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JUSTIÇA BRASILEIRA NO PERÍODO COLONIAL

1ª Instância Juiz de Vintena Juiz de paz para os lugares com mais de 20 famílias, decidindo
verbalmente pequenas causas cíveis, sem direito a apelação
O Direito na Colônia: da Decadência do
ou Sistema à Independência
agravo (nomeado doCâmara
por um ano pela BrasilMunicipal)
Juiz Ordinário Eleito na localidade, para as causas comuns.
Juiz de Fora Nomeado pelo rei, para garantir a aplicação das leis gerais
(substituía o ouvidor da comarca).

2ª Instância Relação da Bahia Fundada em 1609, como tribunal de apelação (de 1609 a
1758, teve 168 desembargadores)

Relação do Rio de Janeiro Fundada em 1751, como tribunal de apelação


3ª Instância Casa da Suplicação Tribunal supremo de uniformização da interpretação do
direito português, em Lisboa.
Desembargo do Paço Originariamente fazia parte da Casa da Suplicação, para
despachar as matérias reservadas ao rei, tornou-se corte
autônoma em 1521, como tribunal de graça para clemência
nos casos de penas de morte e outras.
Mesa da Consciência e Ordens Para as questões relativas às ordens religiosas e de consciência
do rei (instância única).
Questão da aula 1
A partir de 1605, tendo sido distribuída determinada porção de terra
em importante vila, pelo donatário, a determinado colono, qual a
contraprestação exigida? Qual seria a eventual medida a ser tomada
pelo inadimplemento? Descreva o trâmite, considerando ele inferior a
três mil reis.
Casos e questões das aulas 2
e3
Questão discursiva da aula 2
O Foral de Olinda, de 1537, o documento mais antigo relativo à cidade e o
único Foral de Vila conhecido no Brasil, é uma carta de doação feita pelo
primeiro donatário de Pernambuco, Duarte coelho, aos povoadores e
moradores. Este documento elevou o povoado de Olinda à Vila,
estabelecendo seu patrimônio público, bem como um plano de ocupação
territorial. Além da importância histórica, gera, ainda hoje, à Prefeitura
Municipal, o direito de cobrança do foro anual, laudêmio e resgate de
aforamento. Através do resgate histórico deste documento do século XVI, o
Projeto Foral de Olinda possibilitou o aumento da arrecadação municipal,
através da incorporação do cadastro de terrenos foreiros ao Sistema de
Cadastro Imobiliário do município. Os trabalhos iniciaram-se em 1984,
culminando com a emissão dos carnês de cobrança em 1994, 1996 e 1998,
para, respectivamente, 34.000 imóveis localizados em Olinda, 15.000 em
Recife e 18.000 parcelas no Cabo.
Por que, ainda hoje, um documento do período colonial é capaz de
produzir efeitos de natureza arrecadatória, como por exemplo, a
cobrança foreira sobre o quantitativo de imóveis descrito na matéria
apresentada?
1ª questão objetiva – aula 2
De acordo com o historiador Ronaldo Vainfas (Dicionário do Brasil Colonial – de 1500 a
1808), “as capitanias hereditárias constituíram a forma de administração inicial dos
domínios atlânticos portugueses, primeiro nas ilhas atlânticas e depois no Brasil e em
Angola [constituindo-se tal sistema] a partir do modelo do antigo senhorio português de
fins da Idade Média, então ajustado ao contexto ultramarino”. No que se refere à
regulamentação do funcionamento deste modelo de colonização adotado na América
Portuguesa, a partir de 1534, podemos afirmar que:
I – Ela se deu a partir de alvarás, editados pelos principais tribunais portugueses e que
concediam ampla autonomia política e financeira aos capitães donatários.
II – Ela se deu através da Carta de Doação e do Foral que, dentre outros temas, tratava da
definição da jurisdição, dos privilégios e das obrigações dos capitães-donatários.
III – ela se fixou através de decretos reais que continham a nomeação dos capitãs-
donatários como administradores das capitanias, os quais eram sempre funcionários reais,
com formação em Direito.
2ª questão objetiva da aula 2
Segundo o historiador Stuart B. Schwartz (Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial – Ed.
Perspectiva), “a expedição de Martim Afonso de Sousa, que partiu de Lisboa em 1530, marcou uma
transição importante entre a frouxa administração da justiça imposta pela necessidade militar e
uma forma mais concreta baseada no estabelecimento da colonização permanente e no
reconhecimento da necessidade militar e uma forma mais concreta baseada no estabelecimento da
colonização permanente e no reconhecimento da necessidade de regularização da sociedade”.
Assim, com relação ao modelo de colonização adotado por Portugal, em suas terras sul-americanas,
a partir de 1534, podemos afirmar que:
I – Ele se configurou a partir da doação de extensões do novo território conquistado a um grupo de
fidalgos que deveriam arcar com os ônus da colonização e da montagem do “aparelho” judicial-
administrativo, reduzindo assim os encargos da Metrópole;
II – Ele se concretizou a partir da transferência das principais instâncias judiciais da metrópole
portuguesa para a nova colônia sul-americana, dentre as quais podemos destacar o Desembargo do
Paço e a Casa de Suplicação.
III – Ele se baseou na intervenção direta do poder metropolitano português que promoveu a divisão
do território em unidades administrativas dirigidas por funcionários nomeados pela Coroa.
Ordenações Afonsinas
• Primeira compilação eminentemente portuguesa, decorrente da
ascensão ao poder o grupo mercantil urbano, cujos interesses
tornaram-se os objetivos nacionais;
• Objetivos: Estado forte e acabar com as leis dispersas pelo reino;
• Feita sob a técnica da compilação, ou seja, a transcrição na íntegra
das fontes já existentes seguida da declaração de termos que
confirmavam, alteravam ou eliminavam estas fontes;
• Somente o Livro I utilizou-se de um outro estilo, o decretório ou
legislativo, que é a formulação direta das normas sem apoiar-se em
nenhuma fonte.
Estrutura Judiciária
• Juízes ordinários: estes não eram bacharéis em direito, eram eleitos
pelos homens-bons da Câmara municipal;
• Juízes de fora: bacharéis em direito, nomeados pelo rei, podiam
substituir os juízes ordinários;
• Desembargo do Paço: órgão de segunda instância, cuja função era
apreciar questões cíveis relativas à liberdade do indivíduo, tais como a
graça, perdão, indulto, privilégios etc.
• Casa de Suplicação: órgão de terceira instância, para apreciar os
últimos recursos cabíveis.
Ordenações Manuelinas (1521)
• Pouco mudou, em relação às Ordenações Afonsinas;
• Fruto da expansão marítima, promoveu uma legislação mais
específica das questões do direito marítimo, de contratos e de
mercadores;
• No âmbito penal, os fidalgos tinham vantagens quando penalizados
em detrimento dos plebeus, a pena de morte continuava sendo
considerado o pior dos delitos, bem como os tormentos como meio
de obter confissão e pena;
Ordenações Filipinas (1603)
• Filipe II, rei da Espanha, assume o trono português e promulga as
Ordenações Filipinas;
• Considerada uma reforma da ordenação anterior, já que na essência, pouca
mudança houve;
• A estrutura judiciária é um pouco mais complexa, mas mantém-se as
atribuições e características do “Juiz Ordinário” e “Juiz de Fora”. Esses
substituíam os juízes ordinários nas causas cíveis cujo valor não
ultrapassasse mil réis nos bens móveis e nas localidades de até 200 casas,
bem como tinham a competência para causas de bens móveis com valor de
até 600 réis e bens imóveis até 400 réis;
• A segunda instância era do Tribunal de Relação e, a terceira, da Casa de
Suplicação.
Sistema penal das Ordenações Filipinas
• Depois da pena de morte, que era a pena mais utilizada nos crimes
indicados nessa Ordenação, o degredo para o Brasil estava em
segundo lugar no grau de penalidades;
• A pena de morte poderia ser executada de quatro formas, a
considerada pior era a morte cruel, quando o indivíduo era morto
através de dolorosos suplícios. Mas, o mais indicado pela ordenação
era o vivicombúrio, isto é, o ato de queimar o indivíduo vivo; a morte
atroz acrescentava além da pena capital alguma outra pena, como o
confisco dos bens, a queima do cadáver e o esquartejamento do
mesmo; a morte natural indica era a degolação ou o enforcamento,
destinada às pessas da mais baixa classe social; a morte civil é aquela
que o indivíduo perde todos os direitos, mesmo estando vivo.
3ª questão objetiva da aula 2
As Ordenações portuguesas (Ordenações Afonsinas, Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas) se
constituíram em peças fundamentais da prática político-administrativa em todo o Império Português e seu
conhecimento por parte dos oficiais da Coroa, especialmente pelos magistrados, era pressuposto essencial
para o governo do Império. Tomando-se especificamente as Ordenações Filipinas (1603), é CORRETO afirmar
que:
a) A racionalidade punitiva durante todo o período colonial brasileiro esteve sob a égide do livro V destas
ordenações e sua vigência, no Brasil, se estendeu até os dois anos iniciais do regime republicano proclamado
em 1889.
b) Apesar de serem consideradas como simples atualizações das Ordenações Manuelinas e Afonsinas, as
Ordenações Filipinas já apresentavam uma organização de temas e de matérias quase igual a das codificações
modernas.
c) As punições previstas no livro V destas ordenações relacionavam-se ao juízo que se fazia sobre a condição
social do criminoso, a natureza de seu crime e a condição social da vítima.
d) A execução pelo enforcamento somente era reservada àqueles que gozavam de determinados privilégios
(privilégios de fidalguia, de cavalaria, de doutorado em cânones ou leis, ou medicina, os juízes e vereadores).
e) A pena capital era aplicada de uma única forma, sem maiores ritualizações (a chamada morte simples) uma
vez que havia o temor da ocorrência de levantes populares caso houvesse grandes assistências nas execuções.
[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão
publicamente diante da poria principal da Igreja de Paris [aonde devia
ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando
uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça,
na praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado
nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita
segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com
fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão
chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre
derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e
desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos
ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.
Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d’Amsterdam]. Essa
última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não
estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso
colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para
desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as
juntas...
Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador,
nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas
faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: “Meu Deus,
tende piedade de mim; Jesus, socorrei-me”. Os espectadores ficaram
todos edificados com a solicitude do cura de Saint-Paul que, a despeito
de sua idade avançada, não perdia nenhum momento para consolar o
paciente.
[O comissário de polícia Bouton relata]: Acendeu-se o enxofre, mas o
fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu.
Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos,
tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um
pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna
direita, depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço
direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e
robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que
tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o
que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de
um escudo de seis libras.
Depois desses suplícios, Damiens, que gritava muito sem contudo
blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com
uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a
fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se
ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados
a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.
O senhor Le Breton, escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente
para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não; nem é preciso
dizer que ele gritava, com cada tortura, da forma como costumamos
ver representados os condenados: “Perdão, meu Deus! Perdão,
Senhor”. Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima, ele
levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As
cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades
faziam-no sofrer dores inexprimíveis. O senhor Le Breton aproximou-se
outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada; disse que não.
Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente;
beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam; estendia os
lábios e dizia sempre: “Perdão, Senhor”
Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em
linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco. Um quarto de hora
mais tarde, a mesma cerimônia, e enfim, após várias tentativas, foi
necessário fazer os cavalos puxar da seguinte forma: os do braço direito
à cabeça, os das coxas voltando para o lado dos braços, fazendo-lhe
romper os braços nas juntas Esses arrancos foram repetidos várias
vezes, sem resultado. Ele levantava a cabeça e se olhava. Foi necessário
colocar dois cavalos, diante das atrelados às coxas, totalizando seis
cavalos. Mas sem resultado algum.
Enfim o carrasco Samson foi dizer ao senhor Le Breton que não havia meio
nem esperança de se conseguir e lhe disse que perguntasse às autoridades
se desejavam que ele fosse coitado em pedaços. O senhor Le Breton, de
volta da cidade, deu ordem que se fizessem novos esforços, o que foi feito;
mas os cavalos empacaram e um dos atrelados às coxas caiu na laje. Tendo
voltado os confessores, falaram-lhe outra vez. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar).
“Beijem-me. reverendos”. O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem,
mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o
na testa. Os carrascos se reuniram, e Damiens dizia-lhes que não
blasfemassem, que cumprissem seu oficio, pois não lhes queria mal por isso;
rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul
que rezasse por ele na primeira missa.
Depois de duas ou três tentativas, o carrasco Samson e o que lhe havia
atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas
na junção com o tronco do corpo; os quatro cavalos, colocando toda
força, levaram-lhe as duas coxas de arrasto, isto é: a do lado direito por
primeiro, e depois a outra; a seguir fizeram o mesmo com os braços,
com as espáduas e axilas e as quatro partes; foi preciso cortar as carnes
até quase aos ossos; os cavalos, puxando com toda força, arrebataram-
lhe o braço direito primeiro e depois o outro.
Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para
lhe falar, mas o carrasco informou-lhes que ele estava morto, embora,
na verdade, eu visse que o homem se agitava, mexendo o maxilar
inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou mesmo a dizer
pouco depois que, assim que eles levantaram o tronco para o lançar na
fogueira, ele ainda estava vivo. Os quatro membros, uma vez soltos das
cordas dos cavalos, foram lançados numa fogueira preparada no local
sito em linha reta do patíbulo, depois o tronco e o resto foram cobertos
de achas e gravetos de lenha, e se pôs fogo à palha ajuntada a essa
lenha.
...Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último
pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir às dez e meia
da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de
quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e
meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento,
permanecemos no local até mais ou menos onze horas.
Alguns pretendem tirar conclusões do fato de um cão se haver deitado
no dia seguinte no lugar onde fora levantada a fogueira, voltando cada
vez que era enxotado. Mas não é difícil compreender que esse animal
achasse o lugar mais quente do que outro.
1ª questão dissertativa da aula 3
“Portanto condenam o Réu Joaquim José da Silva por alcunha Tiradentes
Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas e que com braço e
pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nella morra
morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça
e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico dessa será pregada, em um
poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em
quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da
Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais
nos sítios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma;
declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens
aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será
arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo
própria será aaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo
chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia
deste abominável Réu”.
A Constituição de 1988 dispõe, no inciso XLVII, do art. 5º que, sendo o
indivíduo condenado por cometimento de crime, a pena a ser por este
cumprida não poderá ser: de morte, salvo em caso de guerra. Porém,
em outros tempos, a situação era bem diferente. Um dos documentos
de maior significação de nossa história é a sentença condenatória de
Tiradentes, datada de 18 de abril de 1792. Como se pôde notar, a
execução de Tiradentes teve um sentido bem mais amplo que o de um
enforcamento. Tratava-se de uma punição exemplar. Sendo assim, pelo
que se entendeu, com base na referência feita à Constituição de 1988,
uma sentença com este teor seria possível de ser proferida no Brasil,
nos dias de hoje? Fundamente.
Sugestão de resposta
O artigo 5º da CF, em seu inciso XLVII prevê a impossibilidade da
aplicação da pena de morte (a não ser nas condições previstas pelo
artigo 84, inciso XIX) e também de penas cruéis. Além disso, o inciso
XLIX, do mesmo artigo 5º, garante a integridade física e moral dos
presos. Por fim, pela afirmação do princípio da dignidade da pessoa
humana, presente no inciso III, do art. 1º da CF, torna-se impossível a
aplicação do tipo de pena imposta a Tiradentes no final do século XVIII.
Aspectos importantes do período pombalino
Durante o reinado de D. José I, a Coroa Portuguesa buscou a realização de algumas
reformas econômicas, administrativas e jurídicas que permitissem a adaptação do império
colonial à nova realidade que se impunha, na segunda metade do século XVIII, às
monarquias européias nos campos político, econômico e social, através do Marquês de
Pombal.
Do ponto de vista da organização judicial na Colônia, em 1751 foi criado o Tribunal da
Relação do Rio de Janeiro, formado por dez desembargadores e presidido pelo
Governador da Capitania do Rio de Janeiro e em 1765 foram criadas as Juntas de Justiça,
onde quer que existissem ouvidores de capitania.
Do ponto de vista da legislação, a promulgação da “lei da boa razão” em 1769, visava
submeter todas as leis e costumes vigentes em Portugal e nas colônias ao crivo da “boa
razão”, basicamente o direito natural.
A reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra em 1772 e a constituição de uma
Junta do Novo Código, prenunciavam, para Portugal, o fim da tradição jurídica do Antigo
Regime e o advento da “era das codificações” sob a égide da nacionalização e da “razão
natural” moderna
1ª questão objetiva da aula 3
Dentre os três reinados que marcaram o Império Português durante os séculos XVIII (reinados de D.
João V, de D. José I e de D. Maria I) destacou-se o de D. José I, especialmente pela atuação de seu
ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que se dedicou à terefa de
promover mudanças de natureza institucional, jurídica e política voltadas para a adaptação de
Portugal e de seu império colonial aos novos tempos da segunda metade do século XVIII. Assim,
com relação às reformas promovidas por Pombal durante o reinado de D. José I (de 1750 a 1777),
podemos afirmar que:
I – A reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra em 1772 e a constituição de uma Junta do
Novo Código pronunciavam, para Portugal, o fim da tradição do Antigo Regime e o advento da “era
das codificações”, sob a égide da nacionalização e da “razão natural” moderna;
II – Do ponto de vista da organização judicial na colônia brasileira foram criados três novos Tribunais
de Relação, dentre os quais se destacou o Tribunal de s. Luís, que na segunda metade do século
XVIII se tornaria a sede administrativa do Vice-Reinado do Brasil;
III – Do ponto de vista da legislação, a promulgação da chamada “lei da boa razão” visava submeter
todas as leis e costumes à interpretação dos juristas leais ao regime (ou seja, submeter às leis e os
costumes ao crivo da “boa razão”).
Organização judicial-administrativa durante a
permanência da família real no Brasil
Com a vinda da família real ao Brasil em 1808, a Relação do Rio de
Janeiro foi transformada em Casa da Suplicação para todo o Reino,
com 23 desembargadores (Alvará de 10 de maio de 1808), criando-se,
então, as Relações do Maranhão, em 1812, e de Pernambuco, em 1821.
Como órgãos superiores das jurisdições especializadas, foram
instituídos nessa época:
Conselho Supremo Militar (Alvará de 1 de abril de 1808);
Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens (Alvará de
22 de abril de 1808);
Juiz Conservador da Nação Britânica (Decreto de 4 de maio de 1808),
como garantia de foro privilegiado para os súditos ingleses, sendo
exercido por um juiz brasileiro, mas eleito pelos ingleses residentes no
Brasil e aprovado pelo embaixador britânico (foi mantido após a
independência brasileira, como parte do tratado de reconhecimento da
independência pela Inglaterra, sendo extinto pela Lei de 7 de dezembro
de 1831);
Intendente Geral de Polícia (Alvará de 10 de maio de 1808), com
jurisdição sobre os juízes criminais, que recorriam para ele, podendo
prender e soltar presos para investigação;
2ª questão objetiva da aula 3
A transmigração da família real portuguesa para o Brasil no início do
século XIX não pode ser entendida tão somente como um episódio
burlesco, vexatório da história do Império Português e, mais
precisamente, do Brasil. Representou a única saída que possibilitou a
permanência da Casa de Bragança no trono de Portugal,
diferentemente de outras casas reais na Europa que sucumbiram
diante da expansão napoleônica. Na verdade, esta transferência da
corte portuguesa para o Brasil significou a instalação do cerne do
aparelho de Estado do Império Português neste lado do Atlântico.
Assim, no que se refere à organização judicial-administrativa durante a
permanência da família real no Brasil, é CORRETO destacar:
(cont.)
A – A criação da Intendência Geral de Polícia da Corte, em relação a qual os juízes
criminais ficavam subordinados, determinando o Intendente quem deveria ser
preso para investigação e quais os presos que deveriam ser colocados em
liberdade.
B – A transformação do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro em Desembargo do
Paço, com jurisdição sobre todo o Império Português.
C – A implantação do Juiz Conservador da Nação Britânica que se constituiu como
garantia de foro privilegiado apenas para os súditos ingleses que estivessem em
missão oficial no Brasil, representando Sua Majestade Britânica, condição esta que
se manteve até 1831;
D – A fusão da Casa de Suplicação e do Desembargo do Paço em um único tribunal,
o Supremo Tribunal de Justiça.
E – A implantação de estruturas judiciais autônomos em todos as capitanias, sob a
direção de tribunais provinciais.
A abertura dos portos e o Tratado de Aliança
e Amizade
• Seis dias após a chegada D. João cumpriu o seu acordo com os ingleses,
abrindo os portos brasileiros às nações amigas(documento denominado de
Abertura dos Portos às Nações Amigas), isto é, a Inglaterra.
• Não demorou muito tempo para que as pressões inglesas cobrassem a
conta da transferência da família real para o Brasil e assim, a 19 de
fevereiro de 1810, foi firmado com a Grã-Bretanha o Tratado de Aliança e
Amizade e a Convenção de Comércio e Navegação que reduzia as tarifas
alfandegárias inglesas no Brasil.
• Tal acordo estabelecia tarifas alfandegárias preferenciais para a Inglaterra
nos portos brasileiros, passando a pagar tarifas de 15%, enquanto os
produtos portugueses pagavam 16% e os de outras nações 24%.
3ª questão objetiva da aula 3
No que se refere à abertura das alfândegas do Brasil ao comércio de “todos e quaisquer gêneros, fazendas e
mercadorias” transportados em navios de estrangeiros ou de vassalos da Coroa Portuguesa promovida pela
Carta Régia de 1808 e aos dispositivos dos Tratados de 1810 é CORRETO afirmar que:
A – A Carta Régia de 1808 foi resultado da pressão dos interesses comerciais ingleses que, desde os últimos
anos da década de 1790, reivindicavam, junto ao governo português, uma abertura plena dos portos brasileiros
à livre importação de produtos oriundos das fábricas britânicas.
B – Pela Carta Régia que promoveu a abertura das alfândegas brasileiras ao comércio com as Potências que se
conservassem em paz e harmonia com a Coroa Portuguesa, estabeleceu-se que a taxa de importação seria
única para produtos de quaisquer origens, com exceção para os produtos ingleses e norte-americanos
transportados em navios próprios.
C – Os Tratados firmados em 1810 entre Inglaterra e Portugal resultaram de demandas de comerciantes
portugueses por condições mais favoráveis em suas relações com a Inglaterra, especialmente no que se referia
ao livre acesso de produtos oriundos do Império Português aos portos ingleses.
D – Em um dos dispositivos do Tratado de Aliança e Amizade, tratado este que compõe os Tratados de 1810, o
príncipe-regente D. João se comprometia a não permitir a instalação da Inquisição em seus domínios da
América do Sul.
E – Tanto a Carta Régia de 1808, como os Tratados de 1810 apresentavam dispositivos adicionais que tratavam
de uma futura emancipação política do Brasil e de sua configuração como uma república federativa.
Questão dissertativa da aula 4
a - Segundo o art. 10 da Constituição de 1824, quais os poderes
consagrados pela nossa primeira Carta?
b - De acordo com a Carta de 1824, como se apresentava o Poder
Moderador na estrutura política do Império? Quem era seu titular?
Quais eram suas atribuições?
Resp. Art. 10. Os Poderes Politicos reconhecidos pela Constituição do
Imperio do Brazil são quatro: o Poder Legislativo, o Poder Moderador, o
Poder Executivo, e o Poder Judicial.
A partir de uma teoria política idealizada pelo francês Benjamin
Constant, se imaginou um quarto poder ao lado dos demais citados, que
teria a função sistêmica de equilibrar os demais. O problema é que da forma
como foi concebido por D. Pedro I, acabou situando-o hierarquicamente
acima dos demais poderes. O Poder Moderador, exercido pelo Imperador,
agia sobre o Poder Legislativo (direito de dissolução da Câmara, direito de
adiamento e de convocação, direito de escolha, na lista tríplice, dos
senadores), agia sobre o Poder Judiciário pelo direito de suspender
magistrados (na prática, o texto constitucional negava a vitaliciedade e
inamovibilidade dos juízes, assim como não assegurava a irredutibilidade de
vencimentos), influía sobre o Poder Executivo pelo direito de escolher
livremente seus ministros de Estado e livremente demiti-los.
1ª questão objetiva da aula 4
No que se refere à ambiência legal, política e institucional do Primeiro Reinado
(1822 a 1831), podemos afirmar que:
I - Ela favoreceu a construção de uma ordem constitucional baseada em amplas
garantias individuais e em direitos sociais bastante avançados para a época, o que
contribuiu vigorosamente para a redução das desigualdades sócio-distributivas que
haviam sido herdadas do período colonial;
II – Ela foi marcada pela “recepção” de um liberalismo iluminista (ou pelo menos de
alguns de seus princípios), “matizada” pelas práticas patrimoniais, corporativas e
autoritárias de uma parte considerável das elites e pela presença “hegemônica” do
trabalho escravo no cenário sócio-econômico brasileiro;
III – Sua construção se realizou sob a égide de uma ampla participação popular, já
que a decretação do fim da escravidão que se seguiu à emancipação política de
1822, veio acompanhada de uma série de medidas voltadas para promover a
inclusão do ex-escravos no contexto dos direitos civis e políticos previstos no texto
da Constituição de 1824.
2ª questão objetiva da aula 4
No que se refere a uma caracterização mais geral da Constituição de 1824 e da
sociedade em que se daria sua inserção, podemos afirmar que:
I – Este texto constitucional continha, de forma pioneira, uma série de dispositivos
a respeito da proteção à atividade laboral e das relações sindicais.
II – Esta constituição resultou de um projeto trabalhado arduamente pela
Assembléia Constituinte de 1823, assembléia esta que apesar das ameaças de
dissolução que sobre ela pairaram ao longo de seu tempo de existência (o ano de
1823), conseguiu concluir sua tarefa, promulgando a carta constitucional no início
de 1824.
III – Esta constituição marcou o início da institucionalização da monarquia
constitucional - na verdade do Estado monárquico brasileiro - adotando o princípio
político da separação dos poderes e definindo a Assembléia Geral como um dos
representantes da Nação brasileira
3ª questão objetiva da aula 4
Com relação a alguns dos principais dispositivos da Constituição de 1824 concernentes ao perfil e
à organização do Estado Brasileiro e a sua forma de governo, é CORRETO afirmar que:
A – O texto constitucional adotou a clássica tripartição dos poderes, cabendo ao imperador o papel
de chefe de Estado e de instância moderadora das disputas entre o executivo, o legislativo e o
judiciário.
B – O poder legislativo organizou-se unicameralmente (a Assembléia Geral), e seus membros
possuíam mandatos eletivos temporários.
C – O poder executivo cabia ao Presidente do Conselho de Ministros que, segundo o texto
constitucional, seria egresso do partido que se apresentasse como vitorioso nas eleições que
periodicamente renovavam a Assembléia Geral.
D - O Estado Brasileiro se apresentava como um Estado confessional, sendo permitida a prática de
cultos não-católicos desde que fossem realizados em domicílios particulares sem qualquer
exteriorização de templo.
E – O texto de 1824 previa a organização federativa do Estado brasileiro com o país foi dividido em
províncias dotadas de autonomia administrativa e fiscal da Nação brasileira.
Art. 5. A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a
Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu
culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem
fórma alguma exterior do Templo.
Casos aula 5
Em 1850 foi promulgada a lei Eusébio de Queiros que aboliu
definitivamente o tráfico de escravos da África para o Brasil. Todavia,
esta não foi a única lei destinada a combater o tráfico de africanos para
o Brasil. Em novembro de 1831 entrou em vigor uma lei que procurava
dar andamento a um tratado firmado em 1826 entre a Inglaterra e o
Brasil o qual, três anos após a sua ratificação (que se deu em 1827)
declararia como ilegal o comércio de escravos para o Brasil. Esta lei,
contudo, não produziu os efeitos desejados. Desenvolva considerações
acerca do que contribuiu para o fracasso da lei de 1831 e das condições
que possibilitaram o êxito da lei Eusébio de Queiroz.
A razão pela qual a proibição do tráfico em 1831 não foi efetiva se dava,
principalmente, pela pressão política por parte dos traficantes e
senhores de terra, em função dos altos lucros resultantes do tráfico de
escravos. Com o Bill Aberdeen de 1845, a Inglaterra passou a gozar do
direito de aprisionar navios negreiros, o que, de fato, passou a exercer
grande pressão ao governo brasileiro, que se viu obrigado a aprovar a
Lei Eusébio de Queirós, aproveitando o ensejo para criar um
instrumento jurídico de impunidade aos senhores de escravos
brasileiros, que seriam julgados por um conselho de jurados, enquanto
que os traficantes seriam julgados pela Auditoria da Marinha, mais
severa.
É correto afirmar que o Ato Adicional de 1834 “federalizou” o Estado
monárquico brasileiro, modificando sua configuração conforme
encontrava-se previsto na Constituição de 1824? Justifique.
Uma aliança entre os Exaltados, que queriam a federação, e os Moderados,
conseguiram a aprovação do Ato Adicional de 1834 que transforvamam os
Conselhos Provinciais em Assembléias Legislativas.
Apesar do Ato Adicional não ter implantado uma FEDERAÇÃO (os
presidentes das Províncias continuavam a ser escolhidos pelo Poder Central
no Rio de Janeiro e as Províncias estavam impedidas de ter Constituições
próprias), ele descentralizou a administração e concedeu mais autonomia às
Províncias com a criação das ASSEMBLÉIAS PROVINCIAIS e com a DIVISÃO
DAS RENDAS PÚBLICAS.
Segundo o historiador Boris Fausto (História do Brasil ? EDUSP), mais do que assinalar a metade do século XIX
no Brasil, o ano de 1850 foi marcado pela entrada em vigor de uma série de leis que buscavam mudar a
fisionomia do país no sentido daquilo que se entendia, à época, como modernidade. Assim, no que se refere a
esta legislação, voltada para uma modernização institucional do Império, é CORRETO afirmar que:
A - Ela resultou de ampla participação popular, uma vez que o sistema político-eleitoral permitia que todos os
homens, maiores de 21 anos pudessem exercer o seu direito de escolher diretamente os candidatos que iriam
compor a Câmara dos Deputados.
B - Ela se voltou, fundamentalmente, para a reforma da Constituição de 1824, já que, na sociedade verificava-
se o ascensão de um movimento voltado para a federalização do Estado Monárquico Brasileiro.
C - Ela foi decisiva para a implantação de uma ampla reforma agrária, promovida pela Lei de Terras, que
realizou a venda, a preços simbólicos, de pequenos lotes de terra, visando à fixação do homem pobre livre e do
ex-escravos na área rural.
D - Ela contribuiu para a recomposição da legislação cível brasileira, através da promulgação de nosso primeiro
Código Civil, elaborado pelo advogado e jurista Teixeira de Freitas.
E - Ela criou as condições institucionais para a modernização do ambiente empresarial brasileiro da época,
através da promulgação do Código Comercial e dos decretos 737 e 738 que o regulamentaram.
O Período Regencial, que se seguiu à abdicação de D. Pedro I, foi marcado por uma série de reformas que
refletiram as dificuldades que os governos deste período tiveram em lidar com a inexistência de um consenso
entre grupos dominantes a respeito do arranjo institucional que lhes fosse mais conveniente e do papel do
Estado como organizador geral dos interesses dominantes. Assim, com relação a alguns dos principais aspectos
do Período Regencial e das reformas institucionais nele ocorridas, é CORRETO afirmar que:
A - A "solução regencial" adotada para o exercício da chefia do governo, enquanto durasse a menoridade de D.
Pedro de Alcântara, resultou de um amplo acordo entre os principais atores políticos da época, já que não
havia qualquer previsão legal para sua implantação.
B - De um modo geral, as reformas promovidas durante este período visavam tão somente explicitar, através de
legislação específica, a organização unitária e centralizada do Estado brasileiro prevista na Constituição de
1824.
C - Pelo Código de Processo Criminal de 1832, foi promovida uma descentralização da administração da justiça
criminal, o que pôde ser constatado pela ampliação das atribuições dos juízes de paz.
D - A lei da Regência, de junho de 1831, tinha como objetivo conceder amplos poderes aos regentes em
virtude da ambiência político-institucional conturbada do período posterior à abdicação de D. Pedro I.
E - A criação da Guarda Nacional destinava-se a garantir à implementação do processo de federalização do
Estado brasileiro, definido por emenda constitucional de 1834 (o Ato Adicional).