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ROMANTISMO

3ª GERAÇÃO - Condoreirismo
Minha mãe

Era mui bela e formosa, Quando o prazer entreabria Tão terna como a saudade
Era a mais linda pretinha, Seus lábios de roxo lírio, No frio chão das campinas,
Da adusta Líbia rainha, Ela fingia o martírio Tão meiga como as boninas
E no Brasil pobre escrava! Nas trevas da solidão. Aos raios do sol de abril,
Oh, que saudades que tenho Os alvos dentes nevados No gesto grave e sombria
Dos seus mimosos carinhos. Da liberdade eram mito, Como a vaga que flutua,
Quando c'os tenros filhinhos No rosto a dor do aflito, Plácida a mente — era a Lua
Ela sorrindo brincava. Negra a cor da escravidão. Refletindo em Céus de anil.
(...)
Éramos dois — seus cuidados, Os olhos negros, altivos,
Sonhos de sua alma bela; Dois astros eram luzentes; Se junto à Cruz penitente,
Ela a palmeira singela, Eram estrelas cadentes A Deus orava contrita,
Na fulva areia nascida. Por corpo humano sustidas. Tinha uma prece infinita
Nos roliços braços de ébano, Foram espelhos brilhantes Como o dobrar do sineiro;
De amor o fruto apertava, Da nossa vida primeira, As lágrimas que brotavam
E à nossa boca juntava Foram a luz derradeira Eram pérolas sentidas,
Um beijo seu, que era vida. Das nossas crenças perdidas. Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.

GAMA, Luís. In: Primeiras Trovas Burlescas do Getulino.


Contexto histórico-literário

O poema, até então expressão subjetiva de um sentimentalismo exacerbado, torna-se,


com Castro Alves e os condoreiros, o instrumento de uma causa social: a libertação dos
escravos. Por esse motivo, o projeto literário da terceira geração romântica brasileira será
denunciar, por meio da poesia, as injustiças sociais.
[…]
O interesse pelas questões políticas leva os poetas condoreiros a escrever uma
literatura mais engajada, mais consciente do contexto brasileiro do momento.
As condições de circulação dos textos literários não se modificam muito em relação àquelas
descritas para a segunda geração romântica: saraus, bailes, associações estudantis. Ao
lado desses espaços, os jornais se fortaleciam como instrumentos de divulgação de obras
literárias.

(ABAURRE, Maria Luiza. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras. São Paulo: Moderna, 2005. p.286)
Algumas datas Importantes

-1840: D. Pedro II herdara, do pai, um país -1850: Lei Eusébio de Queirós: punições
em profunda crise econômica àqueles que fizessem tráfico de
escravos.
-Diversas revoltas tomaram o Brasil da
época: Balaiada (Maranhão); a Revolta -1862: Abraham Lincoln liberta os
dos Liberais (São Paulo e Minas Gerais); escravos.
movimento dos farroupilhas (Rio Grande
do Sul) -1880: Fundação da Sociedade Brasileira
contra a Escravidão e da Associação
-Prosperidade na cultura do café em 1850: Central Abolicionista.
prosperidade econômica animava parte da
classe latifundiária. -1883: Publicação do livro Os escravos,
de Castro Alves (pós morte).

-1888: Promulgação da Lei Áurea.


Sociedade dividida:

-Emancipacionistas: defendiam o fim lento e gradual da escravidão, de modo que os


latifundiários pudessem se organizar para substituir a mão de obra africana.

-Abolicionistas: libertação total e imediata de todos os escravos.

-Escravistas: manutenção do sistema escravista.


Linguagem

A poesia condoreira tem algumas características bem marcantes. Composta para ser
declamada, faz uso intenso de vocativos e exclamações. A pontuação, aliás, é um dos
recursos mais explorados por esses poetas, uma vez que procuram dar aos textos um tom
característico da oratória.
Outro aspecto do Condoreirismo é o gosto pelas imagens exageradas, hiperbólicas,
que provocam impacto no leitor e despertam emoções mais fortes.

(ABAURRE, Maria Luiza. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras. São Paulo: Moderna, 2005. p.289)
Quadro Geral

•Inspirados pelos princípios libertários de Victor Hugo, os poetas Castro Alves, Sousândrade
e Pedro Luís escreveram sobre a escravidão e outros temas sociais.

•Liberdade como centro da poesia.

•Poesia engajada, com poetas participando de debates sociais;

•Intenção de atingir um grande público;

•Poeta orador;
Debret e a pintura da escravidão
Antônio de Castro Alves (1847- 71)

Além de uma ampla visão social de cunho messiânico, Castro Alves era dotado do que se chamava
naquele tempo “inspiração generosa”, isto é, facilidade torrencial de composição, associada à prodigiosa
concatenação verbal dos improvisadores. Escreveu muitos poemas comprometidos pela incontinência, que
o levou não raro perto do ridículo; mas escreveu também outros de grande beleza plástica, cheios de
imagens raras, e transfigurados pela exuberância comunicativa. Com ele rompe-se o masoquismo
lamuriento que estava na moda até então, e nos seus poemas os sentimentos parecem um ato de
afirmação vital. Tanto mais quanto tinha a capacidade de inventar metáforas expressivas e dinamizar o
verso por meio do contraste e da antítese, empregados ao gosto de Victor Hugo. Desse modo, pôde expor a
sua visão do mundo e dos homens segundo um movimento amplificador que aproxima a sua poesia da
oratória.
A sua fama foi devida sobretudo à poesia humanitária e social. Deixando de lado o índio, voltou-se
para o negro e tornou-se o poeta dos escravos, com uma generosidade e um ânimo libertário que
fizeram da sua obra uma força nos movimentos abolicionistas. Com ele o escravo se tornou assunto
nobre da literatura e o seu generoso ânimo poético soube criar para cantá-lo situações e versos de grande
eficácia, como se vê em “O navio negreiro”, no qual usa diversos metros e organiza a narrativa com
expressivo senso de movimento.
O tema do negro avultou nessa fase e suscitou, da parte dos escritores, uma tomada de posição na luta
contra a escravidão, que cresceu depois da Guerra do Paraguai, na qual negros livres e escravos formaram
parte dos contingentes, forçando o governo a decretar a liberdade dos recém-nascidos em 1871, a
libertação dos sexagenários em 1885 e afinal a abolição do regime servil em 1888. Destruída assim a base
da oligarquia que dominava o país e era o suporte da Monarquia, esta não sobreviveu.
(CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil.)
Castro Alves
Obras

-Espumas flutuantes (1870);

-A cachoeira de Paulo Afonso (1876)

-Os escravos (1883)


Tragédia no lar

[…] […]
Leitor, se não tens desprezo Não venham esses que negam
De vir descer às senzalas, A esmola ao leproso, ao pobre.
Trocar tapetes e salas A luva branca do nobre
Por um alcouce cruel, Oh! senhores, não mancheis...
Vem comigo, mas ... cuidado … Os pés lá pisam em lama,
Que o teu vestido bordado Porém as frontes são puras
Não fique no chão manchado, Mas vós nas faces impuras
No chão do imundo bordel. Tendes lodo, e pus nos pés.

Não venhas tu que achas triste ALVES, Castro.


Às vezes a própria festa.
Tu, grande, que nunca ouviste
Senão gemidos da orquestra
Por que despertar tu'alma,
Em sedas adormecida,
Esta excrescência da vida
Que ocultas com tanto esmero?
A canção do africano

Lá na úmida senzala, "Aquelas terras tão grandes,


Sentado na estreita sala, Tão compridas como o mar,
Junto ao braseiro, no chão, Com suas poucas palmeiras
Entoa o escravo o seu canto, Dão vontade de pensar ...
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ... "Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
De um lado, uma negra escrava A gente lá não se vende
Os olhos no filho crava, Como aqui, só por dinheiro".
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde O escravo calou a fala,
Ao canto, e o filhinho esconde, Porque na úmida sala
Talvez pra não o escutar! O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
"Minha terra é lá bem longe, Pra não acordar com o pranto
Das bandas de onde o sol vem; O seu filhinho a sonhar!
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
ALVES, Castro.
”O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
I

Stamos em pleno mar... Doudo no espaço Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Brinca o luar — dourada borboleta; Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
E as vagas após ele correm... cansam Neste saara os corcéis o pó levantam,
Como turba de infantes inquieta. Galopam, voam, mas não deixam traço.
[…]
‘Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro... Homens do mar! ó rudes marinheiros,
O mar em troca acende as ardentias, Tostados pelo sol dos quatro mundos!
— Constelações do líquido tesouro… Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano, Esperai! esperai! deixai que eu beba
Azuis, dourados, plácidos, sublimes… Esta selvagem, livre poesia
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?… Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
‘Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas, ALVES, Castro. O Navio Negreiro.
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…
IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho Presa nos elos de uma só cadeia,


Que das luzernas avermelha o brilho. A multidão faminta cambaleia,
Em sangue a se banhar. E chora e dança ali!
Tinir de ferros... estalar de açoite... Um de raiva delira, outro enlouquece,
Legiões de homens negros como a noite, Outro, que martírios embrutece,
Horrendos a dançar… Cantando, geme e ri!

Negras mulheres, suspendendo às tetas No entanto o capitão manda a manobra,


Magras crianças, cujas bocas pretas E após fitando o céu que se desdobra,
Rega o sangue das mães: Tão puro sobre o mar,
Outras moças, mas nuas e espantadas, Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
No turbilhão de espectros arrastadas, “Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Em ânsia e mágoa vãs! Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente... E ri-se a orquestra irônica, estridente...


E da ronda fantástica a serpente E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais... Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala, Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Ouvem-se gritos... o chicote estala. Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E voam mais e mais… E ri-se Satanás!…
ALVES, Castro. O Navio Negreiro.
V

[…]
Ontem a Serra Leoa, Ontem plena liberdade,
A guerra, a caça ao leão, A vontade por poder...
O sono dormido à toa Hoje... cúm’lo de maldade,
Sob as tendas d’amplidão! Nem são livres p’ra morrer...
Hoje... o porão negro, fundo, Prende-os a mesma corrente
Infecto, apertado, imundo, — Férrea, lúgubre serpente —
Tendo a peste por jaguar... Nas roscas da escravidão.
E o sono sempre cortado E assim zombando da morte,
Pelo arranco de um finado, Dança a lúgubre coorte
E o baque de um corpo ao mar… Ao som do açoute... Irrisão!…

ALVES, Castro. O Navio Negreiro.


VI

Existe um povo que a bandeira empresta Fatalidade atroz que a mente esmaga!
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... Extingue nesta hora o brigue imundo
E deixa-a transformar-se nessa festa O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Em manto impuro de bacante fria!... Como um íris no pélago profundo!
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga
Que impudente na gávea tripudia? Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Que o pavilhão se lave no teu pranto!… Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Auriverde pendão de minha terra,


Que a brisa do Brasil beija e balança, ALVES, Castro. O Navio Negreiro.
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Poesia Lírica: Castro Alves

Ao lado da sua poesia sobre os escravos, Castro Alves também compôs belos poemas
líricos. Sua lírica amorosa trará uma importante diferença em relação aos exageros
idealizados dos poetas ultra-românticos da segunda geração.
Marcados por uma sensualidade explícita, esses poemas substituem as virgens
inacessíveis por mulheres reais, lascivas e sedutoras.

(ABAURRE, Maria Luiza. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras. São Paulo: Moderna, 2005. p.291)
Adormecida

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia Dir-se-ia que naquele doce instante
Numa rede encostada molemente... Brincavam duas cândidas crianças...
Quase aberto o roupão.... solto o cabelo A brisa, que agitava as folhas verdes,
E o pé descalço do tapete rente. Fazia-lhe ondear as negras tranças!

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Exalavam as silvas da campina... Mas quando a via despeitada a meio,
E ao longe, num pedaço do horizonte, Pra não zangá-la... sacudia alegre
Via-se a noite plácida e divina. Uma chuva de pétalas no seio...

De um jasmineiro os galhos encurvados, Eu, fitando esta cena, repetia


Indiscretos entravam pela sala, Naquela noite lânguida e sentida:
E de leve oscilando ao tom das auras, “Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
Iam na face trêmulos — beijá-la. “Virgem! — tu és a flor de minha vida!...”

ALVES, Castro.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
O "adeus" de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa, Passaram tempos sec'los de delírio


Como as plantas que arrasta a correnteza, Prazeres divinais gozos do Empíreo
A valsa nos levou nos giros seus ... Mas um dia volvi aos lares meus.
E amamos juntos E depois na sala Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!. . . "
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala Ela, chorando mais que uma criança,

E ela, corando, murmurou-me: "adeus.” Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . . Quando voltei era o palácio em festa!


E da alcova saía um cavaleiro E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Inda beijando uma mulher sem véus Preenchiam de amor o azul dos céus.
Era eu Era a pálida Teresa! Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!" E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

ALVES, Castro.