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Novos começos e

metamorfoses nada
convencionais em As Crônicas
Marcianas, de Ray Bradbury
Lucas Dantas (UFPE)
Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,


Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,


Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,


Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
O que são a ficção científica soft e
hard?
O que é o fantástico como gênero
e como efeito?
Toda e qualquer transformação
seriam metamorfoses?
Ray Douglas Bradbury

Nasceu em Walkegan, Illinois, em 1920

Faleceu em Los Angeles, Califórnia, em 2012

The Pendulum, 1939

As crônicas Marcianas, 1950

Fahrenheit 451, 1953 (Prêmio Hugo Retrospectivo)


Sendo mais exato, poderíamos dizer que ela [a distinção entre FC hard
e soft] indica a diferença entre ciência na ficção científica que deriva da
noção rígida russeliana (com as correlações de verdade e precisão), e a
ciência na ficção científica derivada do anárquico sentido
feyerabendiano do termo (...)
Cotinuum
Narrativas campbellianas: ciência reconhecível, pseudociências,
aventuras expansionistas (humanocêntricas e falocêntricas), exploraçãp
da tecnologia e seus impactos.
Novuum
“se Frye não enumerar mais que cinco gêneros (modos) de treze
possibilidades teoricamente enunciadas, é que esses cinco gêneros
existiram, enquanto que não pode afirmá-lo mesmo em relação
aos oito restantes. Esta observação nos levam a uma distinção
importante entre os dois sentidos que se atribuem à palavra
gênero; (...). Os primeiros resultariam de uma observação da
realidade literária; os segundos, de uma dedução de índole
teórica.”
“se uma destas categorias não se manifestou nunca de maneira
efetiva, deveríamos descrevê-la com maior interesse ainda: assim
como no sistema de Mendeleiev (químico russo), é possível
descrever as propriedades dos elementos ainda não descobertos,
neste caso, descreveriam-se as propriedades dos gêneros —e por
consequência das obras—por vir.
“O fantástico implica pois não só a existência de um
acontecimento estranho, que provoca uma vacilação no
leitor e o herói, mas também uma maneira de ler, que
no momento podemos definir em termos negativos;
não deve ser nem “poética” nem “alegórica”.
“O fantástico implica pois não só (1) a existência de um
acontecimento estranho, que (2) provoca uma vacilação
no leitor e o herói, (3) mas também uma maneira de ler,
que no momento podemos definir em termos
negativos; não deve ser nem “poética” nem “alegórica”.
“O fantástico implica pois não só (1) a existência de um
acontecimento estranho, que (2) provoca uma vacilação
no leitor e [n]o herói, (3) mas também uma maneira de
ler, que no momento podemos definir em termos
negativos; não deve ser nem “poética” nem “alegórica”.

Texto Texto/Leitor Leitor


Um minuto antes, era inverno em Ohio, as portas fechadas, as janelas
trancadas, as vidraças embaçadas pela geada, pingentes de gelo em todos os
telhados, crianças andando de trenó nas colinas, donas de casa parecidas
com enormes ursos-negros, andando com dificuldade pelas ruas geladas
com seus casacos de pele.
Em seguida, uma longa onda de calor cruzou a cidadezinha. Um
maremoto de ar quente; como se alguém tivesse deixado aberta a porta do
forno de uma padaria. O calor pulsou entre as casinhas, os arbustos e as
crianças. Os pingentes de gelo se soltaram, despedaçaram-se, derreteram. As
portas se escancararam. As janelas se abriram. As crianças se livraram das
roupas de lã. As donas de casa tiraram as fantasias de urso. A neve se
derreteu e revelou os gramados verdes do verão anterior. O verão do
foguete. As palavras correram de boca em boca nas casas abertas e
ventiladas.
O verão do foguete. O ar quente do deserto redesenhou os cristais de
gelo nas janelas, apagando as obras de arte. De repente, os esquis e os
trenós tornaram-se inúteis. A neve, que caía do céu gelado sobre a cidade,
transformou-se em chuva quente antes de tocar o solo.