto é. o interesse se dirige para a situação das personagens. outra feminina (a amante) e um coro (as Filhas de Jerusalém). num momento de catástrofe nacional. que são difíceis de ser traduzidas. Ele pode escolher revelar seu “segredo” ao leitor no início. A poesia serve também para se falar de Deus ou a Deus. O amor. A situação no início do relato é de desconhecimento. para que tome uma posição. 11 . há algo a ser conhecido.Em um relato. a amizade. No plano de situação. no final é de conhecimento. como a poesia romântica do Cântico dos Cânticos. No plano de revelação.1727. O gênero literário jurídico é encontrado no AT e. para não dizer impossíveis. Usamos a poesia para falar indiretamente das coisas. Em geral. praticamente. O gênero literário narrativo pode se estender em narrativas mais longas. Quase sempre estas poesias surgem quando morrem pessoas queridas. cada língua e cada cultura têm seu jeito de fazer poesia. não aparece no NT. No plano de situação. 29 30 É o que acontece na parábola do filho pródigo. o rei Saul. Ela está em 2Sm 1. este esquema pode se repetir mais de uma vez num entrelaçamento. A análise de um texto poético. Há outras muitas formas de poesia. Há dois tipos básicos de planos narrativos: planos de situação e planos de revelação. cf. Tudo porém pode ser dito poeticamente. comporta certa dificuldade. Ele é encontrado sobretudo nos “códigos de leis”. temos a saga ou epopéia e a novela. Um gênero típico da poesia bíblica é a lamentação. A função da poesia aqui não é falar do amor. Também pode acontecer que o narrador deixe sua narrativa inacabada. são temas comuns da poesia. Temos um exemplo típico de epopéia nos capítulos 1 a 15 do livro do Êxodo. os tradutores optam por traduzir a poesia pelo seu sentido. Isso se dá quando o desenlace de uma primeira parte do relato pode ser o enlace de uma segunda parte. estas narrativas são um convite ao leitor para que se pronuncie. Por exemplo: a poesia hebraica tem formas próprias. Outro tipo de poesia é a elegia. ou seja: para falar por metáforas.30 Quando o gênero literário é o poético. Além de exaltar um herói. o perdão. O estribilho desta elegia é: “como caíram os heróis”. se ele o revela somente no final. mas chamar a atenção para a experiência da dor. Na terceira. uma elegia tem como objetivo enaltecer as virtudes que levam ao heroísmo. As quatro primeiras são em acróstico. Quando ele revela no início. Nestes casos. se começa bem e termina mal trata-se de uma tragédia. Em geral. A revelação é sempre uma prerrogativa do narrador. todos os versos da estrofe começam com a mesma letra do acróstico. deixando de lado a questão da forma (intraduzível). no entanto. Quando Davi recebeu a notícia da morte de seu amigo Jônatas e de seu pai. Identificar o tipo de plano. Se o relato começa mal e termina bem se diz que é uma comédia.31-32. Lc 15.

tanto aquelas que regem a vida social. há um altorelevo que retrata Hamurabi recebendo o código de leis de Šamaš. em forma de narrativa.3). Ele consolidou a fusão entre as culturas suméria e acádica. Am 1. como a conduta moral. damos aos discursos proféticos o nome de oráculos. fazendo-se enquadrar uma história no passado ou no futuro. 20. Os textos jurídicos do AT se encontram principalmente no Pentateuco. aos escravos. a linguagem apocalíptica teria sido criada para expressar grandes transformações. O código é uma coletânea de leis referentes à família.18.8.11.4).25 m de altura. Também pode fazer parte do simbolismo o deslocamento de época. Eclesiastes. com 2. em forma de cone. Nas confissões. há dois tipos de oráculos: oráculos de condenação e oráculos de salvação. Estes livros são chamados de Torah.20.1-3). ao trabalho. uma justificativa e uma recompensa ou ameaça.4-10. cf.C. ao cultivo dos campos. em geral. Cria-se então uma linguagem fortemente simbólica. As razões para a linguagem cifrada são várias: elas podem ser de ordem política. O gênero apocalíptico aparece como o descendente direto do gênero profético. como ocorre em Dn 2.1-45. se aproximam do gênero sapiencial.21. Alguns dos livros proféticos contêm trechos com discursos apocalípticos. O gênero literário profético aparece nos livros proféticos do AT. “Oráculo de Javé” (cf.1-12). A mensagem central desta primeira fase da apocalíptica é de que nada é imutável. O princípio básico é a lei do talião: infligir a quem comete um delito o mesmo dano por ele causado.1-17).1-10. Além das leis. como fez o sábio Coélet. que quer dizer Instrução. Mas no gênero profético. 12 . Quanto ao preceito. de ordem religiosa ou até mesmo por um simples gosto literário. no evangelho segundo Mateus.7-18.22). como a vida religiosa. O gênero literário sapiencial é encontrado nos escritos sapienciais do AT: Jó. O Código de Hamurabi foi encontrado em 1901. Há ainda dois subgêneros proféticos importantes. o profeta se dirige a Deus. Outra forma de expressar a sabedoria é através da pergunta sobre o sentido das coisas.). Jr 1. um dos mais importantes foi o Código de Hamurabi. Provérbios. sem contudo ser idêntico. É quando o profeta conta como foi que Deus o chamou. como se pode ver pelas coleções de máximas no livro dos Provérbios. a Carta de Tiago e o Sermão da Montanha. Numa primeira fase. além do preceito. O gênero literário apocalíptico é mais difícil de ser definido e parece ter passado por mudanças. É o caso de Is 24—27 e Ezequiel (37. Em geral. a mensagem é direta e clara. Há algumas fórmulas típicas nos oráculos proféticos. Foi um tempo de esplendor. Is 5. O gênero literário apocalíptico se desenvolveu em uma época mais tardia. para se queixar das dificuldades de sua missão. rei de Babilônia (1792 a 1750 a. mas há vários escritos extra-canônicos deste gênero. enquanto que no gênero apocalíptico a mensagem é cifrada. Uma das formas como a sabedoria vem expressa é através de provérbios. O outro é o que chamamos de confissão. houve vários códigos de leis. Eclesiástico e Sabedoria. ao comércio. quase sempre. No AT. As principais são: “Assim falou Javé” (cf. No Oriente Antigo. 47. Jr 2. ele pode ser formulado de modo positivo ou negativo. No Antigo Oriente. um bom exemplo de texto jurídico é aquele que traz os dez mandamentos (Ex 20. Um são os relatos de vocação. 8. que para o judaísmo são os livros da Lei. Am 3. este gênero era bastante apreciado. Basicamente. Por isso dizemos que a missão do profeta é denunciar e anunciar. Muitas vezes aparece a figura de um intérprete. o esquema de um texto jurídico inclui. por excelência. com o qual mantém afinidades. “Ouvi” (cf. razão pela qual ele não é tão importante no AT. No NT.1. Quando completo. “Ai” (cf. sobretudo na ordem cósmica.

Aliás. I. temos um livro que se chama Apocalipse. por exemplo. vinha uma saudação. qual atitude ele quer suscitar de seus ouvintes ou leitores. é importante levar em consideração a pluralidade destas tradições: a exegese rabínica. estas perguntas também poderiam ser feitas para qualquer um dos gêneros literários uma vez que quem comunica uma mensagem sempre quer suscitar uma determinada atitude. Seguindo o documento da Pontifícia Comissão Bíblica. todo ele em linguagem apocalíptica. avec la collaboration de G. uma carta começava quase sempre com a identificação dos emissários e dos destinatários. Todo texto bíblico também formou uma história de interpretação. quais as técnicas de persuasão utilizadas pelo orador. BERCEVILLE et al. as comunidades cristãs se serviram largamente de cartas para estabelecer uma rede de comunicação entre elas. a este respeito foi feito por J. Nos primeiros tempos do cristianismo. Isto é o que chamamos de função pragmática do discurso. Tipos de abordagem do texto bíblico Nem sempre se faz uma distinção clara entre o que é um método de interpretação de um texto bíblico e o que é um tipo de abordagem de um texto bíblico. POFFET. estes dois gêneros também se prestam à análise de tipo retórica. Passava-se. 13 .. Por isso. esta complexidade assusta e deixa a impressão de que interpretar a Sagrada Escritura é coisa somente para especialistas. outro proclamado (mesmo se hipoteticamente). Percebemos o quanto estes métodos foram se especializando e se tornando cada vez mais complexos.-M. Estas perspectivas são parciais e podem funcionar como complementares aos métodos de interpretação expostos anteriormente. Cahiers Evangile Sup. dois grupos de abordagens. o Livro de Henoc. Também é preciso estar consciente da diferença de perspectiva destas tradições com o cristianismo. Abordagens baseadas na tradição. as tradições da LXX e dos targumin aramaicos. Nesta análise. inicialmente. 93 (1995). No NT.como. 3. tipos de abordagem são modos de interpretação do texto bíblico segundo determinadas perspectivas. O gênero literário epistolar é mais utilizado no NT que no AT. busca-se identificar quem era o interlocutor ao qual o discurso se dirige. então ao corpo da carta. A interpretação da Bíblia na Igreja. No momento. Ambos reproduzem discursos: um escrito. chamada de abordagem canônica. Destaquemos. Nesta pesquisa. porém muito interessante. Em seguida. basta-nos a apresentação destes dois: o método histórico-crítico e os métodos de análise literária. Além destes métodos há diferentes tipos de abordagem pelas quais um texto bíblico pode ser visto. A reconstrução desta história através dos séculos pode se constituir numa abordagem interessante. os documentos de Qumran. Para alguém de fora.1-42). a exegese simbólica de Filon de Alexandria. No final. Um primeiro modo deste tipo de abordagem consiste em procurar situar o texto bíblico no contexto da própria tradição bíblica. Na Antigüidade. Quais as grandes linhas desta história?31 Muitas 31 Um breve estudo. o que é nosso próximo passo. que nos acontecimentos pascais do Cristo encontrou a chave de interpretação de toda a Escritura. havia outra saudação. Por exemplo: a passagem do encontro de Jesus com a Samaritana conheceu diversas formas de interpretação em séculos de exegese. Outro modo consiste na pesquisa das tradições judaicas de interpretação da Escritura situando aí os textos bíblicos. O gênero epistolar tem certas afinidades com o gênero profético. Jésus et la Samaritaine (Jean 4. Outros métodos de interpretação da Bíblia ainda existem.

35 Poderíamos ilustrar a questão levantada acima com alguns textos como Dt 23. As principais ciências humanas que contribuíram para a criação de tipos de abordagem do texto bíblico foram a sociologia. Este tipo de abordagem nasceu na América e se serviu amplamente de pressupostos da sociologia em sua leitura da Bíblia. ou a partir da ecologia. feita de modo especial nas Comunidades Eclesiais de Base. 50-56. com a leitura popular da Bíblia. 1Tm 2. portanto. e a psicologia e a psicanálise. compreender a situação do povo de Deus na Bíblia ajuda a compreender a situação dos pobres hoje. Na base desta leitura. que chama de abordagem da libertação e abordagem feminista. Ainda um grupo de tipos de abordagens do texto bíblico é aquele constituído pelas abordagens contextualizadas. 44-50. aquela que se preocupa menos com compreender o texto e mais com compreender a existência com o auxílio do texto. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Enfim. 33 Sobre estes tipos de abordagem pode-se ver o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . A sociologia propôs que se compreendesse melhor as sociedades ou grupos que produziram os textos bíblicos.25-26. Ele escreveu não apenas para estudiosos mas também para o próprio povo. Enquanto teologia. 14 .26-27. ou a partir de questões étnicas. religioso ou não. Abordagens baseadas nas ciências humanas. A Interpretação da Bíblia na Igreja. uma vez que nela há textos que parecem contradizer o que estas abordagens propõem como princípios de seus respectivos pontos de partida. mas ela suscita uma preocupação de que a Bíblia seja lida a partir da realidade vivida pelos pobres.33-38. De fato. trata deste tema nas páginas 56-62. papel das relações interpessoais. de fato empobrecidos por sistemas econômicos injustos e por regimes políticos opressores. A Interpretação da Bíblia na Igreja. buscou compreender os aspectos culturais destas sociedades e grupos: suas festas. aparece a compreensão de que há semelhanças muito grandes entre a situação vivida pelo povo de Deus na Bíblia e a situação dos empobrecidos hoje e que. Do ponto de vista da hermenêutica. por sua vez. Um grande nome deste tipo de leitura é o de Carlos Mesters. modos de celebração. as várias escolas de psicologia e psicanálise chamaram a atenção para o que poderíamos chamar de arquétipos do comportamento humano. ou seja. a teologia da libertação não é propriamente um método de interpretação da Bíblia. vista em seu conjunto. talvez numa “abordagem” excessivamente crítica. 1Cor 14. O documento aborda apenas dois temas. Eclo 50. Mesters propõe a necessidade do encontro entre a exegese científica. Rm 1. elas pressupõem uma hermenêutica da vida ou existencial. segundo a edição que estamos citando. Todas estas abordagens colocam questões de grande importância para a Sagrada Escritura.9-15. notadamente aquela devedora do método histórico-crítico. a antropologia cultural. que são. Na seqüência da abordagem a partir do mundo dos pobres. 34 O documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . e outras. mitos. presentes nos textos bíblicos enquanto expressão da experiência humana. outras abordagens contextualizadas podem ser propostas: a abordagem a partir das mulheres (feminista ou feminina). Por exemplo: como a parábola do filho pródigo foi retratada nas diversas artes?32 II.34 A primeira delas é a abordagem a partir do mundo dos pobres ou a abordagem a partir da teologia da libertação. A antropologia cultural.passagens bíblicas influenciaram diversas expressões artísticas.20-21. todas estas perspectivas de leitura colocam uma questão de suma importância para a Sagrada Escritura: há preconceito na Bíblia? A Bíblia ajuda a libertar ou ajuda a oprimir quem vive numa situação de opressão? Como refletir sobre estas questões?35 32 Sobre estes tipos de abordagem pode-se ver o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . formas básicas de construção do pensamento. ou a partir de questões de sexualidade (homossexuais).33 III. Estas abordagens colocam o acento primeiramente na situação do leitor do texto bíblico.

nem em área alguma afim. teríamos que fazer um longo trabalho de hermenêutica bíblica. Em seguida. O AT refere-se a muitos deuses. II. mas que a mesma revelação do passado deve 15 . ainda que em outras áreas do conhecimento. Neste trabalho seria preciso: I. descrevendo o mais detalhadamente possível cada uma das grandes épocas desta história. Uma outra questão deve. Os fariseus eram homens piedosos! Por que eles se opuseram a Jesus? Questões como estas nos ajudam a pensar e a situar a hermenêutica bíblica em um ponto de cruzamento com nossas próprias vidas. Ora. também os profetas criticaram muitas maneiras de se cultuar a Javé. Sua vida vê-se implicada em sua interpretação. Assim como no passado. Identificar as grandes linhas teológicas presentes na Sagrada Escritura. Vejamos: I. perguntar-se em que medida os autores bíblicos assumiram e trouxeram para dentro da Bíblia os preconceitos de seu tempo e em que medida foram críticos destes preconceitos. Por quê? No NT. sua própria vida pode lhe valer como princípio hermenêutico. então. Para as outras pessoas restaria uma possibilidade de interpretação com um referencial mais ou menos reduzido conforme seus anos de estudos. Para quem não tem especialização alguma nem em exegese. ele pode deixar a impressão de que apenas o especialista pode interpretar a Sagrada Escritura porque somente ele possui ferramentas capazes de abrir o sentido desta Escritura. o que dizer para quem tem acesso às informações da exegese científica? Também este especialista deve reconhecer que a vida pode valer como princípio hermenêutico? No final deste percurso. uma vez que. para adquirir estas ferramentas são necessários anos de estudos. A questão é que este leigo. uma interpretação como que provisória. não possui ferramenta hermenêutica alguma. Apesar da contradição dos termos. a resposta a esta questão somente pode ser positiva. desde o ponto de vista econômico até o das relações familiares e interpessoais. 4. Mas é necessário fundamentá-la. segundo esta visão. de filologia e de exegese propriamente dita. A vida como princípio hermenêutico de interpretação da Bíblia Se o mundo da exegese científica é um mundo repleto de especializações. o que propomos aqui é uma visão inteiramente diferente. Isso não implica que haja algum dado novo da revelação. o sujeito – enquanto pessoa – descobre-se em situação de interpelação. Em outras palavras. ser colocada: se para quem não tem acesso às informações da exegese científica a vida pode valer como princípio hermenêutico. não apenas filosóficos e teológicos mas sobretudo de línguas. É este o próximo passo que queremos assinalar. Situar os textos bíblicos na história da humanidade. uma vez que o sujeito vê-se implicado e tem que ou responder ou refugiar-se. o conflito de Jesus e dos primeiros cristãos com o farisaísmo é aquele de modos diferentes de como compreender a Deus.Para responder a estas questões. Deus ainda continua se revelando. como vimos acima. O círculo hermenêutico torna-se completo e delicado. enquanto não chega o especialista para fazer a interpretação decisiva e definitiva. o que parece é que esta pessoa faz uma “interpretação não hermenêutica”. ainda ficaria uma última possibilidade: a de fazer uma interpretação não especializada. Mas é justamente neste ponto de cruzamento que surgem muitas resistências. Em que se pretendia que Javé fosse um deus diferente dos outros? Mas mesmo dentro do próprio javismo. Ainda mais. segundo a qual este leigo tem sua própria vida como ferramenta hermenêutica de interpretação da Sagrada Escritura. caminhando em direção da interpretação do texto.

a Palavra de Deus deve ser encontrada com o espírito do pobre. Lineamenta: “Antes de mais. Desde então. reunido por Deus. II. segundo a edição que estamos seguindo encontra-se na p. e sempre pronto a evangelizar os pobres (cf. cujo título é A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. 16 . inclusive. Ora se este povo chama a Bíblia de Palavra de Deus. seja a vida de cada pessoa. O chamado de Deus para cada pessoa é primeiramente um convite para fazer parte do Povo de Deus.ser atualizada no presente. que primeiro viveu e contou o que depois foi posto por escrito. um modo de ser. Assim. palavra escrita. a história do Povo de Deus não se encontra apenas na Bíblia. a vida pode ser um princípio hermenêutico de interpretação da Bíblia. pois isso corresponde plenamente ao Verbo de Deus. “É motivo de alegria ver a Bíblia nas mãos de gente humilde e pobre. que era rico. como palavra vivida. A Bíblia ensina que este povo começou com um arameu errante. 36 As últimas frases são uma citação do documento PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA . do que a que vem de uma ciência segura de si mesma”. para a vida. guardada e transmitida de forma oral e no próprio modo de vida daquele que crê.18). de São Paulo. também lhe conferindo autoridade. A Interpretação da Bíblia na Igreja. do ponto de vista espiritual e existencial. 115. qualquer outro método (ou seja. fez-Se pobre por vossa causa. o lugar privilegiado da manifestação de Deus é a vida. Portanto. III. Deus continua chamando na vida. tanto interiormente como também exteriormente. conferindo-lhe autoridade. com total desapego das coisas.”36 * Doutor em Ciências Bíblicas pela École Biblique et Archeologique Française de Jerusalem Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. No mais. Terminamos com uma citação do documento preparatório à XII Assémbleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. baseado no mesmo modo como Jesus escutava a Palavra do Pai e a anunciava a nós. que pode dar à sua interpretação e atualização uma luz mais penetrante. Ora. portanto. Lc 4. Mas permanece sempre certo que o Povo de Deus é anterior à Bíblia. este povo é um povo peregrino. esta Palavra chama este povo de Povo de Deus. ela deve ser vivida com sinceridade. instrumento) de leitura da Bíblia também tem que ser usado com sinceridade. Foi este povo. Esta atualização. para vos enriquecer pela sua pobreza” (2Cor 8. Antigo diretor da Escola Dominicana de Teologia. mas também na memória popular. IV. desperta novas possibilidades desta revelação antes adormecidas. seja a história dos povos como tal. Mas para isso.9). que. “Nosso Senhor Jesus Cristo.

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