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A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789/1814/15)

Coordenação de História Professores: Luís Francisco, Vinícius Sabato e William Menezzes

I - Conceito

A Revolução Francesa, ocorrida no século XVIII e que se estendeu ao primeiro quartel do século XIX, deve ser enquadrada no ciclo revolucionário das chamadas revolução burguesas que, combatiam o Antigo Regime e, conseqüentemente, criaram condições indispensáveis à fixação do sistema capitalista como Modo de Produção dominante no Mundo Ocidental Contemporâneo. Em sentido mais específico, pode ser entendida também como uma luta deflagrada pela burguesia francesa, na sua corrida em direção ao poder, haja vista que, alcançara uma projeção econômica mas estava sem perspectivas no que concerne as decisões políticas. Como registra o historiador Albert Soboul, em seu livro Revolução Francesa, “a Revolução assinala a elevação da sociedade burguesa e capitalista na História da França. Sua característica essencial é ter realizado a unidade nacional, por meio da destruição do Antigo Regime senhorial e das ordens feudais.”

II - Causas Gerais

a- A crise no setor agrícola geradora de escassez de produtos, elevação dos preços dos alimentos, desemprego rural e êxodo rural, causada, em grande parte, pela Grande Estiagem e pela manutenção da estrutura feudal no campo; b- A crise no setor manufatureiro, fruto do acordo comercial com a Inglaterra (Tratado de Eden- Rayneval de 1786) que permitiu a entrada de produtos manufaturados ingleses no mercado francês, em troca dos vinhos franceses que ingressariam no mercado inglês. A crise nesse setor provocou a falência de algumas manufaturas francesas, além de concorrer para o aumento do desemprego; c- A crise financeira, fruto do desequilíbrio orçamentário do Estado. Luís XVI (1774/1792) mantinha luxuosamente a corte de Versalhes, os gastos com guerras, tais como a dos Sete Anos (1756/63) e a independência das Treze Colônias inglesas representavam gastos elevados para o país. No sentido de compor as finanças do Estado, o monarca adotava medidas fiscais, como a elevação dos impostos. Ocorre que, essas medidas penalizavam apenas uma parte da sociedade, o 3º estado, que sofria prejuízos com essa política de Luís XVI; d- O absolutismo dos Bourbons, Luís XVI sustentava seu poder com base na teoria do Direito Divino dos Reis. Essa prática era alvo das críticas burguesas que se inspiravam nas proposições do Iluminismo. Além do absolutismo, havia também reclamações, por parte da burguesia, com relação ao intervencionismo econômico do Estado que, regulamentava a economia nos moldes mercantilistas. e- A entrada do ouro brasileiro na Europa causando uma enorme desvalorização da moeda (eram cunhadas em ouro), nova onda de inflação e perda de exportação para a França, não esqueçamos que os produtos exportáveis franceses eram mercadorias de luxo, caras.

f- A manutenção de uma estrutura social estamental, baseada nos três estados (Clero, Nobreza e Povo), onde a burguesia não era visível.

III - O Processo Revolucionário

Embora o processo revolucionário, propriamente dito, tenha se iniciado em 1789, quando da formação da Assembléia Constituinte, vários historiadores da Revolução Francesa identificam a Assembléia dos Notáveis ou Revolta Aristocrática de 1786, que, representou uma reação dos 1º e 2º estados a pretensão do ministro Turgot em extinguir a isenção fiscal desses setores sociais, como deflagradora da reação do 3º estado o que conduziria a Revolução de 1789.

A ERA DAS INSTITUIÇÕES (1789-1792)

Os Estados Gerais, Assembléia Nacional Constituinte e Monarquia Constitucional (1789/92)

Em 1789, o então ministro das finanças, o banqueiro Necker, no sentido de viabilizar uma solução política para a crise financeira (lembrando que 1786, Turgot caíra do ministério por propor o fim das isenções tributárias dos 1º e 2) estados. Propôs a convocação dos Estados Gerais, assembléia formada por representantes dos três segmentos sociais. Dessa forma, a decisão para o problema financeiro sairia das mãos de Luís XVI que, assumiria uma posição de Pilatos na história da França. Entretanto, em assembléia não funcionaria em razão dos impasses surgidos: o número de representantes - inicialmente cada estado indicaria 1/3 da assembléia. Por exigência do 3º estado, este passou a ter um número maior de representantes; a temática da assembléia - Luís XVI queria restringir a discussão ao tema financeiro. O 3º estado queria discutir toda a problemática francesa; o sistema de votação- segundo a tradição da assembléia cada estado teria direito a um voto, o 3º estado propunha a votação por indivíduo, confiando em sua maioria e em votos de alguns dissidentes dos outros estados.

A questão do voto levou a conseqüências incontroláveis, o 3º estado separou-se, declarando-se

Assembléia Constituinte em 17/06/1789, a proposta dele era dar a França uma Constituição. Num primeiro momento, Luís XVI tentou impedir a reunião da Assembléia, ao perceber ser inviável ele opta

por sugerir o ingresso na mesma, de representantes das classes privilegiadas. Assim, ainda que contrariado em seu propósito, o rei consegue dar a Assembléia um perfil mais moderado, impedindo que setores mais progressistas e republicanos dominassem-na. Em 9 de julho de 1789, começava a funcionar a Assembléia Nacional Constituinte. Porém, o comportamento de Luís XVI. Demitindo Necker (11 de julho) e a mobilização de tropas palacianas nas cercanias da Assembléia, precipitaram os acontecimentos. O processo tornar-se-ia mais célere e, por vezes, mais radical.

14 de julho de 1789 - a tomada da Bastilha; julho/agosto de 1789 - rebelião no campo - o Grande Medo;

04 de agosto de 1789 - abolidos os direitos feudais e aprovada a distribuição de terras aos

camponeses, garantindo-se aos antigos proprietários o direito de indenização, a servidão é abolida e os camponeses se tornam livres para se locomoverem;

26 de agosto de 1789 - aprovada a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (direito á

propriedade, liberdade individual, tripartição dos poderes, liberdade econômica, liberdade de credo religioso etc);

1789 - confisco dos bens da Igreja, para dar garantia aos bônus do Estado, e leilão público das terras;

1790 - Constituição Civil do Clero, os clérigos tornam-se funcionários públicos (uma parte se sujeita a

Constituição, são conhecidos como clero juramentado e, uma outra parte se recusa a jurar a Constituição e prefere se manter fiel ao Papa, é o clero refratário); setembro de 1791 - entra em vigor, jurada por Luís XVI, obrigado, pois não desejava reconhecer a Constituição, a 1ª Constituição francesa. Em outubro seria empossada a Assembléia Legislativa (conhecida como Convenção).

Entre 1791 e 1792, a França teria uma Monarquia Constitucional, baseada na tripartição do poder, inspirada em Montesquieu; na soberania popular, inspirada em Rousseau, mas limitada pela instituição do voto censitário, na descentralização administrativa, na adoção do princípio do liberalismo econômico - a palavra de ordem era Laissez-Faire, Laissesz-Passer. Junho de 1791, nesse mês começava o inferno astral de Luís XVI, ele estava sendo preso e acusado de conspiração contra a França, após uma frustrada tentativa de fuga, em direção á fronteira para liderar as tropas estrangeiras que estavam prontas para invadir a França. Em 21 de janeiro de 1793, ocorreria sua execução guilhotinado na Praça da Revolução. O que fez Luís XVI para sofrer tão impiedoso castigo?

A Revolução não foi impiedosa, ocorre que Luís XVI estava mesmo conspirando pois, apoiava

uma tentativa de invasão a França promovida pelas tropas austro-prussianas. Esta invasão refletia o

medo da Europa Absolutista com a possibilidade de repercussão das idéias francesas para seus territórios.

PÁTRIA EM PERIGO, esta foi a proclamação dos Jacobinos que levou a formação da Comuna Insurrecional de Paris sob o comando de Marat, Danton e Robespierre. Com o povo armado foi possível deter a invasão. O povo organizado e armado se constitui em exército revolucionário, embora tenha havido a participação de militares, tais como o jovem Napoleão Bonaparte Em 20 de setembro de 1792, eleita pelo voto censitário, era empossada a nova Assembléia, agora denominada Convenção Nacional. Estava estabelecido um Governo Interino. Até junho de 1793,

a Convenção seria dominada pelo Girondinos, representantes da alta burguesia, grupo conservador;

com o apoio da Planície ou Pântano, grupo de centro sem posição política claramente definida. Os Jacobinos, pequena burguesia exaltada (esquerda) também chamada Montanha, compunham a oposição. O governo vacilante dos Girondinos, diante da crise econômica, e da ameaça externa possibilitou aos jacobinos, com apoio dos Sans-Culottes (desempregados urbanos, trabalhadores urbanos e pequenos comerciantes dos subúrbios de Paris), pessoas que usavam calças compridas em vez dos calções até o joelho da gente rica, tomarem a Convenção. Tinha início o período mais radical da Revolução Francesa.

A ERA DAS ANTECIPAÇÕES

A República Jacobina ou Convenção Montanhesa (junho-1793/julho-1794)

Instalada a República Popular, segundo Albert Soboul: “único período que a alta burguesia foi alijada do poder”, aprovou-se o confisco e redistribuição dos bens dos inimigos (nobres emigrados, alto clero refratário e familiares dos contra-revolucionários), fixou-se os preços máximos para venda de mercadorias - Lei do Maximum; centralizou-se o governo, renovou-se o exército, aboliu-se a escravidão nas colônias, suprimiu-se a indenização dos camponeses aos antigos senhores das terras, para esmagar qualquer tentativa contra-revolucionária, instituiu-se o Terror (Lei Prarial), um novo calendário foi criado, o calendário constituía-se de 12 meses de trinta dias, começava em 22 de setembro, os cinco dias restantes eram feriados para os sans-culottes, os meses tinham nomes relacionados aos ciclos agrícolas e da natureza: vindimário, brumário, frimário, nivoso, pluvioso, ventoso, germinal, floreal, prairial, messidor, termidor, frutidor; e instituiu-se o ensino público e gratuito. Entretanto, apesar de todas as medidas de cunho social adotadas pelos jacobinos, eles cairiam em julho de 1794. O que determinou essa queda? Podemos considerar dois aspectos: de um lado a divisão interna do grupo, Robespierre a frente do Comitê de Salvação Pública, comandou a execução de seus adversários dentro do partido e, em função disso, enfraqueceu-se; por outro lado, os jacobinos cometeram excessos na aplicação do Terror, ou seja, cerca de 20.000 pessoas foram executadas na guilhotina, algumas por motivos pessoais. Desse modo o povo ficou amedrontado e paralisado quando

a contra-revolução burguesa - Reação Termidoriana de julho de 1794 - articulou-se e derrubou o governo jacobino. Agora seria o Terror Branco. Entre 1794 e 1795 a França ficou sob direção da Convenção Termidoriana, era a retomada do projeto burguês, com a anulação das medidas mais progressistas do período anterior.

A ERA DAS CONSOLIDAÇÕES (1795-1815)

O Diretório (1795/99)

O Diretório, instituído em 1795, representou um período em que a burguesia procurou consolidar suas conquistas, mediante uma república moderada, de regime censitário e restaurando a plena liberdade de indústria, comércio e dos bancos conforme afirma o historiador Mosnier. Durante o Diretório, a desordem e a corrupção instalaram-se ao lado de grande crise econômica. Em conseqüência, o governo teve que enfrentar em 1796 a Conspiração dos Iguais liderada por Graco Babeuf - atacava a propriedade privada, condenava o ócio e as desigualdades sociais -, e em 1797 o golpe dos Ultra-Realistas (pregavam o retorno do absolutismo dos Bourbons). Esses movimentos foram contidos, ou melhor reprimidos, pela ação do exército, sob comando do general Napoleão Bonaparte que brilhava nas lutas externas contra a Espanha, Áustria, Prússia, Reinos de Nápoles.

Com esse quadro, a burguesia, temerosa de um movimento popular que ela não conseguisse deter, opta por colocar o poder nas mãos de Napoleão, ou melhor, nas mãos do exército, para que este se tornasse o protetor de todas as suas conquistas, ao longo dos dez anos de peripécias revolucionárias. Estava pronto o Golpe de 18 Brumário - o mês das brumas, do nevoeiro. O Diretório seria substituído pela República Consular ou Consulado formado por três cônsules (Napoleão Bonaparte, Abade Sieyés e Roger Ducos), embora Napoleão fosse de fato aquele que governa a

França. Esse período, que aquele momento começava, funcionaria como uma alavanca para levar a França, como sempre fora a aspiração da burguesia, à Revolução Industrial, a modernização capitalista.

O Período Napoleônico (1799/1814-15)

Cronologicamente, a era napoleônica divide-se em: Consulado (1799/1804), Império (1804/14) e Governo dos Cem Dias (março/junho de 1815). Durante o Consulado, Napoleão priorizou a estabilização da economia, embora não desprezasse a questão externa e a pacificação da sociedade. Nesse sentido inscrevem-se nesse período: assinatura da Paz de Amiens, trégua com os ingleses; fundação do Banco da França; criação

de uma nova moeda, o franco; reatamento de relações políticas com a Igreja Católica através da Concordata de 1801; reforma do ensino francês, tornado responsabilidade do Estado e a Promulgação do Código Civil - inspirado no direito romano - assegurava as aspirações da burguesia como igualdade civil, o direito de propriedade e proibição de organização dos sindicatos de trabalhadores. Em 1804, apoiado nos resultados de sua administração, Napoleão, com base, também, em um plebiscito tornava-se imperador da França (dezembro). Essa fase foi marcada pelas guerras externas.

O exército francês, que no período jacobino se transformara em força de libertação dentro da Europa,

agora tornara-se em força de conquista, era o início da expansão francesa, ou seja, a formação do império napoleônico na Europa. Entretanto, o domínio napoleônico enfrentava a reação da Inglaterra, maior potência econômica do velho continente. Na tentativa de aniquilar os ingleses, Napoleão decretou, em 1806, o Bloqueio Continental que, proibia o comércio inglês na Europa, os países que descumprissem-no, ficariam sob ameaça de uma invasão da França. Esse foi o caso da Rússia, antiga aliada francesa, que furou o bloqueio. A invasão da Rússia (1811-1812) deu início a derrocada napoleônica, desmoralizado e esgotado o exército francês sofreu uma sucessão de derrotas diante da coligação da Inglaterra, da Prússia, da Rússia e da Áustria. Em 1814, Napoleão sofreu a derrota de Leipzig (Alemanha) em março de 1814, ele assinava o Tratado de Fontainebleau. Por esse tratado ele abdicava do trono e se exilaria na ilha de Elba.

“Com homens iguais a vós, a nossa causa não estaria perdida. Mas a guerra teria sido interminável; a guerra civil teria feito a França desgraçada. Sacrifiqueis, pois os nossos interesses aos

interesses da pátria (

Entre março e junho de 1815, seria criado o Governo dos Cem Dias. Napoleão após deixar o exílio, retornou a Paris, sendo recebido festivamente pelos soldados e obrigando Luís XVIII que, ocupara o poder no período do exílio, a fugir. Entretanto, a Batalha de Waterloo selaria a sua sorte. Derrotado, Napoleão seria preso na Ilha de Santa Helena - no Atlântico Sul - onde morreria em 5 de maio de 1821. “A Revolução Francesa consigna-se desta maneira um lugar excepcional na História do Mundo Contemporâneo.Revolução burguesa clássica, ela constituiu, para a abolição do regime senhorial e da feudalidade, o ponto de partida da sociedade capitalista e da democracia liberal na História da França. Revolução camponesa e popular, porque anti-feudal sem compromisso, tendeu por duas vezes a ultrapassar seus limites burgueses: no ano II, tentativa apesar do malogro necessário, conservou por muito tempo valor profético de exemplo, e quando da Conspiração pela igualdade, episódio que se situa na origem fecunda do pensamento e da ação revolucionários contemporâneos. Assim, se explica, indubitavelmente, esses vãos esforços no sentido de negar à Revolução Francesa, perigoso precedente, sua realidade histórica ou sua especificidade social e nacional. Mas, assim, também se explicam o sobressalto sentido pelo mundo e a ressonância da Revolução Francesa na consciência dos homens do nosso século. Esta lembrança, só por si, é revolucionária; ela ainda nos exalta.”(Soboul, A.- A Revolução Francesa. Ed. Deferiu. Pág. 122)

).”

(Napoleão. Despedida em Fontainebleau, em 20 de abril de 1814)