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A INDÚSTRIA DE FUNDIÇÃO RUMO À SUSTENTABILIDADE

Marcelo Strozi Cilla, Márcio Raymundo Morelli


Universidade Federal de São Carlos - UFSCar
Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais – PPG-CEM
Endereço: Via Washington Luiz, km 235, São Carlos-SP
Email: marceloscilla@gmail.com; morelli@power.ufscar.br

INTRODUÇÃO RESULTADOS E DISCUSSÃO


i)Resistência Mecânica à Compressão a Frio
De maneira genérica, podemos descrever o processo de fundição
como o vazamento de um metal líquido em um molde contendo uma cavidade A partir do ensaio de resistência mecânica à compressão a frio (Figura 2) foi
com a geometria da peça desejada. Como principal vantagem em relação a possível observar um comportamento semelhante entre os valores obtidos para a
outros processos de conformação está a possibilidade de obtenção de peças de composição com adição de 1,5% de PUV comparados aos valores obtidos para a
geometrias complexas de maneira econômica. composição convencional com a resina fenol-uretânica, no teor sugerido pelo
Dentre os métodos, classificados pelo comportamento dos ligantes fabricante.
utilizados na confecção dos moldes, a fundição em areia verde emprega como 7,0

ligante uma argila umedecida (bentonita). Porém, devido a exigências


tecnológicas, as fundições substituem a argila por ligantes tóxicos, tais como as
6,0

resinas furânicas, fenólicas ou uretânicas que permitem a obtenção de peças 5,0

maiores, com geometrias mais complexas e melhor acabamento. (1)


Nos últimos anos, contudo, o aumento das exigências das
4,0

regulamentações ambientais (2) tem impactado diretamente na indústria de

RMC (Mpa)
3,0

fundição, principalmente em relação ao descarte dos materiais utilizados, que se


torna cada vez mais onerosos às empresas. 2,0

Novas tecnologias vêm sendo desenvolvidas para a recuperação e 1,0

inertização das areias, ou mesmo o redirecionamento dos resíduos de areia de


fundição para serem incorporados em outros materiais como tijolos e massa 0,0

PUV1,5% PUV3,0% PS 1,3%

asfáltica (3), porém as resinas disponíveis atualmente têm como limitação


“ecológica” sua origem química.
Dentro deste contexto, o objetivo deste estudo está centrado na Figura 2. - Comparativo de RMC de composições com diferentes adições de resina
avaliação de um novo ligante baseado em uma resina poliuretano vegetal bi- PU vegetal e resina PEP SET.
componente obtida a partir do óleo de mamona (óleo de rícino extraído de
sementes da planta Ricinus communis), com adição de um componente ii) Resistência Mecânica à Compressão após Tratamento Térmico
inorgânico, formador de rede em altas temperaturas.
As Figuras 3 e 4 mostram o comportamento de RMC em função da exposição
PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL do corpo de prova a diferentes temperaturas. Neste caso é possível observar como
a fase inorgânica contribuiu para a manutenção ou aumento da resistência pela
Para obtenção de corpos de prova e confecção dos moldes foram utilizados formação de uma rede entre os grãos de areia resultante do surgimento de fase
os seguintes componentes: areia industrial de granulometria 60/70 mesh; resina líquida promovida pelas altas temperaturas.
poliuretano vegetal (PUV) bi-componente formulada pela mistura a frio de um pré-
C om portam ento da R M C x tem peratura
polímero (componente A) e um poliol (componente B) e diferentes materiais
inorgânicos. Diversas composições foram elaboradas visando à caracterização dos 0 ,9
moldes. Ênfase foi dada à determinação da: i) resistência à compressão a frio da 0 ,8
0 ,7
resina PUV, comparativamente a um sistema fenol-uretânico convencional, e ii) 0 ,6
1 ,0 % a c . B o rico + 1 ,0 % C a O
(C 1 )
resistência à compressão após tratamento térmico, para verificar a influência da
RMC (Mpa)

0 ,5 5 % FB (C 2 )

adição de diferentes componentes inorgânicos. 0 ,4


5 % FP D G (C 3 )
0 ,3
O desenvolvimento experimental utilizado para a determinação das 0 ,2
resistências à compressão a frio (moldagem) e após tratamento térmico pode ser 0 ,1
0
mais bem descrito separadamente.
1400 1450 1500 1550 1600
T (°C )
i) Resistência Mecânica à Compressão a Frio

A partir dos valores de referência fornecidos pelo fabricante da resina fenol-


uretânica, foram confeccionados corpos de prova cilíndricos de 5,0 cm de diâmetro
por 5,0 cm de altura, segundo a NBR10611 (4), com adição de 1,5 e 3,0% em Figura 3. – Variação da RMC em função da temperatura de tratamento térmico
massa de resina PU vegetal e também corpos com a resina fenol-uretânica (5), para as composições C1, C2 e C3.
ilustrados na Figura 1. Comportamento da RMC x temperatura

3,50

3,00

2,50

2,00
RMC (Mpa)

1,5% H3BO3 (C4)

1,50 5,0% PV (C5)

1,00

0,50

0,00
0

0
0

0
0

00

00
00
50

70
20

30

90
10

40

60

80

11

12
10

T (°C)

PU vegetal Fenol-Uretânica PEP SET Figura 4. – Variação da RMC em função da temperatura de tratamento térmico
para as composições C4 e C5..

Figura 1. – Corpos de prova após moldagem, utilizados no ensaio de resistência


CONCLUSÕES
mecânica à compressão.
Para as condições experimentais utilizadas neste estudo pode-se concluir que,
com relação à resistência mecânica a frio, os moldes confeccionados com 1,5% da
ii) Resistência Mecânica à Compressão após Tratamento Térmico resina PUV apresentaram valores próximos aos obtidos para a composição
convencional com 1,3% da resina PS, isto é, para aproximadamente a mesma
Antes do ensaio para a determinação da resistência mecânica à compressão quantidade de resinas, não houve alteração significativa no desempenho mecânico.
após tratamento térmico, foram realizadas fusões no Laboratório de Fundição do A resistência mecânica após tratamento térmico aumenta quando a
Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar em moldes preparados de temperatura de queima aumenta até temperaturas próximas às de fusão de
diferentes composições. Essas composições foram constituídas de 1,5% em ferrosos, para composições que contém filito como formador de fase líquida (C2 e
massa de resina PU vegetal, baseada nos resultados obtidos de resistência C3), porém a composição constituída pela mistura de ácido bórico e óxido de cálcio
mecânica a frio após moldagem e cura, e diferentes teores (1,0 a 5,0%) dos (C1), ainda possui resistência superior a das demais.
componentes inorgânicos. A adição de ácido bórico (C4) na composição com resina vegetal confere maior
Por meio da observação visual dos moldes (colapsibilidade e coesão) após a estabilidade de valores de resistência mecânica após tratamento térmico, quando
desmoldagem, e inspeção das peças fundidas, selecionou-se cinco composições comparada a composição C5, com adição de pó de vidro, sendo mais indicada
para o estudo de resistência à compressão após tratamento térmico. Foram para a fusão de metais não ferrosos.
escolhidas três composições (C1 a C3) utilizadas na fusão do ferro fundido e duas
(C4 e C5) na fusão da liga de alumínio.
Buscando-se simular o efeito da temperatura na formação de fase líquida a
REFERÊNCIAS
partir dos componentes inorgânicos foram realizados tratamentos térmicos em [1] JUNIOR, T. R. Aspectos práticos do trabalho com aglomerantes à base de
corpos de prova moldados segundo a NBR10611. No caso das composições C1, resina. Fundição e Serviços, v. 47, p. 29 – 38, 1996
C2 e C3 as temperaturas de teste foram de 1400, 1500 e 1600°C. Foi utilizado um [2] CASTRO, C. A. G. A produção de areia base para fundição e o meio ambiente:
forno de fusão (sistema elevador) Lindenberg Blue. Sibelco Mineração Ltda. In: Congresso de Fundição, São Paulo, 2001. Anais
Os tratamentos foram realizados da seguinte maneira: os corpos de prova ABIFA. São Paulo, 2001
eram colocados no forno já com o patamar na temperatura estabelecida e [3] METALURGIA & MATERIAIS. Preservação ambiental desafia criatividade e se
desejada, onde permaneciam por quinze minutos. Decorrido este tempo, os constitui em nova fonte de receita. Metalurgia & Materiais, v. 53, n. 467, jul. 1997,
mesmos eram retirados rapidamente para resfriar até a temperatura ambiente. p. 330-331
Posteriormente, todos foram testados para verificação da resistência mecânica a [4] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Cavidade das caixas-
compressão. de-macho para confecção de corpos-de-prova para ensaios tecnológicos em
Para as composições C4 e C5 adotou-se o mesmo critério de preparação de laboratórios de areias - Dimensões, NBR 10611. RJ, 1989.
corpos de prova e ensaio de resistência mecânica; as temperaturas dos [5] MORELLI, G. L. Utilização do cimento de fosfato de magnésio como ligante
tratamentos térmicos, realizados em mufla EDG, variaram entre 100 e 1200ºC. na produção de moldes de areia para fundição. 2005, 77p. Dissertação
(Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais), UFSCar, São Carlos, SP.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao CNPq e ao Programa de Pós-graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPG-CEM) pelo suporte financeiro.