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A Crítica do Conhecimento por Nikos Kazantzakis

Vitor Vieira Vasconcelos Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Belo Horizonte, Minas Gerais, 2003

‘’Distingue claramente e heroicamente aceita estas amarga s e fecundas verdades humanas, que são carne de nossa carne 1) a mente do homem só pode aprender os fenômenos ou aparências, jamais a essência 2) e não todos os fenômenos, só os da matéria, 3) e nem sequer os fenômenos da matéria, apenas as relações entre eles, 4) e tais relações não são reais, independentes do homem, ele é que as gera, 5) e não são as únicas possíveis mas são só as mais convenientes para as necessidades práticas e teóricas do homem’’. (KAZANTZAKIS, Nikos. Ascese – os salvadores de Deus (Tradução de Jose Paulo Paes). São Paulo. Ed. Ática 1997)

No tocante ao problema do conhecimento, o autor Nikos Kazantzakis alinha-se em linhas gerais à corrente dos Idealistas. A característica marcante desta posição frente ao conhecimento é conferir uma grande prioridade ao sujeito no processo do conhecer. Isso se torna mais claro se analisarmos cada uma das ‘’verdades humanas’’ adotadas por Kazantzakis: 1) Nesse primeira ‘’verdade’’, Nikos propõe que não podemos conhecer os objetos em si, e que apenas temos as informações sobre seus fenômenos. É importante notar que, então só teríamos representações dos objetos, ao invés de conhecê-los diretamente, e em sua essência.

2) Esses fenômenos e aparências dos objetos seriam apenas no tocante a suas naturezas materiais, que nos chegam por meio dos sentidos. Os sentidos são a nossa porta de percepção com o mundo exterior. Nisso podemos argumentar que talvez os objetos tenham outras propriedades que não conseguimos perceber devido a nossa limitação sensorial. Cabe perguntar também se os sentidos são fieis ao mundo externo ou se o distorcem. 3 e 4) Nessa parte Nikos defende que o homem só aprende a relação entre os fenômenos com suas percepções. Nikos ainda vai mais longe: essas relações não são inerentes ao mundo, mas apenas à mente humana. Essas relações poderiam ser criadas por padrões e disposições da mente, que dariam uma certa ordem ao grande fluxo de informações que nos chega através dos sentidos. Um exemplo disso seria quando Heráclito defende que o mundo é formado por forças opostas; na verdade o padrão que organiza as coisas em polos opostos (a suposta dualidade do mundo) estaria na mente de Heráclito, e não na realidade externa. A maior semelhança que aproxima Nikos do Idealismo é esse grande papel conferido ao sujeito, no tocante a representação da realidade, fazendo com que o sujeito tenha um papel ativo na construção das representações (que estão cada vez mais distintas do objeto externo, devido a essa influência subjetiva no conhecimento). 5) Nikos termina afirmando que esses padrões e relações inerentes à mente humana não são os únicos possíveis, apenas os mais convenientes para o homem. Assim, o fluxo de informações que chega ao homem poderia ser organizado de várias maneiras diferentes, bastando apenas que fossem alterados esses padrões e relações com os quais percebemos o mundo. A nossa forma de conhecer o mundo é útil para nossas necessidades teóricas e práticas mas não se pode ter a pretensão de que o mundo externo, em sua essência, é tal qual nós o criamos em nossas representações mentais. Esse grande papel que Nikos Kazantzakis dá ao sujeito, e às relações de sua mente, no ato de conhecer o mundo, pode enfim nos levar para dois caminhos distintos: o de ver o sujeito como base (ou arrimo) de todo o conhecer, ou de ver o sujeito como deformador do conhecimento (visto que suas representações estão longe de corresponder às essências dos objetos

externos). Isso tudo só irá depender se iremos encarar a influência do sujeito sobre o conhecimento como positiva ou negativa. Segundo Nikos, ela seria, ao menos, conveniente para as necessidades humanas. A titulo de observação, uma corrente oposta à do Idealismo é a do Realismo, que dá uma primazia maior ao objeto na formação das representações, colocando o sujeito como exercendo pouca (e às vezes nenhuma) influência na representação. Assim, de acordo, com o Realismo, poder-se-ia conhecer o mundo praticamente como ele é, bastando para isso que conseguíssemos separar da representação essas pequenas influências do sujeito. É nítido que o Realismo está em oposição com as ideias de Nikos, pois este último pretende mostrar como o homem, se não é a medida de todas as coisas, é pelo menos quem irá dar a medida e os limites para o próprio conhecimento.