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TÍTULO: O CORPOTEXTO EM CENA-

POESIA E DANÇA EM “CÃO SEM PLUMAS”.

Caroline Cavalcante do Nascimento-Doutoranda em


Estudos de Linguagens (CEFET-MG);
caroline.cavalcantedonascimento@gmail.com
A presente comunicação propõe um estudo comparativo interartes, com a finalidade de se pensar as
relações entre poesia e dança por meio do espetáculo de dança contemporânea “Cão sem Plumas” da Cia
Débora Colcker-RJ. Criado a partir do poema de João Cabral de Melo Neto, cujo título é homônimo ao
espetáculo, a obra dialoga com a poesia e o cinema ao representar em uma tela a performance dos
bailarinos em meio ao rio Capibaribe em Pernambuco, enquanto as cenas de dança acontecem no palco. A
partir do conceito de Corpomídia, proposto por Greiner e Katz (2010), interessa-nos refletir o modo como o
corpo torna-se “Corpotexto” ao dançar os versos do poema. De modo análogo, pensamos a poesia como um
possível vetor da criação coreográfica e questionamos os possíveis deslocamentos de sentidos e significações
causados pela dança que é criada a partir da poesia e como o poema ganha outras dimensões tanto
estéticas quanto políticas, ao ser ressignificado nos corpos dançantes que atuam no espetáculo.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia. Literatura. Corpo. Dança.
Na abordagem corpomídia, o corpo é sempre o estado de um processo em
andamento de percepções, cognições e ações mediadas. O corpo sinaliza a
organização das mediações e a sua relação com o mundo, onde tanto opera a
regularidade quanto o acaso. quando se olha para o corpo humano, percebe-se que
se trata de um exemplo privilegiado. Não há melhor lugar para deixar explícito o
tipo de relacionamento existente entre natureza e cultura. Não há outro tão apto a
demonstrar-se como um meio para que a evolução ocorra. Corpo é mídia, nada
além de um resultado provisório de acordos cuja história remonta a alguns milhões
de anos. Há um fluxo contínuo de informações sendo processadas pelo ambiente e
pelos corpos que nele estão. (Katz 2010)
Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo em lama;
numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.
(...)
(MELO NETO, 2009, p 85)
A cidade é passada pelo rio
Como uma rua
é passada por um cachorro
uma fruta por uma espada
O rio ora lembrava
A língua mansa de um cão
Ora o ventre triste de um cão
Ora o outro rio
De aquosos pano sujo
Dos olhos de um cão

(MELO NETO, 2009, p.105)


Cão Sem Plumas
Criação, Coreografia

Direção: DEBORA
H COLKER

As imagens no
palco se
confundem com
as dos
bailarinos em
cena.
• Questionamentos:

• Como o corpomídia torna-se corpotexto?

• Qual as particularidades do corpo que dança a poesia?

• Como a poesia se processa no corpo e é levada aos palcos?

• Qual o efeito da poesia na dança e vice-versa?

• Como o espectador recebe o “novo texto”?


Referências:

MELO NETO, João Cabral de. O Cão Sem Plumas. São Paulo: Alfaguarra
Brasil, 2007, p. 144 e 145)

KATZ, H. 2010. O papel do corpo na transformação da política em


biopolítica. In:O Corpo em Crise, de GREINER, Christine, pp. 121-132. São
Paulo, Annablume.