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UMA CIDADE EXEMPLAR

Como anda nossa vida cívica no mês das eleições


JOÃO MOREIRA SALLES

Do terraço de um prédio se vê Três Corações. Do alto, a cidade se espalha. No


centro, casas, sobrados e pequenos edifícios se aglomeram sem outro ordenamento a
não ser a delimitação entre o público e o privado, o dentro e o fora, reservando-se ao
privado o que é bonito – a pintura, o ornamento – e, à rua, o que não importa. A
impressão é de coisa malfeita e pouca consciência da tragédia urbana que inventamos.
Entre as edificações mais próximas e as que aparecem ao longe passa uma linha que
separa os bairros mais ricos dos mais pobres, mas, do alto, o olho não distingue a
diferença. Numa socialização às avessas, em que não se distribui a virtude, mas o
defeito, a bagunça gestada pela ausência do Estado, tão viva nas comunidades mais
desassistidas, é o princípio que também organiza o lugar onde vivem os mais abastados.
A calçada intransitável de um palmo de rua rica é igual à calçada intransitável de um
palmo de rua pobre, um efeito fractal que transforma quase tudo na mesma coisa.
“Isso não faz sentido nem dentro da lógica capitalista”, diz Angela Azevedo,
apontando as franjas da zona urbana, onde casas de pé, cascas de casa e terrenos
baldios ocupam lotes de novos lançamentos imobiliários. “São milhares de lotes vazios, é
uma loucura. A cidade está crescendo pouco, boa parte desses lotes continuará vazia.
Eles vão ser foco de dengue, de lixo, de criminalidade, de custo para a iluminação
pública.”
Arquiteta e urbanista aposentada, a carioca Angela Azevedo se mudou em 2013
para Três Corações, cidade que frequenta desde a década de 70. O que a deixa perplexa
não é a especulação imobiliária, cuja lógica ao menos compreende, mas a irracionalidade.
O que ela vê do alto do prédio onde mora não é fruto de cálculo, mas de
“desconhecimento absoluto”. Nem o impulso econômico teria mais projeto ou estratégia.
Como já temos um jeito brasileiro de fazer cidades, a paisagem urbana que se vê
poderia ser de qualquer parte. Por uma conjunção estatística, calhou de ser aqui. Com
cerca de 80 mil habitantes, Três Corações, no sul de Minas, reflete bem o Brasil. Seja na
proporção entre homens e mulheres, seja no grau de escolaridade, na distribuição etária
ou na participação dos cidadãos na atividade econômica, os números mostram que a
cidade espelha quase à perfeição a média do eleitorado brasileiro. Três Corações é um
condensado  de nós mesmos, brasileiros que estudam, trabalham, militam, empreendem,
destroem, rezam, criam, delatam, pecam, poluem, protestam, corrompem, sonham e
votam, neste ano da graça de 2018, sob a luz enfermiça da crise que nos engole.
 
A diretoria da Associação Comercial e Empresarial de Três Corações se reúne
sempre às quintas-feiras, às oito da manhã. No dia 30 de agosto, a pouco mais de um
mês das eleições, os oito homens sentados ao redor da mesa encerram as discussões da
pauta semanal. Estão representados ali os ramos de supermercado, móveis, papelaria,
drogaria, calçados e ótica, dentre outros. Alguns diretores atuam em mais de um setor.
“Se for anotar tudo que o rapaz aí faz, vai acabar com o bloquinho”, brinca um deles,
referindo-se a Bibi, apelido de Maxwelber Massahud, dono de um pet shop (Bibi Pet), de
uma sorveteria, uma confecção, uma papelaria e, como informa o próprio, “uma
distribuidora que atende a órgãos públicos”.
“Nós temos quatro propostas para enfrentar os grandes problemas da cidade”,
explica Bibi, enumerando-as com os dedos. “Um: instalação de câmeras de segurança
pela cidade” – em 2017, Três Corações foi recordista em homicídios no sul de Minas, com
dez casos. “Dois: a lei para regulamentar as feiras livres e os ambulantes. Três: um
conselho de desenvolvimento com poder deliberativo.” Bibi estica o mindinho para falar do
quarto ponto, e se cala. Um silêncio constrangedor se instala. Ninguém se lembra bem do
quarto ponto.
“No fundo as carências são imensas”, atalha Arley Salgado (Ótica Real),
esclarecendo que os quatro pontos de Bibi não devem ser tomados como agenda
consensual. “O nosso mandato é para defender os interesses do comerciante, mas a
cidade não tem uma política de desenvolvimento. O que existe são projetos políticos
pessoais”, afirma, para aprovação de todos. Já a associação estaria mais comprometida
com a cidade. “Quem construiu a igreja?”, pergunta um. “O comércio”, respondem todos.
“Quem reformou o hospital?” “O comércio”, respondem os oito. “A gente até faz marmitex
pra distribuir à noite”, reforça o dono dos calçados.
Embora a associação se declare apartidária e não se manifeste politicamente, os
oito membros da diretoria, falando agora como eleitores, consideram João Amoêdo, do
Partido Novo, o melhor candidato à Presidência, o “voto de rebeldia” contra a
malandragem, o estatismo, a corrupção e o descompromisso com o país. Àquela altura,
diante de uma provável polarização entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, em quem a
cidade votaria? “Bolsonaro”, respondem todos em ordem unida. Mas essa seria a posição
da cidade, sublinha o dono da ótica, não a deles, ou pelo menos não a dele: “É que a
gente tem uma relação de longa data com o Exército brasileiro.” Três Corações abriga a
Escola de Sargentos das Armas (ESA), responsável pela formação de sargentos do
Exército. “A gente sabe que ali existe organização, civismo, patriotismo. A população vê
com bons olhos porque sabe que ali funciona – pelo menos ali.”
Da cabeceira da mesa, Giovanni Corrêa (móveis), o presidente da associação, um
tipo que prefere ouvir a falar, toma a palavra: “O conselho de desenvolvimento é essencial
para pensar a cidade a médio e longo prazo porque a cada novo governo começa tudo do
zero.” A regra é desfazer o que fez o antecessor. Nessa política feita com o fígado, a
cidade é o que resulta dos ódios que se alternam no poder. O conselho seria um antídoto
a esse estado de coisas. “Levamos ao prefeito e ainda não tivemos retorno”, diz Corrêa,
severo.
Não é apenas a Prefeitura Municipal que parece desinteressada. No início de seu
mandato, Corrêa tentou juntar algumas das forças vivas da cidade – OAB, maçonaria,
Rotary, sindicatos rurais, a universidade local – para discutir um projeto comum para Três
Corações nas próximas décadas. “Marcamos uma reunião aqui e sabe quantas entidades
aderiram? Nenhuma. Zero.” Os sintomas são de enfraquecimento do impulso associativo.
“O Rotary já teve 160 membros”, diz um diretor. “Hoje não junta quarenta. O Lions tinha
200 e deixou de existir.”
Em 17 de dezembro de 2013, a Polícia Federal deflagrou a Operação Metástase
57 (número da antiga sede da prefeitura no Centro da cidade), que investigava o desvio
de recursos públicos em Três Corações no período de 2009 a 2012. Naquele dia, boa
parte da elite política e econômica da cidade foi presa, 37 pessoas ao todo. Nos meses
seguintes, 59 seriam indiciadas. Bastam dez minutos de conversa em qualquer canto da
cidade para que o assunto aflore espontaneamente, o que torna quase automático
associar a falta de ânimo para a vida cívica com a devastação causada pelo espetáculo
de 180 agentes da PF entrando na casa dos grandes da cidade – políticos, servidores
públicos, empresários, comerciantes e profissionais liberais – e os levando algemados
para a cadeia, não sem antes desfilar com eles pelo Centro da cidade.
“Arte cênica”, opina Bibi. “Uma operação sem pé nem cabeça”, avalia Marco Túlio
Cupolillo, aposentado, ex-dono de restaurante, que oferece uma perspectiva histórica do
acontecimento: “Eu estou com uma coisa arranhando a garganta, então vou dizer. Eu fui
da ESA na época do regime militar – aqui nós não dizemos ditadura. Chegava o final de
semana, a gente enchia de dez a doze tambores de gasolina e entregava para os
tenentes. Os militares viajavam com a gasolina do Brasil. Então isso vem de longe, desde
Portugal.” Os circunstantes se apressam em dizer que essa é a opinião do aposentado,
não a deles.
Diante do desconforto na sala, o presidente Corrêa toma a palavra: “É preciso
entender que os danos são irreversíveis na vida dessas 37 pessoas. Eu mesmo fui uma
delas.” Corrêa, que ficou preso cinco dias, é réu em ação penal por fraude em licitações e
em ação civil por improbidade. “Pega empresário da construção civil que desenvolve a
cidade, pega o presidente da associação comercial… São pessoas que poderiam estar
participando, mas se afastaram, e o resultado é que a política está largada.” “As famílias
que foram presas são gente daqui, gente boa, que trabalha sério. Puseram todos no
mesmo balaio”, lamenta o dono da ótica.
A reputação da cidade sofreu. Os investidores fogem e “até o pessoal daqui investe
pouco”, diz um deles. Bibi conta de um amigo que tinha planos ambiciosos para expandir
seu negócio, mas foi injustamente indiciado pelo Ministério Público e “tomou desgosto, só
investe depois que passar a raiva”. O dono da ótica intervém: “A Metástase foi uma ação
política contra o grupo que estava no poder. Um grupo novo assumiu as rédeas e vieram
as denúncias…” Feitas pelo atual prefeito? Ao redor da mesa, os braços se abrem em
sinal de “conclua você”. O silêncio não dá margem a dúvida: a Associação Comercial e a
prefeitura estão em guerra.
Enquanto os membros da diretoria se preparam para ir embora, Cupolillo, o ex-
dono de restaurante, quer confirmar a informação: “Então Três Corações está na média
brasileira?” Sim, está. A cidade aparece em primeiro lugar numa relação do Ibope dos
vinte municípios que mais se assemelham ao país em termos sociodemográficos. “Então
o Brasil está numa merda danada”, resume o presidente Corrêa.
 
“A política aqui está viva”, sentencia o cineasta Braz Chediak. “Viva como os
vermes sobre o cadáver.” Conhecido por suas adaptações de Nelson Rodrigues e Plínio
Marcos, sucessos nos anos 70 e 80, Chediak é tricordiano e voltou a morar na cidade
depois de décadas fora. Sua casa, no alto de uma escadaria, fica espremida entre
imóveis mais altos, como um ovo num copo. Estantes de livros ocupam as paredes, as
prateleiras vergadas sob o peso dos clássicos russos, americanos e brasileiros.
Aos 76 anos, Chediak vive sozinho e sai pouco, o que não o impede de interagir
com o mundo pelas redes sociais, nas quais atua com grande entusiasmo. Leitor
obsessivo de tudo que já se escreveu sobre a cidade, tem uma tese que não pode ser
compreendida sem que se leve em conta a história do que a enriqueceu no passado. Em
1900, o presidente do estado, título que se dava ao governador, assinou um decreto que
assegurava a Três Corações o direito exclusivo de embarcar para a capital da República
todo o gado de corte do Sudeste e do Centro-Oeste. Para tanto, era preciso transformar a
cidade no grande pivô da pecuária brasileira, o que foi feito graças à Feira de Gado de
Três Corações, criada pelo mesmo decreto. O gado seguia “em trens de ferro com destino
aos grandes frigoríficos ingleses, alemães e norte-americanos instalados no Rio de
Janeiro, tais como Swift, Armour e Durisch”, escreveu um historiador local, e a carne, a
partir dali, “seria processada e exportada para todo o mundo”.
“A cidade se desenvolveu sobre o coronelismo dos fazendeiros”, diz Chediak. “Ouvi
da boca de um homem simples uma frase perfeita: ‘Onde entra o boi sai o homem.’ A
gente vê isso no filme  Shane  [Os Brutos Também Amam]. O homem que cultiva a terra
tem um lugar. Precisa conhecer o chão, saber onde está. O boiadeiro, não. Não quisemos
fazer um lugar aqui. A política tricordiana foi criada com essa mentalidade. Política
boiadeira. Política classista.”
Num restaurante de beira de estrada com boa comida mineira, Irlei Fonseca
descreve as forças políticas da Três Corações de hoje. Atual secretário de Comunicação e
ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, é um observador atilado da cena local.
Olha as coisas com menos paixão, talvez por não ser tricordiano – nasceu em Betim –,
vicissitude que alguns adversários reputam como pecado original.
Pensa que a influência do Exército viria da interação natural dos militares com a
população no dia a dia. Questão mais de convívio do que de ação política dos oficiais. “Se
o poder local fosse um tabuleiro de xadrez, eu diria que o Exército é a torre” – poderosa,
mas sem ambição de conquistar o centro; presume-se que, ao menos no início da partida,
permanecerá nas margens. O poder econômico tradicional seria o cavalo, uma influência
dissimulada, que não fala reto. Previsivelmente, a Igreja é o bispo, o “oblíquo bispo” do
poema de Borges, figura eminente que perdeu almas, mas não o dom de se achegar ao
ouvido dos poderosos. “E a rainha é a prefeitura, que dá emprego.”
A assessoria de imprensa da prefeitura informa que 2 304 servidores trabalham na
administração municipal, quase 3% da população. (Com população semelhante,
Wellingborough, no Reino Unido, emprega 142 pessoas; 226 pessoas trabalham para a
prefeitura de La Dorada, Colômbia, cidade com 78 mil habitantes.) Se não for a maior
empregadora de Três Corações, a prefeitura certamente está entre as maiores. A vida
econômica e política da cidade gira em torno dela. Boa parte das pessoas com quem se
conversa já trabalhou, trabalha ou sonha trabalhar na prefeitura. E se não isso, então a
prestar serviços a ela ou dela receber algum apoio.
Os amores e ódios que um prefeito desperta – qualquer prefeito – muitas vezes
têm origem no acolhimento ou rejeição das demandas que lhe foram dirigidas. “Quando o
prefeito apoiava o meu projeto, eu falava bem dele. Quando tirou o apoio, ataquei. É isso,
é como as coisas são”, admite Chediak, referindo-se a um programa de arte-educação
que implantou na cidade. “Atendia cinquenta crianças com teatro e música, era o melhor
projeto social de Minas”, diz.
“O que me chateou”, explica, “foi que o prefeito marcou uma data para assinar a
renovação. No dia, ele não apareceu e fui recebido por um secretário, que me disse que o
prefeito não ia renovar, mas era para eu enxergar a política como as nuvens, que sempre
mudam e podem voltar à forma desejada. Nem a imagem era original, isso é de Tancredo.
Pela minha idade, ele tinha que me receber.” Chediak, que alguns têm na conta de “o
homem mais inteligente de Três Corações”, correu para a internet e soltou o verbo.
O poder e as relações com o poder estão em toda parte. Uma pessoa que
atravesse a cidade notará o que se decidiu celebrar ali. Mais do que a paisagem, a
ciência, as artes ou a atividade econômica, o que se homenageia são os políticos, boa
parte deles locais. As artérias mais importantes da cidade levam seus nomes: rua
Deputado Carlos Luz (ex-presidente do Congresso Nacional); rua Milton Mendes
(vereador e ex-presidente da Câmara); avenida Prefeito Orlando Rezende de Andrade
(ex-prefeito); praça Odilon Rezende Andrade (ex-prefeito) – homens públicos que
paulatinamente tomaram o lugar da rua do Passa-Bois, da rua do Campo, da rua de Trás
ou da rua Direita, vias históricas do passado tricordiano.
A distância entre um cidadão tricordiano e seu prefeito é muitíssimas vezes menor
do que a que separa um paulistano do ocupante do Edifício Matarazzo. Na cidade
mineira, prefeitos e ex-prefeitos são vistos pelas ruas com frequência banal. Vê-se o
poder, toca-se o poder, e no entanto o poder é para poucos. Ao ser indagado se há
renovação na política da cidade, um morador respondeu assim, referindo-se ao atual
prefeito, Cláudio Cosme Pereira de Souza, e ao antecessor, Fausto Ximenes: “Tem, sim.
O Cláudio é bonito e o Faustinho é feio.” Não parecia estar sendo irônico.
Partidos não têm nenhuma relevância. Cumprindo o segundo mandato, o prefeito
Dr. Cláudio, como aparece nas urnas, elegeu-se primeiro pelo PSL e depois pelo MDB,
apoiado por uma coalizão de que faziam parte DEM, PT, PSDB, PSD, PP, PTN, PPL, PR,
PV, PRTB e PRB. Numa conversa em fins de agosto, um de seus grandes rivais, o Gordo
Dentista – alcunha que José de Paiva Gomes oficializou como nome eleitoral –, duas
vezes prefeito da cidade, elencou, não sem alguma dificuldade, seu histórico partidário.
“Fui vereador pelo PDT, partido pelo qual me elegi prefeito. Depois PP, prefeito também.
Perdi a prefeitura pelo… PP. Perdi de novo pelo PSL. Hoje sou presidente do PSD daqui.”
Altair Nogueira, atual secretário de Cultura, foi do PHS, depois do PPS e hoje está filiado
ao DEM: “Mas só por conveniência política”, se apressa em explicar. Não se sente afinado
com o ideário liberal dos democratas e se considera de centro-esquerda – “É impossível
negar os avanços sociais de Lula e Dilma” –, autodefinição que surpreende seu colega de
secretariado Irlei Fonseca, que sempre o imaginou de centro-direita.
A barafunda partidária não poupa muita gente. Ana Alexandrina Vilhena Sant’Ana,
a Haninha, é proprietária da única livraria de Três Corações. Movendo-se desde os anos
70 pelos círculos mais progressistas da cidade, sempre foi da turma dos artistas e
boêmios. No passado, flertou com a política e ajudou a fundar o Partido Verde na cidade,
mas não foi pelo PV que uma vez se lançou – ou foi lançada – candidata a vereadora.
“Isso mancha a minha biografia”, diz meio constrangida. “Foi um pedido do Gordo
Dentista, porque um partido da coligação dele precisava preencher a cota de mulheres.
Nem me lembro qual.” Sentado ao lado dela, um amigo ajuda: parece que foi o PEN.
“Nem eu votei em mim”, ela conta. “Sabe o que é? Perdido por um, perdido por mil. A
essa altura, eu ia lá dar uma de purista? Era um amigo pedindo.” Em 2016, o resultado
das eleições tricordianas mostrou que 27 candidatos a vereador – seis homens e 21
mulheres – obtiveram menos de vinte votos. Em 2012 os números foram parecidos,
indicando um padrão: as mulheres são ampla maioria entre os candidatos que são
lançados para não conquistar votos. Elas estão ali apenas para preencher a cota
estabelecida por lei desde 2009.
 
“Declaro aberta a sessão do Parlamento Jovem”, diz a menina negra de 17 anos,
“do povo para o povo. Todos de pé para o Hino Nacional.” Na Câmara Municipal de Três
Corações, dezoito jovens – doze mulheres, seis homens – se perfilam diante da bandeira.
Representam escolas públicas e privadas que participam de um programa lançado há
quinze anos pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Ao longo de um ano, alunos do
ensino médio emulam os procedimentos do Legislativo, em debates sobre um tema que
eles mesmos escolhem. No caso, violência contra a mulher. Se deliberarem bem, suas
propostas poderão ser enviadas à Assembleia em Belo Horizonte e, se aprovadas lá,
transformar-se em lei.
Vê-se mais Brasil no Parlamento Jovem – brancos e negros, homens e mulheres,
ensino público e privado – do que na Câmara de Três Corações, composta por dez
vereadores de tez clara, nove deles do sexo masculino. O exercício parlamentar daqueles
jovens não é vão. No decorrer do ano, oito meninas vieram relatar episódios de assédio
de que foram vítimas e autorizaram que o áudio de seus testemunhos fosse encaminhado
à autoridade competente. Num sistema  tão refratário a quem nasceu pobre, o Parlamento
Jovem dá a impressão de ser um mecanismo não trivial de participação democrática.
Algumas vocações políticas se revelam ali.
Luis Guilherme Miguel de Souza é um exemplo disso. Aos 17 anos, já participou do
programa e presidiu a Câmara Mirim, projeto semelhante em âmbito municipal. Filho de
pais separados que estudaram até a 4ª série – o pai pedreiro, a mãe costureira –, está no
último ano do ensino médio e pretende cursar direito. É bom aluno? “Ótimo”, diz sem
empáfia.
Há poucos meses, empregou-se num cartório com salário mensal de 1 200 reais.
Nunca teve dificuldade em arranjar trabalho, fato que atribui à sua fé evangélica. É o
único protestante da família. “Minha casa é toda deslocada”, diz em voz baixa, com os
modos reservados de quem nunca deixa espiritualmente o templo. Com serenidade e
alguma tristeza, revela que o pai é alcoólatra e que um dos dois irmãos está preso por
tráfico de drogas. “Família bem judiada mesmo. Se eu sou assim” – regrado, estudioso –
“é por mim mesmo, não vem de casa.”
Sua consciência política foi despertada em 2013, quando participou da Câmara
Mirim. “Lá eu aprendi a ter argumento. A aceitar os nãose ganhar no debate.” Política para
ele é vontade de mudança. “Eu penso nisso todo dia”, diz. Se chegasse ao poder, sua
primeira medida seria reduzir o salário dos vereadores. Exigiria também que tivessem
curso superior. “Eles não sabem o que é um orçamento, uma Lei de Diretrizes
Orçamentárias.” Sabe para onde vai. “Eu sonho alto. Quero ser presidente da República”,
diz, sem espalhafato. Admira Barack Obama e Nelson Mandela – “Eles chegaram lá” –, e
guarda de cabeça a data em que tirou o título de eleitor. “É a ferramenta que muda tudo.”
Como líder de sala, opôs-se a uma recente greve de professores do ensino médio,
a segunda do ano. “Eram dois direitos entrando em atrito: o nosso de estudante querendo
estudar e o dos professores querendo receber. A minha luta era pelos estudantes.
Corríamos o risco de perder o ano. Eu me expus. Uma professora veio dizer para minha
mãe que era melhor eu ficar em casa assistindo aula no YouTube e lavando louça do que
ir para a escola.” O que o deixou “transtornado, com muita raiva mesmo”, foi a referência
à louça. “Em vez de estudar, lavar prato?”, choca-se ainda ao relembrar o episódio. Souza
é negro e, embora não faça nenhuma alusão a isso, dificilmente deixou de receber a frase
como um comentário à cor de sua pele.
Dá a impressão de ser um menino sem turma, e é. “Não tenho grupo, braço, apoio
de ninguém”, confirma. Suas convicções políticas o aproximaram de Bolsonaro.
“Admirava o Lula, mas os escândalos me decepcionaram muito.” Do candidato do psl,
elogia a política do porte livre de armas, pois “hoje é bandido solto e a gente preso dentro
de casa”. Também rejeita a política de cotas: “Eu sou contra. Outro dia vi uma foto em que
aparecia um advogado, um preso e um policial. Todos negros: é possível escolher o que
se deseja ser.” Chegou a fazer um concurso da Companhia de Saneamento de Minas
Gerais e decidiu não se declarar negro: “Se eu passasse por cota, ficaria sempre com a
sensação de estar tirando a vaga de outro.” De 340 candidatos, terminou na 278º posição.
A visão de mundo de Souza nasce do que ele conseguiu fazer de si mesmo. Com
disciplina e esforço, superou as desvantagens que recebeu ao nascer. Não dependeu de
ninguém e ninguém o ajudou. É um exemplo notável do que os liberais chamam de
mérito, e é possível conjecturar que, para ele, a ascensão social não será uma miragem.
A contraface é que, no mundo que anseia, não há muito espaço para os que não têm a
mesma determinação. Projeta aspirações mais individuais do que coletivas. Não confia
em políticas sociais distributivas. Nos governos petistas, a mãe recebia o Bolsa Família,
mas “por causa de mim”. E não aliviou as coisas? “Com 30 reais?”, rebate. Pode ter
melhorado um pouco, talvez, mas só materialmente. Com a mesma tristeza do início,
reforça o que já havia dito sobre a família: “É tudo muito judiado.”
 
Mauricio Gadbem é psiquiatra e psicanalista. De ascendência libanesa como
muitos de seus concidadãos, alto, robusto e de barba e cabelos brancos, não ficaria mal
no papel de xeque em  Lawrence da Arábia. Arguto e letrado – “Estamos no  Baile  do
Ettore Scola, enquanto o fascismo está tomando conta”, diz, comparando o filme ao
momento atual do Brasil –, Gadbem preside a Câmara de Vereadores de Três Corações.
Costuma despachar vestindo a roupa branca de médico com a qual atendeu pacientes
pela manhã. “Passei a vida entre marginalizados, loucos, rejeitados e excluídos, e foi o
que me fez entrar para a vida pública”, explica.
Sua atuação à frente da Câmara tem sido vistosa. Passou leis exigindo que as
empresas que recebem terrenos da prefeitura, prática usual para atrair investimentos,
fossem obrigadas, em contrapartida, a doar um salário mínimo mensal para associações
assistenciais. Reavivou as comissões da Câmara, que andavam adormecidas. Junto com
um combativo vereador da Rede, trabalhou num relatório devastador sobre a situação das
unidades de saúde do município – mofo nas paredes, instalações depredadas, banheiros
inutilizados, mobiliário sucateado, falta de anestésicos e de papel higiênico. Fez da
Câmara o centro da resistência à instalação de uma termelétrica que pretendia gerar
energia a partir da queima de pneus.
Gadbem representa a oposição de Três Corações. A casa que preside fica numa
extremidade da cidade e a prefeitura, na outra. Há pouco trânsito entre as duas pontas.
Em frente à Câmara está o parque municipal Dondinho, nome que homenageia o pai do
mais ilustre tricordiano, Pelé. Há plástico pelo chão, postes que iluminam colônias de
cupins, alguns eucaliptos plantados em fila e um fio d’água triste onde um patinho tenta
sobreviver. Diz-se que a prefeitura descuida do Dondinho porque o parque fica em frente
à Câmara. (O prefeito nega.) A falta de diálogo entrava a solução dos problemas mais
urgentes da cidade. “Já tentei relação institucional”, defende-se Gadbem, “mas o Cláudio
sequer vem aqui. No meu atual mandato, nunca veio. Já viu disso?”
Não gosta da expressão “rixa política” para descrever a origem da disfunção. “Isso
é o eufemismo que se usa. A verdade é que não se pode dialogar com bandido”, diz,
abandonando os algodões da etiqueta. Como numa cena de vaudeville, a porta do
gabinete se abre e um rapaz com jeito de cantor sertanejo espeta a cabeça para dentro
da sala. “Aí, presidente, preciso falar com você sobre aquele assunto.” Os dois trocam
amenidades e marcam a conversa para mais tarde. Quando a porta se fecha, Gadbem
sussurra: “É perigoso.” Trata-se de Fabiano Barbosa, o Quati, vereador ligado ao prefeito.
“Foi condenado por compra de votos…” De fato. Em 2012, Quati foi condenado em
primeira instância a oito anos e dois meses de prisão por trocar votos por cimento e
manilhas.
Gadbem não quer dividir os mesmos parágrafos com o grupo do prefeito. “Não me
põe na mesma frase do Altair”, pede, referindo-se a Altair Nogueira, o secretário de
Cultura. Difícil. Se a ideia é compreender a vida política tricordiana, não há como não
entrelaçar todos os personagens. “Mas junto, não. Com Cláudio” – o prefeito – “até pode
ser, mas não com Altair.” Lembra que Nogueira foi um dos presos da Operação Metástase
(a denúncia foi arquivada) e também que respondeu a ação penal por pedofilia (em 2011,
Nogueira foi a uma festa num sítio chamado Sandubão, em que havia uma prostituta
menor de 18 anos; foi absolvido em primeira instância e o MP não recorreu.) “Existe um
movimento para deixar tudo como está e um movimento para mudar, representado por
mim. O poder econômico está com eles. A crise de representatividade é profunda. Política
é um meio de cultura para o mau-caráter, para o psicopata. Ele chega ali e floresce. A
renovação é mínima.” Também em Três Corações? Gadbem pensa por uns segundos:
“Não, eu mesmo sou a maior expressão disso. Como diz um colega, eu sou a reserva
moral de Três Corações”, conclui, meio troçando, meio não.
A reserva moral de Três Corações militou sempre no campo da esquerda, admira
Marcelo Freixo, já foi do PMN e agora é candidato pelo PSL. Gadbem percebe a
perplexidade no rosto do interlocutor. “Eu quis entrar no PT, mas não teve abertura. O PT
é coligado ao Cláudio. Gosto do PSOL, mas me alertaram que o partido não faz
coligações. Um amigo era do PSL e me convidou para entrar. Isso foi antes do
Bolsonaro.” Conta que foi à última convenção do partido e viu um candidato carregando
uma faixa com o enunciado “Bandido só na horizontal”. Não bastou para que se
desfiliasse. A questão seria pragmática, explica, o mandato é do partido e uma troca
resultaria em perda do mandato.
Seria possível argumentar que o princípio vale mais do que o mandato, mas nem é
necessário. A lei dos partidos estabelece que a desfiliação pode ser feita em justa causa
quando há “mudança substancial ou desvio do programa partidário”. Um ministro do
Tribunal Superior Eleitoral teria dificuldade em discordar que, desde 26 de março de 2018,
data de entrada de Bolsonaro no partido, o psl mudou de rumo.
 
Direita Minas é uma comunidade virtual formada por “conservadores contra a
inversão de valores em Minas Gerais”. Um dos líderes do braço tricordiano mora numa
casa de classe média impecavelmente asseada. Chama-se Welinton Brasil, tem 31 anos
e é representante de produtos de salão de beleza (“escova progressiva, hidratantes etc.”).
O movimento a que pertence desconfia da imprensa, o que não impede o Brasil de ser
suave e polido. Está disposto a falar, mas avança com cuidado, escolhendo as palavras
como quem pisa num chão escorregadio. “A gente cresce ouvindo paradigmas do tipo
‘não pode comer manga com leite senão morre’, e só mais tarde se dá conta de que
talvez não seja bem assim. Comecei a ver coisas no PT com as quais eu não concordava
– ideologia de gênero, corrupção. Aí veio a Lava Jato e concluí que estávamos perdidos.
A imprensa tentava abafar os escândalos, a  Veja  e os outros veículos sempre puxavam
para o lado do governo. Só passaram a criticar quando já não era mais possível
defender.”
Muitas das pautas que o mobilizam dizem respeito aos costumes. No centro de
tudo estaria a defesa da família tradicional. Causa-lhe aversão o vídeo em que uma
“filósofa do PT” – Marilena Chaui – “diz que a classe média é horrorosa, que ela nos odeia
e que o conservadorismo deveria deixar de existir”. Em 2016, candidatou-se a vereador
para defender sua agenda. Fez uma campanha limpa, sem sujar as ruas, “sem tirar foto
com pastel na mão ou bebê no colo” e sem trocar voto por cesta básica, uma proposta
recorrente, segundo diz. “Ó, por incrível que pareça, até que recebi muito voto. Foram 43”,
conta.
O que ocorreu na direita nesses últimos anos foi o fim da vergonha. Jair Bolsonaro
permitiu que ela fosse tão petulante quanto qualquer movimento político que se crê do
lado certo da história. “Nós despertamos em 2012, graças ao Bolsonaro. Ele expandiu
meu raciocínio”, diz. Welinton Brasil tem um líder e clareza de propósito. Desde a
emergência de seu candidato, seu mundo ficou menor e sem segredos, tornou-se mais
fácil viver dentro dele. Não votará em ninguém caso Bolsonaro não chegue ao segundo
turno. “Boulos, nunca. Dizem que Marina foi até do MST. Amoêdo parece que foi do Itaú,
teve confusão lá, não sei bem. Alckmin é a velha raposa da política. Ciro é o coronel.”
Welinton Brasil é filho de militar. Admira a ordem e a disciplina. Preza as famílias bem-
estruturadas e sente-se nele alguma dor quando diz que é separado, razão talvez da
tristeza que é incapaz de esconder e motivo pelo qual mora na casa dos pais. Na
hierarquia de suas admirações, Jesus Cristo aparece em primeiro lugar. Depois, os pais. A
lista parecia se encerrar aí. Cedendo a alguma insistência, incluiu no panteão o tenente
Antônio João Ribeiro, morto na Guerra do Paraguai ao defender seus soldados de um
avanço fulminante do inimigo. “Resistiu, não se entregou e na hora da morte disse: ‘Meu
sangue e o de meus companheiros servirão de protesto solene contra a invasão do solo
de minha pátria.’ Foi um herói, morreu pela nação.” Com um sorriso tímido, concluiu:
“Acho que se devia matar pela pátria, mais do que morrer por ela.”
 
Paulo Morais e Ronildo Prudente são amigos de se falar a toda hora. Morais,
jornalista e professor de gestão pública numa universidade da região, e Prudente, músico
e ator, respondem pela Viraminas, uma das poucas associações culturais sem fins
lucrativos de Três Corações. Vivem de recursos captados junto às empresas locais e de
apoios pontuais da prefeitura.
Barbicha rala, Morais tem o ar divertido do personagem mais ajuizado de uma
dupla de desenho animado. Fazia dois ou três dias que andava intrigado: “Nunca tinha me
dado conta dessa história de todo mundo trabalhar na prefeitura. Fiquei pensando em
quem nunca trabalhou e não me veio ninguém.” Ele próprio nunca foi funcionário
municipal, mas depende da caneta do prefeito para poder levar adiante o seu trabalho.
Uma penca de empresários locais mantém relação semelhante com a prefeitura, do dono
da movelaria que fornece mesas e cadeiras para postos de saúde ao dono da papelaria
que abastece o funcionalismo com material de escritório. A qualidade da relação com o
prefeito é um dos ativos mais preciosos que um empresário ou um artista pode ter. Na
briga por verbas escassas, os primeiros levam vantagem. Numa cultura de relações
pouco transparentes entre o público e o privado, empresários têm mais a oferecer. Morais
conta que a Metástase aconteceu em dezembro, mês de visita a empresas e órgãos
públicos para acertar os apoios do ano seguinte. A operação da PF atrapalhou a vida da
Viraminas. “A gente chegava para uma reunião e ela não acontecia por falta de quórum.
Dos participantes, um ou dois tinham sido presos, às vezes três.”
Ele e seu sócio Ronildo Prudente gostam de ir à Câmara para aferir a qualidade do
debate e fazer pressão a favor das causas da cultura tricordiana. Lutaram para que os
vereadores aprovassem a conversão da antiga estação de trem em centro cultural;
tentaram convencer a Câmara a ceder seu auditório para espetáculos de artistas locais;
estiveram à frente de um movimento para implantar um plano municipal de cultura, única
forma de superar as descontinuidades que se sucedem a cada troca de poder. Tanto
engajamento cívico resultou em pouca coisa. “Foi um aprendizado”, diz Prudente, “o
errado é a forma da ação.” Não que saiba qual é a certa: “A gente não está encontrando o
caminho.”
Prudente, de 50 anos, tem dessas falas macias que deixam o interlocutor à
vontade. Usa óculos, o que atenua suas feições sertanejas. Parece ser um espírito livre.
Era funcionário público concursado – trabalhava na Fhemig, fundação de Minas Gerais
que cuida da gestão dos hospitais públicos do estado – e pediu para sair, abrindo mão da
estabilidade. “Deixar emprego público não é trivial”, diz, “eu sou de uma época em que, se
você vem de uma família pobre como eu, a pressão para conseguir um emprego desses é
muito grande.”
Durante anos esteve lotado no setor administrativo da Colônia Santa Fé, antiga vila
de hansenianos inaugurada por Getúlio Vargas nas bordas da cidade, segundo a prática
da época de apartar os afligidos do convívio social. Em 1977, o complexo foi incorporado
à Fhemig e, com o nome de Casa de Saúde Santa Fé, passou a oferecer atendimento à
região, em diversas especialidades. Prudente era um dos 220 funcionários da fundação
que trabalham lá. Atribui sua consciência política à passagem pela Santa Fé. “Eu
denunciava. A denúncia mais pesada era sobre médicos que apareciam de manhã,
punham o polegar no relógio biométrico, iam pro consultório particular dar consulta e, à
tarde, voltavam para bater o ponto de saída. Tentei o diálogo, não avançou e só aí fiz a
denúncia para o MP. Não adiantou nada.”
O ambiente de trabalho se tornou insustentável e Prudente decidiu pedir demissão.
“Rejuvenesci quando saí de lá”, diz. Passou a viver de música e teatro e ganha mais hoje
do que quando tinha estabilidade. Não tem lealdades partidárias fortes, “o que quero é um
diálogo incansável”. Não sabe em quem votará para presidente.
A seu lado, no galpão alugado que sedia a Viraminas, Morais também está sem
norte. Seu título de eleitor é de Belo Horizonte, de quando estudava lá, mas nunca o
transferiu para Três Corações. É possível que não vote. “Nunca estive tão desanimado”,
afirma. Foi militante do PT, “mas hoje não empunho mais bandeiras”. Nos últimos tempos,
se deu conta, com espanto, que agora são os pais que guardam a fé no PT, enquanto os
filhos, como ele, já não creem. É o que se passa na sua família.
Morais e Prudente não fazem grandes distinções entre antigos e novos donos do
poder tricodiano. “Isso aqui é um grande centrão”, explica Morais. O mandonismo ainda é
a prática comum do exercício do poder tricordiano. “A gente diz que o Cláudio é
um  coroné”, brinca Prudente, referindo-se ao atual prefeito. E dá um exemplo: “Nós
precisávamos de um local para instalar um projeto e fomos até ele. Cláudio foi atencioso,
disse que resolveria. Na reunião mesmo indicou um certo imóvel da prefeitura que
podíamos ocupar. Um assessor lembrou que esse imóvel já tinha sido emprestado por ele
para outra organização. ‘E qual o problema? Eu dou, eu tiro’, ele disse.”
Em outra ocasião, fins de 2017, Morais se reuniu com a então recém-empossada
secretária de Cultura, Elizabeth Seixas. Como acabara de chegar na cidade – viera de
Belo Horizonte a convite de Dr. Cláudio –, ela abriu a conversa admitindo que não
conhecia a cena local. “Ela disse que não sabia nada”, lembra Morais, “‘Estou aqui porque
o Cláudio está cogitando se candidatar a deputado e precisa de aula de oratória. É a
minha especialidade. E o jeito de me contratar foi me fazer secretária de Cultura.’” (O
prefeito nega, e acrescenta: “Beth Seixas é conhecida no Brasil inteiro como uma pessoa
que trabalhou no  Jornal da Band  de BH, ela é altamente qualificada.”) Radialista e
empresária no ramo de comunicações, Seixas, que não quis falar com a piauí, ficou cinco
meses no cargo. Voltou a trabalhar no Grupo Seixas, que fundou, e onde ministra cursos
de locução online. “Comunicar para evoluir”, diz o lema.
 
“Você precisa compreender que tudo isso é a expressão da pré-história das
instituições”, diz o escritor Renato Lelo de Brito, de 40 anos, a respeito da vida política
local. Ele manteve durante anos o blog Arma Zen do Brito, em que criticava com rigor e
verve as engrenagens da política brasileira, em especial a praticada no Sul de Minas.
Tivesse nascido na França da Revolução, é provável que fosse proprietário de uma
prensa clandestina onde imprimiria panfletos inspiradíssimos contra os Bourbon. Até as
vítimas de suas diatribes reconhecem o vigor de sua pena, como confirma Altair Nogueira,
o secretário de Cultura: “Era contra tudo e todos, um espírito anarquista, insubmisso,
incendiário.”
Depois da graduação em geografia – “Foi o que me deu a visão ideológica” – e do
mestrado em letras, Brito foi trabalhar na  Folha do Sul de Minas Gerais, do jornalista
Paulo César Pereira, o Paulão. Queria ver de perto como o poder é exercido e a quem
serve. “Paulão estava implicado numa cena de poder. Parecia que incomodava as
estruturas e isso me interessava.” Ficou seis meses no jornal. Tratava-se ali de uma
operação para venda de apoio político, diz: “Ele mantinha um jornal impresso para
negociar as capas. Distribuía 300 exemplares entre a classe política e todos achavam que
o jornal era influente. Só que não circulava de fato, não chegava à população. Típico de
lugar que não tem imprensa. Tem jornal e rádio, mas não imprensa. Essa coisa de
protocolo, de ouvir os dois lados. É como eu disse: as instituições aqui estão na pré-
história.”
Depois de ver e rever como as coisas funcionavam, Brito chegou à sua tese da
pré-história. É uma formulação de grande poder heurístico, uma dessas ideias simples
que, uma vez expressas, conectam fenômenos que não pareciam ter parentesco entre si.
“Tudo começa aqui. É no dia a dia do município que se cultivam as gerações de políticos
que mantêm nossas instituições presas a um passado anterior à história.” O raciocínio de
Brito é claro, a voz é serena e o cavanhaque é de Trótski. A coisa se dá por etapas.
Primeira: o sujeito se elege vereador e passa a integrar uma não instituição que não
cumpre o seu papel constitucional. “Nas pequenas cidades, a Câmara é um mero cartório
para referendar as propostas do Executivo. Elas oferecem ao novato uma pedagogia da
corrupção cujo conteúdo mais básico é o alinhamento automático.” Em troca de emprego
para a parentela, vota-se com a prefeitura, e, como o prefeito começou como vereador, a
Câmara terá sido a sua escola. “Não existe o Legislativo da era moderna”, afirma Brito.
“Nada tramita” – tudo se acorda. (Nos termos de Haninha, a proprietária da única livraria
da cidade: “Aqui não tem apoio. O que existe é culeio, negocinho.”)
O problema de fundo não seriam os acordos desconformes com o interesse
público, mas a falta de uma formação mínima para o exercício do bom poder. O eleito se
transfere da Câmara para a prefeitura “sem saber dos instrumentos de trabalho, sem
nunca tocá-los”. É a segunda etapa. “Vai convencido de que fazer política consiste em
controlar pela troca de favores a mesa diretora do Legislativo, de modo a poder fazer o
que lhe dá nas ventas.”
Num e-mail, Brito escreve sobre a terceira etapa: “Do Executivo local, o agente
político brasileiro em formação tende a passar pela Assembleia de seu estado. Lá, ele se
aprimora! Os parlamentos estaduais emulam com maior pompa a normalidade
institucional (a tramitação, a técnica). Eles podem fazer isso porque as assembleias
estaduais são esvaziadas de papel social. Com o pacto federativo que temos, o dinheiro
vai para a União e as pessoas vivem nas cidades. Então, para que serve um deputado
estadual? Para se escolar em fazer ‘política’ (disputa de poder, concurso eleitoral) sem
levar em conta as instituições. O sujeito então chega a deputado federal, senador,
governador, presidente, numa vida pública inteiramente vivida na oralidade, guiada pela
conversa ao pé do ouvido. E porque a política brasileira insiste na via da oralidade,
estamos na pré-história dos poderes públicos.”
Todo o processo convergiria para um único fim: a vitória nas urnas. Vereadores
entregam seus currais eleitorais a candidatos de âmbito estadual e federal. “Quem soma
mais de 10 mil votos num colegiado de 55 mil, como é o caso dos vereadores mais
populares de pequenas cidades, é um excelente cabo eleitoral para parlamentares,
governadores e presidenciáveis nas eleições nacionais”, explica Brito. “Na eleição
municipal seguinte, esse cara recebe financiamento de campanha. E assim gira-se a roda
que retém nas mãos do poder econômico qualquer poder de renovação política
brasileira.”
Vez por outra, alguém decide pular a fila e o conflito se torna inevitável. No
decorrer do primeiro mandato do atual prefeito, Dr. Cláudio, seu vice, Cosme Nascimento,
chegou à conclusão de que não estava disposto a esperar outros quatro anos – duração
de um eventual segundo mandato do chefe – para disputar o cargo principal. Começou a
reclamar espaço na gestão, estratégia, segundo Brito, para forçar uma ruptura. Acabou
por externar seu desassossego numa carta de rompimento claramente inspirada na que
Temer escrevera para Dilma. Não havia o latim, mas a dor era parecida: “Você continua
tomando decisões sem o meu conhecimento”, “não ouve ninguém.” O prefeito não pensou
duas vezes. Se era ruptura, então Nascimento ficaria sem gabinete. Numa versão
municipal do degredo, o vice passou a despachar numa mesinha patética largada no
canto de uma sala. Uma foto o mostra tentando manter alguma dignidade executiva nesse
novo arranjo precário; absorvido pela penca de documentos à sua frente, finge não estar
sentado numa escrivaninha imprópria a maiores de 10 anos.
Para Brito, a cultura da pré-história une “Cláudio, Cosme, Gordo Dentista e
Faustinho”, ou seja, todo mundo que ocupou ou, no caso de Cosme Nascimento, quis
ocupar a prefeitura nos últimos anos. “Curiosamente, em Três Corações eles só
conseguem se relacionar com a rapina da política nacional, gente como Ruy Muniz” – ex-
prefeito de Montes Claros, preso em 2016 sob acusação de desvios na área da saúde,
um dia depois de sua mulher, a deputada federal Raquel Muniz, dedicar-lhe, em nome da
probidade administrativa, seu voto pela admissibilidade do impeachment de Dilma
Rousseff; Muniz é ou foi dono da única universidade de Três Corações (a posse está em
litígio) – “e Dâmina e Carlos Alberto Pereira” – políticos mineiros e incorporadores
imobiliários com vários loteamentos em Três Corações. “Cláudio, Faustinho e companhia
jamais conseguem se alçar para fora da cidade como liderança regional, estadual, federal.
A cena política é composta, digamos assim, por um nanismo de jardim muito
conveniente para o jogo eleitoral. E só.”
As instituições não precisam existir para que existam as lideranças políticas.
“Poder destinado a produzir a continuidade do poder, sem relação com o país.” Se a tese
estiver correta, o que existe no centro do sistema brasileiro é uma lacuna – o conjunto de
instrumentos, tecnologias e conhecimentos com as quais se faz uma nação. O mau
estado do parque Dondinho resultaria não apenas de rixas políticas (ele sempre foi
malcuidado, lembra Paulo Morais, da Viraminas), mas também da incapacidade dos
administradores em identificar as propriedades de um bom espaço público. Em saber, por
exemplo, que numa zona de Mata Atlântica exuberante não faz sentido plantar eucaliptos
em fila para sombrear as aleias. Ou que não se espetam postes no meio de calçadas
estreitas, a ponto de um senhor cego, numa manhã corrida, não ter alternativa senão
escapar para a pista de rolamento, onde ônibus chispavam rente à sua bengala branca.
Na Escola Estadual Luiza Gomes Lemos, há um estande com uma Bíblia aberta e a
imagem de Nossa Senhora Aparecida no corredor que leva à sala dos professores; no
pátio de recreio, pôsteres com frases de madre Teresa de Calcutá e do papa Francisco
decoram as paredes. É provável que ninguém ali repare no conflito com o conceito de
escola laica. Logo, pré-história também.
A viagem do Rio até Três Corações poderia ser um capítulo da tese. Toma-se a Via
Dutra, sobe-se a Serra da Mantiqueira e chega-se à linda morraria que caracteriza o
planalto do sul de Minas, um trajeto cuja beleza, no passado, encheu de espanto os
naturalistas europeus que ali identificariam as mais ricas florestas brasileiras. Hoje, à
exceção do Parque Nacional de Itatiaia, o que se vê são morros nus onde crescem
colônias de cupins. Vacas tentam se equilibrar nas lombadas das serras, muitas vezes
atrás da sombra magra de um único pau. Uma riqueza foi posta abaixo em troca da
prosperidade fugaz. Florestas por deserto.
“Minha muito velha e estéril fazenda de cujo solo tirou meu pai toda a sua fortuna,
mas que a deixou estragada completamente”, escreveu em 1858, de Juiz de Fora, o
barão Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. A questão é que se pode trabalhar tanto
para destruir um país como para construí-lo. A escala verdadeiramente épica da
devastação honra o braço escravo, que não escolheu a tarefa, mas a cumpriu
exemplarmente por ordem de quem mandava. Os donos do poder escolheram fazer da
paisagem o que ela é hoje, e a “raiva de destruição” de que falava José Bonifácio deixou
para trás uma toponímia absurda. Numa região de rios sujos, morros escalavrados e
cidades que surgem como chagas na dobra da estrada, passa-se por nomes como Vista
Alegre, Ribeirão Abençoado, Boa Vista, Água Branca e Rio Claro.
Aqui, outro aspecto da pré-história: quem repara? A paisagem parece ser essa mesma,
assim desde sempre, natural, da mesma maneira que a feiura das nossas cidades – de
boa parte delas – já se tornou invisível para quem mora nelas. O hino da cidade
canta: Nestas serras de doces colinas/Sob um céu sem igual, sempre azul/Foi crescendo
a Princesa de Minas,/O recanto mais belo do sul.//Vinde ver, brasileiros do leste/E do sul,
ou de outros rincões,/A beleza que doura e que veste/A cidade de Três Corações.
E os brasileiros vêm.
Comparada ao resto do Brasil, Três Corações é uma boa cidade. Seu Índice de
Desenvolvimento Humano é alto, acima das médias de Minas Gerais e do Brasil. O
desacerto urbano, essa mistura confusa e malcuidada das coisas, é um retrato não da
penúria, mas da prosperidade. “Veja”, diz Lelo de Brito, “a corrupção precisa da ignorância
institucional e a ignorância institucional favorece a corrupção. Tem serventia não saber o
que é um Plano Diretor.” Três Corações já está no segundo. No primeiro, escrito em 1995,
não aparecia o rio Verde que corta a cidade – um pouco como se Viena se esquecesse do
Danúbio –, embora as três voltas fechadas que o Verde dá dentro da zona urbana
possam estar na origem do nome de Três Corações. “Ninguém reparou”, diz Brito. “Três
Corações é uma cidade que não se conhece.”
O que surpreende é que a conversa com Lelo de Brito transcorra no gabinete do
presidente da Câmara municipal. Desde o ano passado ele é o braço direito de Mauricio
Gadbem. A partir de então, deixou de postar no Arma Zen. “Você me perguntou se parei
por constrangimento político e eu pensei muito sobre isso”, ele diz. “A resposta é sim, em
parte, mas não por autocensura. É que o lugar da militância se deslocou. Passei da
militância política para a militância institucional. Se eu mantenho aquele tom, dificulto a
construção social. Mauricio não é um político habilidoso. Cláudio muito menos. Decidi
construir um canal entre os dois. Sinto falta daquela conversa mais livre” – refere-se ao
blog –, “mas ela alcançava muito pouca gente, não tinha importância social.”
O movimento de Lelo de Brito é resultado de uma aposta. Combate-se a pré-
história com processos: discussões, audiências públicas, rito legislativo, obediência aos
protocolos de uma democracia viva. Ele se impôs a tarefa de implantá-los em Três
Corações. Seria possível argumentar, contudo, que também ele contribui para o
aprofundamento da pré-história institucional de que é um crítico tão agudo. O
insubordinado que pichava FORA TEMER nos muros da cidade, apondo o símbolo do
anarquismo e o próprio nome ao grafite, o militante do PSOL, partido ao qual está filiado,
hoje assessora um vereador do PSL.
Ele não nega o arranjo esdrúxulo, mas acredita que, pelo menos até agora, o que
ganhou supera o que perdeu. Está conhecendo o bicho por dentro, a “técnica nenhuma
das decisões políticas”. A falta de diálogo entre as duas casas do poder municipal pode
ser atribuída ao fato de que nunca foi preciso dialogar. Na pré-história institucional, não se
conversa, troca-se favor. Se não conseguir destravar o processo político, Lelo de Brito
terá no mínimo aprendido alguma coisa.
 
“Você veio num momento em que esse meu ânimo mais combativo diminuiu
bastante”, diz Harrison Rivello Louro, de 37 anos, professor de biologia e filosofia do
ensino médio. Está sentado na sala de jantar de sua casa, localizada num bairro novo,
cheio de lotes vazios. Rivello formou-se na política estudantil – “PCdoB, como de hábito”
– e se entusiasmou pelo PT. “Depois veio aquela desilusão por causa das alianças”, diz.
Percebeu ali que estava cansado do conflito entre o ideológico e o pragmático.
Em 2014, entrou para o PSOL, do qual acabaria se tornando o presidente local,
com o objetivo de trazer o partido de volta à sua origem. Como tantas outras legendas de
cidades pequenas, o PSOL tricordiano virara um balcão de negócios para vender tempo
de televisão. Quando Dr. Cláudio, então do PSL, propôs concorrer à prefeitura numa
coligação com o PSOL, Rivello e seu grupo foram à sede estadual da legenda para
denunciar o acordo. Deu certo e Rivello passou a ser percebido como um exemplo das
novas forças políticas que estavam surgindo na cidade.
O percurso não tem sido fácil. “A gente tem dificuldade de dialogar. Algumas
pessoas se aproximavam do partido, mas quando viam nossas pautas identitárias, os
temas LGBT e o aborto, elas recuavam: ‘Vocês apoiam mesmo isso?’”, conta, rindo.
“Aqueles caras do chão da fábrica? Desses não tem nenhum conosco. Nós caminhamos
pouco.” O número de filiados do PSOL de Três Corações não passa de algumas dezenas,
a maioria deles professores, intelectuais.
Rivello considera fechada a política da cidade. Quem manda é a agropecuária, as
famílias dinásticas, a associação comercial. Igreja, não; Exército, pouco – são apenas
símbolos, bons para tirar fotografia. “A representatividade do povo é muito pouca. Os que
chegaram lá vindos das camadas mais pobres, essa coisa de Dinho caminhoneiro, Fulano
do açougue – cheguei a pensar que isso tinha importância –, em pouco tempo também
foram cooptados. No momento, até que tem uma certa novidade. O Eder da TNT” –
vereador da Rede, dono da loja TNT, de equipamento de skate – “peita o prefeito. O
Mauricio [Gadbem] também, embora, no caso dele, só com um lado do peito.”
Rivello está afastado da militância. Hoje, sua ação política acontece mais nas
redes sociais. “Não é uma desistência, mas essa coisa de incomodar o Cláudio, o Altair
[secretário de Cultura], de entrar com processo, isso diminuiu. De um ano para cá eu sinto
uma anomia política, um vazio que não faz correr a voz. Tenho dificuldade em acreditar
que qualquer coisa pragmática vai resolver.” E completa, em meio a uma risada: “O que
sobra é o anarquismo.”
 
O ex-prefeito Fausto Ximenes pode ser visto com frequência pelo Centro de Três
Corações. Às vezes, vai até uma sorveteria e, da mesinha na calçada, triste e sozinho,
fica vendo a vida passar. Os cidadãos o cumprimentam e ele retribui a gentileza com um
aceno de cabeça. Suas agruras começaram em outubro de 2012, quando foi ao ar  o
vídeo de uma conversa esquisita. Numa imagem mal enquadrada, Sergio Auad, na época
o vice-prefeito, tenta convencer um interlocutor (do qual se ouve apenas a voz) a aceitar
“10 mil reais amanhã, e o outro depois”. O que estaria em curso ali seria a tentativa de
comprar um jornalista – o interlocutor oculto – para que publicasse matérias contra Dr.
Cláudio, adversário do então prefeito Fausto Ximenes nas eleições daquele mês. O vídeo
se tornaria conhecido como aquele da “nota em riba da nota”, frase dita por Auad em
referência seja à sequência de matérias que ele estaria encomendando, seja às cédulas
que prometia pôr na mão do jornalista. As tratativas acabariam não dando em muita coisa.
As partes até chegaram a um acordo – o jornalista pede 20 mil reais, o vice-prefeito
oferece 10 mil e, depois de muita barganha, fecham em 15 mil –, mas nenhuma
reportagem foi escrita. O escândalo estourou antes.
À parte o enquadramento calamitoso, o que se pode afirmar do vídeo é que ele é
ambíguo. Em nenhum momento se diz com todas as letras o que está sendo negociado.
O nome do candidato Dr. Cláudio não é mencionado. Em teoria, a conversa poderia dizer
respeito à contratação de um profissional de comunicação para produzir textos de
campanha para a chapa de Ximenes. O fato de o jornalista em questão, David de Souza,
não ter boa reputação – seu apelido na cidade é “David Garista” – é outro elemento a
turvar as águas. Souza é quem filmou clandestinamente a cena, e também quem a pôs no
ar às vésperas da eleição, com evidente prejuízo para Ximenes. Lelo de Brito, que não
tem particular admiração política por Ximenes, considera Souza um “pequeno
estelionatário”. A figura do denunciante heroico que se arrisca para expor políticos
desonestos – embocadura da legenda altaneira que anuncia o vídeo – não convence
muita gente. Aquilo poderia ser o contrário do que parece, um golpe  contra  o então
prefeito.
Ainda assim, a coisa toda resulta mal para Fausto Ximenes. Na segunda parte do
vídeo, ele entra em cena e, informado do impasse, tenta convencer Souza a ser mais
razoável. “Você põe a matéria e eu te dou dez, depois mais cinco.” Souza menciona
pagamento em cheque, Ximenes balança a cabeça: “Cheque não, te dou em dinheiro.”
Paulo César Pereira, o Paulão, dono da Folha do Sul, acha que o vídeo registra aqueles
“cinco minutos da vida em que a gente dá bobeira”, sugerindo que Ximenes não deveria
ter sido medido pelo episódio. Mas foi. Além de perder as eleições, um ano depois Fausto
Ximenes seria exibido pela cidade num camburão da Polícia Federal, a caminho da
penitenciária. É consenso entre amigos e desafetos que nunca mais se recuperou.
Num sábado pela manhã, na mesma sorveteria de sempre, Ximenes, 74 anos,
camiseta e jeito frugal, falava olhando de lado, suspeitoso. “Uma coisa dessas acaba com
você”, ele diz. “Nós fomos presos só para sermos ouvidos. Chamassem lá e eu ia, pronto.
Foi uma coisa pessoal pra mim, essa é que é a verdade. Eu vivo das minhas duas
aposentadorias. Da Câmara recebo 7 mil reais e do INSS mais 3 mil. Não é miserável,
mas também não é uma opulência.”
Embora não goste do prefeito, não crê que ele esteja na origem da Operação
Metástase, desencadeada um ano depois de Ximenes deixar a prefeitura. “Você acha que
ele ia esperar tanto tempo se tivesse alguma coisa?” Acredita que tudo não passou de
uma farsa policial, motivada pelo rancor de um funcionário da prefeitura a quem cortara
benefícios de aposentadoria. O homem era sogro do delegado da Polícia Federal em Três
Corações. (O MP descarta a tese.) Ximenes hoje é réu de ação criminal e civil por
improbidade administrativa.
“É tudo uma loucura”, ele diz, referindo-se não mais às suas agruras, mas ao
arranjo institucional brasileiro, que teria levado o país a um ponto em que é
estruturalmente impossível consertar. Supunha-se que a voz dele sairia tímida, mas não.
Num estranho contraste com o abatimento externo, é firme e bem articulada, à moda dos
velhos políticos mineiros, como se a conversa sobre a máquina pública devolvesse o
homem a seu elemento, ao terreno que inegavelmente conhece bem. “O ensino básico
está entregue às prefeituras. Nós não temos condição para isso. Idem para a saúde. A
prefeitura tratar disso é um despropósito. Não temos dinheiro, o que significa que não
conseguimos ter bom pessoal técnico. Sou descrente do futuro. O da cidade e o do país.”
Paulão, o jornalista, considera Ximenes um administrador eficiente, desses que dão conta
do arroz com feijão, e atribui parte de seus problemas ao fato de não fazer questão de ser
simpático. O ex-prefeito de fato sorri pouco, o que já não importa, pois não pretende mais
se meter com política. “Nem se me derem as chaves da prefeitura eu quero”, diz ele. Até
onde a vista alcança, não vê renovação. Os partidos morreram e já não representam
ninguém. Considera um despropósito existirem 35 partidos. “Sou PSDB desde a
fundação. Nunca mudei”, diz. O inchaço da máquina pública o horroriza. “A Câmara tem
dez vereadores e 80 funcionários [na realidade tem 247, segundo a folha de pagamento
de agosto da Câmara]. Quando eu era prefeito existiam 45 cargos comissionados, hoje
são mais de 300 [200, conforme o portal da prefeitura].”
“É triste, viu? As pessoas de bem não estão querendo mexer mais com política,
não. As pessoas te ofendem, abusam, fazem o diabo, e isso sem provas, sem nada,
nada.” Sai andando devagar.
 
“Uai, notícia é o que acontece”, responde Marcelo Musa, dono da rádio local,
dando a sua concisa definição da palavra. Mas nem tudo o que acontece vira notícia na
sua rádio: “Bajulação do prefeito eu não permito. Podem dizer que está errado, mas é
uma questão pessoal.” Sem hesitar, justifica: “Fui preso na Metástase, você deve ter
ficado sabendo. Essa operação foi a maior sacanagem da história. O prefeito sapateou
tentando tirar proveito.”
De estatura média, compleição forte e rosto vincado pelo sol, Musa tem o ar
daquelas pessoas que não delegam. Se o motor do carro fundir, imagina-se que ele
próprio meterá as mãos para resolver. Fala com a confiança de um self-made man, sem
pausas para buscar escapes. Começou como fotógrafo da sociedade tricordiana,
registrando batizados e formaturas. Seu estúdio, cujas portas ainda estão abertas por
motivos sentimentais (“está agonizando”), acabaria por se tornar um dos maiores
anunciantes da Rádio Tropical, a mais popular da cidade. Um dia, quando um dos sócios
da emissora – o futuro prefeito Fausto Ximenes – se desentendeu com os dois sócios,
Musa comprou a parte dele e anos depois arrematou tudo.
Por mais que diga que a rádio “é uma brincadeira” que não ajuda a pagar as
contas, admite que ela tem grande influência política, com o que concordam amigos e
desafetos. Pagará um preço alto quem se indispuser com Marcelo Musa. Seu principal
programa noticioso,  Cidade em Revista, no ar de segunda a sexta, é líder de audiência
desde a fundação da rádio, há mais de setenta anos.
“Sou um empresário eclético”, diz. “Estou na radiodifusão, mas tenho loja de
máquinas agrícolas, cemitério, imóveis. Locação é a minha galinha dos ovos de ouro.”
Locação foi também o que o tornou alvo da Polícia Federal. Antes de 2016, quando o
atual prefeito inaugurou o novo centro administrativo, a prefeitura ocupava vários imóveis
de Musa. O MP, que investigou desvio de recursos na gestão de Fausto Ximenes, alegava
ter havido superfaturamento nos aluguéis. Musa passou cinco dias no presídio local.
“Ninguém mais é normal depois daquilo”, desabafa, referindo-se às pessoas atingidas
pela operação, “nós passamos a ser ladrões.”
Ele ainda se horroriza com o espalhafato da Metástase: “De um dia para o outro
baixaram aqui 180 agentes, teve até avião pra trazer toda essa gente.” A partir de então,
diz que decidiu não ter mais relações comerciais com a prefeitura. “Aqui tinha um
programa semanal do prefeito na rádio. O Cláudio me ligou pedindo pra renovar. ‘Vem
que eu te dou o tempo de graça’, disse pra ele, ‘não faço mais contrato com a prefeitura.’
Ele veio, sentou no meu estúdio e disse que a cidade tava fodida por causa do roubo.
Nada tinha sido provado. Fui até o estúdio e disse que dali por diante ele não entrava
mais aqui.” Não se preocupa com o dilema de como cobrir as políticas acertadas de Dr.
Cláudio. “Ele dificilmente acerta”, diz. E sorri.
 
“Eu não denunciei o Marcelo Musa, não havia provas”, esclarece o promotor Victor
Hugo Rena Pereira, titular da 3ª Promotoria de Justiça, responsável pela defesa do
patrimônio público da comarca de Três Corações. É um de seus argumentos em defesa
da equidade do MP. Terno bem cortado, fala polida, Pereira, paulista, 38 anos, é o tipo
platônico da nova lavra de procuradores do MP. Senhor dos instrumentos com os quais
trabalha, não improvisa. Só responde depois de refletir, vez por outra amparando seus
argumentos com planilhas demonstrativas. Ocupa uma sala apinhada de processos, mal
equipada, com péssima iluminação, cujos limites são demarcados por divisórias
ordinárias, mais parecendo um canto improvisado do que o lócus de onde se disparam as
ações que indignam ou entusiasmam a cidade.
A Metástase 57 foi deflagrada pela promotoria anterior, ele herdou os processos.
Ouve com atenção as críticas sobre os prejuízos para a cidade e o caráter espetaculoso
da operação. “Pois é, tem aquele PowerPoint do colega…”, comenta, sem concluir a
frase. “De fato, houve um grande aparato da PF. Avião, viaturas pela cidade inteira,
dezenas de prisões temporárias. A promotoria demorou a relatar e os presos foram
soltos.” Embora admita que o custo para a cidade tenha sido alto, insiste que foram
encontrados indícios de improbidade. “Foi mais de um ano de investigação. Milhares de
horas de escutas, um arcabouço sólido, firme e coeso de que houve irregularidades
graves. Na gestão anterior e na  atual”, afirma, referindo-se a contratos supostamente
ilícitos da gestão de Ximenes que foram renovados na de Dr. Cláudio.
“É um divisor de águas para Três Corações, uma mola propulsora da cidadania”,
diz, puxando um papel. “Depois da Metástase, as pessoas tomaram coragem para
denunciar atos de improbidade administrativa. Veja aqui”, e aponta para uma tabela:
“Quantas ações de improbidade foram ajuizadas pelo MP entre 2005 e 2013? Uma. Agora
dá uma espiada no mesmo dado pós-Metástase. De 2014 a 2018, já são 44, quase uma
ação por mês. Minha suposição é de que isso é o resultado de centenas de denúncias
que os cidadãos começaram a enviar para cá. Não se tinha essa cultura. É uma mudança
de paradigma. A Metástase está para Três Corações assim como a Lava Jato para o
Brasil, com a diferença de que a Metástase é anterior.” A relação promíscua entre o poder
público e a iniciativa privada foi sanada? O promotor demora a responder. Olha para os
lados e quando finalmente resolver falar, diz apenas: “A cultura hoje é menos danosa do
que no passado.”
Pereira está no cargo há seis anos. Optou por morar em Varginha, a 35
quilômetros de distância, o que deve melhorar muito a sua vida social. “Quando vou a
uma pizzaria não encontro ninguém que estou investigando. Mantenho uma distância
saudável daqui”, explica. Dependendo do ponto de vista, o promotor representa um poder
que age sem freios ou contrapesos, ou o contrário disso, a única instância que uma
cidade sem imprensa e sem organizações sociais robustas dispõe para impedir o mau
exercício do poder.
O promotor ri quando ouve que, poucas horas antes, na Associação Comercial,
alguns diretores sustentaram que a Operação Metástase não levou a nada, opinião que,
nos dias seguintes, seria compartilhada por muita gente – até mesmo Lelo de Brito julga
que houve “um espetáculo de denúncias, com efeitos tímidos”. Pereira me entrega outro
papel, dos tantos que preparou para a conversa. Nele se lê que foram ajuizadas oito
ações penais, sendo que sobre duas delas já foram pronunciadas sentenças
condenatórias (e cujos réus foram o ex-vice-prefeito Sergio Auad, protagonista do vídeo
“nota em riba da nota”, e um vereador). Ao todo, foram processadas 22 pessoas, algumas
várias vezes. “O problema é que branco nunca se acha ladrão. Ladrão é negro com
revólver. É possível que essas pessoas – e não estou me referindo a nenhuma em
particular – se julguem inocentes. O sujeito interfere no contrato da prefeitura, muda os
termos para ganhar uma licitação e acha que isso é normal porque sempre foi assim.” Faz
uma pausa, e conclui: “Os presos passaram pela praça, e as pessoas aplaudiram.”
 
Dr. Cláudio se levanta e, devagar, vem receber o convidado. É um homem bonito
de 45 anos. Está acompanhado de seu secretário de Comunicação, Irlei Fonseca, e do
vereador Quati, de sua base de apoio. O ambiente é amplo – não é seu gabinete de
trabalho, onde fica pouco, mas a sala de reunião do secretariado, de onde costuma
despachar. Gosta de gente, talvez por isso dê preferência a locais que acomodem
pequenas multidões.
Há cerca de dez anos trocou a medicina pela política – era cirurgião urologista –,
elegendo-se primeiro vereador, depois prefeito. Fala baixo, com os erres caipiras da
região, os mesmos do interior de São Paulo. A quem não é de lá, o sotaque sugere
simplicidade rural, que, aliado ao tom camarada e sem liturgias, dão ao prefeito um jeito
de menino desarmado.
Dr. Cláudio diz não ligar para as pressões políticas. A pergunta não era bem essa,
mas sim sobre as forças organizadas com as quais um prefeito necessariamente precisa
se haver numa cidade do porte de Três Corações – o empresariado local, os produtores
rurais, a Igreja, o Exército, as ONG’s, o funcionalismo, a maçonaria. “Eu faço o correto”,
insiste. Mas o orçamento é finito, e a luta política se faz nos limites que ele impõe, no
intuito de determinar prioridades. Quem pressiona mais? Quem fica com os recursos?
Não responde, seja por não compreender o modo como a pergunta foi formulada, seja por
ser o gestor que, segundo seus críticos, dialoga pouco com a sociedade. “Eu gosto de
construir e entregar. Inaugurei cinco postos de saúde; duas creches, com outras quatro
em construção; construí a nova sede da prefeitura; asfaltei 300 ruas em todos os bairros,
Três Corações é hoje completamente pavimentada. Tô mentindo ou não?”, pergunta ao
secretário, que confirma as realizações à medida que são declinadas. O vereador Quati
aquiesce, acrescentando que o prefeito “gosta de empreender”. No embate entre obras e
meio ambiente, Dr. Cláudio confessa preferir as primeiras: “Nisso eu sou meio fraco”, diz.
“Corto muita árvore. Para mim o desenvolvimento econômico vem antes.”
Só demonstra ter desavenças com a imprensa local. “Não ponho mais anúncio. De
jeito nenhum. Só no jornal do Cientista, e ainda assim só para anunciar licitação, porque a
lei manda”, diz, referindo-se ao  Jornal Três, dirigido pelo jornalista conhecido como
Cientista. Trata-se de um diário de seis páginas, simpático à administração municipal, que
publica pequenas notas sobre a cidade e releases das empresas locais. Nega que tenha
ido à rádio de Musa para criticar os acusados da Metástase. “O que eu disse é que a
cidade estava sofrendo. Deflagra uma operação dessas, leva 37 pessoas presas e não é
ruim pro município? Tive de ir de porta em porta para dizer que somos honestos. O Musa
arruma desculpa porque eu tirei 50 mil de aluguel dele quando levei a prefeitura do Centro
para a sede nova. Ele vivia à sombra da prefeitura. Por que você acha que todos os
imóveis dele estão desalugados hoje?”
“É isso, é isso”, segue aquiescendo o vereador Quati. Sente então que é hora de
introduzir tópicos menos graves e decide brincar com as posições avançadas do prefeito.
“Ele é a favor da Parada Gay!”, ri, para hilaridade de todos. “E sou mesmo”, diz o prefeito.
O vereador balança a cabeça, alertando que Parada Gay compra briga com a Igreja.
“Acho que sou de esquerda”, pondera o prefeito, “mas outro dia uma amiga veio me dizer
que tenho coisas de direita também.” Parece genuinamente intrigado com a questão
taxonômica, e passa a declinar suas convicções políticas na tentativa de fixar de uma vez
por todas o seu nicho ideológico. “Arma, sou contra:  esquerda. Sou contra a pena de
morte:  esquerda. Sou a favor da legalização do aborto:  esquerda.” Imediatamente abre
um sorriso: “Uai, então onde é que eu sou de direita?” A conclusão o deixa imensamente
feliz.
Desde a posse do governador Fernando Pimentel, do PT, Três Corações contou
com o apoio irrestrito do governo de Minas. Dr. Cláudio admira Lula. Conta de um
churrasco recente na fazenda de um amigo. Todos eram Bolsonaro. “Eles diziam que o
Lula era um vagabundo, que era preciso moralizar o país, que o Bolsonaro ia botar ordem
no Brasil e acabar com a corrupção. Aquilo era demais. Virei para o primeiro deles, um
médico, e perguntei: ‘Você não omite as tuas consultas do fisco?’ O seguinte também era
médico: ‘Você não batia ponto no SUS e corria pro consultório particular?’ Para o dono de
um restaurante: ‘Você não aceita cartão pra não ter que declarar quanto fatura?’ Para o
comerciante: ‘Você não chegou a me pedir pra dar um jeito de baixar o IPTU da tua loja?’
E com tudo isso, só o Lula é vagabundo?”
 
Noite no restaurante do hotel onde se hospedam cometas e representantes
comerciais, geralmente homens de meia-idade que jantam sozinhos depois de um dia
duro de trabalho. Três mesas ocupadas, cada uma delas com uma só pessoa. Comem
em silêncio, ainda vestidos com o uniforme da empresa que representam. Pregada à
parede, a televisão está sintonizada no  Jornal Nacional, que nesse dia entrevista Jair
Bolsonaro. “Um policial que sai em missão numa favela e mata quinze bandidos não devia
ser processado, mas condecorado”, afirma o candidato. O primeiro homem se vira para o
segundo homem, que se vira para o terceiro, que diz: “É isso aí.” “É isso aí”, repetem os
outros dois, e os três agora são colegas e não estão mais sós. Passam a conversar entre
si.
 
Chama-se Márcia Lemos Fonseca Barbosa uma das poucas pessoas que têm
conversa com toda Três Corações – situação, oposição, artistas, anarquistas,
quilombolas, lavradores, roqueiros, psicanalistas e xamãs (os três últimos predicados
reunidos numa só pessoa: seu filho). Proprietária da fazenda Goiabeiras, a meia hora da
cidade, dona Márcia, como todos a chamam, paira acima das paixões tricordianas. Talvez
por ser de família tradicional, talvez por ser octogenária, talvez por não ter papas na
língua, ser insubmissa ou ter escrito um romance notável sobre a formação política da
cidade, o fato é que dona Márcia desperta um temor reverencial nos poderosos locais.
“Seu Antônio Fartura, sitiante de poucas posses, mostrou-se conversado e
prestativo, prontificando-se ele mesmo a dar auxílio necessário ao forasteiro”, assim se lê
em  Passagem do Agreste, o romance regionalista que publicou em 1984. Tirante o “de
poucas posses”, a frase cai feito uma luva para descrever a senhora aprumada e vital que
recebe com um abraço apertado o desconhecido que surgiu à sua porta atrás de notícias
da cidade. Antes de sentar-se para a conversa, leva-o num giro pela casa, que, à primeira
vista, parece uma dessas antigas sedes elegantes, feitas para o conforto, mas não para o
ócio, pois lá se trabalha. Com surpresa, o visitante fica sabendo que foi construída há
menos de dez anos sob a supervisão severa de seus olhos. A fazendeira faz questão de
mostrar os banheiros, o lavabo, o armário de madeira pintada, a “despensinha jeitosa”, o
lindo forno a lenha, a vista do quarto “onde converso com Deus”.
Passagem do Agreste, conta a história do matador Zeca Fartura, o Farturinha,
figura histórica que ela conheceu bem e por quem tinha apreço. Na época, Farturinha já
se aposentara da matança, mas afiançou à jovem Márcia que, se ela precisasse dos seus
serviços, era só convocá-lo. “D. Márcia, eu sou muito prestativo…”, disse. Quando moço,
cumpria à risca o encomendado, pedia apenas que respeitassem o seu tempo. “Por que
você não mata logo, Farturinha?”, perguntavam impacientes os mandantes, incapazes de
compreender porque o matador desperdiçava seus dias circunvagando a vítima e
resignando-se a fincar nela os seus olhos. “É que eu tô pegando ódio”, explicava. Nisso
não transigia.
Farturinha morreu muito velho, muito frágil, pobre e cego. Morava de favor numa
fazenda dos Fonseca. Uma lamparina deitou fogo no galpão onde dormia e ele não soube
como escapar. Dona Márcia foi ao velório. “Ele ficou desse tamaninho”, diz, pondo menos
de 1 metro entre uma mão e outra. “Era branco e ficou pretinho, pretinho. Quando abaixei
para beijá-lo, vi pedaços da carne sendo levados pela brisa.” Que tudo isso seja dito sem
um pingo de sentimentalismo – e que desperte viva admiração em D. Márcia –, não deve
passar despercebido dos que pensam em desagradá-la.
“Tem duas coisas que não tolero: ladrão e padre pedófilo”, diz, abrindo logo os
trabalhos. Conta que denunciou um cura não faz muito tempo. Histórias de abuso
chegaram-lhe aos ouvidos. Ela foi à casa dos pais de uma das vítimas – gente simples
que se intimidava diante de uma batina – e, com a autoridade que lhe veio com o sangue,
pediu que lhe contassem tudo. Saiu de lá para a delegacia. O padre foi preso.
D. Márcia acredita que os tempos mudaram (o assunto agora são os ladrões): seu
pai foi vice-prefeito na década de 70 e “ele gastava dinheiro com política, não ganhava.
Pagava aluguel de viúva, pagava dívida. Veja como é diferente.” Alguém poderia dizer que
nem tanto. D. Márcia discorda. “Político antigo honrava a palavra. Veja só essa merda do
Eduardo Azeredo”, diz, com ênfase, referindo-se ao ex-governador mineiro preso no
escândalo do mensalão tucano. “O pai dele, Renato Azeredo, que trabalhou com o
Juscelino, era tão bom. Lamento essa mudança.”
Governar tornou-se impossível. “Ninguém mais vira bom prefeito”, afirma, “os
adversários não deixam.” Todos fazem romaria à sua fazenda para chorar as mágoas.
Aponta para o sofá das lamentações. “O Mauricio [Gadbem] senta ali e fala, fala, fala.
Depois vem o Cláudio e fala, fala, fala.” Gosta de todos, e principalmente de Fausto
Ximenes. “Faustinho é do bem. Foi jogado num camburão, levado para cá e para lá,
exposto, uma injustiça terrível”, afirma, com uma emissão impecável em que se ouve
cada letra, até mesmo as dobradas. Comenta que, no passado, todos os prefeitos eram
tricordianos. E mais não diz. Pode-se apenas inferir que o berço lhe parece uma virtude e
que o fato de as coisas já não serem assim – Dr. Cláudio nasceu em Juiz de Fora – talvez
explique as seguidas desavenças que vêm tumultuando a cidade.
Seja como for, D. Márcia está disposta a ouvir e a aconselhar todas as partes. “Só
não gosto que me façam de boba. Podem me chamar de feia, velha, burra e chata. De
boba, não. Isso eu não esqueço.” Como diria Farturinha, aí ela pega ódio.
 
O capitão Ahab, personagem de Moby Dick, romance de Herman Melville sobre a
obsessão, tinha uma vantagem sobre a arquiteta e urbanista Angela Azevedo:
apenas uma baleia perturbava o seu sono. Azevedo se engalfinha com pelo menos duas,
na forma de uma termelétrica e de um Plano Diretor.
Da sala do apartamento em que mora, com Três Corações se espraiando janela
afora, ela conta que a vida ia bem quando, em 2015, a prefeitura encaminhou, sem
consulta pública, uma lei de uso do solo. Ocorre que, pela constituição de 1988, o cidadão
tem direito à cidade e, portanto, deve ser consultado em questões de desenvolvimento
urbano. “Eu me irritei com aquilo”, ela conta, “fui ler, fuxiquei e resolvi denunciar para o
MP.”
Iniciava-se ali uma nova etapa da sua vida. Depois de anos trabalhando na
Universidade Federal do Rio de Janeiro e em institutos de desenvolvimento urbano, a que
se seguiu uma incursão malsucedida como proprietária de uma casa de samba no Rio (o
motivo, dizem alguns, de sua transferência para Três Corações), na cidade mineira ela
viraria uma urbanista-cidadã, imbuída da missão de infernizar a vida dos gestores
municipais. “A lei do solo fazia com que a cidade se espalhasse, ela perdia os limites
urbanos”, diz. Por força da conversão de seus extremos em zonas passíveis de
loteamento imobiliário, Três Corações se espichava em direção à zona rural.
“Isso é um exemplo de quem manda na cidade”, dissera Lelo de Brito, dias antes.
Segurando um mapa, mostrava uma pequena mancha vermelha numa das pontas da
cidade, uma espécie de apêndice que se projeta em direção a nada. É Nova Três
Corações, conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida, um lugar isolado, de ruas
poeirentas e sem árvores, “um ermo desobediente das ordens de Deus”, na descrição
que Passagem do Agreste faz de outro fim de mundo. O vereador Eder da tnt, da Rede,
diz que lá falta tudo: creche, escola, posto de saúde, quadra de esporte, transporte. Até
2006, o local em que foi construído estava fora da zona de expansão urbana prevista pelo
Plano Diretor. O então prefeito Fausto Ximenes assinou um decreto convertendo a área
em zona especial de interesse social. “E aí veio a CAP”, disse Brito, em referência à
construtora do ex-deputado federal Carlos Alberto Pereira, condenado na Justiça por
improbidade administrativa quando era prefeito de Lavras. “Você precisa entender, todo
mundo é especulador imobiliário. O dono da rádio é. O prefeito é, ou a família dele. O
Mauricio também é, menor, tem alguns imóveis, embora não faça uso do circuito político
para se favorecer. Enquanto eles levam a cidade para a zona rural, o Centro morre. Devia
ser o contrário: adensar o Centro e proteger as áreas verdes nos limites da cidade.”
Nova Três Corações foi aprovado no mandato de Ximenes e construído e
inaugurado no mandato de Dr. Cláudio. O atual prefeito não hesita em concordar com os
críticos do projeto. “Aquilo já nasceu ilegal, está fora do perímetro urbano. E mais: os
projetos de Minha Casa Minha Vida determinavam que 5% do orçamento fossem
destinados à construção de posto de saúde, quadra, essas coisas. A Dilma mudou isso.
Alteraram o contrato, você não imagina a força dos empreiteiros naquela época. Quando
assumi, vi que iam construir 800 casas lá sem nada. Fui na Caixa e disse: ‘Quero escola,
quero creche e quero posto de saúde; como vou deixar as pessoas na mão?’ E me
disseram: ‘Se você não assinar vai perder tudo, veio ordem de cima.’ Ordem da
Superintendência da Caixa, pressão dos empreiteiros. Eles ganharam o direito de fazer
aquilo sem creche e sem escola.”
Não é difícil encontrar loteamentos com a marca CAP por Três Corações. São eles
que podem ser vistos do alto do prédio de Angela Azevedo, puxando a cidade pelas
pontas. Quase todos são anunciados como empreendimentos de luxo, embora as poucas
casas já construídas lembrem dentes sadios numa boca doente e banguela. Há lixo e
desordem nos terrenos desocupados ao lado delas.
Diante do computador no escritório de seu apartamento, Azevedo aponta para o
apêndice de Nova Três Corações: “Puseram pobre onde não tem cidade”, ela diz. O Plano
Diretor estava sendo desrespeitado. Já nascera falho e ela passou a insistir para que
fosse revisado. Quando a prefeitura finalmente cedeu, contratou uma empresa que
Azevedo considerou inapta para a tarefa. “Eles mandaram uma lista de cidades para as
quais a empresa tinha desenhado um Plano Diretor. Pedi ao MP que verificasse. A
primeira cidade da lista respondeu: ‘Não temos Plano Diretor.’ A segunda respondeu: ‘Não
temos Plano Diretor.’” O contrato foi cancelado. “Finalmente formou-se um conselho de
que eu faço parte. Só então foi possível contratar uma empresa competente.” Primeira
baleia morta.
A segunda baleia se chama One Natural Energy, uma empresa de capital chinês
que pretende inaugurar em Três Corações a primeira usina do mundo de conversão de
pneus usados em energia. Na rede, a empresa anuncia a operação no sul de Minas como
uma grande conquista ambiental. A foto que ilustra o texto mostra uma paisagem de
igarapés, na qual uma floresta exuberante brota da água de rios cristalinos. Seria a
Amazônia? Azevedo não sabe dizer. “Três Corações é que não é.”
Azevedo começou a ler material técnico, consultou o site da empresa, percorreu
com caneta e bloquinho as 600 páginas do EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e as outras
tantas do Rima (Relatório de Impacto Ambiental). Saiu convencida de que havia risco de
contaminação dos rios, de liberação de enxofre, de chuva ácida, sem falar nas sessenta
viagens/dia de caminhões cruzando a cidade para levar pneus para a incineração.
Em dezembro de 2017, Azevedo informou à Câmara que o licenciamento ambiental
previa uma audiência pública, desde que fosse requerida. Mauricio Gadbem assinou o
requerimento. O esforço culminou na convocação, em julho passado, de uma audiência
pública na Associação dos Diabéticos de Três Corações. Azevedo projetou 38 slides e a
termelétrica saiu mais abalada do que entrou. A Associação Comercial hoje se opõe ao
projeto – “Não existe pulverização sem fumaça poluente” – e a Loja Maçônica também –
“Poluição e pouca geração de empregos”.
Em meados de setembro, Dr. Cláudio admitiu que a situação não era auspiciosa.
“Numa conversa reservada, o órgão ambiental de Minas nos informou que estava difícil
aprovar porque o terreno onde a usina seria instalada é próximo do presídio. Risco de
explosão. Acredito que não vá para a frente, por uma questão de proteção às pessoas,
não de risco ambiental.” Segunda baleia arpoada.
“Há pegadas da democracia participativa no Tucanistão!”, comemorou Lelo de
Brito, que de tão animado conjurou o seu Glauber Rocha interior ao arrolar os demais
projetos que atribui à “administração claudicante” de Dr. Cláudio: “Uma pista de kart perto
de um hospital. Uma termelétrica que trabalha a mais de 5 mil graus a 500 metros do
presídio superlotado; ao lado de um estádio de futebol; ao lado de uma área de rodeios;
ao lado de um cemitério para animais domésticos; ao lado de um aterro sanitário. Isso é
kitsch? É barroco? É genial? É futurístico? É o Brasil?” Numa nota rara de otimismo,
acrescentou: “A ótica da pré-história me agrada por ser esperançosa. Gosto de como ela
contraria o desalento com a democracia representativa […] Mire e veja, a pré-história já
acabou uma vez com a invenção da leitura e da escrita! Pode ser que dê certo de novo!”
Talvez, mas dá trabalho. Angela Azevedo é um exemplo eloquente de que uma
democracia viva exige suor. Se esforço é o que distingue um cidadão de um contribuinte,
resta saber quantos outros brasileiros estarão dispostos a pegar do bloquinho para passar
as noites lendo Rimas e EIAs. Ela agora se prepara para atacar outras mazelas
tricordianas. “Vou entrar atropelando contra o corte de árvores e a pista de motocross que
fizeram sem consultar ninguém”, avisa. As calçadas também a afligem. Cerca de 60% dos
cidadãos consideram o calçamento da cidade impraticável. “Mas a prefeitura quer o
rodoviarismo, mais carro em rua estreita”, diz.
E assim ela gasta os dias atrás de causas, sentindo-se segura no andar alto de um
prédio que, convenientemente, abriga no térreo os estúdios da Rádio Tropical, oposição
ferrenha ao atual governo. Considera sua situação ideal. “Aposentada e só – é assim que
eu acho bom. Não tenho emprego para perder, não posso prejudicar filho. Sempre quis
falar na lata. Hoje eu falo.”
 
Vinte e quatro horas depois do atentado contra Jair Bolsonaro, Welinton Brasil, da
Direita Minas, estava sereno. Passara a noite se comunicando com correligionários, e as
notícias que chegavam de Juiz de Fora eram tranquilizadoras. Pela manhã, levara para a
praça principal uma faixa encomendada de urgência –  Três Corações está com
Bolsonaro  – e a estendera defronte ao palanque em que autoridades civis e militares
festejavam o 7 de Setembro. “Muita gente se aproximou, quis tirar foto. Mas a situação
está tensa. Lá pelas tantas, um rapaz forte passou por mim e me sussurrou, ameaçando:
‘Olha a faca, olha a faca.’”
Recebera a notícia com atraso. “Foi chocante, uma coisa muito violenta”, disse.
Tinha ido à delegacia entregar um pedido de autorização para uma carreata em apoio a
Bolsonaro e desligara o celular. Só ao chegar em casa soube o que acontecera. “Deixa eu
te dizer uma coisa. Quando o Lula foi preso, aqui em casa nós ficamos tristes. Eu, meu
pai – que também gosta muito do Bolsonaro – não queríamos isso para um símbolo
nacional. Quando ele se elegeu da primeira vez, tivemos esperança de que fosse mudar
as coisas. Depois veio o mensalão, vimos que ele não era aquela promessa que
esperávamos e entendemos que tinha de pagar. Mas não nos alegrou a prisão dele.”
Welinton Brasil esperava que ninguém estivesse se regozijando com o sofrimento de seu
candidato.
Os ânimos exaltados o deixavam receoso. “Ficamos revoltados, mas os violentos
são eles. Nós que usamos a camisa do Bolsonaro é que estamos correndo risco. Eu
posso ser agredido.” De todas as consequências do ocorrido, destacava o fato de que as
coisas tinham sido postas no devido lugar. A esquerda passara a vida falando mal de
Bolsonaro. “Diziam que nós éramos fascistas. Na verdade, como agora se viu, os
fascistas são eles. Agora está claro.”
 
Em 2016, a estudante Raquel Stéfani de Souza ocupou sua escola. Ela e poucos
outros, pois dos cerca de 600 alunos do Instituto Federal de Educação, não mais de vinte
aderiram à ocupação. Protestavam contra a PEC (Proposta de Emenda Constitucional)
dos gastos e a reforma do ensino médio.
Raquel, na época com 15 anos, politizou-se durante aqueles eventos. “Foi quando
precisei escolher um lado”, diz ela, sentada numa padaria ao lado do namorado
Guilherme Augusto de Souza, de 19 anos, que conheceu durante a ocupação. “Escolhi a
esquerda”, diz, posição que para ela significa “ter preocupação com as minorias, as
mulheres, os negros, os imigrantes, os homossexuais, os índios.” A lista, de acordo com o
espírito do tempo, não inclui proletários, camponeses ou desempregados, categorias
clássicas do trabalho. “Estudei o liberalismo – Adam Smith, esses caras – e não gostei.
Concluí que, se as pessoas no poder fossem liberalistas e pensassem como ele, eu ia me
dar mal. Eu e toda a sociedade pobre, que é a maioria. Gostei do Karl Marx e daquele
outro que eu não sei dizer o nome, o colega dele, o Friedrich…” Foi no diálogo com os
professores que entrou em contato com as ideias de Smith, Marx e Engels. Aprendeu
também com eles a admirar Nelson Mandela e Frida Kahlo. “Só com eles. Aprendi o que
me contaram. Eu não sabia nada, e não saber nada com 15 anos é muito perigoso. É
muito fácil as pessoas te enganarem.”
A ocupação mudou sua vida. O preço foi alto, diz. Repetiu de ano e perdeu a
confiança dos pais. “Meu pai nos chamava de desocupados, de maconheiros. Minha mãe
ainda chama o que fizemos de invasão.” O pai, um porteiro hoje desempregado, entrou na
escola para tirar a filha à força. Ela resistiu, e desde então os dois pouco se falam.
Stéfani de Souza acabou se decepcionando com a política também, em especial com o
PT, cujas alianças não perdoou. Hoje, não se sente representada por nenhum partido de
esquerda. O PSOL teria chegado mais perto, mas também fracassou. “Eles se acham
melhores do que os outros, ‘Eu sou mais de esquerda do que você, milito mais’, esse tipo
de coisa. Eles criam padrões de comportamento quando deviam fazer o contrário:
desconstruir.”
O mundo de 2016 era mais simples, e isso favorecia a convicção. A névoa de hoje
dissipou as energias. No lugar delas instalou-se outra coisa, que, no caso dos dois
estudantes, é mais do que desalento, é angústia. Ela conta: “Entre os nossos amigos, o
assunto que mais rende é o Bolsonaro, a gente se sente ameaçado por ele. A maioria das
pessoas é conservadora. Elas estão com medo, querem matar bandido e o Bolsonaro diz
o que elas querem ouvir. O papo de Lula e Dilma já não cola: ‘Companheiros e
companheiras, amigos e amigas’, isso não funciona mais, as pessoas querem algo real,
entendeu? Daí o Bolsonaro. Eu me sinto pessoalmente ameaçada porque sou negra,
venho da favela, sou mulher, então tudo que ele fala me atinge diretamente. Eu estou
numa treta, porque minha família inteira vota nele, pai, mãe, tios, primos. Eles estão na
mesma condição que eu, só que de tanto medo de violência, de tanta corrupção, de tanto
serem enganados por políticos, eles aceitam o que parece ser mais radical, votam em
quem diz que vai resolver as coisas mais rápido. Mas não existe isso de resolver o Brasil
do dia pra noite. O Brasil é um país muito grande.”
Tanto o pai quanto a mãe, uma cozinheira que hoje é o arrimo da família, já foram
entusiastas de Lula. Sobrevieram os escândalos e o pai mudou de campo. “Ele é negro e
racista, é pobre e liberal”, diz a filha, espantada. Favelados negros que votam em
Bolsonaro a fazem lembrar do frango da Sadia: “Frango fazendo anúncio de… frango”,
frango entusiasmado com a própria execução.
A voz dela rateia. Encabulada, desvia os olhos e diz: “Logo agora que eu vou votar
pela primeira vez, deixaram o pior pra mim: um presidiário, um liberal, um radical e um
monte de marionetes. Na minha primeira eleição. Eu estou com medo, tem muito
candidato, vai dividir voto.” O namorado lembra de Marina. Ela contesta: “É fraca,
indecisa, quer agradar a todos, não dá pra agradar crentes e ateus, não dá…” Diz saber
como são os evangélicos: “Minha família é crente. Eu já fui, não sou mais. Eles tomam o
lugar de Deus. Te excomungam, te mandam pro inferno, praticamente compram o teu lote
lá. Deus é legal, o problema é o fã-clube dele”, brinca, tentando se recompor. E então diz
algo espantoso: “Olha, eu entendi que os políticos brasileiros não iam se preocupar com
os meus problemas. Que não iam se interessar por mim. E aí vem o Bolsonaro. Ele
vai exatamente no meu problema. Para me ferir. Eu sou o alvo, o problema. Ele me quer,
e eu tenho medo. Eu sofro.”
Três Corações parece não ter mais nada a lhe oferecer. Quando bem menina, veio
de São Paulo para cá e agora sonha retornar. “Quero ir para a USP, fazer letras ou
jornalismo.” Não acha que a política local mudará. “As pessoas reclamam do estado das
coisas, mas aceitam mil reais mais uma cesta básica. O voto em Três Corações vale mil
reais”, diz, referindo-se a um assunto que começava a tomar conta da cidade: o possível
impeachment do prefeito por compra de votos na eleição passada. “Gostava do Cláudio
como médico”, diz, “meu pai se consultava com ele, era ótimo, atencioso. Como prefeito,
abandonou Três Corações.”
Na véspera dessa conversa, Raquel Stéfani de Souza abrira com verve a sessão
do Parlamento Jovem. Era ela a jovem negra que pediu ordem, pronunciou as palavras
“Do povo para o povo” e conduziu os debates sobre violência contra mulheres. Parecia
muito mais viva do que hoje. “Ontem eu era presidente”, explica. “Não posso mostrar para
as colegas que a presidente que elas elegeram não acredita mais. É um personagem.
Aqui é a realidade, e ela é bem mais complicada”, diz com um sorriso triste. Chegou a
imaginar um futuro político para si, mas agora tem medo. “Acho que eu me arriscaria se
chegasse ao poder. Gosto muito de estar viva. Mataram o Martin Luther King, o Sabotage,
a Marielle.” Prefere esperar. “Se o Bolsonaro não vencer, vai dar certo. Já se vencer, vai
ficar claro que estamos voltando para trás. Meu Deus, como estamos voltando para trás.
É capaz de a gente ver dinossauros pela rua.”
 
Em meados de setembro, faltando menos de três semanas para o primeiro turno
das eleições, Paulo César Pereira, o Paulão, dono da  Folha do Sul de Minas Gerais,
publicou uma nota comentando o fato de que o presidente da Câmara, Mauricio Gadbem,
ainda não se pronunciara a respeito de Jair Bolsonaro. Sendo ambos do mesmo partido,
supunha-se que o faria. Paulão descrevia Gadbem como um “petista juramentado” que,
na Câmara, cercara-se de assessores que passavam o dia lendo Gramsci. Dias depois,
girando com gosto o punhal, reproduziu em outro post a troca de mensagens entre
Gadbem e um amigo ligado à esquerda: “Mauricio, qual candidato a presidente vc vai
apoiar?” “Ainda não tenho candidato, mas assim como a você, me preocupa a ascensão
da extrema direita no país.”
Paulão, que não hesitara em postar no site do jornal um vídeo de Olavo de
Carvalho discorrendo sobre a trama da esquerda brasileira – toda ela – para assassinar
Bolsonaro em Juiz de Fora, sabia o que estava fazendo. Possivelmente com um
empurrãozinho seu, a nota aterrissou nas páginas dos bolsonaristas da região e a coisa
se alastrou. Gadbem passou a ser pressionado pela nomenclatura mineira do PSL e pelos
eleitores de Bolsonaro a assumir uma posição e, no dia 17 de setembro, ele o fez.
Gadbem aparece de pé na sacada de uma casa. Ele filma a si mesmo, e começa a
falar: “Eu sou presidente da Câmara municipal, sei da importância da fidelidade partidária
e comungo de vários projetos do candidato à presidência Jair Bolsonaro.” Feliz como um
condenado, prossegue: “Por exemplo: nós dois temos uma história de luta contra a
corrupção, o fisiologismo partidário; nós dois temos uma história de luta em favor da
família. Eu sou PSL, eu voto 17.” A coisa toda leva um minuto e três segundos, duração
que talvez se popularize em Três Corações como a medida-padrão de uma morte política.
Paulo César Pereira prefere ser apresentado como dono de jornal, não como jornalista.
Nascido no estado de São Paulo, formou-se em direito e, na década de 80, veio para Três
Corações como funcionário de um banco. Permaneceu e acabou fundando a Folha do Sul
de Minas Gerais, jornal que, hoje, tem existência mais digital do que impressa. Ele nega
que seu modelo de negócios seja vender apoio político, como alegam seus desafetos.
“Aqui só tem uns três jornais, dois deles levam dinheiro. Eu não. Cheguei a receber
verbas por matérias institucionais – isso eu fiz, todos fazem. No início, assinalava com um
fio em volta da matéria, depois passei a escrever release no topo.”
Não obstante a explicação, uma passada de olhos pelo site do veículo deixa claro
que o jornalismo praticado pela Folha do Sul não tem o costume de ouvir todos os lados.
Nos últimos meses, a cobertura vem se dividindo entre críticas ao prefeito – “péssimo
moralmente”, define-o Paulão, “uma pessoa execrável” – e notas simpáticas a Bolsonaro.
Em meados de agosto, Paulão publicou um post informando que o TRE de Minas estava
prestes a julgar uma ação de impeachment do prefeito por compra de votos. Seguiram-se
novas atualizações, tendo sempre como fonte o advogado de acusação e sem jamais
oferecer a perspectiva do réu. “O outro lado é fechado em copas”, explica Paulão, “eles
não falam comigo sob risco de serem mandados embora da prefeitura.”
No início, a relação entre os dois era boa. “Quando Cláudio começou a carreira
como vereador, tive contatos com ele. Cláudio esteve no jornal, comprou espaço para
fazer release.” Quando a coisa azedou – a razão não é clara –, a prefeitura deixou de
anunciar na Folha do Sul. “Sustento o jornal com recursos próprios”, diz Paulão. “Antes do
Cláudio assumir tinha um bom nível de anúncios, comércio, universidade. Depois do
Cláudio, secou. Ele tentou atingir o jornal de todas as formas.”
Num post de 27 de agosto, Paulão informou que o advogado de acusação no
processo de impeachment havia produzido uma “elogiável sustentação oral”. Da turma de
sete desembargadores do TRE-MG, três já haviam votado, todos “em desfavor do prefeito
Cláudio, que agora está muito próximo de sua cassação”. O afastamento estava por um
único voto.
Dr. Cláudio é acusado de abuso de poder econômico e político. A alegação é de
que, na eleição de 2016, teria trocado votos por cestas básicas, promessas de cirurgia e
doações de terrenos. A ação nasceu dentro do MP, que ofereceu a denúncia. “Foi julgada
improcedente”, explica o procurador Victor Hugo Rena Pereira, “eu recorri – tinha
elementos fortes de convicção – e perdi novamente.” E assim ficaria, se as provas
reunidas pelo MP, juntadas com elementos novos, não tivessem gerado uma segunda
denúncia, sob o patrocínio de “outra parte interessada na causa” – no caso, o ex-vice de
Dr. Cláudio, Cosme Nascimento, aquele mesmo que fora expulso do gabinete e
desterrado para a mesinha. Em 2016, ele se lançara candidato a prefeito contra o antigo
chefe, tendo sido derrotado. Gordo Dentista, segundo colocado naquele mesmo pleito,
está convencido de que foi roubado. “Cláudio é um moleque. Meu candidato a vice deu
com a mãe dele numa van cheia de cestas básicas. Eu disse: acompanha e filma
tudo.” (“Ele te mostrou o vídeo?”, pergunta Dr. Cláudio. “Não mostrou? Pois é…”)
Gordo Dentista nega que seja um dos patrocinadores da ação, mas certamente
lucrará se Dr. Cláudio for cassado. Paulão acredita que ele será o novo prefeito. “É amigo
meu”, diz o dono do jornal, “mas eu o considero preguiçoso, ausente. Não há renovação”,
lamenta. Gordo Dentista não teria dificuldade em concordar com a última observação. “Se
aqui tem renovação? Não!”, fulmina, “e eu me incluo nisso. Não é bom para a cidade. Já
propus ser vice. Eu sou um bom vice.” Vice ou cabeça de chapa, o essencial é que o
candidato seja mineiro e, de preferência, tricordiano. “Mineiro, você sabe como é”, diz,
“tudo juntinho, tudo misturado, tudo herda do pai, tudo herda da mãe e quem chega de
fora é mentiroso.”
 
Uma estrada de terra avança pelo interior de Minas, deixando Três Corações para
trás. Morros, vales, pequenas fazendas, plantações de café, fios d’água, casas isoladas,
cavalos no pasto, mata-burros, bois solitários, lombadas, curvas, cupins, poeira, mais
poeira, ermo. No fim da linha, aparece a casa. Antiga, bonita, sólida, dessas do tempo do
café, mas pequena, sem luxos, a provável residência de um baronete remediado.
O prefeito Cláudio Cosme Pereira de Souza está à porta. Apesar do calor, veste
mangas compridas. Mostra as portas altas, o pé-direito de 11 metros, a louça inglesa das
pias, uma saboneteira de bronze. E também o forro comido, as paredes descascadas, as
tábuas soltas do assoalho. Caminha devagar, como se suas pernas fossem mais antigas
do que ele. Chega à cozinha, onde o esperam a dona da casa, o marido, a filha pequena
dos dois e um corretor de imóveis. “Esse é o Gervásio”, diz, meio a troco de nada,
apontando o marido, “ele foi muito bonito, fez pornochanchada e comeu todo mundo.”
Gervásio, um homem de 58 anos, parece não se lembrar dessa etapa da vida. O rosto é
maltratado e a expressão é de quem não está ali, mas acolá. Para susto dos visitantes,
ele exclama do nada: “Tamo todo mundo junto!”, e tenta sem sucesso envolver o grupo
num só abraço.
De panelas simples sobre o forno a lenha, o prefeito se serve de angu e galinha
com quiabo. Senta-se na mesa forrada com uma toalha de plástico. A seu lado, o corretor
suga um ossinho. À sua frente, a mulher conta que a filha pequena quer ser modelo, e
mostra as fotos tiradas para uma agência de São Paulo. Com ênfase crescente, Gervásio
insiste que estamos todos juntos. O prefeito come em silêncio, alheio à cena. Não se
altera nem quando ouve o ex-ator dar um murro na mesa e avisar que “Aqui tem muita
assombração!” A esposa desmente, admoestando o marido. “Gervásio, estamos
vendendo a casa…”
Dr. Cláudio está ali para fechar a compra da propriedade de 50 hectares. Porteira
fechada, o que inclui as arcas, os quadros, a saboneteira, os pés de café, a toalha de
plástico, uma velha tevê, o aparelho de vídeo e todas as fitas de África, o Último Paraíso
Selvagem. Está mais abatido, mais afetado pelo Parkinson que o colheu ainda jovem,
bem como pelo fardo de se manter politicamente vivo numa cidade em que se indispôs
com quase todo mundo – “com todo mundo não, só com os poderosos”, ressalva.
Naquele primeiro dia de setembro, um sábado, sua situação parecia precária. Na
semana seguinte, os desembargadores retomariam o julgamento do impeachment e seus
adversários já comemoravam a sua cassação. Os que acreditam que foi ele quem
denunciou Fausto Ximenes ao MP – e são muitos – não o perdoam por ter conspurcado a
imagem da cidade. Sentado num sofá, com Gervásio de pé a seu lado, ele nega. “Nunca
faria isso. A investigação começou em 2009, muito antes de eu chegar à prefeitura.
Prenderam secretário meu, de Meio Ambiente, de Administração… Você acha que eu ia
denunciar minha própria gente? Prenderam a cidade inteira, o PIB da cidade foi para a
cadeia. Tive que reconstruir a imagem de Três Corações.”
Lembra que a Justiça arquivou duas vezes a primeira denúncia de compra de
votos, a qual só teria prosperado agora por obra de seus adversários. Ri quando ouve que
Gordo Dentista negou estar à frente da denúncia. “Você pode confiar numa pessoa que
vai à rádio e diz assim: ‘Você é um chifrudo, você é um corno, tua mulher está te
passando pra trás, espero que você morra de câncer?’” Apesar do placar desfavorável,
mantém as esperanças. “[O governador Fernando] Pimentel me disse que vai falar com
um dos desembargadores que votaram contra, ver se ele muda de ideia. Eu vou reverter.”
Há mais fadiga do que convicção em sua fala, ele admite. “Estou cansado da
administração pública. Essa fazenda é minha aposentadoria precoce, a que tenho direito
por causa da doença. Vou transformá-la numa área de produção de vinho. Viti-vi-nícula”,
diz, acostumando-se com a nova palavra. Gervásio o abraça. “Tamo todo mundo junto!”
Dr. Cláudio se levanta e, devagar, caminha até a picape. “Bolsonaro tem que matar coisa
ruim!”, ainda grita, da soleira da porta, o ex-ator pornô. É a última coisa que se ouve
dentro do carro que se afasta.

(https://piaui.folha.uol.com.br/materia/uma-cidade-exemplar/)