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Palavra útil

Havendo um milhar de palavras


que não nos possa ajudar,
melhor uma só delas, útil,
que sendo ouvida nos acalme.

Darmapada, VIII | 1

Expectativa de Transformação

O objetivo da prática é subjugar nossos próprios fluxos mentais. Geralmente,


especialmente no Ocidente, é muito comum as pessoas pensarem que, assim que você vira
budista, isso de algum modo trará uma mudança extraordinária, como se transformar em
um bodisatva da noite para o dia.

Isso não é verdade para nada no mundo. Por exemplo, ao entrar na escola, você
não se torna de repente um médico ou outra coisa. Isso só acontece gradualmente.
Contudo, sem consciência disso, as pessoas às vezes apontam para alguém e dizem: “Ah,
ele tem sido um budista por tantos anos, como pode ter feito isso?”.

Essa história toda de “tantos anos” não é nada demais. Nós temos reforçado nossas
aflições mentais por muitas e muitas vidas. Estamos lidando de fato com um oceano de
aflições mentais. Praticar o Dharma por muitos anos é bom, mas não espere
transformações radicais extraordinárias mesmo se você tem praticado por bastante tempo.

Mudanças acontecem aos poucos. É um erro esperar que transformações


fantásticas vão acontecer se você se tornar budista e praticar o Dharma por um tempinho.

Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)


“Natural Liberation”, parte 1 | 2

Armadilha da Impaciência

Sempre que desejamos que a vida seja diferente do que é, somos pegos pela
impaciência. Perdemos nosso senso de humor; e a auto-piedade, desespero e a atribuição
de culpa se infiltram no coração.

O autodomínio gentil inclui o espírito do perdão. Quando sentimos um conflito com


os outros, compreender seu sofrimento é o primeiro passo para sermos capazes de nos
comunicar, perdoar e começar de novo.

A prática do perdão acontece quando conseguimos compreender a causa


fundamental de nossa raiva e impaciência, e isso nos permite diferenciar entre a falta de
habilidade no comportamento de alguém e a sua bondade essencial.
Serenidade e calma se desenvolvem assim que aprendemos a aceitar a imperfeição
nos outros e em nós mesmos.

Michele McDonald
Tricycle, verão de 2005 (Tricycle’s Daily Dharma, 25/11/2009)

Vacuidade e Compreensão Sobre Karma

Dilgo Khyentse Rinpoche

A menos que você tenha entendido a lei do karma, dizer que você realizou a visão
se torna uma mentira.
(Zurchung Sherab Trakpa, Tibete, séc. 11)

Sem compreender o princípio de causa e efeito kármicos, qualquer prática do


Dharma que você fizer será simplesmente uma imitação do artigo autêntico. Como costuma
ser dito, “a visão deve ser tão elevada quanto o céu, mas a conduta precisa ser mais
refinada que farinha”.

Quando você se encontra a ponto de cometer mesmo a menor das ações negativas,
você não deve se atrever porque sabe que isso causará sofrimento. E se tiver a
oportunidade de executar mesmo uma minúscula ação positiva, você deve ansiosamente
fazer isso, sabendo que irá ajudá-lo a acumular mérito e progredir em direção à liberação.

Por outro lado, não será de ajuda nenhuma pensar que ações negativas não
importam porque podem ser purificadas por confissão ou porque, devido à sua arrogante
visão, não há tal coisa como positivo ou negativo, bom ou ruim. Um praticante que tenha
realmente compreendido a vacuidade na natureza de tudo tem espontaneamente uma
compreensão muito mais clara da interdependência e está convencido de que ações
inevitavelmente produzem efeitos.
Dizer que realizou a visão, sem compreender a lei de causa e efeito, é uma mentira,
assim como dizer que não há necessidade de evitar ações negativas e adotar positivas. É
por isso que Shechen Gyaltsap aponta:

Você precisa dominar o ponto essencial de que a vacuidade se manifesta como


causa e efeito.

Quanto mais completa for a realização da vacuidade, mais claramente se vê a


relação infalível entre causa e efeito dentro da verdade relativa.

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)


“Zurchungpa’s Testament”, II | 10

Intervalos Entre a Meditação

Todos novos meditadores devem praticar em sessões mais curtas porém mais
frequentes. Na hora de concluir a sessão de prática, a mente deve permanecer
imperturbada por conceitos. Se a pessoa é capaz de permanecer pacificamente sem ser
perturbada por conceitos, é importante deixar a mente nesse estado por um tempo.

O motivo é que se o intervalo entre sessões é preenchido com conceitos


perturbadores, quando chega a hora de praticar meditação de novo a mente continuará a se
conectar com esses conceitos prévios. Então há o perigo de que a mente não poderá
permanecer pacificamente.

No entanto, durante o intervalo entre sessões, se a mente é deixada em claridade,


quando chega a hora de praticar meditação de novo, a mente irá continuar a encontrar essa
claridade prévia e, à partir daí, gradualmente a permanência no estado de meditação irá
aumentar.

De modo similar, ao se levantar da meditação, a pessoa não deve subitamente se


erguer, mas levantar e caminhar devagar, preservando o estado desperto.

Thinley Norbu Rinpoche (Tibete, 1931 ~)


“A Cascading Waterfall of Nectar”
Natureza do Mestre

Dudjom Rinpoche

Já que a consciência pura do presente é o verdadeiro buda, com abertura e


contentamento encontramos o Lama em nosso coração. Quando compreendemos que essa
mente natural sem fim é a natureza do mestre, não há mais necessidade de preces
apegadas e ansiosas ou reclamações artificiais.

Ao simplesmente relaxar no estado desperto não conceitual, o estado natural livre e


aberto, obtemos a benção da auto-liberação não dirigida de qualquer coisa que surja.

Dudjom Rinpoche (Tibete, 1904 – França, 1987)


citado por Sogyal Rinpoche, em prefácio para “Brilliant Moon”, de Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete,
1910 – Butão, 1991)

Encontro Com o Mestre Espiritual

A razão pela qual as qualidades de um mestre são descritas em tantos detalhes nas
escrituras é porque devemos estar cientes do que procurar quando buscamos um Guru que
seja capaz de abrir dentro de nós o caminho budista. Receber ensinamentos de um
professor desqualificado pode ser desastroso. As escrituras tântricas nos ensinam que uma
pessoa não é imprudente por examinar um Guru por mais de doze anos antes de aceitá-lo
como seu professor. A escolha do mestre é uma importante escolha e deve ser feita
criteriosamente.

O Guru não somente desempenha o trabalho dos Budas e, portanto, a eles se


iguala em sua atividade, mas os ultrapassa em termos de sua benevolência.
De todos os Budas do passado que se manifestaram na qualidade de mestres
universais, é nos dito que o Buda Shakyamuni deles foi o mais benevolente para nós, pois
foram seus ensinamentos que nos colocaram em contato… muito embora o Buda
Shakyamuni seja o mais benevolente dos Budas do passado, mesmo assim não somos
capazes de receber ensinamentos diretamente dele ou presenciar sua inspiradora
presença.

Mesmo que todos os Budas e mestres da linhagem do passado manifestassem-se


para nós neste exato momento, nós não teríamos a capacidade de reconhecê-los como
seres iluminados. E em razão de não termos com eles conexões cármicas suficientemente
fortes, eles seriam insuficientes em poder nos afetar (ajudar). O Guru realiza a grande
benevolência de vir até nós como uma pessoa comum que podemos perceber e com a qual
podemos nos relacionar e assim executar o trabalho dos Budas em nossas vidas. O fato de
ignorantes como nós sermos levados para dentro do seio da familia dos seres esprirituais
pode somente ocorrer para nós com a ajuda do Guru. Assim, se não respeitarmos nosso
mestre e não ouvirmos com cautela e atenção a seus ensinamentos, que esperança
podemos ter? Devemos meditar sobre a insuperável bondade do Guru e deixar nascer uma
profunda apreciação por ele.

A razão pela qual estamos vagando ininterruptamente pela existência cíclica desde
tempos imemoriais é porque nós não encontramos ainda um mestre espriritual no passado;
ou mesmo que o tenhamos encontrado, nós não cultivamos com ele ou ela uma efetiva
relação [mestre-aluno]. Devemos estar determinados de tomar para nós a oportunidade
ímpar de nossa atual condição humana e cultivar a prática espiritual sob a orientação de um
mestre.

Dalai Lama (Tibete, 1935 ~)


“The Path to Enlightenment”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 17/09/2010)

Descobrir o que é Ausência de Ego

Resumindo, ao examinar as coisas mais de perto, podemos descobrir que os


fenômenos externos não têm existência própria. Mesmo o velho culpado apego ao ego,
agarrar-se à noção de “eu sou”, podemos descobrir que isso não tem base real. Podemos
ganhar alguma compreensão da natureza das coisas, mas tal entendimento contudo é
teórico.

Não basta ter ideia de que todas as coisas, incluindo nós mesmos, são vacuidade.
Para ganhar experiência real temos que ir até um professor que tenha ele mesmo essa
experiência e saiba como simplesmente descansar no estado natural sem gerar
construções mentais enganadas, alguém que perceba as coisas como elas são: vacuidade,
sem realidade sólida.

No entanto, precisamos combinar nosso próprio discernimento com as declarações


dos iluminados e com as instruções orais de um mestre qualificado. Um professor
qualificado é alguém que tenha compaixão, compreensão e experiência.
Ao receber as instruções orais, devemos ter mente aberta, fé e devoção, além de
sermos inteligentes e esforçados na aplicação desses ensinamentos. Através da
experiência pessoal iremos descobrir o que é chamado de estado de não-ego segundo os
ensinamentos gerais, estado desperto inato segundo o Mahamudra, ou em termos
Dzogchen, a esfera única do Dharmakaya.

Chokyi Nyima Rinpoche (Tibete, 1951~)


“Bardo Guidebook”

Cada Vez Mais Perto da Morte

A pessoa no corredor da morte,


Quaisquer passos que dê,
Se aproxima cada vez mais do senhor da morte:
Isso também é verdadeiro para a vida dos humanos.

Udānavarga 1 | 15
citado por Könchok Gyaltsen (Tibete, ano 1388 ~ 1469)
em “Suplemento à Tradição Oral”
“Mind Training”

Caminho de Vacuidade

[...] não existe nem mesmo uma partícula nascendo, nascida ou que irá nascer —
não há nada que possa ser agarrado, nada a que possamos nos apegar. Todas as coisas
são inerentemente assim, não têm natureza intrínseca própria, são intrinsecamente
incompatíveis com qualquer caracterização: nem um nem dois, nem muitos nem infinito,
nem pequeno nem grande, estreito ou largo, profundo ou raso, nem nulidade nem
conceitos, nem assim nem não-assim, verdade ou mentira, substancial ou insubstancial,
nem existente nem inexistente.

Bodisatvas então vêem as coisas como não-coisas, embora em termos de fala eles
sigam as convenções ao definir o que são não-coisas como coisas; eles não interrompem o
caminho da ação e não desistem das práticas para a iluminação; eles buscam onisciência
sem jamais retroceder.

Eles sabem que todas as condições das ações são como sonhos, que sons e vozes
são como ecos, que seres sencientes são como sombras, que todas as coisas são como
fantasmas — ainda assim eles não negam o poder de ação das causas e condições. Eles
sabem que o espectro das ações alcança muito longe; compreendem que todas as coisas
não fazem nada e cruzam o caminho da não-ação sem jamais desistir.

Sutra Guirlanda de Flores


(Avatamsaka Sutra, livro 25 – “As Dez Dedicações”)
“Flower Ornament Scripture”
Tudo e Nada

Kalu Rinpoche

Você vive na ilusão e na aparência das coisas.


Há uma realidade, mas você não a conhece.
Quando compreendê-la, vai ver que você não é nada,
E, sendo nada, você é tudo.
Isso é tudo.

Kalu Rinpoche (Tibete, 1905 ~ Índia, 1989)


“The Dharma That Illuminates All Beings Impartially Like the Light of the Sun and Moon”
citado por Jack Kornfield, em “The Buddha is Still Teaching”

Forma e Vacuidade

Forma é aquilo que está lá antes de projetarmos nossos conceitos. É o estado


original “daquilo que está aqui”, as qualidades coloridas, vívidas, impressionantes,
dramáticas e estéticas que existem em toda situação.

Forma pode ser uma folha de bordo caindo da árvore e pousando no rio da
montanha; pode ser a luz plena do luar, uma sarjeta na rua ou um monte de lixo. Essas
coisas são “o que são”, e de certo modo são todas a mesma coisa: são todas formas, são
objetos, são apenas o que são.

Avaliações sobre elas são criadas somente depois em nossas mentes. Se


realmente olharmos para essas coisas como elas são, são apenas formas.

Então, forma é vazia. Mas vazia de quê? Forma é vazia de nossas pré-concepções,
vazia de nossos julgamentos.

Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 – Canadá, 1987)


“The Heart Sutra: Translations and Commentary”
Tricycle’s Daily Dharma, 30/09/2010
Significado do Culto a Buda

Observadores superficiais tentam apontar o paradoxo de que o Buda, que quis


libertar a humanidade da dependência de deuses e da crença em um Deus criador
arbitrário, acabou ele mesmo endeusado nas formas posteriores de budismo.

Eles não compreendem que o Buda que é cultuado não é a personalidade histórica
do homem Sidarta Gautama, mas a corporificação das qualidades divinas, que são latentes
em todo ser humano e que se tornaram aparentes em Gautama e em inúmeros Budas antes
dele.

Não vamos confundir o termo “divino” — mesmo o Buda dos textos Pāli não evitou
classificar a prática das mais altas qualidades espirituais na meditação (como amor,
compaixão, alegria empática e equanimidade) como “permanecer em Deus” (brahmavihāra)
ou “estado divino”.

Então, não foi o homem Gautama que foi elevado ao status de um deus, mas sim o
“divino” que foi reconhecido como uma possibilidade de realização humana. Assim, o divino
não perdeu valor, mas ganhou; porque à partir de uma mera abstração, se tornou uma
realidade viva; de algo que era apenas acreditado, passou a ser algo que podia ser
vivenciado. Então não foi uma queda para um nível inferior, mas uma elevação, uma
ascensão de um plano de realidade inferior para outro superior.

Assim, os Budas e Bodisatvas não são meramente personificações de princípios


abstratos — como aqueles deuses que são forças da natureza personificadas ou qualidades
psíquicas que o homem primitivo só podia entender através de formas semelhantes à
humana —, são protótipos daqueles estados mais elevados de conhecimento, sabedoria e
harmonia que foram atingidos pela humanidade e sempre serão realizados de novo e de
novo.
Independente se esses Budas são concebidos como surgindo sucessivamente de
tempos em tempos (como seres históricos, por exemplo, na tradição Pāli) ou como imagens
além do tempo, arquétipos da mente humana (que são visualizados em meditação e,
portanto, chamados de Dhyāni-Budas) eles não são alegorias de perfeições transcendentais
ou de ideais inalcançáveis. São símbolos e experiências visíveis da realização espiritual em
forma humana.

Porque para nós a sabedoria só pode se tornar uma realidade se ela for realizada
em vida, se ela se tornar parte da existência humana.

Lama Anagarika Govinda (Alemanha, 1898 ~ EUA, 1985)


“Foundations of Tibetan Mysticism”, parte 3 | 1

Estado Intermediário da Vida

Como eu disse, este bardo* do nascimento e da vida é muito importante. Se você


puder reconhecer este bardo como nada mais que um sonho, uma exibição mágica, e
combinar esse reconhecimento com bodhicitta* desimpedida, à partir do coração, então
você vai dominar este bardo do nascimento e da vida.

Quando você domina este bardo, você dominará todos os outros bardos*. E, se
alcançar isso, você se tornará um grande herói ou heroína, não aterrorizado por
nascimento, doença, envelhecimento e morte. Então, não haverá nenhuma necessidade de
instruções especiais sobre o bardo da morte.

Dudjom Rinpoche (Tibete, 1904 – França, 1987)


citado por Khenpo Tsewang Dongyal (Tibete, 1950 ~)
em “Light of Fearless Indestructible Wisdom”, cap. 6

* bardo: palavra tibetana que significa “estado intermediário”

Não Esquecer

Não esqueça o Lama; reze para ele a todo momento.


Não deixe a mente se distrair; observe a essência da sua mente.
Não esqueça a morte; persista no Dharma.
Não esqueça os seres sencientes; com compaixão dedique seu mérito a eles.

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)


citado por Sogyal Rinpoche, em prefácio para “Brilliant Moon”, de Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete,
1910 – Butão, 1991)
Não Esquecer

Não esqueça o Lama; reze para ele a todo momento.


Não deixe a mente se distrair; observe a essência da sua mente.
Não esqueça a morte; persista no Dharma.
Não esqueça os seres sencientes; com compaixão dedique seu mérito a eles.

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)


citado por Sogyal Rinpoche, em prefácio para “Brilliant Moon”, de Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete,
1910 – Butão, 1991)

Verdadeira Liberdade

Liberdade significa ser capaz de escolher como reagir às coisas. Quando a


sabedoria não está bem desenvolvida, ela pode ser facilmente obscurecida pelas
provocações dos outros. Nesses casos, podemos ser exatamente como animais ou robôs.

Se não há nenhum espaço entre o estímulo ofensivo e sua reação condicionada


imediata — a raiva — então na verdade estamos sob o controle dos outros.

O estado desperto abre tal espaço e, quando a sabedoria está lá para preenchê-lo,
a pessoa é capaz de responder com paciência. Não é que a raiva seja reprimida, ela nem
chega a surgir.

Andrew Olendzki
Tricycle, inverno de 2006 (Tricycle’s Daily Dharma, 27/11/2009)

Consciência Contínua da Impermanência

Precisamos incutir em nós uma consciência contínua da impermanência, porque a


vida é uma corrida contra a morte e a hora da morte é desconhecida. Contemplar a
aproximação da morte muda as nossas prioridades e nos ajuda a abrir mão do envolvimento
obsessivo com coisas ordinárias.

Se permanecermos sempre conscientes que cada momento pode ser o último,


intensificaremos a prática para não desperdiçar nem fazer mau uso da nossa preciosa
oportunidade humana. À medida que amadurece a contemplação dessa verdade,
chegaremos à alguma compreensão de como funciona o mundo, de como as aparências
surgem e se transformam.

Vamos passar de um mero entendimento intelectual da impermanência para a


compreensão de que todas as coisas, sobre as quais baseávamos nossa crença, na
realidade, são apenas um cintilar de mudança. Começaremos a ver que tudo é ilusório,
como um sonho ou uma miragem.
Embora os fenômenos apareçam, na verdade nada é estável, de fato, no presente.
Isso nos ajudará a compreender os ensinamentos budistas mais profundos.

Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)


“Portões da Prática Budista”, parte 2 | 9

Reacção Correcta

Dalai Lama

Com a morte de Mao Tse Tung, Sua Santidade o Dalai Lama falou sobre o
falecimento diante de uma multidão de tibetanos e realizou uma grande cerimônia religiosa
direcionada a Mao.

Ele disse que agora que Mao faleceu, seria visto com compaixão. Na verdade,
quando Sua Santidade estava falando da morte de Mao, havia lágrimas em seus olhos
devido à sua grande compaixão por esse homem. Ele pediu ao povo tibetano para dedicar o
mérito de suas práticas ao benefício de Mao.
O que Mao fez para merecer esse tipo de atenção e compaixão de Sua Santidade?
O que ele fez foi sistematicamente destruir os monastérios, monumentos e livros do Dharma
no Tibete. Ele fez o máximo para aniquilar todas as representações do Buda e do Dharma
no Tibete. Quanto ao povo tibetano, Mao perpetrou um genocídio, e sofrimento intenso foi
infligido basicamente devido às suas políticas.

Esse sofrimento foi infligido não apenas ao povo tibetano, mas no povo chinês
também. Uma quantidade tremenda de sofrimento pode ter sua origem traçada até Mao e
seu regime. Quando ouvimos falar sobre uma pessoa ou governo que causa tamanho
sofrimento, nossa reação natural é a raiva. Já quando Sua Santidade o Dalai Lama encara
isso, ele simplesmente compreende que esse era o karma dos tibetanos, e as pessoas que
se engajam em ações assim terrivelmente prejudiciais merecem nossa compaixão.

Quando normalmente julgamos as pessoas — dizendo: “ali está meu inimigo” ou


“essa é uma pessoa má” — estamos construindo as outras pessoas dessa maneira.
Quando concebemos os outros desse modo, colhemos o fruto de nossos próprios
pensamentos. O que enviamos, recebemos de volta.

A reação de Sua Santidade à morte de Mao foi errônea ou virtuosa? Foi uma reação
virtuosa. Quando o espírito do despertar realmente amadurece no fluxo mental de alguém,
esse é o tipo de reação que surge — uma reação característica de um verdadeiro seguidor
de Buda. Você pode achar que é ingênuo, mas é assim que um budista deve reagir.

Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)


“Natural Liberation”, parte 1 | 2

Incêndio da Sabedoria Compassiva

Devemos aprender a confiar em nós mesmos quando praticamos a doutrina do


Buda. Com o tempo, iremos confiar na inevitabilidade da causa e efeito kármicos e na
interdependência de todas as ações.

Devemos conseguir conhecer e confiar na importância da acumulação de mérito e


sabedoria, do mesmo modo que sabemos e confiamos que até a menor das goteiras
eventualmente enche o balde.

Devemos aprender a confiar que nossa própria prática do dharma irá eliminar
inteiramente nossa selva de venenos, do mesmo modo que um grande incêndio consome
uma floresta inteira. Todas as nossas negatividades podem ser varridas pelo incêndio de
nossa sabedoria compassiva.

Devemos confiar que toda nossa felicidade e tristeza são completamente


dependentes — sendo um resultado — de nosso karma. Quando confiamos nesse
processo, podemos começar a acumulação de ações virtuosas imediatamente.

Ninguém alcança perfeição em nada significativo na primeira tentativa; contudo,


temos ouvido frequentemente a frase “a prática faz a perfeição”. É verdade que, com
múltiplas repetições e paciência, todos podem chegar a perfeição com o tempo.
Não conheço ninguém que sentou pra meditar e, na primeira vez, já chegou à
iluminação, mas assim como a goteira que, sabemos, uma hora vai encher o balde, a
prática consistente do dharma eventualmente nos conduzirá à liberação.

Dudjom Dorjee
“Heartfelt Advice”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 02/05/2010)

O Problema não está na Dualidade em Si

[...] O problema não está na dualidade em si; está no fato de que experimentamos
a dualidade de uma maneira parcial e incompleta — nos identificamos com um lado e
rejeitamos ou nos agarramos ao outro.

“Mas se estivermos completamente em contato com esses sentimentos dualistas, a


experiência absoluta de dualidade é ela própria a experiência da não-dualidade. Então não
há problema algum, porque a dualidade é vista a partir de um ponto de vista perfeitamente
claro e aberto no qual não existe conflito; existe uma visão tremendamente abrangente da
unidade.”*

Ou como está dito em “Autoliberação através da visão nua”*:

Aparências não são enganosas, o erro vem através do apego.


Conhecendo o pensamento de apego como mente, ele é autoliberado.

Ao aprender a ver o mundo dessa maneira, podemos experimentar a dualidade


como ela realmente é, plena e completamente, de tal forma que é transformada na
totalidade toda abrangente do estado desperto. [...]

Francesca Fremantle
“Vazio Luminoso”, cap. 11

* trechos de textos do Bardo Thodol (ou “Livro Tibetano dos Mortos”, como é
conhecido um capítulo desse ciclo)

Protecção das Acções Positivas

Quando os mensageiros do Rei da Morte tiverem me capturado,


De que ajuda serão meus amigos e conhecidos?
Nesse momento, a virtude na vida é minha única defesa,
Mas isso é o que deixei de lado.

O Caminho do Bodisatva, 2 | 41
(Shantideva, Índia, séc. VII)
Quando o processo gradual da dissolução [da vida] se configurar, as alucinações
produzidas pelo karma negativo irão tomar a forma dos terríveis mensageiros do Rei da
Morte.

Eles vão capturá-lo e amarrá-lo pelo pescoço com um laço negro e, em tormento
solitário, ele será espancado com marretas. De que ajuda serão seus conhecidos próximos,
seus pais e sua família; de que ajuda serão seus amados amigos? Ninguém, ele diz, será
capaz de protegê-lo.

Nesse momento, apenas o mérito derivado de ações positivas — se elas foram


executadas e acumuladas — será de alguma ajuda. Essa é a melhor — na verdade, a única
— proteção; e é exatamente isso, Shantideva lamenta, o que no passado ele negligenciou e
deixou de lado.

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943)


“The Nectar of Manjushri’s Speech”

Colheita da Sabedoria

Tendo cultivado firme devoção,


Na campo da disciplina pura
Plante a semente da concentração,
E veja a colheita da sabedoria amadurecer.

Shechen Gyaltsap Pema Gyurme Namgyal (Tibete, 1871-1926)


“Um Colar de Jóias”
“Zurchungpa’s Testament”

Desejo e Aspiração

Qualquer tipo de desejo leva à dor?

Nem todo desejo leva diretamente à dor. Contudo, a própria palavra expressa a
ideia de se grudar a algo; ela não permite a liberdade, ela amarra. Quando estamos
apegados e presos a algo, não podemos nos mover. É como se o objeto do desejo nos
puxasse de volta, e não conseguimos nos libertar disso. Então para esse tipo de desejo
usamos o termo que significa apego. Enquanto estivermos apegados, estamos colados ali e
não podemos alcançar liberação. No entanto, isso não necessariamente significa caos e
dor.

Isso significa que há algum desejo que na verdade seja benéfico?

Na língua tibetana, desejo significa o apego que prejudica a nós e aos outros.
Em relação à fonte de benefício para nós mesmos e os outros, há um nome
diferente; chamamos isso de “aspiração”.

Khenchen Thrangu Rinpoche (Tibete, 1933 ~)


“Essential Practice”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 22/05/2010)

Mundos Criados Pela Mente

Detalhe de pintura chinesa retratando a Terra Pura do Buda Amitabha

Assim como as artes do mágico


Podem fazer surgir diversas coisas,
Devido à força dos atos dos seres
O número de planos de existência é inconcebível.

Assim como pinturas


Desenhadas por um artista,
São todos os mundos
Criados pela mente pintora.

As diferenças nos corpos dos seres


Surgem das discriminações da mente;
Assim todas as terras variam
Conforme os atos.
Assim como o Guia é visto
Sob diferentes formas,
Os seres vêem as terras
De acordo com seus padrões mentais.

Sutra Guirlanda de Flores


(Avatamsaka Sutra, livro 5 – “O Reino Vale de Flores”)
“Flower Ornament Scripture”

O Poder da Fé

Se você se orgulha da sua religião ou de não pertencer à nenhuma religião, a fé


desempenha um papel importante na sua existência. Mesmo não acreditar requer fé — fé
total e cega em sua própria lógica ou raciocínio baseados em seus sentimentos
constantemente em mudança. [...]

Dzongsar Khyentse Rinpoche (1961 ~)


“What Makes You Not a Buddhist”, cap. 1
(O que faz você ser budista?)

Sinal de Progresso no Caminho

Sempre que sentir que adquiriu certas qualidades como sinal de progresso no
caminho, seja realização do estado natural, clarividência, concentração e visões do yidam,
entre outras, poderá ter certeza que elas são realmente qualidades verdadeiras se, como
resultado, o amor e a compaixão da bodhicitta continuarem a aumentar constantemente.

Entretanto, se o efeito de tais experiências é apenas uma diminuição do amor e da


compaixão da bodhicitta, você pode estar igualmente certo de que o que parece um sinal de
sucesso no caminho é, na verdade, ou um obstáculo demoníaco ou uma indicação de que
você está seguindo o caminho errado.

Patrul Rinpoche (Tibete, 1808-1887)


“As Palavras do Meu Professor Perfeito“, 2ª parte | cap. 3
Visão e Visão Errónea

Sogyal Rinpoche

[...] embora a “base” de nossa natureza original seja a mesma, os budas


reconhecem sua verdadeira natureza, se tornam iluminados e seguem uma “direção”. Nós
não reconhecemos, ficamos confusos e seguimos outra.

Nessa falha ao reconhecer, nessa terra de ninguém da ignorância, nós inventamos


e construímos uma realidade própria. Transformamos o que, na verdade, é uma visão
errônea em nossa visão, a visão que dá forma às nossas vidas inteiras e que dá cor à nossa
percepção de tudo.

Visões errôneas, segundo o Buda, são as piores — sendo a fonte — de todas


aquelas ações danosas de nosso corpo, fala e mente, que nos enredam infinitamente no
ciclo de sofrimento conhecido como samsara.

Sogyal Rinpoche (Tibete, 1947 ~)


The Spirit of Buddhism

Concentração Correcta

Samadhi correto, ou concentração correta, é um aspecto do caminho budista.


Samadhi tem um sentido de ser como é, que significa se relacionar com o espaço de uma
situação.

Isso se refere à situação de vida de alguém tanto quanto meditar sentado. Absorção
correta é estar completamente envolvido, integralmente, de modo não dualista.
Ao meditar sentado, a técnica e você são um. Nas situações da vida, o mundo dos
fenômenos também é parte de você. Então você não precisa meditar como se fosse uma
pessoa separada do ato de meditar e do objeto da meditação. Se você é um com a situação
da vida assim como ela é, sua meditação acontece automaticamente.

Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 – Canadá, 1987)


“The Myth of Freedom and the Way of Meditation”
(Ocean of Dharma Quotes of the Week, 09/11/10)

Estado de Grande Perfeição

Samantabhadra

Verdade absoluta: quando isso ainda não é conhecido


E a sabedoria auto-surgida não está manifesta,
Não há nada que não vire veneno,
E nada que não seja um inimigo prejudicial.
Mas quando o significado do grande êxtase é conhecido,
Abrindo assim a porta da bodhicitta,
Não há ninguém que não alcance o fruto,
E ninguém que não seja de fato um Buda. [...]

Nenhuma permanência e nenhuma cessação,


Há apenas grande êxtase,
Imutável, sem esforço, surgindo espontaneamente.
Nenhum eu, nenhum ego, nenhum lado de cá e nenhum lado de lá. [...]
Esplendor na extensão absoluta além de todo movimento,
Perfeito, não produzido, é um estado de grande perfeição.
Além de toda ação e luta, é não-composto.
Além de toda aspiração, é perfeito em nós mesmos.
Os três reinos, o mundo e tudo que ele contém
São nada mais que ornamentos do grande êxtase.
Nos campos de qualidades perfeitas,
Todos são budas, todos sem exceção.

“Grande Samantabhadra Habitando em Nós Mesmos”


citado por Jamgön Mipham Rinpoche (Tibete, 1846-1912), em “White Lotus”

Reconhecimento da Impermanência

[...] Esqueça de ir além do tempo e espaço, já que mesmo ir além dos elogios e
críticas parece fora de alcance. Mas quando começamos a compreender, não apenas
intelectualmente mas emocionalmente, que todas as coisas compostas são impermanentes,
então nosso apego diminui. A convicção de que nossas posses e pensamentos são
valiosos, importantes e permanentes começa a se soltar.

Se fossemos avisados de que temos apenas dois dias de vida, nossas ações
mudariam. Não ficaríamos preocupados em deixar os sapatos paralelos, em passar ferro na
roupa íntima ou colecionar perfumes caros. Poderíamos ainda fazer compras, mas com uma
nova atitude.

Se soubermos, mesmo só um pouco, que alguns de nossos conceitos, sentimentos


e objetos familiares existem apenas como um sonho, desenvolvemos um senso de humor
muito melhor. Reconhecer o humor em nossa situação evita o sofrimento.

Ainda vivenciamos as emoções, mas elas não podem mais nos pregar peças ou nos
iludir. Ainda podemos nos apaixonar, mas sem medo de ser rejeitado. Iremos usar nosso
melhor perfume e creme facial em vez de guardá-los para uma ocasião especial. Assim,
todo dia se torna um dia especial.

Dzongsar Khyentse Rinpoche (1961 ~)


“What Makes You Not a Buddhist”, cap. 4
(O que faz você ser budista?)

Teste de amor

Os relacionamentos são complexos. A maioria se baseia em mais do que um


simples apego, porém poucos envolvem um amor puro e incondicional, sem nenhum apego.
Portanto, a maioria dos nossos relacionamentos é uma mistura de amor e apego. A razão
da ansiedade nos relacionamentos não é porque existe muito amor, mas porque existe
muito apego.

O teste do amor versus o apego pode ser feito quando você percebe que uma
pessoa que você ama muda para pior. O que acontece?
Se o amor for genuíno, os sentimentos de amor crescerão mais fortes. Se o amor
for realmente um apego, haverá um afastamento.

B. Alan Wallace, em “Budismo com Atitude”.

Gratidão por Poder Trilhar o Caminho

Sem este mundo não podemos alcançar iluminação. Não haveria nenhuma jornada.
Então, em certo sentido, todas as coisas acontecendo no mundo, todas as irritações e todos
os problemas são cruciais.

Em outras palavras, poderíamos dizer que se não há barulho lá fora durante nossa
prática de meditação, não podemos desenvolver estado desperto. Se não temos dores pelo
corpo, não podemos alcançar estado desperto; na verdade, não podemos meditar.

Se tudo fosse certinho, não haveria nada a se trabalhar. Sem os outros e os


desafios que eles apresentam, não teríamos nenhuma chance de se desenvolver além do
ego. Então a ideia aqui é se sentir grato pelos outros estarem nos apresentando obstáculos
tremendos. Sem eles, não poderíamos nem seguir o caminho.

Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 – Canadá, 1987)


“Training The Mind”
(Ocean of Dharma Quotes of the Week, 24/11/10)

Troca Entre Eu e Outro

Conecte tudo que você encontrar à sua meditação agora mesmo.

O significado disso é o seguinte: conecte-se ao seu treinamento da mente e se


engaje nessa prática em todos os momentos — quando está feliz ou na tragédia, na
prosperidade ou pobreza; em todos os lugares — em seu país ou em outros; em todos os
contextos — em um monastério ou em outros ambientes; durante todas as atividades, como
caminhar, dormir e tudo mais; e em relação a todos os objetos de seus seis sentidos, como
visão, audição, memória e pensamento.

Entre os objetos de seus seis sentidos, estão dois tipos: aqueles que são desejáveis
e aqueles que não são. Reconhecendo essas duas classes, doe o que for desejável aos
seres sencientes e pegue para si o que for indesejável.

Assim, ao se engajar em qualquer atividade — viajar, passear e tudo mais — tudo


que encontrar, conforme essas duas classes, mesmo na cama antes de dormir, pense: “Vou
tomar para mim todos os sofrimentos dos seres sencientes e suas causas; vou doar a eles
meu corpo, bens materiais, tudo, e vou ajudar todos a alcançar o estado búdico”.
Devido a isso, seus momentos de sono vão se tornar parte da prática de trocar “eu”
e “outros”; esse treinamento pode ser efetivo mesmo em seus sonhos, assim como está
descrito nos sutras, conforme explicou o mestre.

Könchok Gyaltsen (Tibete, ano 1388 ~ 1469)


em “Suplemento à Tradição Oral”
“Mind Training”

Impermanência Subtil

Todos têm um entendimento grosseiro sobre a impermanência; raramente ele


chega a um nível sutil. Nós consideramos alguma coisa permanente até que ela seja
destruída. Por exemplo, uma pessoa é permanente até que ela morre; um copo é
permanente até cair e quebrar. Esse é um entendimento grosseiro da impermanência.

Ao entender a impermanência sutil, compreendemos que tudo muda de instante a


instante, momento a momento. A cada micro-segundo uma pessoa está mudando.

Podemos dar ao envelhecimento um brilho confortável dizendo que uma criança


está crescendo e ficando maior, mas, na verdade, a partir do momento que ela nasce, a
criança envelhece todo dia e cresce em direção à morte. O mesmo vale para as estações e
todas as outras coisas.

Dizemos: “agora é verão”, e temos a ideia de que, embora o verão seja


impermanente, ele parece ininterrupto. O verão de repente acaba e chamamos isso de
outono. Na realidade, as coisas mudam a todo instante; mesmo as partículas mais sutis de
matéria mudam continuamente. Nada permanece estável de um momento para outro. Isso é
a impermanência sutil.

A impermanência é um fato com que devemos nos acostumar e não esquecer.


Façamos com que essa compreensão cresça em nossas mentes. Assim, teremos menos
apego às coisas desta vida, e nossa habilidade de entender os ensinamentos, colocá-los
em prática e repousar na equanimidade da meditação vai aumentar. Treinar a mente na
compreensão da impermanência tornará mais fácil a prática da meditação.

Costuma ser dito: “se você se agarra a esta vida, não é um praticante”. Ao se
apegar às coisas desta vida e sentir que o que temos não é suficiente, desperdiçamos
nosso tempo e lentamente nossa vida se esvai.

Chokyi Nyima Rinpoche (Tibete, 1951~)


“Bardo Guidebook”

Instruções Que Apontam

Às vezes colocamos nossos óculos no bolso ou na cabeça e mais tarde


perguntamos: “onde estão meus óculos?”. Isso é muito comum. Procuramos em todos os
outros lugares sem encontrar os óculos.
É por isso que precisamos do guru, que pode nos dizer: “Aí estão seus óculos”. Isso
é tudo que os mestres de Mahamudra e Dzogchen fazem: simplesmente apontam. O que
eles estão apontando é algo que você já tem. Não é algo que eles dão a você. Eles não te
dão óculos novos. Eles não podem te dar óculos novos, mas podem apontar onde você
pode encontrar seus próprios óculos.

Quando recebemos as instruções que apontam de nosso lama-raiz, estamos sendo


introduzidos de maneira direta e nua à realidade da natureza da mente. Essas instruções se
tornam muito efetivas se tivermos nos preparado para recebê-las.

[...] Apontar é como indicar no céu, quando há muitas nuvens, e dizer a alguém: “ali
está o céu azul”. A pessoa vai olhar e responder: “onde?”. Você responderia: “Ali, atrás das
nuvens”. A pessoa para quem você está apontando o céu azul não vai ver de primeira.
Contudo, se só uma pequena porção do céu aparecer, então você pode dizer: “Veja. O céu
azul é daquele jeito”.

A pessoa então tem uma experiência direta. Ele ou ela sabe por experiência que há
céu azul, que estará totalmente visível quando as nuvens se forem.

Dzogchen Ponlop Rinpoche (Índia, 1965 ~)


“Mind Beyond Death”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 29/04/2010)

Julgar os Outros

Nunca se sabe onde pode haver um bodisatva. É dito que muitos bodisatvas,
usando métodos habilidosos, são encontrados até mesmo entre abatedores de animais ou
prostitutas. É difícil dizer se alguém tem bodhicitta* ou não. Buda disse:

Além de mim e daqueles como eu, ninguém pode julgar outra pessoa.

Então, qualquer um que desperte bodhicitta em você, seja uma deidade, um mestre,
um companheiro espiritual ou qualquer outra pessoa, considere-o simplesmente como um
verdadeiro buda.

Patrul Rinpoche (Tibete, 1808-1887)


“As Palavras do Meu Professor Perfeito”, 2ª parte | cap. 3

• bodhicitta: aspiração à iluminação com o objetivo de beneficiar todos os


seres

Caminho Irreversível

[...] É como diz o tantra “A promessa das dakinis”:

Se você tem néctar em sua boca, não vai cuspí-lo.


Você não vai comer novamente o que vomitou.
Uma vez que prove o néctar do auto-estado-desperto-bodhicitta,
Pensamentos errôneos, causas e resultados enganosos você não irá buscar.
A existência fenomênica não é nada mais que a indivisível união (das duas
verdades, aparência e vacuidade), o estado desimpedido do grande êxtase co-emergente.
Falando dos iogues que descobriram esse caminho irreversível, imutável e destemido, o
“Kalachakra Tantra” diz:

Seus corpos são puros, transparentes, sem um único átomo de materialidade, como
o espaço. Eles possuem todas as marcas maiores e menores do Estado Búdico. Eles
percebem todas as variedades de fenômenos dos três reinos da existência como sonhos —
puros, transparentes e livres de obscurecimentos.

Sua fala é desobstruída e toca os corações dos outros seres, porque é expressa na
linguagem apropriada a eles.

Suas mentes estão preenchidas com êxtase supremo, inabalável, constantemente


permeadas pela sabedoria primordial co-emergente.

Jamgön Mipham Rinpoche (Tibete, 1846-1912)


“White Lotus”

Princípio do Ser

É possível para nós alcançar o nirvana? O fato é que vocês são o nirvana. O
nirvana está à disposição de vocês vinte e quatro horas por dia. É como a onda e a água.
Vocês não precisam procurar o nirvana em outro lugar ou no futuro. Porque já são ele. O
nirvana é o princípio do seu ser.

Uma das maneiras de alcançar o mundo do não-nascimento e da não-morte é


alcançar o mundo do nascimento e da morte. Seus próprios corpos contém nirvana. Seus
olhos, nariz, língua, corpo e espírito contém nirvana. Se se aprofundarem bastante nele,
alcançarão o princípio dos seus seres.

Se pensam que só conseguirão alcançar Deus abandonando tudo no mundo,


duvido que conseguirão alcançá-lo. Se estiverem buscando o nirvana rejeitando tudo que
existe em vocês e à sua volta, ou seja, forma, sentimentos, percepção, concepções mentais
e consciência, não conseguirão atingir o nirvana de maneira alguma. Se eliminarem todas
as ondas, não haverá água para tocar.
Reino da Realidade

Ilustração de um manuscrito em sânscrito do "Gandavyuha Sutra" (séc. 12):


Sudhana recebe ensinamentos de Maitreya

Além disso, já que a substância do conhecimento não tem local e atravessa tudo, a
pessoa vê o absoluto e o mundano como completamente inconcebíveis. No reino infinito
onde todos os seres e objetos refletem uns aos outros, as terras puras dos budas se
multiplicam e remultiplicam, sábios e pessoas ordinárias são a mesma unidade, e as formas
dos objetos se interpenetram. Isso é chamado de o reino da realidade.

E quando um som sutil passa pelo universo, um fio de cabelo mede o infinito,
diferenciações entre grande e pequeno desaparecem, eu e outros são o mesmo corpo,
consciência e sentimentos condicionados se vão, e o conhecimento penetra sem nenhum
obstáculo. Isso é chamado de entrada no reino da realidade.

“Entrada no Reino da Realidade” (Gandavyuha Sutra)


(Avatamsaka Sutra, livro 39)
“Flower Ornament Scripture”

Compaixão Diante do Karma

Da perspectiva budista, o tipo de sorte, felicidade ou tristeza que encontramos, não


está relacionada com alguém fazendo alguma coisa por nós. Seu eu ganho na loteria, não é
porque o Buda me selecionou para receber um bônus. Nenhum deus ou buda é responsável
pelo que nos acontece. Pelo contrário, nossas circunstâncias são fundamentalmente criadas
por ações anteriores.
Esta é uma afirmação perigosa se for mal compreendida. Uma interpretação muito
infeliz do que o Buda queria passar em seu ensinamento sobre o carma é a conclusão de
que o sofrimento das outras pessoas é simplesmente por culpa delas. O Buda não ensinou
que uma criança que sofre de uma doença ou de fome trouxe este sofrimento para si.

A explicação budista do sofrimento é que um ato embebido no continuum da


consciência finalmente faz surgir as consequências. O ato pode ter ocorrido nesta ou em
outras vidas. Isto não significa que uma pessoa que esteja sofrendo seja moralmente mais
degenerada do que se tivesse sofrendo as consequências produzidas pela ingestão de um
alimento contaminado. O sofrimento que vivenciamos é devido ao carma acumulado por
influência da ilusão e das aflições mentais. Isto se aplica a todos os seres sencientes.

A pessoa que testemunha o sofrimento de uma outra pessoa deve ter somente uma
reação: “Como posso ajudar?”. Quando o carma produz seus frutos e causa o sofrimento, a
reação nunca deveria ser: “Este é o seu carma. É o seu destino, por isso eu não posso
ajudar”. O seu próprio carma pode bem se apresentar como uma oportunidade para ajudar
uma pessoa sofredora. Compreender erroneamente as ações e suas consequências pode
ser desastroso.

B. Alan Wallace (EUA, 1950 ~)


“Budismo com Atitude”, cap. 2

Tempo para Nutrição Espiritual

De uma perspectiva budista, nos ocupar com atividades mundanas é um tipo de


preguiça, porque negligenciamos o auto-conhecimento. Nossas vidas são tão ocupadas na
sociedade moderna — nossas agendas estão completamente cheias e estamos sempre
correndo pra lá e pra cá. Frequentemente reclamamos que não há tempo suficiente para o
Dharma.

Contudo, sempre que temos um momento livre, trabalhamos dobrado ou chamamos


alguns amigos para preencher o intervalo. Sempre temos tempo para comer, mas
dificilmente temos tempo para nos nutrir espiritualmente, ao comparecer a ensinamentos do
Dharma ou meditar. Quando o templo oferece entretenimento ou refeições grátis, nós
vamos; mas quando há meditação ou instruções, estamos ocupados.

Esse obstáculo ao progresso espiritual aparece porque estamos apegados a


prazeres mundanos: comida, dinheiro, reputação, diversão e amigos. O dano surge com a
nossa maneira inadequada de nos relacionar com isso. Apegados, nós egocentricamente
nos entregamos a eles. No entanto, essas coisas por si só não são ruins. Ao pacificar
nossas aflições, podemos desfrutar dessas coisas com uma boa motivação: nos aperfeiçoar
para o benefício dos outros.

Thubten Chodron (EUA, 1950~)


“Taming the Mind”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 17/12/10)
Vida e Ensinamento de Jesus

Quando examinamos e entramos profundamente em contato com a vida e o


ensinamento de Jesus, podemos penetrar a realidade de Deus. O amor, a compreensão, a
coragem e a aceitação são expressões da vida de Jesus. Deus se fez conhecer através de
Jesus Cristo. Tendo o Espírito Santo e o Reino de Deus dentro de si, Jesus entrou em
contato com o povo de Sua época.

Ele falou com prostitutas e cobradores de impostos, e teve coragem de fazer o que
era necessário para corrigir Sua sociedade. Como filho de Maria e José, Jesus é filho da
Mulher e do Homem. Como alguém animado pela energia do Espírito Santo, Ele é o Filho
de Deus.

Não é difícil para um budista aceitar o fato de Jesus ser ao mesmo tempo o Filho do
Homem e o Filho de Deus. Podemos ver a natureza da não-dualidade em Deus, o Filho, e
Deus, o Pai, porque sem Deus, o Pai, dentro Dele, o Filho nunca poderia existir. Mas no
cristianismo, Jesus é geralmente visto como o único Filho de Deus.

Creio que é importante examinar profundamente cada ato e cada ensinamento de


Jesus durante Sua vida, e usá-los como modelo para nossa prática pessoal. Jesus viveu
exatamente como Ele ensinou, de modo que estudar a vida de Jesus é fundamental para
compreender Seu ensinamento. Para mim, a vida de Jesus é Seu ensinamento mais
essencial, mais importante até do que a fé na ressurreição ou na eternidade.

Thich Nhat Hanh (Vietnã, 1926 ~)


“Vivendo Buda, Vivendo Cristo”, cap. 4

Nirvana de Todos os Dias

Ajahn Buddhadasa, cujo mosteiro ficava numa floresta da Malásia, chamou os


alunos para o frescor das árvores. Então, ensinou-os a procurar o Nirvana nas coisas mais
simples, em momentos do cotidiano. Disse ele:

O Nirvana é o frescor do abandono, o prazer de experimentar sem sofreguidão nem


resistência à vida.

Qualquer um percebe que, se a avidez e a aversão fossem constantes, ninguém as


suportaria. Nessas circunstâncias, as coisas vivas morreriam ou ficariam loucas.
Sobrevivemos porque há períodos naturais de frescor, de plenitude e sossego.

Na verdade, esses períodos duram mais do que os fogos da avidez e do medo. É o


que nos sustenta. Os períodos de repouso nos deixam renovados, vivos, nos deixam bem.
Por que não somos gratos por esse Nirvana de todos os dias?

Jack Kornfield (EUA, 1945 ~)


“Depois do êxtase, lave a roupa suja
A Vida é Um Drink Puro

Buda nunca se referiu ao correto em oposição ao errado. Correto significa ser


correto sem um conceito do que é correto. Correto é a tradução do sânscrito “samyak”, que
significa “completo”. A completude não precisa de ajuda relativa, ou apoio de comparações;
ela é auto-suficiente.

Samyak significa ver a vida como ela é, sem muletas, de maneira pura. No bar, as
pessoas dizem: “quero um drink puro”. Não diluído com soda ou água; você toma ele puro.
Isso é samyak. Sem diluições ou misturas — apenas um drink puro.

Buda descobriu que a vida poderia ser poderosa e deliciosa, positiva e criativa, e
compreendeu que você não precisa de nenhuma invenção para misturar com ela. A vida é
um drink puro — prazer puro, dor pura, pureza, cem porcento.

Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 – Canadá, 1987)


“The Myth of Freedom and the Way of Meditation”
(Ocean of Dharma Quotes of the Week, 29/09/10)

Solução de Todas as Dificuldades

A fonte de todas as dificuldades e conflitos está na mente; portanto, a solução de


todas as dificuldades e conflitos está na transformação da mente. Para isso, praticamos a
meditação.

Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)


“Para abrir o coração”, cap. 11