“À Sombra das Maiorias Silenciosas”, de Jean Baudrillard. Por Ian Caetano de Oliveira.

Para principiar a análise da teoria defendida por Baudrillard eu seu trabalho, começarei por expor o seu objeto de pesquisa. Baudrillard trata durante todo o texto sobre as “massas”, mais especificamente sobre a apatia destas “massas” nos campos político e social. Ele se vale de diversas reflexões para expor a apatia das “maiorias silenciosas” no concernente à informação, à cultura, à história, à política, ao social e até mesmo a Deus. Em pouquíssimos casos se vale de exemplos empíricos, portanto, faz uso de uma premissa filosófica para argumentar, uma metodologia mais conceitual, mais teórica. Ele lança mão das divergências entre teorias quanto a conceitos dentro das ciências sociais para, filosoficamente, atacar a sociologia otimista quanto às massas e os resultados de pesquisas delas extraído. Ele afirma em vários pontos do seu texto a abstração dos conceitos sociológicos; é uma critica tão veemente que mostra uma certa descrença por parte do autor na atuação destas ciências enquanto tais. O autor tem posicionamentos interessantes e que são muito persuasivos à corroboração do próprio. Um argumento interessante, por exemplo, é a consequência desta anomalia, as massas, no Político. Como diz o autor: “A forma é a de um jogo, não de um sistema de representação”, e também, “e a sua utilização depende de virtuosismo, não de verdade”. Ele ataca as massas acusando-as de terem tirado da política a ideologia e a fizeram passar a uma mera disputa estratégica, quase uma forma de entretenimento. Se formos olhar os moldes em que se dá a política hoje, e também o consenso quanto à veracidade da teoria democrática schumpeteriana, veremos que, de fato, o que era ideal como sistema de representação, hoje não passa de uma disputa estratégica. “O jogo eleitoral se identifica há muito tempo aos jogos televisionados na consciência do povo”. Ele afirma as massas como dotadas deste fascínio atávico pelo espetáculo, não querem o significado, querem os simulacros; aplicando neste caso: Não veem resultado na política, a não ser o jogo político em si. Para reafirmar este culto ao espetáculo, ele cita o exemplo da compreensão de Deus pelas massas. Ele afirma que nenhuma delas tentou alcançar o entendimento real acerca do onisciente, sentem muito mais fascínio nos rituais, nos “jogos” religiosos; para Baudrillard, não é que elas não saibam como o fazer (como buscar a iluminação), simplesmente não se interessam por tal; as massas aderiram às religiões não como meio de se alcançar Deus, mas como manual para execução de simulacros e ritos. “Para as massas, o Reino de Deus sempre esteve sobre a terra, na imanência pagã das imagens, no espetáculo que a igreja lhe oferecia.” “As massas absorveram a religião na prática sortílega e espetacular que adotaram”. Ele também desacredita a Informação, afirma-a como, em teoria, dotada de um ideal benevolente para com as massas, o ideal fazê-las ascender, fazê-las elevadas culturalmente. Baudrillard diz que “as massas resistem escandalosamente a esse imperativo da comunicação racional”. Ele diz que podem impor às massas

informação de toda a sorte, só lhes interessa o espetáculo. Só lhes interessa a repercussão, o absurdo da notícia, não a informação em si; o que elas querem é fazer alarde com o que lhes foi informado, não adquirirem ciência dos fatos, a notícia se espalha não pelo seu caráter informativo, mas por sua “sensacionalidade”. Nesta altura ele lança mais uma crítica dura às “maiorias silenciosas”, diz que elas não são alienadas. O que invalidaria qualquer possibilidade intervencionista para sanar o problema. “Sempre se acreditou que são os meios de comunicação que enredam as massas. Mas se esqueceu, nessa lógica ingênua da comunicação, que as massas são um meio muito mais forte que todos os meios de comunicação, [...]” Ele diz que elas têm total acesso as fatos e ciência deles, não é que não saibam, simplesmente não se importam. São indiferentes. Aqui, para corroborar seu argumento, ele se vale de um dos pouquíssimos dados empíricos utilizados na obra: “Na noite de extradição de Klaus Croissant, a televisão transmitia um jogo de futebol em que a França disputava a classificação para a Copa do Mundo. Algumas centenas de pessoas manifestaram diante da Santé, alguns advogados correm na noite, vinte milhões de pessoas passam sua noite diante da televisão”. Ele diz que não há como as massas serem alienadas após anos de aprendizagem política, do advento da informação, dos sindicatos, dos partidos, dos intelectuais e de todas as energias similares. Ele aponta ai o maior argumento para dizer que são da maneira que são simplesmente por escolha, por indiferença, por não verem sentido no que se refere ao político e ao social, a não ser nos rituais de ambos. Outro ponto interessante é afirmado na abstração progressiva consoante à disseminação da informação e dos conceitos nas massas. Quanto mais um conceito ou informação penetra nas massas, menos consistente ele fica. São teorias bastante persuasivas, mas façamos alguns questionamentos: É fato que hoje o acesso à informação é grande, porém, tanto no caso da informação, quanto no caso de Deus, creio que Baudrillard, paradoxalmente, deposita muita confiança nas massas ao dizer-lhes “não alienadas”. Os valores religiosos são passados de forma tal na nossa sociedade, que não há meio de se caracterizá-los de outra forma, senão alienação. Não necessariamente perversa, como é o consenso comum quanto à alienação, mas uma doutrina passada majoritariamente de forma hereditária e sem grandes espaços para questionamentos, que com o tempo se acalentam e o indivíduo se conforma. É fato que isso vem diminuindo com o tempo, mas ainda sim é uma prova da existência da alienação. Do mesmo modo se dá com a informação, que sabemos muito bem, não chega de forma uniforme a todos. Existem pesquisas aprofundadas sobre a assimetria do saber político e do saber das “massas”, e nelas se mostra a perspectiva da manipulação da informação, não só da perspectiva de se fabricar notícias, mas de omissão, uma vez que o sistema capitalista abarca inúmeras possibilidades de comercialização desta informação sob a óptica dos interesses de um determinado grupo, e não sob a premissa de informar a população. Prosseguindo ainda por interesses que podem não estar diretamente ligados ao político, mas às grandes indústrias; às celebridades; às classes dominantes; e diversos outros grupos. Feitas as contraposições, há ainda um outro ponto bastante articulado neste trabalho de Baudrillard. Ele explica, sob suas lentes, como se deu a origem desta

apatia, como surgiram as “maiorias silenciosas”. Ele parte da ideia de que as massas nunca “explodem”, no sentido de se fazerem ativas, de participarem, de questionarem. Elas “implodem”, assimilam tudo que lhes é injetado, este “tudo” cai na abstração proporcional à disseminação e temos então a incógnita que são as massas. Como não têm quem lhes represente, por não manifestarem-se sobre nada, a única expectativa do social e do político para dela darem conta são as estatísticas. As “massas”, uma vez que não têm quem lhes represente, passam a sofrer simulação, nela se aplica tudo, pois elas nada escolhem. Então se capta a reação delas e disso se molda a gestão. Ele diz que as sociedades primitivas se mantiveram justamente por um controle no sentido de se manterem na implosão (não sofrerem grandes alterações demográficas, nem acúmulo de bens, nem grandes exacerbações populares). A partir do momento em que não conseguiram mais controlar tais fatores, a sociedade sucumbiu, emergindo outra. Nas “modernas” ocorre justamente o contrário, sua subsistência reside justamente na explosão controlada (exatamente por ter surgido da queda das sociedades primitivas), conseguem explodir de modo regulado: explosão demográfica, comércio, industrialização, etc. O problema das nossas sociedades se mostra justamente quando se perde o controle acerca de tais “explosões”, de modo que elas se aceleram tanto que geram a implosão, o atropelamento de todos os setores uns pelos outros, gerando assim incompreensão das massas, as abstenções, por parte destas, em todos os campos do social e do político, sem exceção ou atipicidade. Dada a natureza entrópica desta implosão, as massas conformam-se no espetáculo, do simulacro, do consumo do supérfluo, na adoração dos rituais. Aqui ele profetiza a crise, uma vez que afirma que não há métodos para que a transição entre os dois sistemas seja equilibrada: “Não houve transição equilibrada de sistemas implosivos aos explosivos: isso sempre aconteceu violentamente, e há toda a possibilidade de que nossa passagem para a implosão também seja violenta e catastrófica.”, “A implosão é inelutável, e todos os esforços para salvar os princípios de realidade, de acumulação, de universalidade, os princípios de evolução que dependem dos sistemas em expansão são arcaicos, regressivos, nostálgicos”. Naturalmente que a ciência está longe de ter como obrigatório o caráter normativo, mas a obra de Baudrillard é visivelmente imparcial, é crítica, por conseguinte, uma vez que vai por estas vias, carece de possibilidades de mudança. Através da perspectiva de Baudrillard, não há como mudar estas “maiorias silenciosas”, salvo uma crise apocalíptica explicita na civilização moderna. Desta forma, é uma teoria que nos põe compreensão de alguns aspectos da sociedade, mas nos põe também as mãos atadas. Na perspectiva dos estudos sobre a apatia das massas, realmente é um texto indispensável, pois nos faz refletir bastante sobre esse caráter sonhador muitas vezes atribuído às massas. Nos faz ter um olhar um pouco mais cético, nos faz tender a olhar às massas com menos “vitimismo”. Outro aspecto importante que se faz notar no texto é a forma metodológica dos pensadores pós-modernos. É interessante ver que mesmo carecendo de dados

empíricos, a uma sofisticação muito impressionante no raciocínio filosófico de que se valem. Mesmo que diversas vezes indo por vias não tão objetivas. Para finalizar vale dizer que, embora eu discordando em alguns pontos, Baudrillard deixa seu pensamento de modo bastante sedutor, bastante convincente. Apresenta-nos uma veia indignada, mas que mesmo assim não perde a lucidez do argumento. Vale-se muito da metáfora, da abstração, mas isto apenas torna o texto mais irreverente, mas atrativo e também um confrontador das metodologias absolutas de concepção de artigos. Ian Caetano de Oliveira, cientista social graduando pela Universidade Federal de Goiás.

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