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UMA REFLEXÃO SOBRE O CONTEUDO DA FÉ

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IGREJA LUTERANA

IGREJA LUTERANA
Revista Semestral de Teologia

SEMINÁRIO CONCÓRDIA

DIRETOR
Gerson Luis Linden

PROFESSORES
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luís Linden, Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum, Vilson Scholz

PROFESSORES EMÉRITOS
Ari Lange, Donaldo Schüler, Paulo F. Flor

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

CONSELHO EDITORIAL Paulo Wille Buss (Editor), Paulo Proske Weirich (Editor Homilético) ASSISTÊNCIA ADMINISTRATIVA Nara Coelho
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana e Old Testament Abstracts. Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope com endereço e selado.
Solicita-se permuta We request exchange Wir erbitten Austausch

CORRESPONDÊNCIA Revista Igreja Luterana Seminário Concórdia Caixa Postal 202 93001-970 – São Leopoldo/RS Telefone: (0xx)51 3592 9035 e-mail: seminarioconcordia@ulbranet.com.br www.seminarioconcordia.com.br

IGREJA LUTERANA

ÍNDICE

FÓRUM
UMA REFLEXÃO SOBRE O CONTEÚDO DA FÉ
Vilson Scholz

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ARTIGOS
TEOLOGIA E PSICOLOGIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS
Norberto Ernesto Heine

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A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”
Gerson Luis Linden

A PROEMINÊNCIA DA PAROUSIA
Jeffrey A. Gibbs

A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA E O CULTO PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CONVERSÃO

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

IGREJA LUTERANA Volume 65 – Junho 2006 – Número 1

IGREJA LUTERANA
FÓRUM

UMA REFLEXÃO SOBRE O CONTEÚDO DA FÉ
Vilson Scholz1
João 20.30-31 - Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. (31) Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

1 JOÃO 5.1-5
(1) Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido.(2) Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos. (3) Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos, (4) porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. (5) Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus? Uns anos atrás, li um livro intitulado Nenhum outro evangelho: o cristianismo entre as religiões do mundo. Nele, a certa altura, o autor (que, em nossos círculos é visto como tendo tendências liberais) afirma que, no cristianismo de hoje, estamos face a face com dois tipos de teologia. Um deles se baseia no testemunho bíblico a respeito da ação histórico-salvífica de Deus em relação ao mundo, cujo centro se encontra na revelação de Cristo. Essa teologia aparece elaborada na doutrina da Trindade. O outro tipo de cristianismo se baseia numa suposta revolução copernicana ou uma mudança de paradigma. Esse segundo modelo de teologia defende um assim chamado ecumenismo mais amplo que integra todas as religiões num modelo teocêntrico pluralista, no qual nenhuma religião ocupa o lugar central, nenhuma religião afirma uma verdade que seja critério para todas as demais. No
O Rev. Dr. Vilson Scholz é professor de Teologia Exegética (Novo Testamento) no Seminário Concórdia e na Ulbra e Consultor de Traduções da Sociedade Bíblica do Brasil.
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UMA REFLEXÃO SOBRE O CONTEÚDO DA FÉ

centro desse universo de crenças aparece Deus, e não Jesus Cristo. Diz esse mesmo autor que, em face disso, a grande discussão teológica do futuro (que é hoje) é a doutrina da Trindade, que é, fundamentalmente, uma discussão cristológica. (A discussão trinitária surge no momento em que se afirma que Jesus é Deus, ou, então, Filho de Deus. Isso é, sem dúvida, um tema central no diálogo – sempre que possível – com muçulmanos, hoje.) Essa discussão não é, a rigor, nova. Ela já existia nos dias do apóstolo João. É a tentativa de esvaziar a fé quanto a seu conteúdo. Crer por crer, crer como simples ato de crer, sem importar no que se crê. Isto lembra a famosa fides carbonaria, que é outra forma de falar sobre fé implícita ou fé que não dá maior importância ao conteúdo da fé. Conta-se que um carvoeiro medieval (daí vem a designação “carbonaria”), indagado quanto ao conteúdo de sua fé, respondeu: Eu creio no que a Igreja crê. E o que é que a Igreja crê? foi a pergunta seguinte. E a resposta: A Igreja crê o que eu creio. (Dizem que o teólogo que fez a entrevista, ao ser atormentado por dúvidas na hora da morte, teria dito: Eu creio no que aquele carvoeiro crê!) João, o apóstolo, não deixa margem para uma fé de carvoeiro, uma fé implícita. Seu modelo de teologia também não é genericamente teocêntrico. Se houvesse uma fé sem conteúdo (uma non fides quae), uma fé pela fé, uma fé implícita, João poderia ter escrito o seguinte: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais e para que, crendo, tenhais vida”. Mas ele não escreveu só isso. Ele escreveu: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Se houvesse uma fé sem conteúdo (uma non fides quae), uma fé pela fé, uma fé implícita, João poderia ter escrito o seguinte: “Todo aquele que crê é nascido de Deus; [...] Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê?” Mas ele não escreveu simplesmente isso. Ele escreveu: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; [...] Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” A Páscoa da Ressurreição de Cristo não nos permite conviver com uma fé sem conteúdo, uma fé vazia. Ela nos leva a confessar: Jesus é o Cristo! Jesus é o Filho de Deus! Guardemos firme a confissão da esperança. Quem crê que existe vida no nome de Jesus, e só nele, esse tem a vida. Esta fé vence o mundo – inclusive o mundo que dilui a fé cristã.
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ARTIGOS

TEOLOGIA E PSICOLOGIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS1
Norberto Ernesto Heine2

INTRODUÇÃO
Quando me propus a desenvolver esse tema, o fiz tendo como objetivo e objeto de nossa reflexão o ser humano, obra prima da criação de Deus. Tanto a Teologia quanto a Psicologia têm no ser humano seu ponto de encontro. A Teologia, aqui conceituada como “discurso sobre Deus e as coisas divinas (subjetivamente, uma habilidade ou suficiência prática dados por Deus para que se possa entender a verdade da Escritura como contendo o caminho da salvação. Objetivamente, trata-se de todo corpo de conhecimentos pertencente à compreensão e exposição da Escritura)”, indubitavelmente evidencia a misericórdia de Deus. A Psicologia, aqui conceituada como “a ciência que estuda a mente humana e seu comportamento”, evidencia a misericórdia de Deus direcionada à pessoa. Cada vez mais é necessário nos aproximarmos da Psicologia, estudá-la e usá-la como um bem e, como tal, cuidar dela. Do contrário, a desqualificamos por mau uso e compreensão, fazendo-a parecer algo contra Deus. Quando ambas dialogam e colaboram entre si, amplia-se a compreensão de que elas podem ser observadas e estudadas na perspectiva da misericórdia de Deus. O conteúdo que vai exposto no desenvolvimento desse tema surgiu a partir de minha trajetória de 38 anos como pastor (dedicação especial

Aula Inaugural proferida pelo autor no Seminário Concórdia de São Leopoldo, RS, no dia 03 de março de 2006. 2 Pastor-psicólogo, responsável pelo Centro de Avaliação e Aconselhamento Pastoral e Psicológico (CAAPP) do Seminário Concórdia de São Leopoldo, RS. Clínica Psicológica em Porto Alegre, RS.
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TEOLOGIA E PSICOLOGIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS

ao Aconselhamento Pastoral) da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) e de 24 anos como psicólogo clínico em consultório particular. Há 18 anos desenvolvo no Seminário Concórdia de São Leopoldo, RS, um comissionamento de parte da IELB para, num primeiro momento implantar, depois desenvolver e sempre aperfeiçoar uma atividade denominada de pastor-psicólogo que pretende estar ao lado do estudante de Teologia desde sua inscrição como candidato a aluno até sua formatura. Para tanto foi criado o Centro de Avaliação e Aconselhamento Pastoral e Psicológico (CAAPP) em 22 de setembro de 1987 que, desde então, encontra-se sob minha responsabilidade e coordenação. O Seminário Concórdia abriga a maioria de seus alunos na forma de internato. A grande ênfase se dá em direção à vida acadêmica (aulas, pesquisas, provas, graus, etc.) dos alunos. Nessa visão, o espaço ocupado pelo CAAPP e seu coordenador é aquele que se pode considerar não acadêmico (pessoal, vital, íntimo, interior, com suas contradições, dúvidas, ambivalências, maturação, etc.). O CAAPP pretende ser um lugar de valorização e fortalecimento da pessoa em sua individualidade diante do Senhor, dos outros e de si mesmo. O reconhecimento dessa atividade deu-se até abril de 2003, informalmente, quando o reconhecimento se formalizou por meio de um comissionamento. A Teologia, interpretando a Escritura, ensina que a degeneração do projeto humano, após a queda em pecado, foi total, culminando com a morte. O plano de regeneração, de recuperação, de salvação igualmente foi amplo e completo. É por isso que os regenerados, recuperados e salvos podem caminhar pela vida como novas criaturas, orientados pela Lei no seu terceiro uso, segundo recomenda Jesus: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento e de toda tua força” (Marcos 12.30), ou seja, com a plenitude multifacetada do ser humano: bio-psico-social e espiritual. Nova criatura em todas dimensões. Na sua misericórdia, Deus tem aliviado e deseja continuar aliviando a caminhada humana por essa vida. Para tanto, de um modo geral, estão disponíveis os recursos da Teologia e da ciência. Deus não tem prazer no sofrimento humano seja em que nível for. Quando o apóstolo Paulo orienta e motiva seu “amado filho” Timóteo, escrevendo: “Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Por que Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de
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poder, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1. 6,7), estão implícitos, por exemplo, recursos da Teologia e da Psicologia, que levam Timóteo, a partir do “dom de Deus” que há nele, pela imposição das mãos do apóstolo, a afastar, combater, vencer a covardia (deilías = covardia, pusilanimidade, tema tanto da Teologia quanto da Psicologia) e fortalecer, exercitar o poder (dünámeos = poder, força, vigor, energia, potência, Teologia + Psicologia), o amor (agápes = amor que surge da estima, respeito, consideração, inclinação para, Teologia + Psicologia) e a moderação (sofronismu = exortação + reflexão, prudência, Teologia + Psicologia). Por isso, é tão necessário e importante que o teólogo, ao entrar em contato com o ser humano, leve em consideração noções da Psicologia e, no caso, o psicólogo, leve em consideração a influência de componentes teológico-religiosos na dimensão humana. É claro que não se pretende esgotar todas as possibilidades de assuntos nessa maravilha de mundo que é o humano, na abordagem teológica-psicológica na perspectiva da misericórdia de Deus. Os assuntos que aqui serão apresentados surgiram espontaneamente, a partir do contato com pessoas em riquíssimas e significativas sessões de aconselhamento pastoral/psicológico e psicoterápicas. Ao longo desses anos, minha gratidão pelas centenas de pessoas que me confiaram suas preocupações e suas ansiedades, e que proporcionaram crescimento mútuo, não só teórico, mas pessoal, no acolhimento de si mesmos e do outro, sob, e diante, da perspectiva infalível, imutável e perfeita do amor e da misericórdia de Deus. É minha pretensão manter a observância e o rigor nos conceitos e conclusões teológicas, psicológicas e psicoteológicas. Pretendo, igualmente, ser acessível aos não iniciados nas duas áreas. No entanto, necessito dum olhar tolerante e misericordioso dos iniciados, ao penetrar nesse mundo maravilhosamente encantador e ao mesmo tempo, por vezes, insondável e inescrutável, da Teologia e da Psicologia.

TEOLOGIA E CIÊNCIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS
Já tive oportunidade de me expressar sobre esse assunto no ensaio “A prática psicológica e a formação pastoral no Seminário Concórdia”, publicado no livro A Semente Germina – Ensaios Teológicos, em comemoração aos 95 anos de existência do Seminário Concórdia.
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TEOLOGIA E PSICOLOGIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS

Sugeria, entre outras coisas, que tudo o que o ser humano observa, estuda, pesquisa, descobre, pode estar sob o título abrangente: Teologia – pois, na realidade, nada é novo no sentido da criação (Eclesiastes 1.9). Tudo compreende, está referenciado e explica o que já foi, o que está feito por Deus. E Deus mostra a sua permanente misericórdia em todos os níveis e faces da vida humana. Ele busca, salva, consola, orienta, dirige espiritualmente, mas também dirige, alivia, cura, consola biopsicologicamente. Para o maior problema humano, o pecado, Deus apresenta e indica a única saída: “o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6), o Salvador Jesus Cristo, que veio ao mundo na “plenitude do tempo” (Gálatas 4.4), “não para julgar, mas... para salvar” (João 3.17). O profeta Jeremias, com palavras simples e notórias, confessa, com rara clareza, os traços que se destacam na ação de Deus em direção à criação: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lamentações 3.22). Para aliviar misericordiosamente sua ordem de “...multiplicarei sobremodo os sofrimentos de tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos...” (Gênesis 3.16), Deus permite a descoberta de técnicas cirúrgicas, da anestesia, etc. Para conforto e sossego da mulher gestante. Para aliviar misericordiosamente sua ordem de “...maldita é a terra por tua causa: em fadigas obterás o teu sustento... Do suor do teu rosto comerás o teu pão...” (Gênesis 3.17,19), Deus permite a descoberta de técnicas eletro/mecânicas que possibilitam ao homem cultivar a terra, auxiliado por grandes tratores, semeadoras e colheitadeiras aparelhadas com sofisticados equipamentos, que vão, desde o ar condicionado na cabine do tratorista até a automação do processo plantio-colheita. Para que grandes platéias, em grandes espaços, possam ouvir perfeitamente, usam-se recursos eletrônicos que aumentam a potência da voz humana, através de microfones, amplificadores, etc. Fica-se admirado e sem poder entender muito bem o poder e a potência da voz natural de Jesus que, sem nenhum recurso técnico lembrado, falava compreensivelmente para multidões superiores a cinco mil pessoas (Mateus 14.21). Todos esses avanços maravilhosos da ciência envolvem todas as pessoas, também os cristãos. Em todas as partes do mundo, com o
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coração agradecido, os filhos e as filhas de Deus fazem bom uso e bom proveito de todas essas “misericórdias de Deus”.

ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR DO SER HUMANO MULTIFACETADO
Para que o ser humano possa ser atingido com os benefícios que advêm das misericórdias do Senhor, é importante que a dimensão humana seja considerada multidisciplinarmente, de acordo com a abordagem desenvolvida na obra supracitada. Tomemos o exemplo de um pastor em sua atividade no aconselhamento pastoral. Ninguém poderá imaginar que ele, ao ser procurado por alguém que se queixa de forte dor de dente, lhe diga: “Façamos oração!” O pastor, por certo, o encaminhará tranqüila e imediatamente ao dentista, especialista no assunto. Posteriormente fará oração, no sentido de que a pessoa receba um diagnóstico correto e tratamento adequado e competente. Entretanto, se o mesmo pastor for procurado por alguém que se desgasta e remói com a questão: “Eu não consigo entender o processo da conversão do pecador”, o pastor assumirá e se envolverá com a resposta do questionamento e se esforçará para ser claro diante da dúvida do consulente, pois se trata de assunto específico de sua área de especialização e concentração – a área teológica, bíblica, doutrinária, confessional, espiritual. Tradicionalmente na falta de ímpeto missionário, o não falar de Jesus ao parceiro ou parceira sentado ao lado numa longa viagem de ônibus, aponta-se a causa como sendo falta de fé. Será mesmo essa a principal e única possibilidade? Será que não se poderia pensar também em alguma coisa chamada insegurança, medo, angústia, timidez, ansiedade, proveniente de conflitos psicológicos decorrentes das vicissitudes próprias do desenvolvimento humano, marcado por falhas e limitações? Se for este o caso, o lugar mais adequado para se buscar ajuda será junto ao psicólogo, à psicologia. Sendo o ser humano multifacetado, no mínimo bio-psico-social e espiritualmente, pode-se concluir que, na prática, essas diversas faces (ou níveis) se entrelaçam, se interligam, interferindo umas nas outras, ora na forma de manifestação orgânica, ora em nível psicológico, ora social ou espiritual. Se alguém tem uma forte dor reumática, dificilmente conseguirá concentrar-se espiritualmente. Do mesmo modo, o sofrimento psicológico (timidez, por exemplo)
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ou a angústia por pecados ou culpas, reais ou imaginárias, poderão perturbar o sono ou tirar o apetite. O pastor referido no exemplo, sem dúvida nenhuma sempre buscará o melhor benefício para os fiéis aos seus cuidados. As misericórdias do Senhor naquele sentido amplo precisam estar disponíveis para que ele possa avaliar onde se localizam, destacadamente, os sintomas ligados ao sofrimento de seu consulente: se no nível físico, orgânico, encaminhe-se ao profissional especialista na área. Se no nível psicológico, encaminhe-se ao psicoterapeuta. Se no nível social, ao profissional da área. Claro que não se pode esperar nem exigir que o pastor seja especialista ou profissional em todas essas áreas. Nem é necessário. O que é importante, se espera e deseja é que ele tenha condições de realizar um diagnóstico diferencial, ou seja, que ele tenha condições de discriminar os assuntos quanto ao seu conteúdo: se for de ordem teológica, doutrinária, espiritual, que ele o assuma com toda alegria e vontade que o pastorado proporciona. Se não for, que o encaminhe ao especialista apropriado, demonstrando seriedade, competência e amor na cura d’almas.

TEOLOGIA PRÁTICA (ACONSELHAMENTO PASTORAL) E PSICOLOGIA
As pessoas, como já vimos, são seres muito complexos. Todos os que buscam ajuda junto ao pastor são assim, quer sejam cristãos, quer não. Em qualquer caso, mesmo tendo de encaminhá-los, após necessário diagnóstico diferencial, ele continuará se interessando pelos cuidados dispensados, pelo desenvolvimento do tratamento e resultados alcançados. No enunciado de nosso estudo, está sendo sugerido que a parceria da Teologia e da Psicologia possa ser colocada, vista ou percebida na perspectiva da misericórdia de Deus. Sendo assim, quando o pastor - ou o candidato a pastor procuram aperfeiçoar-se na área do Aconselhamento Pastoral, todo conteúdo teológico-pastoral é importante para a compreensão, alívio e ajuda ao ser humano abrangendo, inclusive, a dimensão eterna do mesmo. Para o aqui e agora, porém, são também fundamentais noções e conhecimentos de aspectos e princípios psicológicos ativamente presentes no processo vital. Essa parceria poderá ter inestimável valor e poderá facilitar a que a misericórdia de Deus envolva e seja percebida pelo ser humano ampla, clara, segura e generosamente.
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EXEMPLIFICANDO, PARA AMPLIAR O ENFOQUE E A COMPREENSÃO
A personalidade, qual seja, o conjunto global das características inatas e adquiridas pelo meio, o jeito de ser da pessoa, pode-se dizer que obedece a seguinte equação no seu desenvolvimento: hereditariedade + condições de gestação e parto = constituição (temperamento). constituição + vivências infantis = predisposição (caráter) predisposição + situação atual = (personalidade). A vida de qualquer um de nós avança cronologicamente. Cada dia que passa, queiramos ou não, ficamos um dia mais velhos. Muitas de nossas responsabilidades e direitos são orientados por esse dado: idade mínima escolar (6 anos), idade mínima para votar (16 anos), idade mínima para conduzir veículo (18 anos), idade mínima para ter acesso à fila especial em locais públicos (60 anos), etc. A Psicologia, porém, olha a pessoa por um outro prisma, pelo prisma do desenvolvimento que se dá através de etapas, já determinadas por Deus para a espécie humana e a respectiva maturação e vivência próprias. Alcançadas sadiamente, avança-se para a fase seguinte. Quando o avanço cronológico e o amadurecimento de uma etapa se distanciam, surgem conflitos, sintomas considerados indesejáveis, patológicos, fontes dos mais variados sofrimentos, neuroses e, em casos mais extremos, psicoses. Passemos para a prática. Acompanhemos, ainda que de forma sucinta, o dia-a-dia da caminhada humana, desde o começo até o fim: - Nascimento: o bebê é aquilo que a mãe possibilita ser. - Primeiro ano de vida: aprende a confiar no ambiente. - “Toddler”: (até os 3 anos) aprende a confiar em si. - Pré-escolar: identificação sexual (menino/menina). - Escolar: sai de si e olha o mundo. - Puberdade: processo de crescimento hormonal, características sexuais se desenvolvem, ejaculação e menstruação. - Adolescência: mais centrados em si para efetivar a individuação e a separação gradativa dos pais. Perda do corpo infantil e conseqüente auto-imagem. Tendência grupal. Contradições na conduta e humor. Evolução sexual; identidade de gênero e genitalidade. Detenhamo-nos um pouco mais nesse assunto, que no ambiente eclesiástico ainda é tão difícil abordar com naturalidade e abrangência: a sexualidade humana. Não fomos criados por Deus só do umbigo para cima. Nosso ser por inteiro, multifacetado, é criação
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divina, e é necessário que cada vez mais lidemos com nossa sexualidade, como uma dádiva muitíssimo valiosa e maravilhosa, criada e oferecida pela misericórdia de Deus, devendo ser recebida e vivenciada plenamente, para nossa alegria, satisfação e prazer. Ela está presente desde o nascimento até o fim da nossa vida. Vem conosco, não é aprendida, à semelhança da fome, da sede, do sono. As manifestações de nossa sexualidade são, portanto, naturais e precisam ser vivenciadas como tais, humanamente. Não precisamos combatê-las, mas ir compreendendo-as, progredindo e completando etapas durante nosso desenvolvimento. O mal de dar-se um pedaço de churrasco a uma criancinha sem dentes não está no churrasco, mas na falta de dentes da criança. É necessário ajudar os jovens a terem uma atitude positiva frente a sua sexualidade. Jesus alerta sobre a possibilidade de a intenção ser impura, não a sexualidade como tal (Mateus 5.28). O problema, portanto, não está em Deus, que nos criou sexuais. O problema está em nós que herdamos, dum passado histórico, uma visão distorcida e preconceituosa a respeito. Num dos manuais muito usado na instrução de nossas crianças e jovens confirmandos, denominado Crescendo em Cristo, na explicação do sexto mandamento, não adulterarás, pretende-se discorrer, na forma de perguntas e respostas, também sobre os assuntos casamento e sexualidade. Duas questões tratam do casamento propriamente dito, uma alude ao adultério e as outras dez discorrem sobre um “misterioso” assunto em geral não conversado, às vezes sussurrado, sugerindo que as pessoas, jovens ou velhos, casados ou solteiros, “sejam puros de coração, nos pensamentos e no falar, que vivam uma vida decente, que se afastem de más companhias e da impureza que danifica corpo e alma, lembrando que as más ações, mesmo praticadas secretamente, são vistas por Deus, que é necessário purificar nosso coração com a Palavra de Deus e que a vigilância, diversões sadias e escolha de bons companheiros nos auxiliam a viver uma vida casta e decente em palavras e ações” (em nenhum momento aparece a palavra sexo ou sexualidade). Por que não incluir um abrangente parágrafo sobre a beleza, o valor e a importância do namoro na escolha do futuro cônjuge em preparação a um matrimônio bem sucedido, feliz e agradável a Deus, que o instituiu com o propósito de aliviar a solidão humana? Por que não incluir outro parágrafo igualmente abrangente e que trate e leve a uma boa e positiva educação e orientação com respeito à sexualidade ?
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Antes de nos escondermos constrangidos, envergonhados daquilo que Deus não se envergonhou de criar, deveríamos, assim como fazemos com outras partes de nosso corpo (pernas, mãos, lábios, etc.), agradecer de todo coração pelos órgãos genitais e sexuais e por nossa sexualidade sadia, plena e prazerosa, através da qual Deus, inclusive, gera vida. Ainda é tempo de começar! Concordo que é com certa ousadia, porém com toda convicção e humildade que quero propor aos responsáveis pelos manuais de instrução de nossas crianças, jovens (e adultos, por que não?) que a explicação do assunto sexualidade humana seja deslocado do capítulo Sexto Mandamento, uma vez que sexualidade não é um assunto exclusivo do casamento, porque sexualidade não é somente ato sexual, é, sim, uma energia que está presente em todo decorrer de nossa vida, desde que nascemos até o fim, acompanhando todos os dias a vida de todos, inclusive dos solteiros(as), viúvos(as), separados, desquitados e divorciados (pessoas que, diga-se de passagem, recebem pouca ou nenhuma atenção e orientação, especialmente nessa área. Parecem ser seres, talvez, assexuados). Não tenho dúvidas, portanto, que essa maravilhosa dádiva do Senhor, junto com o namoro, casamento, família, etc., teria melhor espaço para ser estudada, apreendida e compreendida ficando melhor e mais adequadamente inserida no contexto do Primeiro Artigo do Credo Apostólico (Cristão): Da Criação que fala da ação de Deus Pai que nos criou e de todas as coisas que Ele nos dá e supre todos os dias, para sobrevivência, alegria, proteção e prazer, inclusive, quando for o caso, protegendo-nos de todos perigos e do mal. Como conseqüência, brotará em nosso coração muita e permanente gratidão em todos os sentidos, além de louvor e desejo de servir. Continuando o acompanhamento do dia-a-dia da caminhada humana: - Idade Adulta: a identidade adulta é atingida em torno dos 40 anos. Antes é provisória. Caracterizadamente vínculos afetivos e profissionais tornam-se mais permanentes. - Meia Idade: balanço vital. Começo da vida que chega ao fim. Climatério. Início de perdas significativas. - Velhice ou Terceira Idade: perdas (conscientes e inconscientes). Elaboração da morte. Além dessa sintética visão da psicologia do desenvolvimento, noções a respeito da psicodinâmica dos grupos, da comunicação humana, a teoria das necessidades e da motivação, distúrbios psicossomáticos e
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outros temas para os quais a Psicologia também pode dar sua contribuição, como por exemplo o casamento, pais e filhos, o problema das drogas em geral e do alcoolismo em particular, etc., sem dúvida são valiosas contribuições na preciosa tarefa do aconselhador cristão no ajudar e facilitar para que as misericórdias do Senhor se manifestem no dia-a-dia das pessoas, dos casais, das famílias, dos grupos (congregação e respectivos departamentos) e da comunidade social.

PARA CONCLUIR
Acredito que pela obra salvadora, realizada por Jesus, atendendo ao plano misericordioso de Deus da redenção humana, nos tornamos “novas criaturas” e que, em função disso, nosso Salvador e Senhor nos envolve e está preocupado com nossa vida toda, em todas as dimensões. No livrete Forte em Santa União número 8, editado pela Juventude Evangélica Luterana do Brasil (JELB) em 2005, abordei assunto que está presente na vida de todos nós com mais ou menos intensidade. Denomina-se: O sentimento de culpa de cada dia. Na minha ótica, pode ajudar para melhor entendimento de que o diálogo entre a Teologia e a Psicologia ajuda, facilita, esclarece a compreensão duma dimensão mais ampla e abrangente da misericórdia de Deus. Existem duas queridas pessoas na vida de cada um de nós, que são únicas e que estão envolvidas conosco desde antes de nascermos; foram muito participativas e prazerosamente ativas, desde o projeto de nosso vir-a-ser. E, apesar de não termos mais uma relação de dependência, ficarão ainda envolvidas conosco, até o dia em que deixarem esse mundo em direção à vida eterna. E, por incrível que possa parecer, depois também. Quem são estas pessoas? Nossos pais. Nossos amados pais! Nossos, às vezes, nem tão amados pais! De qualquer maneira, mesmo que nos custe o que custar, procuramos nos orientar pelo quarto mandamento da Lei Moral de Deus, que diz: Honrarás a teu pai e a tua mãe, para que vás bem e vivas muito tempo sobre a terra e que foi assim explicado por Martinho Lutero, no Catecismo Menor: “Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não desprezar, nem irritar nossos pais e superiores; mas devemos honrá-los, servi-los, obedecer-lhes, amá-los e querer-lhes bem”. Quando nascemos, nossas características físicas já estavam todas determinadas por nosso código genético: cor dos olhos, altura,
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tamanho do nariz, sexo, etc. Porém nossos conceitos e preconceitos, relativos ao que é certo ou errado, ao bonito ou feio, ao bom ou ruim, e tudo o mais que passou a ser o nosso jeito de ser (personalidade), foi apreendido, adquirido, assimilado, inculcado em nós, principalmente por essas pessoas ímpares em nossas vidas: nossos pais. E junto a eles, ou na ausência deles, também seus substitutos, entre eles, professores, pastores, família e/ou familiares, além de “outras figuras” de autoridade apresentadas pelos pais. Por sermos dependentes de nossos cuidadores (normalmente nossos pais), desde o nascermos até por um bom tempo, vamos assimilando verbal e não verbalmente os valores e conceitos com os quais eles nos vão educando, sendo que é o resultado disso que internalizamos como sendo o que é o certo. E não poderia ser diferente pois, segundo aprendemos, nossos pais são representantes de Deus em nossas vidas (difícil tarefa a deles!). E, desta maneira, sentimo-nos amados, sempre que atendemos às suas expectativas. Do contrário, cada vez que descumprimos ou não atendemos a essas determinações internalizadas, sentimo-nos culpados. Não raro, passamos a nos perturbar e a ouvir a famosa “voz da consciência”. Muito do conteúdo da “voz da consciência” surge da Lei Moral de Deus, dos Dez Mandamentos, que, além de natural, nossos pais também nos ensinaram e inculcaram corretamente. Mas nem todo conteúdo desta “voz da consciência” está ligado ou vinculado aos sagrados Dez Mandamentos, uma vez que está permeado simplesmente por princípios, desejos, conceitos, preconceitos, pontos de vista de nossos próprios pais que, sendo humanos, por mais amor e carinho que tivessem em suas intenções, não puderam se livrar de equívocos nestes ensinamentos e, acreditando certos, passaram a exigir, ou pelo menos, esperar de nós seu cumprimento, com a mesma verdade e sinceridade dos Dez Mandamentos de Deus. E, quanto mais rigorosos e rígidos foram nossos pais, mesmo bem intencionados, mais e maior será nossa autocobrança pessoal e interior. Quando nos tornamos adultos e independentes, ou mesmo depois de os pais virem a falecer, esse código de mandamentos que deles herdamos tende a permanecer ativamente internalizado, sem que saibamos distinguir bem o que é dos pais e o que é de Deus. Se não nos confrontarmos madura e sadiamente com esse código, adotando as adaptações, adequações e correções cabíveis, espirituais e psicológicas, ele continuará determinando nossas ações, sendo umas das principais fontes do sentimento de culpa de cada dia.
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TEOLOGIA E PSICOLOGIA NA PERSPECTIVA DA MISERICÓRDIA DE DEUS

Quem sabe, não será por isso que algumas pessoas têm uma imagem pessoal, uma sensação, ou um sentimento de um Deus rigoroso, difícil, um cobrador implacável?! E que, por conseguinte, exige “bom comportamento” para nos perdoar, aceitar e amar?! Quem sabe seja por isso que, às vezes, é tão difícil entender o amor incondicional de Deus (somos meio simpatizantes do irmão do filho pródigo), que nos aceita, perdoa e ama, sem exigir condições prévias, nos garantindo, somente pela fé, que o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1 João 1.7) ?! Certamente ficamos encantados e agradecidos pelo perdão completo que Deus oferece a todos seres humanos, indistintamente, maravilhosamente descrito no episódio junto à mulher adúltera arrependida: “... onde estão teus acusadores? Então disse Jesus: nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (João 8.10,11). Que cada um de nós, por conseqüência e também movido pelo amor, faça também o mesmo consigo, isto é, que deixe de se condenar, e que se perdoe completa e misericordiosamente !

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A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”
Gerson Luis Linden1

1. A “DESCOBERTA”
Uma nova descoberta arqueológica ameaçou abalar – assim se disse – os fundamentos da fé cristã. Uma cópia do “Evangelho conforme Judas” foi apresentada ao mundo. Trata-se de um escrito antigo, que fala a respeito de Jesus, mas que traz consigo profundas diferenças em relação aos Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). A cópia encontrada está escrita em língua copta (egípcio, escrito com caracteres gregos) e passou por um longo processo de restauração e tradução até ser apresentada ao mundo. As principais revistas de circulação nacional trazem em suas edições de abril um histórico completo do achado. E algumas mais, outras menos, fazem sensacionalismo com as possíveis “revelações” contidas no documento. A seguir esboçamos alguns dos principais fatos ligados à descoberta e divulgação do texto. A estimativa é que o manuscrito, encadernado em couro, foi possivelmente copiado de um original (ou de outra cópia) por volta do ano 300 d.C. Foi descoberto em 1978, por trabalhadores rurais no deserto egípcio de Al Minya. Em 1983 um estudante de pós-graduação em Roma, Stephen Emmel, foi chamado por um colega para Genebra (Suíça) para examinar um documento. Os vendedores, diz-se, pediam três milhões de dólares. Ele teria oferecido 50 mil. Depois o documento nunca mais foi examinado por especialistas até o ano 2000. O negociante egípcio, não conseguindo vender para Emmel, levou o documento para Nova Iorque, onde também não conseguiu vendêlo. Lá o texto ficou depositado em um cofre do Citibank em Hicksville (Long Island). Comprado em abril de 2000 pela antiquária suíça Frieda Nussberger-Tchacos, chegou até um especialista em manuscritos, que trabalhava para a Universidade de Yale – Robert

Professor de Teologia Exegética do Seminário Concórdia e da Ulbra, Diretor do Seminário Concórdia de São Leopoldo, RS.

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A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”

Babcock – que afirmou tratar-se do Evangelho de Judas, até então conhecido apenas através de referências de pais eclesiásticos. Preocupado com sua possível deterioração, a antiquária entregou o manuscrito à fundação suíça Maecenas Foundation for Ancient Art em fevereiro de 2001, a fim de preservá-lo e traduzi-lo. Após a restauração do documento, foi traduzido para o inglês, alemão e francês. O manuscrito foi divulgado no dia 6 de abril pela National Geographic.

2. O QUE HÁ DE “NOVO” NESTE DOCUMENTO?
O texto inicia com a frase: “O relato secreto da revelação feita por Jesus em conversa com Judas Iscariotes”. Um dos trechos que bem reflete a perspectiva do escrito como um todo traz as seguintes palavras que Jesus teria dito a Judas: “… você vai se destacar sobre todos eles. Porque vai sacrificar o homem que me veste”. Em sua edição de maio, a Revista National Geographic afirma: “As palavras de Jesus a Judas descrevem como ele vai se destacar entre os outros discípulos depois de sua morte. De acordo com o Evangelho de Judas, o Salvador é o ser espiritual dentro de Jesus, que vive na dimensão espiritual. O ser físico de Jesus não passa de uma cobertura, assemelhada a uma roupa, que o Salvador espiritual usa neste mundo. Jesus, em essência, diz a Judas que, ao traí-lo – conscientemente e a seu pedido –, está demonstrando verdadeira amizade e permitindo ao homem Jesus morrer para que o Salvador possa se libertar para retornar a sua morada no céu. Segundo a tradição gnóstica, Jesus não enxerga sua morte como tragédia nem como ato necessário para salvar o mundo do pecado”. Desta forma, segundo este “Evangelho”, Judas seria o único apóstolo a realmente entender a missão de Jesus. Esta não seria a de redimir o mundo, pelo seu sacrifício, mas de dar a conhecer a realidade, ou seja, que as pessoas são espíritos presos a corpos. Como se pode notar, trata-se de um escrito com uma visão profundamente diferente daquela anunciada pelo cristianismo, presente no texto bíblico, nos Credos ecumênicos e na pregação da Igreja, conforme evidenciada pelos pais apostólicos e eclesiásticos. Como a própria reportagem da revista anuncia, o “Evangelho de Judas” é um escrito provindo da “tradição gnóstica”. Como observaremos mais adiante, os diferentes grupos gnósticos
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propunham uma visão de mundo, do ser humano, de Deus e de salvação bastante diferente – e até antagônica – em relação ao cristianismo.

3. JUDAS ISCARIOTES NOS EVANGELHOS CANÔNICOS
O nome “Judas” era relativamente comum no período do Novo Testamento. Havia mais de um apóstolo com este nome (Lc 6.16). Um outro Judas escreveu a Epístola que temos no Novo Testamento. Este, ao que parece, seria um meio-irmão de Jesus, filho de José e Maria, não pertencendo ao grupo dos doze apóstolos (Mc 6.3). Quanto ao que sabemos do discípulo Judas Iscariotes, a partir dos Evangelhos canônicos, podemos resumir como segue. Judas Iscariotes (Jo 12.4), filho de Simão (Jo 6.71; 13.2-26), homem de Queriote, era o tesoureiro do grupo dos discípulos (Jo 13.29). Aproveitou-se disto para ser ladrão (Jo 12.6). Após o incidente em que uma mulher ungiu os pés de Jesus (Jo 12.3-6), Judas dirigiu-se aos sacerdotes para entregar o Senhor (Mt 26.14-16 e paralelos). Lucas ainda acrescenta a informação de que Satanás entrou em Judas, inspirando este ato (Lc 22.3) e João diz o mesmo em relação ao momento em que Judas deixou o grupo na noite de quinta-feira (Jo 13.2,27). Judas procurou o momento mais adequado para entregar Jesus, quando isto não provocasse tumulto (Mc 14.1,2; Lc 22.6). Após entregar Jesus aos líderes judeus, Judas foi tomado de remorso (não de arrependimento) e suicidou-se (Mt 27.3-10; cf. At 1.18,19,25). Apesar de “teorias conspiratórias” que, de tempos em tempos surgem a respeito de outras motivações que Judas teria, o relato bíblico não deixa dúvidas sobre seu caráter e a motivação financeira do ato da traição.

4. OS EVANGELHOS CANÔNICOS E OS APÓCRIFOS
O testemunho sobre a vida e obra de Jesus nos vêm através de quatro escritos, conhecidos como “Evangelhos”: Mateus, Marcos, Lucas e João. O título destes “livros” dá um claro testemunho de como a Igreja cristã, já desde seus primórdios, tem considerado estes escritos. Cada um dos quatro evangelhos traz consigo um título, que ao que tudo indica foi acrescentado no início do segundo século, na forma: “O Evangelho conforme Mateus”, “O Evangelho conforme Marcos”,
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etc. Há um só evangelho, isto é, a proclamação da boa nova em Jesus Cristo. São quatro “versões”, redigidas por quatro pessoas muito conhecidas dos primeiros cristãos. Os quatro “Evangelhos” proclamam a única boa nova e assim foram acolhidos desde cedo pela Igreja. Isto aconteceu devido à força do próprio conteúdo que trazem, sem ter havido a necessidade de uma imposição por parte de quem quer que fosse.2 Existem também alguns “Evangelhos apócrifos”. Trata-se de escritos extracanônicos, isto é, que não foram incluídos no cânone bíblico. Vez ou outra são mencionados como se trouxessem informações importantes a respeito do início do cristianismo. São textos escritos do segundo século da era cristã em diante, que trariam pretensas informações sobre aspectos da vida de Jesus não relatados nos Evangelhos canônicos. Há que se lembrar que a respeito dos Evangelhos canônicos dispomos de testemunhos bastante antigos, trazidos por pais da Igreja, já no segundo e terceiro séculos (Papias, Irineu, Clemente, Orígines). Tais testemunhas atestam a origem (escrita) dos Evangelhos bem próxima aos eventos relatados. A título de reflexão, apontamos algumas diferenças entre os Evangelhos canônicos e os apócrifos. Os quatro Evangelhos que estão no Novo Testamento têm sua escrita datada de uma época bastante antiga, próxima aos eventos que relatam; os apócrifos são escritos, na sua maioria, bem mais tarde (até séculos após os acontecimentos). No que se refere aos autores, Mateus, Marcos, Lucas e João foram ou discípulos de Jesus (Mateus e João), ou testemunha ocular (Marcos) ou amigo dos discípulos (Lucas). Os Evangelhos extracanônicos têm autores desconhecidos; trata-se de escritos pseudoepigráficos (tomam um nome conhecido para dar autoridade ao escrito). Os Evangelhos canônicos tiveram um uso disseminado rapidamente pelo mundo de então e foram aceitos pelos cristãos sem que houvesse a necessidade de uma decisão ou determinação da Igreja (ao contrário do que têm sugerido algumas reportagens nas Revistas de circulação nacional). Os apócrifos tornaram-se conhecidos em algumas regiões, cada um deles, e desde cedo tiveram grande restrição por parte dos cristãos. Ao lado disto, é importante observar que desde muito cedo os quatro Evangelhos do Novo Testamento foram conhecidos pelas igrejas e serviram de orientação e consolo para os

2 Uma excelente introdução ao estudo dos Evangelhos encontra-se em D. A. Carson, Douglas J. Moo e Leon Morris, Introdução ao Novo Testamento, tradução de Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1997.

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cristãos. Conforme o próprio Senhor Jesus prometera, Deus preservou, conservou e divulgou sua palavra, para guiar os seus (Jo 14.26; 16.13). Quanto aos extracanônicos, muitos deles somente eram conhecidos através de testemunhos de pais da Igreja e chegaram ao conhecimento público apenas no século XX. De Mateus, Marcos, Lucas e João dispomos de muitíssimas cópias, que foram encontradas em diferentes regiões, sem diferenças significativas. Quanto aos apócrifos, poucas cópias (às vezes apenas uma) foram encontradas, mostrando sua pouca divulgação. Os Evangelhos bíblicos trazem uma mensagem anunciada de forma sóbria, mesmo ao relatar milagres de Jesus. Bem diferente disto, os apócrifos freqüentemente apelam para elementos fantásticos (lendários). Finalmente e, poderíamos dizer, a mais importante diferença, diz respeito à mensagem, ao conteúdo. Nos quatro Evangelhos neotestamentários, o centro da mensagem é o “evangelho” – a boa nova da salvação, o consolo que vem da obra salvadora de Cristo em sua morte e ressurreição. Quanto aos apócrifos, os temas são diversos, normalmente escritos de uma perspectiva que desperta a curiosidade, mas que não está ligado ao cerne da palavra evangélica. Entre os apócrifos há diferenças significativas. Não são todos eles de caráter herético, propondo uma visão completamente diferente de Jesus e da fé cristã. Alguns simplesmente se propõem a trazer relatos que procuram completar as lacunas da infância e juventude de Jesus. 3 Outros, porém, expressam uma visão diferente, e até antagônica, em relação à mensagem cristã. Dentre estes últimos está o “Evangelho conforme Judas”.4

Os textos de alguns dos evangelhos apócrifos podem ser encontrados, por exemplo, em Luigi Moraldi, Evangelhos Apócrifos, São Paulo: Paulus, 1999. 4 Um dos “Evangelhos” de caráter herético é o chamado “Evangelho de Tomé”, que inicia dizendo: “Estas são as palavras secretas de Jesus, o Vivo, que foram escritas por Dídimo Tomé”. Ao lado de uma série de trechos copiados dos Evangelhos canônicos, aquele texto (descoberto no Egito, em Nag Hammadi, em 1945) traz algumas afirmações características do ensino gnóstico. Isto aparece já no início, com a ênfase no “segredo”. Outro exemplo é relatado mais adiante: “Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, estes lhe perguntaram: Que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar.” (Humberto Rohden, tradução e notas, O Quinto Evangelho – A Mensagem do Cristo segundo Tomé, São Paulo, Alvorada, 1983, p. 35.)
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A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”

5. O EVANGELHO (GNÓSTICO)

DE

JUDAS

Num dos trechos iniciais do “Evangelho conforme Judas” há uma cena que descreve um diálogo de Jesus e os discípulos, quando estes estavam à mesa e oravam agradecendo a Deus pelo alimento. Diz o texto que Jesus, ao vê-los orarem, riu! Seus discípulos perguntam por que ele ri e Jesus responde: “Não estou rindo de vocês. Vocês estão fazendo isto não por sua própria vontade, mas porque através disto o deus de vocês é glorificado”. Diante do protesto dos discípulos pela expressão “deus de vocês”, Jesus lhes diz que ninguém daquela geração o conhece realmente. Por este exemplo se pode ver o tom deste pseudoevangelho. Neste relato, Jesus é um ser que não é conhecido devidamente pelos apóstolos. Na verdade, só Judas o conhece. Num trecho logo após o citado acima, Judas diz a Jesus: “Eu sei quem tu és e de onde vieste. Tu és do reino imortal de Barbelo”. Jesus, então, percebendo o caráter elevado de Judas, o convida a se afastar dos demais, para lhe revelar mistérios. O Evangelho conforme Judas é um dos representantes do ensino gnóstico. O gnosticismo é uma crença que apareceu com força no segundo século da era cristã. Trazia consigo elementos religiosos orientais, gregos e cristãos. Tratava-se, assim, de um movimento sincrético (uma mistura de elementos de diferentes crenças, a exemplo do que ocorre com algumas religiões de hoje). Apesar das diferenças significativas de um grupo para o outro, sua visão de mundo era de uma separação muito nítida entre o material e o espiritual (ou, melhor dizendo, imaterial). Para o gnosticismo, o criador do mundo não é o Deus ao qual Jesus veio anunciar. A criação é considerada um ato mau do demiurgo (um deus inferior). A matéria tem algo de intrinsecamente mau. O bem está no espírito, isto é, na parte imaterial que está dentro de cada pessoa. Uma tese fundamental do gnosticismo (de onde também se origina seu nome) se refere à busca do conhecimento (gnosis, em grego). Para os gnósticos, a salvação não está no sacrifício de Cristo para o perdão dos pecados e reconciliação com Deus. Salvação é ter conhecimento da realidade, é passar por um despertar, uma iluminação especial. E que realidade seria esta para a qual a pessoa despertaria através do ensino gnóstico? Ora, que a verdadeira realidade do ser humano seria a vida interior (sua “alma”) e não a matéria, à qual está sujeito em sua vida terrena. Por isto a morte é redenção para a alma, que assim retorna ao mundo da luz eterna. Não é difícil observar as semelhanças de tal
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idéia com pensamentos espíritas contemporâneos. Antes da descoberta da cópia copta do “Evangelho conforme Judas”, a existência deste escrito era conhecida através do testemunho de um pai da Igreja, Irineu, bispo em Lyon, no final do segundo século da era cristã. No seu escrito Contra os Hereges (cerca de 180 AD), Irineu descreve a doutrina de uma seita gnóstica, dos Cainitas: “Outros ainda dizem que Caim deriva da Potência suprema e que Esaú, Coré e os sodomitas e semelhantes eram todos da mesma raça dela; motivo pelo qual mesmo combatidos pelo Criador, nenhum deles sofreu algum dano, porque Sophia atraiu para si tudo o que lhe era próprio. Dizem que Judas, o traidor, sabia exatamente todas estas coisas e por ser o único dos discípulos que conhecia a verdade, cumpriu o mistério da traição e que por meio dele foram destruídas todas as coisas celestes e terrestres. E apresentam, à confirmação, um escrito produzido por eles, que intitulam Evangelho de Judas.”5 Hoje, após a divulgação do “Evangelho conforme Judas”, há quem diga em revistas de circulação nacional, que Irineu, em uma atitude autoritária, teria proibido a Igreja de ler este livro e determinado quais seriam os livros a serem lidos e quais não. Há um engano fundamental em mais esta “teoria de conspiração”, tão popular entre os antagonistas da Igreja cristã e daqueles que ignoram dados importantes da história. Não foi preciso que um pai da Igreja determinasse tal coisa. A história testemunha que os cristãos, já desde o primeiro século, tinham como a mensagem recebida de Deus o evangelho expresso nos quatro Evangelhos canônicos. Por outro lado, a rejeição, por parte dos cristãos, de outras mensagens, é um fato histórico testemunhado, e não ordenado, pelos pais apostólicos e eclesiásticos.

6. O TESTEMUNHO CRISTÃO E A RESSURREIÇÃO DE JESUS
Quando se divulgava a descoberta do “novo” Evangelho, os cristãos em todo o mundo celebravam a obra de Jesus, centralizada em sua morte e ressurreição. Num dos Domingos de Páscoa (3º Domingo de Páscoa – 30 de abril de 2006) o texto do Evangelho do dia teve muito a dizer, diante do texto falsamente atribuído a Judas. Em Lucas 24.36-

5 Ireneu de Lião, Livros I, II, III, IV, V, tradução de Lourenço Costa, São Paulo, Paulus, 1995, p. 122.

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A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”

49 é notória a ênfase de Jesus na sua corporeidade. Diante da dúvida dos discípulos, Ele os chama a ver, tocar e constatar que não se tratava de um espírito, mas alguém de carne e ossos. Para não deixar nenhuma dúvida, lhes pede algo de comer e, junto com os discípulos, come peixe. Trata-se de uma afronta ao que propõe o “Evangelho de Judas” (e para o gnosticismo), para o qual o corpo de Jesus seria uma prisão, da qual se libertaria na morte. Judas, ao entregar Jesus, estaria libertando-o do corpo. A verdade é que Jesus se regozija em ter seu corpo ressuscitado e faz questão de mostrá-lo aos discípulos e, com isto, edificá-los na fé. Na Epístola do mesmo Domingo mencionado acima (1 Jo 1.1-2.2), logo no início, o apóstolo atesta o fato de que eles não somente viram, mas tocaram naquele que é a Palavra da vida. O mesmo apóstolo João, na sua Epístola, denuncia um problema que estava surgindo entre alguns já no final do primeiro século da era cristã: 1 Jo 2.1826; 4.1,2. Note-se a importância da encarnação para a fé cristã. A encarnação de Deus, que realmente ressuscitou e que também nos ressuscitará, é a marca registrada da fé cristã, contra a qual o gnosticismo se levantou. Contra esta mensagem ainda hoje crenças espiritualistas, algumas vestidas de roupagem cristã, ainda se levantam.

7. A VERDADE SOBRE O “EVANGELHO DE JUDAS”
A título de conclusão, é preciso dizer a respeito do “Evangelho de Judas”, primeiro, que certamente não foi escrito por Judas Iscariotes. Todas as análises apontam para uma origem no segundo século da era cristã, muito depois da morte de Judas. Segundo, o texto nem mesmo mereceria o nome de “Evangelho”. Afinal, falta-lhe o elemento fundamental que caracteriza um “Evangelho”: a mensagem do amor de Deus, em Cristo, manifesta na obra substitutiva, realizada na sua paixão, morte e ressurreição. Toda a divulgação atual daquele texto trata-se de uma grande e elaborada jogada de marketing. Era preciso vender muito, pois houve um elevado custo em todo o processo de compra, restauração e tradução. Além disto, é objeto de sensacio nalismo, sob o argumento de que uma grande novidade estaria sendo divulgada. Na verdade, para quem estuda o assunto dos Evangelhos (incluindo os apócrifos), trata-se nada além de mais um escrito antigo, que reflete uma crença antagônica ao cristianismo (o gnosticismo). Os cristãos hão de lembrar e estar alerta para o fato de que esta
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não é a primeira vez que a mensagem do cristianismo é afrontada. E não será a última. O livro de Apocalipse mostra a tentativa do Império romano, no final do primeiro século, de extinguir com a fé no Senhor Jesus Cristo. Mas o mesmo livro (assim como outros textos do Novo Testamento) alerta para o fato de que em outras épocas mensagens falsas iriam circular, tentando confundir e enganar. O assim chamado “Evangelho de Judas” faz parte de um pensamento religioso antagônico ao cristianismo. Não foi escrito por um apóstolo, mas por alguém que propagava a fé gnóstica. A curiosidade humana diante do que é ou parece misterioso, aliada à propaganda da mídia, podem dar a entender que esteja aí uma “revelação” digna de crença. Mas é preciso ter isto claro: crer nisto significa submeter-se a uma “outra mensagem” (Gl 1.8,9). É renegar a Cristo e sua revelação. Se perguntados sobre o que o evangelho apócrifo de Judas acrescenta ao conteúdo da fé cristã, talvez a melhor resposta seja: nada! Ao ignorar a morte e ressurreição de Cristo como fatos fundamentais para a fé, o texto deixa de testemunhar o Deus justo e amoroso, que no Seu Filho – verdadeiro Deus e verdadeiro homem – revelou-se a nós. O Deus que criou o mundo e que é o mesmo que o redime, em Jesus Cristo. É o mesmo Deus que ressuscitou a Jesus e que ressuscitará a todos os crentes.

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A PROEMINÊNCIA DA PAROUSIA1
Jeffrey A. Gibbs2

Este estudo sugere uma visão corretiva para a Igreja3 ; não se trata de um voltar da doutrina falsa para a verdadeira, pois nosso Sínodo não perdeu o ensino verdadeiro e bíblico a respeito da esperança cristã. Antes, o problema é mais sutil; estarei argumentando que a igreja hoje precisa restaurar um equilíbrio quando trata da esperança para o futuro. Este estudo é um exercício de teologia bíblica e penso ser um exercício necessário. O exercício é necessário por causa de um contraste. Há um contraste entre a esperança que está nas páginas do Novo Testamento, por um lado e, por outro lado, o que é freqüentemente a piedade atual e padrão das pessoas, tanto leigos como clero, de nosso Sínodo. Da maneira mais simples, diria desta forma. Os autores do Novo Testamento pensaram, viveram e escreveram escatologicamente, com sua esperança voltada de maneira completa, firme e intensa para a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo. Nossos corações e mentes, no entanto, não estão orientados desta forma, apesar de que a nossa tradição, os Credos e a Bíblia nos ensinem de outra forma. Eles viveram escatologicamente. Nós, em termos práticos, não o fazemos. Mas deveríamos viver assim. Estou sugerindo que deveríamos aplicar Rm 12.2 (com a devida tradução): “Não vos conformeis com esta era – não é ‘mundo’, mas ‘era’! - mas sede transformados pela renovação
Tradução do artigo, “Regaining Biblical Hope: Restoring the Prominence of the Parousia” (Recuperando a esperança bíblica: restaurando a proeminência da parousia [a segunda vinda de Cristo]). Publicado originalmente na revista Concordia Journal , de outubro de 2001, páginas 310 a 322. Traduzido e publicado com a permissão do autor e do editor da revista. Tradução: Gerson L. Linden. Optamos por manter o termo parousia - transliteração do termo grego parousi,a (vinda, chegada), usado algumas vezes no Novo Testamento em referência à segunda vinda de Cristo. N. do T. 2 Dr. Jeffrey A. Gibbs é professor de Teologia Exegética do Novo Testamento no Concórdia Seminary, St. Louis, EUA. Este estudo foi originalmente apresentado em um Simpósio de Teologia promovido pelo Concórdia Seminary, em setembro de 1999. 3 O autor escreve especificamente para sua Denominação Religiosa, a Lutheran Church – Missouri Synod (LCMS). N. do T.
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da vossa mente”.4 Se quisermos crer e viver como os escritores do Novo Testamento o fizeram, precisamos que Deus renove nossas mentes pelo poder de Sua palavra. Reconheço já no início que eu poderei estar exagerando no meu argumento. Além disso, é preciso sempre estar aberto à correção. Mas irei fazê-lo desta forma porque é meu propósito expulsar de nossas mentes um erro de reflexão. Um tema bem menor da Bíblia, que realmente é secundário, tomou o lugar da verdadeira esperança bíblica e se tornou o centro funcional para muitos, senão virtualmente para todo o nosso povo. Estou falando do “estado intermediário da alma”, der Zwischenzustand, o ensino a respeito da existência da alma após a morte do corpo. De alguma forma permitimos que esta ênfase bíblica menor se tornasse nossa grande esperança e expectativa, com a exclusão, em termos práticos, da parousia de Jesus Cristo. Deus quer que mudemos esta situação. Como um estudante sugeriu em uma conversa a respeito deste assunto, talvez tenhamos perdido nossa primeira esperança. Tenho dois objetivos neste estudo. Primeiro, que todos os leitores aceitem o desafio de repensar nossa visão de mundo, ajustando-a conforme a doutrina e esperança bíblicas. Segundo, que todos nós aguardemos mais deliberada, consciente e ansiosamente pelo retorno de Jesus na consumação da era. Para atingir estes objetivos, começaremos por lembrar a grande necessidade de esperança que tem nosso mundo.

1. A

NECESSIDADE DA ESPERANÇA

O Evangelho cristão olha em duas direções. A proclamação da obra de Jesus olha para o passado em fé e para o futuro em esperança. Por que duas direções? Jesus Cristo já veio. Ele já pagou o preço de nossa redenção, já alcançou a vitória, já perdoou os nossos pecados. Não é isto o suficiente? Se temos fé, precisamos de esperança?

) como “este mundo” [assim traduz a New International Version, A tradução inglesa de ( por exemplo] não deveria ser preferida, pois obscurece o significado temporal, escatológico. Como Joseph A. Fitzmeyer (The Anchor Bible: Romans: A New Translation with Introduction and Commentary [New York: Doubleday, 1992], 640-641) comenta, “Paulo alude à distinção judaica entre ‘este mundo/época/era’ e o ‘mundo/época/era por vir’, uma distinção que foi adotada pela igreja antiga e recebeu uma nuance cristã. Para Paulo, o ‘mundo/época/era por vir’ já iniciou; as ‘eras’ se encontraram no início da dispensação cristã (1 Co 10.11). Ver também C. E. B. Cranfield, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans, vol. 2 (Edinburgh: T. & T. Clark, 1979), 608.
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A PROEMINÊNCIA DA PAROUSIA

Sim, é suficiente, mas não é tudo. Permitam-me lembrar algumas realidades que podem nem precisar de lembrança, dependendo do que está atualmente acontecendo em sua vida e ministério. Mas nós no Sínodo de Missouri somos, em grande parte, uma denominação de classe média. Ao menos neste continente não estamos enfrentando perseguição no sentido mais agudo do termo. Além disso, a tentação descrita em Romanos capítulo seis, pecar a fim de que a graça seja abundante, sempre foi um problema na igreja. E é mais fácil conformar-se a esta era quando ela é uma era confortável. Assim, permitam-me deixar-nos a todos um pouco menos confortáveis, para criar, se possível, um necessário e santo desconforto. É uma bendita verdade que a obra passada e completa de Cristo é suficiente e que Ele providencia nosso sustento através dos meios da graça. Mas você está ouvindo os gemidos de sofrimento? Nossos ouvidos não devem jamais perder a capacidade de ouvir tais gemidos. Você está ouvindo o gemido da criação? A fome continua sendo uma triste realidade (lembramos especialmente alguns países na África) e pessoas estão realmente morrendo de fome. Se vivêssemos em algumas partes da África, ouviríamos melhor. E por todo o mundo – doença e enfermidade. Há algum tempo minha família e eu tivemos de encarar esta situação – alguns tumores foram removidos do abdômen de minha esposa. Por um bom tempo meu adjetivo preferido é este: benigno. Mas algumas vezes, até freqüentemente, não há um final feliz. Mas isto não deveria ser assim, visto que no princípio tudo era “muito bom”. Estamos ouvindo os gemidos de sofrimento? No Oriente Médio, radicais continuam, apesar de negociações de paz, a trazer a violência para minar o processo. O desemprego, as drogas e a miséria estão bem perto de nós. O número de mortes de crianças não nascidas, pelo aborto, é imenso e para muitas pessoas o maior dos mandamentos é “Não tirarás meu direito de escolher”. Vivemos num mundo que precisa de esperança, em uma criação que é incapaz de manifestar a paz de Deus. Deus já fez pelo mundo tudo o que Ele queria que acontecesse? Está seu nome sendo plenamente santificado, seu reino está vindo completamente e sua vontade está sendo feita através de toda a criação? Não, ainda não. Ouça os gemidos de sofrimento. Na sua própria vida e de seus irmãos. Orgulho, preguiça e mesmo indiferença nos atrapalham na tarefa de levar o evangelho a outros. A fofoca destrói o bom nome de nosso próximo. Promessas para os filhos e cônjuges são quebradas.
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Cristo perdoa todos estes pecados? Sim, Ele o faz. Mas o pecado opera seu prejuízo e ecoa através das gerações? Sim, ele o faz. Há, em sua vida e na vida do próximo, efeitos do pecado tanto no corpo como na alma, efeitos que não deixarão de existir até que Jesus venha novamente? Nós bem sabemos que sim. E ninguém o sabe melhor do que um pastor. Foi como pastor em uma paróquia que comecei a chamar estas coisas de “problemas relacionados à parousia”. E existe a morte. Nossos corpos morrem. A morte nos separa do amor de Cristo? Obviamente que não! Mas a morte nos separa uns dos outros? Você pode estar certo disso! A morte toma nossa humanidade e a rompe ao meio, de um modo que entristece a Deus? Sim, ela o faz. Na economia divina, a morte é o último inimigo ainda a ser vencido (1 Co 15.54,55).5 Podemos ver o quão finita e deformada é esta era, observando o ministério do Senhor Jesus. Seu ministério é a manifestação presente do irromper do reino de Deus. Ele perdoou pecados, curou doentes, expulsou demônios, acalmou tempestades, ressuscitou mortos. Onde quer que Jesus fosse, o poder de Satanás e os efeitos do pecado eram contidos. Os milagres de Jesus não eram apenas provas de seu poder divino. Eram, de fato, manifestações do reino de Deus e era próprio e necessário que Aquele que trouxe o reino de Deus deveria curar doentes, ressuscitar mortos e expelir demônios. Nele o reino de Deus esteve presente de forma antecipada. Quando o reino de Deus vier final e completamente, então Ele curará nossos corpos e toda a criação. Sim, desde já, as grandes e poderosas boas novas são que pela fé temos o perdão dos pecados e paz com Deus. Mas ainda temos pecado? Há ainda doença e morte? Continua Satanás a agir com suas mentiras? E está Deus satisfeito com isto? Deveríamos nós estar satisfeitos com isto? Se estivermos satisfeitos quando Deus não está, deveríamos nos arrepender e buscar a mente de Cristo. Apenas para o caso de termos esquecido, esta era finita, imperfeita e moribunda precisa de esperança. O evangelho cristão olha para a frente e proclama esperança. Tudo está feito, mas ainda há mais por vir! Cristo completou sua obra, mas ele não terminou ainda. Qual é esta esperança?

5 Conforme Ben Witherington III (Conflict and Community in Corinth: A Socio-Rhetorical Commentary on 1 and 2 Corinthians [Grand Rapids: Eerdmans, 1995], 310), 1 Co 15.54 e seguinte “é o único lugar em suas cartas onde Paulo cita o texto do Antigo Testamento como uma profecia ainda por ser cumprida.”

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A PROEMINÊNCIA DA PAROUSIA

2. A

ESPERANÇA BÍBLICA

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança” (1 Tm 1.1). “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13). Cristo Jesus é a esperança, a esperança da glória escatológica final. Ele é uma esperança infinita, pois quando voltar – e somente quando Ele voltar – trará o triunfo final de Deus, Seu Pai, a vitória completa sobre todo pecado e toda doença e a morte será engolida. O poder de Satanás, de tentar, enganar e aterrorizar será totalmente tirado. O Filho de Deus trará a redenção completa da criação. Como poderia ser diferente com Aquele que desceu e assumiu a natureza humana? O caráter físico da encarnação exige uma redenção do que é físico, o mundo. O Novo Testamento todo, página após página, está ocupado e com o foco nesta esperança. O Novo Testamento está repleto da tensão entre uma obra completa que está sendo apenas parcialmente experimentada e uma obra completa que será plena e totalmente recebida. A linha divisória é a parousia de Jesus, Seu retorno visível na consumação da era. Visto que Cristo é o foco de nossa fé, Ele é também o conteúdo de nossa esperança. A Escritura fixa nossos olhos em Cristo e em Sua ação – primeira vinda, segunda vinda. Crer numa é esperar pela outra. Até as mesmas palavras são usadas, por vezes no mesmo local. Já e ainda não. O presente e o futuro estão presentes nas palavras de Jesus em Jo 5.25-29: Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão. Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. E lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do homem. Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo. (ênfase acrescentada) Já ressuscitados para a vida ... e ainda não ressuscitados para a vida. A primeira ressurreição ocorre na conversão, no batismo. A segunda quando Jesus vem novamente.
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Palavras de salvação, no Novo Testamento, são tanto “já” como “ainda não”. O conteúdo do já e ainda não é Jesus e Sua ação, expressa por Aoristos Indicativos e Futuros Indicativos: “segundo a sua misericórdia, nos salvou” (Tt 3.5); “seremos por ele salvos da ira” (Rm 5.9); “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus” (Rm 3.21); “Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça” (Gl 5.5); “A lei do Espírito da vida te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2); “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.25); “Deus enviou Seu Filho, para resgatar ... a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.4,5); “aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” (Rm 8.23). (ênfase acrescentada) Aquilo que já recebemos ... ainda não recebemos. Redimidos, aguardamos a redenção final. O reino de Deus já veio: os discípulos de Jesus não podem jejuar porque o noivo está aqui e a festa de casamento está pronta – venha para a festa! Mas as dez virgens têm de esperar e vigiar, pois o noivo ainda não chegou e a festa do casamento ainda está para começar. Paulo escreve: “na esperança fomos salvos” (Rm 8.24). A presente era má não nos pode destruir e nada pode nos tirar de Sua mão. Mas o poder do mal ainda é muito grande e os inimigos - Satanás, pecado e morte - continuam agindo. A nossa esperança, e a esperança deste mundo finito, é que uma vez mais Deus agirá, Deus descerá, Cristo retornará. Esta esperança está centralizada não em nós ou no que nós fazemos, mas em Deus e no que Ele fará em Cristo. Nossa esperança aguarda o dia em que o nome de Deus será santificado em toda a criação, e quando a doença, morte e pecado serão destruídos e quando a própria morte será tragada pela vitória. Isto não acontecerá até que Cristo venha em glória. Nós fomos salvos ... na esperança. Cristo é a nossa esperança e as páginas do Novo Testamento dão amplo testemunho desta esperança do retorno de Cristo em glória. Os escritores bíblicos sabiam o quão finito o mundo ainda era e quão grande ainda é o poder do mal. Eles aguardavam pelo dia em que todo joelho – nos céus, na terra e debaixo da terra! – irão se dobrar e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor. Esta esperança reconhece Deus como criador e como salvador; ela vê a realidade definitiva. Quando Deus virá? Quando Cristo retornará como juiz dos vivos e mortos? “Na esperança fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que
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alguém vê, como o espera? Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.” (Rm 8.24,25).

3. A

ESPERANÇA OBSCURECIDA

Estamos aguardando esta esperança com paciência. Ou não estamos? Parece-me que não estamos. Penso que os membros da igreja não estão. Penso que nossa igreja não está. Esta esperança está em nossa doutrina. Ela está na Bíblia. Está nos Credos. Mas a esperança que aguarda ansiosamente pela segunda vinda de Cristo tem sido obscurecida por outra coisa. O sol foi eclipsado pela lua. Se você perguntar cristãos luteranos do Sínodo de Missouri qual é sua esperança e seu objetivo, sua resposta provavelmente será: “Morrer e ir para o céu”. Em outras palavras, “entrar no estado intermediário, a condição da presença da alma com Cristo quando o corpo morre.” Uma ênfase bíblica menor, sobre a qual pouco sabemos e a respeito da qual a Bíblia dá pouca atenção suplantou a volta de Cristo como conteúdo da esperança cristã. Entregamos a segunda vinda de Cristo para os “calculadores”, para os dispensacionalistas. Digo que devemos tomá-la de volta. Não é suficiente negar o ensino falso e especulações perigosas a respeito do último dia e do retorno de Cristo – apesar de que temos de fazer isto também. Precisamos reaver para nós próprios o poder e a alegria que brotam do entendimento verdadeiro e bíblico da consumação da era. Quando perdemos de vista nossa esperança bíblica, cristocêntrica, isto alimenta idéias modernas não bíblicas e pode abrir a porta para doutrina falsa. Descreverei sob seis tópicos o que aconteceu nas mentes e corações pelo fato de que “morrer e ir para o céu” tem tomado o lugar de uma esperança escatológica verdadeira, que é o ardente desejo pelo retorno de Cristo. Primeiro, uma antropologia falha está em ação. Esta visão equivocada da natureza humana pensa que somos, essencialmente, almas – a nossa parte “imortal”. O corpo seria, de alguma forma, desnecessário, até mesmo um incômodo. E esta visão considera, incrivelmente, a morte do corpo do cristão como sendo uma vitória, como algo bom, mais do que uma manifestação do pecado e do mal. Pode-se ouvir isto junto ao esquife nos funerais: “Isto não é ele realmente; é apenas o seu corpo. Ele está realmente no céu”. Muito mais bíblico é o comentário da criança junto ao mesmo esquife: “Vovô está dormindo”. Tecnicamente falando, esta antropologia é doutrina falsa. Os seres
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humanos são realmente compostos de corpo e alma, unidos. A morte, que não é parte do plano original de Deus, nos rompe ao meio. Isto está ligado também à Cristologia. Confessamos que o Logos eterno, Deus o Filho, assumiu plena natureza humana no ventre de Maria, Sua mãe. Aquela natureza humana, assim como a nossa, consistiu de corpo e alma. Não somos essencialmente almas. Quando nossos corpos morrerem, este não é o plano de Deus e Ele irá mudar isto.6 Segundo, a esperança substituta focaliza a atenção na existência da alma fora do corpo e, em termos práticos, pouco se importa com o retorno de Cristo. Isto chega perto de uma forma de gnosticismo. O “espiritual” é bom; o “físico”, se não é mau, é pelo menos indiferente ou menos importante. Um momento de reflexão pode nos mostrar o que esta posição pode fazer com a visão que se tem sobre os sacramentos. Além disso, tal visão neo-gnóstica não vê mais a salvação de forma linear, em termos bíblicos, com Deus vindo para dentro da história e para sua criação, com o fim de salvá-la. Antes, a salvação é vista como algo vertical e este mundo é um vale de lágrimas de onde esperamos escapar para sempre. Isto é filosofia grega, não esperança bíblica. Terceiro, e tipicamente americano, fazer do estado intermediário nossa esperança verdadeira e prática é pensar de forma egocêntrica e individualista. A esperança tem a ver basicamente com minha alma, com a morte do meu corpo, com meu “morrer e ir para o céu”. Mas a esperança bíblica não é centrada em mim, nem em minha alma. A esperança bíblica é cristocêntrica e focaliza a honra de Deus, Seu reino e Sua glória em Jesus Cristo. Quarto, existe o que um colega chamou de “escândalo da escatologia luterana”, isto é, ela não existe. Nossa tradição dogmática não permitiu que a verdadeira esperança bíblica ocupasse um lugar
Em sua discussão sobre a união hipostática das duas naturezas em Cristo, Martin Chemnitz compara a necessidade pelas duas naturezas que constituem a pessoa única de Cristo com a definição da natureza humana, como sendo necessariamente composta de ambos, corpo e alma. Ele escreve: “Assim a alma considerada por si mesma, e a natureza humana em Cristo, apesar de serem substâncias individuais e inteligentes, no entanto não têm o pleno status de uma pessoa ... Se aplicamos cuidadosamente estes pontos à doutrina da encarnação do Filho de Deus, alguma luz será lançada sobre o assunto. Assim, nos anjos, uma pessoa consiste de uma natureza; mas nos homens uma pessoa consiste de mais do que uma natureza, visto que o homem é feito de corpo e alma, que são substâncias diferentes e distintas”. (Two Natures in Christ, traduzido por J. A. O. Preus [St. Louis: Concórdia, 1971], 92). Chemnitz comenta mais adiante: “Pois a alma e o corpo constituem a natureza humana, que consiste destes dois elementos, sendo que nenhum deles é tão perfeito sem o outro, como se o corpo sozinho fosse um homem completo, ou que a alma sozinha fosse uma natureza humana completa. Pois a alma é apenas parte do homem e o corpo é apenas parte da natureza humana.” (p. 107)
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de destaque ou pelo menos retivesse seu conteúdo bíblico. Em particular, há o problema criado pelas categorias dogmáticas do “reino da graça” e “reino da glória”. Quando faço palestras na igreja, vejo grande confusão no uso destas expressões e parece-me que os diversos dogmáticos não as usam de forma coerente. Francis Pieper define o “reino da graça” como “a igreja de Deus na terra”, enquanto que os habitantes do “reino da glória” “não estão mais sujeitos à cruz e tribulação”.7 Isto soa como se o ponto divisório crucial fosse a morte do corpo. Para a Bíblia, porém, o crucial é o retorno de Cristo. Não há dois reinos de Deus no Novo Testamento. Há apenas um reino de Deus, manifestado agora e no último dia. O uso desta distinção na teologia sistemática precisa ser reavaliado, clarificado ou trazido em termos mais próximos à visão bíblica. Esta distinção dogmática entre “reino da graça” e “reino da glória” também resulta em um mau uso da Escritura, o que se configura num quinto triste resultado do obscurecimento da esperança bíblica. Textos que se aplicam apenas e propriamente à realidade porvir, por ocasião do retorno de Cristo, são aplicados ao estado intermediário. Para mim, como exegeta, esta é a coisa mais marcante e aflitiva: nós de fato, e de maneira persistente, aplicamos mal a Escritura. Seguem alguns exemplos desta má interpretação da Escritura, percebida especialmente em funerais. João 14.2,3 é usado como se a alma do cristão morto já estivesse na “mansão celeste” que Cristo preparou. No entanto, Jesus mesmo diz “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou, estejais vós também.” (ênfase acrescentada) Jesus se refere, em primeiro lugar, a Sua parousia, quando Ele voltar. Em segundo lugar, ele pode estar também se referindo ao habitar do Pai e do Filho com o crente, pois mais adiante Jesus se refere a isto, ao dizer: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. ... Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.18,23). Mas o que é certo é que Jesus não está falando sobre a morte do corpo ou sobre o estado intermediário. Outro texto é “Muito bom, servo bom e fiel”. Estas não são palavras ouvidas quando a alma vai estar com Cristo – ao menos, não conforme Mt 25.21. A parábola dos talentos traz as palavras de um mestre
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Christian Dogmatics, vol. 2, p. 389.

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que, após longo tempo, volta e acerta as contas com seus servos. É uma parábola da parousia. A aprovação final acontece somente quando Jesus retorna. “Já agora a coroa da justiça me está guardada” (2 Tm 4.8). Não é referência à morte, pois Paulo diz, “a qual o Senhor me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos quantos amam a sua vinda”. (ênfase acrescentada). A coroa de Paulo está assegurada, mas ainda não foi concedida. Como pode o servo receber a coroa quando o Senhor ainda não está recebendo todo o louvor e culto de toda a criação? Outro exemplo: o funeral de um cristão é um culto de vitória, certo? “Tragada foi a morte pela vitória.” Na verdade, ainda não, ao menos não de acordo com 1 Co 15. Na verdade, não conheço nenhum texto bíblico que fale da morte do cristão como uma vitória. 1 Co 15.54 diz: “E quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória.” Esta vitoriosa destruição da morte acontecerá quando a morte for removida. Paulo está citando Is 25.8, uma passagem que fala da vitória final de Deus no fim desta era. Outro texto usado é Fp 3.14: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana8 vocação de Deus em Cristo Jesus”. Não estou bem certo sobre isto e talvez nem seja possível ter certeza sobre este ponto. Mas o adjetivo é a;nw e ele não precisa ser necessariamente traduzido “para cima”. Tendo em vista o uso que Paulo faz do termo em Gl 4.26 e Cl 3.1,2, bem como à luz da estrutura do pensamento de Paulo e sua esperança, é, pelo menos, próprio traduzir como “chamado/vocação de cima” ou “chamado celestial”, indicando a fonte de onde o chamado vem, mais do que a direção para onde chama. Mais adiante no mesmo capítulo, a esperança de Paulo é inteiramente colocada no retorno de Cristo do céu: “Pois a nossa pátria está nos céus (evn ouvranoi/j), de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas.” (Fp 3.20,21). Parte do problema é de referente: a que estamos nos referindo ao falarmos sobre o “céu”? Freqüentemente na Escritura “céu” ou “céus” é simplesmente onde Deus está: “Pai nosso, que estás no céu”. É
8 O autor argumenta a partir da tradução de a;nw (para cima, do alto), traduzido na versão Almeida por “soberana”. Ele parte da tradução “para cima”. (N. do T.)

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também “onde” Jesus está agora, mesmo sabendo que Ele enche todas as coisas e que nós estamos agora assentados com Ele nos lugares celestiais (Ef 2.6). Mas se o “céu” refere-se ao “lugar” ou condição das almas dos crentes entre a morte do corpo e o retorno de Cristo, então o Novo Testamento não tem muito a dizer sobre isto.9 E se ao falarmos em “céu” nos referimos à nova criação, então temos de ser claros com respeito a isto. O exemplo final de minha lista de passagens bíblicas e conceitos mal interpretados é das “portas de pérolas”. Fala-se das pessoas morrendo e entrando por estas portas. Esta expressão vem da visão de Ap 21.21, sobre a nova Jerusalém, com suas doze portas de pérolas. Quando esta cena descrita em Ap 21 ocorre? João mesmo o diz: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus...” (Ap 21.1,2). Aquele grandioso hino, “Rendemos glória ao nome de Jesus”, traz o tema corretamente. A estrofe seis fala do “descanso para os fiéis combatentes” no “bendito paraíso”. É exatamente isto que é o estado intermediário – descanso da batalha. Voltarei a este tema mais adiante. Daí vem a estrofe sete: “Mas então se abre um dia ainda mais glorioso, o triunfante ressurgir dos santos em brilhante ordem – o Rei da glória vem no seu caminho” e a estrofe oito: “Das fronteiras distantes da terra, da costa mais distante do oceano, através dos portões de pérolas transborda uma hoste incontável, cantando ao Pai, Filho e Espírito Santo. Aleluia!”10 Sexto, nossa hinódia também foi infectada com esta confusão e muitas vezes cantamos como se o estado intermediário fosse nossa esperança cristã verdadeira, real e completa. Bem, sei que aqui estou lidando com um assunto muito delicado – “Você pode até criticar minha hermenêutica o quanto quiser, mas não mexa com meus hinos favoritos”. Isso é como tentar fazer uma congregação mudar do cálice individual para o cálice comum. Mas se nossa esperança é Cristo Jesus em sua parousia, como pode um hino falar da bênção futura apenas em termos do estado intermediário, omitindo qualquer referência à
9 Francis Pieper, Christian Dogmatics, vol. 3 (St. Louis: Concordia, 1953), 511, começa sua discussão a respeito do “Estado das almas entre a morte e ressurreição” com estas palavras: “A Escritura Sagrada pouco revela a respeito do estado das almas entre a morte e a ressurreição. Ao falar das últimas coisas, ela dirige nossa atenção especialmente para o dia do juízo final e os eventos ligados a ele.” 10 A referência é feita ao Hino 191 no Hinário Lutheran Worship (número 463 no Lutheran Hymnal). Algumas estrofes estão traduzidas no Hinário Luterano, no hino 297.

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verdadeira esperança e vitória na volta de Cristo? Alguns hinos familiares e queridos têm ajudado a confundir nosso foco e obscurecer nossa esperança bíblica genuína. Eles falam unicamente em termos verticais, como se nosso maior objetivo fosse ir para cima, deixando para trás nossos corpos. “Sou apenas um estrangeiro aqui, o céu é meu lar.” O objetivo é passar pela vida terrena e ir “para cima”, para nosso verdadeiro lar. Sei que há um sentido em que isto pode ser verdadeiro. Mas permita-me dizer, de uma forma um tanto provocativa, que meu lar – e seu – não é “lá em cima”. Nosso lar é bem aqui! Somos criaturas, parte da criação. Mas nosso lar foi arruinado pelo pecado e nós ajudamos a arruiná-lo. No entanto, Deus não deixa Sua criação permanecer arruinada. Ele não decidiu simplesmente nos levar para cima. Ele veio cá para baixo, tornou-se parte da criação, nascido de mulher, nascido sob a lei. Ele veio e nos salvou e virá novamente, para salvar. Alguns de nossos hinos não nos ajudam, mas outros sim. “Sei que vive o Redentor” (Lutheran Worship, número 266; Hinário Luterano número 526) é excelente teologia e esperança cristã, assim como “Rendemos glória ao nome de Jesus” (HL, 297). O equilíbrio pelo qual este estudo argumenta é apresentado de maneira bela no hino “Eu te amo tanto, ó meu Senhor” (HL 435): “Ordena aos anjos, ó Senhor, que levem, quando eu morto for, minha alma ao paraíso. Na tumba aguarda o corpo meu a tua vinda lá do céu no dia do juízo. Desperta-me da morte então, que os olhos meus se alegrarão ao ver-te, ó Filho de Deus Pai, ó Redentor, que ao céu me atrai. Ó Salvador, vem me atender, vem me atender; eu sempre te hei de bendizer.” Assim, se o estado intermediário não é o verdadeiro conteúdo de nossa esperança, o que podemos dizer sobre ele? Devemos dizer o que a Bíblia diz. Afinal, há uns poucos versículos claros na Escritura que ensinam que as almas dos crentes estão “com Cristo” (Fp 1.23), “no paraíso” (Lc 23.43), “deixando o corpo e habitando com o Senhor” (2 Co 5.8). Muito mais do que isto não podemos dizer; afinal, como podemos conceber uma existência sem um corpo? Contrariamente à opinião popular, não conheço nenhuma evidência bíblica direta que nos encoraje a pensar que as almas não estejam conscientes da passagem do tempo. Pode até mesmo haver uma evidência ao contrário, em Ap 6.9,10: “vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra
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de Deus ... Clamavam em grande voz dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, não julgas nem vingas o nosso sangue...?” Até quando? Simplesmente não sabemos muito a respeito do estado intermediário. Há muita especulação sobre ele, e algumas coisas podem até ser corretas. Mas é especulação. Sabemos o suficiente para ter consolo em relação aos nossos queridos, que morreram na fé no Senhor. Sim, eles são benditos, pois repousam de seus labores (Ap 14.13) e estão louvando o Cordeiro sem cessar. Mas a vitória final ainda não é deles. A manifestação plena da vitória final, de Deus em Cristo, ainda não aconteceu. Mesmo ao tratar de nossa morte ou da morte de nossos entes queridos, a palavra de Deus, pelo apóstolo Paulo, não dirige nossa atenção para o estado intermediário. Aos tessalonicenses, preocupados com os crentes falecidos antes da parousia , Paulo disse, “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro ... consolai-vos com estas palavras.” (1 Ts 4.13-18). E diante de sua própria morte Paulo escreveu a Timóteo e olhou, não para a condição de sua alma após a morte de seu corpo, mas para a vitória e a vinda finais de Cristo: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2 Tm 4.6-8).

4. A

ESPERANÇA RESTAURADA

Se este estudo está correto, há bastante trabalho a fazer na Igreja hoje. Freqüentemente nossa abordagem à escatologia tem sido de refutar o erro, mostrando os equívocos dos dispensacionalistas e milenaristas. A série dispensacionalista de romances “Left Behind” [Deixados para trás] de Tim LaHaye vendeu milhões de cópias nos Estados Unidos. Há trabalho a fazer, em refutar o erro. Mas temos nosso próprio erro para corrigir, para restaurar a verdadeira esperança bíblica e para colocá-la diante das mentes e corações de nosso povo e para nós próprios vivermos nela. Como o faremos? Primeiro, de forma gentil, paciente e pastoral. Leva tempo para mudar uma leitura equivocada da Escritura. Deixe a Bíblia falar por si. Deixe que o estado intermediário tenha o seu devido lugar. Como
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pensarei a respeito dos meus entes queridos cristãos, cujos corpos descansam na sepultura? Eles estão repousando dos seus labores. Eles estão com Cristo, em paz, aguardando pelo último dia e pela vitória final de Deus. Isto é suficiente. Mas esta não é a vitória final que nos aguarda em Cristo Jesus. Segundo, devemos estar prontos a ouvir os gemidos de sofrimentos e levar a sério o quanto esta era presente ainda é a era má. Isto significará confrontar seriamente o pecado, em nossa vida e na vida dos outros. Isto significará pensar teologicamente a respeito da doença, dos desastres e da morte. Isto significará estar prontos a ficarmos perturbados pelo mal que ainda existe. Pois o coração do Salvador está perturbado. Não é nada de novo; só temos de levar a sério a teologia da cruz. Terceiro, podemos de maneira clara e direta ensinar e pregar a esperança bíblica. Simplesmente leia a Escritura, cuidadosamente, eliminando as lentes distorcidas, que têm obscurecido a esperança verdadeira e completa dos cristãos. Simplesmente leia, buscando a esperança futura, o foco no retorno de Cristo. Está em toda parte e em todo documento. Está também tanto no Credo Apostólico como no Niceno: “E virá novamente em glória, a julgar os vivos e os mortos ... espero a ressurreição dos mortos e vida no mundo vindouro...”; “donde há de vir a julgar os vivos e os mortos ... creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.” Simplesmente faça o que a Bíblia faz. Aponte para o povo de Deus a sua verdadeira esperança, o dia do Senhor. Assim fazendo, estaremos também glorificando mais plenamente o reino presente de Deus, a obra já completada de Cristo, cujos benefícios já temos pela fé. O fim já se aproximou em Jesus Cristo. Na cruz, sob aquele céu escurecido pelo julgamento de Deus, sobre aquela terra que foi rompida pelo terremoto, nosso Salvador recebeu o destino escatológico final que nós merecíamos por nossos pecados. Quanto Cristo nos perdoou, justificou e redimiu? Ele o fez de forma tão completa que não tememos o grande dia de Sua vinda – podemos esperar por ele, como o dia de Sua grande vitória por nós e por toda a sua criação. Uma das coisas mais entusiasmantes em restabelecer uma estrutura escatológica verdadeiramente bíblica é a maneira como cada um dos principais ensinos cristãos é aguçado, realçado, enfatizado e feito ainda mais importante pela adição do colorido do “tempo do fim” ao quadro. Nossa identidade e fé como luteranos deveria nos
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predispor, entre todos os filhos de Deus, a apreciar e utilizar este ponto de vista escatológico. Pois os luteranos apreciam o paradoxo, a tensão, o dizer “sim” para duas verdades antinômicas ao mesmo tempo. Lei e evangelho. Velho homem, novo homem. Pecador e santo. Iniciativa divina e responsabilidade humana. Há apenas uma razão para estes paradoxos existirem – é porque vivemos na tensão entre a inauguração e começo dos últimos dias em Cristo e a consumação final da era em Cristo. Quando Jesus voltar, não precisaremos distinguir entre lei e evangelho, porque tudo será recebido como presente de Deus. Não haverá mais tensão, não mais luta entre o velho homem e o novo, pois tudo será feito completamente novo. Não haverá mais peccator, apenas iustus. Mas até aquele tempo chegar, vivemos no paradoxo, esperamos o paradoxo – porque somos salvos ... na esperança. Vivemos na esperança neste atribulado mundo finito. O restabelecimento da esperança bíblica também nos convidará a refletir uma preocupação que o próprio Deus tem pela criação. Uma escatologia bíblica implica e requer uma teologia bíblica sobre a criação. Nosso amor e preocupação em Cristo podem atingir os mais amplos temas da sociedade: pobreza, doença, vícios e todas as formas de abuso. O ministério de Jesus, do reino de Deus, implicou cura e exorcismo, a salvação da pessoa inteira. Não podemos nós encontrar uma aplicação para nosso ministério também, assim que o evangelho do reino que proclamamos possa ser acompanhado pelo desejo de trazer conforto àqueles que sofrem os efeitos da morte e do pecado? Fiquei sabendo que o comitê11 que está trabalhando no novo hinário discutiu a possibilidade de uma liturgia para um culto de cura. Isto é boa teologia; um dia Cristo voltará e curará todas as nossas doenças para sempre. Talvez, em graciosa resposta às orações de Seu povo, Ele dará uma antecipação daquela cura agora na presente era má. Restabelecer a verdadeira esperança bíblica também significará um renovado comprometimento com a missão da igreja. Pois viver na esperança significa que entendemos não primariamente “onde” estamos vivendo – “aqui em baixo”, como oposto a “lá em cima”. Antes, a esperança bíblica nos ensina “quando” estamos vivendo, no tempo “agora”, durante a sobreposição das duas eras, após a vitória
11 A referência é feita ao Hino 191 no Hinário Lutheran Worship (número 463 no Lutheran Hymnal). Algumas estrofes estão traduzidas no Hinário Luterano, no hino 297.

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escatológica de nosso Senhor na ressurreição e antes de seu retorno final em glória. Durante este tempo ele nos deu algo para fazer: “Fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. E nesta missão ele está conosco sempre – até a consumação do século.

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A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA E O CULTO1

A pregação evangelística tem sofrido do abuso verbal. Desde os tempos antigos até a modernidade da TV, a pregação evangelística tem sido definida fora da Bíblia e fora da igreja. Usando as palavras do Evangelho, mas não o espírito, muitos evangelistas abusam do Evangelho. Será que isto destruiu a base bíblica para pregar o Evangelho? Toda pregação deveria ser evangelística? Ou somente para pregadores especiais e ocasiões especiais? Colocando o termo evangelístico como um termo genérico, a pregação garante aos ouvintes dois importantes aspectos que este artigo visa atingir: 1º.: O poder para alcançar a meta do sermão procede do Evangelho de Jesus Cristo; 2º.: Um sermão evangelístico é dirigido para pessoas e situações específicas.

PONTO NÚMERO 1
Pregar é proclamar uma mensagem. Nós sabemos que o centro da mensagem é sobre Jesus Cristo. Mas nós também devemos proclamar todo o desígnio de Deus: a glória da criação de Deus e nossa responsabilidade como parte dela; aspectos morais e sociais com os quais nós nos defrontamos; missões; mordomia; culto; comunhão; e outros. Por causa de nossa responsabilidade em pregar sobre esse tão variado leque de temas, nós algumas vezes esquecemos a

1 “Evangelistic Preaching and the Sunday Service”. O primeiro artigo de uma série de seis, sobre Pregação Evangelística. Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 1/Part 3, May 26, 1991 – September 1, 1991. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House. Used with permission. All Rights Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, professor de Missiologia no Seminário Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas.

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IGREJA LUTERANA

mensagem principal, ou fazemos dela um subtema no sermão. A crítica mais comum aos sermões dos congregados e de outros pastores é: “não tinha Evangelho”. Em outras palavras, não evangelizou. Pregação evangelística sempre proclama o Evangelho. Em uso popular hoje, pregação evangelística muitas vezes significa pregar somente para descrentes com o propósito de conversão. Contudo, esta definição não procede da Bíblia ou da igreja histórica. No Antigo Testamento, as palavras no original podem significar “evangelista”, “evangelizar”, e “boas novas e evangelho”, respectivamente (Sl 40.9, Is 40.9, 41.27, 52.7, 61.1, 2 Rs 7.9). O Novo Testamento contém somente três referências à palavra evangelista (At 21.8; Ef 4.11; 2 Tm 4.5). A palavra euvaggelisth/j é formada da palavra euvagge,lion “Evangelho” com o final, thj, o que denota alguém que proclama o Evangelho. O Novo Testamento muitas vezes usa o verbo euvaggeli,zw “evangelizar, proclamar as boas novas”. Jesus lista evangelizar como parte de sua obra própria (Lc 4.18, citando Is 61.1-2). Jesus também treinou seus discípulos para evangelizar (Lc 9.6). Paulo freqüentemente classifica o evangelismo como um dos seus deveres (como em Rm 1.15, 15.20, 1 Co 1.17, Gl 4.13). Pedro diz que um profeta também evangeliza (1 Pe 1.12). Os livros do Novo Testamento, as ferramentas para o evangelismo, são dirigidos a indivíduos e a grupos de cristãos. As passagens da Escritura onde estão essas palavras ocorrem, indicam que a pregação evangelística está relacionada com todo o conselho de Deus, não apenas conversão. Ela oferece o poder de Cristo para alcançar o objetivo do sermão nas vidas dos ouvintes. A pregação evangelística protege os sermões sobre aspectos morais e de comprometimento, de se tornarem legalistas, e os sermões doutrinários se tornarem somente intelectuais ou filosóficos. Pregadores evangelísticos dependem da autoridade do Evangelho para alcançar os objetivos de seus sermões.

PONTO NÚMERO 2
Adicionar a palavra evangelístico aos sermões ajuda a lembrar o pastor a dirigir o sermão a pessoas e situações específicas. Simplesmente pregar pode ser um tiro no ar, ou no escuro; evangelizar é atirar no alvo. Não basta apenas pregar. Nós pregamos alguma coisa para alguém. Pregação evangelística é dar o Evangelho de Jesus Cristo, a pessoas de acordo com suas reais necessidades. O pastor de uma congregação é o melhor evangelista para os membros de sua igreja e os cultos são as melhores oportunidades.
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A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA E O CULTO

Muitos pastores já pregaram evangelisticamente a maior parte de seu tempo. Mas todos os que pregam devem freqüentemente reavaliar, moldar e expandir a preparação e a proclamação do sermão.

QUATRO

CARACTERÍSTICAS DE SERMÕES EVANGELÍSTICOS

1. As necessidades dos ouvintes: Pregar para as necessidades reais das pessoas é uma necessidade básica da pregação evangelística, porque isto coloca o poder do Evangelho onde ele é preciso. Pessoas têm uma variedade de necessidades e o Evangelho é aplicável a todas. Os pastores na congregação têm uma grande vantagem nesse aspecto, pois eles conhecem seu povo e suas necessidades específicas. Uma pesquisa feita por uma revista americana perguntou aos congregados sobre o que esperavam de seus pastores. Uma freqüente resposta foi de que eles queriam pastores que os conhecessem. Sermões eloqüentes e profundos podem ser vistos na TV, mas só seus pastores poderiam falar com eles. Do púlpito pastores podem mostrar que eles entendem e se preocupam com seu povo. O Evangelho oferece perdão para o que está errado e aceitação para o que é diferente. O teste real da habilidade para ensinar uma doutrina é aplicá-la para uma específica situação. Teólogos estão preocupados principalmente com a doutrina da igreja. Pastores estão preocupados principalmente com a aplicação desta doutrina na vida do seu povo. A idéia não é mudar a doutrina para que esta se encaixe às pessoas, mas deixar que as verdadeiras necessidades das pessoas determinem a agenda da pregação, confiantes de que o Evangelho suprirá essas necessidades. O uso dos textos da trienal fornece uma dieta bem balanceada da Palavra de Deus e a oportunidade para falar sobre uma grande porção das necessidades humanas. Em muitos casos, a relação entre pastores e membros é estabelecida pouco a pouco, quando eles participam de batismos, confirmações, doenças, morte, e outros acontecimentos na vida. Experiências compartilhadas ajudam os pastores a serem mais sensíveis às necessidades das pessoas. E sermões que mostram amor e preocupação pelas pessoas farão com que elas falem com seus pastores. Pregação não é um monólogo proporcionado pelo pastor para as pessoas, mas é parte de um diálogo que continua nas reuniões, nas sessões de aconselhamento e em outros lugares onde pessoas compartilham suas vidas. 2. Um sentido de urgência: Um sermão evangelístico tem um sentido de urgência, que procede do Evangelho. Em nossas orações de Advento, nós pedimos para Deus nos animar à vigilância. O perigo é que a Lei muitas vezes impulsiona mais a pastores e membros do que
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IGREJA LUTERANA

o Evangelho. Alguns pregadores parecem estar aborrecidos e por isso pregam condenação e consideram esta atitude parte da pregação evangelística, pois isto chamaria pessoas ao arrependimento. Mas a condenação da Lei não alcança o real alvo do sermão evangelístico. De novo, pastores têm uma vantagem. O sentido de urgência vem do seu conhecimento imediato das pessoas sentadas nos bancos da sua igreja. Eles sabem quem está com dor e por que – e assim eles zelam por elas. Urgência não é criada pelos pregadores, mas pela condição dos ouvintes. Pregadores facilmente podem ter um interesse secundário relacionado à doutrina, liturgia, freqüência aos cultos, mordomia da oferta, questões sociais, etc. Cada um desses itens pode ser importante, mas nenhum deveria estar no centro do sermão – este lugar pertence a Cristo. Aqueles que pregam devem sentir urgência porque sua mensagem é de vital importância para seus ouvintes. O sermão está incluído no culto porque o povo precisa ouvir a mensagem. Nunca se deveria apenas preencher o tempo do culto no púlpito. Se você se sentir vazio ou desmotivado, eu sugiro o seguinte: Vai e faz visitas a membros, a pessoas inválidas e no hospital; converse com eles sobre sua vida familiar, sobre eventuais vícios, seu trabalho, suas dificuldades. Leia a Sagrada Escritura e veja como Deus deseja ajudar cada uma dessas pessoas através de você. Vá ao púlpito confiante que você tem a última resposta para os problemas que seus ouvintes têm e que eles querem e precisam ouvir. 3. Uma resposta: Um sermão evangelístico exige uma resposta dos seus ouvintes, não apenas alguma coisa para pensar. O sermão contém o poder para mudar a vida dos ouvintes e eles devem responder. De novo, o perigo é que a Lei possa ser usada para exigir essa resposta. O poder para mudar vem do Evangelho, o qual habilita os descrentes a crer e os crentes a servir. O pregador também deve evitar outras duas armadilhas: Se a direção ou o pedido por uma resposta é muito vago, então os ouvintes não saberão o que fazer. Por outro lado, se o sermão é específico demais (“se você crê em Jesus, levante sua mão”), isto se torna uma resposta automática ou treinada e com muito pouco valor. A beleza da pregação evangelística é o poder do Espírito capacitando os ouvintes a crer e a servir a Cristo. Mas o Evangelho é resistível. Os ouvintes podem dizer não. Isto não é um não ao pregador, uma vez que o Evangelho é bem apresentado. Isto é um não a Cristo ou à ajuda que ele oferece. Muitas pessoas disseram não a Jesus durante seu ministério, incluindo pessoas da sua própria família. Mas a mensagem não se perdeu, nem o esforço dos que hoje
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A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA E O CULTO

pregam o Evangelho é em vão. Aqueles que dizem não agora podem mudar no futuro. O Espírito Santo faz essa parte da obra. Alguns irão simplesmente ignorar a resposta ao Evangelho. De novo, isto não significa ignorar aquele que prega, mas o próprio Cristo. Muita gente quer depender de suas próprias habilidades e hesitarão em se sujeitar a um poder fora deles. O próprio culto oferece muitas oportunidades para responder ao convite do Evangelho. A confissão de fé nos Credos, as orações, os hinos, as ofertas, e especialmente a Santa Ceia. Todas apresentam aos presentes no culto a chance de responder sim ao Evangelho. Ao aceitar o convite no culto, os ouvintes são habilitados a continuarem respondendo ao amor de Cristo durante toda a sua vida. 4. Autoridade: A quarta qualidade dos sermões evangelísticos é a autoridade. As pessoas que ouviram Jesus falar sabiam que ele era diferente, “porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7.29). É necessário tanto para aquele que prega, bem como àquele que ouve, reconhecer a fonte desta autoridade. Pastores têm autoridade por causa de sua posição e pessoa. Eles são líderes, e líderes têm poder. A igreja tem autoridade – isto pode ser posto em dúvida e atacado, mas ela está lá. A Escritura tem autoridade como a Palavra de Deus. Mas Jesus Cristo é a maior autoridade – “toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), e ele é a fonte da autoridade na Escritura, Igreja e pastores. Quando alguém questiona ou investe contra estas autoridades, aquela pessoa deveria ser referida à autoridade maior. Aqueles que ouvem o sermão precisam ver o Salvador. Debates sobre outras autoridades muitas vezes impedem a vista para muitos verem a autoridade maior. Jesus falou a seus discípulos que os líderes do mundo se agradam em exercer seu poder sobre outros, mas isto não deveria ser assim entre eles (Mt 20.25-26). C ONCLUSÃO Nós estamos cantando um hino antes do sermão. O pastor está preparado para pregar. O sermão fará diferença na vida das pessoas? Será que o pastor se dá conta que suas palavras são importantes, necessárias e poderosas para operar mudanças na vida das pessoas? O poder de Deus estará em ação no culto? Com a pregação evangelística, a resposta é um enfático sim!

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IGREJA LUTERANA

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CONVERSÃO1

Às vezes a pregação evangelística é vista como tendo um alvo: salvar almas. Por esta definição, a função do evangelista é converter descrentes – promover a entrada de ovelhas no rebanho. Então o pastor passa a ser o cuidador desse rebanho. Contudo, essa definição parece não levar em consideração que o Evangelho não somente salva almas, ele também é o poder que mantém crentes em Cristo e os ajuda em suas vidas diárias. Mas pastores também têm contato com pessoas que ainda não crêem em Cristo. Ao expandir a definição de pregação evangelística, incluindo todas as áreas da vida cristã, não podemos esquecer o primeiro passo da evangelização: a conversão de descrentes. Sem conversão nenhum dos outros usos da pregação evangelística seria possível. Um sermão dirigido para converter o descrente pode parecer mais apropriado para programas de rádio ou TV, ou em ocasiões especiais que buscam alcançar os que estão sem igreja. Alguns podem pensar que não há necessidade de pregar conversão para aqueles que freqüentam os cultos semanais. Obviamente, converter os convertidos faria deles descrentes outra vez. Contudo, quando os pregadores negligenciam o conceito de pregação evangelística para conversão, eles também ignoram como a pregação evangelística se aplica a outras áreas da vida congregacional. Muitos pastores pregam seus primeiros sermões para colegas de turma e professores e se tornam ansiosos para satisfazer aquela audiência. Você fica mais tenso em pregar numa conferência de pastores ou na sua congregação? Agora o reverso dessa situação. Você já teve uma chance de pregar para descrentes? Talvez poucos tiveram essa chance. Você tem alguma preocupação especial quando sabe que há um visitante na igreja que ainda não crê em Cristo?
“Evangelistic Preaching for Conversion”. O segundo artigo de uma série de seis, sobre Pregação Evangelística. Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 1/Part 4, September 8, 1991 – November 24, 1991. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House. Used with permission. All Rights Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, professor de Missiologia no Seminário Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas.
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PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CONVERSÃO

Ao avaliar como meus próprios conceitos de pregação têm mudado e ao assistir outros, especialmente aqueles que convivem comigo, eu descobri uma verdade simples. Os pregadores que trabalham bastante para convidar pessoas para a igreja irão pregar o Evangelho de maneira mais clara, com um maior sentido de urgência, e com maior convicção do que aquelas pregações que são dirigidas somente para membros. Aquele que é um evangelista durante a semana, será também no púlpito – e vice-versa. Por isso precisamos de duas coisas: Primeiro, definir pregação evangelística para conversão, depois sobre sua necessidade nos cultos.

O PODER PARA CONVERTER
A atividade salvadora de Deus não parou no ano de 33 D.C., quando Cristo ressuscitou dos mortos. Cristo completou nossa salvação (Hb 7.27), e os benefícios da sua obra salvadora são apropriados hoje através da fé, criada pelo Espírito Santo. Deus permanece o poder de salvação. O mesmo Deus é o poder para a criação, ressurreição e conversão. Se às histórias bíblicas fossem dadas títulos de filmes atuais, o primeiro capítulo de Gênesis poderia ser “Criação 1” e a conversão seria “Criação 2”. No “Criação 1”, as trevas não ouviram Deus dizer: “Haja luz,” e elas lhe obedeceram. Antes, o poder veio da Palavra de Deus. Porque Deus disse que haveria luz, então houve luz. No “Criação 2”, Deus também fala, para o descrente. O descrente não obedece à Palavra mais do que as trevas fizeram. Ao invés disso, a Palavra de Deus tem poder para capacitar o descrente a crer. O Novo Testamento chama a ação do “Criação 2” como um renascimento, ser nascido de novo, regeneração, e outras frases que indicam o começo de uma nova vida para uma pessoa que já tem vida. Por exemplo: “Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 3.4-5). É importante notar como o “salvar” é usado duas vezes. Primeiro Cristo nos salvou, por sua morte e ressurreição. Ao nos lavar, o Espírito Santo nos salvou e trouxe a nós, e nós para, a salvação de Cristo, dandonos um novo nascimento e uma nova vida. Deus sempre faz o ato salvador. Frases que começam com “eu sou salvo porque eu...” ou “você é salvo se você...”, podem causar problemas teológicos. Os seres humanos não são os sujeitos do verbo salvar, mas os objetos de salvação. Jesus falou para Nicodemos que ele deveria nascer de novo. Ele
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IGREJA LUTERANA

respondeu do seu entendimento de “Criação 1”. “Como pode um homem nascer de novo sendo velho?” Certamente ele não pode entrar pela segunda vez no útero de sua mãe para nascer de novo (Jo 3.4). Nota-se que ele elimina uma re-exibição do “Criação 1”. Jesus então descreve um novo jeito de nascer de novo: da água e do Espírito (Jo 3.5). Ao usar um novo nascimento como um jeito de descrever a bênção do batismo, Jesus de novo mostra que nós não começamos, não cooperamos e não temos crédito para nosso novo nascimento. No “Criação 1”, Adão e Eva não planejaram nem consentiram com sua criação. Nem nós concordamos com o nosso nascimento. Nós todos descobrimos que nos foi dado o primeiro nascimento, depois de ter acontecido. Assim também é presente da conversão. “Criação 2” é ato de Deus. Um sermão evangelístico não diz para as pessoas nascerem de novo. Você não lhes fala para elas se regenerarem. Ao invés disso, você lhes dá o amor que causa seu nascimento espiritual – que é o Evangelho de Cristo. Você também direciona a mensagem para os que crêem, a fim de que eles a compartilhem com os descrentes. Um sermão é evangelístico não só porque oferece o perdão de Cristo como um dom gratuito da graça, mas também porque oferece a fé que recebe o presente como um ato da graça de Deus.

JESUS – CAMINHO

DE

DEUS PARA NOSSA SALVAÇÃO

Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus oferece a si mesmo não como um caminho para a salvação, mas como o caminho. Muitos rejeitam o Cristianismo intelectualmente por causa deste conceito do “único caminho”. O pregador evangelístico deve apresentar a Cristo como a mais completa e clara mensagem já pronunciada para o mundo. Todo o mundo sofre do pecado e de sua conseqüência, a morte. Nós temos uma necessidade clara. Somente Cristo pode lidar com estas duas questões em nosso lugar. Alguns podem ensinar grandes lições morais. Outros podem oferecer grandes idéias intelectuais, pessoais ou de amor. Mas somente Jesus pôde oferecer-se a si mesmo como um santo sacrifício para pagar pelo pecado e sua pena, a morte. Ele sozinho morreu e ressuscitou para nunca mais morrer, com a promessa que isto ocorrerá conosco também. O fato de que Jesus é o único caminho, é uma verdade muito mais inclusiva do que exclusiva, porque Ele trata com a necessidade que todos nós temos, e sua salvação está disponível para todos nós nos mesmos termos, um presente gratuito da Graça de Deus. Sobre as palavras de Jesus em Mt 7.13, nós fazemos a estrada
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PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CONVERSÃO

larga quando tentamos adicionar outras pistas: “A criança é nova demais para ter cometido pecado”. “Ela foi uma pessoa boa e sempre ajudou a todos”. “O mais importante foi que ela cumpriu a lei do amor”. “Eles nunca tiveram uma chance, porque nunca ouviram o Evangelho”. A cada instante procura se oferecer um outro modo de salvação, uma outra pista para trafegar, diferente do único caminho que é Cristo. Isto faz o caminho largo, mas vai para o inferno. O caminho estreito é o das Boas Novas, porque isto significa que você não precisa construir seu próprio caminho. Cristo o construiu.

O QUE FAZER?
Paulo nos fala o que fazer em Rm 10.17. Nossa tarefa é pregar a mensagem às pessoas conforme suas necessidades. Nós não podemos explicar porque alguns crerão e outros não. Mas nós sabemos que Deus quer salvar a todas as pessoas. Os pastores têm a melhor oportunidade para pregar sermões evangelísticos para conversão, porque eles podem entregar a mensagem junto com seu amor e preocupação, num pacote só. Eles também trabalham com uma congregação que manifesta tanto a mensagem como o amor através de outras atividades na igreja, em seus lares, em seu trabalho e lazer. Assim como quando Cristo veio à terra, a mensagem ainda é conduzida através de seres humanos. Mesmo que a decisão e a ação de salvar vem de Deus, o Evangelho não pode ser apresentado num jeito passivo e impessoal. Isto demanda uma resposta. Assim como isto vem de Deus, a resposta deve ser para Deus. Aqueles que pregam evangelismo para conversão precisam estar especialmente preocupados sobre a resposta dos seus convites. É fácil simplificar o alvo. Se um pastor mede seu sucesso pelo número de pessoas que vem à frente durante um culto, então os números facilmente podem se tornar em meta. Se o alvo é convidar as pessoas para uma aula ou para serem membros da igreja, estas podem se tornar metas. O objetivo de um sermão evangelístico para conversão é proclamar a mensagem que estabelece um contínuo e crescente relacionamento entre Deus e as pessoas. Poderia, ou deveria, isto ser feito nos cultos normais da congregação?

CONVERSÃO

COMO CELEBRAÇÃO

Um dos propósitos do culto público é para os cristãos celebrarem em conjunto sua relação com Cristo e com cada irmão na fé. O culto inicia
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IGREJA LUTERANA

com as palavras do Batismo que fizeram parte de nossa conversão: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Quando um texto fala a respeito de conversão, ele ainda tem uma mensagem para aqueles que já são cristãos. Ela é uma mensagem de celebração. Nós regozijamos porque a promessa do texto já foi cumprida. É assim como uma festa de aniversário, quando celebramos uma vida começada anos atrás e que ainda continua. Paulo freqüentemente nos relembra o que éramos e o que seríamos, sem Cristo (Ef 2.1-10). Ele não faz isto para ficarmos presos ao passado. Ele sabe que de todas as pessoas o passado foi perdoado e apagado da mente de Deus. Ele nos lembra do passado para que vejamos a mudança que Cristo operou em nossas vidas. Além do que tem mais por vir. O mesmo Jesus que nos salvou ainda está conosco. Seu poder continuará trazendo mudanças para as nossas vidas. A mesma mensagem de conversão pode ser apresentada tanto para crentes como para descrentes. A resposta do cristão é louvar a Deus e crescer em sua fé. Para o descrente a resposta é crer.

O CONVERTIDO E A CONVERSÃO
Há sempre um perigo de pensar que a tarefa do pastor é pregar e do restante dos membros é ouvir. Esse modelo significaria que a tarefa está no fim quando o “Amém” é dito. Mas Tiago tem uma outra palavra para isto (Tg 1.22). Nenhum cristão é criado para ser o produto final da sua conversão espiritual. Cada convertido é um mensageiro de conversão para outros. O pastor que prega do púlpito um sermão evangelístico para conversão, equipa o povo com uma mensagem que será dada ao mundo em que ele vive.

O DESCRENTE NO BANCO DA IGREJA
É possível que alguns que freqüentam os cultos de domingo não sejam convertidos. Alguns dizem que vão à igreja por vários anos, mas sem fé e às vezes sem um conhecimento básico sobre a identidade e atividade de Jesus Cristo. Outros que freqüentam a igreja por vários anos irão dizer que eles nunca ouviram o Evangelho. Tais declarações podem ser como um ataque contra a qualidade das pregações na igreja. Mas isto não significa que o Evangelho não foi pregado – somente ele não foi ouvido. Pastores têm que estar certos de que o Evangelho é pregado em cada culto. Alguns membros vêm com tantas outras preocupações que
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PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CONVERSÃO

não ouvirão o Evangelho. Outros podem construir defesas que impedem o Evangelho de chegar a seus corações. Na parábola do semeador (Mt 13), o semeador tem semente à vontade. Ele não semeou semente por semente no melhor solo. Mas pastores precisam saber que o solo duro pelo caminho pode ser cultivado. As ervas daninhas e as pedras podem ser removidas. Por isso que é necessária a pregação evangelística. Aqueles que freqüentam a igreja precisam ter renovadas as suas conversões. Eles precisam reencontrar a alegria de dizer sim para Deus.

OS VISITANTES NO CULTO
A congregação que tem visitantes a cada culto provavelmente é mais evangelística. Cada desconhecido é um desafio tanto para os membros como para o pastor. Ele pode já ter sido um cristão. Esta pode ser uma chance de ouvir a mensagem de Cristo do púlpito e sentir o amor de Cristo dos que já são membros. Há muitas razões para descrentes freqüentarem a igreja. Eles precisam estar lá por causa da família, amigos, casamento, funerais, batismos e confirmações. É o caso do Natal e da Páscoa. Alguns vão à igreja porque é lugar para ouvir boa música, ou para raciocínios intelectuais sobre um sermão. Alguns vão para agradar outros, especialmente o cônjuge ou parentes. O ponto é que nós não estamos na posição de julgar por que as pessoas estão lá. Jesus nos falou para ir para o mundo inteiro e pregar o Evangelho para todas as pessoas. Estas pessoas estão vindo até nós, elas precisam ouvir o Evangelho.

COMEÇANDO
Se um pastor pregar para descrentes, o propósito do sermão seria para a conversão. A linha seria “crê no Senhor Jesus e serás salvo”. Diante de uma congregação cristã, o pastor supõe que ele está falando para cristãos. Então a mensagem de conversão é antes o começo do que o fim do sermão. O ato de conversão de Deus fez de muitos indivíduos um grupo, dentro de um corpo. Nós identificamos este corpo e nos alegramos no presente que nos deu – e nós o compartilhamos com os outros.

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IGREJA LUTERANA
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

QUEDA

E

ALIANÇA

1º Domingo de Advento Gênesis 2.15-17; 3.1-15

Introdução Advento é um período de expectativa, antecipação e de preparação espiritual para a vinda de Jesus Cristo (no Natal, hoje na sua palavra e sacramento, e no último dia). O texto de Gênesis indica tanto a razão por que necessitamos da vinda do Salvador bem como anuncia a promessa divina de sua vinda e da obra que realizará por nós. A ênfase do texto e, portanto, do sermão, está na misericórdia (inesperada, surpreendente) de Deus. O texto e sua aplicação 2.15. Cultivar e guardar o jardim do Éden seria uma tarefa prazerosa, não cansativa, realizada num lugar cheio de beleza, paz e tranqüilidade. 2.16. Adão tem uma quantidade e diversidade enorme de frutas à disposição para seu alimento e deleite. 2.17. Adão foi criado num estado de inocência infantil. Tinha também um corpo natural (1 Co 15. 44-45). Deus colocou uma prova diante dele. Ele não deveria comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. No entender de Stöckhardt, se Adão tivesse sido aprovado nesse exame divino, se ele tivesse obedecido ao mandamento de Deus, então ele teria ingressado num estado de maturidade ( so wäre er ... in einen Stand männlicher Reife eingetreten). Alimentando-se do fruto da árvore da vida, ele teria, então, sido transportado gradativamente, sem dor e morte, para a vida espiritual, a vida gloriosa. 3.1-4. O diabo inicia sua tentação lançando dúvida sobre a palavra de Deus: É assim que Deus disse?” E depois (v. 4), afirma o contrário do que Deus dissera: “É certo que não morrereis”. Ainda hoje, o diabo procura nos afastar da palavra de Deus. Esse também foi o início do pecado humano: quando o ser humano
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

desviou seus olhos da palavra e do mandamento de Deus. Quando se perde a palavra de vista e ela deixa de estar presente no coração, então perde-se o próprio Deus. 3.5. O que o diabo sugere aqui é que o homem pode obter um julgamento moral autônomo, independente de Deus. Ele não precisa permanecer num status de criatura submissa. Eva, agora, não temia mais a Deus e a sua ameaça. Ela acreditava o que a serpente lhe sugeria: que Deus dera seu mandamento por ciúme e inveja, ou seja, Ele não queria que o ser humano tivesse plena liberdade e fosse igual a Ele. Eva, agora, via a Deus como um tirano. O amor a Deus havia perecido. Essa é a herança que nos advém do pecado de Adão e Eva: não temos temor de Deus no coração, não temos amor a Deus, não temos confiança em Deus. A inclinação do homem natural é inimizade contra Deus (Rm 8.7). 3.6. Depois que Eva se afastou de Deus e de sua palavra, o mau desejo despertou nela. O fruto da árvore proibida parecia ser irresistível. O coração do homem natural continua sendo dominado por toda sorte de maus desejos e concupiscências. O diabo continua sendo o tentador até o fim dos tempos (At 5.3; 13.10; 2 Co 2.11; 4.4; 11.3; Ef 6.11-16; 2 Tm 2.26; 1Pe 5.8; Ap 12.9-12). O mau desejo transforma-se em ação (Tg 1.15). Eva comeu o fruto proibido e deu também ao seu marido e esse também comeu. Quem pecou procura também atrair outros para o pecado e a perdição. 3.7-13. A queda em pecado traz conseqüências imediatas. Adão e Eva percebem que estão nus. Sentem vergonha um do outro. A partir daí, todo o relacionamento do ser humano com seu semelhante foi afetado negativamente. Adão e Eva sentem, também, vergonha e medo de Deus e se escondem dele. O pecado resulta em má consciência e sentimento de culpa diante de Deus. Deus convoca os pecadores para prestação de contas. Adão e Eva tentam se desculpar. Um empurra a culpa sobre o outro e até sobre o próprio Deus. O pecado é produtivo, um pecado gera o outro. 3.15. Os primeiros pecadores estão diante do juízo de Deus – amedrontados, nus, envergonhados e sem capa para cobrir sua nudez física e espiritual. Deus, agora, pronuncia sua sentença. Mas, esta inicia bem diferente do esperado. Ao invés da aplicação imediata da sentença de morte, é oferecida vida e esperança aos pecadores. Eles ouvem uma confortadora palavra de promessa. Aí se percebe o que
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é graça. A graça é atribuída aos que não a merecem [aos injustos] (Lutero, apud Stöckhardt). Resplandece aqui o amor de Deus. O Deus do Antigo Testamento é o mesmo que é revelado em Cristo no Novo Testamento. É o mesmo Deus que se revela como o Pai, o Filho e o Espírito Santo: um só Deus gracioso e amoroso em três pessoas. Sua vontade em relação ao pecador é revelada já aqui: Ele não deseja sua morte, mas que ele seja salvo e viva eternamente. O pecado traz conseqüências para o ser humano. Conseqüências desastrosas e terríveis: toda a miséria, desgraça e mal que vêm acompanhando toda a história da humanidade. Mas, acima e além dessas conseqüências, brilha o sol da graça, do amor e do perdão de Deus. O descendente da mulher esmagará a cabeça da serpente. Ele irá lhe tirar o poder, destruindo o pecado e a morte. Em sua luta vitoriosa, ele mesmo será ferido. Cristo, o descendente da mulher, cumpriu essa promessa. O segundo e último Adão trouxe vida em lugar da morte introduzida pelo primeiro Adão (1 Co 15.22, 45). O Deus-homem derrotou Satanás e triunfou sobre o pecado e a morte. Mas, pagou o alto preço da cruz e da morte para poder nos oferecer Sua vitória. Em Cristo, Deus oferece uma nova possibilidade de vida para todo ser humano. Em meio ao pecado e as misérias deste mundo, podemos esperar por uma vida perfeita no céu. A morte transformou-se, para aquele que crê em Cristo, na passagem para a vida eterna. No dizer de Stöckhardt, ganhamos mais por meio de Cristo do que perdemos por meio de Adão (cf. Rm 5.18-21). Disposição homilética Advento: à sombra de Adão e à luz de Cristo 1. Em Adão, vidas arruinadas 2. Em Cristo, vidas restauradas Fontes ROEHRS, Walter R. e FRANZMANN, Martin H. Concordia SelfStudy Commentary. St. Louis: Concordia Publishing House, 1979. STÖCKHARDT, G. Die Biblische Geschichte des Alten Testaments: Kurze Auslegung der Alttestamentlichen Geschichtsbücher. St. Louis: Concordia Publishing House, 1900. Paulo Wille Buss/São Leopoldo, RS
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A QUEDA

SE

ESTENDE

A

TODOS

2º Domingo de Advento Gênesis 4.1-16

Adquiri um varão com o auxílio de Deus. (1) [...] e o matou (8) O Senhor, porém, lhe disse: Assim, qualquer que matar Caim será vingado sete vezes. (15)

Resumo A oferta de Abel é aceita (Hb) por causa da fé e não por causa da oferta ou da natureza da oferta, nem da qualidade do ofertante. Caim valoriza equivocadamente a si próprio e a sua oferta. Deus não esta avaliando para dar valorização, honra e dignidade, ou desonra e indignidade segundo a percepção dos homens. Isto não está em questão. Caim julga Abel inferior na hierarquia familiar, social e eclesiástica. Caim quer que a sua presença e sua oferta sejam o centro das atenções. Faz-lhe mal perceber o contrário: que o desprezível Abel com a sua não menos desprezível oferta sejam valorizados acima dele. Introdução É enganosa a percepção de que Caim era “do mal” e Abel era “do bem”. Ambos foram o que a igreja de Deus é tal como a vemos no mundo. Ambos serviam a Deus com suas vidas e seus sacrifícios. Trigo e joio, peixes bons e peixes ruins na mesma rede. Lei e Evangelho se aplicam a todos indistintamente. Somente a cegueira e a fé mal orientada podem levar alguém a dizer que não está em condições de dizer se o seu culto pode ou não ser aceito por Deus. Tudo depende de como procuramos servir a Deus e como convivemos com as pessoas que ao nosso lado também dizem servir a Deus. Fazemos comparações, juízos e avaliações pelas quais desclassificamos pessoas que desejam ser acolhidas na graça de Deus? Lutero identifica em Caim não um descrente, mas um crente. Infelizmente, um crente que se arroga a si as bênçãos que recebeu de Deus. A observação é interessante. O erro de Caim então é o de
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todos cuja fé se limita à dimensão vertical da fé e é vista como serviço que se presta a Deus com os olhos unicamente voltados para o alto em permanente êxtase de fé. É a fé que supõe que o cumprimento de preceitos e regras seja em si mesmo algo agradável a Deus, como se Deus pudesse aceitar nosso serviço segundo a nossa avaliação. Caim reflete aquela fé tão “concentrada” em Deus e plenamente realizada em cumprir preceitos. Pessoas, coisas, criaturas são vistas e julgadas pelo que “não são”: “Não são como eu, não são como nós, não se corrigem nem se emendam, merecem o desprezo e até a punição de Deus porque são como não se deve ser”. A verticalização unilateral da “fé” é uma distorção da fé que leva ao desprezo do fraco, do sujeito “em pecado”, do que não se corrige. Conseqüentemente, “graças a Deus que não sou como os demais, especialmente este publicano”. Assim como o fariseu dá como morto e condenado o publicano, assim Caim se julga no direito de levantar o seu juízo sobre Abel e negar-lhe o direito à existência. Abel, o desprezível, é um estorvo na minha relação que “eu” tenho com Deus. Lutero identifica neste texto as duas igrejas, a verdadeira e a falsa. A verdadeira é aquela que tem espaço para acolher e salvar pecadores. É aquela dentro da qual todos assumem a sua natureza pecaminosa e reconhecem que ninguém está salvo e protegido do mal e da tentação, a não ser pela graça e misericórdia de Deus. A outra igreja, a falsa, é aquela em que pessoas se sentem autorizadas a desprezar pecadores, a condenar como hereges quem simplesmente vê Deus oferecendo refúgio aos pecadores por sua exclusiva misericórdia. Lutero refere os reformadores, que insistiam na justificação exclusivamente por fé, e foram condenados pela igreja de Roma. Por que Deus permite que o mal se agigante sobre o crente? Que o mal se abata sobre o pobre Adão e sobre Eva? A resposta de Lutero é a única possível, por mais estranha e difícil de ser assimilada que seja. O ser humano é constituído de tal soberba e arrogância sobre as coisas de Deus que nada menos que o esmagamento de Deus pode tocar o seu coração de pedra. Nada mais resta a Deus do que buscar esmagar essa arrogância e orgulho que o pecado implantou no coração humano. Entretanto, quem é Caim? Caim não pediu para ser o primeiro filho. Lutero entrevê que pelo fato de ser o primeiro, os pais lhe reservaram e assim o preparavam para ter a responsabilidade pelo governo da casa. Abel, como
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guardador de ovelhas, seria simplesmente o que faria os serviços menos nobres. Caim vem ao altar confiando na sua primogenitura, no status que lhe é atribuído, pelo cuidado e pela honra com que se vê cercado. Caim não pode compreender, muito menos aceitar que a oferta de Abel seja aceita e a sua recusada. Finalmente, Lutero afirma que a teologia de Caim é da ausência de piedade com o fraco. Os governos do mundo, no entender de Lutero, e as pessoas na sociedade, ainda demonstram alguma compaixão por alguém que caiu em desgraça. Infelizmente, na igreja, existem pessoas que são duras e insensíveis com a desgraça de outrem. Nisto se reconhece a igreja cainita. Obviamente, Lutero tem em mente a hipocrisia da igreja de seu tempo. A pergunta que esta reflexão de Lutero levanta tem a ver com o modo como congregações e pastores tratam aqueles que caem em pecado e desgraça ainda hoje, neste momento. O problema de Caim não era Abel. O problema de Caim era o próprio Caim. Caim, segundo Lutero, não vivia ele próprio do perdão de Deus. Caim estava, por alguma razão íntima do seu coração, acima do juízo de Deus e acima da lei de Deus. Ele se afirmava como mestre e juiz dos atos e da vida dos que estavam ao seu redor. Com isto, justificavam-se para ele quaisquer conseqüências desta atitude básica. Pois pessoas que se erguem acima do próximo, negam a sua própria condição de pecadores. Com palavras talvez digam que se reconhecem pecadores. Mas a atitude trai e revela o seu íntimo. Esta é a hipocrisia da qual nem o hipócrita consegue, talvez na dureza do próprio coração, tomar conhecimento. Neste sentido deve ser entendido o v. 7: “Se procederas bem, não é certo que serás aceito?” Proceder bem deve ser visto como estar na atitude correta diante de Deus, o que também permite a atitude correta em relação ao próximo. Ora, se somente a fé, a confiança na misericórdia de Deus pode manter alguém diante de Deus, segue-se que nada na pessoa pode agradar a Deus a não ser misericórdia de Deus. Ora, se é misericórdia, segue-se que é pecador quem necessita da misericórdia. Então por que há casos como de Caim, do fariseu no templo e outros, em que as pessoas julgam o próximo? Pessoas como Caim, que estão em posição de destaque diante de outras pessoas, não reconhecem realmente que nada fizeram de si próprias para usufruir tal destaque. Pessoas como Caim, que não caíram em pecado e desgraça, não conseguem admitir que é exclusivamente fruto da graça de Deus o fato de estarem em honra e dignidade diante de si
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próprios e diante do próximo caído, ou menos abençoado. Olham para si próprios como pessoas que devem à sua própria piedade e inteligência o fato de estarem em destaque. Quando Deus entrega Caim a si próprio, fica revelada em Caim a verdade a respeito dele e de toda a natureza humana. Caim, o piedoso Caim, é e sempre foi um pecador da pior espécie como somos todos, segundo a concepção do apóstolo Paulo expressa nas cartas aos Gálatas e aos Romanos, especialmente. Caim não tinha este reconhecimento. Caim é o típico cristão que, não tendo sido atingido por fracassos e quedas “morais”, julga-se melhor do que o próximo que não se apresenta nesta condição. Caim é o típico cristão que ainda hoje não rende graças a Deus por tê-lo livrado do mal e não permitido que caísse nas tentações que outros parecem ter caído ou efetivamente caíram. Ele não reconhece que até ali fora preservado pela graça de Deus. Lutero quer dizer que Abel era aquele que não confiava em si, mas que buscava a misericórdia de Deus para que a graça e a misericórdia de Deus não se afastassem dele. Dentro da analogia da fé, ninguém é aceitável a Deus a não ser que, consciente da sua pecaminosidade, busque refúgio na misericórdia de Deus. Sugestão O socorro está em Deus para todos Para aqueles que pensam que são justos Porque o pecado está em todos Para aqueles que querem ser justos Porque a salvação é para todos.

Paulo P. Weirich/São Leopoldo, RS

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A ALIANÇA RENOVADA
3º Domingo de Advento Gênesis 9.1-17

Contexto Após a queda em pecado, Deus já havia feito uma aliança com Adão e Eva prometendo-lhes o Salvador: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Esta aliança vale para toda a humanidade. Em nosso texto, após o fim do dilúvio, Deus faz mais uma aliança de valor para toda a humanidade: Deus não mais castigaria a humanidade com um dilúvio: o arco-íris estaria aí como um sinal indicado pelo próprio Deus que ele impôs a si mesmo, para lembrarse de não mais castigar a humanidade com este tipo de morte coletiva. E Deus fez esta promessa sem pedir nada em troca da parte de Noé ou de toda a humanidade que viria após ele. O contexto litúrgico que vivemos (3º Domingo no Advento) é, sem dúvida, um momento para relembrarmos a maior aliança que Deus faz conosco: a aliança firmada no sangue do Cordeiro. Quando Noé saiu da arca, ele ofereceu holocaustos de animais ao Senhor. “E o Senhor aspirou o suave cheiro e disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem” (Gn 8.21). Este sacrifício que Noé faz a Deus já é um prenúncio dos sacrifícios do tabernáculo e do templo do Antigo Testamento. Mas este sacrifício vai além: ele aponta para Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Esta é a grande aliança de Deus que engloba todas as demais; é também chamada de “nova aliança”. Texto: meditação prática A aliança que Deus estabelece com Noé mostra a vontade de Deus em querer o bem da humanidade. Deus quer que a terra seja povoada e não deseja a sua destruição. Para tanto, cada um tem a sua vida inteira para arrepender-se e crer no Salvador Jesus. No Antigo Testamento a salvação tinha uma perspectiva de espera; no Novo Testamento a salvação tem uma perspectiva de salvação já realizada. E para as pessoas de ambos os testamentos a vida eterna tem ainda
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uma perspectiva de algo que ainda virá. O fato de Deus não ter destruído tudo por ocasião do dilúvio mostra sua intenção firme de continuar a humanidade e lhe dar a salvação, pois o Salvador ainda teria que assumir a natureza humana e, assim, abrir a possibilidade de vida eterna a todos que cressem nas promessas de Deus. Na aliança com Noé Deus assume o compromisso de não mais destruir a terra com um dilúvio; na aliança que Deus faz em seu Filho Jesus, Deus assume o compromisso de dar a oportunidade de salvação a todos (2 Tm 2.4). Ao vivenciarmos mais um período de Advento, somos lembrados das promessas que Deus tem cumprido ao longo da história da humanidade: Deus não só cumpriu a promessa de não mais enviar um dilúvio que viesse a destruir toda a terra, mas também cumpriu a promessa do envio do Salvador. Durante todo o período do Antigo Testamento Deus renova alianças: com Abraão (Gn 15.12-21), com o povo de Israel (como por ex. em Êx 34.10, Dt 5.1-2, Is 59.21). Nestas alianças já está prefigurada a nova aliança (Jr 31.31-34; Hb 10.1617). O Advento é uma época especial para refletirmos sobre as promessas de Deus. Advento lembra a vinda de Jesus tornando-se homem. Advento lembra a próxima vinda de Jesus para o fim dos tempos e julgamento da humanidade. Advento lembra a vinda de Jesus para o nosso coração. E isto é que vai nos conferir a vida eterna se, em nosso coração, crermos que Jesus é o Salvador, se nele depositarmos toda nossa confiança e certeza de perdão. Possibilidades de uso homilético Deus não tolera o pecado: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a). Mas o “arco-íris” de Deus para a nossa salvação está em Cristo, pois “o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23b). Com nosso batismo fomos revestidos de Cristo de maneira que, com a morte de Cristo, nosso pecado foi sepultado com ele. E, assim como Cristo ressuscitou para uma nova vida, nós também, através de Cristo, vivemos uma nova vida para Deus, afastados do pecado (Rm 6). A devastação da terra através do dilúvio faz-nos lembrar da destruição total deste mundo no dia do Juízo Final. É um dia ao mesmo tempo terrível e bem-aventurado. É terrível para os descrentes assim como foi terrível o dilúvio para aqueles que se desviaram de Deus. No entanto, apesar deste dia terrível, Deus já predisse através
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do profeta Malaquias: “Eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição” (Ml 4.5-6). Proposta de estrutura de sermão DEUS RENOVA SUA ALIANÇA CONOSCO I – Ele estabeleceu sua primeira aliança já no princípio mostrando que ele quer a salvação de todos. II – Ele estabeleceu a aliança com Noé, mostrando que quer o bem da humanidade e não sua destruição. III – Ele promoveu o Advento de seu Filho Jesus para assumir a natureza humana a fim de que no segundo Advento Jesus possa nos encontrar com fé em sua aliança. Raul Blum/São Leopoldo, RS

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SODOMA

E

GOMORRA

4º. Domingo de Advento Gênesis 18.22-33

Introdução O capítulo 18 de Gênesis tem o impressionante relato de três personagens que visitam a Abraão. Mas esta não é uma simples visita. Sendo recebido na aliança com Deus, através da circuncisão (Gn 17.914), Abraão foi honrado com a visita do próprio Senhor (Gn 18.1, 13, 17) e de dois anjos. Esta manifestação do Senhor teve dois propósitos: comunicar Sara da sua participação como mãe, na promessa do filho a Abraão (Gn 18.9-15) e anunciar o julgamento contra Sodoma e Gomorra (Gn 18.16-33). Se, por um lado, as notícias eram boas, pois o Senhor confirma a promessa do filho a Sara, embora velha, por outro lado, Deus revela más notícias a respeito de duas cidades. A extrema iniqüidade nelas é alarmante (Gn 13.13). A dimensão do pecado, nas suas mais variadas manifestações, alcançou níveis tão graves que as cidades passaram a ser conhecidas como modelos da maldade (Is 1.10; 13.19; Jr 23.14; Ez 16.48-50; Am 4.11; Rm 9.29; 2 Pe 2.6; Jd 7; Ap 11.8). Gênesis 18.22-33 A situação parecia mesmo irreversível. Mesmo assim, Abraão, com sinceridade e ousadia, permanece diante do Senhor e intercede pelas duas cidades. Por que Abraão intercedeu tão veementemente? Qual foi sua real motivação? Talvez não tenha sido somente o interesse pela família de seu parente Ló. Senão, ele poderia ter orado especificamente por sua libertação. Lutero escreve que seu amor ardente por tão grandes pecadores foi o que o impulsionou1 . E ainda, Deus se agradou de sua oração fervorosa, pois nela fé e amor são manifestados.2

1 LUTERO, Martinho. Luther’s Works. Jaroslav Pelikan e Hilton C. Oswald, editores. St. Louis, USA: Concordia Publishing House, 1972. Volume 3, p. 232 2 Ibid., p.235

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Com fé e amor, o pai dos crentes apelou para o princípio da justiça do Senhor. Arrancar o justo com o ímpio é irreconciliável para o patriarca. Seu amor por cidades inteiras e a consciência de que sua preservação está submetida à compaixão do Senhor são razões que fazem Abraão orar com ousadia e humildade, persistência e esperança. Ousadia, porque chega a dizer o que Deus deveria fazer (v. 25), humildade, porque ele se coloca no seu lugar, reconhecendo sua fragilidade (v. 27). Persistência, por repetir o pedido por seis vezes (vv. 23, 27, 29, 30, 31, 32) e esperança, porque ele crê que está nas mãos graciosas de Deus e diante do trono do Senhor da misericórdia e cuja ira passa rapidamente (Sl 30.5). Este amor empático e interessado de Abraão, que nasceu de sua fé justificadora (Gn 15.6), impeliu-o a uma intercessão insistente, a uma “santa importunação” como afirma um comentarista3 , ligando a oração com Lucas 11.8. Com a promessa de que Deus não destruiria as cidades se houvesse 10 justos, o Senhor “retirou-se” e Abraão “voltou para o seu lugar”. O posterior julgamento divino sobre as cidades prova que não existiam dez pessoas que temiam ao Senhor. Reflexões homiléticas A conduta de Abraão desafia o habitual clima de silêncio entre os cristãos diante da gradual deterioração da sociedade. Para alguns pastores, o conforto dentro das fronteiras de uma pregação ou atitude mais “light”, que leva a doses “ligth” de lei e que tem como conseqüência um evangelho “ligth”, parece bem mais cômodo do que lembrar e mostrar preocupação com os pecados da moderna Sodoma e Gomorra. Se, por um lado, Abraão não é do tipo “todos os caminhos conduzem a Deus”, fechando os olhos para as violações da lei natural, da lei moral e do sincretismo religioso, por outro lado, sua atitude não é legalista nem de retaliação, mas de preservação e esperança de que haja tempo para arrependimento (2 Pe 3.9). Abraão deve ter sentido repulsa pelos pecados, mas ao invés de se distanciar ou silenciar ou se posicionar de forma moralista, ele se envolve na situação e se coloca diante do Deus misericordioso, para pedir que ele aborte o plano de destruição. O pedido de Abraão revela confiança na misericórdia de Deus e amor por essas pessoas que, possivelmente, como em Nínive, não sabiam
3 KEIL, C.F. e DELITZSCH F. Commentary on the Old Testament. Volume I. Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, p.231.

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“discernir entre a mão direita e a mão esquerda” (Jn 4.11). Deus se revela e confirma a fé de Abraão. Ele é clemente, extremamente paciente, misericordioso e tardio em se irar. Ele quer que todos cheguem ao arrependimento. Deus move a Abraão a ter cada vez mais certeza dessa verdade. Quanto mais ele pede, mais ele fica sabendo do amor de Deus. Enquanto os números dos justos baixam e as chances da preservação das cidades diminuem, o brilho do Evangelho aumenta. Em favor dos eleitos, Deus está disposto a segurar seu juízo. Abraão é exemplo de fidelidade e amor. Porém, ele apenas lembra alguém maior, que também se coloca no caminho da ira de Deus. Jesus Cristo entende a dimensão da justa ira do Pai contra toda a humanidade. Mas ele é a propiciação dos pecados (Rm 3.25), e do mundo inteiro (1 Jo 2.2). Ele intercede (Hb 7.25; 9.24) e é o advogado (1 Jo 2.1), que defende os cristãos e a humanidade inteira da destruição. Jesus Cristo é a expressão do amor de Deus Pai, derramado nos corações dos filhos batizados e que ouvem o Evangelho, pelo Espírito Santo, a eles outorgado (Rm 5.5). E é esse amor que cria corações confiantes no Senhor da misericórdia, compassivos pelo mundo em trevas e dispostos a interceder e pedir: tem misericórdia. “Pois cumpre saibamos que toda a nossa defesa e proteção está unicamente na prece. As preces de algumas pessoas piedosas são muralha de ferro a nosso favor. Não fosse isso, e eles mesmos teriam presenciado um jogo bem diferente: o diabo teria feito perecer a Alemanha inteira em seu próprio sangue. Mas agora podem rir tranqüilamente disso e fazer zombaria; não obstante ficaremos de pé, unicamente pela oração, frente a eles e o diabo, se tão só persistirmos diligentemente e não nos tornarmos indolentes. Pois onde qualquer cristão piedoso roga: ‘Querido Pai, faça-se a tua vontade’, ele responde do alto: ‘Sim, meu filho querido, sem dúvida sucederá assim, a despeito do diabo e do mundo inteiro’”.4 Sugestão de tema e esboço5 Um coração compassivo pela moderna Sodoma I. O coração de Abraão a. pede por Sodoma e Gomorra

4 LUTERO, Martinho. Introdução ao Pai Nosso, Catecismo Maior. Livro de Concórdia. São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal e Concórdia, 1993, p. 461.30-34 (frases selecionadas). 5 Baseado em: MEYER, Dale. Concordia Journal, Julho de 2004, Volume 30, número 3, p. 244.

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II. O coração do cristão do século XXI a. pede em favor da Sodoma moderna ou para que Deus envie fogo dos céus e a destrua? III. Deus revela seu coração a. paciente, mas com limites, para Sodoma e Gomorra b. Seus olhos estão sobre os cristãos fiéis do século XXI IV). Deus revelou seu coração em Jesus Cristo a. Ele intercede pelos cristãos e os faz justos b. Seu Espírito cria corações com fé e amor, que oram em favor de todos.

Anselmo Ernesto Graff/São Leopoldo, RS

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O NASCIMENTO
Natal Gênesis 21.1-7

DE

ISAQUE

Introdução O nascimento de Isaque é o primeiro resultado da aliança que Deus fez com Abraão e seu povo, e é considerado o primeiro passo em direção ao seu objetivo. É o gérmen do desenvolvimento futuro da aliança, e aponta para alguém maior do que Isaque: o filho da promessa do Novo Testamento. É a promessa prática e pessoal de Deus de que a salvação do mundo será cumprida (cf. Jacobus, citador por Lange: Genesis, Grand Rapids, s.d). Deus está levando a história do mundo em direção do seu plano de salvação, que seria solenemente anunciado, no tempo oportuno, pelos anjos de Belém (Lc 2.10-12). A escritura do Antigo Testamento está anunciando e atestando que em acontecimentos aparentemente corriqueiros (embora nem tanto assim, haja vista um casal tão idoso ter seu primeiro filho), Deus está dirigindo seu plano: Ismael andava na providência e proteção de Deus (21.20), e quanto a Isaque e Sara a providência é demonstrada no elo entre o v. 2 a 17.21, e o v. 1 a 18.14. Assim também na circuncisão de Isaque, que ele ordenou, v. 4, e Sara, no v. 6, liga o nome de Isaque (“ele ri”) à providência de Deus, uma vez que todos no mundo, que vivem sob Deus, reconheceriam Isaque como um menino dado de maneira milagrosa, provocando risos e alegria (cf. Lange), exemplificado milênios depois no coral quase dançante, que reúne como que “risos e alegria” de vozes e instrumentos, do “For unto us a Child is Born”, do “Messias” de G. F. Haendel, referindo-se a este outro menino que “nos nasceu”, este filho que “se nos deu” de maneira milagrosa, para nossa salvação (Is. 9.6). Texto Já no primeiro versículo começa o paralelo e a tipologia com a promessa neotestamentária: “o Senhor abençoou Sara”, literalmente o Senhor “visitou” (LXX) Sara (epesképsato). Zacarias, rindo de alegria, cantou, e em seu canto ele usa duas vezes este verbo! (Lc 1.68-78). A conexão entre Isaque e Jesus está feita. Promessa e cumprimento. Tipo e antitipo. Pense também na conexão entre o canto de alegria
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da virgem Maria e a exclamação de riso, alegria e gratidão de Sara! Veja também: Gn 17.17-19; Lc 2.21; Jo 8.56; Lc 1.44-47. “Visitar”, com o propósito de ajudar, de salvar – ou também de punir – marca as grandes ações divinas entre os homens, a idéia percorre o Antigo Testamento (cf. 1.24; Êx 3.16). A gravidez de Sara deve-se, com certeza, à união de Abraão e Sara, mas em última análise é fruto da fé. Fé na promessa divina. É fruto santificado desta fé. “Como havia dito”, “mandado”, 18.14; 17.21; 17.12. O nome de Isaque lhe fora dado de antemão: 17.19. O motivo deste nome é a risada de Abraão, cap. 17, que ecoa mais fortemente na risada de Sara, cap. 18, e na risada do povo por causa deste nascimento inusitado, da qual Sara fala depois. O motivo de todas estas risadas aqui é, manifestamente, o caráter excepcional desta gravidez e este nascimento aparentemente “incrível”! Mas a primeira risada de Sara, de incredulidade, transforma-se em riso de alegria. “Quem diria?” diz Sara. Assim Deus age, contra expectativas humanas, e vai escrevendo sua história de amor e salvação, de promessa em promessa. Também após uma longa espera, aparecerá o Messias, “quem diria”? Bem, Deus disse. E a grande lição aqui me parece que podemos rir de alegria, em nossa história, quando prestamos atenção na promessa de Deus e confiamos nela. De “faceirice” pelo menino ter nascido, e, crescendo, “desmamado”, o paizão “dá uma grande festa” (o v. 8, que não faz parte da perícope, mas vale citar). O Natal é motivo para rirmos e nos alegrarmos com o menino que nos nasceu, e o festejarmos, em antecipação à festa escatológica, em nossas famílias, círculos de amigos, e com os irmãos na comunidade. É uma festa “de grande alegria”, cf. Lc 2.10-12. Teologicamente podemos destilar os seguintes pontos principais do texto: temos aqui várias tipologias que interligam diretamente a história de Abraão, Sara e Isaque, ao evento da encarnação do filho de Deus, comemorado no Natal. A visitação de Sara é um tipo da de Maria. A ambas acontece uma visitação que significa o recebimento de uma maravilhosa graça pessoal, à qual está ligada uma incomensurável salvação geral do gênero humano! E nas suas vidas tão diferentes se espelha o que Deus também faz acontecer em nossa vida: a visitação de Deus a Sara acontece depois de uma longa espera. Também em nossa vida longas esperas podem ser recompensadas com aquilo que esperamos, ou algo melhor. E com Maria acontece de forma inesperada, como também em nossa vida pode ocorrer um evento ou bênção inesperados. Todos eles se enquadram na orientação salvífica de Deus em nossa história que começou com Sara e Isaque e
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culminou em Maria e Jesus para o nosso sumo bem! Também teologicamente tem de se ver aqui a valorização e louvor da mulher, do feminino, da esposa, da mãe, no Reino de Deus e na economia da salvação! Ambas se sujeitam ao seu destino e à orientação de Deus em suas vidas, e levam seus filhos, os filhos da promessa. Lutero fundamenta uma nova compreensão teológica sobre a dignidade e posição da mulher – contrastando com a posição medieval – na gravidez de Maria e no nascimento do filho de Deus da virgem Maria. Esta honra cabe a Sara, como parte da promessa, e a Maria, e como modelo aos fiéis hoje. A alegria, a festa que Abraão dá, as risadas declaradas no nome do menino, no cântico de Sara, mostram: no fim é o crente quem ri. O Senhor revela o fundamento desta alegria em João 8.56. Sara, mãe de Isaque, torna-se mãe de Israel, e em certo sentido também mãe de Jesus Cristo, que descende de Isaque, e em quem Abraão é uma bênção para todas as nações. Este evento aqui, então, espiritualmente falando, torna-se a porta de entrada do dia de Cristo, do dia de Natal! (cf. Delitzsch, Lange, op.cit.). Pensamentos homiléticos Lutero disse: “Moisés usa suas palavras em abundância, repete suas palavras, a fim de trazer diante de nossos olhos a imensa alegria do patriarca. Esta alegria ainda seria intensificada. Se é que foi o Filho de Deus em forma humana que apareceu a Sara na sexta semana, desejando-lhe alegria com seu filhinho (cap. 18.10).” Disposição para homilia: Tema: O nascimento de Isaque: um anúncio do nascimento de Jesus Cristo 1. Ambos foram anunciados com antecedência 2. Ambos ocorrem no tempo determinado por Deus 3. Ambos os meninos receberam seu nome antes de nascer 4. Ambos foram concebidos de maneira milagrosa e supreendente 5. Ambos os nascimentos causaram grande alegria 6. A lei da circuncisão inicia com Isaque e termina com Jesus (cf. Rambach, citado por Lange). Manfred Zeuch/Edmonton, Canadá
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DEUS PROVA
Ano Novo Gênesis 22.1-18

A

CONFIANÇA

DE

ABRAÃO

Apontamentos exegéticos (gramaticais e lógicos) Vv. 1-2: Deus testa Abraão e não o tenta (Tg 1.13). Satanás tenta o ser humano para que este caia (1 Co 7.5). O teste de Deus é para fortalecer a fé (Êx 20.20) e para solidificar a fidelidade em suas promessas (Dt 8.2). É isso que acontece aqui com Abraão: a promessa de Deus precisa continuar de pé e esta promessa faz parte da vida de Abraão. O teste: o próprio filho de Abraão será usado para o teste e que irá mostrar a Abraão que Deus se mantém fiel à sua promessa. O que está em jogo não é Abraão, mas sim a própria promessa de Deus e Seu interesse para com a humanidade pecadora. O que irá acontecer com Abraão e seu filho é apenas didático: Deus irá mostrar a eles o quanto são amados e estão solidificados naquilo que Ele lhes propõe. Dentre os seus atributos de Sua natureza divina, Deus com Seu conhecimento e amor testa a todos os cristãos para que estes permaneçam e vivam as promessas. O Monte Moriá e o sacrifício do filho são sinais de coisas que virão, pois apontam para aquilo que o Pai celeste faz: envia seu único Filho para morrer pela humanidade. O Monte Moriá, local dos futuros sacrifícios no templo de Salomão (2 Cr 3.1), que também são sinais da obra vicária de Cristo. Vv. 3-14: A “aula de teologia” é bem prática: os alunos estão diretamente envolvidos. Abraão e seu filho aprendem que fazer teologia é um habitus practicus. Deus está diretamente envolvido com a realidade de seu povo. Ao colocar em prática o pedido de Deus, Abraão aprende não só sobre a Cruz que Deus tem a carregar ao entregar seu Filho à morte, mas na sua própria dimensão existencial, Abraão percebe o que esta cruz significa. No relato dos fatos, precisamos estar atentos à relação pai-filho. O que o pai pede o filho executa. Assim como Abraão faz o que Deus pede, da mesma forma Isaque o faz. Na perspectiva do cumprimento do Novo Testamento, Cristo, o Filho, fez o que o Pai pediu: redimiu a humanidade do pecado. Há outro ingrediente importante neste texto:
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Abraão passa no teste. No v. 12 o Anjo do Senhor, Cristo, afirma que Abraão aprendeu a lição: ele creu na palavra do Senhor. Num primeiro momento, o pedido de Deus pode ser um pedido muito próximo de qualquer culto cananeu da época, que requeria o sacrifício humano. Mas, não foi essa a aula que Deus quis ensinar a Abraão. Deus ensinou a Abraão a necessidade de um sacrifício vicário em lugar do ser humano. Enquanto seu próprio Filho não seria sacrificado, os animais substituiriam o sacrifício humano. Prolepticamente, Abraão conheceu a fundo a palavra do Senhor que se cumpriu no Monte Gólgota. O sacrifício vicário do Filho de Deus, que já é real para todos nós, é ensinado no sacrifício do animal que Deus dispôs a Abraão. Não é Isaque, mas é o que Deus proverá (v.14). Lutero assim se pronuncia a respeito do teste de Abraão: “Assim como foi dito a Abraão: ‘Agora eu sei que temes Deus’ (Gn 22.12), isto é, eu te fiz reconhecê-lo, como interpreta Agostinho. Não basta somente crer, ter esperança e amar, mas importa também ter consciência e estar certo de que se crê, se tem esperança e se ama. Aquilo acontece às escondidas durante a tempestade, isto após a tempestade. Assim também ensina Pedro (2 Pe 1.10), que nos preocupemos em firmarmos a nossa vocação por meio de boas obras, porquanto uma coisa é ser ou tornar-se bom, e outra é saber-se ser ou ter-se tornado bom. Ora, não é de outro modo que uma pessoa sanguinária e enganadora, que antes era tida por bondosa e inocente, inclusive por ela própria, é reconhecida como sanguinária e enganadora do que quando ela é provocada. Assim, a cruz produz, naqueles que a suportam e passam por provações, uma esperança inabalável até o fim (isto é, ela a inicia e a faz crescer; ela traz a lume e também a torna segura e conhecida). Naqueles, porém, que não a suportam, mas são encontrados réprobos, [ela produz,] imediatamente, desde o início, um desespero incontrolável. [...] É desta esperança que o apóstolo diz, sabiamente, aqui, que ela é produzida pela provação (Rm 5.4). Assim como os filhos amam o seu pai, segundo a carne, com mais ternura após a vara com que foram castigados, assim Cristo, o esposo, agrada a sua esposa por meio de um prazer contrário à carne, a saber, após o abraço; o abraço, na verdade, são a morte dele próprio e o inferno. Aqui, vigora e impera aquele grande mistério: ‘Se unirão os dois em uma carne’ (Gn 2.24], Cristo e a Igreja (Ef 5.32); ele é verdadeiramente grande, porque é muito duro, mas produz os mais doces frutos e a prole totalmente semelhante a Deus, obras inteiramente irrepreensíveis,
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porque assim a videira é limpada, para que traga mais fruto. Se for verdade que todo e qualquer nível de esperança resulta a partir da provação, quanto mais deve-se crer que o apóstolo diga e entenda isso a respeito da perfeita [esperança], a qual nasce de muitas e várias tribulações?!” (LUTERO, Martinho. Trabalho nos Salmos – Salmo 5, in Obras Selecionadas 5,393). Vv. 15-18: A aula termina com o envolvimento total de Abraão e seus descendentes. Lutero assim descreve a continuidade da promessa de Deus na sua interpretação do Antigo Testamento: “É dessa forma, portanto, que devo acolher Moisés e não descartá-lo. Em primeiro lugar, por dar belos exemplos de leis para bom e ordeiro governo do país e do povo em questões exteriores. Em segundo lugar, porque se encontram ali as promessas de Deus que fortalecem e mantêm a fé. Quando Deus diz à serpente, como consta no livro de Gênesis (3.15): ‘Porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a descendência dela; ele esmagará tua cabeça e tu lhe picarás o calcanhar’ – este é o primeiro Evangelho e promessa que ocorreu sobre a terra a respeito de Cristo, no sentido de que ele haveria de suplantar o pecado, a morte e o inferno e salvar-nos do poder da serpente. Nisso Adão creu com todos os seus descendentes, o que fez dele um cristão e o salvou após sua queda. Também Abraão recebeu essa promessa de Deus, como, igualmente, consta no livro de Gênesis (22.18): ‘Por meio de tua descendência todos os povos da terra serão abençoados’. Esta foi a segunda Boa Nova a respeito de Cristo: [o anúncio de que], por meio dele, todas as pessoas seriam abençoadas e salvas, como o interpreta São Paulo aos Gálatas (3.8s.). Igualmente, em Deuteronômio (18.15s.), Moisés diz ao povo de Israel: ‘O Senhor teu Deus despertar-te-á um profeta do meio de ti e dos teus irmãos; a ele obedecereis, conforme suplicaste do Senhor teu Deus no Horebe no dia da assembléia’. E, pouco depois, Moisés coloca as palavras que Deus lhe dirigiu: ‘Dentre os seus irmãos eu lhes despertarei um profeta tal como tu és e porei as minhas palavras em sua boca; ele lhes dirá tudo que lhe ordenarei, e quem não ouvir as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome, desse o cobrarei’ (Dt 18.18s.). Tudo isso se refere a Cristo – que ele haveria de trazer nova pregação para a terra. O Antigo Testamento apresenta muitos desses ditos nos quais os judeus crentes buscaram apoio e que os santos apóstolos citaram e aduziram muitas vezes”. (LUTERO, Martinho. Como lidar com Moisés, in Obras Selecionadas 5, 190).
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Apontamentos homiléticos (retórica) Histórias bíblicas não são apenas ilustrações; elas são a mensagem em si mesma. Nenhum escritor bíblico conta histórias para ilustrar fatos ou verdades; a história é viva e transmite a mensagem. No relato em destaque, cabe usar alguns aspectos importantes que enfatizam aspectos homiléticos perenes (que valem para nós hoje). Abraão, no relato de Gênesis, é alguém como nós que tende a resolver as coisas por si só. O relato da espera do filho mostra como ele foi influenciado por Sara, sua esposa, e tentou buscar caminhos próprios. Na leitura em destaque, Abraão novamente precisa perceber que Deus está no controle de Suas promessas. O que Deus fala, vale. A performance de Deus se dá no tempo apropriado. Abraão precisou aprender que Deus já estava agindo em função de sua promessa e ele se tornou personagem importante dentro desta promessa. Precisamos perceber isso: “Deus proverá”. A providência divina está na perspectiva de salvação. A criação de Deus tem sua condição de inimiga restaurada em Cristo. Assim como Lutero explica: Deus não apenas garante o que criou, com sua preservação; Ele vai mais adiante, provendo um Salvador Eterno. Início de ano. O que nos aguarda? Simplesmente, o cumprimento das promessas de Deus em mais este ano. Como? Percebendo o que Deus fez em Cristo Jesus por cada um de nós e valorizando nossa identidade de povo de Deus. Que desafio! Que teste! Seremos “aprovados” no final de mais este ano?

Clóvis Jair Prunzel/São Leopoldo, RS

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O SEPULTAMENTO DE SARA NA TERRA DA PROMESSA
1º Domingo de Ano Novo Gênesis 23

1. O que poderia nos ensinar Gn 23 no começo de um novo ano? Uma leitura superficial do texto mostra Abraão em busca de um jazigo para sua mulher, que havia falecido. A partir disso, alguém poderia concluir que tudo que se pode tirar do texto é a lição de que cemitérios e sepultamentos dignos são coisas muito importantes. Ou, então, que se trata de um texto adequado para a dedicação de um cemitério (com certeza, uma possibilidade muito remota na vida de um pregador). No entanto, um texto do AT que nos traz uma página da vida de papai Abraão e que nos apresenta a vida como ela é permite uma interessante reflexão no começo de um novo ano civil. 2. Os títulos em nossas Bíblias, “A morte de Sara” (ARA) e “A morte e o sepultamento de Sara”, dão apenas uma descrição parcial. Na moldura do texto estão, de fato, a morte de Sara (v.2) e o sepultamento dela (v.19). Mas, no miolo, o personagem principal é Abraão. Ele, que antes havia “barganhado” com Deus a favor de Sodoma (Gn 18), entra, agora, em negociação com os filhos de Hete (Gn 15.19-21; Nm 13.29; Dt 7.1) para adquirir a caverna de Macpela, na qual Sara acabaria sendo sepultada. 3. Gn 23 é, talvez, o melhor exemplo de como se fazia e se faz um negócio no mundo oriental. Sentados (v.7) no espaço público junto à porta da cidade (v.10), os personagens interagem num processo lento e gradual, com uso de linguagem indireta e disfarçada, num clima de cordialidade e cortesias de parte a parte. Abraão pede que os filhos de Hete lhe “dêem” a posse de sepultura (v.4). Na verdade, Abraão está, educadamente, pedindo para comprar um jazigo. Os filhos de Hete, num exagero de gentileza, colocam todas as sepulturas à disposição (v.6). Mas Abraão não está interessado nisso; ele quer, mesmo, é comprar. Não lhe basta uma solução temporária. Por isso, reconhecendo a generosidade dos heteus, ele se inclina diante deles (v.7) e chega aonde queria ter chegado desde o início: declara que está interessado na caverna de Macpela. Abraão tinha todos os detalhes, como se tivesse
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lido os classificados do jornal: sabia onde ficava e a quem pertencia. Quando Efrom, o proprietário, diz, “dou-te o campo e também a caverna que nele está”, não está querendo fazer uma doação em dobro; está apenas colocando à venda a caverna e o terreno em volta. Em outras palavras: posso vender, mas é “venda casada”. Abraão aceita a oferta (v.13). Efrom põe um preço, que parece exorbitante: 400 siclos de prata. Mas, quando diz: “que é isso entre mim e ti” (v.15), deixa Abraão numa saia justa, sem condições de barganhar. Em outras palavras, o preço era, na visão do vendedor, uma pechincha. Aliás, por mais que Abraão se visse um estrangeiro que morava no meio dos heteus (v.4), estes o tinham por “príncipe de Deus entre nós” (v.6), isto é, um “chefe poderoso” (NTLH). Alguém desse porte não poderia regatear, pois seria dar mostras de falta de recursos financeiros. Assim, só restou a Abraão pesar-lhe a prata (v.16). 4. Sete vezes aparece, no texto, quase como um refrão, a locução “a minha morta” ou “a tua morta”. Ou seja, no diálogo com os estrangeiros, Sara é apenas “a falecida” (o nome de Sara aparece na moldura, no começo e no final). Aliás, Sara não teve morte súbita, mas Abraão deixou a questão do jazigo para depois da hora fatal. Se, por um lado, isso nos lembra Incidente em Antares, de Erico Veríssimo (os esquifes alinhados à entrada do cemitério, enquanto se negocia o fim da greve dos coveiros), de outro, parece sugerir que Abraão tinha esperança de receber a terra prometida ainda em vida. Só que, como diz Atos 7.5, Abraão não recebeu nem mesmo um palmo dessa terra. Era, de fato, um estrangeiro (v.4). Teve que comprar um terreno na terra que era dele. O título da seção poderia ser “Abraão compra um terreno na terra que Deus lhe havia prometido”. Assim, à luz de Gn 23, poderíamos dizer que ao menos Sara (e depois o próprio Abraão, Isaque e Jacó, que também foram sepultados em Macpela) recebeu “sete palmos de fundura” na terra prometida (que foi, parafraseando João Cabral de Melo Neto, “a parte que lhe coube, naquele latifúndio”). 5. Outro termo que marca a narrativa é o verbo “ouvir”. Cinco vezes os interlocutores dizem “ouve-nos”, “ouvi-me”, “ouve-me”. Isso poderia até ser entendido como um puxão de orelhas (algo do tipo: “ô meu, escuta aqui”). Só que não é essa a sua finalidade. Tampouco está ali unicamente como forma de chamar a atenção do interlocutor. É, isso sim, uma forma de introduzir uma nova proposta na negociação, mais ou menos como “o que tenho a propor é o seguinte”. Cada vez que se usa essa expressão, a conversa avança ou passa para outro nível. 6. O clímax da narrativa é a afirmação de que Abraão sepultou
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Sara, sua mulher, na caverna do campo de Macpela, na terra de Canaã (v.19). Essa é, a rigor, a grande lição teológica: a matriarca é sepultada na terra de Canaã, a terra prometida. Como diz Lutero, “eles (Abraão e Sara) queriam ser sepultados naquela terra, que lhes havia sido prometida, na firme esperança de que seriam ressuscitados com Cristo”. 7. Outro detalhe que não se pode olvidar é que Abraão lamentou Sara e chorou por ela (v.2). (Maiores detalhes sobre o rito de lamentação, no AT, aparecem em Jó 2.13; 2 Sm 1.12; 3.31-32; 1 Rs 13.30; Ez 24.15-17; Zc 12.10-12.) Lamenta e chora o homem que havia vencido quatro reis e resgatado seu sobrinho (Gn 14); que havia encarado o desafio de oferecer o filho da promessa em sacrifício (Gn 22)! O grande patriarca chora. Sinal de que não há vergonha nenhuma em chorar (homem também pode chorar; se não por outro motivo, então ao menos por este: até o patriarca chorou!). Sinal de que prantear não ofende a Deus. Não há, da parte de Abraão, nenhum sinal de falsa espiritualidade, uma serenidade que faz de conta que a morte não é nada. Lutero faz um comentário sobre aqueles que não pranteiam e se orgulham de sua hombridade e firmeza de caráter, dizendo que lhes falta afeto e, mais importante ainda, se mostram indiferentes em relação àquilo que Deus criou. Em outras palavras, não levar a morte a sério é fazer pouco caso da criação de Deus! E, diante da morte de sua filha adolescente, Lutero se expressou que estava ao mesmo tempo feliz (por saber que ela estava com Cristo) e profundamente triste. 8. Gn 23 é, sem dúvida, uma reflexão oportuna no começo do ano civil, quando, passado o Natal, nos voltamos outra vez para as coisas do nosso dia-a-dia, nem que sejam os planos que temos para depois das férias. E a passagem do tempo, com o começo de mais um ano, nos leva a refletir sobre nossa própria transitoriedade. E aí podemos aprender algo do exemplo de Sara. Como escreve Lutero: “Esses fatos não interessam tanto a Sara, que já está morta, quanto interessam a nós, que ainda estamos vivos. Pois é grande consolo ouvir que a morte daquela santíssima matriarca, bem como a de todos os pais, comparados aos quais nós não somos ninguém, em nada difere de nossa própria morte, mas foi tão odiosa e infame quanto a nossa própria. Os corpos deles foram sepultados, comidos por vermes, e enterrados por causa do mau cheiro, como se nem fossem os cadáveres de santos; no entanto, eram pessoas santíssimas e, embora falecidas, estão, na verdade, vivas em Cristo” (Luther’s Works, vol. 4, p. 189). Vilson Scholz/São Leopoldo, RS

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JACÓ VÊ
Epifania Gênesis 28

O

CÉU ABERTO

O período de Epifania começa sempre em 06 de janeiro e termina na semana da quaresma. Como essa data é fixa e a Páscoa é festa móvel, é possível que haja de 5 a 9 domingos de Epifania. O significado de Epifania tem relação com “fazer brilhar” (Nm 6.25), “mostrar-se” (Gn 35.7), ou “deixar-se achar” (Jr 29.14). A verdade a ser proclamada nesta época é a de que Deus “se deixou achar” na encarnação de seu Filho Jesus Cristo (Lc 1.79). Nele, a revelação da graça salvadora (Tt 2.11; 2 Tm 1.9-10), do amor e da bondade de Deus (Tt 3.4) alcançou seu pico no agora, enquanto se espera sua manifestação final e plena (1 Tm 6.14; 2 Ts 2.8). Porém, a encarnação do Filho não foi a única revelação. Deus falou e revelou sua bondade muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1.1). O céu já foi aberto em outras ocasiões no Antigo Testamento e Deus “deixou-se achar” para o homem pecador perdido e em trevas. O Filho de Deus no Antigo Testamento: presença real ou promessa? Martinho Lutero escreveu, em 1543, um tratado sobre a divindade de Cristo. Baseando-se nas últimas palavras de Davi (2 Sm 23.1-7), ele defendeu a exegese cristológica do Antigo Testamento.1 As palavras de 2 Sm 23.1-7 foram importantes para Lutero, pois nelas ele percebeu que a doutrina da Trindade e das duas naturezas de Cristo já eram ensinadas no Antigo Testamento. Nesse contexto, Lutero escreveu que “toda a Escritura é puro Cristo”.2 Certamente o princípio hermenêutico da cristocentricidade das Escrituras é inquestionável. O próprio Cristo o ensinou (Lc 24.27, 44; Jo 1.45, 5.39, 46) e o apóstolo Paulo fala da presença de Cristo no deserto (1 Co 10.4).

1 LUTERO, Martinho. Luther’s Works, Jaroslav Pelikan e Hilton C. Oswald, editores. St. Louis, USA: Concordia Publishing House, 1972. Introdução ao Volume 15, p. 11. 2 Ibid., p.339

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Na prática, a exegese cristológica do Antigo Testamento é conectada, algumas vezes, somente às profecias messiânicas ou à tipologia. O entendimento é mais no sentido profético, não de presença. Se no tempo de Lutero a crítica era contra os judeus, nos tempos pós-modernos o desafio é convencer os que contradizem a exegese cristológica do Antigo Testamento. O criticismo histórico que a condena completamente e alguns evangelicais, que pedem cautela para esse tipo de abordagem. Sem contar que esse modelo hermenêutico pode causar estragos quando nas entrelinhas, ou explicitamente, está se afirmando algum tipo de dualismo, em que se nega que o Deus bondoso revelado em Jesus Cristo poderia não ter se deixado achar já no Antigo Testamento. O professor Charles A. Gieschen3 , procura demonstrar que a ênfase no Filho de Deus no Antigo Testamento apenas em termos proféticos é equivocada, pois sua presença é real e as teofanias após a queda são manifestações do Filho. A base para isto é principalmente a tensão existente entre essas teofanias e a verdade que ninguém pode ver ao Senhor e viver (Êx 33.20). Além do que, ninguém nunca viu a Deus (Jo 1.18; 1 Tm 6.16). Quem é então esse que apareceu com a imagem visível de Yahweh no Antigo Testamento? (Gn 32.30; Êx 24.10; Jz 6.22-23) A presença real do Filho é mais proeminente na figura do Anjo do Senhor4 (Gn 16.7-13; 21.17; Jz 2.1; 2 Rs 1.3), que além de se manifestar em aparições e dialogar, recebe o nome de Yahweh e tem poder para proteger, absolver e reter pecados do seu povo (Êx 23.20-21). O Deus bondoso “se deixa achar” para Jacó Fatos na vida de Jacó e Esaú revelam que de fato é “continuamente mau todo o desígnio do seu coração” (Gn 6.5). Esaú não cumpriu seu juramento (Gn 25.33) e Jacó, junto com sua mãe Rebeca, maquinou o engano contra seu próprio pai (Gn 27.5-17). A maldade se multiplicou. Esaú passou a odiar seu irmão (Gn 27.41) que, sentindo-se ameaçado, foge para a casa de seu tio Labão (Gn 27.43). Para esconder esse fato do pai Isaque, a mãe Rebeca desloca

3 Estudo apresentado no Simpósio sobre Teologia Exegética, no Seminário Luterano de Fort Wayne, em janeiro de 2003. Estudo completo disponível no endereço eletrônico: http://www.ctsfw.edu/events/symposia/papers/sym2003gieschen 4 Outras categorias dessa manifestação do Filho seriam: Nome (Dt 12.11), Glória (Êx 24.15-18; Is 6.5 – Jo 12.39) e Palavra (Jr 1.5-9 – Jo 1.1).

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o motivo da “viagem” para os problemas matrimoniais do filho (Gn 27.44-46). O texto de Gênesis 28.10-19 Enquanto fugia de seu irmão, o anoitecer fez Jacó acidentalmente parar, improvisar um lugar para dormir e sonhar. Em seu sonho a imagem é uma rampa fixada na terra, mas cujo topo (cabeça) toca o céu. Nela, anjos subiam e desciam, enquanto no alto estava o próprio Senhor. Essa imagem simboliza a ligação que há entre o Deus dos céus e a coroa de sua criação. Num contexto de pecado, que gerou ira, mentiras, medo, confusão, angústia e solidão, Deus se coloca ao lado do ser humano, abre seu coração e se deixa achar para declarar o seu amor. Ao afirmar que ele é o Deus de seus pais, o Senhor confirmou as promessas de bênçãos feitas anteriormente (Gn 12.3; 26.4), conferiulhes a missão de serem portadores dessas bênçãos, bem como garantiu a Jacó proteção e segurança. Deus se revelou para selar a bênção, mas também para convencer a Jacó e todas as famílias da terra que ele está próximo de seus filhos nos lugares mais solitários e situações mais complicadas, ainda que seus pecados sejam como a escarlate (Is 1.18). É sempre alarmante para o homem pecador dar-se conta e reconhecer que o Santo Deus está se deixando achar. Mas depois, ele é santificado e capacitado a comemorar a revelação de Deus. Reflexão homilética O período de epifania é tempo de celebrar a revelação de Deus ao homem pecador e em trevas. Se Deus, de certa maneira e por um lado, pode ter se deixado achar, e ainda às vezes o faz, nas entrelinhas, a fim de alcançar o homem pecador e fazer valer seus propósitos, por outro, ele se torna explícito e conhecido totalmente em Jesus Cristo, ele é a última palavra (Hb 1.2). Por natureza e até certo ponto, as pessoas procuram e desejam encontrar Deus. O problema é quando se procura formular receitas próprias de onde Deus se deixaria achar. Deus se revela e se deixa achar onde ele diz estar: na água do Batismo, no pão e no vinho da Santa Ceia e nas palavras do Evangelho. É neles que ele encontra o homem perdido, medroso e condenado, para fazer dele alguém santificado e capaz de comemorar a revelação de Deus,
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em Jesus Cristo, a imagem do Deus invisível. Proposta das outras leituras bíblicas para o dia de Epifania Salmo 63 Esse salmo retrata uma situação de extrema necessidade. Possivelmente o contexto original aponte para 2 Sm 15.23-30, quando Davi e todo o seu povo fugiam de Absalão. Assim, Davi aspira intensamente a presença de Deus para lhes garantir segurança e proteção. Colossenses 1.24-29 No contexto dessa perícope, Paulo glorifica a Cristo, a imagem do Deus invisível, em quem tudo subsiste e em quem o mistério (Evangelho) foi revelado e de quem o Ministério Eclesiástico e a igreja são responsáveis em administrar. João 1.43-51 Como no sonho de Jacó, esse texto termina afirmando a Jesus Cristo, como a “escada” em que Deus se deixa achar e em quem torna reais a redenção e a vida para a humanidade.

Anselmo Ernesto Graff/São Leopoldo, RS

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A ORAÇÃO DE JACÓ
1º Domingo de Epifania Gênesis 32.1-23

Contexto litúrgico e histórico As leituras bíblicas da série trienal C para o primeiro domingo após Epifania (o batismo do Senhor) são: Sl 45.7-9; Is 42.1-7; At 10.34-38; Lc 3.15-17, 21-22. Como evento importante no cumprimento da obra da salvação ao mundo, encontra alguns paralelos com o episódio de Jacó, conforme destacamos abaixo (aplicação homilética). O texto para o sermão destaca o momento em que Jacó se preparava para encontrar-se com seu irmão, Esaú, a quem havia enganado tempos atrás. Após anos vivendo em outras terras, Jacó está voltando para Canaã. Deixando para trás seu sogro, Labão, após se reconciliar com ele (Gn 31.43ss), está temeroso quanto ao que acontecerá. Tem diante de si a possibilidade de o irmão vingar-se, como havia prometido (Gn 27.41). O capítulo 32 de Gênesis relata os preparativos de Jacó para o encontro e sua oração, suplicando pela proteção de Deus. Texto Alguns destaques na oração de Jacó: a fundamentação na palavra dada por Deus (v. 9), a confissão de não merecimento e da ação misericordiosa de Deus (v. 10), o pedido humilde, que reconhece a própria inaptidão de resolver o problema (v. 11) e a lembrança da aliança e promessa de Deus (v. 12). Chama a atenção o fato que Jacó não apenas orou, mas preparouse para o encontro com o irmão: enviou mensageiros (v. 3), dividiu seu grupo (v. 7), enviou presentes para aplacar a ira do irmão (vv. 13ss) e anunciou sua chegada após estes presentes (v. 20). Talvez alguém pudesse sugerir que tais precauções não combinam com uma oração confiante. No entanto, a estratégia não é necessariamente uma demonstração de desconfiança em Deus. Ela o será se substituir a confiança em Deus, tomando-lhe o lugar. A confiança de Jacó está manifesta em sua oração, já no seu início, ao lembrar a palavra e ordem de Deus (v. 9). Ainda assim, toda a vida de Jacó vem a
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demonstrar de maneira concreta o que significa o “ao mesmo tempo justo e pecador”. Por um lado, as fraquezas e pecado estão à vista; por outro, a confiança nas promessas de Deus o fazem seguir em frente. “Que me disseste: volta a tua terra ... e te farei bem” (v. 9) – Jacó lembra da promessa feita por Deus (Gn 28.15). Neste sentido, é modelo de oração, que encontra motivo para o pedido naquilo que Deus mesmo já havia prometido. “Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado” (v. 10). ds,x, “misericórdia” – é uma palavra importante no AT para referir-se a atos de bondade, concedidos gratuitamente por Deus. É um correspondente de “graça” no Novo Testamento. A Septuaginta (LXX) o traduz por dikaiosu,nh (justiça). Vem à mente o conceito de “justiça” no Novo Testamento, que se refere à imputação da justiça de Cristo ao pecador, por meio da fé. Tm,a, – “verdade” – no sentido de fidelidade. A vida de Jacó é, como ele próprio afirma, um testemunho vivo da manifestação graciosa e fiel de Deus. “E disseste: Certamente eu te farei bem” (v. 12) – a promessa de Deus, lembrada por Jacó, é dita de forma enfática, com a repetição do verbo (byj,yae bjeyhe). É sobre a promessa de Deus que Jacó edifica sua súplica. “Descendência” – trata-se da promessa que Deus fizera já a Abraão (Gn 22.17) e a Isaque (Gn 26.4). A vida dos patriarcas sob a bênção de Deus tem uma perspectiva escatológica – a descendência que se multiplicará chegará ao auge de sua glória naquele que é o Descendente (cf. Gl 3.16). Assim, o fazer bem de Deus a Jacó encontra um duplo cumprimento. Primeiro se expressa no cuidado e proteção a Jacó diante dos desafios que se colocam a sua frente. Mas também se estende para o futuro, com a manutenção do povo descendente de Jacó, que traz consigo a promessa de salvação para o mundo, no Messias. Em suas aulas sobre o livro de Gênesis, Lutero chama a atenção para a fé fraca e vacilante de Jacó, mas que se apega corretamente às promessas de Deus: “É certamente uma coisa impressionante ter tal força e tão fortes pilares de consolação e promessas sobre as quais se depositar e ao mesmo tempo ainda estar alarmado” (Luther’s Works, vol. 6, p. 109). Conforme Lutero, a necessidade aliada à ordem e promessa de Deus, fazem uma verdadeira oração. Trata-se não de uma mera repetição, mas da manifestação de obediência e confiança nas palavras de Deus: “Verdadeira oração deve proceder de um coração crente e que coloca diante de si tanto a necessidade como a
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ordem de Deus, pela qual o coração é levado a apresentar suas petições em verdadeira fé” (p. 111). Lutero utiliza a oração de Jacó como modelo por trazer três aspectos fundamentais: “O primeiro é que você deve agarrar-se à promessa. O segundo é que você deve estar atormentado pela sua aflição. O terceiro é que você deve dar graças e reconhecer que é indigno de qualquer ato de misericórdia, mas que tem esperança na ajuda através da misericórdia de Deus somente. Virtudes como castidade, sobriedade e bondade para com o pobre são certamente agradáveis e ordenadas por Deus, mas não se deve colocar a confiança nelas. Nossa confiança não deve se depositar na lei e em suas obras, ainda que devam estar presentes, mas na misericórdia e na verdade de Deus” (p. 114,5). Aplicação homilética A vida de Jacó e, especificamente, a situação descrita no texto, denunciam a fragilidade humana e a absoluta necessidade que cada pessoa tem da ação misericordiosa de Deus. O andarilho Jacó, perseguido primeiro pelo irmão Esaú, depois por seu tio Labão, segue seu caminho sob o cuidado gracioso de Deus. Sua oração testemunha, de maneira simples, mas completa, o quanto a promessa de Deus é fundamental para trazer-lhe esperança. É somente a graça de Deus que vem proporcionar a reconciliação, primeiro com Labão (cf. Gn 31.43-55), depois com Esaú (Gn 33.1-17). Não está em Jacó qualquer mérito. Visto sob a ótica do certo e errado, Jacó havia trapaceado seu irmão e ficava devendo à justiça. Mas por detrás de suas caminhadas tortas, Deus estava guiando aquele que continuava o “fio vermelho” que perpassa todo o Antigo Testamento. Não apenas uma terra lhe estava reservada, mas a descendência da qual viria o Salvador. Há, assim, em Jacó uma ambigüidade. Do ponto de vista humano, ele não passa de uma pessoa que, a exemplo de tantas outras, luta pela sobrevivência, por vezes com métodos não exemplares. Sua fragilidade, os constantes perigos aos quais está submetido e algumas atitudes eticamente questionáveis fazem dele alguém que não é o protótipo do herói. Por outro lado, do ponto de vista de Deus, é preciso ver este homem à luz da promessa. Ele está na linha do Descendente, que vem de Adão e Eva, na primeira promessa (Gn 3.15) e que se concretiza do Substituto da humanidade, o Salvador Jesus. Por causa da promessa e por causa do amor que Deus tem pelo seu povo, Jacó é guiado, protegido e graciosamente amparado.
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No batismo de Jesus, há também uma aparente contradição. Ele é o Filho santo de Deus. Sua comunhão com o Pai decorre de sua essência divina. No entanto, o Senhor entra na fila dos pecadores. Sem ter pecado, submete-se ao batismo para arrependimento (cf. Mc 1.4). Assume uma posição que não é sua, mas que cumpre a justiça de Deus (cf. Mt 3.15). É um tremendo contraste em relação a Jacó. Jesus, o justo e santo Filho de Deus, é feito pecado por nós (2 Co 5.21), enquanto Jacó, de tortuosa jornada, é guiado bondosamente por Deus. Mas o mesmo princípio está em ação nos dois casos: a fidelidade de Deus a sua promessa de salvação ao mundo. A manifestação da graça, que surpreende e choca quando analisada sob a ótica humana, é evidente tanto no batismo de Jesus como na proteção a Jacó.

Gerson Luis Linden/São Leopoldo, RS

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A BÊNÇÃO

SOBRE

JACÓ

2º Domingo de Epifania Gênesis 35

Contexto Durante 30 anos o patriarca Jacó experimentou a maravilhosa e completa proteção e orientação de Deus na sua conflituada caminhada pela vida: compra, por lentilhas, os direitos de primogenitura do irmão Esaú (Gn 25); engana seu pai e recebe dele a bênção de primogênito, precisando fugir para Padã-Arã para escapar da fúria do irmão arrependido (Gn 27); Deus lhe aparece em Betel (Gn 28); recebido na casa de Labão, seu tio, trabalha 14 anos para se casar com as filhas Lia e Raquel (Gn 29); trabalha, adquire seu próprio rebanho fraudulentamente, foge, é seguido por Labão e fazem um pacto (Gn 30,31); encontra-se cara a cara com Deus, luta com Ele e recebe o nome de Israel (Gn 32); reconcilia-se com Esaú (Gn 33) e, então, Deus o abençoa em Betel e lhe renova a promessa de fazê-lo “pai de uma grande nação” (Gn 35). Deus sempre agindo, cuidando, acompanhando, interferindo, direta ou indiretamente, para que o planejamento, a promessa, de que Jacó seria pai de uma grande nação pudesse se realizar (Promessa Messiânica). Texto Vv.1-4: “Disse Deus a Jacó: levanta-te, sobe a Betel e habita ali; faze ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão. Então disse Jacó à sua família e a todos os que com eles estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes; levantemo-nos e subamos a Betel. Farei ali um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia e me acompanhou no caminho por onde andei. Então deram a Jacó os deuses estrangeiros que tinham em mãos e as argolas que lhes pendiam das orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém”. (1,2) O texto e o contexto não deixam claro porque Jacó deixou
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que se passassem dez anos desde sua volta da Mesopotâmia, sem que cumprisse sua promessa, seu voto em Betel (Gn 28). Deus achou necessário recordar Jacó de seu voto de que erigiria, com a pedra que lhe servira de travesseiro, uma coluna que seria, mais tarde, “a Casa de Deus” (Gn 28.22). Na realidade, tratava-se, também, de um ato de arrependimento, uma vez que Jacó, até aquele momento, havia permitido que Raquel, sua mulher, mantivesse consigo os ídolos de seu pai (Gn 31, 32) e não havia feito nada para que os de sua casa (família) se livrassem da idolatria. Dali em diante, todos os deuses estranhos e qualquer coisa que favorecesse ou levasse à superstição e idolatria deveria ser removido do meio deles, para que fossem completa e plenamente purificados. A “roupagem” religiosa deveria ser completamente outra. A viagem (3) seria na direção das montanhas ao norte da Judéia. Jacó abertamente confessa sua dívida diante do Senhor, o qual lhe respondera no dia de sua angústia, e declara sua intenção de agora cumprir seu voto. A ordem de Jacó (4) dada a sua família e acompanhantes era no sentido de que, não só as imagens de deuses estrangeiros deveriam ser entregues para ele, mas também seus brincos que eram usados como amuletos e outros propósitos supersticiosos. Todos os símbolos de idolatria e morte espiritual encontrados deveriam ser completamente eliminados e destruídos. Somente então seria possível servir a Deus “em espírito e verdade”, quando os corações estivessem limpos de toda idolatria e adoração de criaturas. V.7: “E edificou ali um altar e ao lugar chamou El-Betel; porque ali Deus se lhe revelou quando fugia da presença de seu irmão”. Desta maneira, Jacó pagou seu voto proferido há trinta anos atrás, prestando adoração, culto ao verdadeiro e único Deus. Vv. 9-12: “Vindo Jacó de Padã-Arã, outra vez lhe apareceu Deus e o abençoou. Disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó. Já não te chamarás Jacó, porém Israel será o teu nome. E lhe chamou Israel. Disse-lhe mais: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; sê fecundo e multiplica-te; uma nação e multidão de nações sairão de ti, e reis procederão de ti. A terra que dei a Abraão e Isaque dar-te-ei a ti e, depois de ti, à tua descendência”. Deus não falou simplesmente a Jacó em sonho, mas revelou-se de forma visível (9), como já havia feito com Abraão e Isaque, renovando
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sua promessa messiânica. Deus confirma a troca de nome (10) afirmada em Peniel (Gn 32,28) que, de certa forma, serve como introdução à bênção proclamada em seguida. Era Deus Todo-Poderoso falando com Jacó (11,12), de quem Jacó recebera maravilhosa proteção e orientação nos últimos 30 anos. Tratava-se da bênção patriarcal, incluindo a promessa messiânica. Membros de todas as nações constituirão a soma total do Israel espiritual, a grande assembléia de nações da qual Deus será o Senhor. A posse de Canaã era a garantia imediata da promessa, para Jacó e sua descendência. Vv. 13-15: “E Deus se retirou dele, elevando-se do lugar onde lhe falara. Então, Jacó erigiu uma coluna de pedra no lugar onde Deus falara com ele; e derramou sobre ela uma libação e lhe deitou óleo. Ao lugar onde Deus lhe falara lhe chamou Betel”. Jacó, ao derramar sobre o altar erigido (14) “uma libação” (a primeira mencionada na Bíblia), separou e consagrou aquele lugar como de adoração e culto ao verdadeiro Deus. Era sua confissão de confiança (15) na palavra e promessa de Deus que é o bordão e o apoio de todos os crentes durante sua peregrinação na terra. Proposta de estrutura de sermão Deus está na direção da história humana, como também na história da vida de cada um de seus filhos e filhas. Ele cumpre seus planos e promessas e, muitas vezes, as realiza através de nós: - A vida conflituosa de Jacó e a nossa; - Deus chama Jacó ao arrependimento e a nós também (o que isso significa, incluindo nossa confissão); - A bênção patriarcal e a promessa messiânica: seu significado para nós; - Nosso bordão e apoio durante a peregrinação na terra: confiança na Palavra e nas promessas de Deus.

Norberto E. Heine/São Leopoldo, RS

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A TRISTEZA

DE

JACÓ

3º Domingo de Epifania Gênesis 37

Contexto O que Abraão já ficara sabendo há muito tempo (15.13-16), fazia parte do propósito divino de conduzir a descendência do patriarca ao domínio estrangeiro até que se enchesse “a medida da iniqüidade dos amorreus”. Desta maneira, pela mão de Deus, a cadeia de acontecimentos que levaria Jacó ao Egito é posta em movimento através da rivalidade entre os doze irmãos. Este episódio é um locus classicus da providência divina. Da mesma forma apresenta, como muito bem mostra Estêvão, um esquema humano que percorre o Antigo Testamento e culmina nos acontecimentos do Calvário: o povo escolhido de Deus rejeita os seus libertadores, pela inveja e incredulidade – rejeição que, entretanto, é levada a finalmente desempenhar o seu papel na concretização da salvação. A vida de Jacó estava um pandemônio. Desastres e preocupações de toda ordem haviam colocado seu lar em situação precária. Embora reconciliado com seu irmão Esaú após o retorno de Harã, o convívio não mais foi possível e Esaú retira-se da vista de Jacó, indo habitar na região de Seir (36.6-8). Passado esse que, sem dúvida, fora o maior problema para Jacó nos últimos 20 anos, ele ainda remoía outros desgastes cujas conseqüências lhe afligiam o sono e a vida. Dificuldades familiares eram enormes e de difícil administração. A promessa de Deus permanece, mas ela não impede que haja problemas e obstáculos até a sua concretização. Não foram poucas as vezes em que Jacó talvez tenha vacilado. Este é um dos momentos mais críticos para a sua fé e a sua confiança no Deus dele e de seus antepassados. O abuso de Diná por Siquém e as conseqüências do ato causaram em Jacó uma sensação de perda de autoridade com seus filhos e, por outro, o comprometimento do nome de Deus perante os habitantes de Canaã: “Como pode um filho de Deus proceder desta maneira? Que igreja é essa que mata, rouba e aprisiona os habitantes da cidade?”. Mas Deus não abandona aqueles a quem Ele estende a promessa. O SENHOR vem em socorro de Jacó e aquele grupo só sai ileso porque
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IGREJA LUTERANA

“o terror de Deus invadiu as cidades ... e não perseguiram aos filhos de Jacó” (35.5). A esse episódio segue-se a morte de Débora, a fiel ama de Rebeca, a morte de Raquel, a amada de Jacó e, para chegar ao fundo do poço, o incesto de Rúben com Bila, a serva de Raquel e mãe de Dã e Naftali (35.22). Em meio a tão grandes contratempos, a única esperança e conforto de Jacó na sua velhice estava no primogênito da sua esposa falecida, José, que com sua vida pia e justa, encorajava o coração entristecido e frágil de seu velho pai. De repente também este é tirado de cena e da vida de Jacó. José é vendido para o Egito não por estrangeiros, assaltantes, traficantes de escravos, mas pelos seus próprios irmãos. Como Isaque e Jacó antes dele, José é apresentado como um membro da família escolhido. Esta eleição divina é um dos temas de Gênesis (cf. Rm 9.11), e o desígnio de Deus não se vê mais contrariado pela indiscrição dos seus aliados, no texto Israel e José, do que pela malícia dos seus opositores. O relato dos sonhos logo no início do episódio faz Deus, e não Jacó ou José, o herói da história. Não se trata, pois, de um conto de qualquer sucesso humano, mas de uma narrativa que mostra a ação de Deus na história humana – muito embora, por vezes, uma ação abscôndita. Texto Vv. 1-4: Depois do capítulo parentético sobre Esaú e os edomitas, o v. 1 retoma a narrativa do cap. 35, levando-o até o título de divisão no v. 2. Jacó nada aprendera de sua experiência anterior com o favoritismo. Suportaria uma carga maior e mais pesada ainda de ódio e fraude do que aquela a que se rendera na juventude. A “túnica talar” era ostentosa e provocante. Um traje com tal descrição em 2 Sm 13.18 era vestimenta real. As intenções de Jacó eram claras. José acima de todos! V. 5: Nenhum dos sonhos fora resultado de uma atitude egoísta de José. Ambos eram, na verdade, visões do futuro, antecipações do que estava reservado para ele e para seus irmãos (20.3; 28.12; 31.11, 24). Na sua completa inocência, e não prevendo as conseqüências, José reparte o conteúdo dos sonhos com sua família. José em nenhum momento tem a intenção de interpretar, analisar ou aplicar seus sonhos. Ele é um narrador, não um comentarista. Este é o primeiro sonho descrito em Gênesis em que a voz de Deus não se revela, o que o afasta da categoria de uma teofania. Mas mesmo que não haja
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uma manifestação expressa e pictórica de Deus, não significa que Ele não esteja presente. Onde está a Sua promessa, ali está Deus. O texto silencia sobre os motivos que levaram José a revelar seus sonhos. Se parte da sua arrogância, o texto não especifica. Mas os sonhos não são enigmáticos; falam por si. Sua interpretação é óbvia. Os irmãos estão furiosos com José, mas o narrador não está. O contar dos sonhos bem como a sua compreensão por parte dos irmãos devem ser entendidos como uma profecia. José é um profeta em sua própria casa, e que também se dá mal. Deus tem um plano para sua vida e seu futuro. Feixes são algo para se comer ou dos quais se pode tirar alimento. Alimento, ou a ausência dele, ocupará mais tarde bastante espaço na história de José – e também de Jacó e dos irmãos de José. Surpreende a reação de Jacó no segundo sonho (v. 10). Jacó já se inclinara diante de seu irmão Esaú (33.3). Deveria ele inclinar-se agora também diante de seu filho? As servas e os filhos de Jacó já haviam se inclinado diante de Esaú (33.6). Deveriam eles agora inclinar-se também diante de José? Jacó censura José pela sua impertinência. Mas não o “odeia” como o fazem os irmãos de José. Ao contrário, algo mais profundo o intriga. Deve haver um significado maior nesses sonhos do que ele pode no momento vislumbrar. Assim como Maria, quando confrontada com uma situação semiplausível, semiduvidosa ponderava em seu coração (Lc 2.19, 51), da mesma forma Jacó não tirará conclusões apressadas, mas guardará esse assunto em seu coração (v.11). As duas atitudes no v. 11 são as que sempre dividem as pessoas em suas reações diante das novas provindas de Deus. O ceticismo dos irmãos era emocional e violento; a mente aberta de Jacó era resultado de alguma humildade. Jacó já aprendera, ao contrário dos seus filhos, a admitir a mão de Deus na história dos homens. Vv. 12-14: Chama a atenção o fato de os irmãos de José apascentarem os rebanhos em Siquém. A distância até lá não é pequena. José sai do vale de Hebrom (v. 14), segue para o norte em direção a Siquém (v.15) – hoje Nablus, na planície de Mukhnah - a mais ou menos 80 km e depois a Dotã, a cerca de 25 km mais ao norte. Logo, de Hebrom a Dotã, são cerca de 105 km, o que é uma distância significativa para se guiar e apascentar rebanhos. Entretanto, tal distância não deve ser muito menor, caso contrário não haveria necessidade de Jacó se preocupar com seus filhos. A arqueologia mostra que ambas as cidades – Siquém e Dotã – eram habitadas no tempo de José (período do Bronze Médio). A presença
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dos filhos naquela região preocupava a Jacó tendo em vista os episódios cruéis que lá ocorreram e que tornaram ele e seus filhos “odiosos entre os moradores” da terra (34.30). A procura de José por seus irmãos é sintomática. José encontra o caminho para os seus irmãos e ao mesmo tempo o caminho para a sua própria destruição. José não é alertado por ninguém do perigo que o aguarda. O próprio Deus não se manifesta. Deus permite que os fatos se desenrolem. O Deus da promessa está no controle, mas os homens têm de assumir a responsabilidade por seus próprios atos. Foi assim desde o começo. Onde estão aqueles anjos, os Maanaim, que vieram ao encontro de Jacó quando este estava para deparar-se com Esaú (32.1-2)? Nenhum anjo aparecera agora para alertar a Jacó a que não enviasse José aos seus irmãos porque estes procuravam matá-lo. Todos os anjos e até o próprio Deus permanecem em silêncio. Entretanto, ver-se-ia que Deus estivera vigiando com tanto cuidado quanto oculto. Os dois extremos dos Seus métodos juntam-se de fato em Dotã, pois foi ali onde José gritou em vão (42.21) que Eliseu se achou visivelmente cercado de cavalos e carros de fogo de Deus (2 Rs 6.13-17). Vv. 25-28: José é vendido aos ismaelitas. Eram descendentes de Abrão e Agar (16.12); os midianitas, de Abraão e Quetura (25.1-6). São parentes, mas não se conhecem. Mais de 150 anos se passaram desde que Abraão enviara estes filhos à “terra oriental” (25.1-5; 1218). No oriente, aparentados por casamento e envolvidos no mesmo tipo de negócio, essa caravana de mercadores era formada de diferentes grupos familiares. Embora aqui no texto eles se apresentem mais como ligados ao comércio de especiarias, ao tempo de Amós eles são acusados como traficantes internacionais de escravos (Am 1.6, 9). Sua rota procedente de Gileade e passando por Dotã fazia parte da famosa estrada de comunicação entre Damasco e a Via Maris para o sul, em direção ao Egito. V. 36: A história de José parece chegar ao fim. Tanto assim que o próprio autor de Gênesis a interrompe, desviando a atenção do leitor para um episódio envolvendo outros personagens. Mas a história de José apenas começava. Diz Estevão que quando “os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito... Deus estava com ele” (At 7.9). A perseguição e injustiça que demarcaram o destino de José e todos os demais profetas e santos eram os caminhos que Deus empregava para atingir os Seus propósitos na vida de cada um deles.
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Em meio ao silêncio, Deus estava atuando para levá-los a um objetivo maior na medida em que estes que sofrem eram mártires inocentes na Sua causa e que também “anunciavam a vinda do Justo” (At 7.52). Sugestões homiléticas Tema: Deus se esconde na Sua promessa 1. O Deus da promessa é um Deus que age de maneira subcontrária. Quando tudo parece confuso, desconcertante, ameaçador, Deus, mesmo assim, está em ação. Sua promessa para com o Seu povo está acima das circunstâncias e aparências. Para fazer tal leitura é preciso abrir mão do ceticismo que nos é naturalmente próprio e “guardar essas coisas em nosso coração”. 2. No percurso do cumprimento das Suas promessas, Deus faz uso das contradições para testar o Seu povo. Testar é diferente de tentar. O diabo tenta; Deus testa. Satanás tenta para desencaminhar e reprovar. Deus testa para confirmar e aprovar. Firmado na promessa de Deus, o povo de Deus entende que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu [isto é, de Deus, não do povo] propósito. 3. O silêncio de Deus nas contingências da vida humana é também uma forma Sua de se manifestar. Embora abscôndito, Deus está vigiando para que os Seus propósitos sejam atingidos para o benefício do Seu povo e da Sua igreja. 4. O herói da história não é o povo de Deus, não é a igreja, mas o próprio Deus. É o Seu Reino que deve ser estendido a todos. O episódio envolvendo os patriarcas, e também nós hoje, pode ser cruel, triste e comprometedor. Mas aos olhos de Deus é um veículo através do qual Deus estende o Seu Reino para fora, para o povo estrangeiro – e este é o foco da Epifania. A diáspora do povo de Deus torna-se, ao fim e ao cabo, em bênção para o próximo, para o mundo e para o próprio povo de Deus. Acir Raymann/São Leopoldo, RS

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JUDÁ

E

TAMAR

4º Domingo de Epifania Gênesis 38

O nosso irmão de sangue, filho de Judá e Tamar Um episódio de Epifania. Gênesis 38. Judá e Tamar. Uma história envolta em mistérios para nós. Mexe com muitos assuntos: amor, justiça, prostituição, ansiedade social da mulher, disciplina familiar, egoísmo, honra, dignidade e mais. Mas acima de tudo é preciso não perder de vista o relator e o senhor da história. Deus está escrevendo a história contra a vontade dos homens. Como é difícil para nós, hoje, colocarmos este fato acontecido com Tamar como parte da história da salvação. Preferimos lidar com ela como um escândalo a ser esquecido, ou, se lembrado, ser lido com muitas ressalvas e explicações adicionais tentando amenizar possíveis efeitos negativos desta história. Entretanto, Lutero considera o episódio dentro de uma perspectiva que acaba sendo uma perspectiva epifânica, isto é, da inclusão do não-povo ao povo de Deus e ao mesmo tempo a origem humana “obscura” do próprio filho de Deus. (Estamos na Epifania, em que a glória de Deus se revela no contrário). A narrativa José fora vendido e levado ao Egito para a casa de Potifar. O ambiente na família de Jacó está tenso pelo luto por José. Judá se afasta da família e vai entre pessoas estranhas. Lá ele se casa com uma cananita. O tempo passa e Judá tem de casar o seu filho Er. Tamar é a esposa de Er. Neste ponto a história sofre uma virada. Er não é aquilo que Judá esperava. Ele é mau. E conta a história que Er, por suas maldades, é punido por Deus com a morte.. Er ainda não tivera filhos. Este fato deixava Tamar numa situação insustentável. Tamar passava a ser vista como aquela que não dera herdeiros à família. Na época, a esterilidade era vista como maldição sobre a mulher e a família. A lei que protegia a família na época era clara: a família precisava de herdeiros, inclusive para a preservação do patrimônio que aquele casamento
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gerara, além da continuidade e preservação do ramo familiar. Além disto, como a mulher não herdava propriedades, e sim, os seus filhos, Tamar estaria “na rua” se não tivesse um filho dentro da família. Era dever do irmão gerar um filho da viúva. Esta lei chamava-se a “lei do levirato”. Judá, como pai da família, toma a decisão que resta. O próximo filho, neste caso Onã, deve ajudar a preservar a família e a descendência de Judá, gerando um filho na esposa do irmão falecido. Assim, tanto Tamar estaria preservada como membro da família como a descendência e a propriedade estariam legalmente preservadas. Por inveja, por cobiça, ou simplesmente por malícia, Onã finge cumprir a sua obrigação, mas deixa Tamar sem geração. Em razão disto Deus pune Onã com a morte. Lutero descreve Onã como sodomita (LW 7,20), no sentido de ter-se aproveitado da situação para satisfazer seus baixos instintos. Estando morto Onã, Judá então promete a Tamar que o irmão menor, quando chegasse à idade, cumpriria a lei. Enquanto isso, aconselha Tamar a passar o tempo intermediário na casa do seu pai. Entretanto, chega a vez de Judá desobedecer a lei, talvez pelos mesmos motivos de Onã. Chegado o tempo em que o filho Sela deve cumprir a lei para que Tamar pudesse com dignidade cumprir sua missão de mãe no seio da família de Judá, Judá “esquece” de Tamar. Tamar está sendo traída pela pessoa da sua mais alta confiança, aquele que a fora buscar para integrar a sua família, casando-a com o seu Er. Agora, Judá trai esta mesma confiança casando o filho Sela com outra mulher. A estrangeira Tamar (e diríamos hoje, gentílica) parece ter uma visão mais clara de que servir a Deus exige mais do que simplesmente seguir vontades e caprichos passageiros. Tamar está decidida a cumprir a sua função de mãe e esposa de Er, mesmo que até ali a família de Er, seu marido, fora perversa com ela. Onã se aproximara dela como abusador sexual. Entretanto ela continuava sentindo-se em dívida com o compromisso matrimonial assumido dentro daquela família. Não é a busca pelo prazer que a move, mas o sentimento traído e a busca do seu direito negado de ser uma mulher completa na casa de Judá de acordo com a promessa de Judá. Mas Judá lhe nega o direito. Muitas pessoas, neste caso, sentem-se no direito de ir em busca
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da reparação. Tamar não é diferente. Ela quer o que é seu de direito. Ela quer ser uma mulher que dá um herdeiro ao seu marido morto. Ela não pára para pensar se não é a hora de recuar e carregar a sua cruz em silêncio. Ainda hoje, em disputas pelo direito à herança, aos bens, ao amor de uma pessoa, são inúmeras as histórias que trazem vergonha sobre os filhos de Deus diante do mundo. Alguns destaques para meditação homilética Lutero vê nisso uma dupla lição. À distância, podemos pensar que não teria sido difícil a Tamar recuar. E talvez não tivesse sido. Mas quem pode dizer alguma coisa não estando na mesma situação de Tamar? Ao mesmo tempo, Deus revela estas situações embaraçosas e às vezes vergonhosas dos patriarcas para que ainda aprendamos a não ser hipócritas em julgar o próximo nas suas faltas. O incesto de Judá com Tamar, sua nora, ofende a Deus como todo e qualquer pecado ofende a Deus. Mas é desta descendência que Deus faz nascer o seu Filho, o Cristo prometido. Esta é a realidade que mais importa ressaltar neste contexto. Isto sucede não porque para Deus este pecado tenha sido relevado, ou muito menos, porque algo assim não tenha sido visto como pecado. Lutero: “Este é o tratamento que Deus dá ao nosso Salvador. Deus permite que seja concebido no mais desgraçado incesto, assim que ele então assume a verdadeira carne, assim como a nossa carne é concebida e alimentada em pecado” (LW 7, 31). Freqüentemente associa-se o batismo de Jesus como aquele momento em que ele assume a sua missão sendo batizado entre pecadores. Neste episódio em que os ancestrais do Messias se envolveram, cada um com suas razões próprias, cada um se justificando, mas resultando num pecado que ofende mais que outros, Lutero parece dimensionar a grandeza do pecado que precisamos incorporar na pregação do evangelho. O fato de Deus ter narrado por intermédio de Moisés este episódio ao invés de mantê-lo oculto, serve a que Lutero busque muito consolo e conforto para si mesmo e para a sua função de pregador. Lutero condena aqueles que simplesmente e quase preconceituosamente atribuem a Tamar o papel de prostituta que ela imita para enganar Judá. Lutero surpreende ao dizer que nós (séc. XVI) não estamos em condições de compreender o que se
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passou no íntimo de Tamar para chegar a este extremo. O seu pecado, pela gravidade, só encontra perdão em Deus. Entretanto, tendo em vista que o papel de mãe era extremamente valorizado e ela tudo fez para que a descendência da família de Judá não fosse interrompida (o que seria desonra e vergonha), Lutero acrescenta: “a raiva de Tamar era justificada e quase desculpável” (LW 7, 34), tendo em vista o papel da mulher naquele contexto social. Lutero compara o quase desdém com que o casamento e a criação de filhos era tratado em seu tempo para dizer que se Tamar errou numa direção, por outro lado, não estamos em melhor situação. O celibato e o desprezo à vida comum do lar, com todas as suas dificuldades, ofendem Deus igualmente. Pois Deus espera que os seus filhos casem, constituam família e criem os seus filhos. Isto é um desfio em qualquer tempo e época. Podemos dizer que análise semelhante necessita ser feita por nós hoje, antes que alguém se atreva a lançar pedras de condenação sobre Judá ou sobre Tamar. A pergunta se impõe: O que a igreja está fazendo no sentido de valorizar como presente de Deus o casamento e a vida familiar? Se a família é realmente uma instituição de Deus, quanto se investe em tempo e esforço para que as pessoas vejam no casamento e no esforço que ele exige um legítimo e verdadeiro culto a Deus que conta com a promessa e a bênção de Deus? Lutero prossegue: “Vejam o cuidado maravilhoso com que o Espírito Santo descreve um episódio tão repulsivo e vergonhoso”. Por quê? “Porque este que nasce desta descendência é irmão e primo de todos os filhos de Israel segundo a linhagem de Abraão. E de acordo com a linhagem de sua mãe, o descendente é irmão e primo de todos os egípcios, cananeus e amorreus, pois ele nasce de Tamar, de Ruth, de Raquel e de Batseba, a mulher de Urias” (LW &, 35). Esta é a mensagem da Epifania. Deus nos mostra que seu filho é irmão e primo de sangue de toda a humanidade antes de ser nosso irmão na sua obra da salvação. Isto é obra de Deus da qual ninguém pode puxar nenhuma glória para si próprio. E este sangue é tão poluído e tão santo como é a humanidade que Cristo assumiu na sua divindade. Esta história é contada pelo Espírito Santo para que toda a falsa dignidade com que muitos querem se erguer acima do próximo em pecado se cubra também de vergonha. Não somos em nada superiores a ninguém, parece dizer o Espírito Santo neste episódio. Se o Cristo não teve vergonha da sua
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procedência (Mt 1.3) antes, pelo contrário a honrou, muito mais nós estamos livres de envergonhar-nos, uma vez que ele se fez nosso irmão. Não existe dignidade além daquela que Deus atribui a Judá e Tamar, porque eles, em si, mesmo se achando no direito ou no privilégio de agir como agiram, não são mais pecadores do que cada um de nós ainda hoje. Talvez a lição maior deste episódio esteja no seu epílogo. Tamar era mulher e estrangeira. Agora ela está grávida. Ao tomar conhecimento da gravidez, Judá imediatamente assume o papel de pai que mantém a disciplina na sua casa. Tamar deve ser punida. Entretanto há uma reviravolta. Judá agora sabe que a gravidez resultou do seu encontro com a desconhecida. Sabendo que Tamar o enganara, talvez pudesse aumentar ainda mais a sua ira. Entretanto, Judá assume responsabilidade em tudo que aconteceu. “Mais justa é ela do que eu, porquanto não a dei a Sela, meu filho” (Gn 38.26). Esta reviravolta também necessita acontecer ainda hoje sempre que alguém é acusado de faltas. Muitas pessoas estão afastadas do convívio da igreja porque em algum momento foram desprezadas na sua dignidade ou não foram apoiadas nas suas fraquezas. É raro ver pastores e diretorias com a atitude de Judá. Judá teria muitos e bons argumentos para condenar Tamar. O pecado dele, segundo Lutero, poderia ser visto como fraqueza momentânea. Tamar em contrapartida planejou o incesto e induziu Judá a cometê-lo com ela. A ira de Judá poderia se erguer acima da raiva de Tamar. Mas Judá altera o final da história. Assume-se como culpado em todo o episódio. Acolhe Tamar como filha e não como mulher. Disciplina começa pelo coração do disciplinador que observa a ação de Deus. Disciplina começa pelo perdão daquele que é nosso irmão de sangue, o sangue da estrangeira, Jesus, o Cristo. Viver da graça, consciente dos próprios pecados e não se erguer como juiz do pecado alheio é talvez a lição que este episódio ilumina sobre a nossa Epifania. Deus brilha com o seu perdão exatamente onde o pecado trouxe raiva, ira e escuridão. Sugestão de sermão Somente Deus pode iluminar a escuridão do pecado 1. Como Tamar, queremos fazer o que é certo, no entanto, erramos
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2. Como Judá, muitas vezes somos fracos em fazer o que é certo, e erramos Transição : Deus nos guarde e proteja em nossas faltas; Deus nos conserve em honra e dignidade diante das pessoas. Entretanto 1. Deus nos confronta e revela os erros de pessoas como Judá e Tamar 2. Deus nos dê a humildade de Judá diante do pecado dos outros 3. O perdão seja a luz que nos guia por amor do nosso irmão, filho de Judá e Tamar e filho de Deus, Jesus Cristo 4. Deus nos ajude a devolver a paz aos que caíram.

Paulo P. Weirich/São Leopoldo, RS

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JOSÉ,

O

FILHO

DE

JACÓ

5º Domingo de Epifania Gênesis 41

Leituras bíblicas sugeridas para o dia: Sl 105.1-5, 16-22 Gn 41.1-16, 25-48 At 7.1-14 Jo 4.1-6 Contexto (litúrgico e histórico) O período de Epifania enfoca tradicionalmente a missão de Deus através da igreja, proclamando Cristo para todos! Começando com a visita dos magos (três reis magos?) ao menino Jesus, antecipando o alcance mundial da obra salvadora de Jesus, e culminando com a transfiguração, este período enfoca as manifestações de Jesus como sendo o Messias prometido, o Salvador do mundo! No texto de Gn 41 temos um rei (Faraó); temos Deus revelando a sua vontade através de sonhos (cf. Mt 2.12: os magos foram advertidos em sonho); temos um servo de Deus, José, através de quem Deus quer preservar a vida da família de Jacó, detentora da Promessa e da qual viria o Messias = Cristo! Sendo este domingo o único reservado para a história de José, não podem ser ignorados os fatos que antecedem e seguem este capítulo 41: Filho de Raquel, a mulher amada por Jacó (Gn 29.20,30); filho querido de Jacó (Gn 37.3), sonhou que sua família se ajoelharia diante dele (Gn 37.5-10); sofreu o ciúme e a vingança dos irmãos, tendo sido vendido ao Egito (Gn 37.4, 12-36) onde amargou uma injustiça e foi lançado na prisão (Gn 39 e 40). O capítulo 41 mostra a virada, muito bem interpretada por José em Gn 50.20, 21: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração”.
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Meditação prática V. 1: Faraó – Egito, uma potência mundial na época. Sl 119.46: “Falarei ... na presença dos reis!” Um dos versículos prediletos de Lutero. Vv. 2-4: Vacas gordas, vacas magras: expressão popularizada até o dia de hoje como referência a tempos de fartura e tempos de carestia. A origem desta expressão, bem como a de “7 anos” está neste episódio. V. 8: A perturbação de Faraó: A sabedoria humana e os recursos de adivinhos humanos não conseguiram resolver a angústia do rei. Situações semelhantes: a) O rei Saul, perturbado por um mau espírito, só se acalmava com a música (sacra) de Davi (1 Sm 16.14-23). b) Nabucodonosor não encontrou resposta aos seus sonhos nas interpretações dos magos; mas apareceu Daniel, servo do Deus Altíssimo, que interpretou os sonhos (Dn 2.28). Vv. 9-13: A ingratidão e o “esquecimento” do copeiro vêm à tona com os sonhos de Faraó. Apesar do “esquecimento” do copeiro, Deus não se esqueceu de José e fez o copeiro lembrar-se dele e da capacidade que Deus lhe tinha concedido de interpretar sonhos. Vv. 14-36: Este é o momento central do episódio, quando José tem oportunidade de testemunhar o seu Deus e a sua fé diante do Faraó: vv. 16, 25, 28, 32. Temos que lembrar que o Egito era um país de muitos deuses (apesar de, durante certas dinastias, haver dominado o monoteísmo) e a pregação de José testemunhou um Deus diferente para os egípcios. Poderia ser uma afronta à religião oficial, mas foi bem aceito o testemunho de José e o Deus de Jacó. Ele não se intimidou, nem “puxou a brasa para a sua sardinha”, mas deu todo o crédito e glória ao seu Deus, em quem confiava acima de todas as coisas (Gn 39.9b). Vv. 37-38: “Homem em quem há o Espírito de Deus” – Podemos lembrar a escolha dos sete diáconos em Atos 6.3: “Escolhei entre vós sete homens ... cheios do Espírito.” Quem vive em nós, quem age por nosso intermédio é o Espírito do nosso Deus, que nos capacita ao testemunho com destemor e à ação! Vv. 39-44: (v.43): Começam a cumprir-se os sonhos do próprio José (Gn 37.6-10), que se completam quando os irmãos se inclinam diante dele (Gn 42.6, 9; 43.26). Merece ser lembrada a recomendação apostólica de 1 Pe 5.6,7: “Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”!
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Vv. 45-57: As conseqüências imediatas da profecia de José. Possibilidade de uso homilético Levando em conta que “tudo que foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15.4), buscamos também o ensino nesta história de José, para o nosso consolo e para crescermos na esperança: - “Deus escreve reto por linhas tortas” é um provérbio popular que cabe bem neste episódio. E eu costumo acrescentar: “ ... e como é difícil entender a letra de Deus!” Enquanto os fatos estão ocorrendo, não temos condições de interpretá-los e saber a sua finalidade. - “Sê fiel, meu amigo, na sorte ou na dor ...” diz um cântico (Louvai ao Senhor, nº 116). José, apesar de solitário na sua religião (fé) num país estranho, não renegou o Deus de seus pais Abraão, Isaque e Jacó. No tempo certo, Deus o restabeleceu das tragédias que sofrera. - O testemunho de fé que José dá é impressionante! Em momento algum ele atribui a si próprio a capacidade de interpretar os sonhos. “A nossa suficiência vem de Deus” (2 Co 3.5). - Todo sofredor e vitorioso do Antigo Testamento pode ser considerado, de certa forma, um protótipo do sofrimento e da vitória de Cristo! Proposta de estrutura de sermão Texto: Gn 41.32b: “A coisa é estabelecida por Deus, e Deus se apressa a fazê-la.” Tema: Deus escreve reto por linhas tortas. Objetivo: Acentuar a graça divina, que em Cristo vem ao encontro do ser humano sofredor, revertendo a sua situação. Moléstia: - No sofrimento somos tentados a desesperar, a reclamar de Deus! - Na demora em serem atendidos nas orações, muitas pessoas procuram outras soluções. Solução: No momento certo, Deus interfere na história do mundo (Cristo) e na história pessoal de cada um. Introdução: Comentar situações de hoje (e do local, se possível)
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que ilustrem o tema; fazer a ponte para o episódio de José. I – Deus preparou José Breve descrição dos altos e baixos da vida de José. II – Deus cumpriu seu plano: Preservou o povo da promessa. Deste povo nasceu o Messias: - que sofreu injustiça até a morte - que ressuscitou e é Rei eterno Conclusão: Deus está no controle da história e ele é fiel. “Sê fiel até à morte” (Ap 2.10).

Carlos W. Winterle/Nairóbi, Quênia

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OS CAMINHOS DE DEUS SE REVELAM A JACÓ
6º Domingo de Epifania Gênesis 44 e 45

Contexto e informações históricas José ( em hebraico, que significa “Yahweh acrescenta” e mais tarde designado como Zaphnath-paaneah, cuja origem é egípcia, significando “descobridor das coisas ocultas”), foi o décimo primeiro filho de Jacó, nascido de Raquel, citado no livro do Gênesis, no Antigo Testamento, sendo considerado o fundador da Tribo de José, constituída, por sua vez, da Tribo de Efraim e da Tribo de Manassés (seus filhos). Filho preferido de Jacó, apesar de não ser o seu primogênito (mas o primeiro filho da mulher que mais amava), José nunca escondeu a sua posição de superioridade em relação aos outros irmãos, que se ia manifestando através de sonhos em que a sua figura tomava sempre um lugar de destaque e liderança. O favoritismo, de que era alvo por parte do pai, valeu-lhe a malquerença dos irmãos, que o venderam como escravo a mercadores ismaelitas, por 20 moedas (sheqel) de prata. A história de José é trágica. Seus irmãos o odeiam, colocam-no em um poço seco para que morra, mudam de idéia, o vendem para mercadores que o levam para o Egito. No Egito, no ápice de sua prosperidade, a tragédia o atinge novamente e ele vai parar na prisão – de escravo a encarcerado. A situação piorou! Depois disso José é conduzido ao cargo de governador de todo o Egito. Seus irmãos voltam, “por acaso”, a se encontrar com José e são por ele abençoados, mas o temem porque sabem o que fizeram contra ele. No entanto, a história termina da seguinte forma (Gn 50.20): “Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o intentou (tornou) em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”. Outra tradução diz assim: “Vós intentastes mal, mas Deus inverteu o vosso pensamento e fez bem; portanto, foi Deus quem dirigiu a minha vida, e a ele, e não a mim, cabe a punição”.
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Na forma como o texto se encontra traduzido em português podese concluir que Deus tornou o mal em bem. Nesse caso, pode parecer que o mal feito pelos irmãos contra José estava além do alcance de Deus, mas ainda assim, Ele conseguiu transformar o mal em bem, ou seja, a providência de Deus só começaria a partir do mal feito a José. Chamo a atenção para a importância de se estar mais equipado. Observando essa sentença (50.20) na língua hebraica, língua na qual foi escrita, percebe-se que uma tradução mais elucidadora seria: "Vós, na verdade, intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem..." Nas traduções comumente utilizadas aparece "vós intentastes / Deus o tornou". A melhor alternativa de tradução neste caso é a repetição do mesmo verbo da língua original. Assim, pode-se concluir que mesmo o mal feito pelos irmãos de José estava nos desígnios de Deus para que este pudesse abençoar sua família e dar continuidade às promessas de vida que Ele mesmo havia feito aos antepassados de José, ou seja, a providência de Deus estava em enviar José ao Egito, ainda que usando os maus intentos de seus irmãos. Tendo sido, depois, comprado por Potifar (oficial e capitão da guarda do rei do Egito), de quem se tornou o mais fiel e diligente dos criados, foi preso após acusação injusta da mulher do seu amo, depois de uma tentativa frustrada de sedução por parte desta. Na prisão, tornou-se conhecido como intérprete de significado dos sonhos, pelo que é chamado pelo Faraó que, depois de verificar a sua real capacidade, o nomeia governador do Egito (cerca de 1600 a.C.). Texto A família de Jacó era grande e manter a despensa abastecida para sustentá-la não era tarefa fácil. Daí porque os filhos de Jacó pouco tempo depois precisam empreender a sua segunda viagem ao Egito a fim de comprar mais alimento. Em pouco tempo, após a primeira viagem dos irmãos de José, o que eles haviam comprado estava quase no fim. Apesar de Jacó não ter deixado que seu filho Benjamin fosse ao Egito na primeira viagem, agora, na segunda ele o deixa ir, afinal a fome fala mais alto, pois fome dói. A história termina com o reencontro com os seus irmãos, arrependidos, e com a chegada destes, com seu pai, ao Egito. É assim que o povo israelita se instala no Egito, antes de ser escravizado e, mais tarde, libertado sob a liderança de Moisés. A figura de José inspirou vários autores e artistas ao longo da história, devido à riqueza narrativa do relato que é, sem dúvida,
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uma das mais populares gestas bíblicas. Thomas Mann recontou a história em José e seus irmãos e Andrew Lloyd Webber, com José e o deslumbrante manto de mil cores, passou a história para um musical de sucesso. Depois de arrependidos, José ajudou seus 11 irmãos Zebulom, Issacar, Rubem, Naftali, Benjamim, Dã, Simeão, Levi, Judá, Gade e Aser. Quando acabaram os sete anos de fartura, começaram a vir os sete anos de fome, como José tinha predito e havia fome em todas as terras, porém, no Egito havia pão. Depois de algum tempo, também a terra do Egito teve fome e o povo clamou a Faraó e este disse ao povo para procurar José. Então abriu José todos os depósitos, e vendia aos egípcios e também aos estrangeiros, porquanto a fome prevaleceu em todas as terras. Jacó soube que havia trigo no Egito e mandou seus filhos até lá para comprar trigo. Foram todos os seus filhos, menos Benjamim, irmão de José, porque o pai temia que lhe acontecesse algum desastre. José era o governador da terra. Era ele quem vendia a todo o povo da terra e vindo os irmãos de José, prostraram-se diante dele com o rosto em terra. Ele, ao ver seus irmãos, reconheceu-os e lembrou-se dos sonhos que tivera a respeito deles, mas eles não o reconheceram. José fingiu pensar que eram espiões e com ameaças de morte, interrogava. Assim, ele descobriu que seu pai e seu irmão Benjamim estavam bem. Depois de três dias na prisão, José mandou que escolhessem um entre eles para ficar preso em garantia de que trariam o irmão mais novo para provar que não eram espiões e assim salvariam suas vidas. Eles estavam apavorados e, sem saber que José entendia o que diziam, se lamentavam, dizendo ser castigo de Deus, pois pensavam que José havia morrido e culpavam-se por isso. Ele mandou que lhes dessem provisões e mandou-os de volta. O pai, porém, não permitiu que levassem Benjamim ao Egito, como haviam prometido. Depois de algum tempo, tendo acabado o mantimento que trouxeram do Egito, o pai mandou-os de novo até lá e concordou em que levassem Benjamim, caso contrário todos morreriam de fome. Quando José viu Benjamim com eles, mandou que os levassem a sua casa para comerem com ele. Eles estavam muito assustados, mas foram muito bem tratados, beberam e se regalaram com ele, mas a Benjamim mandou que servissem cinco vezes mais que a cada um dos seus irmãos. José mandou que lhes dessem suas provisões e despediu-os, mas preparou uma armadilha para incriminar Benjamim e
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ter motivo para retê-lo. Quando saíram da cidade, mandou que o revistassem, alegando que uma taça havia sumido. Seus irmãos ficaram desesperados quando a taça foi descoberta nas provisões de Benjamim e disseram que seu pai morreria de desgosto se voltassem sem ele. José. Não podendo mais conter-se, explodiu em choro, fazendo-se reconhecer por seus irmãos. Eles ficaram paralisados de medo, mas José os consolava dizendo que não tinham culpa, pois sua vinda para o Egito era providência de Deus para conservar a vida de todos durante o período de fome. Ele mandou vir seu pai, e toda a sua casa para o Egito e deu-lhes posses na terra do Egito, no melhor da terra, na terra de Ramessés. E José sustentou de pão a seu pai, seus irmãos e toda a casa de seu pai, segundo as suas famílias. Sugestões homiléticas No texto de Gn 44 e 45 ficam evidentes diversos eventos tipológicos. Destacamos a partir do texto em estudo a fidelidade, a justiça e o amor de Deus que, em meio às linhas tortuosas da história da humanidade, escreve ("reto por linhas tortas") a história da salvação de seu povo e de toda a humanidade. José, ao encontrar seus irmãos pela segunda vez, na qual ele revelou a sua identidade, manifestou seu amor por eles e sua convicção: "Deus me enviou à frente para salvação" (Gn 45.5; 50.20). Os caminhos de Deus muitas vezes são insondáveis, incompreensíveis para nós, no entanto, ele é um Deus que quer a salvação de todos e, especialmente, jamais desampara os seus filhos. José - modelo de filho de Deus e um "tipo" de Cristo. Seu ato de perdoar os irmãos tipifica o próprio Deus da reconciliação. Mesmo tendo sido odiado, maltratado e vendido, José perdoa seus irmãos. Cristo, mesmo tendo sofrido (e justamente por seu sofrimento) perdoou aos seus agressores e intercedeu por eles. Toda a humanidade é beneficiária do perdão, vida e salvação que Cristo conquistou com sua paixão e morte de cruz. Por causa de toda a humanidade, Cristo sofreu o desamparo do próprio Deus, a dor, a crucificação e a morte. O terceiro grande destaque do texto é o exemplo de Judá, que com sua disposição vicária, é também contado como um "tipo" de Cristo. Judá estava disposto a ser substituto de Benjamin como escravo e estaria até mesmo disposto a morrer por ele. Cristo substituiu toda a humanidade ao sofrer o castigo pelo pecado (não o seu,
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mas o do mundo inteiro), por isso ele é "propiciação pelos nossos pecados". Tema: Deus escreve a história da salvação I. Jamais abandona os que nele crêem II. Perdoa todas as transgressões aos pecadores arrependidos III.Pela morte vicária de Cristo, providencia a salvação da humanidade. Paulo Gerhard Pietzsch/São Leopoldo, RS

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A ALIANÇA

DE

DEUS

COM

ISRAEL

Domingo da Transfiguração Êxodo 24.1-18

Contexto histórico Este texto assinala o clímax do relato iniciado no capítulo 19 de Êxodo. Lá é relatada a subida de Moisés ao Monte Sinai, onde o SENHOR oferece ao seu povo uma aliança. O povo estava sendo convidado amorosamente a ouvir a voz de Deus e guardar essa aliança, por meio da obediência à lei (em especial os Dez Mandamentos), como resposta ao amor primeiro de Deus, uma vez que Ele os havia libertado da escravidão na terra do Egito (Êx 19.36). Já no texto de Êxodo 24.1-18, essa aliança é confirmada de forma solene, por meio de uma grande e gloriosa cerimônia. O texto é rico em detalhes, mas à luz do Novo Testamento, fica evidente a revelação gloriosa de Deus nessa aliança de sangue, cujo mediador era Moisés. Seu paralelo no Novo Testamento mostra a revelação gloriosa de Cristo na nova aliança de sangue (Mt 26.26-28), sendo Ele mesmo o único Mediador (Hb 9.11-15). Texto – meditação prática O texto inicia com uma ordem do SENHOR a Moisés para que subisse até Ele, juntamente com Arão, Nadabe, Abiú e setenta anciãos de Israel (v. 1). Nadabe e Abiú eram filhos de Arão. Em Êx 3.16 vemos que os anciãos aparecem como representantes e autoridades do povo israelita. A ordem de ir até o SENHOR envolvia também adoração, mas de longe, pois apenas Moisés subiria ao cume do monte (v. 2). Isso deixa claro o privilegiado papel de mediador exercido por Moisés. Os termos da aliança não envolviam apenas o cumprimento dos Dez Mandamentos (que no texto original hebraico são chamados de “as palavras”), mas também todas as outras leis (“estatutos”) que iriam reger a vida deles como povo de Deus (Êx 20.22-23.33). A leitura e aceitação pública dos termos da aliança (v. 3) e o posterior registro escrito desses termos (v. 4) era essencial para a sua celebração. O povo, então, responde unânime e solenemente ser obediente aos termos da aliança (v. 3).
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Entretanto, este solene compromisso de obediência por parte do povo não nos possibilita ver essa aliança em termos legalistas. A resposta do povo trata-se tão somente de uma resposta. As grandes provas de amor haviam sido dadas primeiro por Deus, ao libertar seu povo do Egito, e agora, amparados pelo conforto desse amor, o povo decide observar os preceitos divinos. Mesmo assim, não era uma aliança condicionada por obras, mas por amor. Se assim não fosse, o povo estaria perdido. Mais tarde, pelas descrições dos profetas, fica claro que a resposta do povo não havia sido cumprida na íntegra – eles haviam deixado muito a desejar: ídolos cananeus, rituais morais e permissivos e o conseqüente exílio babilônico. Então, a aliança seria quebrada não pela parte de Deus, mas do povo. Em outras palavras, apesar do comprometimento do povo, e de haver condições impostas (Êx 19.5), a aliança de Deus é, acima de tudo, incondicional, “sem nenhum ou mérito ou dignidade” (3º Artigo) do povo. Moisés, então, levantou-se cedo, de madrugada ainda, e construiu um altar (que representava a presença do SENHOR) e doze colunas, que simbolizavam as doze tribos de Israel, e que seriam também memoriais dessa memorável aliança (v. 4). Enviou ainda alguns jovens para uma tarefa puramente prática: queimar animais em sacrifício ao SENHOR e matar touros como ofertas de paz (v. 5). Moisés usa metade do sangue dos animais sacrificados para derramá-la sobre o altar (v. 6). A outra metade, distribuída em bacias, é aspergida sobre o povo (v. 8), após a leitura do livro da aliança (Êx 21-23) e de nova decisão de obediência por parte do povo (v. 7). Durante a aspersão sobre o povo, Moisés reforça o sentido de que o sangue sela a aliança que o Senhor fez com o seu povo por meio dos seus mandamentos. Esse reforço de Moisés no versículo 8 reaparece na instituição da Santa Ceia, onde “o próprio Cristo seria, na cruz, não apenas o mediador de uma aliança (como Moisés), mas também o sacrifício que iniciaria a aliança”1 . O paralelo está principalmente em Hebreus 9.11-22. Com o seu sacrifício, Cristo prova ser o Mediador da nova aliança, “para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança” (Hb 9.15), isto é, onde os homens anularam a aliança divina por causa dos seus pecados (Jr 31.31-34; Hb 8.9), Cristo reconciliou novamente a humanidade com Deus (2 Co 5.19-21), dando provas do seu inestimável amor, tornando a aliança de Moisés

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COLE, Êxodo – Introdução e Comentário, p. 180.

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antiquada e envelhecida (Hb 8.13), sombra (Cl 2.17) da nova aliança no seu sangue. Uma revelação proléptica da comunhão com Deus na eternidade é narrada nos versículos 9 a 11. Um milagre acontece quando os homens vêem o Deus de Israel: eles permanecem vivos (“Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel” – v. 11, isto é, Deus não lhes castigou). Isto é completamente inédito no AT (Êx 33.20), e Isaías (Is 6.5), Gideão (Jz 6.22,23) e o próprio Moisés (Êx 3.6) sabiam muito bem disso. É por isso que os anciãos também não ousaram levantar os olhos acima do estrado dos pés do SENHOR (v. 10). Glória, amor e beleza se manifestam nessa visão da vida eterna – após os trovões e relâmpagos (Êx 19.18-21), Deus agora mostra o esplendor do azul da pedra de safira, o estrado divino da cor do firmamento. Depois de descer do monte, Moisés é novamente convidado a ir até o Senhor, no alto do monte, para receber as placas de pedra que continham suas leis, entre elas os Dez Mandamentos, pois elas deveriam ser transmitidas ao povo (v. 12). Juntamente com Josué, Moisés obedece ao chamado de Deus, deixando Arão e Hur por encarregados de resolver quaisquer questões entre o povo (v. 14). Quando chega ao cume, onde ficou cerca de 40 dias (v. 18), Moisés experimenta a glória shekinah de Deus, envolta em uma nuvem, e cujo aspecto era como um “fogo consumidor” (v.17). Vale a pena entender o sentido da frase: “e a glória do Senhor pousou [da raiz hebraica shakán ] sobre o monte Sinai”, que quer expressar a manifestação visível da presença divina aos homens, como também no verbo grego correspondente em Jo 1.14 (“O Verbo [Jesus Cristo] habitou [“tabernaculou”] entre nós”). O SENHOR passa, portanto, a habitar no Monte Sinai. Possibilidades de uso homilético a) Aproveitando o contexto litúrgico, por ser o último domingo após Epifania, poderia ser abordado o tema da glória visível de Deus entre os homens, pousando (“habitando”) sobre o Sinai (Antiga Aliança), e habitando (Jo 1.14) entre nós, por meio de Jesus e sua morte na cruz (Nova Aliança). b) Um pouco do céu na terra é experimentado por Moisés na manifestação da glória de Deus (Epifania), e também por Pedro, Tiago e João na transfiguração de Jesus (Mt 17.1-9), sua glória revelada mesmo em meio ao caminho da cruz. c) O privilegiado papel mediador de Moisés, na antiga aliança,
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tipo de Cristo. O paralelo está em Hb 9.11-22, onde Cristo é apresentado como o único Mediador da nova aliança, pelo derramamento do seu sangue. d) A fundamentação da aliança de Deus – não em ouro ou prata, nem no sangue de bodes ou touros, mas no precioso sangue de Cristo, uma aliança fundamentada no seu amor incondicional (Mt 26.2628; Hb 9.13,14). Proposta de estrutura de sermão ALIANÇA DE SANGUE E DE AMOR! Introdução: a) Vocês conhecem ou usam uma aliança. O que ela significa? No dia da promessa matrimonial, é dito: “Receba esta aliança em sinal do meu amor e fidelidade a você”. Aliança lembra amor e fidelidade. b) Na Revista Veja, de 14/09/2005, o colunista Stephen Kanitz escreveu um artigo intitulado “O segredo do casamento”. Nele, o autor diz, entre outras coisas, que o segredo do casamento não é conquistar um novo parceiro, mas sim conquistar sempre de novo o seu cônjuge. Texto: Em Êx 24.1-18, Deus concretiza uma aliança com seu povo, por meio de leis e prescrições, especialmente os Dez Mandamentos. (Explicar em traços gerais o texto para que os ouvintes compreendam principalmente a questão do sangue aspergido sobre o povo de Israel no versículo 8). Por meio desta aliança, Deus estava dizendo ao povo: “Quero ser o Deus de vocês, como tenho sido até aqui”. A promessa de Deus era “amor e fidelidade” para sempre. E o povo estava sendo conclamado a responder a esta aliança, ouvindo a sua voz, também em amor e fidelidade. Contexto vetero e neotestamentário: a) O povo não foi fiel e amoroso. Preferiu buscar outros amantes, deuses falsos da religião cananéia. Incorporou rituais imorais e permissivos ao culto hebraico. Conseqüência: quebrou a aliança, “o casamento” – ficou sozinho e ainda foi levado cativo à Babilônia. O problema deste “casamento” entre Deus e seu povo não estava em Deus, mas no fato da traição e falta de amor do seu povo. b) Como Deus reagiu? Reagiu com o racionalismo do “antes só do que mal acompanhado”? NÃO! Ele deu crédito ao amor e foi atrás do seu “cônjuge”. Preferiu fazer uma “nova aliança”, um “novo casamento”. Somente com uma grande prova de amor incondicional,
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Deus poderia libertar os homens do seu desamor e infidelidade. Seria uma relação baseada no perdão. O povo, outrora apóstata, agora poderia usufruir desta grande e maravilhosa relação de amor. c) A nova aliança de amor foi cumprida quando Cristo derramou seu sangue por nós (Mt 26.26-28). Ali ficou estampado de forma visível que a nossa traição e desamor [nossos pecados] haviam sido perdoados por esse Deus que vem atrás de nós para nos conquistar novamente para Ele. Não era uma aliança humana, feita com ouro, nem uma aliança por meio do sangue de bodes e de touros, mas uma aliança de sangue e amor de Cristo. Aplicação: a) O que vamos fazer diante de tão grande prova de amor? Somos fiéis e amorosos com esse Deus que enviou o seu Filho? Nem sempre, e nem por isso Deus deixa de tentar nos conquistar novamente. b) Esse amor incondicional é o mesmo que nos move a obedecermos a Deus, a termos o compromisso de amor e fidelidade na sua nova aliança. Conclusão: a) A antiga aliança já mostrava o traço amoroso de Deus, em se revelar aos homens com sua proteção, cuidado e bênção. A nova aliança, com Cristo, reafirma o propósito de Deus em ir atrás da humanidade, mesmo quando nos faltam fidelidade e amor. b) Lembre-se: o segredo do casamento não é ir atrás de outro parceiro, mas conquistar sempre de novo o mesmo. Isto Deus fez com o povo de Israel, mesmo quando o povo quebrara a antiga aliança. Isto Deus faz conosco, por meio do seu perdão em Cristo.

Júlio Jandt/Barra do Garças, MT

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PECADO

E

GRAÇA

Quarta-feira de Cinzas Êxodo 32. 25-35

Contexto O contexto dentro do Pentateuco é a “revelação do SENHOR Deus no monte Sinai” (Êx 19.1 – Nm 10.10), a revelação do Deus que é Salvador, Santo e Exigente. Uma das partes mais importantes de todo livro vai do cap. 1924, onde temos o relato a respeito da Lei e da aliança que Deus faz com o povo. O texto em estudo encontra-se especificamente dentro da parte que trata da “violação e renovação da aliança (32.1 – 34.35), conforme Lasor. É possível ver que “mesmo se o povo for infiel, o Senhor continuará sendo fiel” (NTLH de estudo, introdução ao Pentateuco). É importante observar a divisão proposta no livro Introdução ao AT, de Lasor, p.69: Bezerro de ouro (32.1-35) Presença de Deus com Moisés e o povo (33.1-23) Renovação da aliança (34.1-35) Esta divisão possibilita vislumbramos melhor a temática proposta: “Pecado e graça”. Ainda, conforme Lasor, “a aliança no Sinai segue bem de perto a estrutura dos tratados internacionais entre um senhor feudal (ou suserano) do antigo Oriente Próximo e as pessoas a ele sujeitas (vassalos)” (p.79) e uma das estipulações do tratado consistia na exigência básica para a aliança: “Não terás outros deuses diante de mim” (20.3). No cap. 32 temos o relato da violação da aliança por parte de Israel. Os israelitas infringiram de maneira gritante o segundo mandamento, Êx 20. 4-6 (p.83). Texto V. 25: Chama a atenção o fato de que o povo estava “desenfreado”(ARA), “sem controle” (NTLH). Estavam sem a presença de seu líder, seu pastor. É sumamente importante a presença de um líder.
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Mais tarde vemos que “o relato da idolatria de Israel termina com o pleno reconhecimento da função definitiva de Moisés como líder (34.29-35). O que ocasionou a confecção do bezerro de ouro foi o fato de o povo rejeitar sua liderança [de Moisés] (32.1ss)” (Lasor, p.86). Vv. 26-29: Merece atenção o fato de Moisés chamar “quem estiver do lado de Deus” para ficar ao seu lado. Note-se que os auxiliares do sacerdote no serviço da tenda são os que estão do lado de Moisés, os levitas. Vem a ordem, e eles matam “mais ou menos três mil homens”. Tem cheiro de sacrifício para aplacar a ira divina. Ainda, o salário do pecado é morte (Rm 6.23). Lutero, ao falar sobre o quinto mandamento, diz que “neste mandamento tem uma obra muito abrangente e que expulsa muitos vícios. Ela se chama mansidão. Agora, existem dois tipos de mansidão. A primeira tem uma aparência muito bonita, mas não há nada atrás dela ... A outra mansidão é boa em realidade e é manifestada frente aos adversários e inimigos” (OS, vol. 2, p.160). Adiante neste escrito, Lutero cita o texto em estudo ao dizer: “Temos que cuidar, no entanto, para não sermos mansos quanto a honra e o mandamento de Deus. Pois está escrito acerca de Moisés que ele era o mais manso dos homens sobre a face da terra; ainda assim, quando os judeus adoraram o bezerro de ouro e enfureceram a Deus, Moisés matou muitos deles e, com isto, levou Deus novamente a conciliação” (OS, vol.2, p.162). Nossa conciliação com Deus foi garantida na cruz com o sacrifício de Cristo, a ira divina foi aplacada. Os levitas “se consagraram como sacerdotes”, nós, devido à obra do grande sumo sacerdote Jesus (Hb 4.14), fazemos parte do sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2.5,9). Vv. 30-33: Aqui se destaca Moisés como mediador entre Deus e o povo. Ele “atua como mediador da aliança” (Lasor, p.85). Moisés vai pedir perdão pelo pecado que o povo cometeu. Jesus nos defende diante do Pai (1 Jo 2.1), Ele é nosso intercessor. Moisés, a fim de que o povo recebesse perdão de Deus, argumentou: “se não quiseres perdoar, então tira o meu nome do teu livro”. Notemos a que ponto Moisés chegou em sua argumentação! Jesus, a fim de que recebêssemos perdão, não mediu esforços em suas ações. Vv. 34-35: Vemos o amor gracioso de Deus se manifestar para com o povo pecador na medida em que, ao seguir viagem, seriam acompanhados por um Anjo que representa o próprio Deus. A presença protetora de Deus está garantida para o povo. Somos um povo pecador, o povo de Deus, mas foi para este povo que Cristo disse: “Eis que estou convosco todos os dias”. Somos
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morada do Espírito Santo. A companhia de Deus é uma constante na vida do crente. No entanto, como conseqüência do pecado, Deus castiga o povo com uma doença. É interessante que o povo permanece com a garantia de ser acompanhado por Deus, porém doente. Vale lembrar que Paulo pede para que Deus lhe tire o “espinho na carne” e Deus lhe diz: “a minha graça te basta”. Pecado e graça. A graça de Deus sempre está ao alcance daqueles que têm fé em Cristo. Mesmo assim, as conseqüências pelos pecados cometidos são inevitáveis. No texto em estudo foi o próprio Deus que castigou. No entanto podemos ser castigados pelas autoridades instituídas por Deus. Deus realiza sua justiça diretamente, como foi o caso, ou de forma mediata através das ordens econômica, política e eclesiástica. Sugestão homilética Tema: Pecado e graça Introdução: Sendo Deus tão bondoso, poderia castigar alguém? Os pecados que cometo têm alguma conseqüência negativa em minha vida, algum castigo, algum fardo ou pecado, castigo, perdão, graça não passam de idéias abstratas apresentadas na igreja? I – um povo que peca (enumerar pecados e situações que propiciam a pergunta: será que não é castigo de Deus?) II – a necessidade da lei que acusa o pecado e do líder para pregar Lei e Evangelho. III – Moisés tipo de mediador, Cristo o antítipo IV – Pecado e graça; pecadores com a companhia de Deus garantida; já e ainda não; sofrimento em decorrência de pecados cometidos por nós mesmos ou por aqueles que nos cercam. (Deus realizando justiça de forma mediata e imediata – catástrofes e ordens). Marco Antônio Meyer Jacobsen/Porto Alegre, RS

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O SOFRIMENTO

DE

ISRAEL

1º Domingo na Quaresma Êxodo 1

Contexto litúrgico/histórico O período da quaresma nos dá oportunidade para refletirmos sobre a nossa vida. É tempo de avaliarmos nossa relação com Deus e com o próximo. Por um lado, olhamos entristecidos para nossos pecados e todo o sofrimento que eles produzem. Por outro, vemos o perdão de Deus na cruz de Cristo que traz luz e esperança para nossa vida. Esse é o chamado divino ao arrependimento sincero e à fé. A realidade do povo de Deus no Egito mostra como Ele usa o sofrimento e as dores para revelar a sua justiça e chamar ao arrependimento. Se não revelasse sua ira contra o pecado, não somente iríamos ignorá-lo, mas acumularíamos muitos outros pecados afastando-nos, cada vez mais, de Deus. Da mesma forma, se não mostrasse sua misericórdia, o medo nos levaria ao desespero. O sofrimento do povo de Israel não tinha como objetivo destruir, mas fazer com que olhassem para o Senhor e depositassem a confiança somente nele. Deus não é causador do sofrimento. A causa está no pecado do povo. E a tirania do Faraó é o instrumento para despertálos de sua passividade espiritual. A ação da misericórdia divina é vista claramente na repetição de três termos usados em Gênesis 1.28: “foram fecundos... aumentaram muito... se multiplicaram” (vv. 7,12). Assim, desiludido com sua situação e reconhecendo o amor divino, o povo clamou por misericórdia (Êx 3.7). Texto: meditação prática Esse texto vem ao encontro das preocupações do povo de Deus na atualidade. Muitas vezes Deus é questionado diante da doença, da insegurança, da violência, da fome, da miséria e de tantas outras mazelas do mundo pós-moderno. Por que Deus permite isso? Por que acontece isso comigo? Por quê? Por quê? Seguidamente ficamos sem repostas diante de tantas perguntas. Ou melhor, muitas repostas são sugeridas. Em sua grande maioria tentam desviar o foco de Deus jogando a culpa no diabo, na falta de
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fé, etc. Deus sempre aparece como “bonzinho” e “não pode nos ajudar a menos que façamos a nossa parte”. Respostas agradáveis que fazem com que as pessoas se coloquem como vítimas ou como únicas responsáveis por suas vidas. O texto não nos deixa enganar. Deus não é “bonzinho”, Deus é justo e não tolera o pecado. Ele não permite que seu povo se desvie de seu caminho e perca o foco de sua fé (Hb 12). Como diz Lutero: “este também é o propósito dessa passagem, ensinar-nos qual é a natureza de Deus. Ele é, de fato, o libertador e vencedor da morte. Mas assim como liberta, destrói; assim como faz viver, condena à morte”. Embora a causa do sofrimento seja o nosso pecado e o instrumento seja o mundo e o diabo, o poder e a vontade são de Deus. Ele tem o controle de tudo e de todos. O povo de Israel tinha vivido muitos anos sob a proteção do Faraó. Uma vida segura e com muita fartura e bênçãos como nos relatam os versículos 1-7. Isso causou um certo conformismo, como vemos em Êxodo 14.12; 16.3; 17.3. Embora vivessem sob o domínio de um rei estranho, estavam confortáveis em seu ofício de pastores nas regiões mais férteis do Egito. Isso, com certeza, os fez esquecer ou, pelo menos, desistir das promessas feitas por Deus a Abraão. Por isso, Deus permitiu que sobreviesse tanto sofrimento sobre eles (vv. 8-14). O objetivo era abrir-lhes os olhos. Eles precisavam ver e sentir “na pele” que aquela não era a sua terra, não era seu governo e aqueles ídolos não eram o seu Deus. Havia a necessidade do povo perder a ilusão e ver a realidade. O Senhor queria mostrar que aquilo não era um sonho e sim um pesadelo, que não era um paraíso, mas um exílio. É exatamente nesse contexto que Deus se revela misericordioso. Mesmo em meio a tanto sofrimento, o povo continuava a crescer e se espalhar. Ele providencia livramento para os filhos deles. Usa as parteiras como instrumento de sua graça. Deus contrasta o seu poder com o poder do Faraó. Se o rei do Egito tinha poder para oprimir, o Senhor tem poder para fortalecer e libertar. Assim Ele revelou-se como o único meio de salvação. Deus não quer que justifiquemos suas ações no mundo. Quer apenas que mostremos a realidade cruel desse mundo, com a aplicação da Lei e apontemos para o Caminho pregando o Evangelho. Uso homilético Com certeza essa é uma boa oportunidade para refletirmos sobre a atitude do povo de Deus com relação ao mundo em que vivemos. Precisamos apontar para a apatia ou conformismo que assolam nossas
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

congregações. Seguidamente ouvimos expressões como: “As coisas são assim mesmo!” ou “Todo mundo faz!”. Isso revela a atitude de um povo que está conformado e até confortável nesse mundo. Precisamos fazer com que esse povo olhe em sua volta. Eles precisam ver e sentir “na pele” que esta não é a sua terra, este não é seu governo e esses ídolos (tecnologia, bens, saúde, etc.) não são o seu Deus. O Senhor permite o crescimento da violência, da corrupção, do desemprego, da fome e das catástrofes ambientais, porque quer que o seu povo perca a ilusão desse mundo e busque nEle segurança, paz e proteção. Por isso podemos, com toda a confiança, anunciar todas as bênçãos que Deus tem para oferecer. A Palavra que é a base para uma vida cristã plena. O Batismo que nos garante o perdão e a salvação. A Santa Ceia que nos alimenta e fortalece para a vida diária. Além das bênçãos incontáveis e das oportunidades que temos de transformar esse mundo através do nosso testemunho e do amor cristão. Esboço: Tema: “Ouçamos o chamado de Deus” 1. Ao arrependimento (vv.9-11,13-16) - Pela realidade do mundo - Pelas dificuldades - Pela desilusão com as coisas terrenas 2. À fé (vv. 7,12,17-21) - Pela sua misericórdia revelada em meio às dificuldades - Pela sua ação graciosa entre nós - Pelos meios da graça 3. Ao testemunho - Através de uma vida de temor e confiança (v.17) - Para que todos sejam abençoados por Deus (vv.20,21).

Cezar Squiavo Schuquel/São Leopoldo, RS

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A FUGA

DE

MOISÉS

2º Domingo na Quaresma Êxodo 2.11-25

Contexto O menino Moisés, neste meio tempo, havia sorvido não somente o leite de sua mãe, mas também o espírito hebraico e foi ensinado a respeito de sua descendência e da libertação que seria necessária ao seu povo A princesa egípcia o havia entregue à sua mãe natural para que esta o amamentasse e o criasse. Ele havia, assim, se tornado filho legal de uma mulher, permanecendo, internamente, filho de outra mulher. Segundo Kurz, embora a princesa lhe tenha dado o nome egípcio de “Mousheh” – “salvo das águas” – na mente do Senhor já havia mudado para “Mosheh”, o que foi “tirado das águas” é agora “aquele que tira (das águas)” (cf. Lange). Interessante que foi então a própria rainha do Egito que trouxe o libertador e vingador de Israel, ensinando-o na cultura e sabedoria do Egito e, com isto, de certa forma, preparando-o para sua futura vocação. Em nosso texto Moisés tem de fugir para o deserto, onde Deus também o prepara. Deus guia Moisés, seja no perigo das águas, seja no do árido deserto, onde ele se refugia. Através de inesperadas e muitas vezes espetaculares situações, Deus vai guiando sua história e levando a termo sua promessa que vem para o nosso bem. Assim Ele também orienta e guia nossa vida por águas e desertos. Texto V. 11: “Moisés já era homem feito”. De acordo com At. 7.23, ele estava com quarenta anos então. Em Hb 11.24 vemos que Moisés ficara fiel à sua tradição e vocação. E Lange faz interessante comparação entre ele e o príncipe holandês Guilherme de Orange, ou o Tácito: Guilherme, o tácito ou o silencioso, era conhecido por não se manifestar sobre assuntos polêmicos ou de Estado em público ou sequer em geral, e no entanto tornou-se grande figura nas vitórias e libertação e independência holandesa diante dos espanhóis. Moisés aprendera, assim como Guilherme mais tarde, a ser silencioso e a conter-se, até que uma ocasião especial se manifeste e cause nele a
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

chama que o leva a novos destinos. “Viu um egípcio batendo num israelita” – nesta frase esconde-se a intensa emoção, que fervia no seu peito, com a qual Moisés agora decide sobre seu futuro. V. 12: “Moisés olhou para os lados” antes de cometer sua ação. Num certo sentido, isto mostra maturidade e autocontenção, alguém que sabe controlar seus ímpetos, por outro lado uma certa imaturidade na fé: sua ação não foi simples assassinato, nem foi simples autodefesa. Lange afirma que esta ação não podia contar com uma paz de consciência pura, e por meio dela ele antecipa a providência divina. Lange discorda de Kurtz para quem o ato foi de pura “sede carnal de matar”. Mas também não pode ser considerado um simples ato de fé, embora sua ação ilícita fosse também uma manifestação de sua fé. Nesta ação ele pode ter se iludido pelo sentimento de ser um príncipe egípcio – como Davi pode ter sido levado, em seu pecado em relação a Urias, pelo sentimento de ser um dos monarcas absolutos orientais de sua época. Mas assim mesmo transparece sua fé, em certo ponto, na ilicitude e caráter criminoso de sua ação, fé esta a que Estêvão acusará seus ouvintes judeus de não terem! (confira Atos 7). V. 14: O judeu que pergunta aqui manifesta justamente aquela incredulidade da qual Estêvão acusará seus ouvintes, que terminarão por executarem-no, At. 7. V. 15: Moisés foge para a terra dos midianitas. Este povo se estabelecera em dois lugares: um grupo perto de Moabe, e outro, mais nômade, na península do Sinai. Estes haviam permanecido mais fiéis à tradição semítica do que os midianitas do outro lado que haviam aderido ao culto pagão e voluptuoso de Baal. Jetro também é chamado de Reuel (amigo de Deus). Ele era sacerdote. V. 16: “Perto de um poço” lembra caso similar em que Jacó ajudou Raquel junto ao poço, cf. Gn 29. V. 22: Gérson: “hóspede” ou “constante peregrino”: ele ora viveu na corte egípcia, ora na terra dos nômades midianitas com o sacerdote daquele povo. Zípora, sua mulher, não o compreendia bem (cf. 4.24). Enquanto peregrino, ele andava pelo árido deserto e ficou no meio de um povo que era quase o seu próprio. Mas ainda não era o seu destino: a vista, a partir do monte Nebo, da terra de Canaã era para ele como uma promessa, a de entrar um dia numa nova pátria. Mesmo se não entrasse pessoalmente, seu povo o faria, e para esta tarefa Deus o estava preparando e guiando no meio das provações e áridos desertos. A quaresma também é um “deserto” espiritual em que, como
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peregrinos, caminhando nas pegadas da via dolorosa do Senhor até sua morte, nos purificamos e nos equipamos para seguirmos adiante na caminhada e missão de nossa vida e igreja rumo à nova pátria, que Jesus nos conseguiu com sua morte e ressurreição. V. 23: O rei assassino de crianças acabou morrendo, mas mesmo seu sucessor continuou a opressão do povo de Israel. Deus não estava alheio a esse sofrimento, seus ouvidos captaram seu grito e choro de dor, ele não esqueceu de sua aliança e promessa feita aos primeiro patriarcas (veja o estudo para o dia de Natal de 2006), e Deus tomaria suas providência como sendo verdadeiramente o seu Deus. (Os pensamentos exegéticos deste estudo foram fundamentados principalmente em John P. Lange, Exodus / Leviticus,Grand Rapids, [s.d.]). Pensamentos homiléticos Uma mensagem poderia ser estruturada em torno de três pontos, como segue: DO DESERTO VEM A SALVAÇÃO 1. A ação ambígua e contraditória do crente Moisés. Uma imagem de nossas escolhas éticas errôneas, embora com boas intenções. 2. Deus escreve direito sobre linhas tortas: o cuidado divino sobre Moisés e sua bênção sobre ele. 3. Deus apronta Moisés para sua missão libertadora: ele não ignora o sofrimento humano nem esquece sua promessa. A quaresma nos lembra que para libertar os homens do sofrimento do pecado e do mal, Deus fez o seu filho amado passar pelo deserto (Mt. 4) do serviço e do sofrimento com sua morte sacrificial (cf. simbolizado pelo «sacrifício» de Isaque, o filho da promessa, feito pelo seu pai Abraão).

Manfred Zeuch/Edmonton, Canadá

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DEUS CHAMA MOISÉS
3º Domingo na Quaresma Êxodo 3

O contexto do capítulo 3 V. 5: Lugar sagrado – Moisés não se encontrava em um templo erigido por mãos humanas, mas sim, perto de um arbusto que Deus escolhera para manifestar a sua presença visivelmente. A razão pela qual Deus utiliza uma ou outra manifestação não é a tônica aqui; o foco está no fato que Deus se manifesta através de sua Palavra. Por estar em um lugar sagrado, Moisés tira respeitosamente suas sandálias, mantém-se a distância e evita olhar diretamente para o lugar onde Deus se manifestava, significando assim uma profunda reverência ao Senhor Deus. V. 6: O Deus de Abraão – Deus se apresenta no tempo finito, que é o nosso tempo, para nos levar a compreender que Ele está efetivamente em nossa vida, manifestando-se no tempo e no espaço em que estamos, a fim de percebermos que os acontecimentos históricos não são aleatórios, mas que fazem parte da sabedoria divina. A Abraão Deus prometera que, pela fé, seria o pai de uma grande nação [(Hebreus 11.11): “Foi pela fé que Abraão se tornou pai, embora fosse velho demais e a própria Sara não pudesse mais ter filhos. Ele creu que Deus ia cumprir a sua promessa”] e assim, efetivamente, aconteceu. Através da inclusão dos nomes de Isaque e Jacó, Deus lembra a Moisés que ele e o povo de Israel estavam incluídos na promessa feita a Abraão, a qual passa de geração em geração a todos que seguem e praticam a lei do Senhor. V. 7: Eu tenho visto [...] ouvido o pedido de socorro – Deus não é um deus surdo sem contato com o seu povo, como o são os falsos deuses (ídolos), os quais eram e continuam sendo cultuados pelos seres humanos. O Senhor Deus está atento ao clamor dos seus filhos, está interessado na real necessidade do seu povo e atua profundamente na vida cotidiana de todas as suas criaturas. Ele não desampara a sua obra, entregando-a ao acaso. Antes, como um Pai amoroso, vê e escuta o que se passa com e entre seu povo. O Senhor Deus, atuando assim, fundamenta no seu povo a segurança e a certeza de que não
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se encontra desamparado, pois sempre pode ter a certeza de ser visto e escutado em seu clamor. V. 10: agora venha, e eu o enviarei – Deus nos chama para perto de si e imediatamente somos enviados a anunciar. Moisés se assusta e sente o peso da responsabilidade sem compreender como agir, pois a tarefa é nada menos do que ser um líder. Por isso ele demonstra hesitação (vv.11-13), mas logo é fortalecido pela própria palavra de Deus que promete não desampará-lo na sua missão. Vemos que Cristo, em João 20.21, também age assim ao comissionar os seus discípulos para a missão. V. 14: EU SOU – a resposta de Deus quando perguntado sobre o seu nome. Deus não responde que tinha um nome próprio, assim como, por exemplo, Osíris, Marduk ou Apolo. Por não ser definível e nem identificável, Deus se mostra diferente dos outros deuses, idolatrados naquela época, os quais eram representados pelo pensamento humano e manipulados por seus adoradores ao utilizarem o nome com quem foram nomeados. A resposta de Deus foi dada a uma pergunta de Moisés que demonstrara dúvida sobre Deus: o que eu digo? No entanto, tal pergunta é tipicamente humana, porque não podemos falar de alguém se não soubermos o seu nome. Eu Sou aquele que é, aquele que existe em si mesmo, foi a resposta que Deus manda transmitir. EU SOU, dito em hebraico, soa semelhante ao nome de Deus: YHWH. V. 16: os líderes – Deus estabelece a liderança para ajudar a organizar o seu povo e a conduzi-lo pelo caminho que deve seguir. Lembramos, aqui, Jesus Cristo, o Bom Pastor, que conduz o seu rebanho, a Igreja, pelo caminho que a conduz para a vida eterna. Possibilidades de uso homilético O chamado para a liderança – ao lermos o texto de Êxodo 3, Moisés nos é apresentado como um exemplo de liderança cristã em vários aspectos. (1) Moisés é chamado por Deus, ele é um escolhido para conduzir o povo a um destino; (2) o profundo respeito a Deus e à Sua palavra é fundamental para a escolha de um líder; (3) Moisés demonstra insegurança, pois tem a certeza de que o seu chamado para a liderança é uma missão de grandes proporções e responsabilidades, pois está lidando com pessoas; (4) existem pessoas que irão se opor à sua tarefa, por isso é necessário trabalhar em nome do Senhor Deus; e, por fim, (5) Deus já avisa que a tarefa não será fácil, no entanto, não será impossível. O chamado à liderança, o
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

chamado ao sacerdócio, é uma tarefa que exige abnegação total a Deus e à Sua Palavra. Por isso mesmo Deus promete que sempre estará (EU SOU) com os seus filhos, em toda e qualquer situação que se apresentar. Assim como Moisés, nós, filhos de Deus, fomos chamados para perto de Deus. Isso acontece através de sua palavra e sacramentos. Se fomos chamados também somos enviados, para seguirmos “cantando um hino de gratidão e falando das tuas obras maravilhosas” (Salmos 26.7). Não precisamos temer o nosso adversário, pois o Senhor Deus está sempre ao nosso lado dizendo EU SOU contigo. Proposta de estrutura de sermão Tema: Deus nos chama 1. Através de sua palavra, (a) assim como fez com Moisés, (b) também continua atuando em nossas vidas 2. Para nos abençoar e preparar, (a) através do estudo de sua Palavra; (b) da oração; (c) da comunhão dos santos. 3. A fim de sermos enviados; (a) como líderes; (b) anunciando a Boa-nova; (c) a todas as pessoas (I) tenham elas grande projeção social (o Faraó) ou (II) sejam elas do próprio povo de Deus (israelitas) com o intuito de conduzi-las nas veredas do Senhor. Conclusão: Deus chama e nos envia, mas nunca, em hipótese alguma, nos abandona. EU SOU está sempre plenamente presente em nossa vida, para não vacilarmos e sempre sabermos o que devemos proclamar. E, caso passarmos por dificuldades, o Senhor sempre está disposto a ouvir o nosso clamor, pois ele não deixa de olhar por nós.

Clóvis V. Gedrat/São Leopoldo, RS

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AS PRIMEIRAS NOVE PRAGAS
4º Domingo na Quaresma Êxodo 7-10

OS SINAIS DE DEUS Contexto histórico O povo de Deus é um “povo em peregrinação”. O autor da carta aos hebreus afirma: “Neste mundo não temos nenhuma cidade que dure para sempre; pelo contrário, procuramos a cidade que virá depois” (Hb 13.14 - NTLH). Nesta caminhada, o povo de Deus passa por lugares ermos e perigosos, sofre, questiona, confia, desespera, enfim, a caminhada não é fácil. Assim como não foram fáceis os anos de escravidão a que fora submetido o povo de Israel no Egito. Quatrocentos e trinta anos, no total. No início do livro de Êxodo Moisés relata: “Fizeram com que a vida deles se tornasse amarga, obrigando-os a fazer trabalhos pesados na fabricação de tijolos, nas construções e nas plantações. Em todos os serviços que os israelitas faziam, eles eram tratados com crueldade” (Êx 1.14). Mas, o Deus que conhece e vê todas as coisas (Sl 139), vê o sofrimento do seu povo. “Eu tenho visto como o meu povo está sendo maltratado..., tenho ouvido o seu pedido de socorro... Sei o que estão sofrendo” (Êx 3.7; Atos 7.34). Do coração de Javé emana amor. Ele não esqueceu do seu povo. No Egito o povo andava indefeso e desesperançado. Um povo escravo, preso e sem forças próprias. Moisés, então, foi o escolhido para a missão de libertar o povo de Deus da escravidão. “Agora venha, e eu o enviarei ao Rei do Egito para que você tire de lá o meu povo, os israelitas” (Êx 3.10). Da escravidão Deus queria conduzi-los a uma terra grande e boa, boa e rica (3.8). Mas, no caminho para a liberdade estava Faraó, cujo coração não foi sensível às reivindicações de Moisés e Arão, seu companheiro. “O rei está teimando e não quer deixar o povo sair do Egito” (Êx 7.14). Para forçar Faraó a deixar ir o povo, Deus operou sinais e maravilhas (Êx 7.3), a fim de provar ser Ele (Javé) o único Deus verdadeiro e poderoso, em contraste com os deuses cultuados pelos egípcios.
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

Texto a) O primeiro sinal: a água vira sangue (vv. 17 e 19) O rio Nilo era um dos principais objetos de adoração, coração do Egito e principal fonte de prosperidade. Na mitologia do Antigo Oriente Médio, de acordo com os egípcios, os animais surgiram da “lama do rio Nilo”. Deus que no princípio fez “separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento” (Gn 1.7) continua tendo completo domínio de toda a sua criação. Toda a água derivada do rio Nilo havia se transformado em sangue. Para o povo de Deus era sinal de que Deus não os havia esquecido; para os egípcios, juízo. As pragas não apenas provocavam grande aflição física, mas era um julgamento contra os deuses do Egito. b) O segundo sinal: as rãs (Êx 8.1-15) Segundo os egípcios, a rã era sagrada como símbolo da fertilidade e porque tinha sua origem na “lama do rio Nilo”. O que para os egípcios era algo sagrado, torna-se algo nojento. “O rio Nilo ficará cheio de rãs, e elas sairão dele e entrarão no palácio do rei, no seu quarto, na sua cama, nas casas dos seus funcionários e do seu povo...” (v.3). Fato especialmente lamentável, já que os egípcios eram tão cuidadosos em sua higiene e limpeza. c) O terceiro sinal: piolhos (Êx 8.16-19) Importante lembrar que no Novo Testamento Jesus também operou muitos sinais e maravilhas. O evangelista João escreveu: “Jesus fez diante dos discípulos muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, crendo, tenham vida por meio dele” (Jo 20.30 e 31). Assim também no Antigo Testamento Deus operou milagres em favor do seu povo a fim de livrá-los da escravidão. “É o dedo de Deus”, “Foi Deus quem fez isso” (v.19) disseram os mágicos ao rei. Pela primeira vez os mágicos de Faraó não conseguiram reproduzir o sinal de Deus (piolhos). Segundo Connell, o v.18 nos traz um importante ensinamento: “Se, por outro lado, considerarmos suas imitações prévias como milagres verdadeiros e não como ilusões, podemos aprender por este versículo que Deus permite que o diabo vá até certo ponto, mas não mais que isso, na reprodução de sinais e maravilhas”. Jesus também lembrou os seus discípulos: “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24).
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d) O quarto sinal: moscas Alguns estudiosos consideram que tal inseto fosse alguma espécie de vespa. Assim como a rã, que representava a fertilidade, as moscas ou essa espécie de “vespa” também era objeto sagrado, representava o deus-sol, Rá, e como tal, não podia a sua incômoda presença ser removida pela matança. Esta praga causava mais que incômodo, ela destruía propriedades pessoais. O juízo de Deus deixa um quadro de destruição (Êx 8.24). Faraó sempre de novo é lembrado de que o povo de Israel é povo de propriedade exclusiva de Deus (Êx 8.20, 1 Pe 2.9), “Eu fiz a minha aliança com eles” e que Deus sempre defenderá o seu povo. Êxodo 8.29: O exemplo vem da atitude de Moisés. Ele orou pelos seus inimigos. No Novo Testamento Jesus recomenda: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). Moisés intercedeu junto a Deus em favor de Faraó e Deus ouviu a sua súplica. e) O quinto sinal: peste nos animais Assim como Deus defende os seus filhos, também guarda e protege o que lhes pertence (Êx 9.6), pois “do rebanho dos israelitas, não morreu nem um”. f) O sexto e sétimo sinal: úlceras e chuva de pedras Javé continua oferecendo oportunidades para o arrependimento de Faraó. O que para os egípcios era sinônimo de destruição e medo (as pragas), para os israelitas era sinal do poder e da misericórdia de Deus. Não há quem seja semelhante a Javé em toda a terra (9.14). Estes sinais tem um propósito: mostrar o seu poder e para que o seu nome seja anunciado em toda a terra (9.16), que é do Senhor (9.29). g) Oitavo e nono sinal: gafanhotos e trevas A exemplo do pedido de Moisés em Êx 7.16, ninguém do povo pode ficar para trás. “Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos, e com os filhos, e com as filhas, e com os nossos rebanhos, e com os nossos gados; havemos de ir, porque temos de celebrar festa ao Senhor” (10.9). Os gafanhotos destruíram o pouco que ainda restava de alimento nos campos (10.15). E quando a escuridão tomou conta do Egito, “todos os filhos de Israel tinham luz nas suas habitações” (10.23).
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

Possibilidades de uso homilético A dinâmica de Lei e Evangelho é clara no texto. Sobre Faraó e os egípcios, o poder de Deus se manifesta em ira e juízo. Para os israelitas, o poder de Deus revela-se em graça e libertação. Ele não está ajudando e salvando os israelitas porque teve pena deles. Ele os está livrando para levá-los a Canaã, onde serão seu povo, sua nação. Eles fazem parte de seu plano para a salvação de todo o mundo. Por isso, Deus usa sua mão poderosa para libertá-los do jugo da escravidão. O povo de Israel, o povo de Deus, hoje, somos nós. Continuamos em marcha, em peregrinação. Deus também precisou nos livrar de uma escravidão que nos levava à morte eterna: a escravidão do pecado. Assim como o povo de Israel não tinha forças próprias para conquistar sua liberdade, Deus precisou intervir em nossa situação. E para tanto Deus não mediu esforços, pelo contrário, abriu mão do que tinha de mais precioso, Seu único Filho, para nos conquistar liberdade e uma nova vida. Através de Jesus temos acesso ao mais puro amor e perdão de Deus, onde o pecado, a morte e o diabo não nos causam mais medo; temos a certeza de que em meio às dificuldades e provações desta vida podemos contar com sua ajuda e orientação e, acima de tudo, as portas da Canaã celeste estão abertas a todos que crêem em Cristo, como Senhor e Salvador. Proposta de estrutura de sermão Tema: “Os sinais de Deus” Introdução: “Lembrar de acontecimentos recentes (catástrofes) que nos façam refletir sobre o juízo e a graça de Deus”. a) O exemplo bíblico: a escravidão do povo de Israel; b) Os sinais de Deus: as pragas – oportunidades de arrependimento; c) Arrependimento implica mudança de atitude – o que não aconteceu com Faraó; d) Corações que ainda permanecem escravos e precisam ser tocados pelo Evangelho; e) Palavra e sacramentos – sinais que apontam o caminho e dão a certeza da presença de Deus em nossa vida;

Elvio E. Erdmann/São Leopoldo, RS

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A DÉCIMA PRAGA E A INSTITUIÇÃO DA PÁSCOA
5º Domingo na Quaresma Êxodo 11 e 12

Contexto litúrgico O Quinto Domingo da Quaresma era denominado Judica e o Intróito iniciava com as palavras do Salmo 43.1 e Sl 116.1-4,8: “Defende-me, ó Deus, e pleiteia a minha causa [...] laços de morte me cercaram e angústias do inferno se apoderaram de mim”. Na série Trienal, a série A aponta duas leituras que podem fazer a ligação entre o texto sugerido para o sermão e este domingo. Jo 11.1-53 denuncia os laços de morte cercando o Filho de Deus. Em aos Romanos (8), Paulo aponta o resultado: “Não somos mais escravos, mas somos co-herdeiros com Cristo.” A série B, na carta aos Hebreus aponta para o ofício sumo sacerdotal de Jesus, recebido com “forte clamor e lágrimas, pela obediência”. E na leitura do Evangelho, Jo 12, Jesus aponta para o seu sacrifício e o discipulado: “Quem ama a sua vida, perde-a”. E na série C temos a parábola Dos lavradores maus e a rejeição da oferta de Deus pelo povo escolhido acompanhado da leitura de Fp 3. 8-14, onde o apóstolo convida: “prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação em Cristo Jesus”. Parece-nos que a leitura de Êx 11 e 12 aponta para o fato de que desde sempre Deus olha de frente para a escravidão que se abateu sobre o seu povo, ao mesmo tempo que ele foi e continua sendo o Deus que está comprometido com o seu povo a ponto de lutar pessoalmente por ele. A escravidão que Israel sofreu no Egito, a intervenção direta de Deus e a libertação daquele povo de escravos que aos olhos de Deus são as “hostes ou o exército do Senhor” é o mesmo Deus e ainda o mesmo povo e a mesma intervenção direta de Deus na história também aos olhos de Paulo. Esta visão o povo de hoje também merece receber dos seus púlpitos. A narrativa “Quando eu vir o sangue passarei por vós.” Com estas palavras Deus estabelece o pacto de libertação de Israel. Olhando para trás
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

no tempo, nem sempre nos damos conta da importância e da relevância desta manifestação de Deus. Nove vezes a mão de Deus se abatera sobre o Egito e por nove vezes esta mesma mão passara ao largo dos filhos de Israel. Já ficara claro para os magos de Faraó de que nisto estava “o dedo de Deus” (8.19). Os israelitas estavam esclarecidos desde logo de que Deus estava agindo em seu favor (8.23). Mas o que estava acontecendo? O que estava reservado para o futuro? Tem alguma ligação e relevância para hoje? Para os israelitas significava ficar livres de uma escravidão de 400 anos. Que idéia faziam da liberdade? Israel livre? Mais tarde, quando já estavam livres, acampados no deserto, sua idéia de liberdade ficou patente na queixa contra Deus e contra Moisés: “No Egito tínhamos carne com fartura”. Carne na panela era naquele momento mais importante e desejável do que a liberdade e o direito de gerar e de ver crescer livres os próprios filhos e filhas. Carne na panela era mais importante do que o direito e a liberdade de buscar um lugar para ver crescer a planta, a ovelha e contemplar os filhos a crescerem e assumirem a própria vida e não vê-los ser levados como gado para o trabalho. Para os egípcios, como para muitos ainda hoje, Deus não passa de uma vaga noção. Dobrando ou enganando Moisés, o Faraó não tinha dúvida de que também tinha conseguido enganar o Deus do qual Moisés falava. O próprio povo de Israel demonstrou por várias vezes esta vaga noção de Deus durante suas queixas e lamúrias. E não poderia ser diferente, pois “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus-Vivo” (Hb 10.31). Adão se escondeu. Jonas se esquivou. Elias desanimou. O povo no Sinai não podia ver o rosto de Moisés. Com os egípcios e com Faraó não poderia ser diferente. Ninguém faz idéia do que significa encarar o Criador. É preciso evitar a sua presença. É preciso evitar a idéia de que haja um Criador responsável pela existência das criaturas. Como se faz isto? Faraó nega a presença de Deus, depois nega o seu poder e finalmente desafia Deus endurecendo-se contra ele. Hoje não é diferente. O noticiário das 8h, nos diferentes canais, é uma perfeita evidência desta atitude de Faraó em relação a Deus. Coisas naturais dependem de causas naturais. Mesmo entre os cristãos existe receio de ligar Deus às catástrofes que rondam e se abatem sobre a humanidade. Quando em julho de 2006 uma onda gigante se abateu sobre parte da Indonésia, o noticiário somente
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fez um breve comentário sobre o fato de não ter sido instalado no mar um sensor que denunciasse o fenômeno e permitisse à população a fuga em tempo de se salvarem. A ninguém ocorre perguntar: O que Deus está dizendo à humanidade ao permitir estes fenômenos e suas tragédias? Indicações homiléticas Tal como no Egito, os fenômenos são linguagem de Deus para os egípcios. Tragédias são ainda linguagem de Deus chamando a humanidade à contrição e ao arrependimento. Como filhos de Deus, não podemos ver com indiferença ou distanciamento o esforço que Deus faz para que a humanidade caia da sua soberba e endurecimento para finalmente reconhecer o Deus de Israel e o Deus da sua salvação. Pragas no Egito e tsunamis na Indonésia, ou o descalabro da violência na sociedade brasileira não são fenômenos sociais de um mundo que busca a sua melhoria. São sinais de que a maldição sobre o pecado é uma realidade da qual não existe volta. Para os cristãos é também uma linguagem muito clara de que a libertação está próxima e de que as promessas de Deus se realizam uma a uma. Moisés não perde a paciência com as sucessivas recaídas de Faraó e dos egípcios. Deus estende a sua paciência além dos limites humanos e pede que o seu povo tenha paciência com ele. E não só. Todos que quiseram acompanhar o povo de Deus assim fizeram e saiu com as hostes de Deus um misto de gente que foi salvo com eles. Assim como as pragas foram sinais de chamamento, assim hoje somos permanentemente chamados a crucificar a soberba da carne para assim fugirmos ao juízo. Quando Jesus instituiu a Santa Ceia, estava realizando o grande ato de marcar com o seu próprio sangue aqueles que são salvos da ira. São os que João no Apocalipse identifica como “aqueles que lavam as suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7.14 e 22.14). Tanto naquele momento em que Moisés instrui o povo sinalizando como Deus o libertaria naquele exato momento histórico, nada daquilo aconteceria sem a validação do derramamento do sangue da Nova Aliança. O estatuto é perpétuo porque Deus é exatamente o mesmo que entrou no paraíso perdido à procura de Adão, não brandindo o juízo, mas, segundo Lutero, como uma brisa suave feita de perdão, atraindo Adão para fora do seu esconderijo e da sua soberba.
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É com imensa tristeza que os filhos de Deus, confirmados pelo batismo em Cristo, vêem a cegueira e o endurecimento com que o mundo ignora as pragas que se abatem sobre a humanidade. Maior ainda é a tristeza quando os filhos de Deus perdem a coragem profética de dizer ao mundo que as desgraças do tempo presente nada são em comparação com o que espera o mundo quando finalmente Deus retrair definitivamente a sua mão e ninguém mais puder contar com a sua proteção e auxílio. Infelizmente os cristãos muitas vezes falham em apontar ao mundo que comer, beber, vestir-se, ter prazer e alegria são chuvas que Deus faz descer sobre maus e bons, justos e ímpios. A natureza nada é sem o seu Criador como também nada somos sem a constante e infalível providência de Deus. O cristão não agradece somente as coisas boas. A própria doença e a morte são, para o cristão, bem-vindas, na medida em que sabe o quanto custou para Deus ver a sua obra destruída pelo pecado. Ninguém chora que Jesus não chore com ele. Ninguém sofre que Deus não sofra com ele. Constatar, por isto, que o sofrimento é inevitável não aumenta o sofrimento do cristão. Ele, em Cristo e sob a cruz, sabe que Deus o preparou para a sua cruz e não abandona os seus herdeiros, seu povo. E na medida em que confia neste Deus que intervém a favor dos seus, o cristão se torna testemunha viva, seja no seu próprio leito de hospital, seja junto aos que ele busca confortar, ou qualquer situação de desespero e angústia. O futuro não é mais uma ameaça ao cristão, mesmo que ele saiba que o futuro lhe reserve sofrimentos e a morte. Ele vê além porque ele aprende a marchar com os escravos fugidos do Egito. Ele aprende a marchar com os primeiros crentes na Diáspora. Mas ele também sabe que este “vale da sombra da morte” tem início, meio e fim. Ele, desde o Monte do Calvário, aprendeu a olhar além, para a terra prometida, para o jantar e o banquete que lhe está reservado. As bênçãos e alegrias desta vida são a feliz antecipação do que o aguarda além do vale, além do Mar Vermelho. Consciente de que nada é merecido, cada detalhe que Deus lhe concede na vida é recebido com gratidão e alegria. “Olhai os lírios do campo”. Ou conforme Lutero: “Tudo isto ele me dá por causa de sua bondade e misericórdia” (1º Artigo). Razão porque o filho de Deus não tem vergonha em apreciar e desfrutar as coisas materiais que lhe “são acrescentadas”, tendo em vista que perdê-las é somente uma possibilidade que Deus reserva para a sua bênção e humildade.
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Por outro lado, o cristão está consciente de que a sua cruz é aliviada pela graça de Deus e, muitas vezes, a tal ponto de não vê-la nem senti-la. Na verdade, feitas as contas, os momentos de alegria e contentamento que Deus faz chover sobre a humanidade, por serem totalmente imerecidos, são por isto mesmo desfrutados pelos filhos de Deus com maior intensidade e alegria. Em razão disto, quando os filhos perguntarem: “Por que celebramos a Santa Ceia?” os filhos de Deus têm muita coisa a dizer aos seus filhos, desde Adão, passando por Abraão, o Egito, Calvário, etc. Falar de vida e vida em abundância.

Paulo P. Weirich/São Leopoldo, RS

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O CÂNTICO

DE

MOISÉS

Domingo de Ramos Êxodo 15

Contexto O cativeiro do povo de Israel no Egito; o chamado de Moisés; as dez pragas; a instituição da páscoa: tudo isso faz parte do cenário de fundo de nosso texto. O contexto mais imediato é relatado a partir de Êxodo 12.29. A morte dos primogênitos dos egípcios fez com que Faraó chamasse Moisés e Arão, naquela mesma noite, e liberasse o povo (v. 31). Os egípcios literalmente empurravam o povo de Israel para fora do Egito (v.33). Mas, o povo não foi libertado por iniciativa dos egípcios, quem os tirou da terra da servidão foi o SENHOR (v. 51). Faraó, arrependido por ter deixado seus escravos ir embora, persegue o povo e o encontra acampado junto ao Mar Vermelho. Vendo-se cercado, sem saída, o povo desespera. Mas Moisés os convida a colocarem sua confiança na ação libertadora de Deus (Êx 14.1-14). Na cena seguinte, os israelitas atravessam o mar em seco e, quando os egípcios os perseguem, são cobertos pelas águas e se afogam. Então “viu Israel o grande poder que o SENHOR exercitara contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e confiaram no SENHOR, e em Moisés, seu servo” (v. 31). Em seguida, Moisés e o povo erguem suas vozes num hino de adoração, louvor e fé. Texto O cântico de Moisés é um hino celebrando a vitória espetacular de Deus sobre Faraó e seu exército. O cântico louva a poderosa mão de Deus que lançou no mar o cavalo e seu cavaleiro e libertou e salvou seu povo. O foco do cântico é o próprio Deus (cf. v. 11). O nome divino Yahweh (o SENHOR) aparece dez vezes. Em desespero, Moisés e o povo haviam “clamado ao Senhor” (14.10,15). Agora, irrompem num hino de louvor a Deus pela sua vitória sobre as forças do mal, representadas por Faraó e os deuses em quem ele confiava. Em linguagem poética, o cântico relata o que aconteceu (1-12) e lança um olhar para o que virá pela frente: o
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estabelecimento do reinado de Deus sobre as nações e sua presença entre o povo redimido (13-18; cf. Cl 1.13). O cântico é composto de cinco estrofes. Símiles - “como pedra” (v. 5), “como parede” [ARA: “em montão”] (v. 8), e “como chumbo” (v. 10) - marcam a conclusão de três estrofes. As quatro primeiras estrofes (vv. 1-5, 6-8, 9-10, 11-12) relatam a história do “livramento” (14.13) no Mar Vermelho, e a estrofe final (vv. 13-18) antecipa a futura aproximação de Canaã e a sua conquista. Amparado na promessa de Deus, Moisés já agradece pelo sucesso da peregrinação: ele tem certeza que Deus fará passar seu povo com segurança pelo meio dos inimigos, os povos pagãos, e os plantará na terra prometida, no monte de sua herança. Este cântico ecoa em muitos salmos do Antigo Testamento e também em hinos de louvor do Novo Testamento. Maria louva o Senhor que derrubou os poderosos dos seus tronos (Lc 1.52). Zacarias louva a Deus porque ele nos libertou e salvou de todos os nossos inimigos (Lc 1.68-71). Pedro convoca os cristãos a louvar a Deus porque ele “nos regenerou para uma viva esperança [...] para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível” (1 Pe 1.3-4). Em Ap 15.2-4, o apóstolo vê os vencedores da besta entoando o cântico de Moisés e o Cântico do Cordeiro. V. 1: Cantarei. Uma maneira comum para iniciar um hino de louvor (cf. Jz 5.3, Sl 89.1. 101.1; 108.1). Usando a primeira pessoa, ele expressa que não pode falar da salvação do Senhor de uma forma distanciada, impessoal, de espectador. No entanto, não se trata de um solo, mas de um canto congregacional. V. 2: A primeira parte do versículo e citada no Salmo 118.14 (cf. Is 12.2). V. 3: “O SENHOR é homem de guerra.” Deus lutou pelo Seu povo e a vitória pertence somente a Ele (cf. 14.14). Deus muitas vezes é retratado como um rei conduzindo seu povo para a batalha (p. ex.: Dt 1.30; Jz 4.14; 2 Sm 5.24; 2 Cr 20.17-18). O cântico não exibe um conceito primitivo de Deus que foi gradualmente superado à medida em que as pessoas aprenderam sobre o amor de Deus revelado em Jesus Cristo. O rei “glorificado em santidade” (v. 11) que enviará os inimigos para “o castigo eterno” não é ninguém outro do que o “Filho do homem” cujo amor eles desprezaram (Mt 25.31-46). V. 8: “O resfolgar das tuas narinas” (cf. 14.21). O “forte vento oriental” é aqui referido de forma poética para afirmar que o milagre
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aconteceu no tempo e sob a direção de Deus. V. 11: “Quem é como tu [...]?” Veja Sl 35.10; 71.19; 89.6; 113.5; Mq 7.18. O Senhor, que não tolera rivais, derrotou todos os deuses do Egito e seus adoradores. V. 13: “Habitação da tua santidade.” Pode ser uma referência à casa de adoração em Siló (veja Jr 7.12), e ao Monte Sião (veja Sl 76.2). Mas pode referir-se também à terra prometida como um todo, pois essa é chamada de “tua habitação,” e o “santuário ... que as tuas mãos estabeleceram” no v. 17. Vv.14-15: Filístia ... Edom ... Moabe ... Canaã. A ordem é aproximadamente a da rota que Israel seguiria do Monte Sinai à terra prometida. V. 16: “Espanto e pavor.” O terror paralisa os inimigos, pois eles sabem que o tremendo poder de Deus está presente a favor de seu povo (cf. 1Cr 14.17). V. 17: “Herança.” A terra prometida (veja 1 Sm 26.19; Sl 79.1). V. 18: “Reinará.” Deus tem o poder para fazer Seu reino vir mesmo quando “os reis da terra se levantam ... contra o Senhor” (Sl 2.2; 48.4-6). Aplicações homiléticas O que o cântico de Moisés (e os eventos nele lembrados) e a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, lembrada no Domingo de Ramos, têm em comum? À primeira vista, pode parecer que não existe conexão entre os dois. Mas, um exame mais detalhado pode trazer outra compreensão. Uma primeira grande semelhança é a celebração que acontece nas duas ocasiões. E o interessante é que o motivo da celebração é o mesmo nos dois momentos, ou seja, o cumprimento da promessa de Deus. Israel viu o cumprimento da promessa divina de libertação do cativeiro egípcio. Diante disso, manifesta confiança no poder de Deus e irrompe num cântico de louvor. O povo que acompanha Jesus também percebeu que a promessa da vinda do Messias se cumprira e, igualmente, manifesta sua confiança de que esse Messias é o Rei que agirá em seu favor, e então também ergue a voz num cântico de aclamação. Jesus aceita ser aclamado como Rei pela primeira vez nessa entrada triunfal em Jerusalém. Ele está cumprindo a promessa divina feita por intermédio de Zacarias: o povo de Deus será salvo por um
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Rei dado por Deus que vem sem aparato de poder, dependendo de Deus para a vitória, sem nenhuma arma a não ser a palavra que anuncia “paz às nações” (Zc 9.9-10). Ele é um rei humilde (manso). O fato de vir montado num jumentinho revela sua humildade. Ele não vem montado em cavalo nem em carros de guerra, mas num animal de carga usado pelo homem comum. Ele depende totalmente de Deus. (Para uma compreensão melhor do significado de “humilde” ou “manso”, veja o Salmo 37). O texto do Êxodo prefigura este Messias na figura de Moisés que liberta o povo sem poder próprio e precisa depender totalmente da ação libertadora de Deus. Os inimigos do povo de Deus estão bem identificados no Cântico de Moisés: Faraó e suas tropas, filisteus, edomitas, moabitas, cananeus. Na entrada triunfal de Jesus, manifesta-se o protesto e oposição dos fariseus (Lc 19.39). Mas há inimigos ocultos muito mais terríveis e poderosos: pecado, diabo e morte. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, os inimigos não são vencidos por força humana. Deus se encarrega de lutar e vencer pelo seu povo e lhe dá a vitória de graça. “O SENHOR é homem de guerra”. Em ambos os casos, há uma tensão. Ou talvez seja melhor dizer: há um já e um ainda não. O povo liderado por Moisés já saiu da escravidão, mas o caminho para a terra prometida conduz pelo deserto. Jesus é aclamado Rei, mas está indo ao encontro de sua morte precedida de sofrimentos infernais. Mas, é por meio desse “deserto” que o acesso à “terra prometida” estará aberto e então ele “reinará para sempre”. Um contraste entre os dois eventos é o fato de que a libertação do AT é provisória, imperfeita, terrena, limitada a um povo. A libertação obtida por Jesus é definitiva, perfeita, ampla, para toda a humanidade. Sua vinda significa paz para todas as nações, não só para Israel (cf. Zc 9.10). Em Apocalipse (15.3) os dois eventos são unidos. O povo liberto está junto ao mar (de vidro, cf. o Mar Vermelho), pronto para ingressar na terra prometida e, então, ergue sua voz em adoração a Deus. Aqui o cântico de Moisés é inserido no cântico do Cordeiro. Tema: Domingo de Ramos é dia de celebração 1. A exemplo de Moisés, celebramos a grande libertação. 2. A exemplo de Moisés, celebramos a futura entrada na Terra Prometida.

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Fontes CONCORDIA Self-Study Bible. St. Louis: Concordia Publishing House, 1986. KEMPER, Frederich W. Variety for worship. St. Louis: Concordia Publishing House, 1977. ROEHRS, Walter R. e FRANZMANN, Martin H. Concordia SelfStudy Commentary. St. Louis: Concordia Publishing House, 1979. STÖCKHARDT, G. Die biblische Geschichte des Alten Testaments. St. Louis: Concordia Publishing House, 1900.

Paulo W. Buss/São Leopoldo, RS

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O MONTE SINAI
Sexta-feira da Paixão Êxodo 19

Preliminares O livro do êxodo celebra a saída (exodus), a libertação do povo de Israel dos 430 anos de cativeiro no Egito – o povo que, a princípio, era um convidado ilustre, na época de José e, pouco depois, foi se tornando, aos poucos, um hóspede indesejado e, então, uma excelente oportunidade de mão de obra sem nenhuma remuneração. Deus ouviu o clamor do seu povo e desceu para libertá-lo. Então, o povo de Israel começou a sua peregrinação de 40 anos pelo deserto em direção à terra prometida. Os israelitas saíram do Egito no 15º dia do primeiro mês e chegaram ao Sinai no terceiro mês. Eles tinham caminhado cerca de 50 dias. Isso nos lembra a festa de Pentecostes que é celebrada 50 dias depois da Páscoa – a libertação que Deus promoveu no êxodo e a aliança que ele firmou com o seu povo, um tipo da libertação definitiva que temos em Cristo, a motivação e a orientação para a vida na nova aliança, vem a nós pela ação santificadora do Espírito Santo na Palavra e Sacramentos. Os israelitas tinham caminhado cerca de 240 km, e chegaram ao Sinai. Há uma discussão muito intensa entre os eruditos acerca da exata localização desse monte. Gebel Musa, Ras eç-çafçafeh, Gebel Serbal, e uma montanha situada perto de al-Hrob. A tradição em favor de Gebel Serbal, remonta a Eusébio; Gebel Musa, a Justiniano. Gebel Serbal tem contra si o fato de não haver nenhum deserto ao seu sopé. Al-Hrob também não é mais popular entre os eruditos. Isso nos deixa apenas duas possibilidades: Gebel Musa e Ras eç-çafçafeh. A tradição e a maioria dos eruditos modernos aceitam Gebel Musa como o Monte Sinai. Entretanto, há certa preferência pelo Ras eççafçafeh como o monte onde foi firmada a aliança, por causa da considerável planície que há em seu sopé, que teria sido espaçosa o bastante para a grande multidão de israelitas. Todavia, a tradição em favor de Gebel Musa é tão antiga (1500 anos) e a sua formação granítica é tão imponente que é perfeitamente provável que seja
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realmente o Monte Sinai. Além disso, algumas das paradas na rota seguida pelos israelitas até chegarem nesse monte apontam para a mesma conclusão (leia mais sobre essa discussão no Commentary on the Old Testament, v. 1, de Keil-Delitzsch, Editora Eerdmans). O que acontece imediatamente antes do relato do capítulo 19? O sogro de Moisés – uma figura curiosíssima chamada Jetro, sacerdote de Mídiã – foi ao encontro de Moisés, levando sua esposa Zípora e seus dois filhos Gérson e Eliézer. É interessante ler Êx 18.1 e observar que Jetro “ouviu todas as coisas que Deus tinha feito a Moisés e a Israel, seu povo; como o Senhor trouxera Israel do Egito”. Então, já era corrente entre os povos tudo o que tinha acontecido ao Egito (as dez pragas arrasadoras) e ao povo de Israel (a sua maravilhosa libertação e a inacreditável passagem pelo Mar Vermelho). Jetro ficou alguns dias com Moisés – o suficiente para ver seu genro passar todos os dias assentado, atendendo à imensa fila que se formava diante dele. Então, Jetro o aconselhou a nomear auxiliares para “julgar o povo em todo o tempo”. A Bíblia relata que “Moisés atendeu às palavras do seu sogro e fez tudo quanto este lhe dissera” (v.24). O que aconteceu depois de Êxodo 19? No capítulo 20, Deus falou todas as suas palavras, que constam dos 10 mandamentos (se bem que não há nenhuma referência a esse título, apenas “as palavras”) e outras diversas leis: acerca dos altares, dos servos, da violência, da propriedade, entre tantas outras. O texto Esse capítulo começa uma nova seção dentro do livro de Êxodo, formada pelos capítulos 19-25, que narram a preparação e o estabelecimento da aliança que Deus fez com o seu povo. Eles chegaram ao Sinai e ficaram ali algum tempo, o que registram o final do livro de Êxodo, o livro de Levítico e o começo de Números. Vv. 1-8: Deus propõe a aliança: “No terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia desse mês, vieram ao deserto do Sinai. Tendo partido de Refidim, vieram ao deserto do Sinai, no qual se acamparam; ali, pois, se acampou Israel em frente do monte. Subiu Moisés a Deus, e do monte o SENHOR o chamou e lhe disse: Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos filhos de Israel: Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim. Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha
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propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. Veio Moisés, chamou os anciãos do povo e expôs diante deles todas estas palavras que o SENHOR lhe havia ordenado. Então, o povo respondeu à uma: Tudo o que o SENHOR falou faremos. E Moisés relatou ao SENHOR as palavras do povo”. O povo de Israel partiu de Refidim e chegou ao Sinai. Ali Deus deu as instruções necessárias para preparar a aliança: primeiro, relembrando ao povo que ele, Deus, o tinha libertado do Egito e o feito sua nação peculiar, e que ele iria falar com o povo agora (vv. 49). Depois, ele orientou ao povo que se santificasse para receber a sua revelação (vv. 10-15). Aqui fica muito claro que a promessa de Deus e a sua ação libertadora precede a orientação clara que Deus queria dar ao povo para a sua nova vida. A graça de Deus sempre antecipa a orientação de Deus para a vida de santificação. Deus então lembra o que ele mesmo fez aos egípcios e como ele conduziu os israelitas sobre asas de águia. Assim ele mostra não apenas o seu desejo de libertar o povo da escravidão, como o seu desejo de adotar a Israel como o povo da sua graça e favor especiais. Asas de águia demonstram duas coisas: o poder de Deus e o carinho com o qual libertou e conduziu o seu povo até aqui. Deus protegeu e conduziu o seu povo de modo muito especial até aqui. Esta manifestação especial do amor de Deus a Israel formou não apenas o prelúdio, mas já assentou para Israel tudo aquilo que Deus queria ainda fazer por ele. “Se eles ouvissem a voz de deus e guardassem a aliança que ele estabeleceu com eles, eles seriam a sua propriedade peculiar dentre todos os povos”: A palavra hebraica xsgy (segulah) não significa propriedade em geral, mas uma propriedade valiosa. A LXX traduz laos periousios, que traduz exatamente a idéia de que Deus mesmo chamou e escolheu a Israel para ser a Sua propriedade exclusiva entre todas as nações da terra, porque toda a terra é do Senhor, e todas as nações pertencem a Ele como seu criador e preservador; mas, Israel seria, dentre todas, a única com a qual estava firmando o pacto do Seu amor e misericórdia, apontando para o envio do salvador do mundo, Jesus Cristo. A idéia de xsgy (segulah) é explanada no v. 6, quando Deus diz que o seu povo lhe irá servir como reino de sacerdotes. Israel era para ser o corpo real de sacerdotes de Deus. Essas palavras encontram
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eco nas expressões de Pedro em 1 Pe, capítulo 2, quando é assentado que a Igreja de Cristo, o Israel espiritual de Deus, formada por pessoas que foram tiradas das trevas e trazidas para luz, tiradas da morte e trazidas para a vida, é raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade peculiar de Deus “a fim de proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Nós não devemos ter nenhuma dúvida que aqui paira o desejo missionário que Deus tem com o seu povo, tanto o povo do AT quando o povo do NT; ou seja, a Igreja de Deus de todos os tempos é chamada por Deus com o propósito exclusivo de atender ao seu desejo maior: salvar todas as pessoas, de todos os povos, através do testemunho do evangelho de Jesus Cristo. Como o sacerdote é mediador entre Deus e o povo, Israel foi chamado para ser o veículo de comunicação da boa notícia da salvação pela graça de Deus, na promessa do envio do salvador Jesus Cristo, para todas as nações. Esse era o termo da aliança: o Senhor se apresenta a si próprio como libertador do povo (v.4), e convida o povo a participar da sua aliança. Israel reconhece o que Deus fez a seu favor, se compromete a ouvir a palavra de Deus, confiar nele acima de todas as coisas e viver de acordo com a sua vontade. A resposta do povo é: “Tudo o que o senhor falou, faremos”. Vv. 9-14: O povo se prepara: “Disse o SENHOR a Moisés: Eis que virei a ti numa nuvem escura, para que o povo ouça quando eu falar contigo e para que também creiam sempre em ti. Porque Moisés tinha anunciado as palavras do seu povo ao SENHOR. Disse também o SENHOR a Moisés: Vai ao povo e purifica-o hoje e amanhã. Lavem eles as suas vestes e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o SENHOR, à vista de todo o povo, descerá sobre o monte Sinai. Marcarás em redor limites ao povo, dizendo: Guardai-vos de subir ao monte, nem toqueis o seu limite; todo aquele que tocar o monte será morto. Mão nenhuma tocará neste, mas será apedrejado ou flechado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá. Quando soar longamente a buzina, então, subirão ao monte. Moisés, tendo descido do monte ao povo, consagrou o povo; e lavaram as suas vestes”. A nuvem representa a presença de Deus. Não é uma presença qualquer, pois o próprio Deus diz a finalidade: “Para que o povo ouça quando eu falar contigo” (v. 9). É interessante notar que, quando a arca foi trazida para o templo, na época de Salomão, uma nuvem encheu a casa. Também foi uma nuvem que encerrou a cena da ascensão da transfiguração de Jesus, da Sua ascensão e vão estar presentes quando da segunda vinda de Jesus. Na transfiguração,
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Moisés e Elias conversavam com Jesus (palavra); na ascensão, Jesus falava com os discípulos (palavra) e no dia do juízo “a palavra vos julgará”. Esse “ouçam falar contigo” tem um objetivo: “para que também creiam”. Lembra as palavras finais do evangelho de João: “[...] para que creiais que Jesus é o Cristo, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Deus pediu para Moisés purificar o povo. Ele tinha dois dias para fazer isso. E a sua tarefa consistia basicamente em “lavar as suas vestes”. O que isso representa? Muitas coisas! Primeiro, podemos lembrar da parábola das bodas, Mt 22, quando um homem estava sem as vestes nupciais. Ele não estava vestido da veste da justiça de Deus em Cristo. Então, lavar as vestes significa, em primeiro lugar, o reconhecimento do pecado, o sincero arrependimento do povo, a certeza de que quem iria livrá-los da culpa era o Senhor Deus, e não as suas obras. Então, “lavar as vestes” representa o preparo ideal para o crente estar na presença de Deus: arrependimento = contrição + fé. Em Ap 7 vemos um certo “lavar as roupas no sangue do Cordeiro” que representa a mesma idéia: o filho de Deus, arrependido e confiante, recebe o perdão gratuito por causa do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus. “Marcarás limites” – Deus deu ordens claras ao povo e elas tinham que ser obedecidas. O povo não deveria transpor os limites marcados por Deus. A finalidade era preservar a vida do povo. “Quando soar longamente a buzina”: wle (shophar – termo que também traduz trombeta) tinha um caráter cerimonial e era tocada nas grandes festas religiosas. Haveria uma sinalização clara de Deus para o momento certo. Os judeus ainda usam algumas buzinas para as suas festividades. A igreja cristã usou (e ainda usa) o sino para convocar o povo para o culto. Vv. 15-25: O prelúdio: “E disse ao povo: Estai prontos ao terceiro dia; e não vos chegueis a mulher. Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o SENHOR descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão. Descendo o SENHOR
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para o cimo do monte Sinai, chamou o SENHOR a Moisés para o cimo do monte. Moisés subiu, e o SENHOR disse a Moisés: Desce, adverte ao povo que não traspasse o limite até ao SENHOR para vêlo, a fim de muitos deles não perecerem. Também os sacerdotes, que se chegam ao SENHOR, se hão de consagrar, para que o SENHOR não os fira. Então, disse Moisés ao SENHOR: O povo não poderá subir ao monte Sinai, porque tu nos advertiste, dizendo: Marca limites ao redor do monte e consagra-o. Replicou-lhe o SENHOR: Vai, desce; depois, subirás tu, e Arão contigo; os sacerdotes, porém, e o povo não traspassem o limite para subir ao SENHOR, para que não os fira. Desceu, pois, Moisés ao povo e lhe disse tudo isso”. O povo teve o prazo de dois dias para uma série de preparações. Ao terceiro dia, Moisés conduziu o povo ao Monte Sinai. O topo do monte era agitado por uma violenta tempestade. Chama a atenção o v. 17 que diz: “Moisés levou o povo ao encontro de Deus” e a descrição do Monte Sinai que fumegava (soltava fumaça - NTLH). A origem dessa fumaça é: “porque o Senhor descera sobre ele em fogo”. Qual era a quantidade dessa fumaça? Muita fumaça! Como a de uma fornalha. Como o Monte Sinai reagia a esse fogo? Tremia grandemente (muito, NTLH). O fogo pode ser visto em alguns momentos especiais na história da revelação: a destruição de Sodoma e Gomorra, as profecias de Jesus acerca do juízo final e do castigo eterno, entre outras tantas. Mas, certamente, esse fogo, associado à fumaça, aqui, não se referem a juízo; referem-se, isto sim, à presença graciosa de Deus, como pode ser visto no texto de At 2, que relata a descida do Espírito Santo e a conseqüente língua de fogo que apareceu distribuída sobre os que estavam reunidos. Deus chamou Moisés para o cimo do monte. Ele subiu. Deus pediu a Moisés que advertisse ao povo para que não transpusesse os limites estabelecidos por ele. Moisés desceu e disse ao povo todas as palavras de Deus. Contexto litúrgico Pregar sobre esse texto na Sexta-Feira Santa pode ser um belíssimo desafio. Primeiro, porque o contexto no qual ele está inserido é muito belo e conhecido de todos. Segundo, o personagem envolvido é certamente o mais conhecido do AT (escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia e é quem tem o nome e a história que perpassam o maior
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IGREJA LUTERANA

número de páginas da Bíblia – é um tipo de Cristo do AT). Terceiro, há um contraste muito claro estabelecido entre os montes Sinai e Sião, descrito em Hb 12.18 ss. Quarto, não devemos pregar sobre esse texto sem falar no outro monte: o Calvário, onde Deus selou a Nova Aliança com o seu povo, no sofrimento, morte e ressurreição do seu filho Jesus Cristo. O monte Calvário representa bem essa figura. Quinto: se quiser falar sobre o monte Olival (o da Ascensão), pode-se tratar do assunto de que, na ascensão de Jesus, o plano de Deus para salvar a humanidade foi completamente realizado e Jesus, ao subir aos céus, nos deu a tarefa de evangelizar a todas as pessoas. Sexto: os 10 mandamentos (palavras) que Moisés recebeu sobre o monte alistam a lei de Deus para a sua igreja. Nós não conseguimos cumpri-la plenamente. Os nossos pecados não apenas transgridem essa lei, mas “causam separação entre nós e Deus”. Jesus veio ao mundo para cumprir a lei em nosso lugar e nos presentear com a sua justiça perfeita. Dicas homiléticas a) Pensamento central: Deus prepara o cenário para a aliança b) Lei: O povo era escravo. O pecado nos escraviza e nos torna “mortos”, incapazes de promover a nossa libertação. O pecado nos separa de Deus. O povo se dispôs a ouvir a palavra de Deus e a cumprir a palavra de Deus. Não conseguiu fazêlo, como nós também não. O povo quebrou a antiga aliança, não deu valor à aliança firmada por Deus. Nós também agimos assim! Conseqüência: a) Na história do povo: o povo não agiu como reino de sacerdotes santo ao Senhor. Mas, agiu com rebeldia e, por isso, sofreu castigo, cativeiros assírio e babilônico; b) Na nossa história: rebeldia, desobediência, castigo temporal e eterno. c) Evangelho: Deus apresenta-se como o libertador. Ele estava preparando o cenário para firmar aliança com o povo de Israel. A iniciativa é de Deus: Deus liberta, Deus firma aliança. Seu propósito é salvar. Ele faz isso em Cristo: vem ao nosso encontro, proporciona a nossa libertação do pecado, da morte e do inferno. Torna-nos seu reino de sacerdotes e nos motiva a servi-lo no testemunho do evangelho a todos os povos. d) Tema: Deus nos prepara para uma tarefa especial.
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

e) Introdução: Falar do preparo que um estudante deve ter para o vestibular; o preparo que um atleta de ponta deve ter para uma competição; o preparo que um candidato deve ter para administrar um país / cidade / estado. f) Partes: a) Presenteando-nos com os benefícios da nova aliança: Perdão, vida e salvação, conquistados por Jesus na sua morte e ressurreição; b) transmitir esses benefícios a todas as pessoas, através do nosso testemunho do evangelho. g) Conclusão: Que Deus continue nos preparando: dandonos sempre o perdão, a vida e a salvação, e usando-nos na tarefa especial de anunciar o seu amor a todas as pessoas.

Leandro Hübner / Dionísio Cerqueira, SC

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IGREJA LUTERANA

A TERRA

QUE

MANA LEITE

E

MEL

Páscoa Deuteronômio 16

A LIBERTAÇÃO SE CONCRETIZA Contexto (litúrgico e/ou histórico) O povo de Israel, a exemplo de outros do Oriente Antigo, sempre celebrou suas festas religiosas em períodos fixos. As festas marcam a comemoração de determinadas intervenções históricas específicas de Deus na vida de seu povo. Além de lembrar tais momentos marcantes, tais festas re-atualizam o evento histórico para cada geração vindoura. São momentos próprios de indicação e renovação da comunhão de Deus com seu povo e dos seus para com Ele. Além de comemorações litúrgicas dos primeiros acontecimentos, as festas do Antigo Testamento abrem caminho para a concretização e celebração da igreja cristã de episódios decisivos que se cumpririam no decorrer da história, no tempo certo (Gl 4.4), como o nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Especificamente, as festas do povo de Israel sofreram modificações, ao longo do tempo, em seus detalhes rituais, significação particular e até mesmo, em alguns casos, seus próprios nomes. As três grandes e principais festas do povo israelita eram: 1) A Páscoa (Pessach) e os Pães Asmos (Mazsoth); 2) A Festa Das Semanas (Pentecostes), das Primícias ou da Sega; 3) A Festa dos Tabernáculos ou Colheita e o Dia de Expiações. O ciclo de tais festas era anual. Existiam ainda outras festas menores com ciclos mensais e semanais, no entanto, a de maior destaque de todas era a Festa da Páscoa. Esta era, sem dúvida, a mais significativa de todas as festividades e observâncias de Israel. Comemora o maior de todos os milagres que o Senhor realizou em favor de seu povo: a libertação. Há diversas referências nos Salmos e livros proféticos. Outro traço importante era o reconhecimento público de que a bênção de Deus se fazia continuamente através de provisões materiais. Historicamente, a Páscoa foi observada pela primeira vez no Egito quando as famílias de Israel foram poupadas da morte dos
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

primogênitos, por meio do sangue do cordeiro (Êx 12 e 13). Este resgate está diretamente relacionado com a última praga que feriu os primogênitos do Egito. A segunda vez que a Páscoa foi observada no 14º dia do mês de Abibe (mais tarde chamado de Nisã), um ano depois que Israel saiu do Egito (Nm 9.1-5). A terceira vez aconteceu somente quarenta anos depois de terem partido do Egito, quando o povo entrou em Canaã, a Terra Prometida. O Antigo Testamento relaciona os pães asmos com a saída do povo do Egito, lembrando a pressa com que tiveram de fugir de lá. (Êx 12.11) A lei que rege até hoje a fixação da data da Páscoa é a primeira lua cheia depois do equinócio da primavera. No Antigo Testamento a festa assinalava a abertura do ano religioso. O rito pascal, por sua vez, também sofreu algumas modificações ao longo da história desde o seu princípio, quando, por exemplo, não se contava ainda com sacerdócio ou tabernáculo. Com o surgimento e construção do tabernáculo, o povo de Israel passou a ter um santuário referencial onde se reuniam obrigatoriamente pelo menos três vezes ao ano, iniciando justamente por ocasião da Páscoa (Êx 23.17; Dt 16.13). Em Deuteronômio há a ordenação que o sacrifício do cordeiro pascal seja feito somente no santuário central em Jerusalém, tirando assim da Páscoa sua antiga característica de festividade de clã para uma festa nacional, modelo celebrado por ordem do Rei Josias (Dt 16.1ss; 2 Rs 23.21ss). O rito temporário pascal constava de abate de um cordeiro, a aspersão de sangue nos umbrais das portas e a postura corporal em que participavam do cordeiro. Texto: meditação prática “A terra que mana leite e mel” (cf. Êx 3.8; Dt 8.7-9) é uma expressão muito comum no Pentateuco utilizada para relatar tanto a abundância como também a fecundidade da Terra Prometida. A Páscoa do Senhor no NT se tornou assim a maior festa da cristandade. Inaugura um novo tempo. É ressignificada. Torna-se um referencial temporal. A partir de então temos um “antes” e um “depois” da Páscoa. É a celebração da vida e da libertação. A Festa da Páscoa é motivo de grande alegria porque Jesus Cristo, com a sua ressurreição, conquistou a vitória sobre o pecado, a morte e o poder do diabo. Martinho Lutero, em um de seus sermões de Páscoa, diz:
Este é então o grato e magnífico triunfo desta festa: o diabo e tudo que este contra Cristo, é com razão adjudicado e sujeito a

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IGREJA LUTERANA Cristo; o diabo se meteu numa enrascada e tem que devolver tudo o que devorou até agora. Tudo tem que sair e voltar à vida, por causa deste um homem [Cristo]. Da mesma forma também Jó oferece uma imagem figurada ao leviatã, a grande baleia (Jó 41.1). Acaso acha, diz ele, que pode apanhá-lo com uma rede e amarrar a sua língua com laços? Gregório também trata muito bem esta passagem como se quisesse assim dizer: Ele será grande demais para você, para isso precisa de uma rede diferente. Esta não servirá. Você tem que ter é uma boa carabina. Ainda assim Deus acabou com ele. Pegou um anzol bem afiado, enfiou nele uma minhoca e atirou o anzol no mar; a minhoquinha é Cristo, o anzol afiado é sua natureza divina. No anzol está presa a minhoquinha, ou seja, a humanação de Cristo e a carne. Isso engana o diabo; ele pensa: Acaso não conseguiria eu devorar esta minhoquinha insignificante? – Não se dá conta do anzol afiado, ataca e fica ganindo no anzol. Então vem Cristo e o puxa para fora e traz junto tudo o que o diabo fez em todos os tempos; pois já tinha passado da medida, morte contra a vida, pecado contra graça, inferno contra céu.1

Deus não está morto, estático; ele vive, é ativo, dinâmico. É o Deus verdadeiro que promove a vida e a libertação (quando conquistadas, sempre foram motivos de comemoração). Aquela primeira notícia da ressurreição do Senhor logo se espalhou. A visita das mulheres naquela manhã de Páscoa foi diferente, pois quando lá chegaram tiveram uma grande surpresa. O anjo lhes disse: “Ele não está aqui; já foi ressuscitado”. Num primeiro instante, a ausência de Jesus foi motivo de medo e questionamentos; contudo, após ouvirem o que o anjo lhes dissera e ainda terem visto que o lugar onde o Mestre fora posto estava vazio, as mulheres manifestaram intensa alegria. Ainda com medo e ao mesmo tempo alegres, saíram depressa para contar a boa notícia da ressurreição aos demais. Como os anjos proclamaram o primeiro Natal, assim também o anjo trouxe a mensagem da parte de Deus dizendo: “Não tenham medo”. Não há o que temer, pois Cristo se tornou o Senhor da vida eterna. Nada pôde contê-lo. O coração alegre, cheio do amor de Deus, lança fora o medo.
1 Martinho LUTERO, Pelo evangelho de Cristo, p. 310 (Sermão no Domingo de Páscoa em Coburgo – 17/04/1530)

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

Não há mais o que esperar, pois, como as mulheres, há urgência em espalhar a boa notícia que ele foi ressuscitado dentre os mortos e agora vive. Jesus ainda confirma: “E, porque eu vivo, vocês também viverão” (João 14.19 NTLH). É a nova promessa para os que nele crêem: viverão e habitarão nos novos céus e nova terra (cf. Apocalipse) - “a terra prometida que mana leite e mel”. Possibilidades de uso homilético O teólogo Paul Tillich diz que “os dois símbolos cristãos absolutamente centrais são a cruz e a ressurreição”. Uma possibilidade homilética visual é trabalhar com imagens/figuras que reforcem (como as próprias festas em si mesmas o fazem) a promessa que a Páscoa nos traz: libertação/ressurreição. Consiste em visualizar e reter o significado simbólico. A ênfase recai no caráter comemorativo da razão (ou motivo) da festa. Uma sugestão seria levar “leite e mel” e trabalhar o significado desta expressão falando da terra prometida por Deus aos seus seguidores. Outra possibilidade seria utilizar as imagens e respectivas explicações abaixo extraídas do sítio atual da IELB conforme o link:
http://www.ielb.org.br/recursos/rec_liturgia/simbolos.htm

Borboleta: A borboleta é um símbolo da Ressurreição. A bela borboleta que surge da crisálida aparentemente sem vida e da asquerosa lagarta, lembra a passagem da morte para a vida e a nova vida em Cristo. Lírio: O lírio é um símbolo da pureza e tem sido usado como um símbolo da Virgem Maria. Mas é especialmente de Cristo e da ressurreição que ele nos lembra. O lírio da páscoa, uma variedade dos lírios, tornou-se um símbolo da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição para a vida eterna. Pois um bulbo aparentemente sem vida é plantado na terra e um lindo lírio cresce dele. Assim também nossos corpos sepultados brotarão para a vida eterna (Ct 2.1,2). Cruz da Páscoa: Esta forma de cruz foi primeiramente usada na Igreja Ortodoxa Russa. O braço superior representa a inscrição abreviada “INRI”, que Pilatos colocou sobre a cabeça de Jesus. O significado do braço inclinado inferior é dúbio. Há um tradição que diz que as pernas de Jesus não eram de tamanho igual. Uma outra tradição diz que o terremoto que veio durante a sua
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crucificação é que causou a inclinação deste braço. E ainda uma outra explicação relaciona este braço inclinado à cruz a Santo André. Cruz Latina: É a mais comum de todas as cruzes. Ela era um instrumento de condenação à morte nos tempos de Jesus. Ela nos lembra o supremo sacrifício que Jesus ofereceu pelos pecados de todo mundo. Tradicionalmente ela simboliza a crucificação, no entanto, como é totalmente vazia, também nos lembra a ressurreição e a esperança da vida eterna. Cruz Triunfante: esta cruz simboliza o triunfo final e o reino de Cristo sobre todo mundo. Na arte cristã, esta cruz é usada no topo do cetro de Jesus para mostrar seu reino em glória. Propostas de estrutura de sermão Proposta 1: “Na Páscoa Deus, por meio de Cristo, renova o convite à Terra Prometida!” 1. A promessa original 2. O cumprimento – A conquista 3. A nossa espera hoje – Novos céus e nova terra (abundância/ fartura) Proposta 2: “Comemoremos a Festa da Páscoa:” (Dt 16.1- NTLH) 1. honrando a Deus (Dt 16.1,5-6, 8); 2. lembrando a libertação = vida (Dt 16.1) 3. celebrando a salvação = ressurreição (por Cristo)

Wanderley Maycon Lange/ Balneário Camboriú, SC

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O LUGAR

DO

CULTO VERDADEIRO

1º Domingo após Páscoa Deuteronômio 12

Contexto litúrgico e/ou histórico O livro de Deuteronômio “desenvolve o tema da aliança de Deus com Israel”. 1 O povo de Deus estava acampado em Moabe, “aguardando instruções finais para atravessar o rio Jordão e tomar posse da terra prometida”.2 Moisés pronuncia três longos discursos. A essência desses discursos está no livro de Deuteronômio. “Deuteronômio salienta que os israelitas devem fazer tudo o que for ordenado pelo Senhor quando tiverem entrado em Canaã”.3 O capítulo 12 de Deuteronômio está situado no Segundo Discurso de Moisés (4.44-26.19). Este discurso aponta para a lei de Javé. Particularmente, o capítulo 12 trata da lei acerca do culto. Deus quer ser adorado somente no lugar em que ele próprio escolher (Dt 12.5). Os lugares de adoração dos cananeus – altos montes, colinas e árvores verdejantes - devem ser destruídos. Os altares e os vasos sagrados devem ser demolidos e queimados para que não reste memória ou lembrança dos deuses (Dt 12.2-3). Para evitar qualquer contaminação com os cultos cananeus, além da destruição dos altares sagrados, Deus escolhe um só lugar para ser adorado. É a lei da unicidade do santuário ou lei do santuário único: “Não procedereis como eles, em relação ao Senhor, vosso Deus, porque somente o procurareis no lugar que o Senhor, vosso Deus, houver escolhido entre todas as tribos para ali estabelecer o seu Nome, para ali morar; para lá é que irás” (Dt 12.4-5). O objetivo da lei da unicidade do santuário é testemunhar às nações que somente o Senhor é Deus. Deuteronômio 6.4s, o “Shemá”, confessa: “O Senhor nosso Deus é o único Deus”. Ele exige exclusividade do seu povo. Não deve haver espaço para os falsos deuses no coração nem no território do povo de Deus.

1 2 3

LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999. p. 121 Idem, ibid Idem, ibid. p. 132

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IGREJA LUTERANA

Meditação prática Qual é o lugar do culto verdadeiro a Deus? Será que Deus exige um lugar específico para adorá-lo? Deus está no templo onde o seu povo se reúne? O que é mais importante: o lugar de adoração ou a atitude dos adoradores? Mais do que responder aos questionamentos, esta meditação faz alguns apontamentos. À luz do evento Jesus, e este crucificado e ressuscitado, as práticas e ordenanças do Antigo Testamento recebem um novo olhar. Em Cristo, a Igreja cristã entendeu que o templo, as práticas cultuais e os sacrifícios do Antigo Testamento recebiam seu sentido pleno à luz de Jesus, Filho de Deus. O cordeiro imolado apontava para o Cordeiro de Deus que deu a vida pelo mundo. Portanto, no NT templo e culto continuam com o mesmo objetivo do AT: reunir o povo de Deus em torno da Palavra. Com a Reforma, Lutero apontou claramente para o valor do templo e do culto. O culto é o momento para tratar da palavra de Deus, louvar e orar 4 . Interessante que na explicação de Lutero sobre o 3º mandamento, em nenhum momento ele se mostra preocupado com local e forma externa do templo. O importante é o povo de Deus reunido para escutar a palavra de Deus: “Não se trata apenas de ouvir, mas é necessário, outrossim, aprender e reter”.5 A centralidade não está no local nem na forma do templo, mas na palavra de Deus. Todo culto a Deus precisa ter a palavra de Deus como fonte de fé, norma e vida. Verdadeiro culto ao Senhor é ocupar-se com a palavra de Deus, trazendo-a no coração e nos lábios.6 Este ocupar-se não deve acontecer apenas uma vez por semana, mas todos os dias, em qualquer lugar. Todo viver e agir do cristão, para chamar-se agradável a Deus, precisa ser norteado pela palavra de Deus. Em outras palavras, o verdadeiro culto a Deus passa pela ocupação com a palavra de Deus. Ocupação aqui quer dizer “separar tempo” para a leitura e reflexão da Bíblia de modo que o nosso pensar, refletir e agir sejam sinais que apontam (testemunham) Deus entre os homens. A tradição ocidental herdou da cultura greco-romana a idéia de separação entre sagrado e profano. Na Igreja cristã do Ocidente por vezes trata-se o culto como momento do sagrado e o lazer e trabalho como momentos do profano. Nada mais daninho para a fé cristã. Como se houvessem duas vidas, duas atitudes opostas que pudessem ser aceitas
4 5 6

Livro de Concórdia. p. 407 Livro de Concórdia. p. 410 Livro de Concórdia. p. 409

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

normalmente. A língua hebraica usa o mesmo termo para designar trabalho, serviço e culto. Não há divisão entre sagrado e profano, entre adoração a Deus e outros afazeres. O trabalho é culto a Deus. O lazer é culto a Deus. Para o cristão, a vida toda se constitui em ato de culto. Deus não se deixa comprar. Ele rejeita o culto desmentido pela vida diária e repele a adoração vinda de mãos tintas de sangue. Isso não nos autoriza a desprezarmos a forma externa do templo ou até mesmo relativizarmos a importância do culto dominical. De modo algum. Ele, Jesus, é adorado e glorificado no culto por meio dos hinos e cantos litúrgicos. O próprio templo é uma forma de testemunho da presença de uma comunidade cristã reunida assim como no Antigo Testamento o templo único era sinal da presença do Deus único, o Senhor, um testemunho claro diante das nações pagãs. O mais importante é: Seja no culto dominical, seja na semana agitada das grandes cidades ou mesmo na tranqüilidade da vida rural, a palavra de Deus quer ser o norte, o sentido a guiar a liturgia, a pregação e a atuação das comunidades cristãs e dos cristãos no mundo. Possibilidades de uso homilético Dt 12 demonstra uma séria preocupação com práticas cultuais que são abominação ao Senhor (veja os vv. 29-31). Destaco o v.8: “Não procedereis ... cada um fazendo aquilo que é direito a seus próprios olhos”. Na época em que vivemos, pós-moderna, o espírito do relativismo se espalhou como erva daninha. Cada um quer fazer o que lhe parece certo. A Igreja precisa permanecer firme na sua profissão de fé. Somos servos da Palavra, não marqueteiros. A Igreja, no afã de evangelizar e encher templos, tem modificado práticas cultuais com o objetivo de atingir grandes públicos. A tentação é fazer mais o que agrada aos olhos das pessoas do que agrada a Deus e sua vontade revelada na Bíblia. Proposta de estrutura do sermão O verdadeiro culto a Deus 1. É ocupar-se com a palavra de Deus 2. É fazer o que o Senhor ordena em sua Palavra (Dt 12.14) 3. Traz vida feliz ao lar cristão (Dt 12.28)

Gelson Neri Bourckhardt/Uberlândia, MG

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IGREJA LUTERANA

GUARDAR

A

MEMÓRIA

DOS

BENEFÍCIOS

Segundo Domingo após Páscoa Deuteronômio 8

A fala de Deus ao seu povo é um modo de falar que, parece, não se usa mais hoje. Ou estarei enganado? As pessoas aceitam que Deus se utilize de uma linguagem direta, chamando para si a autoria dos acontecimentos na história do povo de Israel. O capítulo 8 de Deuteronômio abre com um cabeçalho geral: “Cuidareis de cumprir todos os mandamentos ... para que vivais”. Até aí, nada novo. É o constante lembrar aos filhos de Deus de que sua vida não é uma vida ao acaso, sem rumo e sem princípios. Disto os mandamentos nos previnem. Os filhos de Deus vivem em função dos mandamentos que acusam, revelam e orientam a natureza humana. O capítulo pode ser dividido em três secções: 1-5; 6-19 e 11-17 com uma palavra de advertência final, 19-20. Na primeira secção a linguagem é, no mínimo, inesperada. Ali Deus diz por que o povo deambulou pelo deserto por quarenta anos: 1. para te humilhar; 2. para te provar; 3. para saber o que estava no teu coração. É uma linguagem direta em que Deus chama para si a autoria das agruras a que o povo foi submetido por 40 anos com o objetivo de trazer à luz o íntimo das pessoas. Para tanto, Deus deixou o povo ter fome e o alimentou com o maná, do qual vieram a ter fastio, enjoaram. Deus ensina pela sua palavra e a sua palavra não é somente texto ou discurso. Sua palavra é realização concreta daquilo que ela pronuncia. “Não só de pão viverá o homem, mas de tudo que procede da boca do Senhor viverá o homem” (v. 3). Com esta palavra Moisés reporta ao ato criador de Deus. A palavra de Deus é palavra sempre criadora. Deus somente fala atos concretos que se realizam. “Haja luz. E houve luz” (Gn 1.3). Nenhum acontecimento da história, nenhum fato da vida humana acontece sem a intervenção direta de Deus, segundo esta palavra: “Recordarte-ás de todo caminho pelo qual o Senhor te guiou ... para te humilhar,
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

para te provar, para saber o que estava no teu coração ... Ele te deixou ter fome e te sustentou ...” (v. 2b e 3a). Assim Lutero entende que na realidade somos sustentados fisicamente pela palavra de Deus. Ter comida sobre a mesa é ação e intervenção de Deus tanto como não ter comida sobre a mesa. Se Deus inverter a direção da sua palavra, inverte-se a realidade cotidiana na vida das pessoas. A igreja necessita preservar este tom do discurso de Moisés. Problemas sociais não são decorrência de políticas públicas mal direcionadas. Estas políticas públicas que falham são também resultado da maldade humana, da incompetência, do orgulho. Mas acima de tudo, são sinais do juízo de Deus sobre uma sociedade e sua incredulidade a chamar ao arrependimento. Insegurança, criminalidade, tempestades são em primeira e última análise, resultado e sinal do juízo de Deus, “para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração” (v.2). A nossa sobrevivência material, assim como a sobrevivência espiritual, são resultado da palavra que Deus pronuncia sobre nós. Os acontecimentos que os jornais registram, e pelos quais clamamos por resposta e solução, são, para os cristãos, palavra de Deus sendo executada que expõe a nossa fome, os males do coração humano, nos quais Deus conclama o mundo e os seus filhos a contrição e arrependimento diários. Ao anunciar a lei, o púlpito necessita revelar este Deus que está presente na realidade humana. Ele não é somente o Deus que revelou sua ira contra o pecado no Calvário, mas que a cada dia revela sinais da sua ira sobre o pecado. E como nós, cristãos, somos parte desta sociedade e sobre nós pairam estas ameaças, não estamos isentos, nem inocentes deste pecado e não podemos alegar inocência. Também é importante sermos lembrados que enquanto somos humilhados e padecemos carências, a nossa fé corre menores riscos. É uma frase extremamente incômoda em tempos de ufanismo e teologia de resultados. Mas é Deus a dizer exatamente isto: “para não suceder que, depois de se multiplicarem os teus gados e teus rebanhos, e se aumentar a tua prata e teu ouro, e ser abundante tudo que tens, se eleve o teu coração, e te esqueças do Senhor, teu Deus” (vv. 11-14). Entretanto, esta disciplina que vem de Deus é a disciplina que um pai consciencioso compreende bem. Sem ela o filho sofre mais do que o sofrimento que a disciplina traz (v. 5).
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Guarda os mandamentos O maná que receberam não foi oferta de Moisés, mas foi oferta ou dom de Deus. Jesus vê neste maná, além do alimento para o corpo, a relação ou aliança de Deus operando na vida do povo. Aliança esta que é concreta e ultimada nele, o verdadeiro pão que veio do céu (Jó 6.32). Ao fazer esta conexão, Lutero vincula corpo e alma, bênçãos materiais e espirituais, fé e obras na vida do cristão. Toda a nossa vida é sinal da aliança de Deus com a humanidade realizada em Jesus Cristo. Desta maneira, nada merecendo de Deus senão castigo, Deus entretanto nos sinaliza tanto a disciplina em que nos mantém por amor, quando os muitos “manás” que diariamente colhemos para a nossa vida neste mundo, sejam eles materiais ou espirituais. Desta forma Deus nos mostra e comprova o seu amor por nós. Tanto os males que nos afligem são sinais do seu amor que o cristão como filho recebe e aprende a amar como benefícios que o mantém na fé, quanto aprende a louvar talvez mais a proteção que Deus exerce preservando os cristãos do mal e da tentação. Nesta perspectiva os cristãos vêem que são ricos e abençoados, não pelo acúmulo de bens, mas pela constância e fidelidade de Deus, cujas reservas se renovam sobre as vidas todos os dias. Receber com gratidão todas as coisas que estão dentro e fora da pessoa como milagres do amor e da providência do Pai passa a ser o modo de ver e de viver a vida, independentemente das circunstâncias. Isto leva Jó a dizer consoladamente: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” A vida do cristão, portanto, não está entregue à sorte, ao acaso, nem às circunstâncias. Tudo é cuidadosamente administrado por Deus para o nosso bem. Crer e viver de acordo com esta verdade é o desafio que a pregação cristã necessita afirmar. Lutero chama a atenção para o fato de o próprio Moisés em certo momento, especialmente, também falhou nisto, quando Deus apontou para a rocha e disse a Moisés que dela verteria água. Deus faz isto não somente com a rocha e o maná. Mas especialmente, Deus nos dá vida que Deus extrai da morte de seu Filho. Se desviamos os olhos desta morte, ou se perdemos de vista o que causou esta morte, perdemos a vida que dela morte brota. Fazei isto em memória de mim aponta para a morte, a rocha morta no deserto das nossas aflições e tristezas a que o pecado nos amarra. Mas ao apontarmos a fé para a morte de Jesus, temos o
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

alívio e vida nova que brota desta morte. Não conhecemos mais outra vida do que a vida de gratidão a Jesus. Mas o melhor ainda nos espera: a entrada definitiva na terra prometida em resultado da sua ressurreição. Sugestão homilética Sugestão de organização do material presente na meditação homilética acima: Assim como Deus cumpriu a palavra de levar Israel à Terra Prometida, assim Deus, agora, em Cristo nos dá os frutos dá sua promessa de vida plena e abençoada. Tema: Não te esqueças do Senhor teu Deus 1. Como Pai ele nos disciplina Ele te prova, humilha e descobre o teu coração Porque seu desejo é manter o nosso foco na sua promessa 2. Como Pai ele nos conduz pelo deserto Alimentando e vestindo corpo e espírito com os seus bens Porque quando ele se ausenta só nos restam areia e rochas secas 3. Como Pai, ele só nos faz bem (v.16) Da rocha brota água e do céu cai o pão Da morte nasce a vida Não te esqueças do Senhor teu Deus porque a vida procede da boca de Deus.

Paulo P. Weirich/São Leopoldo, RS

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NÃO É POR CAUSA DA TUA JUSTIÇA, ISRAEL
3º Domingo após Páscoa Deuteronômio 9

Contexto A estrutura do livro de Deuteronômio é simples. O centro do livro são os capítulos 12-26 denominado “Código Deuteronômico” onde uma das principais ênfases é a advertência contra a idolatria. Este “Código” é prefaciado por dois sermões, seguido por antífonas de bênçãos e maldições e um terceiro sermão. O cap. 9 integra o segundo sermão. Do alto dos seus 120 anos, Moisés está no cume do Monte Pisga, junto ao Nebo, a leste do Jordão. Desse púlpito improvisado por Deus emerge este sermão, que se caracteriza por uma retrospectiva histórica. É um recital da tolerante graça de Deus apesar da constante rebelião do povo de Israel. Uma retrospectiva é uma avaliação. Dela dependem as ações futuras, ou seja, a continuidade nas decisões e atitudes, ou a correção de sua trajetória. E isto torna-se especialmente importante neste momento quando o povo de Israel se prepara para entrar na Terra Prometida. Texto Vv. 1-3: “Ouve, Israel” diz Moisés, para que possais viver e possuir a Terra. Keil-Delitzsch diz que “ouvir” é colocar as palavras sobre o coração e observar o que acontece. O povo está pronto a passar o Jordão. Mas, do outro lado há nações maiores e mais fortes que Israel e cidades grandes e amuralhadas até os céus. Há gigantes também, os anaquins: inimigos desconhecidos de quem se indagava: “Quem poderá resistir aos filhos de Enaque?” (v.3). O contraste é claro: Israel é frágil; os cananeus são fortes. Entretanto, estes são eclipsados pelo poder de Deus. A linguagem hiperbólica servia para mostrar como o SENHOR era capaz de derrotar até esses inimigos. O original coloca “Ele” (aWh) três vezes em posição enfática (v. 3). A ação de Deus é ressaltada de três maneiras: é Ele quem passa adiante do povo como fogo devorador; é Ele quem destruirá o inimigo ; é Ele quem subjugará o inimigo. Mas Israel não ficará como mero observador. Depois das três ênfases em Deus, se diz: “assim os desapossarás e, depressa, os
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farás perecer”. Mas é preciso que Israel entenda a natureza dessa sua participação. Vv. 4-6: Em contraste com as 3 ênfases em Deus, o povo é advertido 3 vezes de que a posse da terra não seria por causa da justiça de Israel. As razões para a doação da terra a Israel estão sintetizadas assim: 1) por causa do julgamento divino sobre a maldade dessas nações (v. 4). Deus não é apenas o Deus de Israel, mas o Deus das nações. Logo, a expulsão dos cananeus não se dava por um ato arbitrário de Deus, mas por um ato justo da Sua parte. 2) A posse da terra por Israel não se dá por causa da retitude (rv,y) do seu coração. Há uma repetição: a causa é a maldade das nações (v. 5), mas há um acréscimo importante: o ato de expulsão de Deus não era apenas motivado por julgamento, mas sim “para confirmar a palavra que o SENHOR, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó”. A perversidade dos cananeus seria razão suficiente para a destruição deles. Tal fato, entretanto, não qualificava Israel para possuir a terra em vista da sua justiça e retidão. O motivo pelo qual o SENHOR dá a terra a Israel está fundamentado exclusivamente na promessa que Ele fizera aos patriarcas (7.8). Logo, essa doação de Deus provinha unicamente da Sua graça, sem nenhum mérito da parte de Israel mesmo porque este era um povo de “dura cerviz” (v. 6). Vv. 7-24: O texto apresenta um rosário de momentos em que a rebelião de Israel provocou a ira de Deus. Deus é paciente e misericordioso com o Seu povo. Amor e misericórdia fazem parte da Sua essência desde a eternidade. A ira de Deus é sempre provocada. E a ira de Deus tem sido provocada por Israel desde a saída do Egito até às campinas e Moabe. No v. 8 o vav diante da palavra “Horebe” é um vav explicativo, devendo ser traduzido por “mesmo em Horebe” – o que destaca tal pecado como sendo o mais grave deles. Em meio ao Culto, há um outro culto. Quando o povo deveria estar meditando nas “Dez Palavras” que recebera, ele agira de forma tão corrupta que apostataram da fé em Yahweh, construindo um Bezerro de Ouro. Escorregando no primeiro “mandamento”, Israel escorregava em todos. Não obstante à apostasia do povo, Deus dá a Moisés as tábuas da aliança não apenas para que sejam testemunhas da fidelidade de Deus diante de uma nação infiel como manteria sua aliança fazendo de Moisés uma nação ainda maior. O que salva a nação é uma intercessão de Moisés, em favor do povo e do próprio Arão. Embora esta última não esteja em Êxodo, ela é marcante para demonstrar que até mesmo o futuro sumo sacerdote de Israel precisa ser resgatado
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do castigo iminente. Quão desprovido de mérito, portanto, e quão dependente da misericórdia de Deus era um povo cujo próprio sumo sacerdote tinha de ser salvo da morte! Não foi, entretanto, apenas no Horebe (Monte Sinai) que Israel provocou o SENHOR à ira. Também em outros lugares: em Taberá, pelo descontentamento no guiar de Deus (Nm 11.1-3); em Massá, pela murmuração pela falta de água (Êx 17.1-7); em QuibroteHataavá, pela falta de carne, peixe, pepinos, melões, cebola, alho (Nm 11.4-9, cf. 11.34); e em Cades-Barnéia, pela sua incredulidade (Nm 13 e 14). A lista não é cronológica; mas se nota um escalonamento da culpa, de um grau menor a um grau maior. Os exemplos mostram as repetidas rebeliões de Israel e, por conseguinte, enfatizam a extensão da graça divina. Não fosse a graça divina, o povo teria perecido em Horebe. Israel foi poupado apenas para se rebelar vez após vez. Não fosse a graça de Deus e o povo não estaria agora nas campinas de Moabe e muito menos experimentando a renovação da aliança com Deus. Vv. 25-29 apresentam a intercessão de Moisés. Em Deuteronômio a expressão ( hwhy ynda), “Senhor Yahweh” (um atributo ligado ao nome) é empregada apenas em súplica. A expressão exalta a soberania e o poder de Deus ao mesmo tempo em que apresenta Deus como um Deus pessoal que se relaciona com o povo em aliança. E onde está a aliança (leia-se batismo) de Deus, aí está a Sua salvação. “Teu povo, Senhor” (v. 26) é uma resposta ao “ teu povo, Moisés” (v. 12). Anteriormente o povo é chamado a “lembrar-se” (7.18-21); agora, Deus é solicitado a “lembrar-se”. Lembrar não significa recordar. Quando Deus se lembra, Deus age – age de forma decisiva e salvífica em favor daqueles a quem fez as promessas (Gn 8.1; 9.15-16; 19.29; Lv 26.42; Sl 105.8-9). A lembrança de Deus está fundamentada na sua promessa. É o que Moisés faz. É o que nós podemos e precisamos fazer. Lembrar a Deus das Suas promessas. Ali Deus é encontrado como o Deus de amor e salvação. Moisés lembra a Deus de que Ele havia redimido (padâh) Israel do Egito com mão poderosa. Por sua vez, este fato não se dava por uma iniciativa arbitrária de Deus mas estava embasado em outras promessas feitas aos patriarcas. A promessa de Deus, portanto, tem história. Quando Deus promete, Ele se submete. Ele se sujeita ao cumprimento dela. Na verdade lembrar a Deus de Suas promessas é lembrá-Lo que Ele é um Deus que julga a rebelião sim, mas, acima de tudo, é um Deus rico em graça e misericórdia. Israel
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fora escolhido para ser o povo que traria a mensagem da redenção aos outros povos da sua época. Se Israel fosse aniquilado e em seu lugar outro povo fosse escolhido, mesmo que de origem mosaica, o Egito iria zombar Dele dizendo que Aquele que os tirara do Egito não fora capaz de levá-los à terra prometida. Caso a redenção não se concretizasse plenamente, a honra de Yahweh estaria comprometida perante as nações, que perderiam o temor por Ele, deduzindo, pelos conceitos religiosos da época, que os Seus poderes haviam sido limitados por outro deus. A intercessão de Moisés mostra que a justiça de Deus é balanceada pela misericórdia de Deus. E foi para esta última que Moisés apelou. Apenas ela, ao fim e ao cabo, pode salvar Israel e conduzi-lo à terra prometida. Se há uma justiça envolvida nesse processo é a justiça divina, não humana. Sugestões homiléticas Tema: Não é pela tua justiça, ó Israel! 1. Tempos atrás, a revista alemã Der Spiegel fez uma pesquisa onde revela que apenas 4 dos 10 Mandamentos são importantes para os alemães hoje. O 5º. mandamento foi considerado o mais importante, com 97% de aceitação. Já o 1º. mandamento é considerado o menos importante, com apenas 37% de aceitação. Seu conterrâneo, o reformador Lutero, enfatizou que todo o Decálogo depende do primeiro mandamento. Os mandamentos são como um móbile cujo fio de suspensão é o primeiro mandamento; cortando-se ele, todos os demais desabam. 2. Israel entendia que por ter sido o povo escolhido, era merecedor das dádivas divinas. Quando há merecimento, nunca há satisfação. Quando você se acha merecedor, você reclama, murmura. Você se torna juiz e avaliador do que recebe. O resultado é murmuração e descontentamento. Israel murmura porque se considera desfavorecido pela graça de Deus: merece mais do que tem recebido. 3. A murmuração tem desdobramentos. A história de Israel mostra estágios escalonados que terminam em rebelião contra Deus. Onde termina o senso da graça divina, começa o senso da justiça humana. 4. Apesar de tudo, onde abundou a rebelião, superabundou a graça. Israel é salvo porque Deus se submete à Sua promessa que se fundamenta na história dos patriarcas e culmina na
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história, pessoa e obra de Cristo. Cristo é a nossa justiça, justiça que veio de fora, da parte de Deus e que nos foi simplesmente imputada. A justiça de Cristo é a nossa justiça. Por meio dela Deus nos enxerga como justos. 5. O resultado desse processo salvífico é natural: intercedemos pelos outros. Muito pode por sua eficácia a oração do justo (Tg 5.16). Na Escritura, a intercessão em favor de outros é muito mais freqüente do que a oração por si mesmo. A intercessão move o coração de Deus, lembrando-O das Suas promessas. A intercessão está atrelada à missão. O perdão misericordioso de Deus para com os seres humanos pecadores está intimamente ligado à constante intercessão. 6. A retrospectiva visa mostrar que Deus é o guia de Israel e nosso guia. É Ele que nos obtém a vitória sobre os inimigos porque apenas Ele pode vencê-los. Somos participantes na medida em que Ele nos convida. E ao convidar, Ele nos estende, por sua graça, a vitória que Ele mesmo já conquistou.

Acir Raymann/São Leopoldo, RS

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E SEPAROU

A

TRIBO

DE

LEVI

4º Domingo após Páscoa Deuteronômio 10.1-11

1. O quarto domingo de Páscoa já nos aproxima da festa da ascensão e enseja uma reflexão sobre o ofício sacerdotal de Cristo, a partir da escolha da tribo de Levi, em Dt 10. 2. O texto de Dt 10.6-9 é um parêntese histórico colocado no meio de uma fala de Moisés. A NTLH caracteriza o trecho como um parêntese, mas não lhe dá nenhum título específico. A versão de Almeida Revista e Atualizada coloca o título “Da vocação da tribo de Levi”, mas não caracteriza o texto como parêntese, e estende a perícope até ao final do v. 11. Acontece que, no v. 10, retorna o discurso de Moisés. No entanto, Moisés fala de sua ação “sacerdotal”, intercedendo pelo povo junto a Deus, o que tem ligação com o tema da vocação da tribo de Levi. 3. A rigor, trata-se de um parêntese duplo: 10.6-7 e 10.8-9. Tudo indica que a locução “por esse mesmo tempo” (v.8, ARA) ou “naquela mesma ocasião” (NTLH) estabelece uma conexão com Dt 10.1-5, ou seja, a escolha da tribo de Levi se deu por ocasião daquilo que é relatado no início do capítulo, a saber, a colocação das tábuas da lei na arca da aliança. Isso faz sentido, pois os levitas eram encarregados, entre outras funções, de carregar a arca da aliança e de ensinar a lei ao povo. No entanto, não deixa de ser significativo que essa informação é dada após a referência à morte de Arão e a substituição dele por Eleazar, seu filho. (Eleazar, um dos quatro filhos de Arão, era o mais velho dos que ainda estavam vivos, conforme Nm 3.1-4). Além de ser substituído por Eleazar, o ofício sacerdotal de Arão foi, por assim dizer, “compartilhado” com os levitas. 4. O SENHOR Deus escolheu a tribo de Levi para que os homens dessa tribo desempenhassem três diferentes funções. Em primeiro lugar, deveriam levar a arca da aliança. Uma ilustração disso aparece em Josué 3.3-8. Além disso, deveriam “estar diante do SENHOR” (ARA), isto é, servir como sacerdotes (Dt 18.5,7). E, por último, deveriam abençoar o povo em nome de Deus. As palavras da bênção estão em Nm 6.22-27.
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5. A primeira dessas funções, carregar a arca da aliança, deve ter desaparecido com a entrada na terra prometida; as outras duas continuaram pelo tempo do AT afora. (O narrador diz que os levitas fizeram isso “até ao dia de hoje” [v.8], que é o tempo em que ele estava escrevendo, e parece indicar que as três coisas ainda estavam sendo feitas pelos levitas.) Essa honra era tão grande que a tribo de Levi, como diz o v.9, não recebeu terras em Canaã (Dt 18.1-5). “O SENHOR é a sua herança”, diz o v. 9, numa afirmação que encontra eco em Sl 16.5: “O SENHOR é a porção da minha herança”. De fato, o maior dom é o próprio doador. 6. O ministério de abençoar o povo é algo que nem sempre nos vem à mente quando pensamos em sacerdotes ou falamos deles. E, embora se possa argumentar que esse abençoar tem relação com a tarefa anterior (estar diante do SENHOR ou servir como sacerdotes), era também, ao que tudo indica, uma atividade à parte. Que seria abençoar? A imagem que nos vem à mente é de alguém que estende os braços e as mãos sobre outro(s) e profere algumas palavras. Há quem explique esse abençoar como “pedir a Deus que seja gracioso com o seu povo e lhe dê prosperidade”. No entanto, isso ignora o ato de fala que está implicado em abençoar. Abençoar é muito mais do que pedir algo; é fazer algo. É colocar o nome do SENHOR sobre o povo, como diz Nm 6.27. (E, neste caso, pouco importa se as palavras usadas são “que o SENHOR te abençoe ...” ou “o SENHOR te abençoe”, pois o ato de fala não muda). Por isso, mais importante do que descrever ou explicar a bênção (e aqui se está pensando na bênção ao final do culto) é proferir e receber a bênção. 7. A tarefa que mais caracteriza a função sacerdotal é a que aparece em segundo lugar, ou, então, em meio às outras duas: estar diante do SENHOR ou servir como sacerdote. O sacerdote é, antes de tudo, um intermediário entre o SENHOR e o seu povo. Acima de tudo, isso se aplicava ao ato de oferecer sacrifício. (Na prática, ser sacerdote era mais ou menos equivalente a trabalhar num abatedouro santificado de animais, pois o Templo era exatamente isso.) Nessa capacidade de intermediário, o sacerdote era o representante do povo: ele oferecia o sacrifício do povo diante de Deus. Só que existe também o outro lado: o sacerdote também representava Deus. Isto porque os sacrifícios do AT tinham também um caráter “sacramental” (não apenas porque havia um elemento visível e a dádiva do perdão, mas porque isso era algo que vinha de Deus). Foi o próprio Deus quem instituiu o sistema sacrificial que vigorava no AT. Era uma forma
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visível de atribuir perdão ao povo. Em outras palavras, os sacrifícios eram o meio da graça concreto que o próprio Deus havia instituído, e os sacerdotes estavam a serviço dessa instituição. 8. O sacerdócio do AT atingiu seu alvo e chegou ao cumprimento em Cristo. Foi, portanto, superado pelo sacrifício único e final de Jesus (Hb 9.11-14). Ele, que é da tribo de Judá, é o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, como explica o livro de Hebreus (Hb 5.10; 6.20). Como sacerdote, Cristo “carregou”, em nosso lugar, a arca da aliança que continha “a lei dos mandamentos na forma de ordenanças” (Ef 2.15). Como sacerdote, na cruz ele ofereceu a si mesmo em sacrifício (Hb 7.27; 9.14). Acrescentar a isto que ele nos abençoa parece dizer o óbvio. Em todo o caso, não se pode falar sobre sacerdócio sem falar sobre Cristo. Ele é Deus conosco e nos representa diante de Deus. 9. Em Cristo, o povo de Deus é povo sacerdotal. Diferentemente do AT, o sacerdócio do NT não se restringe a uma tribo, isto é, um grupo seleto ou privilegiado. Todo o povo de Deus é povo sacerdotal (1 Pe 2.9). Pastores e outros líderes nunca são chamados de sacerdotes. A igreja tem missão sacerdotal. Não vive em função de si própria, mas foi escolhida para o louvor da glória de Deus (Ef 1.6,12,14). Tem uma missão de Deus no mundo e intercede pelo mundo diante de Deus. 10. Das três funções apresentadas em Dt 10, a que mais bem se aplica ao povo de Deus do NT talvez seja essa de ser uma bênção e abençoar outros. A igreja se torna uma bênção e abençoa, proclamando os atos poderosos daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9). Com certeza, uma nobre missão, no período da páscoa, e sempre.

Vilson Scholz/São Leopoldo, RS

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CONTRA

OS

FALSOS PROFETAS

5º Domingo após Páscoa Deuteronômio 13

Contexto litúrgico Sugerimos para o culto deste dia a utilização das leituras da série Trienal C. Sem perder a dinâmica própria de cada texto, é possível observar pontos de contato entre cada uma das leituras e Dt 13. Neste último texto fica evidenciada a vontade de Deus que o seu povo, ao entrar na terra de Canaã, não seja enganado por falsas crenças, que levem a deuses inventados pelos homens. Afinal, Israel é um testemunho vivo do Deus vivo, em meio a povos que adoram deuses mortos. Para que tal testemunho realmente aconteça, é preciso, antes de qualquer outra coisa, ter o Senhor certo e não deixar-se levar por doutrinas estranhas. No Salmo do dia, Salmo 67, a súplica do povo de Deus por bênçãos do alto tem um propósito que vai além dos limites de Israel: “para que se conheça na terra o teu caminho; em todas as nações, a tua salvação” (v. 2) e “Louvem-te os povos, ó Deus” (vv. 3,5). É um Salmo “missionário”. O povo de Deus serve como testemunho do Deus verdadeiro não apenas pelo que faz e diz, mas pela ação de Deus em seu meio. Atos 14.8-18 mostra a reação do povo de Listra após o apóstolo Paulo, com seu companheiro Barnabé, ter curado um paralítico. O povo passa a considerá-los deuses do panteão greco-romano. Diferentemente dos falsos profetas, denunciados no texto do sermão, Paulo e Barnabé não se aproveitam do prodígio para autopromoção. Recusam-se a anunciar outro deus, senão aquele que criou o mundo e o preserva. Na visão dos novos céus e nova terra, o apóstolo João é deslumbrado com a visão da nova Jerusalém (Ap 21.10-14, 22,23). A cidade pode ser entendida como o próprio povo redimido de Deus, a Igreja triunfante (a noiva de Cristo – v. 2). Ela passou pela tribulação neste mundo, pela ameaça dos falsos profetas, tendo sido conservada pelo seu Senhor. Agora, na nova criação, sua beleza está na comunhão com Deus e com o Cordeiro Jesus. Uma conexão entre as leituras até
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aqui expostas e Dt 13 fica evidenciada: a adoração ao Deus verdadeiro, em contraposição a um culto falso. No Evangelho do dia, João 14.23-29, Jesus lembra que estar em comunhão com Ele significa guardar sua palavra. Para tanto, o Senhor promete a vinda do Consolador, que “vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (v. 26). É somente graças à ação do Espírito Santo, enviado pelo Senhor ressurreto, que a Igreja é mantida em comunhão com o verdadeiro Deus e não é levada por doutrinas estranhas a adorar falsos deuses. Texto Na edição em Português “Almeida” há uma quebra (marcada por um título editorial) entre 12.32 e 13.1. Na edição do Antigo Testamento hebraico (assim como na tradução grega, a Septuaginta) Dt 12.32 é o primeiro versículo do capítulo 13. Aquele versículo faz uma conexão entre o que foi dito antes (o aviso contra a idolatria dos cananitas) e o texto que segue (alerta contra os que convidam a um culto idólatra). Moisés exorta o povo de Israel a não perder de vista a adoração ao único Deus, que o salvou do Egito. A história posterior mostrará que uma tentação sempre presente seria a de adorar outros deuses, seguindo os ensinos dos povos vizinhos. Em sua exposição a Gênesis, Lutero entendeu a importância da conexão entre o capítulo 13 e 12.32: “Para confirmar o que foi dito no final do capítulo anterior – ‘nada lhe acrescentarás, etc.’ – Moisés agora apresenta todo este capítulo. É sua vontade que estejamos ligados à palavra de Deus com tal devoção de modo a não sermos movidos por pessoas ou sinais, não importa o quão doutos ou santos eles sejam como profetas; ou por irmãos, filhos ou amigos, não importa o quão bons e gentis eles sejam; ou por cidades e povo poderoso, não importa o quão grandes e numerosos sejam. É preciso depositar-se totalmente na palavra de Deus e deixar tudo o mais fora dos olhos e sentidos, pois quando se perde a palavra de Deus, perde-se Deus. É melhor perder amigos, irmãos, santos e poderosos e tudo o mais do que perder a Deus” (Luther’s Works, vol. 9, p. 129). É possível notar uma estrutura do capítulo a partir da repetição do alerta contra aqueles que dizem: “Vamos e sirvamos outros deuses”. Por três vezes é colocado este aviso (vv. 2, 6, 13). Em cada um deles, um tipo de indivíduos faz o convite à idolatria. Por uma questão de limitação do espaço e na busca de pontos de contato com as leituras do dia, devotamos maior atenção à primeira situação. No primeiro
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caso (vv. 1-5), são falsos profetas e pessoas que interpretam sonhos os que trazem a sugestão de servir outros deuses. Ou seja, trata-se de pessoas de quem se espera que falem em nome de Deus (cf. Nm 12.6). Mas deveriam fazê-lo a partir do que receberam de Deus e não do que inventam (cf. Dt 18.15; Jr 23.25-32). A presença de “sinal ou prodígio” não é, por si só, a prova de que o Deus verdadeiro esteja agindo. Moisés dá um critério que vai além do observar feitos extraordinários. O critério é o ensino do profeta ou sonhador. Este deve conformar-se ao que Deus mesmo já se revelou, ouvindo sua voz (v. 4). No caso do povo de Deus, em toda e qualquer época, a palavra revelada de Deus é o guia seguro. O Evangelho do dia mostra Jesus prometendo o Espírito Santo, como o Mestre da Igreja. Ele, que inspirou apóstolos e profetas na escrita da Escritura, guia o povo de Deus através desta palavra. “Vamos após outros deuses” – o convite do falso profeta é visto por Lutero como aplicável não apenas à adoração a “ídolos externos, mas antes uma noção e consciência errantes, desligadas do Deus verdadeiro [...] Se você pensa que Deus é adorado por sacrifícios desta ou daquela espécie, neste ou naquele lugar, sem a palavra de Deus, então você já perdeu o verdadeiro Deus; e esta idéia a respeito de sacrifício, à qual você se apega sob o nome do verdadeiro Deus, esta acaba por ser seu deus [...] Assim você vê que toda maneira de inventar e adorar falsos deuses nada mais é do que aquela noção ímpia pela qual alguém escolhe e crê que pode agradar a Deus sem a Palavra de Deus” (Luther’s Works, vol. 9, p. 130,131). Proposta homilética Moisés não apenas faz um alerta para que o povo de Deus se afaste do falso ensino. Ele ordena a morte daqueles que propagam outros deuses. Que aplicação (homilética ou para o ensino) se poderia dar a este texto? Em uma época como a nossa, em que o politicamente correto torna-se critério da verdade e quando a convivência, tolerância e diálogo são palavras-chave na relação entre as religiões, as palavras de Moisés soam como um ruído a perturbar a boa ordem. É possível para os cristãos tirarem destas palavras uma orientação para hoje? Uma leitura moralizante do texto trará consigo problema para aplicação do mesmo. Aliás, tal tipo de leitura do Antigo Testamento é sempre questionável, pois deixa de perceber uma dimensão mais ampla do texto bíblico. Do ponto de vista da teologia luterana, que lê o Antigo Testamento à luz do Novo, e que tem em Cristo o grande
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tema já naquelas páginas, há uma outra leitura possível e preferível. Ao invés de ler o texto como um roteiro de como o povo de Deus deve viver neste mundo, a partir do exemplo de Israel, lemos o Antigo Testamento como o desvendamento de Deus, com uma antecipação do futuro que virá em Cristo e no juízo final. A ressurreição de Jesus veio demonstrar que ele é o verdadeiro Filho de Deus e aponta desde já para as conseqüências escatológicas: quando da ressurreição dos mortos, por ocasião da volta de Cristo, só haverá dois destinos, a ressurreição para a vida, e a morte eterna. Os julgamentos anunciados no Antigo Testamento, como o que está presente no texto, são antecipações tipológicas do grande julgamento. Assim também já a entrada de Israel na terra de Canaã antecipa o ingresso do povo de Deus nos novos céus e nova terra. Ao ler as páginas do Antigo Testamento a Igreja hoje tem o testemunho do Deus que é vivo e atuante; o Deus que não tolera a idolatria, pois ela conduz à morte. Nas palavras de juízo contra os falsos profetas está uma palavra de alerta ao povo de Deus para que não se enrede em falsos ensinos, especialmente ao viver em um tempo de tolerância religiosa, que traz consigo o relativismo e pluralismo no que se refere à fé. O Deus que ressuscitou Jesus é o mesmo que conduz o seu povo até a ressurreição final, que abre a vida gloriosa na presença visível do Cristo ressurreto. Somente pela sua própria palavra podemos conhecê-lo e viver nele.

Gerson Luis Linden/São Leopoldo, RS

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IGREJA LUTERANA

AS PRIMÍCIAS
Dia da Ascensão Deuteronômio 26

DA

TERRA

O capítulo 26 de Deuteronômio trata das ofertas que seriam trazidas pelo povo de Israel uma vez de posse da terra prometida. Aparecem ali detalhes quanto ao modo de ofertar (primeira parte as colheitas; dízimo das colheitas de três em três anos) e do ritual de entrega das ofertas (perante o sacerdote; entrega do dízimo trienal aos levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas). O capítulo encerra com Moisés conclamando o povo escolhido a renovar seu voto de fidelidade ao Deus que os escolheu. Mais do que apenas informar procedimentos cúlticos de oferta que seriam adotados pelo povo de Israel após a conquista da terra prometida, o texto acentua a gratidão do povo diante da ação misericordiosa de Deus que os escolheu, libertou da escravidão e os leva à terra boa e rica como prometeu aos patriarcas. Marcantes neste sentido são a confissão de fé e oração de ação de graças no ato de entrega dos primeiros frutos produzidos justamente na terra recebida pela mão graciosa do Senhor. O povo reconhece Deus como doador de todas as coisas boas e o serve e honra com os primeiros frutos colhidos. O ato de ofertar os primeiros frutos é negação de desejos e apetites pessoais, preferindo glorificar ao Deus que tanto fez por eles. O israelita lembra sua origem pobre, fraca, faminta e escrava (pai arameu errante pelo deserto – Jacó, que fugiu da fome indo parar no Egito que mais tarde escravizou seus descendentes) e reconhece assim a imensa bondade de Deus para com ele. E com esse coração humilde e reverente é chamado por Deus para lembrar dos mais fracos e empobrecidos (estrangeiros, órfãos e viúvas) e repartir com eles parte daquilo que recebeu como bênção. O texto monta um palco no qual o povo não é o ator principal atuando no cumprimento de um ritual da Lei ao trazer suas ofertas, mas é coadjuvante, pois sua oferta, culto, gratidão e fé naquele momento focam o Senhor que é o ator principal nesta história de amor. O simples fato de Moisés entregar tais orientações sobre a oferta naquele momento em que ainda não haviam entrado em Canaã já é uma antecipação que exigia confiança plena na ação de Deus a favor
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de Israel, confiando que logo ali adiante estariam colhendo os primeiros frutos colhidos na terra da promessa e quando esse momento chegasse, já sabiam o que fazer em primeiro lugar – gratidão, oferta e serviço. É interessante também o v. 11 mencionar alegria e festa na entrega da oferta pelo fato de reconhecer o cumprimento da promessa do Senhor e pela oportunidade de através da oferta repartir essa bênção com outros, especialmente os mais necessitados. Oferta alegre e festiva é fruto de gratidão e fé, não apenas esforço concentrado diante da necessidade – vemos aí um recado interessante de Dt 26 a nós como Israel moderno. Contextualizando liturgicamente Dt 26 com a Ascensão do Senhor e encaminhando uma aplicação do texto, poderíamos montar um cenário parecido, do Israel de hoje diante do seu grande sacerdote, o Senhor ressurreto, que subiu aos céus e está à direita do Pai – um povo de origem pobre, fraca, faminta e escravizada por seu pecado e afastamento de Deus, mas povo escolhido e chamado em misericórdia para fazer desta terra onde estamos hoje uma Canaã, trazendo diante do altar do Senhor, num grande culto de gratidão e fé, os primeiros frutos colhidos pelos semeadores da Palavra de Deus, na missão deixada pelo Senhor antes de partir: “ide, fazei discípulos, batizando e ensinando”. Um culto festivo e alegre reconhecendo que, assim como na velha Canaã, aqui também a oferta de nossas vidas consagradas ao Senhor são resultado de nosso reconhecimento da ação salvadora e libertadora daquele que abriu as portas do céu (a melhor e definitiva terra prometida) a nós com sua morte e ressurreição e subiu ao céu para preparar-nos lugar. É o novo Israel feliz também pela oportunidade de repartir os frutos e bênçãos com os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas, vivenciando na oferta a alegria do amor ao próximo, uma ação social de uma igreja militante que louva aquele que agora reina em glória após tanto se doar por todos. É o povo diante do altar de Deus Pai, povo grato pela salvação recebida, cheios de esperança de vida eterna, com seus corações incendiados pelo amor do Filho, confiantes na ação do Espírito Santo, renovando sua disposição em continuar ofertando seu melhor e servindo como povo escolhido para que a colheita continue próspera de corações aquecidos pela misericórdia daquele que viu no passado e ainda vê a aflição, miséria e escravidão do ser humano, e continua através do Evangelho “com sua força e com o seu poder fazendo milagres, maravilhas e coisas espantosas” (v.8). Rafael Juliano Nerbas/Parobé, RS
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A PALAVRA

DO

SENHOR

6º Domingo após Páscoa Deuteronômio 18. 9-22

Contexto Deuteronômio significa “segunda lei”. Isto não quer dizer uma nova lei, mas a repetição daquilo que já fora dado ao povo anteriormente. No livro de Deuteronômio estão contidos os discursos que Moisés proferiu ao povo de Israel, prestes a entrar na terra prometida, depois de quarenta anos perambulando pelo deserto. Moisés lembra em suas falas que Deus os libertara da escravidão egípcia e que os havia guiado pelo deserto durante todos este tempo. Portanto, o povo devia obediência a Deus. Se não obedecessem a Deus, seriam castigados. O SENHOR Deus é o Criador de tudo e escolhera um povo com o qual fizera uma aliança. O SENHOR seria o seu Deus e eles seriam o povo escolhido de Deus. Cabia a este povo, agora, entregar-se totalmente a Deus: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (6.5). Na terra prometida o povo teria um lugar certo de adoração onde também seriam oferecidos os sacrifícios. Qualquer culto fora deste local e a outro deus seria falso. Texto: meditação prática No texto de Dt 18.9-15 Deus condena os costumes pagãos que oferecem seus filhos para serem sacrificados queimados num altar. Seguir adivinhos, pessoas que tiram sortes, feiticeiros, necromantes ou quaisquer pessoas que lidam com magias são plenamente condenados por Deus. Fidelidade a Deus deveria ser o padrão de conduta do povo. Dentre o povo de Deus o próprio Deus iria escolher um profeta semelhante ao próprio Deus. A este profeta o povo deveria dar ouvido. Quem não desse ouvido a este profeta prestaria contas perante Deus. Possibilidades de uso homilético O texto naturalmente aponta a condenação de quaisquer crenças em adivinhos, feiticeiros, macumbeiros, adivinhadores, horóscopos e
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

coisas semelhantes. Tudo isto é infidelidade a Deus. Precisamos confiar tão-somente em Deus e suas promessas. Isto é ser fiel a Deus. Levar nossos filhos a benzedeiras e macumbeiros é entregá-los às forças do diabo desde pequeninos. Também nossos filhos devem ser confiados tão-somente a Deus e suas promessas. O batismo e o ensino na palavra de Deus é a única coisa que devemos dar aos nossos filhos como esperança para a vida eterna com Deus. Ater-nos aos horóscopos, cartomantes ou quaisquer adivinhos é diabólico. O profeta de Deus, Jesus, é o nosso guia seguro para o encontro com Deus. A este profeta Deus deu a sua mensagem e ele deu todas as ordens de Deus para nós (v. 18). Proposta de estrutura de sermão JESUS É O PROFETA DE DEUS QUE PRECISAMOS OUVIR a. Quaisquer adivinhos, feiticeiros, necromantes são artimanhas do diabo. b. Todo profeta que não concordar em tudo o que Jesus nos diz é um falso profeta. c. Jesus deve ser ouvido, pois ele é o próprio filho de Deus, e veio a este mundo para falar todas as ordens de Deus. d. Jesus não pede nossos filhos em sacrifício nem qualquer sacrifício de nossa parte, pois ele mesmo sacrificou-se por nós.

Raul Blum/São Leopoldo, RS

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IGREJA LUTERANA

FESTA

DE

PENTECOSTES

Domingo de Pentecostes Deuteronômio 16.9-17

Contexto litúrgico O evento do Pentecostes, como lembrado a partir do Novo Testamento, celebra a obra do Espírito Santo, o mesmo que impulsionou os apóstolos no início para a proclamação do Cristo ressurreto (At 2). Trata-se, pois, de uma festa do 3º artigo – a obra da santificação. É obra ligada intimamente ao 2º artigo, a obra de Cristo em redimir o mundo com seu sacrifício e morte. No entanto, é importante lembrar que o Pentecostes em Atos ocorre durante a celebração de uma festa de Israel, que ocorria 50 dias após a Páscoa. Tratava-se de uma festa ligada à colheita. O texto de Deuteronômio, que traz as três grandes festas do povo de Israel, dá a oportunidade de meditarmos sobre o Pentecostes da Igreja - a ação do Espírito Santo, em trazer a salvação de Cristo, procurando o vínculo com a festa veterotestamentária do Pentecostes de Israel. Texto As palavras de Moisés em Deuteronômio 16 referem-se às três grandes festas do povo de Israel. No entanto, as mesmas já haviam sido instituídas bem antes, logo após a entrega dos dez mandamentos (Êxodo 23.14ss). Aquele texto, que faz parte do “livro da aliança” (Êx 24.7,8), coloca de forma prática e até exemplificada normas para a vida do povo da aliança. Parte integrante da vida do povo de Deus são as festas de comemoração das bênçãos derramadas por Deus. No texto escolhido para este dia Moisés está falando de duas das festas: Pentecostes (o início da colheita) e Tabernáculos (o final da colheita). Destacamos a seguir alguns aspectos do texto. “Celebrarás” (vv. 10,13,15) – literalmente “fazer festa” (assim como “fazer a Páscoa” – Êx 12.48), no sentido de celebrar, observar uma festa religiosa. O perigo de uma leitura marcionita do Antigo Testamento também se apresenta quando se analisam as ordenanças quanto aos sacrifícios e as festas instituídas por Deus. A tendência então é ver estes eventos sob a perspectiva da lei. Evitando esta leitura legalista do Antigo Testamento, é preciso observar que Moisés está falando de “festas”, de
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

“celebrações”. São eventos instituídos por Deus não para oprimir seu povo, mas para libertá-lo, de uma certa forma. As duas festas referidas no texto estão em conexão com a colheita. O povo é chamado a celebrar as bênçãos de Deus com o alimento, mas mais do que isto. A expressão hebraica é, literalmente, “farás a festa das semanas para Yahweh teu Deus”. A festa é celebrada pelo povo diante de Deus. Por isso, a festa é uma celebração não só das bênçãos derramadas, mas da presença do Doador destas bênçãos. “... ofertas voluntárias ... segundo o Senhor teu Deus te houver abençoado” (v.10; cf. v.17) – tais ofertas eram normalmente destinadas para uma refeição especial na festividade (como na Páscoa – 2 Cr 35.8). Não se deve confundir o caráter voluntário destas ofertas com a característica individualista de nossa sociedade contemporânea, onde a pessoa escolhe por sua “livre vontade” tomar parte ou não em algo. O povo é convocado para a festa. As bênçãos estão aí, de forma visível a testemunhar a bondade de Deus. Participar da festa é um privilégio. Trazer a oferta é parte da festa. O aspecto voluntário está na não estipulação do que e quanto trazer. É voluntário, ainda, por estar ligado diretamente ao que Deus concedeu, “sem mérito ou dignidade” da parte da pessoa. “Alegrar-te-ás” (vv. 11,14,15) – trata-se de uma alegria típica do povo de Deus (acentuada no v. 11 pela cláusula “perante o Senhor”, cf. Is 9.3). A expressão é usada diversas vezes nas festas religiosas do povo de Deus. Também é a alegria escatológica dos remanescentes de Israel (Sf 3.13, cf. v.2). A alegria é, no Novo Testamento, diretamente ligada ao Espírito Santo (cf. Rm 15.17; Gl 5.22). “... no lugar que o Senhor teu Deus escolher para ali fazer habitar o seu nome” (v.11; cf. v.16) – Deus mesmo estabelece o lugar onde seu nome habitará e, por isso, acontecerá o culto por ele instituído (Dt 12.11; 14.23; 26.2). O “nome” de Deus é sua revelação como Deus gracioso, libertador; por isso é o nome especialmente ligado ao êxodo do Egito (cf. Êx 6.2-8). Vale lembrar que este povo é o povo sobre o qual o nome de Deus é colocado na bênção araônica (Nm 6.27). Este povo tem na sua identidade o nome de Deus, portanto. A celebração das festas no lugar que Deus escolheu para colocar seu nome é, assim, também uma festa de celebrar a identidade de Israel como o povo sobre o qual está o nome de Deus, o povo da aliança. O paralelo com o batismo (“batizando em nome ...”) é evidente. O Espírito Santo coloca-nos para dentro (eivj to. o;noma) da comunhão com o Deus triúno (cf. Tt 3.5). “Lembrar-te-ás de que foste servo no Egito” (v.12) – a festa do 1º artigo, por assim dizer, traz consigo elementos do 2º artigo. A lembrança
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da servidão no Egito é lembrança também da graciosa libertação (salvação) de Deus. De fato, a celebração das bênçãos da colheita só tem sentido porque o Doador é o Redentor do povo. Verdadeiro culto de louvor pelas bênçãos só é possível por parte dos redimidos. Estendendo para o Novo Testamento, a obra de Cristo – aplicada ao pecador pelo Espírito Santo – capacita a pessoa a reconhecer com verdadeiro louvor as bênçãos de Deus. Proposta homilética O texto de Deuteronômio trata as festas de Pentecostes e Tabernáculos exatamente assim: como festas! Dois verbos chamam a atenção: “celebrarás”, “alegrar-te-ás”, cada um deles usado mais de uma vez no texto. Eles dão o tom dos eventos. Deus quer que seu povo festeje, celebre, se alegre. Não é uma alegria qualquer. É alegria diante dos feitos de Deus. As três grandes festas do povo de Israel (contando também a Páscoa) celebram, cada uma delas, a fidelidade de Deus para com seu povo. As duas que fazem parte do texto escolhido referem-se às bênçãos da colheita. O povo de Deus é convocado a reunir-se para celebrar como Deus é bom e com fidelidade mantém o seu povo da aliança. A igreja pode aplicar a si o convite à festa! A igreja é o povo de Deus, que celebra o fato de ter um Deus gracioso, que é fiel em todas as suas promessas. A igreja é um povo que festeja. Por isso, festas na Igreja não são uma anomalia, mas sua caminhada normal. Cada culto é uma festa. Cada celebração da santa ceia é uma maravilhosa festa. Cada batismo de uma criança ou de adulto é uma festa, que celebra a fidelidade de Deus. Outras festas podem acontecer, mas o motivo é sempre o mesmo: Deus é fiel, cuida e abençoa seu povo, um povo que ele quer ver celebrando junto, em comunhão de fé e amor. O povo de Deus precisa ser lembrado que celebrar o Pentecostes é festejar. Hoje é dia de festa. Deus nos deu antecipadamente o sinal dos novos céus e terra, que ainda aguardamos. O Espírito Santo, como penhor da herança futura (Ef 1.14) nos une como povo de Deus, nos nutre na fé, nos preserva e nos guia na vida neste mundo. Isto é motivo de festa. O tempo continua sendo, sim, um tempo sob a cruz. As tribulações existem, o pecado nos assedia, lágrimas ainda não foram todas enxugadas ... mas serão! E o Espírito Santo, o consolador, nestes tempos do fim, nos assegura que somos filhos de Deus, por ele amados e, por isso, cheios de motivo para celebrar. O dia de hoje é dia de festa, festa do povo de Deus. Por isso, a alegria é o tom deste dia! Gerson Luis Linden/São Leopoldo, RS
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