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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confisca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Sumario
P¿B.

OLHAR PARA O HOMEM COM O OLHAR DE CRISTO 177

No Ira:
UM ESTADO ISLÁMICO 179

Aínda em mira:
AS FINANQAS DO VATICANO (I): QUADRO GERAL 194

Ainda em mira:
AS FINANCAS DO VATICANO (II): OBJECÓES E RESPOSTAS .... 211

Sim ou NSo?
"CÁLICE" de Chico Buarque e Gilberto Gil 217

LIVROS EM ESTANTE 220

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

A Santa Sé entre a Argentina e o Chile. — Puebla: urna


assembléia em foco. — A encíclica "Redemptor Homims .

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Número avulso de qualquer mes Cr$ 18,00

Assinatura anual ! Cr$ 180,00

DiresSo e Bedagáo de Esteváo Bettencourt O.S.B.

ADMIN1STRACAO
Llvrarta Mlsstonária Editora REDACAO DE PB
Búa México, 168-B (Castelo)
Caixa Postal 2.666
20.031 Rio de Janeiro (BJ)
Te!.: 224-0059 20.000 Rio de Janeiro (BJ)
OLHAR PARA O HOMEM COM O OLHAR DE
Vivemos urna fase agitada também em nosso Brasil . onde
as campanhas reivindicatorías e as greves se sucedem...
Alguns servigos públicos sao assim parausados, os ánimos se
acendem em diálogos que nem sempre sao amistosos.
O cristáo nao pode deixar de acompanhar isso tudo com
muita atenqáo... Que dizer diante dos fatos ?
Tentaremos refletir sobre o assunto :
1) Antes do mais, será preciso reconhecer que o cristáo
(empregado ou empregador) tém compromisso com a justíca.
Embora seja váo julgar que algum dia ela venha a se realizar
de modo perfeito neste mundo, é preciso, nao obstante, tender
a implantacáo sempre mais coerente da mesma.
Os Apostólos, que por sua pregacáo sacudiam a cidade
de Jerusalém, foram intimados a se calar. Responderam enteo
aos membros do tribunal que os julgava: «Vede se é justo,
aos olhos de Deus, obedecer a vos mais do que a Deus. Poís
é impossivel deixarmos de falar das coisas que temos visto e
ouvido» (At 4,19s). Com efeito, a evidencia de certas valores
postas em perigo impóe-se ao cristáo e leva-o a clamar, a des-
peito de todas as injunc5es de silencio. Antes morrer do que
trair a vordade ou silenciá-ia quando as circunstancias a
exigem.

2) Verifica-se, porém, que nem sempre as situacñes so-


ciais ñas quais o cristáo vive e trabalha, sao lúcidas e univocas.
Ao lado de problemas cuja solucáo justa e digna se impoe com
toda a evidencia, existem situagóes ñas quais se torna murto
difícil distinguir o que haja de errado e o que de certa, pois
sao altamente complexas. Quem nelas está envolvido, corre o
risco de se deixar impressionar por determinado aspecto em
detrimento de outros ou de ver um só lado da questáo, sem
levar em conta o conjunto com todas as suas facetas. Nao raro
a solugáo de um problema depende da solugáo de outros pro
blemas que afetam enormemente toda a comunidade.

3) Nesta conjuntura, vem a propósito a encíclica «Re-


demptor Hominis» (O Redentor do Homem) assinada pelo S.
Padre Joáo Paulo II aos 4/03/79. Este belo documento apre-
senta Cristo como o Salvador ou como Deus feito homem, que
vem ao encontró do homem, oferecendo-lhe a verdade. Esta
liberta.. (Jo 8,32); liberta, antes do mais, das paixóes e dos
preconceitos (n« 12). Ora Cristo confiou á sua Igreja a tarefa

— 177 —
de continuar a sua missáo. Todos os caminhos da Igreja levam
ao homem a fim de levar o homem a Deus (n» 11.14). A Igreja,
portanto, procura olhar para o homem com o olhar do próprio
Cristo, consciente de que Ela traz o tesouro inestimável da
Boa-Nova (n« 18).
Eis a atitude que nos ihteressa realgar neste momento
conturbado : olhar para o homem com o olhar do próprio Cristo.
Isto compete á Igreja e, por conseguirte, compete a cada cns-
táo, envolvido como esteja ñas estruturas do seu trabalho
cotidiano.

Ter o olhar do próprio Cristo significa identifioar-se inti


mamente com o Cristo ou, como dizia Sao Paulo, «ter em si os
sentimentos do Cristo Jesús» (Fl 2,5). Quem se dispóe a atin
gir esta meta, vai-se libertando de atitudes passionais e obses-
sivas, escalona os valores segundo a reta hierarquia e tenta
agir como o Cristo Jesús agiría. Tal é a vocagáo grandiosa do
cristáo : fazer, ñas circunstancias do sáculo XX em que se acha,
o que o Cristo Jesús faria, pois na verdade o cristáo é outro
Cristo; é a máo de Cristo prolongada até nossos tempos e nos-
sas térras, a fim de santificar as fábricas, as escolas, os hospi-
tais, os escritorios, em suma... todos os setores que hoje sao
sacudidos por reivindicagóes e campanhas.
Tal perspectiva pode parecer um pouco distante da reali-
dade,... realidade na qual se calculam percentuais de aumento
de saiário, prazos para reajuste, taxas de juros, etc. A distan
cia é apenas aparente : o cristáo — empregado ou empregador —
é outro Cristo também quando tem que calcular os justos ter
mos da sua convivencia social ou as linhas do seu contrato de
trabalho..., quando tem que participar das assembléias de
classe ou das deliberacóes de sindicato... Procure sentir o que
o Cristo Jesús sentía, nao somente quando se volta para o Pai
na oracáo, mas também quando se volta para os homens (reu
nidos, ás vezes, em sessóes tumultuadas) na procura de cons
truir um mundo mais digno do Evangelho e, por isto, mais
humano e cristáo.

Ainda estamos dentro do tempo pascoal... Tempo no qual


celebramos a vitória de Cristo sobre o pecado, a violencia e a
morte... Que Ele, o Senhor, dé aos seus fiéis — empregados
e empregadores — a graga de olhar para os homens com o
olhar e o coracáo que Ele mesmo trazia como homem! E, desta
maneira, conceda ao nosso Brasil dias mais pacatos, em que
todos se esforcem harmoniosa e fraternalmente por construir
a civilizagáo do amor!
E. B.

— 178 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XX — N' 233 — Maio de 1979

No Irá:

um estado islámico

Em slntese: O Irñ está sob regime político islámico — fato este


que tem chamado a atencSo.

Na verdade, o Isla, fundado por Maomé em 622 d. C, vem a ser um


movimento religioso cujas normas sSo inseoarávels da realfdade política
do povo árabe para o qual Maomé leglslou, juigando ser o último dos pro
fetas enviado por Alá ao mundo. Maomé tentou reunir a populagSo da Arabia,
dispersa e dividida, em torno de um fó Credo religioso; este é assaz sim
ples em seus poucos artlgos, mas vem apresentado como o Credo a ser
Implantado no mundo Inteiro mediante a guerra santa; o maometano que
morra em compo de batalha santa, tem a promessa do paraíso postumo.
Foi a consciéncia desta promessa que comunlcou aos seguidores de Maomé
a coragem e o entusiasmo para se difundir em ampias partes do mundo.

O Isla, desde o séc. Vtl mesmo, dividiu-se em duas principáis facgdes:


a dos sunltas, maioria tradlclonalista, e ao dos xlltas, minoría muito atuante
junto ao povo e á politica.

Ora precisamente os xlitas, na pessoa de Khomelny, subiram ao poder


no IrS, tenclonando ai implantar um regime Islámico. Tal empreendlmento
é de éxito duvldoso, visto que certas normas maometanas já nio corres
ponder» ao tipo de cultura dita ocldental que se vai implantando no mundo
inteiro. Levem-se em conta os protestos das mulheres iranianas, que se
julgaram tesadas em seus direitos pelas exigencias do Governo islámico.

Como quer que soja, chama a atencáo o poder da fé do povo Ira


niano, que, numa encruzilhada de sua historia, quando podía optar pelo
materialismo soviético, deu origem a um Governo religioso em seu país.
Vé-se assim quio arraigado e natural é o sentimento religioso no género
humano, apesar das seducSes do materialismo contemporáneo.

Comentario: Os jomáis tém noticiado o movimento do


ayatollah Khomciny no Irá em prol da criacáo de um Estado
islámico. O fato tem chamado a atengáo porque, entre outros

— 179 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

fatores, póe em foco urna corrente religioso-política que se


afirma ardorosamente numa época tendente ao materialismo;
propóe-se assim a uniáo de Estado e Religiáo quando as ten
dencias contemporáneas visam, antes, á separagáo de um e
outra.

Sao estes dados que nos levam a estudar, ñas páginas


subseqüentes, a figura e a mensagem de Maomé, assim como
alguns tragos interessantes da atual crise iraniana. Tais ele
mentos projetaráo certa luz sobre a questáo político-religiosa
do Irá.

1. Maomé e sua obra

Antes do mais, importa reconstituir o fundo de cena geo-


-histórico sobre o qual apareceu Maomé.

1.1. O paño de fundo

A Arabia do século VII era habitada principalmente por


beduinos, agrupados em numerosas tribos, que viviam de
pequeño comercio e de pilhagem dos bens de tribos vizinhas
e de caravanas. Os elementos culturáis dessa populagáo eram
assaz pobres. Do ponto de vista religioso, essa gente era um
tanto indiferente; voltava sua atengáo para as coisas deste
mundo- todavía admitía um polidemonismo, ou seja, o culto
de seres superiores que regiam as forgas da natureza. Apenas
urna minoría mostrava preocupagóes religiosas, devidas a
influencia de judeus e cristáos; alguns chegavam mesmo a
aderir ao judaismo ou ao Cristianismo.

A cidade de Meca era ponto de cruzamento de duas im


portantes estradas da península árabe. Nela se achavam o
santuario da Kaaba e a Pedra Negra dedicados ao culto do
deus Hubal, que muitas caravanas de peregrinos iam reve
renciar na Meca, suscitando grande lucro financeiro aos habi
tantes da cidade.

Em suma, o ambiente da península arábica era o de urna


populagáo desagregada em si, destituida de aspiragóes eleva
das, voltada para o comercio e o lucro e dotada de rudimen-
tares tendencias religiosas, nao raro associadas a interesses
comerciáis. Foi nesse ambiente, dominado pelo dá dos Curai-

— 180 —
UM ESTADO ISLÁMICO

xitas, que nasceu Maomé, o profeta que deveria envolver-se


ñas lutas do seu povo e tentar reuni-lo em torno de um
ideal mais elevado, ou seja, religioso.

1.2. A figuro de Maomé

Muhammad (Maomé) ibn 'Abdallah nasceu em Meca


por volta de 571, como membro do clá Banu Hashim, dos
Curaixitas.

Desde cedo órfáo de pai e máe, entrou, como adoles


cente, para o servico da rica viúva Gadija, quinze anos mais
velha do que ele; casou-se finalmente com esta, e teve nume
rosos filhos. Gadija deu precioso apoio a Maomé ñas suas
horas difíceis.

Maomé narra o inicio da sua missáo religiosa, atribuin-


do-o a urna aparic.áo.do arcanjo Gabriel ocorrida por volta de
615. O anjo terá aos poucos ditado todo o Coráo (Qur'an) l
a Maomé, que assim se convenceu de sua vocacáo profética:
Maomé seria o último e consumador de todos os profetas,
entre os quais sao enumerados Adáo, Moisés, Jesús Cristo...
Maomé mesmo era analfabeto. O Coráo, que resulta das suas
«visóes», retoma artigos do judaismo e do Cristianismo sem
grande originalidade, sem elevadas consideracóes teológicas.
Tres pontos doutrinários sao ai predominantes :

o monoteísmo, incutido freqüentemente pelo texto do


Coráo: «Deus é Alian, o único, Allah, o eterno. Nao gerou
nem foi gerado. E a Ele ninguém se iguala» (Sura 112).
Assim a SS. Trindade, revelada pela mensagem crista sem
violar a unidade e unicidade de Deus, é excluida pelo Credo
maometano;

as concepgoes escatológicas ou relativas ao fim dos


tempos: a ressurreigáo dos mortos e o juízo universal, que
assinalará aos bons estupenda recompensa (concebida em
termos materiais) e aos maus duro castigo;

a total submissáo (islam) a Deus. Donde vem o nome


muslim (= mugulmano), que significa «submisso». Mugul-

1A palavra árabe Qur'an 6 de origem Incerta; posslveimente vem do


sirio e significa originariamente leltura.

— 181 —
6_ <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

mano é, pois, aquele que se professa totalmente submisso a


Deus.

Maomé encontrou seus primeiros adeptos na própria fami


lia, assim como entre pessoas humildes e escravos. Todavía
a grande maioria dos habitantes da Meca lhe era hostil, pois
receavam sofrer perdas económicas em conseqüéncia da pre-
gagáo de Maomé, que contradizia ao culto de ídolos existente
na cidade. Teve, pois, que fugir para a localidade de Yatrib
1100 km ao N da Meca). Esta fuga (hegira) se deu no ano
de 622, que se tornou assim o inicio da era maometana.
Yatrib aos poucos foi sendo chamada Madinat an-nabi ou
al Madina ou Medina.

Nesta cidade Maomé se impós; organizou a sua comuni-


dade religiosa e comecou a atacar as caravanas destinadas á.
Meca. Entre 622 e 630 o profeta lutou contra a sua cidade
natal; finalmente conseguiu entrar nesta sem encontrar resis
tencia, visto que os habitantes da Meca se haviam conven
cido de que era do seu interesse aderir a Maomé e as suas
idéias conquistadoras. Penetrando na Meca, o profeta obteve
urna de suas mais importantes Vitorias políticas. Como se
vé, cedo a obra de Maomé tomou caráter político; as idéias
religiosas apregoadas pelo vidente tiveram ¡mediatamente con-
seqüéncias nacionalistas e étnicas. O bom éxito da acáo sobre
a Meca significou o fortalecimento do influxo de Maomé sobre
as tribos árabes e novo impulso para que se unissem sob a
chefia e a pregacáo do profeta. A fim de vencer qualquer
resquicio de resistencia, Maomé proclamou a necessidade da
guerra santa,... táo santa que o maometano morto em com
bate podia estar certo da recompensa paradisíaca.

O profeta faleceu dois anos após ter tomado a Meca.


Procurou aínda nesse fim de vida corroborar sua autoridadet
hitando contra os árabes das fronteiras sirias, que se haviam
colocado sob o protetorado de Bizáncio.

Os contemporáneos e os pósteros assumiram atitudes


opostas frente a Maomé: os discípulos o veneram de maneira
quase idolátrica, ao passo que os adversarios o odiaram. É".
isto que leva o historiador a urna atitude crítica diante das
tradicóes referentes a Maomé; nao raro sao inspiradas por
espirito passional. Em suma, porém, pode-se dizer que, afas-
tadas todas as versóes erróneas, a figura de Maomé aparece
como a de um caudilho ou chefe político-religioso de enorme

— 182 —
UM ESTADO ISLÁMICO

prestigio. Tal caudilho traz bem nítidas as marcas da sua


época^ Ele mesmo reconheda ser um homem pecador e cheio
de defeitos. Nao era um teólogo nem um filósofo, mas homem
dotado de calorosa tempera religiosa, capaz de exercer pro
funda influencia sobre grandes e pequeños, sobre individuos
e massas humanas. Maomé parece nunca ter chegado a con-
ceber a separagáo de religiáo e política, a diferenca entre a
Palavra de Deus e as interpretares que Ihe dáo os seus
arautos ou os líderes políticos.

Para entender o islamismo contemporáneo, faz-se mister


estudar, aínda que sumariamente, a evolucáo da obra de
Maomé em seus primeiros decenios.

2. Um pouco de historia

Ao morrer inesperadamente em 632, Maomé nao deixou


sucessor nem disposigáo sobre a maneira de se continuar o
seu movimento religioso.

Em conseqüéncia, os colaboradores ¡mediatos elegeram


Abu Bakr, sogro e amigo do profeta, o qual tomou o título
de califa (= representante do profeta). Abu Bakr seria o
continuador político da obra de Maomé; todavía nao atribuía
a si qualidadcs carismáticas como, alias, nenhum dos califas
subseqüentes fez. Para o muculmano ortodoxo a morte de
Maomé pos fim á época profética. O primeiro califa Abu
Bakr, em seu breve período de governo, tratou de consolidar
e ampliar o dominio conquistado por Maomé.

Por ocasiáo de sua morte, designou como sucessor Umar


(Ornar) ibn al-Hattab (634-644), outro grande conquistador,
que levou o islamismo á Siria, á Pérsia e ao Egito.

De entáo por diante, a unidade do islamismo estaría


para sempre rompida, pois duas alas se defrontariam dentro
do Isláo:

a dos Sunitas, que constituem a maioria. Admitem a


tradicáo de Abu Bakr, dos tres primeiros califas e dos Omía-
das, seus sucessores. Nao associam califado e parentesco com
Maomé;

a dos Xiitas (xia = parte ou grupo). Sao os parti


darios de Ali, desejosos de vincular o califado com o paren-

— 183 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 233/1979

tesco de Maomé. Aceitam o Coráo, mas tém suas tradigóes


próprias. Só admitem como sucessor do profeta seu genro
Ali, casado com Fátima. Em vez de um califa, tém por
chefe um imán, descendente direto do profeta. Julgam que
só Ali e seus descendentes tém o direito de guiar e énsinar
os fiéis. Visto que o décimo segundo descendente de Ali
morreu sem filho, os xiitas aguardam um imán misterioso e
invisível, que, na hora aprazada por Deus, aparecerá na qua-
lidade de hamdi (guia), para restabelecer o Isla na sua pureza
primitiva. Embora os xiitas sejam minoría no Isla, sao os
mais bulbosos dos maometanos, sempre dispostos a mover o
povo em campanhas de reivindicacóes. Ora precisamente os
mentores da nova situacáo político-religiosa do Irá sao xiitas!

Os xiitas, por sua vez, estáo divididos em grupos meno


res, dos quais alguns sao fanáticos, como os qarmats e os
hashasashin (consumidores de haxixe); outros sao modera
dos, como os zaidatas e os ismailitas.

Vejamos agora as grandes linhas do Credo maometano.

3. O Credo islámico

A profissáo de fé dos mugulmanos é extremamente sim


ples, resumindo-se em duas frases: «Creio que nao há senáo
um Deus: Alá. Creio que Maomé é o enviado de Alá».
Eis os dois componentes da fé islámica : a doutrina sobre
Alá e a profetologia. A primeira se associam as questóes rela
tivas ao juízo final e á retribuigáo definitiva. Á segunda se
prende a questáo da sucessáo do profeta ou a do califado.
1. A fé em Alá exige apenas que o fiel creia na exis
tencia de Deus, em sua unicidade e onipoténcia. Nada pro-
fessa a respeito da natureza e dos atributos de Alá. Foi esta
simplicidade que garantiu ao Isla ampia. difusáo e aceitagáo
por parte de numerosos povos. Os doutos véem em Alá o
fundamento de sabedoria e ordem universais, ao passo que os
simples consideram nele o fundamento da justa ordem social.

A pregagáo do juizo final era de importancia capital para


Maomé. O juízo será precedido pela vinda do Anticristo, que
induzirá os homens ao erro até que venha Jesús de novo á
térra. Quando soarem as trombetas pela primeira vez, mor-

— 184 —
UM ESTADO ISLÁMICO

reráo todos os seres vivos; quando soarem pela segunda vez,


ressuscitaráo para ser levados ao lugar da reuniáo final, onde
esperaráo com grande temor o julgamento universal. Du
rante este, ler-se-áo os livros nos quais estáo inscritos o bem
e o mal praticados por cada homem. Alá interrogará cada
um; em casos de dúvida sobre o valor dos atos humanos,
pesar-se-áo as agóes duvidosas. Os profetas e as pessoas pie-
dosas intercederáo pelos homens postos em perigo de conde-
nacáo. Depois do juízo as pessoas seráo encaminhadas para
urna ponte muito estreita. Os bons a atravessaráo a salvo,
de modo a chegar ao paraíso. Os maus, porém, nao conse-
guiráo atravessar, mas cairáo no inferno. Paraíso e inferno
tém duraeáo ilimitada.

A atitude do homem diante de Deus é, antes do mais, a


de submissáo (islam) diante da grandeza e majestade do Se-
nhor. Mesmo que o Coráo fale da misericordia do Altíssimo,
nao acentúa o amor de Alá para com o homem; este é, pois,
chamado a um ato formal de submissáo ao Senhor Deus.

2. Nao há dúvida, o Isla produziu grandes místicos no


decorrer da sua historia, pois em todo ser humano existe a
consciéncia do misterio e do transcendente e a aspiragáo
inata de unir-se á Divindade táo intimamente quanto possíyel.
O Credo maometano, mesmo em sua singeleza, pode perfeita-
mente fomentar o cultivo da veía mística de seus adeptos.
Por conseguinte, desde as primeiras geragóes maometanas,
houve homens e mulheres que, além de observar os manda-
mentos de Deus, se abstiveram de tudo o que os pudesse
distrair da oragáo e dos valores sagrados. Viveram solitarios
ou em comunidades, trazendo urna simples veste de la (suf);
donde o nome de sufitas que lhes foi dado. Entre os grandes
místicos do Isla, citam-se Rabi'a al-Adawija (f 801), Bayazid
al-Bistani (f 875), Al-Gunaid (t 910), Abul-Mugit al Hallag
(858-922), Al-Gazzali (f 1111), An-Nizami (f 1202)...

Interessa-nos outrossim reproduzir em síntese

4. A Moral maometana

A Moral maometana é, em parte, baseada nos preceitos


bíblicos e, em parte, tributaria dos costumes da época de
Maomé.

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10 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

1. Na medida em que se inspira ñas Escrituras Sagra


das, apresenta-se assaz rigorosa: condena os crimes de roubo,
assassínio, adulterio, como também as injusticas sociais, a
exploragáo dos camponeses, o man trato dos escravos, o aban
dono dos órfSos e das viúvas... Os califas se empenharam
pela construgáo de hospitais e escolas, que prestaram bons
servicos á humanidade. Para tanto, a Lei de Maomé pres-
creve a todo fiel o pagamento de um tributo (zakat); a apli-
cagáo deste dinheiro ocorre tanto em vista de fins políticos
como de fins caritativos. A prática da esmola é muito elo
giada pelos mestres mugulmanos.

O empréstimo a juros foi condenado por Maomé. Em


breve, porém, verificou-se que era insustentável a proibigáo
de juros (o que aconteceu também no Cristianismo).

2. Todavía a Moral islámica pode surpreender o homem


ocidental por outros de seus tópicos :

a) Assim, por exemplo, a poligamia foi praticada por


Maomó e continua sendo licita no islamismo. É permitido ao
mugulmano ter simultáneamente quatro esposas (se as pode
sustentar financeiramente), ao lado das quais lhe é lícito ter
número ilimitado de escravas concubinas. O matrimonio é
contraído mediante o pagamento de dote por parte do esposo
(resquicio do que antigamente era a compra da mulher por
parte do pretendente). O pai pode obrigar suas filhas sol-
teiras a contrair casamento. A mulher nao se casa sem que
tenha um tutor. O homem pode divorciar-se sem apresentar
razóes, mas apenas exprimindo a sua resolugáo de deixar a
esposa; é-lhe facultado tornar a casar-se tantas vezes quan-
tas queira (procure, porém, mulheres da mesma classe social
e de fé islámica). Quanto á mulher, pode obter o divorcio,
desde que se evidencie que o marido é incapaz de sustentá-la.
Todavía Maomé procurou suavizar as condigóes da mulher
casada, afirmando: «A fé mais perfeita, tem-na aquele que
com mais amor trata a sua esposa».

De modo geral, no Direito islámico, a mulher se acha


em condigóes de inferioridade frente ao homem. Com efeito,
somente ao varáo livre é reconhecida a plena posse dos direi-
tos civis. A mulher fica excluida dos cargos públicos; o seu
testemunho perante um tribunal vale apenas a metade do
testemunho de um homem; o prego que se paga pelo seu
sangue, é a metade do prego dado em favor de um homem;

— 186 —
UM ESTADO ISLÁMICO 11

a heranga que ela recebe vale a metade da heranga do varáo;


Contudo no plano religioso sao plenamente reconhecidos os
valores moráis da mulher; por isto os mugulmanos apregoam
a santidade e o saber teológico de varías mulheres.

b) A escravatura existente nos tempos de Maomé nao


foi abolida pelo islamismo. Todavía Maomé tentou aliviar a
sorte dos escravos, e proibiu que um mugulmano seja tornado
escravo por um credor nao satisfeito ou na qualidade de
prisioneiro de guerra ou ainda vendido pdr seus pais. Desta
forma o quadro dos escravos se manteria táo somente atra-
vés de filhos de escravos e mediante prisioneiros de guerra
nao maometanos. — A libertagáo de escravos, segundo o Di-
reito mugulmano, é obra religiosa meritoria que serve para
a expiagáo dos pecados.

c) A guerra santa, destinada a propagar o Isla, é alta-


mentemente apreciada. O Isla, originariamente, supóe o
mundo dividido em duas partes: térra mugulmana (dar al-
-islam )e térra nao mugulmana (dar al-'iiarb); estas duas
facgóes estariam em perpetua luta, sendo o Isla o agressor
consciente. Todo cidadáo mugulmano, físicamente capaz, é
incitado pela sua religiáo a participar da guerra santa: caso
morra nesta (= no caminho de Alá), passa por mártir e
vai para o paraíso. A guerra santa (que hoje em dia já nao
ocorre como outrora) era movida pelo califa: antes de come-
car a atacar com as armas, este intimava a populagáo do
territorio agredido a que adotasse o Isla; caso, porém, se
tratasse de territorio de judeus ou de cristáos (adeptos de
urna das religióes do Livro, a Biblia), o califa os exortava a
que se pusessem sob a protegáo do Isla e pagassem impostes
as autoridades mugulmanas; deveriam usar roupa diferente
dos trajes mulgumanos e ficariam proibidos de andar a cávalo.
Desde que aceitassem tais condigóes, os judeus e os cristáos
eram tolerados pelo governo mugulmano, podendo dedicar-se
livremente a prática das suas arengas religiosas. A existencia
de numerosas comunidades judaicas e cristas em territorios
mugulmanos durante sáculos a fio (tenha-se em vista a penín
sula ibérica) atesta que tal tolerancia realmente se exerceu,
apesar dos excessos de governos, funcionarios e cidadáos faná
ticos; a historia mostra que judeus e cristáos puderam mesmo
ascender a altos cargos da magistratura mugulmana.

d) A todo mugulmano de maior idade incumbe a obri-


gagáo de peregrinar, ao menos urna vez durante a vida, até

— 187 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

Meca (supondo-se que possua os meios para viajar e para sus


tentar a familia durante a sua ausencia). Quem tenha cum-
prido o dever da peregrinacáo, recebe o título honorífico de
haggi (peregrino). Se alguém está impedido de peregrinar,
pode enviar um substituto em seu lugar.

e) É outrossim obrigatório a todo muculmano de maior


idade e sadio o jejum de Ramadan (nono mes do ano, durante
o qual se eré tenha sido o Coráo revelado a Maomé). Tal
jejum consiste em nao comer nem beber nem fumar desde o
nascer até o por do sol durante um mes inteiro; a quem
jejua, é vetado também todo consorcio carnal durante as
horas diurnas. A observancia do jejum supóe o conhecimento
do calendario mugulmano: o ano islámico é lunar, compon-
do-se de doze meses, dos quais seis tém vinte e nove días, e
seis contam trinta dias. É o que explica possa o mes de
Ramadan cair em qualquer época do ano solar; sendo assim,
o jejum é peculiarmente penoso quando o mes de Ramadan
ocorre durante o veráo.

f) A lei muyulmana obriga outrossim os seus adeptos


á prática da ora$3!o cinco vezes ao dia: ao meio-dia, de tarde,
ao por do sol, de noite e de madrugada. Para rezar, nao ss
exige nem determinado lugar nem veste própria, contanto
que lugar e veste sejam puros. A oragáo é feita em diregáo
da Meca, diregáo que em todas as mesquitas é assinalada por
um nicho próprio (mihrad). Ñas mesquitas um chefe espe
cial (imam) dirige as preces. Para convocar os fiéis á ora-
gao, existe em cada templo um oficial chamado mu'addim.

A rigor, nao existe, no calendario mugulmano, dia de


guarda correspondente ao sábado judaico ou ao domingo
cristáo. Todavia Maomé exortou os seus seguidores a que se
dedicassem á oragáo especialmente ñas sextas-feiras, inter-
rompendo mesmo o comercio. Em conseqüéncia, todo mao-
metano maior de idade e sadio sente-se obrigado a tomar
parte na oragáo do meio-dia as sextas-feiras. A absten^áo de
trabalho nao é rigorosamente prescrita para esse dia. A prá
tica compassada da oracáo assim concebida pelo Isla exerce
profunda influencia educativa sobre os fiéis.

Sao estas, em grandes linhas, as principáis normas da


Moral e do Direito islámicos.

Para concluir a exposigáo, digamos ainda algo sobre

— 188 —
UM ESTADO ISLÁMICO

5. A aventura do Irá hodierno

Os dados até aqui propostos evidenciam claramente que


o Isla procura integrar numa síntese densa os valores reli
giosos e os políticos. Com outras palavras: a ordem política
e a civil, para o Isla, sao iluminadas estritamente pela ordem
religiosa. É esta síntese que comunicou e comunica ao Isla
até hoje enorme poder de expansáo e de conquista. Nao
obstante, em nossos dias existem poucos Estados islámicos,
embora o mundo conté cerca de 400 milhóes de muculmanos K
Atualmente no Isla a seita xiita, que sempre foi ardorosa,
tenta implantar tal tipo de Estado.

Examinemos alguns traeos da crise religioso-política


do Irá.

5.1. A crise iraniana

Na verdade, desde 1977 o Irá está sendo agitado por


urna crise de crescente gravidade.

Aos 7-9/01/1978, houve um motim na cidade santa de


Qom, motim repetido um mes mais tarde em Tabriz durante
a comemoragáo dos mortos de Qom... Em maio, agosto e
setembro de 1978 renovou-se a sedicáo do povo, sendo que
em 20 de agosto pereceram cerca de 400 pessoas num cinema
de Abadan, entregue as chamas de um incendio. O dia 8 de
setembro de 1978 foi tido como «a sexta-feira negra de
Teerá», quando mais de 700 vitimas cairam sob a repressáo
da policia e do exército iranianos.

As respostas de xá Mohamed Reza Pahlevi a estas mani-


festacóes populares foram de índole ditatorial: imposicáo da
lei marcial, ordem de recolher-se durante a noite, nomeacáo
de chefes militares mais duros, etc. O monarca prometía
reformas, que nao chegava a executar ou que só executava
em favor de urna élite.

Entrementes o líder religioso Khomeiny, dito ayatolIaJi


(= inspirado por Deus), estimulava o povo a nao aceitar

'Registramos que aos 11/02/1979 o Paquisláo se constituía em Re


pública islámica. Logo reconheceu o Governo do Irá chefiado por Bazargan
e inspirado pelo ayatollah.

— 189 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

qualquer fórmula de solugáo que mantivesse a dinastía no


poder. Exilado no Iraque durante treze anos e, a partir de
meados de outubro de 1978, em Neauphle-le-Cháteau (perto
de París), Khomeiny emitía ordens precisas em favor de urna
reviravolta da situagáo política de seu país; preconizava urna
República islámica — o que empolgava as multidóes irania
nas, tornando-as dispostas a morrer antes que ceder algo
ao regime do xá.

Em diversas entrevistas concedidas á imprensa no ano de


1978, Khomeiny queixava-se do monarca, como se depreende
das suas próprias palavras:

"Para afastar a Juventude da cortos problemas essenclals do país, o


xá favorece programas de cinema embrutecedores e aviltantes... O povo
muculmano considera esse tipo de filmes contrario aos Interesses do pais
e ataca as salas que os exlbem. O mesmo se diga a respelto dos Bancos,
fatores de usura e de especulagSo na dlstrlbulcáo da nossa economía.
é por tais razOes que alguns Incendlaram esses Instrumentos de empobrecl-
mento e de falencia económica ... O xá declarou numa entrevista a um
jornalista italiano que a mulher nao deve ser mais do que um objeto de
atracao sexual. É este um conceito que leva as mulheres á prostltulcio e
as torna coisas".

"Nenhuma solugáo do problema político será posslvel sem o desapa


recimiento da dinastía Pahlevi, quer se trate do atual xá, quer dos seus
descendentes... Qualquer projeto que Implique a sobrevivencia do regime
nfio poderá ser aceito nem por nos, nem pelo povo" (trechos transcritos
do artigo de 6. Rulli citado na bibliografía deste fascículo, p. 193).

E como se configuraría um Estado islámico?

5.2. Trasos de um Estado islámico

Khomeiny publicou, fora do Irá, dois livros programáti


cos: «Governo Islámico, em árabe (1970), e «Khomeiny>
em persa (1975). Ai falava das penas previstas pelo Coráo
para os crimes de furto (amputagáo de máo ou pé), para
quem tome bebidas alcoólicas (flagelacáo em público), para o
adulterio ou a violencia sexual (morte por apedrejamento)...
Tais penas foram postas em vigor no Paquistáo a partir de
11/02/1979, logo após a instituicáo da República islámica do
Paquistáo. Segundo o presidente deste pais, Mohammed Zia
Ul-Haq, tais penas sao necessárias para dissuadir as pessoas
mal intencionadas e foram aplicadas com sucesso em outros
países, como a Arabia Saudita. Conforme o presidente do

— 190 —
UM ESTADO ISLÁMICO 15

Paquistáo, as leis do Coráo instituidas neste pais tém a apro-


vacáo de todas as seitas religiosas e dos partidos paquista-
nenses e corresponden! á expectativa dos fiéis muculmanos!

A tese central do programa de um Estado islámico im


plica exdusividade do poder, sem pluralismo de partidos, sem
colaboragáo nem participacáo de quem nao seja mugulmano;
na verdade, um maometano, por principios de fé, nao pode
aceitar a hipótese de ser governado por nao maometanos. Esta
posigáo se depreende claramente do artigo do líder sunita Hus-
sain Konatly, publicado no jornal Assafir de 18/08/1975 no
primeiro período da crise libanesa.

O povo iraniano, que em grande maioria professa as


idéias xiitas, parece ter-se tornado mais progressista e aberto
nos últimos cem anos. O ayatollah Khomeiny prometeu plena
liberdade a todas as minorías do país religiosas, políticas,
sociais e culturáis. Estaría disposto a abrir máo de princi
pios rígidos ou exclusivistas... Todavía percebe-se que está
muito arraigado ñas massas populares o ressentimento con
tra as institugóes monárquicas; a associagáo de valores reli
giosos e políticos é indissolúvel na filosofía de vida de um
muculmano convicto.

Deve-se dizer também que os mentores religiosos do povo


iraniano — os ayatollah e os molían — exercem notável
influencia sobre o mesmo.

Os ayatollah sao os «inspirados por Deus» e, por conse-


guinte, os guias mais seguros, os intérpretes oficiáis da von-
tade de Maomé expressa no Coráo. Existem em número
de 3.000.

Os mollah sao apenas peritos em teología. Esmiugam


para o povo a doutrina e as normas práticas do comporta-
mentó religioso.

Nem uns nem outros foram gravemente afetados pela


repressáo exercida pelo xá. Por isto as suas mesquitas e
Universidades se tornaram auténticos centros de constestagáo
do poder instituido.

Olhemos agora para...

— 191 —
16 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

5.3. ... O futuro

A situacáo política do Irá até hoje é confusa.

Aos 16/01/79 o xá deixou o país, e a l'/02/79 Khomeiny


foi recebido triunfalmente ñas mas de Teerá, após quase
quinze anos de exilio. Dez dias mais tarde, o Governo Bakh-
tiar, estabelecido pelo xá antes de partir, foi deposto pelo
povo e substituido pelo Governo provisorio da Revolugáo Islá
mica, que tem á frente o Primeiro-Ministro Mehdi Bazargan.
Este ainda nao conseguiu controlar por completo a situagáo.
Os comunistas do país, reunidos no partido Tudeh (isto é,
Massas), divulgaram, primeiramente, um comunicado no qual
falavam de resistencia armada a Khomeiny. Todavía alguns
dias depois prodamaram solidariedade ao chefe religioso num
gesto que surpreendeu a opiniáo pública.

As razóes para se por em dúvida o éxito do movimento


de Khomeiny sao varias: em grande parte, derivam-se do
contraste existente entre a cultura ocidental (que sob o xá
Mohammed Reza Pahlevi se adentrou no Irá) e as normas
de vida islámicas; principalmente no tocante á posi^áo da
mulher na sociedade, as diferengas sao grandes, a ponto de
terem provocado serios protestos por parte das muiheres ira
nianas, como noticiaram os jomáis:

"Pelo terceiro día consecutivo milhares de iranianas sairam as rúas


de Teerá vestidas á ocidental para protestar contra a restaurado islámica
de obrlgatorledade do uso do véu negro e algumas foram apedrejadas. Ao
final das manlfestacees, um telefonema feminino anónimo á agencia France
Press anunciou que as muiheres comecariam a sulcidar-se pelo fogo contra
a nova ordem.

A mulher que telefonou á agencia, disse falar em nome de 15 mil


Iranianas organizadas numa entidade cuja designagSo nao revelou e escla-
receu que, como opcSo, multas délas pensam converter-se ao Cristianismo
oara fuglr ao uso obrlgatório do chador, o manto preto e sem costuras
que val da cabeca aos pos, com a parte correspondente ao véu presa
entre os dentes.

Embora grupos de muculmanos fanáticos tlvessem atacado a paula


das, tacadas e pedradas as muiheres que, em número calculado em cinco
mil, se concentraram na Unlversidade e diante do Ministerio da Justlca,
nenhuma délas foi ferida com gravldade. Alguns mujatdlnes (combatentes
islámicos) armados impediram que a agressSo tivesse malores conseqüeneias.

No Palacio da Justlca, onde no malo da multldáo estava a feminista


norte-americana Kati Miller, as muiheres, além de repudiaren! o uso do
chador, pedlam também a igualdade entre homens e muiheres, independen
cia, democracia e liberdade.

— 192 —
UM ESTADO ISLÁMICO 17

0 movimento é coordenado pela Frente Comum de LlbertacSo da


Mulher, Integrada por diversas organizares feministas, entre elas "Mulheres
em Luta' (trotskistas) e 'Mulheres em Alerta' (comunistas)" (Jornal do
Brasil, 11/3/79, 1? caderno).

Nao há dúvida, as mulheres iranianas tém razáo aos


olhos da fé crista e da sá razáo. A figura da mulher e seus
valores sao mais preservados e acentuados se se reconhece á
mulher o direito de se autoafirmar com dignidade ao lado do
homem na sociedade. Os trajes usuais entre as mulheres
musulmanas nao sao necessariamente mais puros e decentes
do que os trajes da mulher no Oddente. Pode-se crer que
ainda outras normas do Isla entrem em confuto com as cate
gorías e o ritmo sadios da vida moderna. Eis por que nos
parece instável o regime do ayatolláh, a menos que se dispo-
nha a renunciar a cartos tragos do islamismo acidentais que
conflitam com a realidade contemporánea.

Como quer que seja, merece atengáo o fato de que mesmo


no sáculo XX a cren;a religiosa de um povo manifesté tal
poder de influencia na vida pública. Embora o movimento do
ayatollah Khomeiny tenha sido motivado por abusos do poder
imperial do xá, verifica-se que a opcáo do povo iraniano nao
se deu em favor dos comunistas (que o queriam dominar),
mas, sim, em prol de um líder religioso. Isto significa que o
ser humano continua religioso através dos sáculos e apesar
das sedugóes do materialismo. Realmente pode-se repetir com
S. Agostinho: «Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o
nosso coracáo enquanto nao repousa em Ti» (Confissoes 11).
Eram estas as ponderagóes que nos ocorria propor a
respeito da atual sit-jacáo política do Irá.

Bibliografía:
CÁTALA, V. H., La expresión de lo Divino en las religiones no cris
tianas. BAC 334. Madrid 1972.

DAMBO HIENA, P., La salvación en las religiones no cristianas.


BAC 343, Madrid 1973.

GARDET, L., Connaüre l'lslam. Col. "Je sais-Je crois" n? 143. París
19S8.

KÓNIG, FR., Las Religiones de la Tierra, 39 vol. BAC 208, Madrid 1960.

PIAZZA, W. O., Rellglóes da humanldade. Ed. Loyola, S8o Paulo 1977.

RULLI, G., Lunga e confusa crUi nell'lran, in La Ovilla Callolica n? 3089,


03/03/1979, pp. 501-509.

PR 178/1974, pp. 392-404.

— 193 —
Aínda em mira:

as financas do vaticano (I)

quadro geral

Em sfnlese: Comentam-se freqüentemente as finanzas do Vaticano,


mas poucos s§o os que conhecem a estrutura administrativa e as linhas da
política económica da Santa Sé. O presente artigo expoe o tema, apresen-
lando os diversos órgSos que administram os bens do Vaticano, assim como
as fontes de renda de que dispdem e algumas cifras Indicativas do dinheiro
que assim é movimentado. — A seguir, sao referidas tres diretrlzes da adml-
nlstracao do Vaticano. Este possul fundos monetarios pagos á Santa Sé
pelo Estado Italiano em 1929 em ressarcimento dos bens confiscados em
1870; ora o Vaticano resolveu últimamente nao investir em firmas farma
céuticas, em companhias produtoras de armas ou em empresas cinemato
gráficas. .., a fim de evitar problemas de ordem moral que dal possam resul
tar. Resolveu outrosslm nao Investir ma|or¡tai lamente em empresa alguma,
ficando, pols, a Santa Sé apenas com 1 %, ao máximo, do capital das firmas
de que é aclonista (a fim de evitar participar dos conselhos de patrdes).
Decidiu ainda Investir preferentemente fora da Italia, atendendo assim a
criterios diversos, entre os quats o da ¡nternaclonalizagáo da Curia Romana.

Em suma, verifica-se que o Vaticano, longe de se preocupar com


lucros financeiros, tem assumido encargos cada vez mais onerosos na Curia
Romana para poder responder ás exigencias da pastoral contemporánea.
Esta atitude vem desequilibrando as financas do Vaticano, que se ve em
apuros crescentes para desenvolver a sua missáo apostólica.

Comentario: Nao é raro lerem-se noticias referentes ás


ftnangas do Vaticano, noticias que, em última análise, afir-
mam ou sugerem ser este urna das maiores potencias eco
nómicas do mundo.

A mais recente campanha deste tipo deu-se durante o


breve pontificado do Papa Joáo Paulo I: o semanario italiano
«H mondo», filiado ao diario «Corriere della Sera», e voltado
para assuntos de economía e política, dirigiu ao Papa recém-
-eleito, em setembro de 1978, um «pro-memoria» ou um rela-
tório acerca dos bens da Santa Sé, dando a entender ao Pon
tífice e ao público em geral que a administracño dos bens do
Vaticano é corrupta e, por conseguinte, necessita de severa

— 194 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 19

intervencáo por parte do Papa. Com isto o referido periódico


tencionava depreciar a Santa Igreja Católica aos olhos do
mundo, precisamente quando a figura do Papa Joáo Paulo I
lhe merecia especial atencáo e simpatía dos homens em geral.

Vamos, pois, ñas páginas seguintes, voltar ao assunto,


já abordado em PR 226/1978, pp. 435-448, trazendo novos dados
e esclarecimentos aos nossos leitores.

Logo de inicio, compete observar o seguinte:

1) Quem estuda a questáo das financ.as do Vaticano,


verifica que as noticias apresentadas pela imprensa sao, fre-
qüentemente, levianas e tendenciosas; repetem indiscriminada
mente o que certos jornalistas ou cronistas disseminam, muito
mais no sentido de difamar a S. Sé do que de difundir a
verdade. Eis aqui um espécimen de tal procedimento, retirado
de um jornal paulista:

"O Banco da Cldade do Vaticano, chamado de Instituto para as Obras


Religiosas, tem um total de depósitos de cerca de dols bilhSes de dólares,
segundo informa a revista 'II Mondo'.

A Igreja Católica Romana tem também investimentos extensivos em


ouro e títulos nos Estados Unidos, Incluindo acóes em corporac5es como
a General Motors, a General Electrlc, a Shell e Gulf OH, a Bethlehem Steel,
a IBM TWA, e na empresa aérea Pan lAmerlcan.

'Como um verdadelro Estado', dlsse a revista semanal sediada em


Milao, 'o Vaticano pode ser considerado um dos maiores proprietárlos do
mundo'. Exclusivamente em Roma, a Santa Sé possul cinco mil apartamen
tos alugados, que rendem por volta de quatro milhoes de dólares por ano.

O artigo de 'II Mondo' Incita o novo papa Joáo Paulo I a impor


"ordem e moralidade" ñas transagóes financelras do Vaticano e pergunta:
'Será correto que as operacSes de marketing do Vaticano se assemelhem a
especulares?'"
H (O IMPARCIAL)

2) É preciso distinguir entre a Santa Sé e a Igreja Uni


versal. A Santa Sé é a sede episcopal de Roma, á qual está
confiado o Estado do Vaticano, cuja extensáo nao ultrapassa
0,44 km2; a Santa Sé tem suas financas próprias. A Igreja
Universal compreende todas as outras sedes episcopais, assim
como as Ordens e Congregacóes Religiosas, esparsas pelo
mundo inteiro; estas também tém suas finangas próprias, que
nao podem ser confundidas com as da Santa Sé. Ora no pre-

— 195 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

senté artigo abordaremos apenas as finangas da Santa Sé,


nao levando em conta os bens diocesanos e religiosos que
escapam á gestáo daquela.

O presente artigo apresentará o quadro geral das finan


zas do Vaticano em quatro etapas: 1) Visáo de conjunto dos
órgáos administrativos dos bens da Santa Sé; 2) Instituto
para as Obras de Religiáo; 3) Óbulos; 4) A política económica
da Santa Sé. — Em artigo subseqüente, abordaremos explíci
tamente as acusagóes últimamente levantadas contra a admi-
nistragáo dos bens do Vaticano.

1. Os órgáos administrativos

Pela Constituigáo Apostólica «Regimini Ecclesiae Uni-


versae», de 15/08/1967, o Papa Paulo VI reestruturou os
órgáos administrativos dos bens da Santa Sé, dando-lnes regime
novo. Em conseqüéncia, existe hoje, como suprema instancia
administrativa, a chamada «Prefeitura dos Assuntos Econó
micos» (PAE), cujas principáis atribuicóes vém a ser:

1) exercer um controle geral sobre todos os demais


órgáos administrativos;

2) coordenar e controlar as operagóes financeiras e os


investimentos da Santa Sé;

3) realizar o balando de cada ano findo e a previsáo de


orcamento para o ano subseqüente, a serem submetidos á
aprovacáo do Sumo Pontífice.

A frente da PAE acha-se urna comissáo de tres Car-


deais, cujo presidente é atualmente o Cardeal Egídio Vagnozzi,
e cujo Secretario é Mons. G. A. Abbo. Sob o controle da
PAE acham-se os órgáos discriminados no esquema abaixo:

1) Administraeáo do Patrimonio da Sé Apostólica


(APSA);

a) Seccáo Ordinaria;

b) Secgáo Extraordinaria.

2) Governatorato (Prefeitura) do Estado da Cidade do


Vaticano :

— 196 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 21

a) Secretaria Geral

b) Diregáo Geral dos Monumentos

c) Museus e Galerías

d) Diregáo Geral dos Servidos Técnicos

e) Radio Vaticana

f) Servigos Económicos

g) Servigos Sanitarios

h) Observatorio Vaticano

i) Vilas Pontificias

3) S. Congregagáo para a Evangelizagáo dos Povos

4) Fábrica de Sao Pedro

5) Cámara Apostólica

6) Outros Departamentos menores.

Examinemos mais precisamente as competencias de cada


um de tais órgáos.

1.1. APSA

Tinha como presidente o Cardeal Jean Villot, Secretario de


Estado e, como dito, compreende duas secgóes:

1.1.1. APSA : Secjáo ordinaria

É este o Departamento que administra o núcleo origina


rio dos bens da Santa Sé, ou seja, todos os bens pertencentes
ás diversas Congregagóes (quase Ministerios da Igreja), aos
Tribunais e a outras instancias (feitas as excecóes explícita
mente mencionadas nestas páginas). Em sintese, tal Depar
tamento administra todo o patrimonio imobiliário da Santa Sé.
Deste patrimonio, parte é constituida por ¡movéis nao
produtivos, e parte por imóveis produtivos.

Os imóveis nao produtivos sao os edificios ocupados, como


sedes, pelas Congregagóes e os Oficios administrativos da
Santa Sé.

— 197 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

Os imóveis produtivos sao as casas e os apartamentos


utilizados para residencia e aluguel. O periódico «II Mondo»
mencionava cinco mil apartamentos da Santa Sé, quando na
verdade se trata apenas de aproximadamente mil, situados
ñas cercanías do Vaticano, em territorio italiano. A respeito
deve-se observar o seguinte:

Tais apartamentos sao alugados, quase todos, a funcio


narios e dependentes da Santa Sé, aos quais o Vaticano cobra
pregos módicos de locac.áo, visto que nao lhes pode pagar ele
vados salarios. Esses apartamentos estáo sujeitos a paga
mento de impostos por parte da Santa Sé ao Estado Italiano
(inclusive ao imposto sobre o chamado valor adicional, de
dez em dez anos). Além disto, note-se que os aluguéis fica-
ram congelados na Italia por muito tempo, até época recente.
Em conseqüéncia destes diversos fatores, os apartamentos,
em vez de serem fonte de lucro para a Santa Sé, tornam-se
ocasiáo de despesas, pois exigem gastos de manutengáo e
conservagáo sempre crescentes.

De modo geral, as despesas que a Seccáo Ordinaria da


APSA tem de enfrentar, sao motivadas pelos seguintes títulos:
Pagamento dos funcionarios, manutengáo dos predios da
Santa Sé, funcionamento ordinario de todos os organismos
da Curia Romana (excetuada a Congregac.io para a Evange-
lizagáo dos Povos), administragáo do Palacio Apostólico, rea-
tizacáo do Sínodo periódico dos Bispos e, ao menos em parte,
despesas da diocese de Roma (Vicariato, Universidade do
Latráo...).
Para avaliar de mais perto o montante de tais despesas,
tenha-se em vista o número de organismos que integram a
Curia Romana:

Secretaria de Estado, Conselho para os Negocios Públi


cos da Igreja;
Congregacóes para a Doutrina da Fé, para os Bispos,
para as Igrejas Orientáis, para a Disciplina dos Sacramentos,
para o Clero, para os Religiosos e Institutos Seculares, para
as Causas dos Santos, para a Educacáo Católica;
Tribunais da Penitenciaria Apostólica, da Signatura Apos
tólica, da Sacra Rota Romana;
Secretariados para a Uniáo dos Cristáos, para os Nao
Cristáos, para os Nao Crentes;

— 198 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 23

Conselho dos Leigos e Comissáo para a Familia;

Comissáo «Justiga e Paz», Comissáo para a Revibáo do


Código de Direito Latino, Comissáo para a Revisáo do Có
digo de Direito Oriental, Comissáo para a Interpretagáo dos
Decretos do Concilio Vaticano II, Comissáo para as Comuni-
cacóes Sociais, Comissáo para a América Latina, Comissáo
para a Pastoral das Migragóes e do Turismo;

Comissáo «Cor Unum», Comissáo Internacional de Teo


logía, Comissáo Bíblica e mais oito Comissóes de menor
porte;

Oficios: Cámara Apostólica, PAE, APSA, Prefeitura da


Casa Pontificia, Servigo Assistencial do S. Padre, Oficio para
as Relagóes com o Pessoal;

Arquivo do Vaticano II;

Departamento Central de Estatistica.

Quanto ao Palacio Apostólico, compreende, além da Fá


brica de Sao Pedro, a Biblioteca Apostólica Vaticana, o Ar
quivo Secreto, a Escola de Paleografía e Diplomática, a Tipo
grafía Poliglota, a Livraria Editora Vaticana, o jornal «L'Os-
servatore Romano».

Passemos agora a novo subtitulo administrativo:

1.1.2. APSA: Sec$áo extraordinaria

É a continuadora da chamada «Administragáo Especial


da Santa Sé», constituida por Pío XI em 1929, para admi
nistrar a importancia que o Governo italiano pagou á Santa
Sé a título de indenizagáo pelos bens confiscados em 1870.
O Tratado do Latráo, assinado em 1929 por Benito Mussolini
e o Cardeal Gasparri, estipulou que á Santa Sé seriam pagos
750 milhóes de liras em dinheiro e um bilháo de liras em
títulos do Estado italiano aos juros de 5%. Visto que essa
quantia foi paga pelo Estado Italiano, Pió XI julgou opor
tuno aplicá-la parcialmente na própria Italia, ou seja, em prol
da consírucáo de Seminarios regionais e casas paroquiais no
Sul do país. Antes da segunda guerra mundial (1939-1945),
a Santa Sé conseguiu transferir boa parte da quantia res
tante para os Estados Unidos — o que Ihe permitiu salvar
importante porgáo desse patrimonio.

— 199 —
?L _ - tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

Tal dinheiro foi convertido em títulos (agóes, obrigagóes)


e em depósitos bancários, a criterio de peritos assessores.
Como se julga, equivale hoje em dia a cerca de 120 milhóes
de dólares (aproximadamente 2,5 bilhóes de cruzeiros).

As rendas que a Santa Sé possa arrecadar do uso de tais


bens, é destinada a sustentar as despesas da Secgáo Ordina
ria da Administragáo vaticana. Com o passar do tempo, po-
rém, tais emolumentos sao cada vez menos suficientes para
tanto, nao só em virtude da crise mundial e da alta geral
do casto de vida, mas também porque, como se dirá adiante,
a Santa Sé tem criado, na Curia Romana, organismos e Se
cretariados para atender a novas situacóes do mundo con
temporáneo, aumentando assim progressivamente as suas
despesas.

1.2. Governatorato (Prefeituta) do Estado da Cidade


do Vaticano

O Governatorato tem a sua frente urna Comissáo Cardi-


nalícia, cujo presidente era o Cardeal Jean Villot e cujo pró-
-presidente é o Cardeal S. Guerri.

As despesas respectivas sao devidas ao pagamento dos


funcionarios, á manutencáo dos imóveis, ao abastecimento, a
que se somam os servigos prestados á Radio Vaticana e aos
Museus.

As fontes de renda própria sao a emissáo de selos,l a


venda de ingressos aos Museus2, a cunhagem de moedasa, a

iO valor nominal dos selos emitidos nos últimos anos toi de pouco
mals de 7 bilhóes de liras em 1974, quase 4 bilhSes em 1975 e pouco mais
de 6 bilhóes em 1976. — A quanto consta, os selos vendidos com o timbre
"Sede vacante" entre a morte de Paulo VI e a eleicSo de JoSo Paulo I em
1978 produziram as entradas de 3 blindes de liras, necessários para fazer
frente as despesas extraordinarias entño ocorrentes.

*Em 1976 foram vendidos cerca de 1.360 mil Ingressos nos Museus
do Vaticano. Cada bllhete custa mil liras (entrada gratuita no último domingo
de cada mes). Os Museus tem bataneo próprlo, que difícilmente se equili
bra : os gastos com a conservacSo, a restauraefio e a guarda das obras de
arte e com os laboratorios anexos aos Museus ultrapassam longe os pro
ventos obtidos pela venda de Ingressos.

5 A moeda do Estado da Cidade do Vaticano está vinculada ¿ moeda


italiana. O Vaticano pode cunhar moeda, dentro de certos limites, á qual
é franqueado o curso no territorio italiano. Periódicamente o Vaticano emite
moedas comemoralivas com valor numismático.

— 200 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 25

venda de produtos alimenticios, vestuario, fumo, combustível,


produtos das Vilas Pontificias de Castel Gandolfo, atividades
comerciáis na Cidade do Vaticano em favor de pessoas que
tenham direito a isto.

O orgamcnto do Governatorato equilibra-se bem, podendo


ter algum superávit.

1.3. Sagrada Congregajáo para a Evangeliza$áo dos Povos

Através das reformas por que passou a administragáo


vaticana, a S. Congregagáo para a Evangelizagáo dos Povos
pode manter administragáo autónoma. Dispóe de títulos e de
propriedades imobiliárias (urbanas e rurais), que o zelo dos
fiéis doou á Santa Sé no decorrer dos séculos em favor das
missóes. Tais bens sao suficientes para as despesas do fun-
cionamento da própria Congregagáo, da Universidade Urba-
niana e do Colegio Urbaniano, deixando mesmo um saldo
positivo.

1.4. Fábrica de Sao Pedro

Este Departamento atende a guarda e á conservagáo da


basilica de Sao Pedro, assim como á disciplina de acesso a
dependencias desta. Administra também o arquivo da basí
lica, o «estudo do mosaico» e as escavagóes no subsolo (necró-
pole) da mesma. O orgamento é equilibrado, pois, para aten
der ás suas despesas, dispóe dos emolumentos arrecadados no
acesso á cúpula da basílica e á necrópole, assim como das
rendas de fundos de dotagáo da basílica, ao que se soma
parte das ofertas dos fiéis.

1.5. Cámara Apostólica

Em teoría, cabe-lhe administrar todos os bens da Santa


Sé em caso de morte do Sumo Pontífice. O Camerlengo ou
presidente respectivo era o Cardeal Villot.

1.6. Oulros órgáos

Como insinuado á p. 196s, ainda devem apresentar o seu


orcamento e o seu balango ao controle da Prefeitura os

— 201 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 233/1979

seguintes órgáos da Santa Sé: capítulos das basílicas patriar-


cais de Sao Pedro, Sao Joáo do Latráo e Santa Maria Maior;
administragáo da basílica de Sao Paulo fora dos Muros e
das basílicas do Latráo e de S. Maria Maior; Vicariato de
Roma, Universidade do Latráo, Obra para a Preservagáo da
Fé, ao menos na parte nao controlada pela APSA; santua
rios de Loreto, Pompéia e S. Antonio de Pádua; Instituto de
Arqueología Crista, Academia Romana de Arqueología; Co-
missáo de Arqueología Sacra; Casa de Amparo ao Sofrímente
e obras anexas em S. Giovanni Rotondo na Apúlia e outros
Departamentos menores.

Passemos agora a urna instituigáo do Vaticano que nao


é órgáo administrativo dos bens da Santa Sé.

2. O Instituto para as Obras de Religiao (IOR)

O Instituto para as Obras de Religiao é comumente con


siderado o Banco do Vaticano, embora nao o seja propria-
mente. Foi fundado por Pió XII aos 27/06/1942 e reformado
aos 24/01/1944 como instituigáo destinada a guardar e admi
nistrar os capitais (cm títulos e em dinheiro) e os imóveis
transferidos ou confiados ao próprio Instituto por pcssoas físi
cas ou jurídicas e destinados a obras de religiao e de crista
piedade.

As pessoas f¡sicas ou jurídicas em pauta sao: os organis


mos da Santa Sé, dioceses e paróquias, ou aínda Ordens e
Congregagóes Religiosas, como também pessoas particulares
devidamente credenciadas, como funcionarios da Santa Sé,
leigos que destinem seus fundos, ao menos parcialmente, a
obras religiosas... Tais pessoas podem depositar suas pró-
prias economías no IOR, para que sejam custodiadas como
num Banco ou mesmo para que sejam transferidas a países
estrangeiros ou convertidas em outras moedas.

As quantias depositadas no IOR nao pertencem á Santa


Sé, mas aqueles que efetuam tais depósitos. A finalidade
desse quase Banco é servir ás instituigóes católicas e, de modo
especial, as obras de apostolado que estas exercem.

Segundo fontes abalizadas, o IOR conta milhares de depo


sitantes (pessoas físicas e jurídicas) e cerca de dois bilhóes
de dólares em depósitos e contas interbancárias. Sofreu recen-

— 202 —
F1NANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 27

temente notável prejuízo no caso Sindona: numa atitude de


confianga excessiva, o IOR depositou na firma do empresario
siciliano Michele Sindona importantes quantias, que foram
postas em perigo quando desabou o edificio económico de
Sindona; o IOR perdeu assim cerca de 200 milhóes de dólares.

Em suma, o IOR é urna instituigáo que funciona rigoro


samente dentro das normas que regem qualquer instituicáo
bancária, respeitando naturalmente as leis internacionais. Na
medida em que o Vaticano é um Estado civil, tem direito a
possuir esse tipo de organismo, atualmente administrado por
Mons. Paulo Marcinkus. As criticas feitas ao IOR devem-se
nao a pretensa desonestidade de suas operagóes, mas ao fato
de que através do IOR se evadem para o estrangeiro capitais
existentes na Italia. — A esta observacáo pode-se responder
que tal transferencia de capitais se dá em grau limitado,
visto que sao bem definidos os usuarios dos servidos do IOR,
bem como os tipos de servico que este pode prestar; ademáis
ocorre em funcáo da universalidade da Igreja Católica.

3. Óbulos

A Santa Só recobo óbulos do mundo inteiro e os redis


tribuí em favor de obras apostólicas ou assistenciais.

Distinguiremos, a seguir, alguns tipos de esmola e de


órgáos distribuidores de esmolas da Santa Sé.

3.1. O óbulo de Seo Pedro

Após a queda do Estado Pontificio em 1870, os católicos


do mundo inteiro, tendo a frente os franceses, comeoaram a
enviar anualmente ao Papa um subsidio financeiro destinado
a sustentar as atividades da Santa Sé. Assim restauravam um
costume que vigorara desde o séc. VIII na Inglaterra e que
passara dai para outros países (Escandinávia, Inglaterra, Po
lonia, Hungría). Tal coleta é chamada «óbulo de Sao Pedro»,
sendo geralmente efetuada no dia de Sao Pedro (29/06) ou
em domingo imediatamente anterior ou posterior a esta data.

Durante o pontificado de Joáo XXIII (1958-1963), o óbulo


de Sao Pedro chegava a doze ou quinze milhóes de dólaTes

— 203 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

por ano. Caiu nos últimos tempos ao nivel de quatro milhñes


de dólares. Tal quantia é aplicada, em parte, á manutencáo
das Nunciaturas e Delegagóes Apostólicas (representagóes da
Santa Sé em dezenas de países esparsos pelo mundo inteiro).
A mor parte do óbulo é destinada á beneficencia do Papa,
que costuma enviar quantias monetarias ás populacóes fla
geladas por guerras, terremotos, inundagóes, endientes e ma
les semelhantes.

A caridade pessoal e ordinaria do Papa se exerce me


diante a «Elemosinaria Apostólica», atualmente dita «Seryico
Assistencial do Santo Padre». O Sumo Pontífice recebe anual
mente urna media de cinco mil pedidos de subsidios, prove
nientes, em maioria, de Roma e da Italia; além do atendi-
mento dado a estes casos, o Papa mantém em Roma algu-
mas instituigóes antigás abertas a mogas e senhoras em difi-
culdade. Os meios para exercer essa caridade provém das
modestas taxas cobradas por ocasiáo das béngáos apostólicas
a nubentes, sacerdotes que se ordenam, instituigóes ou pes-
soas beneméritas que aniversariam. Os interessados nao pa-
gam a béngáo, mas o pergaminho e a ajuda de custo correla
tiva (verdade é que os intermediarios ás vezes merecem criticas
por causa de suas especulagSes comerciáis).

3.2. Pontificias Obras Missionárias e Fundo «Ecelesiae Sanctae»

a) Sao tres as Obras Missionárias da Santa Sé desti


nadas a sustentar as missóes: 1) a Pontificia Obra para a
Propagagáo da Fé; 2) a Pontificia Obra de Sao Pedro Apos
tólo; 3) a Obra da Santa Infancia (cuja sede central fica em
París). Recebem os resultados de coletas efetuadas mundial-
mente no día das missóes (3' domingo de outubro) como em
outras ocasióes do ano. O dinheiro assim arrecadado ó enviado
aos postos missionários mais necessitados em qualquer parte
do mundo (a S. Congregagáb para a Evangelizagáo dos Po-
vos basta ás suas despesas administrativas, como foi dito).

Para se ter idéia das quantias que assim círculam, note-se:

Em 1975, foi distribuido um total de mais de 63 milhóes


de dólares pelas tres Obras Missionárias. As doagóes arreca
dadas pola Obra para a Propagagáo da Fé subiram de 27 mi
lhóes de dólares em 1965 para quase 49 milhóes em 1975.
Este aumento nominal pouco significa, se se leva em conta a

— 204 —
FINANgAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 29

crise inflacionaria por que vem passando o mundo. Os mais


importantes doadores, em ordem decrescente, sao atualmente
os Estados Unidos, a Alemanha, a Italia, a Espanha, a
Franga, a Bélgica, a Holanda e a Australia.

Todas as informagóes relativas á coleta e distribuigáo dos


fundos missionários sao publicadas no Anuario «Attivitá della
Santa Sede».

Deve-se registrar outrossim que certos auxilios fínancei-


ros a dioceses e postos missionários pobres sao, enviados dire-
tamente por dioceses mais aquinhoadas (tenha-se em vista a
instituicáo «Igrejas irmás») ou por organizacóes que efetuam
coletas próprias na Quaresma ou em outras épocas do ano
(«Misereor», «Adveniat» na Alemanha, «Entr'Aide et Frá-
ternité», «Caréme en Partage» na Bélgica...).

b) o fundo «Ecclesiae Sanctae» tem origem remota no


Motu proprio «Ecclesiae Sanctae» de Paulo VI com data de
6/08/1966, em aplicagáo do Decreto «Ad Gentes» n9 38 (rela
tivo as Missóes) do Concilio do Vaticano n. É constituido
por contribuigóes fixas pagas anualmente por dioceses e paró-
quias do mundo inteiro e destina-se a obras missionárias
extraordinarias. Na Páscoa de 1977, o total desses fundos
atingía meio milháo de dólares.

3.3. S. Congrega$5o para as Igrejas Orientáis

A esta Congregagáo estáo confiadas as comunidades de


rito oriental, que a Santa Sé auxilia na construgáo de igre
jas, escolas, hospitais, asilos, orfanatos, bem como em obras
missionárias, bolsas de estudos... Principalmente o Oriente
Medio é assim beneficiado. Para prever a tais subsidios, exis-
tem algumas organizagóes como a «Catholic Near East
Welfare Association» de Nova Iorque, a «Oeuvre d'Orient»
de Paris, a «Catholica Unió» da Suíga e da Alemanha e outras
entidades, principalmente alemas e holandesas.

Em 1975, a S. Congregagáo para as Igrejas Orientáis


distribuiu pouco mais de seis milhóes de dólares e, em 1976,
quase seis milhóes.

3.4. Pontificia Comissáo para a América Latina

Este Departamento redistribuí fundos as comunidades


mais necessitadas da América Latina.

— 205 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

3.5. Pontificia Comissáo para a Pastoral das MigrajSes


e do Turismo

Entre outras fungues, esta Comissáo desempenha a de


auxiliar financeiramente a pastoral dos emigrantes, a assis-
téncia espiritual aos nómades e o apostolado do mar e do ar.

3.6. «Cor Unum»

Este instituto tem por tarefa nao propriamente distribuir


subsidios, mas, sim, coordenar a agáo dos numerosos orga
nismos internacionais, nacionais e particulares que trabalham
no setor da assisténcia e da caridade e que, em última aná-
lise, dependem da Igreja Católica. O seu atual presidente é
o Cardeal Bernardo Gantin.

4. A política económica da Santa Sé

Para fazer frente as despesas crescentes, assim como para


evitar os percalgos que toda aplicagáo de fundos acarreta, a
Santa Sé, nos últimos anos, houve por bem estabelecer algu-
mas normas aptas a administrar sabiamente o patrimonio que
Ihe tocou em virtude do Tratado do Latráo de 1921. Ei-las:

4.1. Nao investir em. ..

1) Excluir investimentos que possam acarretar proble


mas do ponto de vista moral. Assim, os que se reférem a

— firmas farmacéuticas, as quais produzem ou podem


produzir anticoncepcionais;

— firmas fabricadoras de armas, as quais podem con


tribuir para dei'rogar ao programa de desarmamento e paz
mundiais apregoado pela Igreja;

— empresas cinematográficas, cujas produgóes sao fre-


qüentemente imorais...

— firmas construtoras, visto que estas estáo sujeitas a


criterios de especulagáo imobiliária, contra a qual se tém
levantado fortes campanhas na Italia e no mundo inteiro.

— 206 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 31

Em conseqüéncia, os investimientos da Santa Sé dáo pre


ferencia as chamadas «utilidades», ou seja, sociedades de ser-
vicos públicos (telefone, eletricidade, gas, etc.), empresas ban-
cárias, eompanhias de seguros, industrias químicas, alimenti
cias e petrolíferas.

4.2. Nao investir majoritariamente...

As participagóes majoritáTias levaram o Vaticano a tris


tes experiencias no passado. Com efeito, os adonistas do Va
ticano tiveram que assumir seu lugar em Conselhos de admi-
nistracáo de empresas e enfrentar representantes de Sindica
tos e liquidagóes de setores de trabalho (como ocorreu, por
exemplo, no caso da fábrica de massas Pantanella).

Além do mais, a participagáo majoritária obriga a fazer


face a imprevistas necessidades financeiras, caso a firma passe
por dificuldades repentinas. Ora o Vaticano nao possui capi
tal para tanto.

Por isto a norma vigente no Vaticano manda repartir a


partidpacáo acionária da Santa Sé por grande número de
empresas, nao assumindo, em cada qual, mais do que 1% do
capital.

4.3. Investir fora da Italia

Verifica-se que os investimentos na Italia sao hoje me


nos rentáveis, parecem menos seguros, como também menos
protegidos pelo segredo, além de sofrerem maiores taxasóes.
Eis por que a Santa Sé tem procurado liquidar boa parte das
suas acóes na Italia, a fim de assumir participacóes acioná-
rias e fazer depósitos bancários nos Estados Unidos, na Suíca,
na Alemanha, no Japáo, no Canadá, na Franga, na Espa-
nha... e, de modo geral, em todos os países que permitam a
livre exportacáo dos lucros. Esta medida corresponde, alias,
á tendencia a internacionalizar a Curia Romana.

A Santa Sé tende também a liquidar certas propriedades


imobiliárias, tanto por causa da sua baixa produtividade como
por efeito de campanhas movidas em Roma contra as pro
priedades eclesiásticas.

— 207 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

5. Observando final

O próximo artigo deste fascículo abordará, ponto por


ponto, as acusagóes feitas á Santa Sé a respeito das finanzas
do Vaticano. No final da presente exposigáo, interessa ape
nas registrar quanto segué:

Observa-se que as tomadas de posigáo e as opcóes da


Santa Sé nos últimos tempos nao somente nao tém sido
influenciadas por preocupagóes financeiras e interesses eco
nómicos, mas, ao contrario, tém criado novos encargos finan-
ceiros. Com efeito, a Santa Sé tem empreendido todas as
tarefas pastorais que lhe paregam oportunas, com oneragáo,
cada vez mais penosa, de suas finangas.

Tenha-se em vista, por exemplo, a descentralizagáo da


Curia Romana, executada por Paulo VI após o Concilio do
Vaticano II; reconhecendo aos bispos diocesanos certas facui
dades que, durante sáculos, foram reservadas á Santa Sé, o
Sumo Pontífice renunciou, ipso facto, ás taxas outrora arre
cadadas por ocasiáo dos respectivos despachos na Curia.
Hoje em dia, restam apenas algumas taxas a serem pagas á
Curia Romana, geralmente por ocasiáo de nomeagóes, dis
pensas, processos de canonizagáo, de declaragáo de nulidade
de casamento... Calcula-se, porém, que atualmente as partes
interessadas nos processos cobrem apenas 20% das despesas
dos tribunais romanos, ficando 80% a cargo da Santa Sé.

Entre os recentes encargos assumidos pela Santa Sé, é


de se mencionar outrossim a criagáo de novos organismos da
Curia, em correspondencia ás aspiragóes do Concilio do Va
ticano II: assim os Secretariados para a Uniáo dos Cristáos,
para o Diálogo com os Nao Cristáos, para o Diálogo com os
Nao Crentes, o Conselho dos leigos, a Comissáo «Justiga e
Paz», a Comissáo para as Comunicagóes Sociais.. . Como se
compreende, estes Departamentos sao os mais dispendiosos
da Curia Romana, dado que os seus membros precisam de
manter contatos intemacionais, participando de encontros e
Congressos ñas mais diversas partes do mundo.

Mencione-se ainda a internacionalizagáo progressiva da


Curia Romana: a Santa Sé tem solicitado os servicos de peri
tos e consultores de diversos países; chamou para Roma
varios bispos estrangeiros — o que tem multiplicado as via-
gens aéreas e seu orgamento.

— 208 —
FINANCAS DO VATICANO: QUADRO GERAL 33

Mais: a Santa Sé tem procurado elevar o nivel salarial


dos seus servidores, reconhecendo as exigencias de nossos
tempos. — Em fins de 1976, o Vaticano tinha 3992 funciona
rios na ativa e 1500 aposentados. Os salarios continuam nao
sendo altos — o que causa dificuldade aos oficiáis oriundos
de países cuja moeda é forte. Acontece, porém, que o leque
salarial da Santa Sé é daqueles que menor disparidade ofe-
recem no mundo inteiro. Com efeito, o salario máximo em
fins de 1977 era de 600 mil liras mensais, oferecido a quem
ocupasse o posto supremo da carreira administrativa do Va
ticano após vinte anos de servigo (por exemplo, ura Substi
tuto da Secretaria de Estado), ao passo que o salario mínimo
era de 400 mil liras mensais, pago a auxiliares, continuos e
agentes (mais ou menos equiparados entre si). É preciso
lembrar, de resto, que os funcionarios da Santa Sé, além
dos beneficios concedidos aos de qualquer país (assisténcia
médica, indenizagao por inatividade, salario-familia...), usu-
fruem de certas vantagens: aluguéis mais baratos, acesso ao
comercio do Vaticano, isen^áo fiscal (reconhecida pelo art. 17
do Tratado do Latráo).

Quanto aos Religiosos que trabalham no Vaticano, tém


tratamcnto diferente por havercm feilo voto de pobreza:
recebem 425 ou 400 mil liras mensais (conforme sejam licen
ciados ou nao), mas nao percebem indenizagáo por inatividade
(em lugar disto, tém direito a um décimo quarto salario).

Entende-sc que, em conseqüéncia do aumento do quadro


da Curia Romana, as despesas desta sejam cada vez mais
vultosas, precisamente numa época em que as rendas tendem
a diminuir.

Há já mais de cinco anos, o ornamento anual do Vati


cano é deficitario. Estimado em 30 bilhSes de liras, deixa
um saldo negativo de 10 a 12 bilhóes.

Em 1974, a previsáo de orgamento para 1975 foi rejei-


tada pelo Papa Paulo VI, que pediu contengáo de despesas.
Foi entáo constituida a Comissáo Gagnon, encarregada de
estudar a supressáo de postos de trabalho tidos como menos>
necessários, redistribuir o pessoal, diminuir as despesas com
viagens, convites, etc. A Comissáo fez suas propostas minu
ciosas ao Papa.

— 209 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 233/1979

Apesar disto, o balango da Secgáo Ordinaria da APSA


(que prové as despesas da Curia Romana) continua defici
tario desde varios anos, deixando o balanco global da Santa
Sé desequilibrado; as fontes de renda da Secgáo Extraordi
naria da APSA já nao bastam para assegUrar a normalidade
das finangas, de modo que a Santa Sé se vé cada vez mais
obrigada a contar com os emolumentos provenientes do IOR
e do óbulo de Sao Pedro.

Estes dados, concretos e fundamentados como sao, des-


fazem a imagem de um «Vaticano rico», falsamente proje-
tada por pessoas que falam a respeito sem o necessário conhe-
cimento de causa ou repetindo «slogans» forjados precipita
damente. A Santa Sé nao pode dispensar recursos materiais,
embora exerga missáo espiritual; é certo, porém, que os bens
materiais de que ela dispóe, sao parcos ou mesmo insuficien
tes para a realizagáo de todos os projetos que o curso da
historia contemporánea parece sugerir. Se o Vaticano con-
segue desempenhar a sua missáo, isto se deve á austeridade
do seu estilo de trabalho, como também, e principalmente, á
assisténcia da Providencia Divina, que nao deixa de apoiar a
sua Igreja mediante a generosidade dos fiéis.

Este artigo vem a ser a síntese de grande parte do tra


balho publicado por Giovanni Cereti com o título «Recursos
e atividades financeiras do Vaticano» em «Concilium» n* 137,
1978/7, pp. 8(808) — 24(824).

A propósito aínda :

CONK3AR Y-M Les blens lemporels de t'Egllse d'aprés sa tradltlon


théologlque et'canonlque, ¡n Egllse et Pauvrelé. París 1965, PP. 234-258.

J L Le Valican 'grlgnote' son capital, in Informatlons Cathollques


Intemailonáles n? 532, novembre 1978, pp. 43-46.

SARTOR1 L. E CERETI G., A Curia a servido de um Papado Renovado,


In Concilium n"? 108, 1975/8, pp. 996-1007.

ZIZOLA, GIANCARLO. Quale Papa? Ed. Borla, Roma 1978.

— 210 —
Ainda em mira:

as (mancas do vaticano (II)

objecóes e respostas

Em sintese: Continuando o artigo anterior, que expóe o funclona-


mento da administracao vaticana, as páginas seguintes apresentam as reB-
postas dadas pela S. Sé, através do seu órgao L'Osservatore Romano, a
jornalistas que últimamente divulgaran! falsas noticias sobre as finangas do
Vaticano.

Tais respostas mostram que multas noticias publicadas a respeito


carecem de fundamento; nSo poucos daqueles que as publlcam ou transml-
tem, fazem-no sem o devido conhecimento de causa, repetlndo slogans ins
pirados por preconceltos ou por intencfies difamatorias mais do que pelo
amor á verdade.

Dizia Paulo VI ao visitar a Sicilia : "O Papa nSo ó rico. Temos dificul-
dades para sustentar as despesas decorrentes dos servlcos necessárlos á
admlnistracSo central de toda a Igreja".

O presente artigo ilustra, a seu modo, tais palavras e contribuí para


evidenciar que a campanha difamatoria das financas do Vaticano só con
corre para desonrar aqueles que a movem, nao, porém, aqueles que a sofrem.

Comentarios: Após a apresentagáo do quadro geral das


linhas diretrizes das finangas do Vaticano, importa conside
rar algumas objecóes que nos últimos tempos foram levanta
das contra tal sistema. Oriundas na Europa, tais acusagóes
foram repetidas no Brasil, seja por escrito, seja por via oral,
sem que o público tivesse referenciais para poder avaliar a
fundamentagáo e o alcance das mesmas.

Ñas páginas subseqüentes, vamos retomar o caso, levando


em conta as informagóes fornecidas a respeito pela própria
Santa Sé através do seu periódico L'Osservatore Romano.
Tencionamos assim oferecer ao leitor brasileiro a ocasiáo de
se esclarecer em fonte limpa a propósito de urna campanha
que se torna desonrosa táo somente para quem a move, e nao
para quem a sofre.

— 211 —
3tí _ _J?EK_9_UNTE k RESPONDEREMOS* 233/1979

1. Imediato fundo de cena

O escritor Niño Lo Bello publicou o livro L'Or du Vatícan


(ed. Robert Laffont. París 1969), exibindo noticias e núme
ros que tendem a caracterizar o Vaticano como grande
potencia financeira intercssada em especulares lucrativas
pouco condizentes com o ideal de simpncidade e pobreza do
Evangelho.

O livro de Niño Lo Bello deu materia a um artigo do


jornalista Blaise Evard no periódico Tribune de Lausanne de
13/03/70, artigo pouco simpático á Santa Sé. O mesmo livro,
publicado em tradugáo alema, mereceu um comentario do
jornal Wochenpresse de Viena aos 8/04/1970. Finalmente o
famoso semanario alemáo Der Spiegel (ed. de 25/05/1970)
divulgou, por sua vez, trechos do mencionado livro que, nos
tres casos, passava por fonte fidedigna de informales.

Diante de tal campanha, o jornal L'Osservatore Romano


do Vaticano foi solicitado por leitores suigos a prestar escla-
recimentos. Em resposta intitulada Precisazioni (22/07/1970),
mostrou como levianas e inconsistentes sao as informagóss
de Niño Lo Bello e da imprensa que as acolheu. Tais escla-
recimentos, que visam dirctamente as noticias do jornal Tri
bune de Lausanne, de 13/03/70, scrao precisamente a mate
ria das páginas subseqüentes.

2. Desfazendo falsa ¡magem

Sao treze os pontos abordados na réplica:

1. Afirma o periódico Tribune de Lausanne: «O Vati


cano vendeu á FÍAT 30% das agóes da LANCIA que ele pos-
suia». A mesma noticia apareceu outrossim no jornal Thc
Economist de iyil/1969, já tendo sido desmentida por L'Os
servatore Romano de 19/11/1969. — Na verdade, a Santa Sé
jamáis possuiu agóes da LANCIA; por conseguinte, nunca as
pode vender a quem quer que fosse.

2. Assevera a Tribune de Lausanne que «a Santa Sé


soube especular hábilmente com a revalorizagáo do marco».
Também isto é falso, pois a Santa Sé jamáis possuiu mar
cos alemáes.

— 212 —
FIN ANCAS DO VATICANO: RESPOSTAS 37

3. A Santa Sé, dizem, possui agües ITALCEMENTI,


ALFA ROMEO e IRI. — Ora quem conhece um pouco a
situado italiana, sabe que o IRI é urna companhia financeira
de direito público, e nao urna sociedade fundada sobre agóes;
por eonseguinte, nao tem acionistas; é, pois, impossivel que a
Santa Sé seja um dos principáis acionistas do IRI, como
afirma a Tribunc de Lausanne.

4. Diz ainda este jornal suígo que a Santa Sé possui a


maioria das agóes da ITÁLGAS, da SNIA VISCOSA e da
MONTEDISON. — Ora essa maioria nao vai além de 0,92%
no caso da ITALGAS, e nao chega a 1% no das duas outras
Companhias.

5. O mesmo periódico insinúa outrossim, sob o titulo


Le Saint-Siége: de l'immobilier aux assurances, que a Santa
Sé dispóe de elevadas cotas de agóes de Companhias imobi-
liárias e de Seguros. — A propósito, observe-se que a Santa
Sé nao tem participagáo majoritária em Companhia alguma.
No tocante as Companhias de imóveis em particular, como é
a Societa Genérale Immobiliare, o Vaticano se desfez das agóes
respectivas. Os motivos de tal atitude sao expostos a p. 207
deste fascículo.

6. É falso que a Santa Sé tenha «o controle das sete


principáis instituigóes bancárias da Italia».

7. É verdade que o Vaticano possui atualmente depó


sitos em Bancos da América do Norte e da Suíga. Isto, po-
rém, é plenamente normal, dado o caráter internacional da
agáo da Igreja, a qual desenvolve sua missáo evangelizadora
e promocional em todos os continentes da térra.

Nos Bancos italianos, a Santa Sé dispóe de depósitos


líquidos, cujo montante é proporcional as operagóes finan-
ceiras que ela tem de realizar na Italia.

8. «O capital produtivo do Vaticano, afirma a Tribune


de Lausanne, pode ser avaliado entre 50 e 55 bilhóes de fran
cos suígos*. ou seja, 7 ou 8 trilhóes de liras. — Pois bem; tal
quantia é simplesmente fantástica. Na verdade, o capital pro
dutivo da Santa Sé, incluindo tanto os depósitos como os
investimentos colocados na Italia e fora da Italia, está longe
de atingir a centésima parte de tal soma.

— 213 —
38 ¿PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 233/1979

9. A importancia de 7 ou 8 trilhóes de liras seria fan-


tasticamente exagerada mesmo na hipótese de se considerar
o dinheiro depositado no «Instituto para as Obras de Reli-
giáo» ou em outras instituicóes congéneres, dotadas de fina-
lidade especial. — Na realidade, a Santa Sé nao pode dispor
de tais quantias para atender a seus interesses administra
tivos, visto que nao lhe pertencem e sao destinadas ás obras
missionárias e assistenciais da Igreja universal. Para fazer
frente ás suas despesas administrativas, portante, a Santa Sé
só pode contar com os rendimentos do capital produtivo men
cionado no inciso 8 atrás.

10. Segundo a Tribune de Lausannc, «a Igreja distribuí


anualmente mais de dois trilhóes de francos suígos aos países
em vía de desenvolvimento».

A propósito cabem duas observagóes:

a) É necessário distinguir sempre entre a Igreja e a


Santa Sé. Esta vem a ser a diocese principal de toda a
Igreja, na qual estáo centralizadas diversas funcóes da Igreja
universal. Quanto á Igreja, é a comunháo de todas as dioceses
do mundo inteiro; compreende paróquias e instituicóes muito
numerosas e variegadas.

b) Sabe-se que em varios países desenvolvidos existem


instituicóes católicas destinadas a ajudar as regióes subde-
senvolvidas e a atender ás necessidades de populagóes indi
gentes ou flageladas (Misereor, Adveniat, Chantas Interna-
tionalis...). Ora é certo que tais sociedades distribuem anual
mente quantias de dinheiro. Resta saber donde vem a infor-
macáo de que se trata de mais de dois bilhóes de francos
suícos... Nao resultaria de conjetura exagerada? Caso seja
fiel, atesta o interesse dos fiéis católicos pelo bem de seus
irmáos necessitados e, em vez de suscitar críticas, é apta a
provocar tío somente os aplausos do público.

Nao há dúvida, porém, de que a mencionada quantia


nao pode sair dos rendimentos da Santa Sé, que lhe sao de
todo inadequados. Verdade é que a Santa Sé distribuí aos
países subdesenvolvidos parte dos donativos que a Igreja Uni
versal destina aos mesmos: tenham-se em vista, por exemplo,
as obras missionárias pontificias já referidas a p. 204s deste
fascículo. Anualmente a S. Congregacáo para a Evangeliza-

_ 214 —
, FINANCAS DO VATICANO: RESPOSTAS 39

gao dos Povos publica minuciosa prestacáo de contas a tal


respeito.

11. Nao se devem confundir com os bens da Santa Sé


;is subvengóes que, na base da Concordata Italia-Vaticano
(art. 30), o Estado italiano paga aos bispos e aos párocos (e
nao «a todos os eclesiásticos residentes na Italia», como pode
insinuar a Tribune de Lausanne). — Note-se, alias, que a
subvencáo ou congrua aos ministros do culto nao é peculia-
ridade do regime italiano, mas é prestada também em outros
países, mesmo nao oficialmrnte católicos.

12. Ainda assevera a Tribune de Lausanne: «A Con


cordata isenta de todos os impostos os membros do clero e
os cidadáos da cidade do Vaticano». — Ora isto nao é exato.
A Concordata nao trata de tal isencáo. Todavía o Tratado
do Latráo (que se distingue da Concordata, embora tenham
sido ambos assinados no mesmo dia), em seu artigo 17, prevé
nao a isencáo de todos os impostos, mas apenas a isencáo dos
tributos que recaem sobre os pagamentos efetuados pela Santa
Sé aos seus dependentes. Este artigo, portante, beneficia ape
nas os assalariados da Santa Sé, e nao os membros do clero
em geral, como também nao os cidadáos da cidade do Vati
cano como tais (pouco mais de 500 pessoas).

Diga-se ainda que os dependentes da Santa Sé constituem


poucos milhares de individuos, em maioria leigos responsá-
veis por suas familias. O beneficio que o Tratado do Latráo
Ihes reconhece em materia tributaria, nao é senáo urna con-
seqüénda do reconhecimento da soberanía da Santa Sé.

13. É verdade que, por ocasiáo da reconciliagáo entre


o Vaticano e o Estado italiano, este pagou áquele, a título
de ressarcimento, a quantia de 40 milhócs de dólares em
especie e 50 milhóes de dólares em títulos do Tesouro a 5%.
Entenda-se isto, porém, no contexto do ano de 1929, quando
o dólar valia 19 liras, e nao no contexto de hoje. Em 1929,
a Italia pagou 750 milhóes de liras em especie e um bilháo
em títulos. Hoje pagaría quantias que girariam em tomo de
50 e 60 bilhóes de liras.

Urna vez examinados os treze pontos atrás, resta-nos


passar a urna

— 215 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 233/1979

3. Conclusdo

A resposta dada ao jornal Tribune de Lausanne, a pedido


de leitores suícos, bem mostra nao somente quáo inescrupu
losas eram as noticias deste jornal, mas também quáo pouco
fidedignos sao os dados oferecidos por Lo Bello aos seus lei
tores. De modo geral, verifica-se que sao pouco honestas as
informag5es ministradas ao grande público por periódicos que
pretendem conhecer e bisbilhotar as finangas do Vaticano.
Dir-se-ia que sao inspirados por preconceitos e por intengóes
difamatorias muito mais do que pelo amor á verdade.

Em conclusáo de quanto acaba de ser ponderado, pode-se


dizer que a Santa Sé possui um patrimonio, como, alias, qual-
quer sociedade possui o seu patrimonio, desde que tencione
construir algo neste mundo em favor dos homens. Cristo
nao condenou a posse de bens materiais como tal, pois sabia
que estes sao indispensáveis á difusáo da verdade e do bem.
O que o Senhor rejeitou, foi a posse gananciosa e egoísta
das riquezas.

Sendo assim, entende-se que o Vaticano possua recursos


materiais. Estes vém a ser modesto instrumental para o
desempenho da missáo religiosa da S. Igreja. Dado que tal
missáo é cada vez mais exigente e complexa em nossos dias,
esses recursos se tornam cada vez mais inadequados para
tanto. É o que levava o Papa Paulo VI a dizer por ocasiáo
de sua visita a Cagliari na Sicilia em 1970:

"O Papa nao é rico, como dizem multos. Temos diliculdades para sus
tentar as despesas decorrentes dos servlcos necessárlos a administrado cen
tral de toda a Igreja. Poder-se-ia fácilmente demonstrar que as fabulosas
riquezas que, de vez em quando, algumas vozes da opinlSo pública atrlbuem
a Igreja, sSo multo mals exiguas e. nSo raro, insuficientes para as necessl-
dades modestas e legitimas da vida ordinaria tanto de eclesiásticos e Reli
giosos quanto de Instituidas de beneficencia e pastoral".

Possam estas palavras do grande Pontífice e os dados


anteriores contribuir para lancar luz sobre assunto a respeito
do qual muitas pessoas (cristas e nao cristas) fácilmente tecem
comentarios, mas do qual poucos tém o devido conhecimento!

— 216 —
Sim ou Nao ?

" cálice"
cálice
de Chico Buarque e Gilberto Gil

Em sfntese: A cancfio "Cálice" causou Impacto nos ouvlntes. Tenta


parafrasear a oracfio de Cristo no horto das Ollveiras. Todavía foi rejeltada
por autoridades da Igreja como inoportuna e Irreverente... Isto se explica
nao so pela llnguagem vulgar da respectiva letra, mas também pelo fato de
que so exprime amargura e desespero. Ora a atltude crista dlante do mal e
da dor, embora seja de repulsa, vem a ser, em última análise, de confianca
e esperanca Nao há sexia-feira santa sem domingo de Páscoa. Para o
cristio, nao há dor sem perspectiva de alegría suscitada pela vltória de
Cristo sobie a cruz e a moite.

Ademáis é notoria a influencia das cancdes populares na fotmacflo


ou deformacáo da gente simples, É o que explica as reservas de pastores
da Igreja frente á letra de "Cálice".
• • •

Comentario: Causou certo impacto no público a cangáo


de Chico Buarque e Gilberto Gil intitulada «Cálice». Alude
do maneira extremamente realista aos males da sociedade
contemporánea, parafraseando a oragáo de Jesús no horto
das Oliveiras: «Pai,... afasta de mim este cálice» (Me 14,16).
A cangáo teve penetraclo em ambientes católicos, que nela
viram a ocasiáo de provocar a reflexáo sobre a realidade dos
nossos tempos e os apelos que eles dirigem aos cristáos. Con-
tudo foi rejeitada em alguns pontos do Brasil por autoridades
da Igreja como sendo inoportuna e irreverente. — A opiniáo
pública pergunta: por que foi condenada tal cangáo? Que há
nela de inoportuno?

É o que vamos tentar explanar.

1. A letra da can^áo

Antes do mais, eis o texto em causa:

CÁLICE

"Pai, afasta de mim esse cálice


De vinho tinto de sangue I
Como beber dessa bebida amarga.

— 217 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 233/1979

Tragar a dor, engolir a labuta ?


Mesmo calada a boca, resta o pelto.
Silencio, na cldade nao se escuta.
De que me vale ser filho da santa ?
Melhor seria ser filho da outra!
Outra realidade menos moda,
Tanta mentira, tanta torga bruta!
Como é diffcll acordar calado,
Se na calada da noite eu me daño.
Quero langar um grito desumano,
Que é uma maneira de ser escutado.
Esse silóncio todo me atordoa.
Atordoado continuo atento
Na arquibancada pra qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa.
De multo gorda a porca já nSo anda,
De multo usada a faca já nao corta.
Como é diffcll, pal, abrir a porta I
Essa palavra presa na garganta,
Esse pileque homérico no mundo...
De que adianta ter boa vontade ?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bébados do centro da cidade.
Tatvez o mundo nao seja pequeño,
Nem seja a vida um fato consumado.
Quero inventar o meu próprio pecado.
Quero morrer do meu próprio veneno,
Quero perder de vez tua cabera.
Minha cabeca perder, ter jufzo...
Quero cheirar fumaca de óleo Diesel,
Me embriagar até que alguém me esqueja".

Passemos a algumas reflexóes sobre tal texto.

2. Comentando. . .

Proporemos quatro tópicos:

1) O texto tenciona desenvolver a oragáo de Cristo


proferida no jardim das Oliveiras em consideragáo das dores
de sua Paixáo e em vista do pecado do mundo. Propóe entáo
a amargura de quem considera a sociedade de hoje, usando
linguagem metafórica e popular (ou mesmo vulgar), que,
alias, nem sempre é clara e concatenada. O ouvinte percebe,
sem dúvida, que o cantor exprime amargura e desdém:

"Tanta mentira, tanta ror$a bruta. . . Esse pileque homérico no


mundo... Resta a cuca dos bébados no centro da cidade..."

Note-se, porém, que em toda a cangáo nao há uma pala


vra de esperanza ou de confianga num futuro melhor; nao

— 218 —
<CÁLJCE> DE CHIC» BUARQUE 43

se faz alusáo a algo de bom ou valioso na realidade contem


poránea. Ao contrario, o texto termina no desespero: «Quero
inventar o meu próprio pecado... Quero morrer no meu pró-
prio veneno... Quero cheirar fumaga de óleo Diesel, me em
briagar até que alguém me esqueca».

2) Ora tal atitude nao é crista, ou seja, está longe de


interpretar o pensamento de Cristo. O Senhor Jesús conti-
nuava sua oracáo ao Pai, dizendo: «Faca-se, porém, a tua
vontade, e nao a minha»; exprimiu, desta forma, serenidade
e confianga, superando a dor que Ihe enchia o coragáo. Além
disto, venceu a própria morte, ressuscitando. Assim Cristo
deixou aos seus discípulos a consciéncia de que nao há sexta-
•feira santa sem domingo de Páscoa, nao há cruz e morte
sem ressurreicáo, nao há tristeza sem perspectiva de alegría.
Esta conviccáo é essencial para o cristáo; este jamáis se pode
deixar submergir pela dor a ponto de só descrever a face
sombría da vida; antes, para o cristáo, já a cruz é gloriosa,
pois é o penhor da restauracáo do homem como nova cria
tura (cf. 2Cor 5,17)'.

É, pois, o fato de interpretar erróneamente o pensamento


de Cristo e a mensagem crista que, antes do mais, suscita
serías reservas <á cangáo da parte de pastores da Igreja. A
expressáo de tanta amargura, sem mencáo de esperanga,
deforma a mentalidade do público, especialmente da gente
simples, que costuma ouvir tal tipo de música.

3) Além disto, chama a atengáo o teor da linguagem


adotada; nao somente a gíria, mas a irreverencia ai apare-
cem: «De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser
filho da outra!» ou «Quero inventar meu próprio pecado,
Quero morrer do meu próprio veneno». Evidentemente, tal
expressionismo nao se coaduna com o estilo de urna assem-
bléia litúrgica ou paraliturgica. Talvez ocasionalmente tal
cangáo possa ter significado em ambientes seletos: através
de sua letra poderiam ser levados a urna reflexáo sobre o
contraste existente entre a realidade de hoje e o mundo ideal
que, apesar de tudo, os cristios devem procurar construir.

4) Deve-se ainda realcar a enorme influencia que exer-


cem as cancóes populares, principalmente quando divulgadas
pelos meios de comunicagáo social. Tornam-se, nao raro,
meios de deformacáo ou também... de formagáo das massas.
Isto explica a atengáo que a Igreja dispensa a tal fator da

— 219 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 233/1979

vida moderna. Os cantores populares podem realizar grande


bem em prol da gente simples apresentando músicas de teor
religioso sadio; tal foi o caso de «Jesús Cristo, estou aqui»
e de «A Montanha» de Roberto Carlos (cf. PR 135/1971,
pp. 116-121). Podem, porém, desfigurar as atitudes do nosso
povo simples se recorrem a temas religiosos sem a deyida
sensibilidade e reverencia (o que nao raro ocorre). Eis o
que justifca um apelo a tais «astros» do povo para que utili-
zem a sua forca de influencia em prol da formagáo dos
ouvintes, especialmente quando resolvem abordar assuntos
religiosos.
Esteváo Betteneourt O.S.B.

livros em estante
Sacramento da Penitencia. O perdao de Deus na comunldada eclsslal,
por Mario de Franja Miranda. Colero "Teología e EvangellzacSo" — II.
— Ed. Loyola, Sao Paulo 1978, 141 x 210 mm, 100 pp.
Este Mvro já foi apresentado ao público em PR 225/1978, 3a. capa.
Els porém, que PR recebeu carta do Pe. Carlos Furbetta, Nova Venócla (ES),
datada de 13/04/79, portadora de judlclosas observacSes ao referido livro.
Eis por que, a titulo de honestldade, transmitiremos aquí aos nossos leitores
o teor desses reparos :
1) "O capitulo Breve Sintese Histórica nao me parece nada lúcido".
Nao mostra que a Igreja "desde o principio recorreu também ao modo de
confessar-se secretamente" (cf. Concilio de Trento can. 6, e o Papa SSo
LeSo Magno, t 461, que afirma ser a confissSo particular urna regra trans
mitida pelos Apostólos á Igreja).
2) A conflssáo individual dos pecados é necessária para que o sa
cerdote, como juiz, possa avallar se é licito ou nSo, no caso dar a absolvl-
cio sacramental. — Ora nao é bem isto o que se lé ás pp. 58 e 69 do Hvro
de Franca de Miranda.
3) Em caso de absolvigáo coletiva devidamente autorizada pelo Sr.
Blspo fica aos penitentes reconciliados a obrlgacáo de procurarem o sacer
dote, ao menos dentro de um ano, para confessarem particularmente os
pecados aínda n5o acusados. Ora o Pe. Franca de Miranda, ás pp. 69s.
julga que "a exigencia da confissdo Individual posterior é de ordem disci
plinar, nao dogmática; dai as Normas Pastorals de 1972, como o Novo Rito
(Introd. 31), referlrem-se sempre, ao estabelecer as normas para a absol-
vlcfio coletiva sem confissáo individual previa, 6 llceldade e nao á validez
do ato em si, o que atinge também a exigencia da confissSo individual
posterior". — Na verdade, porém, tal posicSo nao corresponde á norma esta-
beleclda pela S. Congregado para a Doutrina da Fé em sua citada tnstru;So
de 16/06/72, norma assim reproduzlda pelo Novo Ritual da Penitencia n"? 33:
"Para que os fiéis possam beneficiar-se da absolvicao sacramental dada
simultáneamente, é ImJIspensável que estejam convenientemente dispostos,
isto é, que, arrependldos de suas culpas, tenham o propósito de nSo tornar
a comete-las, de reparar os danos e escándalos causados e de confessar

— 220 —
Individualmente, em tempo oportuno, os pecados graves que no momento
nao poden» confessar. Os sacerdotes InstnilrSo diligentemente os liéis sobre
estas dlsposlcées e condicoes requeridas para a validado do sacramento .
4) Quanto á necessidade da conflssfio Integra e individual, é consi
derada "n5o apenas disciplinar, mas dogmática" & p. 70 do livro, ao passo
que á p. 71 é tlda como "disciplinar e nao dogmática". — A contradlcáo
entre essas duas passagens se resolve em favor da primelra afirmagSo.
Somos gratos ao Pe. Furbetta pelas suas valiosas ponderagSes, que
contribuem para que nSo se perca entre os fiéis e no clero a conscíéncla
da necessidade da conflssáo Individual, especifica e íntegra dos pecados
graves.

Teología do Novo Testamento, por Karl Hermann Schelkle. Vol. IV:


Eihos Comportamento moral do homem. Tradugáo de Silvlno Arnhol-f S.J.
— Ed. Loyola, Sflo Paulo 1978, 140 x 210 mm, 358 pp.
K H Schelkle doutor em Filosofía e em Teología, é professor de Teo
logía do Novo Testamento na Faculdade Católica de Teología da Uníversldade
de Tüblngen (Alemanha); suas obras de caráter teológico, exegético-bíbllco
e patrístico já foram traduzidas para mais de dez Idiomas.
"Teología do Novo Testamento", compreendendo cinco volumes, é a
mals alentada e profunda obra no género publicada até hoje. O volume I
apresenta urna Introdugáo histórica, literaria e teológica a todo o Novo Tes
tamento O volume II trata da Criagfio, considerando o mundo, o tempo e
o homem O volume III tem por subtítulo "Deus estava em Cristo" (Cristo-
logia) ao passo que o IV aborda o Ethos, ou seja, o estilo de vida próprio
do crlstao O volume V (em preparacSo) abrangerá a temática "Reino de
Deus, Igreja, Revelacáo". Como se vé, em vez de seguir a ordem crono
lógica dos escritos do Novo Testamento, o autor preferiu estudar os temas,
conceitos e paiavras importantes do Novo Testamento de maneira sistemá
tica e sintética.
O volume IV é rico em aspectos do Ethos cristao: conversáo e peni
tencia fé amor de Deus e do próximo, llberdade, santldade, justlga, matri
monio'e celibato, impudicicia, verdade e mentira... O autor costuma abor
dar cada tema sobre o paño de fundo da cultura helenística e da teología
do lAntigo Testamento — o que multo valoriza as suas explanag6es.
Merece atengSo a maneira como Schelkle encara a doutrina da índls-
solubilidade matrimonial no Novo Testamento. Em Mt 5, 32 diz Jesús: Todo
aquete que repudia a sua mulher, a nSo ser por motivo de pomela, faz com
que ela adultere, e aquele que se casa com a repudiada, comete adulterio
ícf Mt 19 9) Schelkle nao aceita a interpretagáo de Bonslrven, que entende
¿órnela como sendo unlSo Ilegítima; prefere traduzir tal vocábulo por adul
terio (cf p 258s) A nota 5 da p. 259 é obscura e redigida com improprle-
dades de Mnguagem (deficiencia de tradugao?), principalmente quando
trata da declaragao de nulidade por falta de forma. Em suma, a abordagem
do tema nSo satisfaz.
Quanto aos eunucos de Mt 19, 10-12, Schelkle nio cita a Interpretagáo
que Dupont dá á expressSo "eunucos por causa do Reino dos céus1. Estes
nSo serlam os que abragam o celibato diretamente, mas, sim, os homens
que tendo-se casado, sao Infellzes no matrimonio e, por isto, devem sepa-
rar-se de suas esposas sem ter direito a segundas nupcias (fazem-se assim
eunucos por amor do Reino). Esta interpretagáo de Dupont é mals condi-
zente com o contexto de Mt 19, que fala da vida matrimonial e das exigen
cias de Indissolubilidade do casamento na Nova Lei. Cf. pp. 260s.
Estas observagSes nao significam que o volume em pauta nio seja
interessante e útil ao estudioso. É geralmente sólido e substancioso em
suas explanagSes.
B. D.
ORAgAO DO PEREGRINO

DESDE QUE VI
A LUZ QUE TU CRIASTE,
OS DÍAS E AS NOITES SE SUCEDEM,
E A CAMINHADA,
TANTAS VEZES ALEGRE,
SE TORNA AS VEZES TRISTE,
TALVEZ COMO AQUELA QUE FIZESTE.
E PASSO A PASSO CAMINHANDO CONTIGO
COMPANHEIRO ESCONDIDO,
VOU NA CERTEZA DO ENCONTRÓ PROMETIDO
PARA VER A TUA FACE
LA NO FIM DA JORNADA.

TANTOS ANOS CAMINHEI A TUA PROCURA


BUSCANDO-TE EM TODA PARTE...
E A QUANTOS NO CAMINHO ENCONTREI
POR TI EU PERGUNTEI,
MAS TODOS, COMO EU, PEREGRINAVAM.

PEQUEÑO E POBRE NO MEIO DO CAMINHO,


NO CORA?ÁO DO PRESENTE .,,..„„
LANCO UM OLHAR AO PASSADO E AO FUTURO.

O CAMINHO DO PASSADO

ENVOLVESTE COM A TUA MISERICORDIA


PARA FAZ6-LO ENTRAR
NO SEGREDO DA TUA ETERNIDADE.

NO CAMINHO DO PRESENTE,
QUERO IR COM A MAO EM TUA MAO,
CERTO DO TEU AMOR,
E D1ZER CADA DÍA, MEU AMIGO:
"OBRIGADO, SENHOR1"

O CAMINHO DO FUTURO
SÓ A TI PERTENCE.
POR ISTO, CONFIANTE E INDIGENTE,
QUERO DEPOSITÁ-LO

EM TUAS MÁOS, SENHOR.