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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice

"NO SILENCIO DA MINHA NOITE" 233

Muito se fala:
HARÉ KRSNA : QUE É ? 235

Urna encruzilhada:
ORDENAQAO DE MULHERES E ECUMENISMO 248

De novo Erlch von Daniken:


"APARigOES" 256

Mais utn livro discutível:


"A FACE HUMANA DE DEUS" por John A. T. Robinson 269

LIVROS EM ESTANTE 274

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Carta 77 : texto e ecos. — Mercados de neo-mortos ou <as perspec

tivas da medicina. — Esterilizacao humana. — A Seicho-No-lé :

que é ?

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual ¿ Cr$ 75,00


Número avulso de qualquer mes CrS 7,00

... EDITORA LAUDES S. A.

REDAgAO DE PR ADMINlSTRAgAO
Caixa Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-00
ZC-00 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tels.: 268-0981 e 268-2796
"NO SILENCIO DA MINHA NOITE..."
O mes de junho é, pela piedade crista, dedicado ao
Sagrado Coracáo de Jesús. Este vem a ser o simbolo mais
concreto e realista do amor de Deus para com todos os ho-
mens,... amor que quis compartilhar a natureza do próprio
homem, com seu coracáo, para pulsar e vibrar através deste
na realidade comezinha ou nos altos e baixos de cada dia.

O amor de Deus assim expresso tem algo de paradoxal


ou desconcertante: é o Amor primeiro, «aquele que primeiro
nos amou» (Uo 4,19), e nos ama, nao porque encontré na
criatura valores atraentes, mas, sim, porque lhe quer bem
gratuitamente e, em eonseqüéncia, lhe deseja suscitar os valo
res que a criatura nao tem.

Para nos, homens, — francamente falando — é difícil


relacionarmo-nos com um tal amor. Sempre nos volta
a imagem do amor humano de cada dia,... amor que só
surge e se exerce quando atraído por valores preexistentes.
A experiencia dessa dureza, fé-la o grande frade dominicano
francés Henri Lacordaire (1802-1861). Aos 25 anos de idade,
após urna adolescencia acidcntada, sentía o chamado para a
consagracáo total ao Senhor mediante os votos religiosos e
a ordenacáo sacerdotal. Todavía julgava-se frustrado e estra-
galhado, porque todos os caminhos que havia tentado para
encontrar, de maneira mais sensível, a Deus, lhe pareciam
nao ter tido salda; julgava haver fracassado na procura ar-
dente daquele Senhor cujo chamado ele percebera. Depois
de muito haver lutado, finalmente ouviu urna palavra da
parte do Senhor que lhe clareou os horizontes, manifestando-
-lhe o sentido do Amor que o chamava e atraía. Eis o depoi-
mento do próprio Lacordaire:

"Senhor, eu poderla enleilar, (alar bonllo,


Mas nao quero faltar ¿ verdade.
Meu desaba'o é sincero, veraz:
Esvaziei a taca da vida
E a embriagues nao velo, a paz nao aconteceu.
Chame! pela felieldade a ponto de flcar rouco,
E o eco nao me respondeu.
Andel caminhos e descaminhos, estradas possíveis,
E até hoje nao achel o que tanto procuro. ~"

Tere! errado na escolha da vocacüo ?

— 233 —
O tedio me abate e a angustia retalha.
E sigo cansado, tafeando no escuro...
Busque! llberdade, pensando ser ela a grande solucSo.
Mas sfnto nos labios e no fundo da alma
O trago amargo da fruslracáo.
E com o poeta eu choro:
'Como me pesa hoje o esquife dos meus sonhos morios 1'
É duro, Senhor, camlnhar sempre em tua dlrecSo,
Guando há tantos outros apelos .mals llsonjelros solicitando
minha adesáo.

É duro, Senhor, acreditar na oracSo


E em nenhum momento ter gosto para rezar, para íazer meditacáo.
Bebi, tu sabes em quantas Jornadas,
Na fonte da Escritura,
Mas continuo sedento.
Alimentekne, tu sabes quantas vezes, do pao eucaristico,
Mas continuo faminto em meu jornadear. .
Sorrindo, busque! parlilhar as tuas riquezas, Senhor,
Porque em teu reino a gente cresce reparando.
No éntanto, sinto-me ISo pobre, subalimentado.
Quanto mals te busco, mals distante me pareces estar.
Estaré! vocacionalmente em barco errado?
Ando esmagado, ferldo e desnorteado.

E no silencio da minha noite,


Toda felta de incertezas e contradlcáo,
Ouvi urna voz que dfzia no fundo de meu coracao:
— Oferece-me o teu vazlo...
Preciso da tua miseria para manifestar a minha Misericordia,
De geracSo em geracSo!"

Esta poesía tem alto significado precisamente por causa


do seu estilo paradoxal... Ela nos diz que a miseria da cria
tura que procura sinceramente a Deus, mas julga nao o
encontrar, tem valor aos olhos do Senhor. É, sim, a ocasiáo
para que Deus aja mais pura e evidentemente na criatura,
manifestando nesta a sua misericordia ou o seu amor. Justa
mente a palavra misericordia vem de miser e cor e significa
«coracáo voltado para a miseria a fim de lhe dar o que ela
nao tem».

Caro leitor, se descobriste um pouco de ti e da tua his


toria na descri~áo da miseria proposta por Lacordaire, podes
também, com todo o direito, sentir-te interpelado pela pala
vra de luz que se lhe segué: o teu Deus é o Deus que, para
se dar, nao espera senáo um coracáo de pobre e pequenino,
vazio de si, mas sequioso do Amor que desde toda a eterni-
dade nos disse um Sim divino, isto é, irreversível, para todo
o sempre!
E. B.

— 234 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVIII — N» 210 — Junho de 1977

Muito se fala:

haré krsna: que é?


Em sintese: Últimamente o Movlmento de Haré Krsna tem chamado
a atengáo do público no Brasil... De que se trata ?

Haré Krsna é urna ramiflcacáo do tronco religioso hindufsta, trazida


para a 'América em 1965 pelo mestre A. C. Bhaktivedanta Swami Prabh upada.
Krsna é, segundo o hindulsmo, urna manlfestacáo ou um avalar de Vishnu
(Brama, Vishnu e Siva sio tres nomes da Divindade, exprimindo-a respecti
vamente como o principio que suscita, que conserva e que destrói). Existem
varias lendas em torno de Krsna, o qual vem a ser um personagem mito
lógico da India.

O bramanismo e, por conseguirle, a seita Haré Krsna professam o


panteísmo: o ser humano é parcela da Divindade, que está encoberta pelo
corpo ou pela materia e que desta se deve libertar. Enquanto o devoto nio
se desvincula de todo prazer sensfvel ou de todo apego aos bens materials,
está sujeito a se reencarnar; a desencamacfio final é o grande objetivo
de toda a ascese de Haré Krsna. Para consegui-la, recomendam-se a me-
ditacáo, o canto de maha-mantra "Haré Krsna", a luta contra as paixóes...

A selta Haré Krsna atrai muitos adeptos no Ocídente pelo fato de


que numerosos adultos e ¡ovens de nossas regioes estáo cansados e de
cepcionados pelo secularismo e pela pressio da sociedade de consumo.
A mística oriental conservou valores que a clvillzacáo material do Ocidente
vai encobrindo. Todavía registra-se urna inspi'acio puramente emotiva e
irracional na mística de Haré Krsna : o panteísmo é aberrante aos othos
da sa razSo, ao passo que a reencarnacSo é urna proposlgáo gratuita, des
tituida de provas lógicas ou empíricas.

Seria, pois, para desejar que os valores místicos fossem devldamente


restaurados no Ocidente, deduzidos, porém, da sua fonte auténtica. O
Cristianismo nunca deixou de cultivá-los, ...e de cultlvá-los de manelra
que possa satisfazer ás exigencias da sá razáo.

Comentario: Os jomáis tem noticiado repetidamente


acontecimentos relativos á seita Haré Krsna, que no Brasil
vem exercendo atividades controvertidas • certas máes de fa
milia tém-se indignado contra os dirigentes do Movimento,

— 235 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

acusando-o de praticar «lavagem cerebral» c indispor os filhos


contra os pais. Nao obstante, a «mística* de Haré Krsna
(como, de resto, as crengas orientáis em geral) tem seduzido
muitos cidadáos — jovens e adultos —, que se tomam mili
tantes do Movimento e aparecem ñas rúas e pracas públicas
com a cabesa rapada e mantos amarelos, a vender livretos e
periódicos portadores dos ensinamentos de Haré Krsna. O pró-
prio Juizado de Menores, no Rio de Janeiro, interveio oportu
namente, procurando manter a boa ordem e defender os inte-
resses da sociedade carioca.

É o que nos leva a procurar sintetizar as linhas princi


páis da filosofía religiosa de Haré Krsna e propor um comen
tario sobre a mesma.

1. O fundo de cena : o hinduísmo

1. A fim de situar devidamente os ensinamentos do Mo


vimento Haré Krsna, importa reconstituir os grandes tragos
do pensamento hinduísta, ao qual se filia a doutrina dessa seita.

A India vem a ser, no mapa do mundo, um país táo vasto


que equivale a um subcontinente. Nesse país, através de muitos
sáculos, se foram encontrando, justapondo ou, por vezes, fun-
dindo varias tribos e estirpes étnicas, cada qual com sua cul
tura, sua linguagem e suas crengas religiosas próprias. Isto
faz que a India seja rica em crengas e costumes variados, os
quais nao se amalgamam fácilmente, mas conservam sua iden-
tidade e, por vezes, suas contradigóes mutuas, embora tenham
um fundo comum assaz perceptível, caracterizado pela raga
aria e a língua sánscrita. Deve-se mesmo dizer que em nenhum
ambiente humano a efervescencia religiosa é táo variegada
e borbulhante como na india. Ai se cotejam e, por vezes, se
combinam os cultos mais disparatados, alguns muito primitivos,
outros muito evoluídos; o novo ai nao extingue o arcaico,
como as tentativas de uhificagáo da populagáo da India nunca
chegaram a apagar as características diversificadas da mesma.

Em conseqüéncia, verifica-se que a religiño na India deve


ser estudada em suas diversas etapas de evolugáo : existe ali
um conjunto de crengas, de proposigóes filosóficas, mitológi
cas, científicas e de preceitos moráis e rituais que so chama
«o hinduísmo» ou «o bramanismo», cujas origens remontam

— 236 —
HARÉ KRSNA : QUE É?

a 1.500 aproximadamente a.C. Dentro do próprio hinduísmo


distinguem-se carnadas e orientacóes diferentes. No séc. VI
a.C, por obra do principe Siddartha, que se tornou Buda
(= o Iluminado) e abracou a vida ascética, originou-se o bu
dismo, cujas características sao mais definidas do que as do
bramanismo, embora admitam oscilagóes e variedades múlti
plas ; o budismo representa uma reagáo ao bramanismo, mas
conserva muito do patrimonio tradicional deste.

Para se entender o Movimento de Haré Krsna, importa


reconstituir principalmente o conjunto de arengas e concepcóes
do hinduísmo.

2. O hinduísmo deriva-se dos Vedas, livros sagrados dos


indianos ; estes foram-se formando entre 1500 e 500 a.C,
recolhendo tradigóes religiosas da India (hinos, oragóes, ensi-
namentos diversos...). A religiáo que decorre dessas fontes,
é o hinduismo ou bramanismo, pois professa a fé em Brama.

A palavra «Brama» deriva-se da raiz brah, que significa


«crescimento». Designa o Absoluto na medida em que é pai
e origem de todas as coisas; é também tido como «a esséncia
do universo, a energía cósmica, espirito». Vem representado
como uma figura masculina dotada de quatro cabegas e quatro
bracos, que indicam a sua onipoténcia e oniciéncia. O conceito
de Brama vem a ser panteista; ele está presente em todas
as coisas e em todos os viventes como elemento constitutivo.
Mais : Brama, Vishnu e Siva sao tres nomes da Divindade,
designando-a respectivamente como principio que suscita, que
conserva e que destrói os seres visíveis.

Vishnu, o principio conservador do mundo, se manifesta


sob forma de peixe, de tartaruga, de javali, de leáo,... ani
máis que, por isto, merecem adoragáo por parte dos hinduís-
tas. Todavía a mais célebre das encarnares de Vishnu é o
avatar (manifestagáo humana) chamado Krsna, o negro. Va
rias lendas foram forjadas em torno de Krsna: terá sido
educado pelo pastor Nanda; haverá realizado diversas proezas,
fundando a cidade mítica de Dvaraka ; finalmente ter-se-á
aliado a Arjuna contra o filho de Kuru; algumas fontes o tém
na conta de guarda e ladráo de bois.

Quanto a Siva, destrói o universo com a sua danga cós


mica, no intuito de reconstitui-lo.

— 237 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS!» 210/1977

Os hinduistas sabem associar o seu panteísmo ao poli


teísmo e á mitología, que sao as mais antigás expressóes da
religiosidade indiana. Por isto, ao mesmo tempo que falam de
Brama, o Absoluto, presente em tudo o que é visível, admitem
milhares de deuses que contraem unióes maritais, geram filhos
e tém suas aventuras humanas, semelhantes ás dos deuses
do Panteón e da mitología greco-romanos. Eis alguns dos
nomes principáis dessas figuras mitológicas da india: Dyaus,
o céu-pai; Prthivi, a terra-máe; Vayu, o vento; Parjanya, a
chuva; Apas, as aguas; os Maruts, deuses das tempestades;
Usas, a aurora; Surya, o sol; Savitar, o vivificante; Pusen,
o amo; Mitra, o amigo dos homens; os Agvins, cavaleiros que
simbolizam a estrela da manhá e a da noite. O Panteón da
india é dos mais populares, exuberantes e monstruosos da Asia.

É a persistencia do politeísmo ao lado do panteísmo na


religiáo hinduista que explica haja no hinduísmo fórmulas de
oragáo dirigidas a Deus na segunda pessoa do singular como
se a Divindade fosse algo de distinto do orante; a rigor, o
panteísmo nao deveria conhecer a oragáo; o panteísta nao
deveria poder conceber uma fórmula de alocucáo a Divindade,
visto que esta é o próprio orante; somente por uma feliz incoe-
réncia é que o panteísta se dirige a Deus na segunda pessoa
do singular (ou do plural). O fenómeno se explica pelo fato
de que a oragáo a Deus é uma expressáo espontánea e veemente
do ser humano através de todas as épocas da historia.

3. O hinduísmo professa também a reencarnagáo. Esta


se faz segundo a lei do karma: todos os atos humanos — bons
e maus — tém anexa uma sancáo (premio ou castigo) inexo-
rável. Em outros termos: todo ato determina o género de
vida que tocará ao homem em sua futura encarnagáo : quem
rouba trigo, tornar-se-á rato ; quem rouba carne, abutre; o
homem cruel aparecerá como um tigre ; o adúltero será en
gañado por sua esposa ; o invejoso será cegó ; o caluniador,
mudo; o brámane que come carne ás ocultas, renascerá como
sapateiro... !

Por conseguinte, todo o afá do hinduista tende a libertar


o homem dos «trabalhos forgados» ou do ciclo das rccncarna-
cóes. Para tanto, apontam-se-lhe tres principáis vias de sal-
vagáo (moksha) : a agáo ou o cumprimento do dever (o
Dharma) ; o conhecimento (a remogáo da ignorancia) ; a
devogáo (adoracáo, confianga amorosa, repetigáo do nome
divino Aum).

— 238 —
HARÉ KRSNA : QUE É ?

Quem consegue libertar-se das reencarnacóes, aplicando


os meios adequados ou insensibilizando-se a todos os prazeres
e anseios, alcanca o Nirvana ou a plena identificacáo com
Brama (removida toda e qualquer contradigáo a este).

4. Os hinduístas professam também o sistema de castas


sociais como inviolável disposicáo imposta pela lei suprema
que rege o universo. Quatro eram as castas principáis exis
tentes como tais na India até 1950, ano em que foram aboli
das : a dos bramanes ou homens dominantes, os quais haviam
saído da cabera da Divindade ; a dos nobres guerreiros, tira
dos dos bragos da Divindade; a dos hdmens livres (agricultores
e comerciantes), oriundos do ventre da Divindade, e a dos
escravos, provenientes dos pés desta. Os homens que nao tives-
sem tido origem no corpo de Brama, eram considerados imun-
dos e dignos de desprezo (parias). Quem tentasse misturar ou
confundir as castas, era culpado de sacrilegio e, portanto,
punido com severas penas. A distingáo de castas permanece
até hoje na religiáo hinduísta.

O ideal do brámane compreende quatro etapas : após a


infancia, estude ; depois, seja dono de casa ; fac.a-se eremita
o, por fim, monge errante pelas estradas da india, percorrendo
santuarios.

35 sobre este fundo de cena que se sitúa atualmente o


Movimento de Hare-Krsna.

2. Hare-Krsna : que mensagem ?

A doutrina apregoada pela escola de Hare-Krsna está na


linha do hinduísmo, do qual é urna das muitas expressces exis
tentes no mundo de hoje.

A seita Hare-Krsna foi trazida para o Oci dente pelo mes-


tre A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, que veio para
a América em 1965 e fundou a Sociedade Internacional para
a Consciéncia de Krsna, que atualmente conta com mais de
cem sedes no mundo inteiro. Vejamos os principáis tópicos
da mensagem de Swami Prabhupada.

1. Como se sabe, a divindade, na seita, tem o nome de


Krsna, que nao é senáo urna manifestacáo ou um avatar de
Vishnu (nome que por sua vez designa o próprio Brama ou

— 239 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

a Substancia Universal). Os homens sao parcelas dessa Subs


tancia cósmica, como se depreende dos dizeres abaixo :

"Krsna é a consciéncia suprema. Eu sou consciéncia, a parte e par


cela da consciéncia suprema. Entáo meu dever é agir de acordó com esta
consciéncia suprema... Nos somos todos partes e parcelas do Supremo"
(A. C. Bh. Swami Prabhupada, "Além do nascimento e da morte". Sao
Paulo 1972, p. 68).

"Nos podemos ter corpos diferentes, mas estes s§o nossas camisas
e casacos. Isto nada tem a ver com a nossa identldade real. Nossa identi-
dade real é como alma pura, e esta alma é parte e parcela do Senhor
Supremo" (ib. p. 61 s).

Esta visáo panteísta é expressa de maneira semelhante e


com grande exuberancia de imaginagáo na passagem seguinte :

"Existem 8.400.000 especies de vida. Nem os biólogos e antropólogos


sabem calcular isto com precisáo, mas, mediante a escritura revelada,
autorizada, nos oblemos esta informacáo. Os seres humanos representara
400.000 especies, existem outros 8.000.000 de especies. Mas Krsna, o-
Senhor Supremo, afirma que todas elas, animáis, homens, cobras, deuses,.
semideuses — qualquer coisa que exista — todas elas sao, na realidades
filhos dEle" (ib. p. 62).

2. O ideal do adopto do Haré Krsna consiste em identifi-


car-se cada vez mais com a própria Divindade que ele é &
que é diminuida pela materia ou pelo corpo que a envolve em
cada um de nos. Esta meta pode ser atingida mediante tres:
elementos ou fatores :

a) a procura de desapego crescente de tudo que seja


visível ou sensível; os mestres da seita muito insistem em que
os discípulos nao fa^am caso dos prazeres sensíveis e, antes,
se dediquem 'á fruicáo das alegrías espirituais ;

b) a meditacáo ou concentrado interior é de grande


valor neste contexto :

"O corpo é composto de sentidos, e os sentidos estáo sempre ansio


sos por objetos...

É imprescindfvel que aprendamos como controlar os sentidos... Deve


nios moldar nossas vidas de tal maneira que o prazer corpóreo nao possa
nos desviar. So por acaso nos desviamos, ngo é possfvel estabelecer nossa
consciéncia em sua verdadeira Identidade além do corpo" (Ib. pp. 14s).

Alias, oá indianos sao famosos cultores da meditacáo, que


para eles tem sempre o objetivo de esvaziar a mente de ima-
gens sensíveis e assim contribuir para libertá-Ia de qualquer-

— 240 —
HARÉ KRSNA: QUE É?

vínculo com o corpo, a fim de que possa alcangar a definitiva


desencarnagáo ;

c) a repeticáo de palavras de Krsna é outro meio que


leva o homem a maior identificagáo com a Divindade, pois
Krsna está em suas palavras :

"Krsna está presente através de sua palavra — o Bhagavad-gila. Na


india, quando talamos sobre o Bahgavad-gita ou o Srimad-Bahg;:vatam,
regularmente realizamos adoragáo com flores ou com outra parafernálla,
como for necessário para adoracáo..." (¡b. p. 61).

De modo especial, os mestres recomendam o canto do


maha-mantra, cuja letra é a seguinte : «Haré Krsna, Haré
Krsna, Krsna Krsna, Haré Haré, Haré Rama, Haré Rama,
Rama Rama, Haré Haré» 1.

Este canto foi formulado pela primeira vez pelo mestre


Sri Krsna Caitanya Mahaprabhu. Este homem apareceu há
quinhentos anos na Bengala Ocidental; era a mais munifÍcente
encarnagáo de Sri Krsna ; «ele tornou o amor por Krsna fácil
mente disponível através do cantar do maha-mantra». Esta
cangáo foi também propagada pelo mestre Nityananda Prabhu,
que era o principal colaborador de Caitanya, na difusáo do
movimento da Consciéncia de Krsna. «O Senhor Nityananda
é urna expansáo do Senhor Caitanya. O mesmo Senhor Supremo
apareceu em formas diferentes — como Senhor Caitanya e
como Senhor Nityananda — para outorgar misericordia as
almas caídas do mundo material. Portanto esta cangáo (o
maha-mantra) descreve os beneficios de se refugiar no Senhor
Nityananda Prabhu (os textos entre aspas, como alias este
inciso em geral, sao transcritos da revista «De volta ao Su
premo» n*> 2, p. 12).

De passagem, observe-se o panteísmo que transparece


nítidamente nos dizeres atrás: urna só substancia divina se
manifesta nos homens ; é sempre a mesma realidade divina
que toma formas e configuragóes diferentes nos homens, sendo
uns mais prenhes de Divindade, outros menos ricos da mesma.

Os efeitos quase mágicos da cangáo maha-mantra sao


descritos com muita énfase no trecho seguinte :

■A palavra "Haré" é um evocativo da torca vibratoria da Divindade.


Esta se tornaría mais eficiente e atuante quando assim aclamada.

— 241 —
10 iPEUGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

"A meditacáo em Krsna pode parecer muito difícil, mas nao é. Se


alguém praticar a consciéncia de Krsna cantando o maha-manira..., rápi
damente receberá ajucla. Krsna nSo é diferente do seu nome nem de sua
morada transcendental. Nos podemos nos associar com Krsna por meló da
vibracáo sonora. Por exemplo, se cantamos Haré Krsna na rúa, veremos
que Krsna nos acompanha ; da mesma forma que, quando olhamos para
cima e vemos a lúa sobre nossas cabecas, percsbemos que ela também
nos acompanha. Se parece cue a energía inferior de Krsna nos acompanha,
n§o é possível entño oue Krsna ele me?mo esíeja conosco quando estamos
cantando seus nomes ? Ela vai-nos acompanhar, mas temos que reunir as
cualidades necessárias para ter sua comoanhia. Nao obstante, se estamos
com o pensamento semnre absorto em Krsna, devemcs ter a seguranca
de aue Ele sempre está conosco" ("Afém do nascimento e da norte",
p. 53s).

3. O género de vida dos adeptos de Haré Krsna é ba-


seado nos principios até aqui apresentados. Levam vida pobre,
ostentando certo desapego pelo reu modo de trajar e de se
apresentar. Propagam seus livros e seus símbolos, em troca
dos quais recebem dinheiro.

Em suma, a Filosofía e a Ética de Haré Krsna estáo com


pendiadas em oito princíoios básicos, oue ahairo vño renrnriu-
zidos e que se devem h Sociedade Internacional rara a Cons
ciéncia de Krsna (TSKONi fundada em 196S pelo mestre A.
C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada :

"1. Por cultivar sinceramente urna ciencia espiritual autorizada, pode


mos nos livrar da ansiedade e chegar a um estado de conscicncia pura,
Inlnterrupta e bem-aventurada.

2. Nos nao somos nossos corpos, mas, sim, almas espirituais eternas,
partes e parcelas de Deus (Krsna). Como tais somos todos irmSos, e Krsna
é, em última análise, nosso pal comum.

3. Krsna é a Personalidade de Deus eterna, onisclente, onipresente,


todo-poderosa, todo-atrativa. Ele é o pal que dá a sementé de todas as
entidades vivas, e Ele é a energia sustentadora de toda a criacáo cósmica.

4. Todas as grandes escrituras do mundo contém a Verdade Absoluta.


No entanto, as escrituras mals antigás que se conhecem sao as literaturas
védicas, entre as auais a mafs notável é o Bhagavad-gita, que é o documento
literal das verdadeiras patavras de Deus.

5. Devemos aprender o conheclmento védlco da parte de um mestre


espiritual genuino — que nSo tenha motivos egoístas e cuja mente esteja
firmemente flxa no Senhor Krsna.

6. Antes de comer, devemos oferecer ao Senhor o alimento que nos


sustém. EntSo Krsna Se converte no ofereclmento e nos purifica.

— 242 —
HARÉ KRSNA : QUE É ? 11

7. Devemos executar todas as nossas acoes como ofcrecimentos a


Krsna e nao fazer nada para a gratificado de nossos próprios sentidos.

8. Os meios recomendados para alcanzar o estado maduro de amor


a Deus nesta era de Kali ou de desavencas, sao os de caniar os santos
nomes do Senhor. O método mais fácil para a maioria das pessoas é cantar
o manirá: Haré Krsna, Haré Krsna, Krsna Krsna, Haré Haré, Haré Rama,
Haré Rama, Rama Rama, Haré Haré".

Os adeptos de Haré Krsna, mediante seus cantos, suas


palavras e seu porte, váo fazendo adeptos no Ocidente, inclu
sive no nosso Brasil. É o que nos leva a procurar proferir
um juízo sobre o fenómeno «Haré Krsna».

3. Um juízo sereno

Procederemos por partes.

3.1. As seitas contemporáneas

Antes do mais, é mister recordar aqui o que foi dito em


PR 207/1977, pp. 95-106, a respeito da multiplicacáo de seitas
em nossos dias. Entre outras coisas, constituem urna reagáo
contra o secularismo e a materializagáo da vida nos países
do Ocidente. Todo homem ó essencialmentn voltado para os
valores transecncientais, que a civilizacáo da producáo e do
consumo tende a apagar. Ora no Oriente, especialmente na
India, até hoje se conserva, com singular vivacidade, a cons-
ciéncia de que os bens materiais sao fugazes e ilusorios e os
verdadeiros valores sao os do espirito.. . Eis por que as pro-
posigóes de «nrstica» indiana encontram táo pronta acolhida
em nossa sociedade ocidental. Elas vém, em parte, suprir urna
lacuna existente nos países empolgados pela tecnología.

3.2. Emotividade e razáo

Todavía verifica-se que a mensagem de Haré Krsna toca


possantemente a parte emotiva dos nossos concidadáos, espe
cialmente da juventude, sem levar em conta as exigencias da
sá razáo. Vivemos, alias, numa época de certo irracionalismo
no setor das ciencias humanas, da mística e da religiáo. Valo-
riza-se a razáo no cultivo da matemática e das ciencias ditas
«exatas» (que na verdade sao muito pouco exatas, porque
sempre sujeitas a revisóes e reformulagóes); quando, porém,

— 243 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

apreciam os valores humanos, os homens contemporáneos mui-


tas vezes esquecem a razáo e a lógica, e se deixam guiar pre-
ponderantemente por impressóes sensíveis e emogóes, que
chegam ao fanatismo cegó e desarrazoado. É o que acontece
no caso da seita Haré Krsna; a sua mensagem nao resiste a
sereno exame, como se verá através das ponderagóes subse-
qüentes.

3.3. Panteísmo

O panteísmo, identificando a Divindade (Theós) com tudo


(pan), pretende identificar o Absoluto e o relativo, o Eterno
e o contingente. Ora por definigáo o Absoluto nao pode estar
sujeito a mudangas e a evolugáo, pois o Absoluto é perfeito, é
o máximo ser, ao passo que o volúvel e o mutável sao imper-
feitos, sujeitos a diminuir, crescer ou trocar... Por conse-
guinte, só se pode entender lógicamente o Absoluto como ser •
distinto do mundo e do homem — o que nao quer dizer que
seja indiferente ao mundo e ao homem; o Absoluto é o Criador,
que, sem materia preexistente, produziu tudo o que existe,
por efeito do seu amor ou porque «o Bem é difusivo de si» e
tende a fazer que seres criados participem do bem ou da feli-
cidade do Absoluto ou Perfeito.

O panteísmo redunda numa certa forma de ateísmo, pois,


em última análise, afirma que o próprio homem c parcela da
Divindade ; donde se segué que nada há ácima do ser humano
nem existe possibilidade de oragáo a Deus. O orgulho e a auto-
-suficiéncia encontram assim porta aberta para se afirmaran
nos ambientes panteístas.

3.4. Reencarnacao

A reencarnagáo é tese naturalmente associada ao pan


teísmo. Com efeito; o monotcismo admite que Dcus, como Pai
e Amor, salve o homem oferecendo a este todos os recursos
para tanto; ao contrario, o panteísmo deve admitir que o pró
prio homem salve a si mesmo, purificando-se de todas as im-
perfeicoes; ora, se isto nao ocorre em urna encarnagáo, é mister
admitir que o homem tenha sucessivas chances de se purificar
ou sucessivas encarnacóes. Todavía a tese da reencarnagáo é
táo débil, perante a sá razáo, quanto a do panteísmo.

Na verdade, pergunta-se : quais as provas empíricas ou


experimentáis que fundamentem a crenga na reencarnagáo ?

— 244 —
HARÉ KRSNA : QUE £ ? 13

a) Pode-se dizer que nenhum ser humano tem consciéncia


de haver vivido urna existencia anterior á atual. Os casos de
regressáo da memoria que tém levado certas pessoas a des-
crever a sua «vida pregressa», tém sido estudados pela para
psicología. Esta mostra que qualquer enredo de «vida pre
gressa» até noje apresentado se explica pela livre associagáo
de impressóes e imagens colhidas pelo sujeito na própria vida
presente ; o mais famoso episodio deste género foi o de Virginia
Tighe, hipnotizada na década de 1950 pelo banqueiro Morey
Bernstein nos Estados Unidos; em transe hipnótico, Virginia
contou o enredo de pretensa existencia no sáculo passado vivida
por ela na Irlanda, com o nome de Bridey Murphy... Esse
enredo impressionou vivamente a quantos dele tomaram conhe-
cimento, pelas minucias de suas descricóes e pelo sotaque
irlandés com que foi narrado. Todavía sindicáncias feitas a
propósito mostraram que Virginia Tighe, quando jovem, na-
morava um rapaz cuja máe era irlandesa; indo á casa desta,
ouvira da mesma, narrados com sotaque irlandés, muitos epi
sodios da vida irlandesa dessa velha senhora; assimilara essas
narracóes com particular atengáo visto que urna certa carga
afetiva a prendía á senhora irlandesa e a seu filho. Esquecera
tais narracóes, até o momento em que, posta em transe hipnó
tico e sujeita as sugestóes do hipnotizador, associou tais his
torias em um enredo pessoal muito próximo a realidade da
senhora irlandesa,... enredo- este que Virginia apresentou
como sondo o do sua própria vida pregressa, visto que recebera
o comando de narrar a sua pretensa existencia anterior. Urna
vez explicado racionalmente o caso de «Bridey Murphy» ou
Virginia Tighe, desfez-se o mais impressionante argumento
em prol da reencarnagáo derivado das regressóes em idade.

b) Quanto ao fato de que existam criancas-prodígios,


nao é prova da preexistencia de almas ou da reencarnagáo.
Na verdade, há tendencia a exagerar as expressóes prodigiosas
da inteligencia de certas criangas, como de fato a houve no
caso do matemático francés Blaise Pascal. — Acontece tam-
bém que, depois de alguns anos, a maioria das mangas-prodi
gios perde a sua genialidade; de milhares de meninos-prodigios
é raro obter-se um talento.

Mais : no tocante aos meninos-calculadores, deve-se notar


que a matemática supóe processos mentáis que podem ser
reproduzidos por máquinas sem qualquer raciocinio. «A mate
mática e os números podem conservar-se alheios á inteligencia,
como tem sido demonstrado pelo aparecimento de extraordiná-

— 245 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

rias capacidades de cálculo, as vezes em individuos inferiores


ou mesmo imbecis» (A. da Silva Mello, «Misterios e realidades
deste e do outro mundo», 2? ed., Rio de Janeiro, p. 375).

c) Outros argumentos deduzidos da psicología humana


(reminiscencias, sonhos, paremnésia, tendencias inatas...) em
favor da reencarnagáo nao provam o propósito. O estudo da
própria psicología e o da parapsicología mostra que é gratuito
querer deduzir de tais fenómenos a tese da existencia pregressa.

d) Algumas pessoas se impressionam pelo fato de que


há diversidade de sortes entre os seres humanos : alguns nas-
cem ricos, outros pobres; uns sadios, outros doentes; uns muito
prendados, outros pobres mentáis... Nao será que tais dife-
rengas supóem encarnacóes anteriores, das quais elas seriam
conseqüéncias? — A esta pergunta convém responder nos
seguintes termos:

Cada criatura é única em suas notas pessoais, trazendo


um conjunto de predicados e de lacunas que caracterizam a
respectiva personalidade. Todos tém igualmente que lutar
para se realizar plenamente e se comprovar; nem as pessoas
ricas, as sadias ou as inteligentes sao isentas de dor e sofri-
mento. O que varia de pessoa a pessoa, é o tipo de cruz que
cada qual deve carregar. A experiencia corrobora firmemente
estes dados : só urna observacáo superficial e parcial do currí-
culo de vida leva a crer que uns sofrem pouco, enquanto outros
muito padecem. De resto, aqueles que mais afagados sao pelos
bens materiais, correm o mais grave de todos os riscos, que
é o de se fecharem no egoísmo e na mesquinhés, perdendo assim
a consciéncia de que existem valores maiores do que os ma
teriais. Muitos dos grandes homens da historia nasceram de
familias pobres e lutaram contra a falta de saúde.

Ademáis a tese da reencarnagáo leva conseqüentemente


os seus adeptos a conceberem o menosprezo pelo corpo (instru
mento de punigao) e pelo mundo material que nos cerca. Os
reencarnacionistas sao, consciente ou inconscientemente, dua
listas; procuram, ácima de tudo, desencarnar-se definitivamente,
ou seja, desvincular-se de qualquer compromisso com o mundo
material. A conseqüéncia mais lógica do reencarnacionismo é
o descaso em relagáo ao progresso e á civilizagáo (como de
fato o houve na india até poucos decenios atrás). Pergunta-se:
a verdadeira sabedoria consistiría realmente em desprezar a
materia e o mundo visível,... materia da qual depende a nossa
própria inteligencia para adquirir nogóes e raciocinar... ? Nao

— 246 —
HARÉ KRSNA: QUE É? 15

seria mais harmoniosa e verídica a tese que afirma que o corpo


é parte integrante do ser humano e que, por conseguinte, ele
contribui para a grandeza e a realizacáo de cada personali-
dade ? Esse corpo, longe de ser um dia posto de lado, será
ressuscitado e glorificado á semelhanca do corpo de Cristo.
É esta a tese crista, da qual resulta, alias, urna visáo otimista
sobre o mundo material, do qual o homem é administrador e
responsável dentro dos sabios designios de Dcus.

3.5. Meditado e ascese

O que impressiona ñas seitas orientáis, é geralmente o


seu tipo de vida pobre, sobria e devotada aos bens transcen-
dentais. Deve-se reconhecer nisto um conjunto de valores ine-
gáveis, aptos a construir personalidades. Sao estes valores que
cativam muitos observadores, os quais nao examinam a filo
sofía panteísta e reencarnacionista em nome da qual tais va
lores sao cultivados pelas seitas indianas.
Pode-se, porém, levar vida simples, sobria e voltada para
os bens espirituais sem ceder as aberracóes filosóficas do pan
teísmo e do reencarnacionismo, desde que a sá razáo seja posta
a funcionar. A inteligencia (ou razáo) é o grande dom que
diferencia os homens dos demais viventes terrestres; ela deveria
ser o criterio de avaliagáo de todas as pronostas nue ocorram
ao homem nesta vida, mesmo as propostas religiosas. Com
ofeito, também a verdadeira fé tem suas credenciais sujeitas
ao exame da inteligencia: a Teologia Fundamental estuda pre
cisamente por que o cristáo eré em Deus, por que eré em
Jesús Cristo, porque eré na Santa Igreja Católica... e apre-
senta motivos diante dos auais a inteligencia conclui oue crer
na mensasrem crista nao é algo de irracional nem de pura
mente sentimental, mas está dentro da lógica da inteligencia
bem aplicada. Antes, pois, de aderir a aleuma proposta de
«mística», indague o homem, com o acumo de sua inteligencia,
por que haveria de abracar tal corrente de espiritualidade. Se
isto fosse feito com mais freqüéncia em nossos dias, haveria
menos seitas, menos subjetivismo e menos sentimentalismo reli
gioso; a religiáo seria menos manipulada e conservaría sempre
o seu aspecto de fator de grandeza e nobreza dos seus adeptos.
Eis o que nos ocorre dizer, sucintamente, a propósito do
fenómeno Haré Krsna, que é mais um testemunho de que
mesmo o homem do sáculo XX é ávido de Deus.. . O que se
pode pedir a esse homem, é que nao O procure de maneira
puramente emotiva ou irracional!

— 247 —
Urna encruzilhada:

ordenacáo de mulheres e ecumenismo

Em sínlese: A questáo da ordenadlo sacerdotal de mulheres tem


implicacoes embarazosas no setor do ecumenismo ou da reaproximacáo dos
cristaos entre si.

O problema foi colocado pela primeira vez no século passado em


comunidades protestantes que rejeitam o sacerdocio ministerial como sacra
mento. Os congregacionalistas (protestantes) norte-americanos, por exem-
plo, abriram ás mulheres o acesso ao pastorado. A seguir, as comunidades
luteranas da Escandinávia adotaram o exemplo, sendo que na Suécia om
1958 houve forte e decisiva pressio do Parlamento Nacional em favor da
Inovacáo. Mais grave se tornou o problema quando em 1971 os anglicanos
comegaram a seguir a trilha; com efelto, os anglicanos afirmam ser a
Ordem um sacramento administrado dentro da sucessSo apostólica... O
Papa Paulo VI, em cartas sucessivas, deu a ver ao arcebispo de Cantuária
o alcance da medida, que aos poucos foi sendo adotada na Comunháo
Anglicana.

Juntamente com a Igreja Católica sao contrarios á inovacáo os cristaos


orientáis ortodoxos, sendo que o Santo Sínodo de Moscou se dirigiu á
Assembléia Geral do Conselho Mundial das Igrejas reunida em Nairobi
(Quénia) ao fim de 1975, exprimindo sua posigáo de desacordó e relevando
o fato de que razdes alheias á Revelacáo bíblica (o feminismo exagerado
e suas conseqüéncias) inspiram freqüentemente os fautores da ¡novagáo.

Na verdade, o que se deve propugnar é a igualdade, nao, porém,


a identidade entre o homem e a mulher. Esta deve cultivar suas caracte
rísticas próprias em clima de autonomía, sem todavía pautar seu compor-
tamento pelo modelo do homem.

Comentario: A qucstño da ordenaQáo sacerdotal de mu


lheres apresenta varias facetas, das quais merece destaque a
que se refere ao ecumenismo. Com efeito, a mesma questáo do
sacerdocio feminino tem sido colocada ñas diversas confissóes
de fé crista, recebendo solucóes diversas; essa pluralidade de
procedimentos pode abrir distancias ainda maiores entre os
cristaos. É o que preocupa os teólogos e pastores de modo
geral. A fim de proporcionar ao leitor urna visáo exata do
problema, proporemos abaixo urna síntese do histórico da
questáo. — A posicáo da Igreja Católica frente ao assunto já
foi explanada em PR 209/1977, pp. 202-213.

— 248 —
ORDENACAO DE MULHERES 17

1. Algumas datas significativas

A questáo da ordenagáo de mulheres é urna das expres-


sóes do movimento de promocáo da mulher que tem marcado
(militas vezes, com grande fruto) os últimos decenios da his
toria. Assim como famosas mulheres (tenham-se em vista
Golda Meir, Indira Gandhi...) tém assumido posigóes de
Governo nacional, assim também pergunta-se por que nao
poderiam as mulheres assumir o sacerdocio ministerial na
Igreja de Cristo.

1. O problema comegou a ser colocado no século XDC,


quando algumas comunidades congregacionalistas (de inspira-
gáo calvinista) nos Estados Unidos houveram por bem abrir
as mulheres o acesso ao pastorado.

As comunidades luteranas na Escandinávia seguiram tal


exemplo no séc. XX: o Parlamento da Noruega o fez em 1938
e o da Dinamarca em 1948. Quanto á Suécia, a questáo foi
assaz controvertida, como se depreenderá a seguir:

Pela primeira vez, a questáo foi levantada na Suécia de


manoira sistemática cm 1920. Em tal data, os bispos e teólo
gos luteranos suecos se mostraram favoráveis, de modo geral,
ao projolo do sacerdocio fcniinino. Todavía a opiniño pública
nao cstava preparada para acolher a idéia ; em conseqüéncia,
a mesma nao pode ser levada á execucáo.

Em 1946 o problema foi de novo colocado, em parte por


iniciativa do Parlamento sueco (é de recordar que na Suécia
a Igreja Luterana é a Igreja oficial do Estado). Solicitado
pelo Parlamento, o Sínodo da Igreja sueca designou urna co-
missáo de quatorze peritos encarregados de redigir um rela-
tório oficial sobre o assunto. Este foi publicado em 1950.
Dentro os. mombros dessa comissáo, dez se mostraram favo
ráveis ao sacerdocio feminino, assegurando nao haver objegáo
de principio nem razóes bíblicas a opor á idéia.

Todavía em 1951 sete dentre oito professores de exegese


do Novo Testamento das Faculdades de Teología de Lund e
Upsala entregaram a imprensa um comunicado que declarava
o sacerdocio das mulheres incompatível com os dados da S.
Escritura ; assim eram contraditadas as conclusóes do rela-
tório oficial anterior. Este novo texto, devido á iniciativa do
Prof. Antón Fridrichsen (cujo nome gozava de grande auto-

— 249 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

ridade), impressionou vivamente os bispos e teólogos lutera


nos da Suécia. Em conseqüéncia, pensaram varios destes em
instituir, para a mulher, um ministerio ou servigo especial,
de grande extensáo, distinto, porém, do pastorado ou do sacer
docio ministerial. A idéia teve o apoio de diversas personali
dades femininas da Igreja sueca, entre outras Margit Sahlin ;
todavía nño encontrou apoio por parte do Governo.

Paspados alguns anos, cm 1955, o Parlamento pediu aos


bispos que o Sínodo luterano convocado para 31 de agosto
de 1957 tomasse posicáo a respeito do projeto de lei que abria
as muflieres o acesso ao sacerdocio ministerial. Ora tal projeto
foi rejeitado aos 2/X/1957 por 62 votos contra 36.

A atitude do Sínodo desencadeou violentos protestos por


parte dos movimentos feministas suecos, que congregavam
800.000 membros e que nao haviam sido previamente consul
tados. Esse protesto encontrou eco favorável na opiniáo pública
e foi sustentado pela imprensa de modo quase unánime, inclu
sive por dois órgáos da Igreja Luterana sueca. Vasta campa-
nha foi desencadeada no intuito de alertar o público. O Governo
e o Parlamento decidiram convocar o Sínodo dos Bispos para
outubro de 1958 a fim de submeter-lho de novo o mesmo pro
jeto de lei sem alteracáo alguma. A escolha dos membros
— eclesiásticos o leigos — que participarían! do Sínodo, foi
orientada exclusivamente pelo intuito de obter a aprovacáo
do projeto ; os cronistas referem pressáo governamental e
manobras espurias destinadas entáo a dar ganho h tese do
Parlamento (até aue ponto isto terá de fato ocorrido, nao o
sabemos). Como ouer que seja, a assembléia do S;nodo contou
com maioria relativamente grande (orincipalmente entre os
delegados leigos) favorável ao sacerdocio das mulheres : em
conseqüéncia, mesmo antes dn abertura dos trabalhos já se
podiam prever os resultados fináis. Aos 27 de setembro de
195S. após de7esscis horas de debates, o projeto foi aprovado
por 69 votos contra 29.

Todavía esta decisáo nao pos termo á crise; muito ao con


trario. A opiniáo pública, de um lado, deu-se por satisfeita,
mas, de outro lado, viu-ss abalada e surpresa por táo rápida
reviravolta. Muitos luteranos cntraram em crise de conscién-
cia, julgando, em nomo das consciéncias e dos símbolos de fé
do século XVI, nao poder aceitar o sacerdocio das mulheres.
Em novembro de 1958, pois, constituiram em Upsala urna
«Frente Confessional» para lutar contra a nova lei e organizar

— 250 —
ORDENACAO DE MULHERES 19

no país urna campanha destinada a esclarecer os fiéis. Como


se sabe, porém, os protestos nada obtiveram, de modo que a
Suécia se tornou um dos países pioneiros da promogáo das
mulheres ao pastorado.

A Finlandia luterana posteriormente rejeitou a ordenagáo


de mulheres. Todavía estas propuseram voltar-se para a Suécia
ou para algum país vizinho, onde obteriam o pastorado.

As demais confissóes protestantes experimentaram, entre


os seus membros, hesitagóes e dúvidas diante da inovagáo — o
que bem se compreende desde que se leve em conta, por exem-
plo, a «Confessio fidei Scotiae» (Confissáo de Fé da Escocia),
que em 1560 acusava a Igreja Romana de fazer as mulheres
concessóes abusivas no tocante ao ministerio eclesial:

"Ás mulheres, ás quais o Espirito Santo nem permite que ensinem


na Igreja, os papistas permitem que administrem o Batismo" (W. NIsel,
"Bekenntnlsschriften und Kirchenordnungen..." München 1939, p. 111).

A praxe ¡novadora, apesar dos protestos, foi-se espalhando


por diversas comunidades metodistas e presbiterianas.

2. A problemática nao atingía o seu auge enquanto ficava


restrita ás denominagóes cristas que, com Lutero, rejeitaram
o sacramento da Ordem. O pastorado, ñas comunidades refor
madas por Lutero e Calvino, nao é sacramento, mas apenas
urna fungáo, que incluí pregagáo e servicos religiosos, todavía
nao comunica caráter ou participagáo especial no sacerdocio
de Cristo. Quando, porém, também as comunidades anglicanas
se voltaram com simpatía para a nova praxe, o problema se
tornou aínda mais ponderoso, pois tais comunidades afirmam
ter guardado a sucessáo apostólica. Na verdade, em 1971 e
1973, o bispo anglicano de Hong-Kong, tendo o consentimento
do Sínodo local, ordenou tres mulheres; em julho de 1974, na
cidade de Filadélfia (U.S.A.) deu-se a ordenacáo de onze
mulheres — fato que posteriormente foi declarado nulo pela
Cámara dos Bispos. Em junho de 1975, o Sínodo Geral da
Confissáo Anglicana no Canadá, reunido em Québec, aprovou
o acesso das mulheres ao presbiterado. Finalmente, o Sínodo
Geral da Tgreja Anglicana da Inglaterra tomou idéntica de-
cisáo também em 1975.

Aos 9 de julho de 1975, o Dr. Donald Cantuar, arcebispo


de Cantuária, informava o Papa Paulo VI «a respeito da
lenta e constante difusáo, dentro da Comunháo Anglicana, da

— 251 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

conviccáo de que nao há objecáo fundamental contra a orde-


nacáo sacerdotal das muiheres». Acrescentava, porém : «Toda
vía estamos persuadidos do fato de que qualquer resolugáo
nessa materia poderia ser obstáculo a ulteriores progressos
no caminho para a unidade, que Cristo quer para a sua Igreja».

Aos 30 de novembro de 1975, o S. Padre Paulo VI res


pondía :

"Como se entende, Vossa Graga está bem a par da posigáo da Igreja


Católica a tal propósito. Esta sustenta nao ser admisslvel ordenar muiheres;
e isto, em virtude de razoes fundamentáis. Tais razóes vém a ser: o
exemplo de Cristo, consignado pelas Escrituras, o qual escolheu seus dis
cípulos táo somente entre os homens; a constante prática da Igreja, que
imitou Cristo escolhendo tao somente homens; o magisterio vivo da Igreja,
que lógicamente estlpulou que a nao ordenagáo de muiheres está em con
sonancia com o plano de Deus a respeito da Igreja".

Paulo VI, a seguir, exprimía a sua preocupacáo com as


conseqüéncias acarretadas pela nova prática para o movi-
mento ecuménico :

"Com pesar devemos reconhecer que a nova orlentacSo tomada pela


Comunháo Anglicana referente á admissSo de muiheres ao sacerdocio minis
terial nao pode deixar de introduzir nesse diálogo um elemento gravemente
embarazoso, o aual deverá ser levado em conta por todos aqueles que
estSo comprometidos com esse diálogo".

Mais : aos 23 de marco de 1976, Paulo VI voltava a raa-


nifestar-se sobre o assunto, dirigindo-se nestes termos ao
arcebispo de Cantuária :

"Já trocamos cartas a respeito e ti vemos a ocasiSo de exprimir a


convlccáo católica, de modo ainda mais exaustivo, ao bispo John Howe
auando velo saudar-nos da vossa Darte... Sentimo-nos tristes quando nos
defrontamos com esse novo obstáculo e essa ameaca ao longo da nossa
caminhada".

A posigáo da Igreja Católica, como se vé, nao se funda


menta em pressupostos de cultura ultrapassada ncm resulta
de obscurantismo ou do nao conheci mentó dos modernos es-
tudos de antropología ou psicología, mas, sim, de urna reflexáo
«sobre o plano de Deus referente á Igreja»; trata-se de «razóes
realmente fundamentáis», que tém suas raizes ñas Escrituras,
na prática da Igreja e no magisterio vivo da mesma.

3. Juntamente com a Ipreja Católica, mostraram-se,


pelos mesmos motivos, contrarios á ordena^áo de muiheres
os cristáos ortodoxos da Inglaterra, cujo arcebispo, Atenágo-

— 252 —
ORDENACAO DE MULHERES 21

ras de Tiatira, manifestou publicamente a sua recusa. De


modo geral, alias, as comunidades orientáis, que conservam
grande fidelidade á Tradigáo e véem na Ordem um verdadeiro
sacramento, sao desfavoráveis á ordenacáo de mulheres.

Em Nairobi (África), novembro-dezembro 1975, realizou-se


a última Assembléia Geral do Conselho Mundial das Igrejas
(protestantes e ortodoxos orientáis). Os participantes deste
ccrtame mostraram-se, em maioria, favoráveis ao sacerdocio
ministerial das mulheres : dirigiram mensagem as comunida
des que já adotaram tal praxe, exortando-as a nao se deterem
na caminhada por causa de motivos ecuménicos; antes, pro-
puseram-lhes continuem o diálogo sobre a plena participagáo
das mulheres no ministerio sacerdotal.

A Igreja ortodoxa russa, porém, manifestou-se contraria


a tal atitude protestante adotada em Nairobi. O Santo Sínodo
de Moscou houve por bem escrever urna carta ao Presidente
e ao Secretario do Conselho Mundial das Igrejas, em que
propunha os seguintes pontos :

A vocacáo universal á santidade, á heranga da vida eterna


e ao apostolado nao significa que todos sejam chamados ao
•ministerio sacerdotal sacramental. A sabedoria divina de Cristo
indicou a solucáo do problema escolhendo táo somente homens,
como os doze Apostólos. Nao se pode admitir que, assim pro-
cedendo, o Senhor tenha feito urna concessáo ao espirito da
sua éooca. O S;nodo russo nao vé obiecóes á solucáo do pas-
torado feminino adotada por Comunidades que nao reconhecem
o sacerdocio como sacramento. Todavía jul^a que tal inovacáo,
como também as linhas diretrizes emanadas de Nairobi, pre-
judicam a causa da unidade crista. O Sínodo propóe também
serias reservas 'á adocáo de criterios nao religiosos ou estra-
nhos á Revelacáo Divina, para dirimir a questáo do sacerdocio
das mulheres.

Ncsta carta do Sínodo de Moscou, merecem ser salicntados


dois pontos importantes :

a) para as comunidades protestantes, o problema do


ministerio sacerdotal das mulheres se póe em termos diversos
do que ocorre no Catolicismo e ñas comunidades orientáis
•ortodoxas. Com efeito, para o Protestantismo, o sacerdocio
(ou melhor: o pastorado) nao é sacramento, mas é urna fun-
gáo especial que o cristáo pode exercer por efeito mesmo do
,seu Batismo ;

— 253 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/197"

b) o Sínodo Russo chama a atengáo para o secularismo


no qual se apoia a posigáo inovadora. Principalmente na Sué-
cia verifica-se que o pastorado das mulheres resultou de pres-
sáo do Parlamento respectivo, pressáo inspirada nao por cri
terios bíblicos ou teológicos, mas, sim, por razóos sociológicas
e outras heterogéneas á própría Palavra de Deus.

4. Por sua vez, os chamados «Velhos Católicos» (cristáos


que se separaram da Igrcja Romana cm 1870, depois que o
Concilio do Vaticano I definiu o primado do Romano Pontífice)
tomaram posicáo análoga á da Igreja Católica, como se de-
preende da declaracáo abaixo :

"A Conferencia Internacional dos Eispos 'Velhos Católicos' da UniSo


de Utrecht, de acordó com a anliga Igreja unida, faz pública a sua oposicáo-
á ordenacáo sacramental de mulheres no ministerio católico-apostólico de-
diácono, sacerdote e bispo.

O Cristo, Senhor da Igreja, escolheu, pelo Espirito Santo, doze hemens.


para serem seus apostólos com a missüo de continuarem a sua obra de
salvacao do mundo.

As Igrejas Católicas do Oriente e do Ocidente chamaram táo somente


homens ao ministerio sacramental apostólico.

A questáo da ordenacáo das mulheres toca a ordem fundamental e


o misterio da Igreja.

As Igrejas que guardaram a continuidade com a antiga Igreja unida


e sua ordem sacramental e ministerial, deveriam dobater conjuntamente a:
questáo da ordenacáo sacramental das mulheres, plenamente conscientes,
das eventuais conseqüéncias que poderiam resultar de decisdes unüaterais..

Utrecht, Bern, Bonn, 7 de dezembro de 1976

Arcebispo Marinus Kok


Bispo Léon Gauthier
Bispo Joseph Brinkhues".

Esta declaracáo foi aceita por todos os bispos da Confe


rencia Episcopal Internacional da Uniáo de Utrecht, com ex-
cecáo de urna só voz.

Diante das decisóes adotadas pelas comunidades protes


tantes e frente á posicáo das comunidades ortodoxas orientáis,,
entende-se que se fazia necessário um pronunciamento da
Igreja Católica sobro a ordenado do mulheres. Tal parecer
deveria ser claro e exaustivo. Foi o que motivou a Declaragáo
«ínter insigniores» já apresentada e comentada em PR
209/1977, pp. 202-213. Em poucas palavras retormaremos, a.
seguir, o conteúdo desse documento.

— 254 —
ORDENACÁO DE MULHERES 23

2. A posi;6o da Igreja

A Declaragáo «ínter insigniores» baseia a recusa do sa


cramento da Ordem as mulheres no exemplo de Cristo e no
dos Apostólos, que durante quase vinte sóculos foram tomados
como norma pelas geragóes cristas. Sao estes fatos que fazem
que «a Igreja, por fidelidade ao exemplo do seu Senhor, nao
se considero autorizada a admitir mulhorc;; a ordenac.üo sa
cerdotal» (Declaragáo citada, Introducto).

Após apresentar a fundamentado bíblica e teológica em


favor da clásstca posigáo, a Declarado considera os argumen
tos que hoje se propóem para justificar o sacerdocio feminino.
Geralmente estes se derivam do desejo de por termo a certa
discriminagáo sexual que durante sáculos colocou a mulher
em plano inferior ao do homem; ora a ordena;áo sacerdotal
seria um privilegio outorgado ao homem, mas recusado ás
mulheres... Em resposta, note-sc que, na verdade, o minis
terio sacerdotal nao é promo?áo honrosa, mas é servigo,...
servigo prestado em nome do Senhor e por vocagáo divina,
sem que a criatura possa apelar para algum direito ao exer-
cício do mesmo.

Nao há dúvida de que as reivindicagóes dos movimentos


feministas tém contribuido para agugar o problema entre os
cristáos. Tais movimentos pretendem abolir, lanío quanto pos-
sível, as diferengas entre o homem e a mulher, confundindo
igualdade com identidade; tendem assim a fazer da mulher
a copia do homem, mas acabam acentuando mais ainda o que
procuram extinguir, ou seja, a pretensa superioridade do varáo,
pois fazem que o homem continué sendo o modelo da mulher.

Somente a procura da igualdade dentro das diferengas e


da complementaridade pode ocasionar para a mulher urna justa
autonomía, assim como o desenvolvimento das qualidades es
pecíficamente femininas da sua personalidade. Foi neste sen
tido que Cristo quis a promogáo da mulher na Igreja : seja
plenamente mulher, colaborando com os sacerdotes, nao,
porém, assumindo o ministerio sacerdotal.

A propósito veja-se P. Galot, "Sacerdozio e promozione della donna",


em "La Civiltá Cattolica" 3039, 5/11/1977, pp. 218-235, como também "La
Documentation Catholique" n? 1704, 5-19/IX/1976, pp. 769-780: n? 1714
20/11/1977, pp. 158-175.

— 255 —
De novo Erich von Düniken :

"aparicoes"

Em sínlese: Erich von Dániken, autor de "Eram os deuses astronau


tas ?", publicou mais um livro: "Aparigoes". Atribuí este fenómeno, regis
trado pela literatura mundial, a impulsos provenientes de habitantes de
outros planetas. E aproveita a ocasiao para deturpar a mensagem crista,
negando a veracidade dos Evangelhos e interpretando tendenciosamente
certos fatos da historia da Igreja.

Na verdade, E. von Dániken nao é um especialista em historia, ar


queología ou física, mas é um viajante que colecionou dados, comecou a
imaginar teorías fantasistas a respeito e tem publicado suas teses, recor-
rendo mesmo a documentos falsificados ; a fraudulencia ocorrida no livro
"Eram os deuses astronautas ?" valeu-lhe prisáo e multa. Vé-se, pois, que
o escritor nao lem autoridade para dissertar sobre os assuntos que ele
aborda, máxime quando se trata de Biblia.

A propósito da explicacáo dada por E. von DSniken ao fenómeno das


aparicSes, deve-se dizer: a fé católica nao recusa a hipótese de haver
habitantes em outros planetas; todavía é gratuito e fantasista relacionar
esses hipotéticos habitantes com os fenómenos que a fé aponta como
aparlcóes do Senhor ou dos santos. O autor parece vítima de certa obses-
sáo pseudocientlfica, a qual já Ihe custou incómodos, porque derivou para
a falslficacSo e a deturpacao da verdade.

A leitura, aínda que superficial, de "AparicSes" permite ao leitor per-


ceber que se trata de um trabalho de fíccao preconcebidamente anticrista,
produzida por um espirito singularmente condicionado. Nao se leve, pois,
o livro para o plano da ciencia propriamente dita.

Comentario : Tornou-sc famoso entre nos o escritor suíco


Erich von Dániken, autor dos livros «Eram os deuses astro
nautas ?» e «De volta 'as estrelas». Em 1976 apareceu em por
tugués mais urna obra do escritor, intitulada, esta, «Apari"6es»
(Erscheinungen). Embora os livros de Erich von Dániken
sejam o produto de fecunda fantasía comparável á de um
romancista, conseguem impressionar o público, que os leva a
serio, chegando a conceber dúvidas varias no setor da fé. Eis
por que vamos dedicar as páginas subseqüentes ao comentario
da figura do autor e de alguns tópicos da sua obra «Apari-

— 256 —
«APARigOES» DE E. VON DANIKEN 25

cóes», no intuito de propiciar o discernimento de verdade e


erro em tal livro.

Comegaremos por expor sumariamente

1. O conteúdo do livro

1. Após haver catalogado e analisado numerosas visóes


e aparicóes narradas tanto em ambientes cristáos como em
nao cristáos, Erich von Dániken afirma que esses fenómenos
nao sao produtos da alucinagáo ou da imaginacáo dos videntes;
mas também nao reconhece que se devam a intervencóes do
Senhor Deus, da Virgem María ou dos Santos: julga, sim, que
se devem a «impulsos extraterrestres», que tém sua origem
mais remota em habitantes de outros planetas; estes se comu-
nicam com os homens que na térra estejam aptos a captar
impulsos do além. Esses impulsos provocam a reagáo do cere
bro que chamos «visáo» (atribuida a urna «aparicáo») e que
toma as características próprias da cultura religiosa ou cien
tífica do «vidente»; os árabes assim véem Maomé e sua fi-
Iha Fátima; os hindus véem Brama, Vishnu ou Shiva; os
católicos véem Jesús, María, anjos ou santos... E dizem todos
que receberam urna mensagem da parte do próprio Deus,
quando na verdade estáo sendo impulsionados por seres de
outro planeta. Até mesmo a ciencia dos genios é explicada
por Erich von Daniken a partir de tais premissas, como se
depreende do seguinte texto típico :

"Todas as pessoas específicamente treinadas sSo suscetlveis de visSes,


existindo ainda casos especiáis, poucos na verdade, em que os extraterre-
nos encontram 'receptores-do-século', genios cuja massa encefálica com
suas células clnzentas parece estar vibrando á espera destes impulsos.

Leonardo da Vinci é um exemplo destes receptores... É por todos


conhecido como pintor, escultor e arquiteto. Poucos sabem no entanto que
ele ocupou urna poslcáo de Igual destaque como técnico e dentista...

Nao deve, pois, o cerebro de Leonardo da Vinci ter armazenado urna


quantldade incrível de saber, anunciado através de impulsos cósmicos e
inovacoes de energías desconhecidas? Que mundos separam seu genio de
artista de suas pesquisas e de seus planos ?

Genio nao pode ser apenas fruto de aplicacáo e inteligencia apurada.


Genio é talvez, ácima de tudo, a capacidade de poder abrir um cerebro
altamente treinado a energías extraterrenas. Só os extraterrenos sabem a
quantídade de saber secular que pode ficar acumulada ñas células cinzen-
tas. Se nao o soubessem, nSo poderiam também transformar em centelha
os lampejos de unr genio" (p. 226s).

— 257 —
26 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

2. O autor, no decorrer do livro, reafirma a sua tese,


germinalmente já exposta em «Eram os deuses astronautas ?»,
segundo a qual habitantes de outros planetas, há tres milhóes
de anos, estiveram na térra e «enxertaram nos hominídeos
características de tipo e índole próprias...; os cosmonautas
extraterrestres transmitirán! também as suas enormes facul-
dades de percepcáo extra-sensorial, exatamente segundo a
sua imagem» (p. 220s).

O autor se revela extremamente fecundo em imaginagáo.


Conhece com precisáo os costumes e as facanhas dos habitan
tes de outros planetas, como se tivesse privado com eles.
Tenha-se em vista a setjuinte passagem :

"Seres extraterrestres visitaram também sistemas solares e, em pla


netas que Ihes pareceram apropriados, deíxaram chantóes, 'segundo a sua
imagem'. Alguns grupos de chantóes tém urna vantagem sobre nos: logra-
ram domar, desenvolver e treinar a fera 'cerebro'... antes de nos conse
guí rmos tal proeza.

... Por que os extraterrestres, superinteligentes, ao partir da térra,


aqui nao deixaram nenhum aparelho que, apertando-se-lhe um botao, esta-
belecerá, a qualquer hora, o contato entre os que aquí ficaram ?

Bem, nunca, em época alguma, os astronautas levaram em suas via-


gens aparelhagem pesada, conquanto nSo fosse necessária á navegacáo
ou ao funcionamento de sua nave espacial. No caso em apreco, deverlam
ter levado centenas de aparelhos transmissores e receptores, já que brin-
caram de levar e implantar a inteligencia em mullos e muitos lugares do
universo. De certo, nao nos consideraran! como sua obra prima, o coroa-
mento único de sua criagáo da inteligencia" (p. 224s).

Estes trechos mereciam ser aqui transcritos para se poder


aquilatar o estilo e o modo de proceder do autor.

3. Aínda se deve observar que no capítulo 2» do seu


livro, Erich von Dániken tenta destruir toda a mensagem
crista, impugnando a veracidade dos Evangelhos, a pessoa de
Jesús Cristo Deus e Homcm, a historia da Igreja, etc. Qucm
lé a obra de Erich von Dániken, principalmente os seus dois
capítulos iniciáis, há de ficar surpreso com a leviandade e
sumariedade do autor aó abordar assuntos serios de herme
néutica e historia. Sem se dar ao trabalho de penetrar no
ámago dos textos e dos acontecimentos, sem pesquisar o que
propriamente signifiquen!, Erich von Dániken Ihes impinge
as suas teses preconcebidas, pois na verdade lhe interessa, em
toda e qualquer hipótese, desfigurar os escritos bíblicos, prin
cipalmente os do Novo Testamento, e a historia do Cristia-

— 258 —
«APARIQOES» DE E. VON DÁNIKEN 27

nismo. Apaixonado como é, o autor afirma proposigóes erró


neas, contanto que sejam de conveniencia para os seus pro
pósitos. Eis, a título de ilustragáo, alguns desses erros revela
dores de um autor que fala sem grande conhecimento de causa:

"O evangelista Marcos menciona Nazaré cerno local do nascimenlo


de Jesús" (p. 74). — Onde menciona ? Nao há resposta.

"Com a ajuda dos judeus, conhecedores do local (horto das Oliveiras),


os romanos váo em busca do Nazareno" (p. 85). — Nao os romanos, mas
os próprics judeus...

"Maria, a serva fiel, é mencionada como máe. O pai, o carpinleiro


José, nao é o pai verdadeiro, pois em 'imaculada conceicao', Maria con-
cebeu do Espirito Santo" (p. 75). — O autor nao sabe o que é a "imaculada
conceicáo" !

"Em local ignorado, Jesús nasce como filho natural da serva Maria.
Desprovida de meios adequados, María... leva o filho á escola monástica
no liíorai do Mar Morto" (p. 83). — Em local ignorado? Ou em Belém?...
Mar Morto : onde está mencionado isto ?

Á p. .121 transcreve o autor um pretenso documento de Monse-


nhor vión:

"Com a autoridade que, para tanto, nos fo! outorgada pelo Concilio
Tridentino", e logo á guisa do explicado acrescenta : "(= Inspiragáo pela
Sagrada Escritura)" — o que ó confuso e inconsistente. O autor quis
exolicar o que nao entendo, como se a auloridade de um Concilio fosse
idéntica á inspiracao bíblica.

A p. 82. o autor cita o apócrifo "Testamento de José" como fonte


judaica pré-cristi dondo se terso inspirado as passagens evangélicas de
Mt 25,34-36... Ora hoie em dia se sabe que a obra judaica dita "Testa
mento dos doze Patriarcas", da qual faz parte o "Testamento de José",
sofreu Influencia do Cristianismo; por isto é arbitrario dizer qus inspirou
escritos evangélicos.

Após esta breve apresentacáo do conteúdo do livro, pas-


somos a examinar alguns dados biográficos do autor.

2. Quem é Erich. von Dániken ?

Erich von Daniken nasceu em Zofingen na Suíga aos


14/IV/1935. Fez seus primeiros estudos em colegio dos padres
jesuítas, onde comecou a aprender os rudimentos da doutrina
católica. Certo dia, quando escoteiro, tirou dinheiro da caixa
do respectivo grupo; para encobrir esse furto, praticou outro
roubo. Foi entáo descoberto e condenado a quatro meses de

— 259 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

prisáo. Durante os anos de estudos, lia assiduamente escritos


de astronomía, arqueología, mitos, lendas e também ... a
Biblia. Resolveu entáo viajar para o Egito. A fim de conse-
gui-lo, pós-se a trabalhar como aprendiz de hoteleiro em Berna;
reuniu assim algum dinheiro, que ele levou em viagem jun
tamente com joias que um amigo lhe tinha confiado para
serem entregues a um destinatario em Alexandria. Ora Erich
nem entregou essas joias a quem de direito, nem voltou com
elas. Em conseqüéncia, sofreu um processo e dezesseis meses
de prisáo. A seguir, vagueou pela Suíga e a Inglaterra. Foi
auxiliar de cozinha num navio da rota Rotterdam-Nova Iorque;
fez-se gargom de bar, operario na fábrica de sopas Knorr,
chefe de restaurante no Canadá e gerente do Hotel Rosenhuegel
em Davos (Suica). Todavía, ao exercer esses diversos oficios,
Erich von Dániken dizia sempre que sua missáo era outra e
que ele tinha urna grande mensagem a revelar. Finalmente
teve a grande «visáo» que lhe deu a certeza de que astronau
tas vindos de outros planetas estiveram na térra durante a
pré-história da humanidade. Explicando mais tarde esse fenó
meno a reportagem da revista alema «Der Spiegel», Erich
von Dániken chamava-o «percepgáo extra-sensorial»; dizia que,
quando experimenta esse tipo de intuigáo, sai fora do tempo
e vé simultáneamente o passado, o presente e o futuro; inclu
sive isto lhe permite saber de que maneira vai morrer.

Mais ainda: estimulado por cssa vsáo, Erich decidiu fazer


novas pesquisas e viagens para descobrir vestigios dos astro
nautas sobre a face da térra; para tanto, contraiu vultosas
dividas... Entrementes foi escrevendo o seu livro «Eram os
deuses astronautas ?», no qual exprimía a sua tese fundamen
tada sobre aparentes documentos. O livro, publicado em 1968,
fez enorme sucesso, pois naquela data os Estados Unidos e a
Rússia estavam Iancando foguetes á Lúa — o que despertava
o interesse do público mundial para essas faganhas. Contudo
o sucesso de Erich von Dániken foi prejudicado, pois os crí
ticos denunciaran! no seu livro desfalque, fraude e falsifica-
gáo de documentos. Isto fez que Erich von Dániken fosse mais
urna vez condenado pelos tribunais ; contraiu tres anos de
prisáo e urna divida de 500.000 francos suicos. O golpe foi
duro, mas o escritor o superou com relativa facilidade, pois
já se enriquecerá com a venda do livro «Eram os deuses astro
nautas ?», que lhe havia rendido 1.250.000 marcos; ao mesmo
tempo, o novo livro «De volta as estrelas» comegava a ser
vendido com rendimento análogo ao do primeiro. — De resto,
o próprio Erich von Dániken, na entrevista dada ao periódico

— 260 —
«APARICOES» DE E. VON DANIKEN 29

«Der Spiegel», confessou que varias das afirmagóes de seus


escritos eram falsas e fantasistas.

Mais recentemente, sem ter mudado o seu estilo, Erich


publicou «Erscheinungen» (Aparigóes). De antemáo o leitor
saberá que pode haver ai nao somente divagagóes fantasistas,
mas afirmagóes distorcidas e pouco verídicas. Erich nao é
especialista ñas disciplinas que ele aborda (arqueologia, his
toria, religiáo...), mas é, na melhor das hipóteses, um jor-
nalista ou cronista do sensacional; ao abordar seus assuntos,
procede com leviandade, «chuta» (como se diría na giria), á
semelhanga de um macaco em casa de louga; destituido de
senso crítico, vai impingindo suas teses, custe o que custar.

Os observadores do curriculo de vida de Erich von DánUcen


sao propensos a afirmar que se trata de um paranoico. Na
verdade, esses dados biográficos e as expressóes escritas de
Erich revelam urna personalidade doentia, empolgada por
idéias fixas e imaginagáo fértil ou sonhadora; em conseqüéncia,
nao merece crédito nem tem autoridade para tratar dos assun
tos que apresenta ao público.

Passemos agora á consideragáo dos principáis problemas


langados pelo autor.

3. Apari$óes e milagres

Antes do mais, convém dizer algo sobre o tema posto em


realce pelo título do livro.

3.1. Aparigóes

1. O autor cataloga grande número de aparigóes e visóes


narradas através dos séculos da historia da Igreja e de outras
sociedades religiosas. — Na verdade, o fenómeno das apari-
Cóes (fora as que as S. Escrituras referem) é de peso relati
vamente secundario na teología católica. Algumas podem ser
consideradas como auténticas manifestagóes de Cristo, da Vir-
gem María ou dos santos, ao passo que outras sao evidente
mente espurias. Entre estas, citem-se Garabandal, El Palmar
de Troya, Natividade (RJ, no Brasil)...; entre as primeiras
váo mencionadas Lourdes, Fátima, Paray-Le-Monial... É

— 261 —
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

pelos frutos que se conhece a árvore; se o fenómeno se produz


cm contexto do auténtica oragáo, simplicidade, humildade, e
redunda em beneficios espirituais e corporais seguramente
comprovados, a Igreja aceita que possam ser intervencóes do
Senhor ott dos santos em vista de avivar a piedade e a peni
tencia entre os fiéis; todavía nunca tais aparicóes se tornam
objeto do fé obligatoria na Igreja. — Evidentemente, outras
«aparicóes» ocorrentes em ambiente de charlatanismo ou his
teria ou em contradicáo com os artigos da fé revelada sao
rejeitadas pela Igreja como inauténticas. A parapsicología e
as ciencias afins explicam numerosos fenómenos de «aparigóes»
que outrora eram atribuidas ao Além. Daí a reserva crescente
das autoridades eclesiásticas frente a tais feitos extraordinarios.
A vida crista nao necessita desses portentos para reconhecer
sgu significado ou seu roteiro; as verdades reveladas pelos
Profetas ou pe'o Senhor Jesús sao suficientes para levar o
homem á plenitude da perfeigáo.

Quanto as aparigóes bíblicas, háo de ser entendidas em


consc'éncia com o género literario do respectivo livro bíblico.
Em varios casos, a análise crítica do texto mostra que o autor
sagrado quis realmente referir-so a urna intervencáo sensível
o extraordinaria do Senhor Dcus na historia dos homens; prin
cipalmente as aparicóes de Cristo ressuscitado tém importan
cia objetiva, visto que serviram para comprovar um aconteci-
mento fundamental da historia do Cristianismo: a ressurreigáo
do Salvador. Todavía a Igreja nao se empenha por nenhuma
explicagáo da maneira como tenham ocorrido os fenómenos
de aparigóes: nao está excluido que alguns patriarcas ou pro
fetas bíblicos tenham sido agraciados táo somentc por alguma
visáo mental ou interior (visáo que nao era projecáo subjetiva
ou doentia da fantaisa, mas auténtico efeito da agáo divina
sobre o vidente). A teología católica julga que se deve manter
sobria no estudo do visóos o apnriróos.

2. Quanto á explicagáo dada por E. von Daniken,


observe-se :

a) a fé católica nada tem a opor k tese de que haja


habitantes em outros planetas. A Biblia e a Tradigáo nao se
manifestam a propósito. Há teólogos que julgam plausível tal
idéia, pois que seria harmonioso houvesse seres inteligentes
esparsos pelas galácias para reconhecer e louvar a grandeza
do Criador. O ser humano é o pontífice ou mediador nato
entre a materia e o Senhor Deus.

— 262 —
«APARICOES» DE E. VON DÁNIKEN 31

b) A associagáo que E. von Dániken faz entre habitantes


de outros planetas e visóes ou aparigóes na térra é gratuita,
fantasista e rebuscada. A sabedoria manda aguardemos novos
progressos da astronomía e das ciencias em geral para que
seja possível um pronunciamento a respeito do romance de
ficcáo assim proposto pelo autor suíco.

Em qualquer hipótese, porém, nao se deveria excluir a


possibilidade das manifestagóes extraordinarias de Deus aos
homens que sao chamadas «aparigóes» ou «visóes» (embora
meregam sempre ser encaradas com sobriedade).

3.2. Milagros

Á p. 141, em meio a varias ponderacóes sobre milagres,


diz o autor que estes tém explicagáo... Desta forma esvazia
o conceito de milagre, associando-o simplesmente a ignorancia.
Na verdade, segundo o escritor, a ciencia elucidaría todos os
milagres. Estas afirmagóes exigem proponhamos com clareza
o que, em linguagem católica, se entende por «milagre».

Para que se possa falar de milagre, tres condigóes háo


de ser preenchidas:

1) trate-se de um fato extraordinario...

2) totalmente inexplicável pela ciencia contemporánea


ao fato...

3) realizado em contexto de reta e pura piedade, como


resposta ou sinal de Deus para as pessoas que o pediram.

Muitos estudiosos se detém apenas na característica do


milagre como «fato extraordinario». Hoje a teología acentúa
muito a nota bíblica de «sinal» (scmeioti, em grego); o milagre
é urna resposta de Deus a homens colocados em determinada
situacáo de inseguranga ou angustia e desejosos de urna inter-
vengáo marcante e clara da parte do Senhor; o milagre é essen-
cialmente relativo a esse determinado contexto de vida; jamáis
deve ser entendido isoladamente. Para que tal sinal possa real
mente ser atribuido a Deus, requer-se que as ciencias huma
nas nao o possam explicar nem vejam brecha para qualquer
explicacáo científica; desde que haja a mais tenue possibili
dade de elucidagáo científica, tal fato já nao interessa á teo-

— 263 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

logia. Doutro lado, basta que o fato nao seja explicável pela
ciencia dos homens contemporáneos ao fato, ou seja, basta
que hoje a ciencia, aplicando-se com afinco ao estudo do por
tento, declare: «Nao há explicagáo nem se vé como chegar
a urna elucidagáo de tal fenómeno».

Estes dados simplificam muito a caracterizacáo dos fatos


tidos como milagros : desde que haja explicagáo científica para
os mesmos, a Igreja nao mais os considera. Na verdade, a
Igreja nao faz questáo de descobrir e apregoar milagres no
decorrer da sua historia, ou seja, posteriormente aqueles des
critos pelos livros bíblicos. Sabe-se que Deus se quis revelar
aos homens no decorrer da historia da salvagáo (desde Abraáo
até Jesús Cristo); após Jesús Cristo nao há revelagáo de Deus
que tenha caráter universal e obrigatório para a fé dos cristáos.
Nao há dúvida, até hoje o Senhor Deus realiza sinais porten
tosos ou milagres para falar mais persuasivamente aos homens;
todavía esses milagres nada acrescentam ao conteúdo da fé
revelada.

4. Veradcfade dos Evangelhos

Segundo E. von Dániken, os Evangelhos nao merecem


crédito, visto estarem cheios de contradigóes.

A propósito PR tem publicado artigos diversos ; veja-se,


por exemplo, 91/1967, pp. 282-290; 97/1968, pp. 18-28;
108/1968, pp. 503-515.

Sumariamente pode-se dizer o seguinte:

1) Os Evangelhos nao sao crónicas (ou reportagens) no


sentido moderno da palavra. Mas vém a ser o eco escrito da
pregagáo dos Apostólos ocorrida nos primeiros decenios após
a Ascensáo do Senhor. Ora a pregagáo tinha em mira os as
pectos vitáis e salvíficos dos feitos e dos dizeres de Jesús
Cristo; narrava, sim, dados históricos, de tal maneira, porém,
que fosse realgado o significado existencial de tal conteúdo.
É o que explica as diferengas secundarias que a crítica fácil
mente descobre ao comparar entre si os textos dos evangelistas.

2) Esta verificagáo, porém, está longe de significar haja


nos Evangelhos narragóes ficticias ou infiéis á realidade his
tórica. E isto por varios motivos :

— 264 —
«APARIC6ES» DE E. VON DANIKEN 33

a) o controle hostilmente exercido pelos judeus e pagaos


sobre a pregagáo dos Apostólos era tal que qualquer mentira
ou desonestidade a respeito dos fatos principáis da vida de
Jesús teria sido ¡mediatamente denunciada. Os arautos da
Boa-Nova de Jesús eram perseguidos por adversarios que
aproveitariam qualquer deslize ou fraudulencia para despres
tigiar esses pregadores. Tenha-se em vista, entre outros, o
caso típico ocorrido pouco depois da Ascensáo do Senhor, con
forme At 4, 13-21 :

Os Apostólos, presos e levados aos juízes de Israel ein


Jerusalém, foram por estes intimados a se calarem. «Respon-
deram-lhes entáo Pedro e Joáo : Julgai se é justo aos olhos
de Deus obedecer mais a vos do que a Deus. Pois é impossível
deixarmos de falar das coisas que temos visto e ouvido»
(v. 19s).

A mesma vigilancia hostil se exercia nos ambientes judeus


e pagaos em que os Apostólos pregavam. Se, nao obstante, os
feitos mais característicos da vida de Cristo (especialmente a
sua ressurreigáo) puderam ser transmitidos de geragáo a ge-
ragáo sem contradigáo decisiva, isto leva a supor fatos reais,
aos quais nada se podía contrapor.

b) Os próprios Apostólos faziam questáo de nao ser


senáo testomunhas de fatos por eles vistos e de palavras por
eles ouvidas. É importante verificar a freqüente ocorréncia
da palavra «testemunha» no livro dos Atos dos Apostólos :
At l,21s : 2,32 : 3,15 : 5,31s ; 10,39-41 ; 13,30s ; 22,15 ; 26,16 ;
cf. IPd 5.1: ICor 15.5-7; Le 24,48. — Quem inventasse, seria
fácilmente denunciado e condenado.

c) Os Apostólos, conscientes dos perigos de deturpacáo


da mensagem, eram ciosos de que se guardasse intato ou incó
lume o depósito da Tradieáo que eles haviam recebido de Cristo
e que eles apregoavam ñas diversas regióes do mediterráneo.
Nao toleravam o mínimo retoque a esse depósito; cf. Gl l,8s;
2Ts 2,2; lTm 4,6s; 6,3s.l3s.2O; 2Tm 2,2...

Por sua vez, aquilo que os Apostólos pregavam era a cris-


talizagño da fé das primeiras comunidades cristas formulada
pouco depois da Ascensáo do Senhor. Tenha-se em vista, por
exemplo, a profissáo de fé consignada por Sao Paulo em
ICor 15,3-9 e, conforme os críticos, datada dos anos 30-36
ou 33-39.

— 265 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

As digressóes fantasistas em torno da vida e da doutrina


de Cristo foram recolhidas na literatura apócrifa; esta, sim,
tem evidente caráter romanceado e imaginoso — muito diverso
do estilo dos Evangelhos canónicos — e nunca foi reconhecida
pela Igreja como auténtica. A triagem entre literatura canó
nica e literatura apócrifa é sinal de que os pastores da Igreja
antíga sabiam distinguir entre a genuina revelagáo do Senhor
Deus e as estórias forjadas pela piedadc popular.

5. O Cristianismo e outras religjoes

1. Erich von Daniken se compraz em afirmar que o


Cristianismo nao é senáo o eco de conceitos e práticas que
se encontram também em outros sistemas religiosos. As
pp. 104-106 cita textos bíblicos \ que ele coloca em paralelo
com trechos de «outras Escrituras Sagradas», baseando-se
para tanto em estudos de Robert Kehl, que afirma :

"A Biblia nao contém um só pensamento religioso ou moral que já


nao estaria contido, de uma ou de outra forma, ñas sagradas escrituras
tanto de religioes mais antigás como de contemporáneas" (p. 101).

A propósito deve-se dizer o seguinte :

Existe um senso religioso i nato em todo homem, que se


manifesta de maneira análoga em todos os homens e povos.
É esta a chamada «religiosidade natural» : esta reconhece
que existe a Divindade, á qual o homem deve prestar adoragáo
e obediencia, e da qual espera a consumacáo ou plenitude.
Certos atos de culto adotam os mesmos símbolos, porque há
gestos e objetos que, por sua própria índole, sao aptos a me-
lhor exprimir o que vai no íntimo da alma do homem.

Existe também um senso moral que ó básicamente o


mesmo em todos os homens e que acompanha o senso reli
gioso. Por isto todos os individuos procuram praticar o bem,
evitar o mal e seguir as conclusóes derivadas destas duas nor
mas básicas.

É por isto também que em todas as crencas religiosas há


expressóes paralelas ou análogas. Essas analogías nao signifi-
cam necessariamente dependencia de umas em relacáo a outras,

1 Alias, sem referir as fontes — o que é muito pouco criterioso e


científico.

— 266 —
«APARIC6ES» DE E. VON DÁNIKEN 35

mas táo somente origem comum na natureza do próprio


homem. O que ao historiador importa observar, é a filosofía
religiosa que inspira e explica as mesmas práticas ñas diversas
religióes. Quem se dispóe a isto, verifica que a filosofía ou a
teología do Cristianismo é radicalmente diversa da de qualquer
confissáo religiosa nao crista. Com efeito, a grande novidade
crista consiste em proclamar que «Ele (Deus) primeiro nos
nmou» (1Jo 4.19). Jamáis passou pela monto dos filósofos
pré-cristáos ousar afirmar táo audaciosa verdade. É desta
nroposicáo fundamental — extremamente original — que o
Cristianismo deduz os outros artigos do seu Credo e da sua
Moral. Infelizmente este cerne da mensagem crista nao foi
percebido por Erich von Dániken, que atribuí ao Cristianismo
proposicóes que este n5o professa, e escarnece em tom forte-
mente zombeteiro o conteúdo mais puro e elevado da fé crista
ftenha-se em vista, por exemplo, o inciso malvado e irónico
intitulado «Quantas encarnacóes do Filho de Deus ?», as
pp. 107s).

Está claro que, se alguém nao compreende determinada


mensaGtem, há de iulgá-la erróneamente e chegar a conclusóes
despropositadas. Estas só impressionam a auem nao tenha
conhecimento pessoal da materia abordada pelo autor do livro.

Erich von Daniken e, em geral, todas as pessoas interes-


sadas cm assuntos religiosos, podem estar certos de que no
seio da Igreja Católica existem grandes intelectuais, que estu-
dam profundamente as religióes comparadas e, com exato
conhecimento de causa, afirmam as características de novi
dade inconfundivel da mensagem crista. Ser cristáo nao signi
fica tornar-se simplório e renunciar ao uso perspicaz da razáo;
muito ao contrario, hoje mais do que nunca, apregoa-se entre
os cristáos a necessidade de nao se contentaren! com urna fé
de carvoeiro, mas, antes, procurarem tomar consciéncia dos
porqués de sua posicáo religiosa. Ora, este incentivo ao estudo,
Erich von Dániken julga erróneamente seja avesso á fé crista
(cf. pp. 81s).

2. De modo especial, o autor incute a tese de que Jesús


Cristo foi discípulo dos essénios, que habitavam junto as gru
tas de Qumran ; por conseguinte, nada de próprio apregoou.

Na verdade, esta tese se baseia em opinices propostas por


alguns estudiosos, como Dupont-Summer, Allegro e outros.

— 267 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

Ora o próprio Dupont-Summer declarou que o seu pensamento


fora mal entendido por quem quería fazer dele o arauto de tal
tese. Além do que, é evidente o artificialismo dessa proposigáo,
visto que a mentalidade dos Evangelhos e a dos essénios sao
fortemente diversas. Nao insistiremos em demonstrar isto,
dado que ainda recentemente foi feito em PR 206/1977,
pp. 61-76 (Jesús dos doze aos trinta anos).

3. Quanto ao texto de Me 10,18, que E. von Dániken


explora no sentido de negar a Divindade de Jesús, merece
ainda especial atencáo.

A passagem é a seguinte :

"Alguém correu e ajoelhou-se diante de Jesús perguntando : 'Bom


Mestre, que farei para herdar a vida eterna?' Jesús respondeu : 'Por que
me chamas bom? Ninguém é bom senáo so Deus'".

Para entender este trecho, deve-se, antes do mais, levar


em conta que o predicado bom era atribuido pelos israelitas
táo somente ao Senhor Deus. O jovem, chamando Jesús bom,
tratava o Mestre como alguém que sobressaia sobre os demais
mestres; penetrava um pouco dentro do misterio do Senhor
Jesús... Na sua resposta, pois, Jesús quis incitar o jovem
a levar a termo a sua tímida intuigáo: se ele havia atribuido
a Jesús um predicado exclusivo de Deus, comprendesse con-
seqüentemente que Jesús era o próprio Deus. Donde se vé
que o Senhor, longe de querer negar a sua natureza divina,
antes a quis patentear ao interlocutor, que comecava a entre
vé-la através das palavras e do comportamento de Jesús.

Em suma, se quiséssemos rever neste artigo todas as


passagens do Eyangelho ou do Antigo Testamento, de que
Erich von Dániken abusa, precisaríamos de um fascículo
inteiro de PR. Basta, porcm, ter posto em evidencia o espi
rito do trabalho de E. von Dániken para alertar o leitor con
tra as conclusóes que o autor pretende deduzir de sua exe-
gese bíblica.

O livro poderá scduzir e engañar a muitos... incautos;


todavia ficará sendo urna obra de romancista, e jamáis a de
um dentista.

— 268 —
Mais um livro discutível:

"a face humana de deus"


por John A. T. Robinson

Comentario: John Robinson é bispo anglicano, autor


do famoso livro «Honest to God» ou «Um Deus diferente»
(em traducáo brasileira), já comentado em PR 99/1968,
pp. 101-110.

Robinson pertence á corrente dos chamados «teólogos


da morte de Deus», da qual fazem parte, entre outros, Paúl
Tillich, Harvey Cox, Dietrich Bonhoeffer, Paúl van Burén, etc.
Esses autores se dizem cristáos (anglicanos ou protestantes),
mas julgam que o Cristianismo, para poder dialogar com os
homens de hoje, deve secularizar a sua mensagem e as suas
expressóes. Em outros termos: ... deve evitar explicitar
tudo o que haja de transcendental no depósito da fé crista e
procurar formular as verdades do Credo em termos mera
mente humanos, civis, lcigos, seculares, isto é, correspon
dentes aos intereses e as categorías de pensamento de todo
e qualquer homem (mesmo nao crente). Tal tarefa implica
urna reinterpretacáo da mensagem crista, de modo que se Ihe
dé um teor natural ou racional mediante o recurso á lingüís
tica e á filosofía. É tal atitude que dá origem á «teologia
da morte de Deus», ou seja, a urna explanagáo das verdades
da fé que silencia o nome de Deus e se assemelha a um sis
tema de filosofía, sociología ou psicología, que nada tenha
de chocante para os homens sem fé. O cristáo poderá, sim,
ter fé, mas esta há de ficar latente em seu foro intimo,
nunca transparecendo em suas palavras e em seus gestos. Na
verdade, a «teologia da morte de Deus» é algo de paradoxal
nao só pela construgáo contraditória da expressáo (dir-se-ia
paralelamente «a biologia da morte da vida»), mas pela tese
mesma que propóe: se alguém eré em Deus ou no Absoluto,
nao se entende que nao tenha a coragem de proferir-Lhe
oportunamente o nome.

— 269 —
38 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

O livro «Honest to God» tratava diretamente de Deus


em perspectiva secularizada. A obra que vamos agora recen-
sear, aborda o tema «Cristo», tencionando oferecer urna
Cristologia secularizada. Robinson expóe sucintamente o seu
modo de pensar no final do livro:

"Como Bonhoeffer admitía (embora os pietistas ficassem chocados


com tal ¡déia, ela continua sendo verdadeira do mesmo jeito), 'nao vivemos
nos da palavra penúltima e eremos na última?' Em outras palavras, qual
quer que seja a verdade ou fé última, a vida há de ser vivida no anonimato
e secularidade da penúltima, onde aquele que é 'Deus para nos' é um
'simples homem' um psilos ántfíropos, que deve ser servido e amado por
sua pura humanidade. Só em tal concreteza há verdadeira catolicidade"
(p. 224).

Examinemos, pois, alguns dos tópicos principáis dessa


Cristologia secularizada.

1. Tragos salientes do livro

Distinguiremos quatro pontos importantes:

1) O autor nao aceita a clássica fórmula do Concilio


de Calcedonia (451), segundo o qual em Cristo há duas nalu-
rezas (a divina e a humana) e urna só pessoa (divina).
Talvez por nao compreender o significado destes dizeres,
Robinson julga que diminuem o valor da natureza humana
de Jesús. Por conseguinte, Jesús teve urna só pessoa (um
só Eu), e esta... humana, segundo Robinson..

A esse homem Jesús Robinson denega o nascimento vir


ginal. Considera, pois, que María foi máe de Jesús como
qualquer outra máe o é em relagáo a sua prole; teve mesmo
outros filhos, irmáos de Jesús. O autor chega a admitir
cópula extra-conjugal, que Sao José teria relevado perdoando
a Maria (cf. pp. 60-63)!

Quanto á vida afetiva de Jesús, Robinson se compraz em


conjeturas minuciosas e despropositadas; cita autores que
«admitem ou casamento ou homosexualidade em Jesús (a dis-
paridade é sinal de falta de fundamento para conjeturas!).
Embora Robinson nao admita tais hipóteses, o simples fato
de abordar ele tais assuntos de maneira táo rude numa obra
que pretende ser seria e reverente, é altamente estranho;
para dizer que Jesús era verdadeiro homem, nao era neces-
sário mencionar hipóteses de tal tipo!

— 270 —
«A FACE HUMANA DE DEUS» 39

2) No tocante á Divindade de Jesús, o bispo anglioano


nao a nega. Todavía explica-a pelo simples fato de que Deus
agia por Jesús e em Jesús de maneira singular; Jesús podía
mesmo ser dito «o Representante de Deus» («der Stellvertre-
ter», segundo expressáo da escritora alema Dorothee Solle).
Eis as palavras de John Robinson:

"Essa concepcáo de alguém que permite que Deus se manifesté nele,


que é transparente na origem e assim fala de Deus porque ele nao fala
de si mesmo, reflete-se em tudo o que Jesús é e faz nos evangelhos. Vé-se
que ele fala 'com autorldade' e 'nao como os escribas', porque ele esteve
'lá'. Suas palavras e atos vém da fonte, do fundamente do ser (ex-ousia).
Ele é o homem que viveu Deus, que ousou estar in loco dei, como seu re
presentante. ..

O que Jesús reivindica para si mesmo á maneira de títulos — Filho


de Deus, Cristo, Filho do homem — é notoriamente incerto e muito dis
cutido. Ele pode de fato ser representado de maneira muito mais verdadeira
como nio reivindicando nada para si mesmo — mas tudo pelo que Deus
estava fazendo através dele" (p. 182).

Á p. 167, a Encarnagáo é assim explicada:

"Aquele que foi total e completamente homem — e jamáis foi outra


colsa senáo homem ou mais que homem — incorporou de maneira táo
completa aqullo que foi desde o inicio o sentido e a finalidade da auto-
-expressáo de Deus (concebida segundo seu Espirito, sua Sabedoria, sua
Palavra, ou segundo a relacjto intimamente pessoal de filiacño) que se
podia e deveria dizer desse homem : 'Ele era homem de Deus' ou 'Deus
estava em Cristo', ou mesmo que ele era 'Deus por nos'. Essa maneira de
colocar a questao nao envolve claramente nenhuma afirmacao estupenda"
(P- 167).

John Robinson detém-se tongamente sobre a apregoada


preexistencia do Filho de Deus, que, conforme a teología
clássica, assumiu a carne humana, nascendo como filho de
Maria; cf. pp. 141-167. Tais páginas sao assaz confusas e
pesadas (como, alias, o livro inteiro é difícil e cansativo, em
grande parte por estar mal traduzido e ter frases pouco inte-
ügíveis). O autor afirma que a luz sobro a preexistencia de
Jesús Ihe ocorreu quando «conversava com um monge budista
sobre a diferencia entre as idéias que fazem hindus e budis
tas da reencarnacáo» (p. 144). — O leitor, diante de tal
noticia, nao pode deixar de ficar um tanto perplexo; com
efeito, para evitar afirmar a preexistencia de Jesús como
Deus, recorre a teorías da India que sao muito mais desa
fiadoras para a razáo do que a clássica fé dos cristáos; se a
reencarnagño é teoría gratuitamente afirmada e nao provada,

— 271 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 210/1977

muito mais gratuitas e subjetivas sao as teorias de hindus e


budistas relativas á hipótese da reencarnagáoí

3) A ressurreicáo corporal de Jesús é recusada por


Robinson. As aparigóes do Ressuscitado mencionadas pelos
evangelistas sao tidas como «alucmagóes no sentido de expe
riencias extremamente significativas realizadas nao em pú
blico, mas privadamente» (p. 123). A narrado do «túmulo
vazio» terá sido criada pela fé dos discípulos, sem funda
mento na realidade.

4) O autor, em mais de uma passagem, afirma que


os Evangelhos pouco ou nenhum crédito merecem, pois repro-
duzem muito mais a fé dos primeiros cristáos do que a reali
dade dos fatos concemehtes a Jesús:

"Nao há certeza absoluta nenhuma de que Cristo fez ou falou aquilo


que Ihe é atribuido. Mesmo a sua própria existencia é questSo de probabili-
dade, embora alta; e quase tudo que podemos saber a seu respeito, deriva
de documentos que tinham por finalldade apresentar o Cristo da fé da
Igreja e nao como as coisas realmente aconteceram" (p. 36).

Deve-se, porém, acrescentar que á p. 38 Robinson observa:

"Estou cada vez mafs convencido de que há uma porcSo de muito boa
historia nos Evangelhos... Alguma coisa a seu respeito deverá aparecer
na medida em que avancamos".

Como notará o leitor, nao é fácil conciliar a primeira e


a segunda assertivas do autor.

Perguntamo-nos agora:

2. Que dizer a propósito ?

1) Antes do mais, observe-so que é infeliz e inade-


quado, para um cristáo que creia em Jesús Deus e Homem,
o propósito de elaborar urna Cristologia despojada da pre-
senga do Transcendental e das conseqüéncias que esta im
plica: preexistencia do Filho de Deus, ressurreicáo de Jesús,
onipoténcia de Jesús, virgindade de Maria. . . John Robinson
acaba reduzindo Jesús Cristo á qualidade de profeta seme-
lhante aos do Antigo Testamento ou, se quisermos, ... mais
rico em gragas do que eles; todavía Jesús aparece como mero
homem-profeta através dos raciocinios de Robinson. Ora nao
se pode conceber o Cristianismo sem a profissáo de fé em

— 272 —
«A FACE HUMANA DE DEUS» 41

Jesús Deus e Homem, com tudo o que esta proposigáo possa


ter de escandaloso ou paradoxal (cf. ICor 1,23). Tal crenga
é de tanta importancia que nao se pode entender fique guar
dada no íntimo das consciéncias dos fiéis, sem manifestagáo
pública.

2) A esta associa-se ¡mediatamente outra grave questáo:


a realidade da SS. Trindade (Pai, Filho e Espirito Santo) é
salvaguardada pelas teorías de Robinson? Se Deus Filho nao
preexistia 'á encarnagáo, a SS. Trindade se reduz a pura
forga de expressáo ou metáfora. Destrói-se assim o conceito
de Deus revelado pelo Evangelho. — Ora note-se que o mis
terio, da SS. Trindade é parte integrante e essencial do depó
sito da fé crista. Veja-se a propósito a Declaragáo da S. Con-
gregagáo para a Doutrina da Fé publicado em PR 151/1972,
pp. 316-321. Tal documento foi elaborado precisamente em
vista de teorías que, tentando esvaziar o que há de novo e
desafiador em Jesús Cristo, afetam também o misterio da
SS. Trindade.

3) A ressurreigáo de Jesús nao pode ser reduzida a


mero expressionismo. É realidade no sentido físico da pala-
vra, pois implica a restauragáo do homem — que é psicos-
somático — e que o pecado tornou réu de morte (cf. Gn
2,17). Foi justamente para salvar a criatura do pecado e
das suas conseqüéncias que Deus Filho assumiu tudo que é
do homem (natureza psicossomática, dores, alegrías e morte);
percorrendo o roteiro de urna vida humana, Deus Filho quis
dar-lhe urna perspectiva de vitória sobre a dor e a morte,
ressuscitando corporalmente, como referem os Evangelhos;
cf. PR 93/1967, pp. 375-387.

4) A conceigáo e o nascimento virginais de Jesús tam


bém sao realidades físicas, mediante as quais o próprio Deus
quis dar a entender aos homens que o Filho de María nao
era simplesmentes homem igual aos outros homens; mas,
embora fosse plenamente filho de Maria, era também Filho
do Pai ou consubstancial ao Pai, como Deus. Cf. PR 180/1974,
pp. 471-492.

5) Observa-se ainda: é estranho que, quase vinte séculos


após os acontecimentos concernentes a Jesús, um autor con
temporáneo, queira comegar a descobrir o sentido real dos
Evangelhos, negando de antemáo o sobrenatural ou trans-

— 273 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

cendental (como se fosse mito) e aplicando ao texto do Evan-


gelho categorías de pensamento do século XX. Os antigos
teráo falhado no seu modo de entender Jesús, simplesmente
porque tal entendimento nao corresponde a categorías racio
nalistas do nosso tempo. Após vinte séculos, entendo melhor
Jesús do que as geragóes que viveram com Ele ou com os
discípulos dele? — Pretender responder Sim a esta pergunta
parece ousado e presuroso, na mais tímida das respostas.

Sao estas algumas reflexóes que o livro de John Robin-


son «A face humana de Deus» sugere á luz das verdades da
fé crista. Nao negamos a reta intengáo do autor desejoso
de apresentar a pessoa de Cristo em termos acessíveis ao
homem de hoje, mas afirmamos que o autor, no seu afá
secularizante, foi além do possivel, caindo no equívoco ou na
ambigüidade ou mesmo violando artigos essenciais da men-
sagem do Cristianismo. Se esta fosse produto de urna antiga
escola de sabios, poderia ser, sim, retocada, mas, se é a Pala-
vra do próprio Deus, há de ser respeitada com tudo o que
ele acarreta de novo e inédito para a razáo humana.

Esteváo Bettencourt O.S.B.

livros em estante
Projelo de vida radical, por Fr. Mateus Rocha O.P. — Ed. Vozes, Pe-
trópolis 1977, 135x210 mm, 95 pp.

Fr. Mateus Rocha é professor de Teología no Seminario Maior de


Goiania. Tornou-se conhecido por livros famosos como "Quem é este
homem ?" e "Tormento de Deus". — Neste seu novo escrito voita-se para
a Vida Religiosa, sendo o próprio autor membro da Ordem de Sao Domin
gos. Julga que a Vida Religiosa se deve renovar profundamente de modo
cjue possa acompanhar o mundo em marcha. Após percorrer o histórico
das Instituigdes de vida consagrada a Deus, propde esta síntese :

"O radicalismo evangélico..., para ser real, tem que se expressar


em gestos concretos que se convertem em símbolos. O deserto foi o
símbolo do monaquismo. A mendicáncia, símbolo do evangelismo medieval.
A obediencia ¡mediata ao Papa, símbolo da Companhia de Jesi' . Ora o
radicalismo evangélico, HOJE, tem também o seu' símbolo : o pobre, as
ciasses oprimidas, o povo. O seu gesto concreto: mudar de InsercSo
social. O seu projeto : viver para o povo, com o povo e como o povo. Aquí
está, a meu ver, a missSo histórica da Vida Religiosa na América Latina.
Este é o grande desafio que Ihe é feito e do qual nSo poderá fugir sem
renegar-se a si mesma" (p. 62).

— 274 —
LIVROS EM ESTANTE 43

Como se deva conceber essa insereno no povo, o autor nao o diz


claramente, pois tenciona principalmente levar o leitor a refletir. Todavía
das explanagdes propostas ñas páginas do livro, deduz-se que Frei Mateus
pensa em levar os Religiosos a se dedicarem á NbertacSo integral (espiri
tual e material) dos seus irmios mais carentes; romper-se-ia assim a
alianca que o autor afirma ter havldo entre a Vida Religiosa e as classes
' dominantes. A realizacBo do novo projeto de Vida Religiosa implicaría
"perda da identidade" por parte dos Religiosos, visto que a identldade
destes sempre esteve ligada a determinados fatores sociais. O autor admite
que essa conversáo dos Religiosos ao povo tenha urna inevitável conotacáo
política (p. 74); é claro que isto nao significa militáncia em determinado
Partido político, mas, sim, comprometimento dos Religiosos com o processo
de mudanca das estruturas sociais. Alias, diz o autor, Jesús nao foi politi
camente neutro; por conseguinte, nao o serio os seus mais próximos se
guidores, que sao os Religiosos.

O livro é fácil de se ler; prende a atengáo do leitor por seu estilo


concreto e pungente (... pungente, embora Fr. Mateus, numa procura de
equilibrio, reconheca que no passado houve grandes valores ñas estrutu
ras da Vida Religiosa). Todavia a leitura de tais páginas sugere algumas
reflexñes:

1) De modo positivo, digamos que é oportuno termos consciéncia


do problema social e do desafio que ele propoe aos cristSos em geral.

2) Contudo nao nos parece feliz conceber a Vida Religiosa como


tal únicamente em funcáo da questño social. Há diversas formas de Vida
Religiosa, todas legitimas; assim exlstem as Ordens e Congregares ditas
"contemplativas", que sao chamadas a viver a pobreza, dedicando-se á
oracáo e á ascese no interior da clausura. As comunidades que realizam
tal programa, sao extremamente valiosas na Igreja e no mundo, como
afirma o Concilio do Vaticano II no decreto "Ad Gentes" n? 18:

"Especial mencSo merecem as varias Iniciativas que visam a esta-


belecer a vida contemplativa (nos territorios de missSo)... Urna vez que
a vida contemplativa pertence á plenltude da presenca da Igreja, é neces-
sário que se instaure em toda a parte entre as novas Igrejas".

Mesmo entre as CongregacSes de vida ativa, é legitimo (e necessário)


haja as que se dediquem á educacáo, á enfermagem, á cultura em geral,
procurando servir a todas as carnadas da sociedade, inclusive ás mais
abastadas; servir, no caso, quer dlzer "cristianizar" ou "contribuir para
que facam de suas posses e de seu poder o uso que o Evangelho inspira".
O que importa, é que os Religiosos, quaisquer que sejam as suas atividades
apostólicas (mesmo que venham a ser professores de Universidade, pro
curando santificar as escolas) déem auténtico testemunho de pobreza e
simplicidade evangélicas; sejam despojados de si, mas nem por isto renun-
ciem a cristianizar todos os ambientes de que consta a sociedade.

3) Importa respeitar os carismas das diversas familias religiosas,


evitando reduzi-las todas a urna só forma. Dentro dessa diversidade, ou
seja, ressalvadas as peculiaridades de cada Instituto, o que se requer é
aue em cada casa religiosa haja verdadeira observancia da Regra e das
ConstiuicSes (cultivando-se a vida de oracáo, o silencio religioso, a ascese,
a disciplina...).

— 275 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 210/1977

4) O grande interesse dos nossos Jovens e adultos ocidentais pelas


correntes de misticismo orientáis é slnal eloqOente de que o mundo de hoja
necessita de valores contemplativos e de casas devotadas á oracáo e á
ascese, sem preocupacáo direta por mudencas socials (a preocupacáo In-
direta, sim, exprimir-se-á pela oracáo e pela ascese). Se dirigirmos todas
as vías da espiritualidade católica em demanda de mudancas socials,
arriscar-nos-emos a prestar um desservlco á sociedade ocidental (lambém
em suas carnadas pobres), que Irá procurar ñas escolas orientáis a res-
posta ás suas aspiracóes místicas.

Em sintese : eremos que todos os cristSos tém a obriqagSo de se


empenhar pela justica social. Mas afirmamos que nem todos sSo chamados
por Deus a promové-la divamente; há vocacóes múltiplas, que devem
ser resoeitadas, pois vém do Senhor; seráo frutuosas para o reino de Deus
se os Religiosos, dedicados cada qual ao seu chamado próprio, souberem
cultivar fielmente o espirito de oraefio e de ascese (pobreza, simplieldade,
renuncia...).

Assim o novo livro de Freí Mateus Rocha se propoe como interessante


estímulo á reflexao; todavía parece-nos merecer serlas restrigóes para que
nao venha a esvaziar a riqueza da Vida Religiosa.

A mensagem de Cristo, por Domenlco Grasso. TraducSo de Geraldo


Dantas Barreto. ColecSo "Teología hoje" 2. — Edlcoes Paulinas, S§o Paulo
1977, 130 x 200 mm. 448 pp.

Nao é raro procurarem os fiéis (ou mesmo os estudiosos em geral)


um comnéndio da dnutrina católica. Existem a prooósito obras extensas
como "Mvsterium Salutis". "Teología para o cristSo de ho¡e" e outras.
— iA aite ácima vai desella, prima pelo seu caráter sintético, que é, ao
mesmo temoo, claro e sólido. Trata-se de urna apresentacüo de todos os
caoftulos da teología sistemática católica, a comepar pela doutrlna sobre
Deus para terminar nos Novlssirnos; o autor é um dos grandes teólogos
Italianos e professor da Universidade Pontificia Gregoriana de Roma.

Deseiamos chamar a atencao em especial para a maneira como D.


Grasso exooe a doutrina do estado inicial da humanidade e do pecado
dos primeaos pais; visto tratar-se de ponto difícil, existem a propósito di
versas interpretacóes, que vao sendo transmitidas na catequese, embora
nem todas condizentes com a doutrina do magisterio da Igreja. Ora D. Grasso
afirma a elevacao dos primeiros pais ao estado de justiga original (com a
outega da grapa santificante e dos dons preternaturais): o homem, porém,
convidado Délo Senhor Deus para confirmar a sua elevacao á filiacao divina
ou á n-rtem sobrenatural, preferíu dizer Nao, pecando por soberba ou
auto-suficiencia; em conseqüéncia, perdeu os dons gratuitos que recebera;
só pode'ia transmitir aos seus pósteros a natureza humana privada da filia-
cáo divina: é essa carencia da graga santificante na crianca recém-nascida
oue se chama "o pecado original originado". O autor admite o poligenismo
(doutrina que afirma ter havido mais de um casal na origem do género
humano), embora nao o defenda como tese certa. Na verdade, a Biblia nSo
tenciona ensinar aue no inicio da historia da salvacao tenha havido um só
casal: ao (alar de Adam, o texto hebraico se refere simplesmente ao homem
(Adam = homem), sem visar a especificar o número de individuos que entilo
rsrre«¡e-''avam a especie humana. Tais proposicSes sao aceitáveis á luz da
'é católica.

— 276 —
Congratulamo-nos, pois, com D. Grasso por oferecer-nos assim um
manual de teología sistemática atualizado dentro dos termos da genuina
ortodoxia. Servirá, sem dúvida, com grande proveito nos cursos de teologia,
tanto em Seminarios como em outras InstituicSes.

Guia ilustrado da fecundidade periódica feminina, por Paúl Thyma.


Traducáo do francés por Oino e Idalina Bigalli. — Ed. Loyola, Sao Paulo
1976, 125x190 mm, 74 pp.

Urna das grandes tárelas dos casáis hoje em dia é a da paternidade


responsável: só tenham o número de filhos que possam educar com digni-
dade. Para tanto, requer-se só tenham relacdes conjugáis nos dias em que
a mulher é cerlamenle estéril (o uso de anticoncepcionais e de meios arti
ficiáis é rejeitado pela consciéncia crista, além de ter varias contra-indica-
cdes médicas). Ora o livrinho ácima apresentado é um manual simples e
lúcido que visa a ensinar como reconhecer os dias de esterilidade da
mulher; o método exposto é o de Doyle ou o da medievo da temperatura,
que se baseia no fato de que, após a ovulacao, o hormónio do corpo lúteo
produz no organismo feminino um aumento de temperatura. Quem depreende
este aumento térmico, pode estabelecer os dias de esterilidade absoluta
da mulher.

O livro está muito bem confeccionado, trazendo numerosas imagens


e gráficos que ¡lustram as explicaedes dadas. As suas sugestóes estáo
todas em conformidade com a encíclica "Humanae vitae", que recomenda
aos casáis que nao queiram ter filhos, o aproveitamento dos dias esteréis
do organismo feminino.

Um homem contra a seca, por Peggie Genton. Traducáo de Lucia


Jordáo Villela. — Ed. Agir, Rio de Janeiro, 1973, 140x210 mm, 215 pp.

Geralmente o mal se divulga com facilidade e rapidez, ao passo que


o bem fica latente (alias, é próprio do bem nao fazer alarde ou nao se
autopromover). A escritora inglesa protestante Peggie Benton. esposa do
diplómala inglés Kenneth Benton, velo para o Brasil em 1966 com seu ma
rido, em fungao diplomática. Conheceu entilo o Pe. Manuel Lira Párente,
que no Piauí se vem dedicando abnegadamente ao bem espiritual e material
dos seus paroquianos: neste intuito chegou a criar a Fundacáo Ruralista
perto de Curral Novo, a fim de proporcionar melhores condicóes de lavoura
e comercio á populacáo local, sujeita ao flagelo da seca. O espirito de
solidariedade e dedtcacáo desse sacerdote entusiasmou a visitante inglesa,
<iue, após ter percorrido a caatinga, resolveu difundir, mediante interes-
sante monografía, a noticia de obra tSo meritoria. Além disto, a cunhada da
escritora, a Sra. Muriel Mitchell, houve por bem colaborar com o Padre
Lira, angariando-lhe auxilios financeiros da Europa para atender ás necessi-
dades dos habitantes da caatinga. Esse auxilio se protraiu mesmo depois
que Peggie Benton e os seus voltaram para a Inglaterra. Muriel fundou
em Winchester a Liga dos Amigos do Padre Lira, promovendo reunióes
periódicas, ñas quais se estudam os meios de ajudá-lo.

A leitura de tais páginas póe o leitor em contato corrí a realidade


brasileira nordestina e com o trabalho de um generoso sacerdote, que
dá auténtico testemunho do Evangelho. O livro vem a ser nao somente um
documentarlo valioso, mas outrossim um apelo a que os leitores do Brasil
se interessem por auxiliar o Pe. Lira, pároco de S. Raimundo Nonnato
(Pl, Cep 64770), que, como se compreende, precisa da colaboracáo de
amigos para prosseguir em sua missáo de generesidade.

E. B.
Oragáo do Século XX

Senhor, fazei de mim


um instrumento da vossa comunicagao :

Onde tantos enviam bombas e destruigáo,


Que eu leve urna palavra de uniáo !

Onde tantos procuram ser servidos,


Que eu leve a alegría de servir!

Onde tantos fecham a mao para bater,


Que eu abra meu coracáo para acolner l

Onde tantos adoram a máquina,


Que eu saiba venerar o homem !

Onde tantos endeusam a técnica,


Que eu saiba humanizar a pessoa!

Onde a vida perdeu o sentido,


Que eu leve o sentido de viver!

Onde tantos me pedem um peixe,


Que eu saiba ensinar a pescar!

Onde tantos me pedem um pao,


Que eu saiba ensinar a plantar!

Onde tantos estáo sempre distantes,


Que eu seja alguém sempre presente !

Onde tantos sofrem de solidáo que faz morrer,


Que eu seja o amigo que faz viver!

Onde tantos morrem na materia que passa.


Que eu viva no espirito que fica !

Onde tantos olham para a térra,


Que eu saiba olhar para o céu !

Pe. Atíl¡o Hartmann, S. J.