Faltam dois minutos para as seis da manhã e agora lembro que a noite não prometia nada.

Nada além de preguiçosas horas de sono. Mas promessas, compadre, são sempre escorregadias, especialmente aquelas que teimam em acontecer, são essas as malditas sacanas que afogam na decadência uma ansiedade até então romântica e inocente. Enrolo folhas de maconha e trago o descompasso muscular enquanto mijo toda Piscola que acumulei durante a madrugada. Foi a poesia que restou para encerrar a noite da mesma maneira que ela começou.

Matias é um sujeito sem compaixão alguma, mas seus olhos mentem como os de um ilusionista. Além do mais, ele é capaz de foder muito mais do que sua própria mão direita. Acontece que ao saltar a triste barreira dos 30 anos tornou-se um pai completamente careta. É incrível como um filho pode foder as convicções de um doidão old school. Somente das 09h às 18h Matias lembra que um dia foi hippie, enquanto ganha a vida ministrando aulas de arte circense e ioga. Ele é daquela estirpe de caras que questiona cada milímetro de um argumento, inclusive aquela microscópica vírgula tácita, mesmo que concorde com ele. O negócio é que ele faz isso com a elegância daqueles que desprezam qualquer juízo de valor, moralidade mofada ou ética particular. É um dom incrível que aprendi a admirar. Pois bem, o que realmente importa a respeito de Matias é que na noite em que o conheci, no quarto dos fundos da casa de uma amiga, ele carregava consigo três diferentes qualidades de maconha, e queria uma opinião saudável a respeito da coisa toda. Opinião saudável a respeito da coisa toda: as primeiras folhas estavam bastante secas e queimavam homogeneamente, puríssimas, sem uma mínima gota de amônia, sossegado e suave.

A segunda leva, uma pasta de tom verde vivo, produzia centopéias de fumaça densa, de textura ácida, um jab de esquerda na ponta do queixo, nada relaxante, muito menos estimulante, traz uma vontade de sossegar nos caprichosos cronômetros da eternidade, sua rede de tranças de algodão sobre um oceano de tubarões esfomeados e assassinos. Parte 03, uma mistura estranha contendo apenas a porção superior de limbos secos e úmidos, a respeito dos quais eu realmente não teria como opinar neste universo mesquinho, quântico e materialista, isso porque aquelas folhinhas picadas pareciam anões esquizofrênicos numa sessão de alquimia transcendental no desenrolar de um filme de David Lynch. Ou algo parecido. Muito, muito parecido.

Matias começou a enrolar mais um cigarro da segunda leva, mas eu não suportaria sequer uma única tragada extra. Além do mais, um convite irrecusável apareceu minutos antes de minha cama me amordaçar com seus carinhos sonolentos. “Hey, Junior, confirmei para hoje à noite meu retorno ao mundo da música. Será lá no Opium, em Bella Vista, vou discotecar de novo, cara!”, anunciou pelo telefone meu entusiasmado amigo – e também professor de espanhol – Luis, que naquela data ressuscitaria seu mais malandro alterego, o DJ Rody Chacana. Luis havia esquecido Chacana há mais de dez anos entre sua rotina conturbada de 12 horas de labuta diária, e seu empoeirado espírito batalhador, espécime produzido em larga escala na pacata mas ensandecida juventude chilena pós-Pinochet. Abandonei Matias divagando sobre o intrigante impasse de como a meditação cósmica resolveria o problema do aquecimento global e rumei para Bella Vista, o bairro boêmio de Santiago, onde antigos companheiros de esquerda voltariam a reverberar os discos do ressuscitado DJ.

Trilha Sonora De Uma Morte Adiada

O Clube Opium não parava de encher, toda a velha guarda da esquerda morna dos 1970 estava recrutada para o retorno de Chacana, um jovem de rebeldia contida mas estridente naqueles idos. Lá detrás de seu púlpito, Luis manejava seu notebook e

fazia soar os mais extravagantes hits oitentistas, de Cindy Lauper a Madonna, mas nenhuma pickup figurava pelas redondezas. “Hoje só vou compartilhar minha biblioteca musical com o pessoal, foi o melhor que consegui”, explicou Luis após me recepcionar com um copo transbordando de Piscola, uma mistura de Pisco chileno com Coca-Cola. Eu poderia suportar aquele duvidoso traquejo musical por alguns copos transbordando de água ardente cheio do sumo etílico da uva moscatel. Na verdade eu estava um pouco deslocado no meio daquele oásis de antigas recordações: ao redor, todos reavivavam suas histórias sobre o período de repressão no Chile, e traçavam perfis da então presidente antifeminista Michelle Bachelet, uma protocentroesquerdista que se tornou chefe de estado por algum delay na matrix. Foi então que percebi, no canto escuro de meu isolamento juvenil, que alguém notara minha insignificância. Era uma felina de olhos decadentes, ela serpenteava solitária aos acordes de Cindy Lauper como uma renegada alma autista. Através de suas retinas era possível ler a decepção de quem trocou, com juros, os anos de amor livre e sexo gratuito por uma família estável e um passe

definitivo rumo aos preconceitos da classe média, tudo isso pouco depois que a carcaça de sua geração Flower Power provou-se o adubo perfeito onde germinar os latifúndios das futuras ervas daninhas. Tratava-se de uma senhora no formol de seus 60 anos, contornada num vestido negro sem sutiã. E ela se aproximava perigosamente sexy. Quando estava a dois palmos de meu nariz subitamente parou; passou então a deslizar seu indicador direito pelo meu pescoço, percorreu meu peito lentamente, resvalou a ponta da unha pela circunferência de meu mamilo esquerdo, logo ouriçado, me fuzilou, por fim, com o olhar safado da página 69 do seu manual libertino e pronunciou o “Hola” mais sensual que já ouvi terras nerudianas. Aquela era uma situação complexa, constrangedora e deveras embaraçosa. Ela certamente exercitava há tempos e às escondidas o rol das mais eróticas estratégias de aproximação. Do outro lado estava minha inocência trafegando no coração de um rapaz até então comprometido e apaixonado. Mas como diria o poeta-filósofo-pensador Kevin Arnold: “para situações desesperadoras, medidas desesperadas”. Ao meu lado passou Lore – uma amiga de Luis, profunda conhecedora de literatura universal, que conheci alguns dias antes num sarau de poesias –

chorando, branca, transparente, implorando por um naco de atenção. Desvencilhei-me da felina e agarrei Lore pelo braço. “Ei, ei, ei, calma! O que aconteceu?”, perguntei ainda tentando tranqüilizá-la. Lore estava quebrando um galho para Luis, trabalhando na recepção para baratear os custos da boate. Mas alguma coisa havia acontecido. “Olha, foi o seguinte”, explicou assim que sua respiração desacelerou um pouco, “dois meninos meio morenos, a pele um pouco escura, se aproximaram para perguntar quanto era a entrada e pedir desconto. Eram do sul, muito simpáticos”, ela parou, engasgou um pouco com as palavras, por isso ofereci meu copo de Piscola que ela rapidamente matou num gole só. “Mas aí”, continuou, “o segurança chegou e começou a bater neles, a espancar muito, do nada, gratuitamente. Eles saíram correndo, não tinham o que fazer. Aí o segurança olhou para mim, eu fui a única pessoa que viu aquilo, então ele perguntou se eu tinha medo dele. Eu respondi que não. Ele disse que eu deveria ter, que ele era nazista, que o avô dele também era e tinha ajudado a fundar a ‘Colonia Dignidad’, mostrou um monte de tatuagens, uns 88

e outras coisas bizarras. Eu fiquei assustada e fui falar com o dono do lugar, mas ele disse para eu ficar na minha por que o cara era um bom funcionário. O problema é que o segurança viu tudo e ficou ainda mais puto, ele chegou perto de mim e disse que ia me estrangular até as 2h30 da madrugada”, ela ainda estava ofegante e, prestando atenção em sua história, nem me dei conta que a felina me abandonara e agora cincundava um novo alvo, moreno, alto, jovem e bem-apessoado. “Na minha opinião você deve ficar tranqüila e aproveitar seus últimos 15 minutos nesta vida”, o ponteiro marcava 02h15 da manhã. “Pára de me zoar, caralho, isso é sério, porra!”, respondeu quase chorando. “Relaxa, Lore, e analisa a conjuntura: estamos no meio de umas 70 pessoas da nem-tão-velha-guarda esquerdista chilena. Tudo bem, a maioria aqui ou é gay ou pacifista, mas quem deve ter medo é ele, por que ele é que está fora do habitat, em território inimigo”. Antes que eu precisasse seguir meu diagnóstico lógico daquela situação e acalmá-la, apareceu o argumento cabal que faria Lore definitivamente esquecer aquele acéfalo fascista: um argumento que respondia pelo nome de Alejandra.

Alejandra é minha ex-professora de espanhol, gay até os mais férteis óvulos, cabelos grisalhos quase raspados, tão magra que já aos 46 anos está um pouco corcunda pelo peso dos peitos enormes. É também a educadora mais esdrúxula com que já tive o prazer de aprender. Seu olhar é tão certeiro quanto a AK-47 que seu tio, um dos fundadores do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), usava

até ser encarcerado na Colonia Dignidad, cujo nome atual é Villa Baviera, um conhecido e preocupante centro de tortura nazista na Província de Linares, bastante acionado pelo exército pinochetista durante a ditadura. Ele foi o único preso político do período ditatorial a escapar com vida de lá, e é possível que essa cepa genética seja a origem do estranho Alejandra Anti-Nazi-Way Of Life, que há tempos tem no flerte com o perigo um hobby inocente e intenso. Luis me contou que na última vez eles que saíram juntos, avistaram um grupo de mais de quinze neonazistas tomando um ônibus na Alameda, umas das mais importantes avenidas de Santiago. Alejandra estava completamente bêbada, e não contendo seus demônios, saiu a gritar atrás do ônibus como Hitler era um judeu viado que se masturbava com a foto de um negão cigano musculoso. Luis conseguiu salvar suas carcaças parando um táxi antes do esquartejamento. A respiração de Lore ainda se mantinha acelerada quando Alejandra aproximou-se para entender a história. Suas retinas passaram então a escanear o salão a procura do futuro assassino de sua amiga. Ao detectá-lo, se pôs a caminhar firme e lentamente

em sua direção, com a mirada fixa e destemida no alvo, grande e tatuado. Interpelou-o antes que o fascista pudesse se dar conta da aproximação, enlaçou os braços por sua cintura malhada e sussurrou algo em seu ouvido. Rapidamente estava de volta como se nada tivesse acontecido, gritando para Luis emendar It’s Raining Men pois ela queria dançar. “Tudo bem, gente, caso resolvido. Ele é um bosta, não faz mal a uma mosca, é tudo marketing”, decretou. “Qual é, Alejandra?! Conta essa história direito!”, exigiu Lore. “Eu só falei a verdade: disse que você tem tendências sadomazoquistas e que não era certo ele ficar te excitando assim, na frente de todo mundo”. “Você só pode tá de brincadeira!”, gritou Lore enquanto eu acendia um cigarro. “Não, ele que estava, já são 02h50 e você está aqui, vivinha. Então relaxa, o cara é um bosta, vai por mim, conheço bem esse tipinho”, Alejandra agarrou Lore e guinchou-a até o meio da pista extraindo o máximo de sensualidade daquele poço de nervosismo.

Mas que porra é essa??!!

Com aquele protótipo de fascista recolhido a sua completa impotência, como previra Alejandra, pude curtir o álcool irritando meu estômago e vasculhar as sinapses em busca de algum restolho do THC de Matias. Mas minha paz tinha os segundos contados. Enquanto Luis seguia irredutível tentando nos fazer

crer que aquilo que soava pelas caixas de som era realmente música, Lore respirava. E Alejandra vinha em minha direção. “Junior, meu amigo, tenho uma missão para você. Está vendo aquele cara?”, apontou para um rapaz elegante, moreno e com alguns traços indígenas escorado no balcão do bar. “Mas é claro, você estava pendurada no pescoço dele até agora. Me diz uma coisa: onde foi parar sua dignidade gay?” “Isso não vem ao caso, apesar que, sinceramente, acho que nunca tive uma. Mas o negócio é o seguinte, aquele cara também é gay”. “Bom pra ele, mulheres são confusas demais, homens são cartesianos”. “E direitista convicto”. “Puta merda!”. “Você tem cinco minutos para transformá-lo num anarquista heterodoxo”. “E o que eu ganho com isso?”. “Um mundo melhor”. “Ainda não me convenceu”. “E uma garrafa de Pisco peruano”. “Fechado!”

Seu nome era Ignácio, falava com a suavidade de alguém da alta corte, seus gestos eram sutis e mensurados, e estava trajado ao melhor estilo outdoor, com marcas de grife expostas por todo o corpo. Ele pegou um drinque chique enquanto eu pendurava mais uma piscola na conta do Chacana. Fomos para um lugar mais cômodo e afastado para podermos conversar melhor. Após poucas palavras,

aquele rapaz se mostrou um grande, fragmentado e imbecil mistério. “Espera aí, cara, eu não estou entendendo. Você é cristão ortodoxo, pinochetista radical e gay? Mas que porra é essa??!”. “É simples”, proferiu com ares de superioridade, “na época de Allende minha família perdeu tudo e quase fomos mortos, fomos perseguidos. Mas quando Pinochet tomou o poder tivemos uma ascensão econômica gigantesca e hoje vivemos muito bem, graças a ele”, explicou com toda paciência. “Desculpa, cara, mas para mim você continua sendo um completo e absoluto estúpido”. “Tente entender, a maioria dos meus amigos são de esquerda, e para mim isso não é problema. Mas eu sou de extrema direita e sempre vou ser. Sou pinochetista e isso me faz bem”. “É sério, agora me conta, qual seu problema?”. “Eu bebo demais”. “Cara, você realmente acha que a direita lutará pela bandeira gay?”.

“Já perdi essa esperança”. A sinceridade egoísta de Ignácio estava me irritando, me irritando muito, muito, a tranqüilidade com que ele descrevia seus privilégios e como ele desplugava aquilo, sem o menor remorso, de toda a sede de liberdade que o rodeia estava fazendo meu sangue brincar de calefação pelas veias. Resolvi que o melhor a fazer seria atacar. “Olha, cara, o Chile é um país lindo mas você há de convir que é um dos mais atrasados em questões de direitos civis. E um dos principais responsáveis por isso é a Opus Dei, esse país é julgado por esses caras! O maior canal privado de TV é deles, o segundo maior jornal também. No maior partido de direita que, aliás, é o segundo mais poderoso, está grande parte dos altos membros desse lixo. Até o jornal de fofocas é dos caras! Isso é ridículo! A palavra ‘laico’ inexiste no castelhano daqui! E assim fica fácil entender por que só há menos de cinco anos o divórcio foi legalizado aqui. Vocês eram um dos três únicos países do mundo que proibiam algo tão essencial! Isso sem falar da pílula do dia seguinte, que agora resolveram proibir a distribuição gratuita, e a sorte é que não conseguiram proibir de vez os anticoncepcionais. Cara, olha em volta, não existe campanha sobre a

Aids, nada sobre DST’s, esses temas, aqui no Chile, são tabus. Isso é preconceito. Camisinha então… é sacrilégio! Os gays… nem se fala, são extraterrestres! Imagino que você seja lá dos lados de Saturno. E pode ter certeza que boa parte da culpa de toda essa merda é da Opus Dei, que é a correia de transmissão de tudo isso que você ridiculamente acredita e se aproveita. Você é patético”. “É, eu sei dessas coisas”, respondeu enfadado depois de arrancar com os dentes a azeitona que adornava seu drinque, “mas isso tudo não muda o fato de eu estar bebendo um drinque de 40 pesos e você ter colocado sua piscola de um mísero peso na conta de seu amigo. Além do mais, eu e toda minha família pertencermos, com orgulho, a Opus Dei”, era como se todos meus argumentos não passassem de um simples cereal matinal, que ele digeria diariamente com doses potentes de antiácido. Eu estava espantado e emputecido por ter dichavado sem pudores toda a convicção de sua família. Mas achei mais prudente seguir no ataque: “Espero que seus pais não queiram te torturar numa cama de pregos”.

“Você realmente largou aquela festa toda só para falar comigo sobre política?”, emendou, fincando os cotovelos na mesa e aproximando-se de mim. “Não, fiz isso por um mundo melhor”, e por uma garrafa de Pisco peruano. Então ele encheu os pulmões como quem resolve colocar um ponto final nas preliminares, posou a mão em meu peito e, literalmente, me encostou contra a parede. “É o seguinte, meu jovem, eu só estou aqui por um único motivo: sua amiga Alejandra me disse que você acabou de se descobrir gay, que me achou atraente mas não sabia como chegar. Por isso, minha proposta é simples: eu tenho uma piscina térmica de 25 metros na minha casa, vários litros de uísque escocês, estou com meu Audi parado aqui na frente e moro sozinho. E aí, topa?!”. Abandonei Ignácio imaginando seu bibelô sexual em posições eróticas desconcertantes e voltei a passos rápidos em busca daquela vagabunda. Eu não queria Alejandra morta, planejava apenas arrancar sua pele lentamente, muito, muito lentamente. E com um alicate de cutícula. Sem fio. “Alejandra, isso foi sacanagem!!”, gritei.

“Pelo jeito não te devo uma garrafa de Pisco”, sorriu. “O cara queria me comer!”. “Não vai ser dessa vez, a gente está indo embora, quer uma carona?”. Sem dúvidas eu queria uma carona.

Ilustrações: Alan Cichela
COPYLEFT A cópia e reprodução deste material é livre e incentivada, desde que para fins estritamente não comerciais, e dando os devidos créditos

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