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Guinness Sebenta de Histologia Módulo II.II 2011-2012 Ana Dagge

Guinness

Sebenta de Histologia Módulo II.II

2011-2012

Ana Dagge

Boa Noite,

São 3 da manhã e estou boquiaberta a tentar perceber como é que tive paciência e tempo para escrever 150 páginas de resumos sobre uma cadeira em que tudo é definido por diferenças nos tons de cor-de-rosa.

Os resumos foram feitos com base no Ross e na grande Rita Luz, esse ícone da FML, e à custa de doses de cafeína pouco saudáveis. A quem estudar por aqui, aconselho que vejam sempre que possível um dos livros recomendados e tenham à mão um atlas ou o Iowa. De resto, só precisam de uma dose infinita de paciência e de uma boa banda sonora. Qualquer erro que detectem, é favor enviar um mail à gerência (anadagge@campus.ul.pt).

Agradeço a todos os que foram insistindo comigo para eu ir fazer isto, especialmente ao rapaz de Beja, famosíssimo vencedor de torneios de beer pong, que, quando questionado sobre a qualidade dos presentes resumos, respondeu “estão bons, têm um aspecto bonito e tal; à minha vizinha que anda há seis meses a cantarópera e a tentar tocar Adele e não consegue; ao Esmegma Fest e ao Joao_Carlos, porque ainda me dói a barriga de tanto rir; ao João Gramaça, pelo épico nome de praxe que deu o nome a esta sebenta; e, por último, ao Alex Turner, ao Zach Condon, ao Matt Berninger, à Florence Welch, ao Bob Dylan, ao Josh Homme, ao Marcus Mumford, à Régine Chassagne e a todos os outros que passaram horas infinitas durante estes meses a cantar para mim e a tornar tudo isto um bocadinho mais suportável.

Ana Dagge (Pronuncia-se Dégue)

The sea's only gifts are harsh blows and, occasionally, the chance to feel strong.

Índice

TECIDO EPITELIAL

6

EPITÉLIO GLANDULAR

18

TECIDO CONJUNTIVO

20

Tecido conjuntivo embrionário

20

Tecido conjuntivo propriamente dito

20

Matriz Extracelular

25

Células do Tecido Conjuntivo

26

TECIDO CARTILAGÍNEO

30

Cartilagem Hialina

30

Cartilagem Elástica

33

Fibrocartilagem

33

Condrogénese

34

Reparação da Cartilagem Hialina

35

Identificação Histológica

36

TECIDO ÓSSEO

37

Matriz extracelular ou Osteóide

37

Células do Tecido Ósseo

39

Ossificação

41

TECIDO ADIPOSO

46

SANGUE

49

Plasma constituição

49

Células do sangue

50

Hematopoiese

57

Medula Óssea

61

TECIDO MUSCULAR

63

Músculo Esquelético

63

Músculo Liso

67

Contracção Muscular

68

Identificação Histológica

71

TECIDO NERVOSO

72

O Neurónio

72

Sinapse

74

Transporte Axonal

76

Neuroglia

77

Origem das células nervosas

81

Organização do SNP

81

Organização do SNA

82

Organização do Sistema Nervoso Central

83

Tecido Conjuntivo do SNC Meninges

84

Barreira Hemato-Encefálica

85

Degeneração e Regeneração do SNP

85

SISTEMA CARDIOVASCULAR

87

Coração

87

Artérias e Veias

88

Linfáticos

93

Identificação Histológica

94

SISTEMA IMUNITÁRIO

97

Células do Sistema Imunitário

97

Órgãos Linfóides

98

SISTEMA DIGESTIVO I: cavidade oral e estruturas associadas

104

Cavidade Oral

104

Glândulas Salivares

109

SISTEMA DIGESTIVO II: Esófago e Tracto Gastrointestinal

113

Esófago

115

Transição Cárdio-Esofágica

116

Estômago

116

Intestino Delgado

121

Intestino Grosso

123

Recto e Canal Anal

125

SISTEMA DIGESTIVO III: Fígado, Vesícula Biliar e Pâncreas

126

Fígado

126

Sistema Biliar

131

Vesícula Biliar

132

Pâncreas

133

SISTEMA RESPIRATÓRIO

135

Fossas Nasais

135

Faringe

137

Laringe

137

Traqueia

137

Brônquios

139

Bronquíolos

139

Alvéolos

140

PADRÕES CITOQUÍMICOS

143

TECIDO EPITELIAL

O tecido epitelial é um conjunto de células poliédricas, justapostas e funcionalmente

interligadas que recobrem a superfície corporal e as cavidades do organismo. Formam ainda a porção secretora (parênquima) das glândulas e os seus ductos. Algumas células epiteliais especializadas são receptores dos órgãos dos sentidos.

O tecido epitelial forma uma barreira selectiva que facilita ou inibe a passagem de

substâncias específicas.

Características

As células estão muito próximas e unidas por junções celulares. Têm uma polaridade morfológica e funcional, apresentando três domínios: apical ou livre, lateral e basal.

A superfície basal está unida a uma lâmina basal rica em proteínas e polissacarídeos.

Algumas células podem não ter um domínio apical livre, sendo por isso chamadas de tecidos epitelióides (ex: células de Leydig, ilhéus de Langerhans, células luteínicas do ovário,

parênquima da glândula adrenal, lobo anterior da glândula pituitária).

Classificação

Os tecidos epiteliais são classificados de acordo com o número de camadas que os constituem e de acordo com a forma das células da camada mais superficial. Quanto ao número de camadas:

Simples (uma só camada de células)

Estratificado (duas ou mais camadas)

Quando à forma das células:

Pavimentoso (o comprimento é superior á altura)

Cubóide (as três dimensões são semelhantes)

Cilíndrico (a altura é superior ao comprimento)

Podem ainda ser classificados pela especialização do domínio apical em: ciliados, queratinizados, não queratinizados, etc.

Simples

Pavimentoso

Endotélio Mesotélio Cápsula de Bowman

Cubóide

Ductos das glândulas exócrinas Superfície do ovário Túbulos do rim Folículos da tiróide

Cilíndrico

Intestino delgado e cólon Estômago Vesícula biliar

Estratificado

Pavimentoso

Epiderme Cavidade oral e esófago Vagina

Cubóide

Ductos das glândulas sudoríparas Grandes ductos de glândulas exócrinas

Cilíndrico

Grandes ductos de glândulas exócrinas

Categorias especiais

Tecido epitelial pseudoestratificado é aparentemente estratificado, mas

todas as células assentam na membrana basal. Ex: traqueia (com cílios),

epidídimo (com estereocílios).

Epitélio de transição epitélio estratificado com características morfológicas

que permitem a sua distensão. As células mais superficiais são arredondadase

e as células que se situam imediatamente abaixo têm forma de pêra e são

ligeiramente mais pequenas. Por último, as células da última camada são

muito pequenas. Limitado ao epitélio do trato urinário (urotélio).

Consoante a sua localização, os epitélios podem ter nomes específicos. O endotélio

está presente nos vasos sanguíneos e linfáticos, o endocárdio está presente nos ventrículos do

coração e o mesotélio é o epitélio das cavidades do organismo.

Funções do epitélio: secreção, absorção, transporte, protecção, receptores.

Domínios das células epiteliais

Livre/Apical direccionado para o exterior ou para o lúmen das cavidades. Lateral comunica com as células adjacentes. Basal assenta na lâmina basal.

Modificações do domínio apical

incluem

proteínas transportadoras, microvilosidades, estereocílios e cílios.

Estas

modificações

a

presença

de

enzimas

Microvilosidades (1 a 3 micrómetros)

específicas,

canais

iónicos,

São projecções em forma de dedo de luva que podem ser pequenas e desordenadas ou compridas, uniformes e muito próximas. Têm como função aumentar a área de absorção da célula e o seu número depende da capacidade absortiva da mesma. No intestino, tomam o nome de prato estriado e, nos tubos renais, de bordadura em escova. Em condições ideias de observação, é possível distinguir no prato estriado uma ténue estriação paralela ao eixo maior das células. Nos tubos renais, as microvilosidades são menos concentradas do que no intestino, daí terem adquirido o nome de bordadura em escova. Ambas as estruturas estão associadas a uma desenvolvida glicocálix, podendo ser evidenciados

com corantes que demonstram glicoproteínas.

As microvilosidades são constituídas por um núcleo com 20 a 30 filamentos de actina cuja extremidade positiva está ligada à proteína vilina na porção mais distal e a extremidade negativa está ligada à rede terminal na base da microvilosidade. Os filamentos de actina estão ligados entre si por várias proteínas (fimbrina, espina, fascina) que conferem suporte e rigidez à estrutura e estão ligados à membrana das microvilosidades por miosina I. A rede terminal é constituída por espectrina que faz a ancoragem da rede à membrana da célula e por miosina II + tropomiosina que permitem o movimento passivo das microvilosidades.

Estereocílios (120 micrómetros)

Estão presentes no epidídimo dos canais deferentes e nas células sensoriais do ouvido

interno.

No primeiro caso, os estereocílios são muito longos e semelhantes a microvilosidades. Apresentam um núcleo de actina associado a fimbrina. Têm ainda α-actinina que faz a união entre dois esterocílios e está presente também na rede terminal. No ouvido interno, os estereocílios são muito sensíveis à vibração (são mecanoreceptores). Estão organizados em feixes que vão aumentando de tamanho e formam uma estrutura em forma de escada. Os filamentos de actina estão unidos por espina e não apresentam α-actinina. Possuem um mecanismo de renovação constante através da adição de monómeros de actina na extremidade positiva e na sua remoção na extremidade negativa.

Cílios Os cílios podem ser:

Móveis

Primários (ou monocílios)

Nodais

Os cílios móveis estão presentes na árvore tráqueo-brônquica, onde são responsáveis pela eliminação de muco e bactérias. No microscópio óptico, são pequenas estruturas muito finas com 5 a 10 μm, sendo visível uma banda mais escura na base dos cílios os corpos basais (visíveis individualmente no microscópio electrónico).

São constituídos por um axonema e por corpos basais. O axonema é um núcleo de microtúbulos constituído por 9 pares dispostos em círculo e por um par central (9+2). Cada par é constituído por um microtúbulo A (13 protofilamentos de tubulina) e por um microtúbulo B (10 protofilamentos de tubulina) que partilham uma parte da sua parede. Têm 2 “braços” de dineína (proteína motora) em volta de cada par e pares adjacentes estão ligados por nexina.

Os corpos basais são centros organizadores de microtúbulos e são constituídos por 9 porções de tripletos de microtúbulos arranjados em anel.

A actividade dos cílios é baseada no movimento dos microtúbulos uns em relação aos outros, o que é permitido pela dineína. O par central de microtúbulos têm quinesina que provoca um movimento de rotação dos microtúbulos responsável pela regulação da interacção da dineína com os restantes microtúbulos e pela coordenação do sentido do movimento.

Os cílios primários/monocílios são imóveis devido à ausência de proteínas motoras e do par de microtúbulos central (9+0). Movem-se passivamente devido à acção de fluidos e, geralmente, está presente apenas um por célula. Recebem estímulos químicos, osmóticos, luminosos e mecânicos e geram sinais que são transmitidos à célula. São essenciais no controlo da divisão celular. Estão localizados nas células epiteliais dos túbulos renais, nas células vestibulares do ouvido e no tracto biliar.

Os cílios nodais são imóveis (9+0) e têm um papel importante no desenvolvimento embrionário, nomeadamente na determinação da simetria direita-esquerda. Possuem quinesina e dineína que provocam movimentos de rotação no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Especializações do domínio lateral A membrana lateral apresenta moléculas de adesão celular (CAM) que fazem parte de especializações de junção que podem ser de três tipos: oclusivas (de oclusão), de adesão ou comunicantes. A membrana lateral pode ainda apresentar invaginações que são responsáveis por aumentar a área de contacto entre as células e que são particularmente desenvolvidas em tecidos envolvidos no transporte de fluidos e iões.

Junções de oclusão: zonula ocludens ou tight junctions

São as estruturas mais apicais e formam uma faixa circunferencial em volta da célula. Formam uma barreira selectiva entre células adjacentes, limitando o movimento de água e outras moléculas pelo espaço intercelular. São ainda responsáveis por evitar a migração de lípidos e proteínas entre as membranas apical e lateral, mantendo a integridade dos dois domínios.

Ocludina

4 domínios transmembranares Presente na grande maioria dos epitélios

Claudinas

4 domínios transmembranares Responsável por formar canais aquosos para a passagem de pequenos iões

Junctional

adhesion

1 domínio transmembranar Pertencem à família das imunoglobulinas.

molecules (JAM)

Formação de tight junctions entre células epiteliais e entre estas e os monócitos em migração do espaço vascular para o tecido conjuntivo.

Os domínios extracelulares destas proteínas formam uma estrutura em forma de fecho que sela o espaço intercelular. Os domínios intracelulares têm sequências de aminoácidos que atraem PDZ-domain proteins (complexos proteicos) que incluem ZO-1, ZO-2 e ZO-3 e que se associam à ocludina e aos filamentos de actina do citoesqueleto.

Tipos de transporte

Transporte transcelular (transcitose) tipo de transporte activo da membrana

apical para o citoplasma e do citoplasma para a membrana lateral (abaixo na zonula ocludens) ou para a membrana basal.

Transporte paracelular é feito através da zonula ocludens e a quantidade de moléculas transportadas depende da densidade da zonula ocludens, nomeadamente da composição molecular e do número de canais aquosos activos.

Junções de adesão

São responsáveis pela adesão entre células através da ligação do citoesqueleto de células adjacentes. Estão situadas abaixo da zonula ocludens e podem ser de dois tipos:

Zonula adherens (fazem a ligação dos filamentos de actina) Macula adherens /desmossomas (fazem a ligação dos filamentos intermédios)

A principal função deste tipo de junção é a estabilidade mecânica do epitélio,

impedindo que as células se separem quando sujeitas a certos tipos de forças, bem como o

reconhecimento célula-a-célula. Têm ainda um papel na morfogénese e diferenciação celulares.

Proteínas envolvidas:

CAM (moléculas de adesão celular)

O domínio extracelular interage com os de CAM de células vizinhas. Esta interacção

pode ser de dois tipos: homotípica, se ocorrer entre CAMs do mesmo tipo, ou heterotípica, se ocorrer entre CAMs de tipos diferentes.

O domínio intracelular está ligado ao citoesqueleto.

Estas moléculas estão envolvidas na comunicação, diferenciação e reconhecimento

celular, na apoptose, respostas imunitárias, etc.

Existem 4 famílias de CAMs:

Caderinas

Dependentes de cálcio Interacções homotípicas Associadas a cateninas que são responsáveis por fazer a ligação à actina Conduzem sinais que regulam a divisão e o crescimento celular Caderina-E: epitélios Caderina-N: SNC, cristalino, músculo esquelético e cardícaco

Integrinas

Constituídas por 2 glicoproteínas transmembranares Interacções heterotípicas Interagem com moléculas da matriz extracelular (colagénio, fimbrina, fibronectina) e com os filamentos de actina e filamentos intermédios do citoesqueleto

Selectinas

Dependentes de cálcio São expressas em células epiteliais e nos glóbulos brancos Fazem o reconhecimento neutrófilo-endotélio que inicia a migração dos neutrófilos pelo endotélio dos vasos sanguíneos

imunoglobulinas

Existem vários tipos: ICAM (intercellular cell adhesion molecule), CCAM (cell-cell adhesion molecule), VCAM (vascular cell adhesion molecule)… Têm um papel na adesão celular, na metastização de tumores, na angiogénese e nos processos inflamatórios.

Zonula Adherens Formam um anel em volta da célula. São compostas por E-Caderina que está ligada, no domínio intracelular, a catenina. O complexo E-caderina - catelina liga-se à vinculina e α- catenina que por sua vez interagem com os filamentos de actina. O domínio extracelular está ligado a cálcio, pelo que a remoção destes iões leva à dissociação da E-caderina. No microscópio electrónico, o espaço intercelular é pouco denso. Abaixo da membrana, é visível uma zona mais densa que corresponde aos complexos E-caderina - catenina e às proteínas associadas.

Fascia adherens São junções específicas do tecido muscular cardíaco que são semelhantes a zonula adherens. Ao microscópio electrónico, apresentam um aspecto ondulado. Têm ZO-1.

Macula adherens / desmossomas São junções muito fortes e que fazem a ancoragem de filamentos intermédios de células adjacentes. Ao contrário das zonula adherens, não são contínuas ao longo de toda a célula.

No lado citoplasmático da membrana, existe uma zona mais densa que corresponde a placas citoplasmáticas onde estão ligados os filamentos intermédios e que são compostas por desmoplaquina e placoglobina. Estas placas são responsáveis pela dissipação de forças. O espaço intercelular apresenta, ao microscópio electrónico, uma banda mais densa no meio que representa a porção extracelular de glicoproteínas: desmogleína e desmocolina (membros da família das caderinas são dependentes de cálcio). A porção citoplasmática destas glicoproteínas interage com a desmoplaquina e com a placoglobina.

Junções comunicantes: gap junctions ou nexus

Permitem a passagem de moléculas entre células adjacentes através de um conjunto de canais transmembranares e poros, sendo importantes em tecidos com actividade coordenada. Ao microscópio electrónico, são pontos de contacto entre células vizinhas. Os canais são formados por dois conexões, um em cada uma das células adjacentes. Cada conexão é constituído por 6 subunidades de conexina, sendo que, no total, cada canal tem 12 conexinas organizadas de forma circular. A interacção entre as conexinas pode ser homotípica se as moléculas passam igualmente nos dois sentidos ou heterotípica se as moléculas passam mais rápido num dos sentidos.

Mutações nos genes das conexinas estão associados a surdez e cataratas.

Especializações do domínio basal: membrana basal, junções célula-matriz e invaginações

Membrana basal

Não é visível em preparações de hemalúmen-eosina por ser muito fina e ficar corada da mesma forma que o tecido conjuntivo adjacente (pode ser usada impregnação em prata). É

PAS-positiva, o que indica a presença de proteoglicanos. Forma uma camada mais escura e muito fina entre o epitélio e o tecido conjuntivo.

O termo membrana basal inclui a lâmina basal e a lâmina reticular.

A

lâmina reticular é uma camada pertencente ao tecido conjuntivo formada por

colagénio tipo III (colagénio reticular).

A

lâmina basal ou lamina densa é uma camada de material mais denso entre o

epitélio e o tecido conjuntivo. Contém: laminina, colagénio tipo IV, proteoglicanos

e glicoproteínas. Entre a lâmina basal e a célula, existe uma camada mais clara constituída por CAMs (fibronectina e receptores de laminina) que se denomina lamina lucida.

Conteúdo da lâmina basal:

Colagénio

Tipo IV (50%) - isoformas deste tipo conferem especificidade à lâmina basal associada a diferentes tecidos. Tipo XV estabilização dos músculos esquelético e cardíaco. Tipo XVIII vasos e epitélios. Tipo VII ancoragem da lâmina basal à lâmina reticular.

Lamininas

Glicoproteínas constituídas por 3 cadeias polipeptídicas. Importantes na iniciação da formação da lâmina basal. Têm locais para ligação de receptores de integrina existentes no domínio basal do epitélio.

Entactina

Glicoproteína Faz a ligação entre a laminina e a rede de colagénio IV Liga-se a iões cálcio

Proteoglicanos

Têm um carácter muito negativo, pelo que são muito hidratados (dão volume à lâmina basal) Regulam a passagem de iões

A adesão da lâmina basal ao tecido conjuntivo é feita por:

Colagénio tipo VII faz um loop à volta do colagénio tipo III Microfibrilhas ancoragem das fibras elásticas Projecções da lamina densa

Funções da lâmina basal:

Ligação das células ao tecido conjuntivo

Isolamento do tecido conjuntivo dos epitélios, nervos e tecido muscular

Filtração

Guia na regeneração de tecidos

Impede a invasão tumoral

Controlo das funções celulares por interacção com receptores das membranas celulares

Junções célula-matriz

Mantêm a integridade da interface célula-matriz. Podem ser adesões focais (envolvem os filamentos de actina) ou hemidesmossomas (envolvem filamentos intermédios). Existem ainda, no domínio basal, proteínas transmembranares da família das integrinas que interagem com a lâmina basal.

Adesões focais Fazem a interacção entre a lâmina basal e os filamentos de actina. As proteínas transmembranares envolvidas são as integrinas que interagem, no domínio intracelular, com α-actinina, vinculina, etc. que estão ligadas à actina. No domínio extracelular, ligam-se a glicoproteínas da lâmina basal, nomeadamente a laminina e a fibronectina. As adesões focais são a base para a migração celular e são importantes na conversão de sinais mecânicos, provenientes do meio exterior, em sinais bioquímicos que afectam a actividade da célula (crescimento, migração, diferenciação, etc.).

Hemidesmossomas Estão presentes em epitélios sujeitos a forças abrasivais, como a córnea, pele, mucosa da cavidade bucal, esófago e vagina. São semelhantes ao desmossomas. Na porção intracelular, têm uma placa citoplasmática composta por proteínas da família das desmoplaquinas (plectina, BP230, erbina) que se ligam aos filamentos intermédios. As proteínas transmembranares são as integrinas.

Invaginações

Aumentam a superfície da membrana basal, permitindo a presença de um maior número de proteínas transportadoras e canais, sendo muito importantes em células com um transporte activo de moléculas, como os túbulos renais e alguns ductos das glândulas salivares. Ao microscópio óptico, apresentam um aspecto estriado devido ao facto de as mitocôndrias se posicionarem numa posição vertical no meio das invaginações (a presença de mitocôndrias é importante no fornecimento de energia para o transporte activo que ocorre ao longo da membrana).

Renovação Epitelial

O turn-over celular é característico de cada epitélio. A renovação de celular ocorre por divisões sucessivas das células estaminais do epitélio que estão localizadas em nichos. As novas células vão empurrando as que se situam em camadas suprajacentes.

EPITÉLIO GLANDULAR

É um tipo de epitélio com função essencialmente secretora e que se diferenciam como glândulas. As glândulas endócrinas e exócrinas originam-se por crescimento e diferenciação de botões celulares existentes nos epitélios de revestimento. As glândulas podem ser de dois tipos:

Endócrinas o produto (hormonas) é secretado para a corrente sanguínea directamente; não existem ductos excretores.

Exócrinas o produto é secretado no tecido conjuntivo ou epitelial através de um sistema de ductos.

Glândulas exócrinas Apresentam 3 mecanismos de secreção:

Merócrina

O produto é libertado por exocitose do domínio apical. Ex: Glândulas salivares e pâncreas exócrino

Apócrina

Juntamente com o produto é secretada uma pequena porção de citoplasma e há destruição parcial da membrana apical. Ex: Glândula mamária, glândulas ciliares (de Moll) no olho.

Holócrina

Acumulação do produto no citoplasma da célula e libertação por apoptose. Ex: Glândulas sebáceas da pele

Classificação As glândulas exócrinas podem ser unicelulares (ex: células caliciformes do intestino e do tracto respiratório) ou multicelulares. Estas últimas podem ainda ser classificadas tendo em conta as unidades secretoras (parênquima, ou seja, as células que produzem e libertam substâncias) e os ductos excretores.

Com base nas unidades secretoras, as glândulas exócrinas podem ser:

Tubulares (em forma de tubo)

Acinares / alveolares (forma arredondada)

Mistas / tubuloalveolares (um tubo que termina numa dilatação em forma de saco)

Com base nos ductos excretores, podem ser:

Simples (não tem ramificações)

Compostos (canais excretores ramificados)

Quanto ao tipo de secreção, as glândulas podem ser mucosas ou serosas. As secreções mucosas são viscosas, ricas em glicoproteínas e glicolípidos (PAS- positivas). Nas preparações de hemalúmen-eosina, o citoplasma não é visível porque o conteúdo é perdido. O núcleo é alongado e periférico devido à acumulação de muco no citoplasma. Ex: células caliciformes, glândula submaxilar, células superficiais do estômago.

As secreções serosas são mais aquosas e ricas em proteínas. O núcleo das células é redondo/oval, o citoplasma perinuclear é basófilo devido à abundância de retículo endoplasmático rugoso e o citoplasma apical cora intensamente com eosina. Ex: pâncreas exócrino.

No mesmo tecido, podem ser encontradas glândulas serosas e glândulas mucosas. Ex:

pâncreas, glândula parótida.

Glândulas Endócrinas As moléculas secretadas podem actuar sobre células situadas longe do local de secreção, sobre células vizinhas (acção parócrina) ou sobre a própria célula (autócrina).

Glândulas Mistas Apresentam, simultaneamente, compartimentos endócrinos e exócrinos. Ex: pâncreas,

fígado.

TECIDO CONJUNTIVO

O tecido conjuntivo tem origem mesodérmica e é constituído por células e matriz

extracelular (fibras e proteínas especializadas que constituem a substância fundamental).

Pode ser classificado em três categorias: embrionário, tecido conjuntivo

propriamente dito e especializado.

Tecido conjuntivo embrionário

A mesoderme é um folheto embrionário que origina quase todos os tipos de tecido

conjuntivo do organismo com excepção do da região da cabeça que tem origem na ectoderme,

a partir de células da crista neural.

A proliferação e diferenciação da mesoderme origina o mesênquima, um tecido

conjuntivo primitivo que por sua vez dá origem aos tecidos conjuntivos, aos músculos, ao

sistema vascular e urinário e às membranas serosas das cavidades.

Existem dois subtipos de tecido conjuntivo embrionário:

O mesênquima que é constituído por pequenas células fusiformes que

possuem prolongamentos que contactam com outras células. Estes

prolongamentos têm gap junctions. O espaço extracelular tem pouco

colagénio devido ao facto de o feto estar pouco sujeito a stress físico.

Tecido conjuntivo mucoso presente no cordão umbilical. A sua substância

fundamental é chamada de geleia de Wharton. As células fusiformes estão

mais separadas e são semelhantes a fibroblastos. Os prolongamentos são

pouco visíveis com hemalúmen-eosina.

Tecido conjuntivo propriamente dito

Tecido conjuntivo

Características

Localização

Laxo

Fibras de colagénio finas e escassas; Maior quantidade de células; Importante na difusão de oxigénio, dióxido de carbono e nutrientes entre

Mucosa dos órgãos Epitélio glandular Endotélio dos pequenos vasos sanguíneos

os

capilares e as células;

Local onde ocorre a resposta imunitária

 

inflamatória, pelo que podem estar presentes células imunitárias;

e

Denso irregular Grande quantidade de colagénio cujas fibras estão dispostas em várias direcções, o que confere ao tecido elevada resistência mecânica Células são escassas e geralmente apenas estão presentes fibroblastos Pouca MEC

Submucosa

dos órgãos

ocos

(como

o tracto

intestinal) onde permite a sua distensão

Pele,

onde

se

chama

camada

reticular

da

derme

Denso regular

Pouca quantidade de MEC Fibras de colagénio organizadas em paralelo e muito próximas, o que confere elevada resistência As células que produzem as fibras estão localizadas entre os feixes paralelos de colagénio

Tendões

 

Ligamentos

Aponevroses

Os tendões são estruturas que fazem a ligação entre os músculos e os ossos. Entre os

feixes de colagénio existem tendinócitos, que são fibroblastos com um aspecto estrelado. Os

tendões estão revestidos por uma camada de tecido conjuntivo no qual as fibras estão menos

organizadas. Prolongamentos desta camada dividem o tendão em feixes e contêm os vasos e

nervos responsáveis pela sua vascularização e inervação.

Os ligamentos são estruturas menos organizadas do que os tendões e são

responsáveis por ligar dois ossos. Alguns possuem mais fibras elásticas e menos colagénio pelo

que são chamados de ligamentos elásticos.

As aponevroses são constituídas por várias camadas de fibras e, em cada uma delas, as

fibras estão organizadas de forma paralela. Entre camadas vizinhas, as fibras formam ângulos

de 90º. Este tipo de arranjo está presente também na córnea, sendo responsável pela sua

transparência.

Constituição do tecido conjuntivo

O tecido conjuntivo é formado por colagénio, fibras reticulares e fibras elásticas, sendo

todas produzidas por fibroblastos.

Colagénio

É o composto mais abundante. As suas fibras são muito flexíveis e têm elevada

resistência à tensão. Coram com eosina e outros corantes ácidos.

As fibras de colagénio são constituídas por fibrilhas (subunidades) que se associam “cabeça com cauda”. A resistência é causada pelas ligações covalentes entre moléculas de feixes diferentes.

Cada molécula de colagénio é constituída por:

Tripla hélice de hélices-alfa

A glicina aparece a cada três aminoácidos

A sequência hidroxiprolina/hidroxilisina glicina prolina é frequente

Hidratos de carbono associados

600-3000 aminoácidos

Existem 28 tipos de colagénio, sendo que os mais importantes são os 5 primeiros.

Tipo

Localização

 

Função

 

I

Pele, osso, tendões, ligamentos, dentina, aponevroses, órgãos ocos (90% do colagénio total do organismo)

Resistência

à

tensão

e

ao

estiramento

II

Cartilagem hialina e elástica, notocorda e disco intervertebral

Resistência

a

pressões

intermitentes.

III

Tecido conjuntivo laxo, tecido muscular liso, endoneuro, vasos sanguíneos e pele do feto

Forma fibras reticulares que confere um esqueleto para células especializadas de alguns órgãos

IV

Lâmina basal dos epitélios, glomérulos do rim

Barreira de filtração

 

V

Tecido conjuntivo do estroma

 

Associado a colagénios tipo I, XII e XIV para modular as propriedades biomecânicas das fibrilhas

VI

Matriz

cartilagínea

que

envolve

os

União dos condrócitos à matriz; Associado ao tipo I

condrócitos

 

VII

Fibrilhas de ancoragem da pele, olhos, útero e esófago

Ligação da lâmina basal ao tecido conjuntivo

Biossíntese de colagénio Eventos intracelulares:

Síntese de hélices-alfa no REr na forma de cadeias pro-α que apresentam longos

domínios carboxilo e amina.

No lúmen do REr, sofrem várias modificações:

Remoção da sequência sinal da extremidade amina.

Hidroxilação dos resíduos de prolina e lisina. Este processo requer ácido ascórbico (vitamina C) pois na sua ausência não se formam pontes de hidrogénio.

Glicolização dos resíduos de lisina.

Formação da tripla hélice (excepto nas extremidades).

Formação de pontes de H e dissulfito intra e inter-cadeia.

Estabilização da cadeia por chaperones (hsp47) que previnem a formação de agregados.

O produto final é o pro-colagénio que é excretado

Eventos extracelulares:

Remoção das extremidades amina e carboxilo por peptidases.

Formação de fibrilhas por fibrilhogénese.

Formação de ligações covalentes entre lisina e hidroxilisinas de cadeias diferentes.

O colagénio maduro é formado por vários tipos de colagénio e é sintetizado por fibroblastos, que na cartilagem se chamam condrócitos e no osso são osteoblastos. O colagénio da lâmina basal é produzido pelas células epiteliais. A biossíntese de colagénio é regulada por factores de crescimento, hormonas e citocinas, sendo que o factor de crescimento derivado de plaquetas (PDGF) e o factor de crescimento β estimulam a sua produção e os glicocorticóides (hormonas esteróides) a inibem.

Degradação do colagénio Ocorre por duas vias principais: degradação proteolítica e degradação fagocítica. A degradação proteolítica ocorre pela acção de metaloproteínases de matriz (MMP) que são sintetizadas por fibroblastos, células epiteliais e células cancerígenas. As MMPs

incluem: colagenases (degradam os tipos I, II, III e X), gelatinases (degradam colagénio desnaturado, laminina, fibronectina e elastina), estromalisinas (degradam proteoglicanos e fibronectina), MMPs de membrana (produzidas por células cancerígenas), etc. Geralmente, a estrutura em tripla hélice é resistente à degradação. A actividade das MMPs pode ser inibida por inibidores específicos para estas enzimas, podendo vir a ser de elevada importância no tratamento do cancro.

A degradação fagocítica ocorre no meio intracelular. Os macrófagos e fibroblastos fagocitam os fragmentos de colagénio previamente degradados que são digeridos nos lisossomas das células.

Fibras Reticulares

São compostas por colagénio tipo III (colagénio reticular), têm cerca de 20nm de diâmetro e não coram com hemanlúmen-eosina. São PAS-positivas o que indica a presença de grupos de glícidos. Estão presentes no tecido conjuntivo em contacto com epitélios e rodeiam adipócitos, pequenos vasos sanguíneos, nervos e células musculares. São ainda encontrados em tecidos embrionários e nos primeiros estádios de reparação de tecidos e formação de tecido cicatrizado, onde vai sendo substituído progressivamente por tipo I. Estão também presentes nos tecidos hematopoiéticos e linfóides, nomeadamente no timo. Nestes tecidos, são produzidos por células especiais, as células reticulares, que envolvem as fibras e as isolam de outros componentes. As fibras reticulares são geralmente produzidas por fibroblastos, excepto nos nervos onde são produzidas pelas células de Schwann, na túnica média dos vasos e no músculo liso do tubo digestivo.

Fibras Elásticas

São produzidas por fibroblastos e por células musculares lisas. Possuem um núcleo de elastina e uma rede de microfibrilhas de fibrilina. A elastina é rica em prolina e lisina e é hidrofóbica. A fibrilina-1 é uma glicoproteína que forma microfibrilhas de 10-12nm de diâmetro e que permite a organização da elastina em fibras. A sua ausência está associada à síndrome de Marfan caracterizada por uma elevada elasticidade da pele.

As fibras elásticas formam uma extensa rede tridimensional e entrelaçam-se com o colagénio, limitando a distensão do tecido e impedindo que este “rasgue”. Estas fibras estão presentes nas cordas vocais e algumas artérias.

Matriz Extracelular

A matriz extracelular é uma rede que rodeia e suporta as células presentes no tecido

conjuntivo. Contém, além do colagénio, das fibras reticulares e das fibras elásticas, uma grande variedade de proteoglicanos, glicosaminoglicanos e glicoproteínas não-colagenosas (fibronectina e laminina). Estes três últimos componentes formam a substância fundamental da matriz extracelular.

Funções da matriz extracelular:

Suporte mecânico e estrutural

Força de tensão

Barreira biomecânica

Regulação das funções metabólicas da célula

Ancoragem das células por adesões célula-matriz

Importante no desenvolvimento embrionário e diferenciação

Retém factores de crescimento

Informa a célula sobre a constituição do meio extracelular

Substância fundamental

É uma substância viscosa e límpida que, no microscópio óptico, tem uma aparência

amorfa. Nas preparações de hemalúmen-eosina, a substância fundamental é perdida, pelo que

só as células e fibras são visíveis.

Os glicosaminoglicanos são o composto mais abundante. São formados por uma longa cadeia não ramificada constituída por dissacáridos (N-acetilgalactosamina ou N- acetilglicosamina e ácido urónico). São sintetizados sob a forma de proteoglicanos e sofrem, posteriormente, modificações. Estão carregados negativamente devido aos grupos sulfato e carboxilo, o que faz com que tenham a capacidade de atrair água e formar um gel que permite a difusão rápida de moléculas.

O ácido hialurónico é um glicosaminoglicano com algumas características especiais:

tem uma cadeia muito longa, consegue deslocar maiores quantidades de água, é sintetizado por proteínas de membrana pelo que não sofre modificações após a tradução, não contém sulfatos e não forma proteoglicanos. Estes, ao interagirem com o ácido hialurónico através de proteínas específicas, formam agregados. É muito abundante na cartilagem conferindo-lhe maior capacidade para resistir a choques e é um bom isolante devido à dificuldade que as moléculas têm em difundir-se através dele.

As glicoproteínas não-colagenosas têm locais de ligação para as proteínas da MEC e interagem com receptores de laminina e integrina das membranas celulares, pelo que são responsáveis pela estabilização da MEC e pela ligação desta às células.

A fibronectina é a mais abundante. É um dímero de 2 péptidos iguais ligados por

ligações dissulfito. Possui locais de ligação para componentes da MEC (sulfato de heparina, colagénio tipo I, II e III, fibrina, fibronectina, ácido hialurónico) e para a integrina, um receptor

membranar.

A laminina está presente na lâmina basal e possui locais de ligação para colagénio tipo IV, heparina e para o receptor de laminina.

A osteopontina está presente no osso e liga os osteoclastos à superfície deste. É

importante na captação de cálcio.

Células do Tecido Conjuntivo

Constantes Fibroblastos e miofibroblastos Mastócitos Células estaminais adultas Macrófagos Adipócitos

Que migram da corrente sanguínea Linfócitos Neutrófilos Eosinófilos Basófilos Monócitos Plasmócitos

Fibroblastos

Responsáveis pela síntese de colagénio, fibras reticulares e fibras elásticas, proteoglicanos, glicoproteínas, etc. Quando corados com hemalúmen-eosina só o núcleo é visível. Têm uma forma alongada ou em forma de disco. No microscópio electrónico, é possível ver o REr e o complexo de Golgi bem desenvolvidos devido à elevada síntese proteica. Se a preparação for feita durante uma fase de crescimento activo ou reparação de tecido, os fibroblastos activados são maiores e mais basófilos devido ao aumento do REr.

Miofibroblastos

São alongados e possuem feixes de filamentos de actina associados a proteínas motoras que atravessam a célula e lhe conferem capacidade contráctil. O local onde se ligam à membrana chama-se fibronexus e serve é semelhante às adesões focais. Ao microscópio electrónico, apresentam simultaneamente características de fibroblastos (REr e complexo de Golgi abundantes) e de músculo liso (membrana nuclear irregular devido à contracção). No entanto, contrariamente às células musculares lisas, não apresentam lâmina basal e estão geralmente isoladas, podendo contactar com outros miofibroblastos através de gap junctions.

Macrófagos

São derivados de monócitos células sanguíneas que migram para os tecidos e se diferenciam.

É possível identificá-los ao microscópio devido à presença de um núcleo em forma de

rim, lisossomas abundantes, material ingerido por fagocitose e numerosas invaginações e projecções.

A capacidade fagocítica dos macrófagos é evidenciada pela abundância de lisossomas,

invaginações e vesículas endocíticas. A presença de REr, RE liso e complexo de Golgi indicam uma elevada síntese proteica necessária à digestão das substâncias fagocitadas, bem como elevada actividade secretora. Os produtos podem ser secretados por via constitutiva ou regulada (activada por fagocitose, complexos imunitários e libertação de sinais pelos linfócitos). Os produtos incluem substâncias de resposta imunitária e inflamatória, proteases e GAGases (degradam glicosaminoglicanos) que facilitam a migração dos macrófagos para os tecidos.

Têm um importante papel na resposta imunitária. Apresentam à superfície um conjunto de proteínas específicas o complexo maior de histocompatibilidade II (MHC II). O MHC permite a interacção com linfócitos CD4 + . Quando os macrófagos fagocitam um microrganismo, mostram à superfície os seus antigénios. Caso estes sejam reconhecidos pelos linfócitos T, é desencadeada uma resposta imunitária. Devido a esta capacidade, são denominadas células apresentadoras de antigénio (APC). As células de Langhans são conjuntos multinucleados de macrófagos que fagocitam grandes organismos.

Mastócitos

Células grandes e ovóides, com núcleo esféricos e citoplasma com grânulos que coram com azul de toluidina porque contêm heparina (proteoglicano). Têm pouco REr, poucas mitocôndrias e complexo de Golgi pouco desenvolvido. Desenvolvem-se de células estaminais hematopoiéticas. Circulam no sangue na forma de agranulócitos e, ao migrarem para os tecidos, produzem os grânulos. Possuem receptores para as imunoglobulinas E, pelo que a ligação destas aos mastócitos desencadeia a libertação dos grânulos e a consequente resposta alérgica. Estão presentes na vizinhança de vasos sanguíneos (excepto no SNC para que o cérebro e a medula estejam protegidos de eventuais reacções alérgicas), nos folículos capilares, nas glândulas sudoríparas e sebáceas e no timo e órgãos linfóides (excepto o baço).

Os produtos secretados pelos mastócitos estão armazenados nos grânulos e incluem mediadores de inflamação que podem ser pré-sintetizados ou recém-sintetizados:

Histamina aumenta a permeabilidade dos vasos, causa edemas, aumenta a produção de muco na árvore tráqueo-brônquica, etc.

Heparina é um anticoagulante usado no tratamento de tromboses.

Proteases de serina induzem a apoptose de células vasculares nas áreas ateroscleróticas.

Factores que atraem neutrófilos e eosinófilos.

CTC4 libertado em choques anafiláticos; provoca a constrição dos brônqueos.

Tumos necrosis factor α.

Prostaglandina D2

Interleucina-5

Basófilos

São formados na medula óssea e libertados na corrente sanguínea. Secretam as mesma substâncias que os mastócitos (excepto interleucina-5 e prostaglandina D2).

TECIDO CARTILAGÍNEO

É um tecido conjuntivo especializado, composto por condrócitos e matriz extracelular. A matriz extracelular (95% do volume) é sólida, moldável, resistente e é essencial para a sobrevivência dos condrócitos devido à elevada concentração de glicosaminoglicanos e colagénio tipo II que permitem a difusão de substâncias até eles. A elevada resistência do colagénio, associada à hidratação dos proteoglicanos, confere à cartilagem uma elevada resistência ao peso durante longos períodos de tempo. A cartilagem pode ser dividida em três tipos: cartilagem hialina, cartilagem elástica e fibrocartilagem.

Cartilagem Hialina

A matriz extracelular é amorfa e possui lacunas, pequenos espaços onde estão situados os condrócitos. Possui uma capacidade de regeneração muito limitada e é o precursor de ossos que de desenvolvem por ossificação endocondral.

Localização:

Composição Colagénio (15%)

Superfícies articulares Traqueia Brônquios Laringe Septo nasal Extremidade esternal das costelas

Tipo II (principalmente)

Tipo XI (regula o tamanho das fibrilhas)

Tipo X (organização tridimensional)

Tipo IX (interage com os proteoglicanos)

Tipo VI (presente à superfície dos condrócitos)

Proteoglicanos (9%)

A substância fundamental contém 3 tipos de glicosaminoglicanos: ácido hialurónico,

condroitino sulfato e queratano sulfato. Estes dois últimos estão unidos a uma proteína para formar um proteoglicano. Cada molécula de ácido hialurónico está ligada a vários proteoglicanos, formando agregados carregados negativamente entre as fibrilhas de colagénio que atraem moléculas de água.

Glicoproteínas não-colagenosas (5%) Influenciam as interacções entre os condrócitos e a matriz. São marcadores da degeneração da cartilagem.

Água (60-80%)

A água confere à cartilagem resistência e capacidade de resposta a variações da

pressão e permite a difusão de substâncias importantes para a nutrição dos condrócitos.

A regeneração da matriz extracelular depende da capacidade dos condrócitos detectarem mudanças na sua composição. A pressão cria sinais mecânicos, químicos e eléctricos que influenciam a actividade destas células. Com a idade, a composição da matriz altera-se e os condrócitos deixam de ser capazes de responder a esses estímulos.

Condrócitos Os condrócitos estão agrupados na cartilagem em grupos isógenos que correspondem a células que se dividiram recentemente. À medida que vão produzindo matriz extracelular, vão-se afastando. Os condrócitos secretam, além das proteínas que compõem a matriz, metaloproteinases que são responsáveis pela sua degradação.

Condrócitos activos têm:

Citoplasma com zonas mais basófilas (mais escuras) que revelam uma elevada síntese proteica;

Citoplasma com zonas mais claras que correspondem ao Complexo de Golgi;

No microscópio electrónico, são visíveis grânulos, vesículas, REr e citoesqueleto abundantes.

Condrócitos inactivos têm:

Complexo de Golgi mais pequeno;

Elevado número de gotículas de lípidos;

Então “encolhidos” devido à perda do conteúdo lipídico e glicogénico durante a preparação.

Os

componentes

da

matriz

extracelular

não

estão

distribuídos

uniformemente,

podendo distinguir-se 3 zonas baseadas na forma como coram:

Matriz capsular/pericelular É representada por um anel mais denso em volta de cada condrócitos. Tem uma elevada concentração de proteoglicanos, ácido hialurónico, glicoproteínas não- colagenosas e colagénio tipo VI (faz a ancoragem do condrócito à matriz).

Matriz territorial

Rodeia os grupos isógenos e cora menos intensamente. Tem maior quantidade de colagénio tipo II.

Matriz interterritorial Ocupa o espaço entre condrócitos e é a zona que cora de forma mais clara, porque é a zona com menor quantidade de proteoglicanos.

Pericôndio Tecido conjuntivo denso composto por células semelhantes a fibroblastos que envolve a cartilagem hialina, excepto nas superfícies articulares e nas superfícies onde ela contacta com o osso. É constituído por duas camadas: uma camada mais externa fibrosa e uma mais interna celular que origina condrócitos (é condrogénica).

A cartilagem articular pode ser divida em 4 camadas (de superficial para profundo):

Zona Superficial

Muito resistente à pressão. Condrócitos muito numerosos e achatados rodeados por colagénio tipo II disposto em feixes paralelos

Zona Intermédia

Condrócitos e as fibras de colagénio distribuídos de forma mais irregular

Zona Profunda

Condrócitos pequenos e redondos organizados em colunas perpendiculares à superfície

Zona Calcificada

Condrócitos muito pequenos Matriz extracelular calcificada

Cartilagem Elástica

A matriz extracelular é semelhante à da cartilagem hialina mas possui também fibras elásticas, apresentando por isso propriedades elásticas. Está rodeada por pericôndio, cora com orceína e não calcifica.

Localização:

Ouvido externo Paredes do canal auditivo externo Trompa de Eustáquio Epiglote

Fibrocartilagem

É constituída por tecido conjuntivo denso regular e por cartilagem hialina. Os condrócitos encontram-se dispersos entre as fibras, podendo ser solitários ou estar reunidos em grupos isógenos. Os núcleos são arrendondados e existe menor quantidade de matriz extracelular. Não existe pericôndio. São visíveis alguns núcleos alongados que não pertencem a condrócitos mas sim a fibroblastos. Este tipo de cartilagem é muito resistente à compressão e absorve os choques.

Localização:

Sínfise púbica Discos intervertebrais

Menisco do joelho Alguns locais onde o tendão se une ao osso

Composição da Matrix Extracelular

Colagénio tipo I (típico do tecido conjuntivo)

Colagénio tipo II (típico da cartilagem)

A proporção dos tipos de colagénio varia consoante a localização e com a idade (ao longo dos anos a quantidade de colagénio tipo II aumenta porque é constantemente libertado pelos condrócitos)

Menor quantidade de proteoglicanos e água

Condrogénese

O processo de desenvolvimento dos condrócitos inicia-se por agregação de células mesenquimais (ou ectomesenquimais da crista neural, no caso das cartilagens da cabeça). A expressão do factor de transcrição SOX-9 diferencia estas células em condroblastos, que são responsáveis pela segregação da matriz. Quando um condroblasto está completamente rodeado por matriz extracelular passa a chamar-se condrócito. As células mesenquimais que rodeiam os pontos de condrogénese originam o pericôndio que envolve a cartilagem. A regulação do processo de condrogénese é feita por proteínas da matriz extracelular, por receptores nucleares, por moléculas de adesão, por factores de transcrição e por forças biomecânicas exercidas sobre estas células.

O crescimento da cartilagem pode ocorrer por dois processos:

Crescimento aposicional os condroblastos da camada condrogénica (mais interna) do pericôndio sofrem mitoses sucessivas e originam condrócitos.

Crescimento intersticial os condrócitos da região interna da cartilagem dividem-se; as células-filhas ocupam primeiro a mesma lacuna da progenitora mas à medida que vão depositando nova matriz afastam-se, provocando o crescimento da cartilagem.

Reparação da Cartilagem Hialina

A cartilagem é incapaz de se regenerar devido à ausência de vascularização, à

imobilidade dos condrócitos e à sua limitada capacidade de divisão.

A regeneração só ocorre se a lesão afectar apenas o pericôndio. Nesta situação, a

reparação é feita por células pluripotentes localizadas neste tecido mas poucas células

cartilagíneas são produzidas. A reparação ocorre principalmente por produção de tecido conjuntivo denso.

A reparação de cartilagem é feita por deposição de colagénio tipo I e formação de

cicatriz. Desenvolvem-se geralmente vasos sanguíneos na zona afectada que estimulam a formação de tecido ósseo. A cartilagem hialina é susceptível à calcificação em zonas que estão em contacto com o osso nas articulações, no processo de ossificação endocondral e ao longo do envelhecimento.

Identificação Histológica

Cartilagem Hialina (Hemalúmen-eosina e orceína):

Condrocitos localizados em lacunas

Cápsula envolvente mais corada devido à presença de muitos glicosaminoglicanos

As fibras da matriz confundem-se com a substância fundamental e dão à cartilagem um aspecto amorfo

A matriz tem glicosaminoglicanos sulfatados e por isso cora com corantes básicos como a hematoxilina

O pericôndio cora com eosina e apresenta núcleo alongados que correspondem aos condroblastos e núcleo mais externos e menos evidentes de fibroblastos

Existe uma camada mais clara entre o pericôndio e a matriz que corresponde a matriz não-madura (possui menos grupos sulfatados e condrócitos imaturos menos visíveis)

Cartilagem Elástica (Hemalúmen-eosina e orceína):

Fibras elásticas coradas a azul-escuro

As zonas não coradas correspondem às lacunas

Os condrócitos ocupam apenas parte das lacunas porque encolhem devido à perda dos lípidos durante a preparação

Na epiglote é visível uma camada de tecido conjuntivo acima e abaixo da cartilagem, glândulas mucosas e tecido adiposo

Fibrocartilagem (Método de Mallory):

Colagénio corado a azul-claro

Aspecto fibroso

Fibroblastos pouco numerosos e com núcleo mais pequenos e alongados

Os condrócitos estão isolados ou em grupos isógenos e muito corados

A matriz da cartilagem envolve directamente os condrócitos e é ligeiramente mais

clara

TECIDO ÓSSEO

O tecido ósseo é uma forma especializada de tecido conjuntivo cuja matriz extracelular

se encontra mineralizada (o fosfato de cálcio encontra-se na forma de cristais de hidroxiapatita). Tem como função o suporte e protecção dos órgãos, a inserção de músculos e a reserva de cálcio e fósforo para a manutenção da homeostase do cálcio.

Matriz extracelular ou Osteóide

Colagénio tipo I (50%)

Proteoglicanos

Glicoproteínas não-colagenosas

Conferem resistência ao osso Retenção de factores de crescimento

Osteonectina, osteopontina, sialoproteínas I e II União das células e das fibras de colagénio à substância fundamental

Proteínas dependentes de vitamina K

Factores de crescimento

Osteocalcina (captação de cálcio) Proteína S MGP (matrix Gla-protein)

TNF-α, PDGF-α, TGF-α BMP (bone morphogenic protein) induz a diferenciação das células mesenquimais em osteoblastos Isoleucinas 1 e 6 (IL-1 e IL-6)

A matriz tem lacunas onde se encontram localizados os osteócitos. Estes possuem

prolongamentos que penetram em canalículos que formam uma rede ao longo do osso. A comunicação entre os prolongamentos de diferentes osteócitos é feita por gap junctions.

Periósteo

É uma cápsula que envolve os ossos, excepto nas superfícies articulares. Possui duas

camadas: uma externa fibrosa e uma interna celular com células osteoprogenitoras e que é

pouco definida nos ossos em crescimento.

É constituída por fibras de colagénio paralelas à superfície do osso e está fixo a este pelas fibras de Sharpey (colagénio).

Endósteo

É uma camada de células que reveste as trabéculas do tecido esponjoso. Contem

células osteoprogenitoras, achatadas e muito alongadas, que se diferenciam em osteoblastos e osteoclastos.

Medula Óssea Vermelha Ocupa os espaços no tecido esponjoso. É formada por um conjunto de células sanguíneas e por uma rede de fibras e células reticulares que lhes servem de suporte. Com a idade, vai sendo substituída por tecido adiposo, passando a chamar-se medula amarela.

Classificação

Osso primário, esponjoso, trabecular ou medular

É formado por um conjunto de trabéculas ou espículas separados por espaços que contêm a medula óssea.

Osso secundário, compacto ou cortical

É composto por colunas cilíndricas que constituem o sistema de Havers ou osteão.

Este sistema consiste em lamelas concêntricas em torno de um canal (canal de Havers), que contém os vasos sanguíneos e linfáticos e os nervos. O seu eixo é paralelo ao maior eixo do

osso.

As lamelas que não rodeiam os canais de Havers constituem o sistema intersticial ou lamelas intersticiais. Os feixes neuro-vasculares comunicam entre si e com o periósteo e endósteo através dos canais de Volkman que perfuram as colunas em ângulo recto com os canais de Havers.

Os osteócitos emitem prolongamentos situados em canalículos que ligam o canal central às lacunas adjacentes.

Células do Tecido Ósseo

Células osteoprogenitoras

Diferenciam-se de células mesenquimais. A sua diferenciação em osteoblastos ocorre através da expressão do factor de transcrição CBFA-1 (core binding factor alpha-1).

Estão localizadas na superfície interna e externa do osso compacto e têm uma forma achatada, núcleo ovóide e são pouco coradas.

Osteoblastos

São células secretoras das proteínas que constituem a matriz.

Osteoblastos activos

Osteoblastos inactivos

Forma poliédrica. Formam agregados numa única camada ao longo da superfície de formação do osso. A matriz recém-secretada cora pouco e a matriz mineralizada cora intensamente com eosina (os osteoblastos parecem estar separados do osso por uma banda mais clara que representa matriz não-mineralizada). Citoplasma basófilo com grânulos PAS-positivos. Complexo de Golgi bem desenvolvido (no microscópio óptico corresponde a uma zona não corada junto do núcleo).

Células achatadas semelhantes a osteoprogenitores.

Osteócitos

Funções:

Manutenção da matriz Mecanotransdução Síntese e degradação da matriz Manutenção da homeostase do cálcio

Estas células ocupam lacunas e enviam prolongamentos por canalículos ao longo do osso que não são visíveis com hemalúmen-eosina. São mais pequenos do que os osteoblastos

e têm menor actividade metabólica, bem como incapacidade de se dividirem.

Bone-Lining Cells

São as células presentes à superfície do osso e que formam o periósteo e o endósteo. Têm como função o suporte nutricional dos osteócitos e a regulação dos movimentos de cálcio

e fosfato. Têm prolongamento que penetram nos canalículos.

Osteoclastos

São células multinucleadas localizadas em locais onde o osso está a ser removido, dentro das lacunas de Howship. São acidófilos e têm uma reacção forte para a fosfatase ácida devido ao elevado número de lisossomas. Derivam de células progenitoras de granulócitos/macrófagos.

Os osteoclastos têm 3 domínios:

1. Bordadura em escova

Região em contacto directo com o osso Invaginações numerosas semelhantes a microvilosidades Secreção de enzimas hidrolíticas e protões Endocitose dos produtos degradados Cora com menos intensidade do que o resto da célula (é uma zona mais clara junto à superfície do osso) Na parte interna, existem mitocôndrias e lisossomas

2.

Clear zone

Porção de citoplasma adjacente à bordadura em escova

Local onde ocorre a reabsorção e degradação da matriz Tem muitos filamentos de actina arranjados em forma

de anel à volta da célula

A membrana adjacente tem moléculas de adesão

responsáveis por unir o plasma à matriz calcificada

3. Zona basolateral

Local onde ocorre a exocitose do material digerido É onde se encontra o núcleo

Descalcificação e Reabsorção Para iniciar a dissolução da matriz óssea é necessário fazer a acidificação da superfície do osso. Os osteoclastos têm anidrase carbónica II que produz ácido carbónico a partir de dióxido de carbono e água. O ácido carbónico por sua vez dissocia-se em bicarbonato e H + . Estes protões são transportados para o exterior da célula por bombas de protões situadas na membrana da bordadura em escova (ao mesmo tempo são transportados também iões cloreto para manter a electroneutralidade). O ph desce para cerca de 4 ou 5. O bicarbonato em excesso é removido por troca com iões cloreto na região basolateral. Este ambiente ácido inicia a degradação do osso em iões cálcio, fosfato inorgânico e água. Os osteoclastos libertam então vesículas com enzimas hidrolíticas (como metaloproteinases) que degradam o colagénio e as restantes proteínas da matriz. Os produtos degradados são absorvidos pelos osteoclastos. Quando a reabsorção está completa, os osteoclastos entram em apoptose.

Ossificação

Existem dois processos de ossificação:

Intramembranosa (directamente a partir da diferenciação dos osteoprogenitores) ex: ossos achatados da base do crânio. Endocondral (a partir de um modelo cartilagíneo) ex: ossos dos membros, da coluna vertebral e da pélvis.

Ossificação Intramembranosa Na 8ª semana de gestação, as células mesenquimais agrupam-se me locais específicos e diferenciam-se em células osteoprogenitoras que expressam o factor CBFA-1. O novo tecido

torna-se mais vascularizado.

O citoplasma das células osteoprogenitoras torna-se basófilo e surge uma área não

corada que corresponde ao complexo de Golgi. Nesta fase, passam a chamar-se osteoblastos.

Estes secretam colagénio e outras proteínas de matriz. A matriz é mais densa do que o

mesênquima envolvente. Os osteoblastos vão-se separando e originam osteócitos. A matriz

calcifica e as espículas formadas vão aumentando de tamanho por crescimento aposicional até se formar o osso.

Ossificação Endocondral Na 12ª semana de gestação, as células mesenquimais agregam-se e diferenciam-se em

condroblastos por expressão dos factores de transcrição FGF (fibroblast growth factor) e BMP

(bone morphogenic protein). Os condroblastos produzem matriz cartilagínea e originam um

modelo cartilagíneo que aumenta de tamanho por crescimento aposicional e intersticial. As

células do pericôndio na região central da cartilagem originam osteoblastos e o tecido conjuntivo adjacente torna-se funcionalmente em periósteo.

Nos ossos longos, forma-se uma camada de osso por ossificação intramembranosa na

diáfise que se denomina colar periostal.

Os condrócitos na região central da cartilagem ficam hipertróficos e sintetizam

fosfatase ácida que provoca a calcificação da matriz cartilagínea, levando à morte dos

condrócitos e à confluência das lacunas. Estes espaços são invadidos por vasos sanguíneos e por células mesenquimais que se diferenciam em células osteoprogenitoras. Algumas células

estaminais hematopoiéticas acompanham os vasos e formam posteriormente a medula óssea.

Quando as células osteoprogenitoras entram em contacto com as espículas de cartilagem

calcificada originam osteoblastos que depositam osteóide, formando um centro de ossificação

primário (local onde se inicia a formação de osso na diáfise).

A cartilagem calcificada é basófila, cora a azul-claro com o método de Mallory e não tem células. Por oposição, o osso é eosinófilo, cora a azul-escuro e tem osteócitos.

Crescimento do Osso Em cada extremidade da diáfise, forma-se uma placa de cartilagem epifisária que apresenta várias zonas (da mais distal para a mais proximal do ponto de ossificação primário):

Zona de Reserva

Zona de Proliferação

Zona de Hipertrofia

Zona de Cartilagem Calcificada

Zona de Reabsorção

Não há proliferação celular nem produção de matriz

Os condrócitos dividem-se e organizam-se em colunas Produção de colagénio e outras proteínas

Células cartilagíneas hipertrofiadas Produção de colagénio I e X

Degeneração dos condrócitos Calcificação da matriz Deposição de osso

Zona mais próxima da diáfise Pequenos vasos sanguíneos com células osteoprogenitoras

À medida que é depositado osso forma-se osso primário esponjoso que é posteriormente substituído por osso compacto. Pouco depois do nascimento, formam-se centros de ossificação secundários perto de cada epífise. A única cartilagem que permanece está presente nas superfícies articulares e no disco de crescimento epifisário, um disco transversal que separa a diáfise das epífises e que, após o crescimento estar completo, se torna apenas numa linha vestigial formada por tecido ósseo.

O crescimento do osso ocorre devido à propagação do disco epifisário. A sua espessura

permanece sempre constante. A formação de nova matriz cartilagínea provoca o afastamento

das epífises da diáfise levando ao aumento do comprimento do osso. A quantidade de

cartilagem produzida é igual à reabsorvida e esta é substituída por osso primário.

O aumento do diâmetro ocorre por crescimento aposicional entre as lamelas corticais

e o periósteo.

A cavidade da medula óssea aumenta por reabsorção de osso ao nível da superfície do

endósteo.

Desenvolvimento do sistema de Havers (remodelação interna)

Os osteoclastos formam estruturas em forma de túnel por absorção do osso de forma centrífugas, ou seja, do centro para a periferia. Estes túneis são ocupados por vasos e tecido

conjuntivo adjacente. Os osteoblastos depositam então tecido ósseo por lamelas sucessivas

num sentido centrípeto.

No adulto, a velocidade de reabsorção é igual à de deposição. Ao longo dos anos, a

reabsorção torna-se mais rápida, podendo levar à osteoporose.

Mineralização

A ligação do Ca 2+ à osteocalcina da matriz leva ao aumento da sua concentração local.

Este aumento da concentração de cálcio estimula os osteoblastos e produzir fosfatase ácida

que aumenta a concentração de fosfato. Este por sua vez aumenta ainda mais a concentração

de Ca 2+ . O fosfato de cálcio acaba por cristalizar e deposita-se sob a forma de cristais de

hidroxiapatite.

Homeostase do Cálcio

A concentração fisiologia de cálcio situa-se entre 8,9 e 10,1 mg/dL.

A regulação da sua concentração é feita principalmente por duas hormonas com

efeitos contrários:

PTH (hormona da paratiróide)

Aumenta os níveis de cálcio no sangue Estimula a absorção de osso pelos osteoblastos e

osteoclastos

Diminui a excreção de cálcio nos rins e aumenta a

excreção do fosfato produzido na reabsorção

Aumenta a absorção de cálcio no intestino

Calcitonina (hormona da glândula tiroideia)

Diminui os níveis de cálcio no sangue (inibe o efeito da PTH)

TECIDO ADIPOSO

O tecido adiposo é um tipo de tecido conjuntivo especializado constituído por adipócitos e que desempenha um importante papel na homeostase energética.

Existem dois tipos: tecido adiposo branco e o tecido adiposo castanho.

Tecido adiposo branco Forma uma camada denominada panículo adiposo ou hipoderme no tecido conjuntivo

que se situa abaixo da pele e faz o isolamento térmico do organismo, evitando as perdas de

calor. Nas glândulas mamárias, faz o suporte do aleitamento através do fornecimento de

lípidos e energia para a produção de leite, bem como a síntese de factores de crescimento. Localiza-se preferencialmente no grande epíploon, no mesentério, no espaço retro-

peritoneal, à volta do rim, na medula e entre outros tecidos, preenchendo o espaço entre eles.

Os adipócitos sintetizam e secretam hormonas, factores de crescimentos e citocinas:

Leptina - hormona que inibe a fome e a perda de peso e estimula a taxa

metabólica, actuando ao nível de receptores do hipotálamo;

Adiponectina;

Angiotensina uma produção excessiva desta hormona contribui para a

hipertensão que é um problema associado à obesidade;

Hormonas esteróides.

Indivíduos obesos produzem uma quantidade excessiva destas substância o que pode

ter como consequências o desenvolvimento de diabetes e outros problemas metabólicos.

Diferenciação dos Adipócitos Os adipócitos têm origem em células mesenquimais que expressam os factores de

transcrição PPARγ (peroxisome proliferator-activated receptor gamma) e RXR (retinoid X

receptor). Estes induzem a maturação de lipoblastos jovens que são alongados e possuem

vários prolongamentos. Ao longo do processo de diferenciação, o número de vesículas

aumenta, surgem pequenas gotículas de lípidos num dos pólos do citoplasma e forma-se uma

lâmina externa. Nos lipoblastos maduros, as gotículas de lípidos fundem-se numa só que

ocupa uma posição central no citoplasma, o núcleo é empurrado para a periferia e o RE liso é

abundante. Como a gotícula de lípidos é única, estas células são denominadas adipócitos

uniloculares.

Estrutura do Tecido Adiposo

tornar-se poliédricos quando estão

compactados no tecido adiposo. O núcleo é achatado e periférico e o citoplasma forma um aro

à volta dos lípidos. Nas preparações histológicas, os lípidos são perdidos pelo que o tecido

adiposo é um conjunto de formas poliédricas sem conteúdo.

Entre o citoplasma e o conteúdo lipídico, existe uma camada de filamentos de vimentina que separa os lípidos do conteúdo hidrofílico do citoplasma. O citoplasma

perinuclear contém o complexo de Golgi, ribossomas livres, microfilamentos, filamentos

intermédios e RE liso.

Este tecido é ricamente vascularizado. A impregnação por prata mostra que as células

estão rodeadas por colagénio reticular secretado pelos adipócitos.

Os

adipócitos

são

arredondados,

podendo

Regulação do Tecido Adiposo

A

quantidade de tecido adiposo é controlada por dois mecanismos.

O

mecanismo a curto prazo é responsável pela regulação do apetite e do metabolismo

diário e tem por base duas hormonas peptídicas:

Grelina

Produzida no estômago

Estimula o apetite

Actua sobre receptores do hipotálamo, aumentando a sensação

de fome No síndrome de Prader-Willi esta hormona é produzida em

excesso, o que faz com que os doentes comam compulsivamente

Péptido YYY

Produzido no intestino delgado

Indução a sensação de saciedade após uma refeição

Actua em receptores do hipotálamo que fazem a supressão do

apetite

O mecanismo a longo prazo é controlado pela leptina, pela insulina, pela hormona da

tiróide, por glicocorticóides e por homonas da glândula pituitária. A insulina promove a síntese lipídica pois estimula a produção de enzimas (sintase de ácidos gordos, acetil-CoA carboxilase) e inibe a degradação de lípidos. A glucagina e a hormona do crescimento da glândula pituitária, pelo contrário, estimulam a lipólise, bem como a norepinefrina.

Tecido Adiposo Castanho As células do tecido adiposo castanho são multioculares (têm várias gotículas de lípidos), têm muitas mitocôndrias com grande quantidade de citocromo c oxidase (que confere, em parte, a cor castanha ao tecido) e um complexo de Golgi pouco desenvolvido, bem como poucas quantidade de REr e liso. Nas preparações, o citoplasma é formado por vacúolos vazios, devido à perda do conteúdo lipídico. É muito vascularizado e está associado a fibras nervosas amielinizadas.

Este tipo de tecido é abundante do feto e no recém-nascido, onde é muito importante para evitar hipotermia. Está localizado principalmente nas costas e nos ombros. Ao longo dos anos, vai-se perdendo e, no adulto, está presente apenas à volta dos rins, perto dos grandes vasos e em algumas regiões do pescoço, costas e tórax (mediastino).

O tecido adiposo castanho é uma fonte de calor para a manutenção da temperatura

corporal quando estimulado pelo sistema nervoso simpático. As mitocôndrias contêm UCP-1 que permite o fluxo de protões do espaço inter-membranar para a matriz mitocondrial sem passar pelas ATPases. Assim, produz-se energia que é dissipada sob a forma de calor (termogénese) sem que haja produção de ATP.

A actividade metabólica do tecido adiposo castanho é regulada principalmente pela

norepinefrina que estimula a lipólise.

Diferenciação Os adipócitos do tecido adiposo castanho diferenciam-se de células mesenquimais por expressão de factores de transcrição específicos que estimulam a síntese de UCP-1 (uncoupling protein) que é essencial no metabolismo lipídico. O gene UPC-1 é também activado pela norepinefrina.

SANGUE

É um tecido conjuntivo fluido que circula no sistema cardiovascular. É constituído por células e plasma e tem como funções:

Transporte de oxigénio e nutrientes para as células

Transporte de dióxido de carbono e produtos de excreção das células

Transporte de hormonas e substâncias reguladores

Manutenção da homeostase

Participação nos processos de coagulação e termorregulação

Transporte de agentes do sistema imunitário.

Um hematócrito é o volume de eritrócitos presentes numa amostra de sangue. Para fazer essa contagem é centrifugada a amostra após a adição de anticoagulantes (heparina, citrato) e é feito o cálculo da percentagem do tubo ocupado por eritrócitos e pelo total de sangue. Nas mulheres esse valor deve ser de 35-45% e nos homens de 39-50%. Valores mais baixos são indicativos de anemia. Os leucócitos e as plaquetas acumulam-se numa camada muito fina entre o plasma e os eritrócitos chamada buffy coat.

Plasma constituição

Água (91%)

Solvente de várias substâncias (metabolitos, electrólitos, proteínas…) Manutenção da homeostase (mantém o pH óptimo e o osmolaridade para

o

metabolismo celular)

Albumina

Proteína principal

Síntese: fígado

Mantém a pressão osmótica entre o sangue e o líquido intersticial

A

sua diminuição leva à acumulação de sangue nos tecidos

Transporta: hormonas, metabolitos (biliburrina)

Globulinas

Imunoglobulinas (anticorpos ou γ-globulina) Não-imunoglobulinas (fibronectina, lipoproteínas, factores de coagulação, α e β-globulina):

Síntese no fígado

Mantêm a pressão osmótica

Transporte de ferro, hemoglobina …

Fibrinogénio

Síntese: fígado No processo de coagulação, origina a fibrina, uma proteína insolúvel que forma uma rede impermeável que previne a perda de sangue.

Normalmente, as proteínas do plasma coram de forma homogénea com eosina nas preparações de hemalúmen-eosina (H&E). Ao plasma sem factores de coagulação chama-se soro.

A composição do fluido intersticial é igual à do plasma.

Células do sangue

As células do sangue incluem:

Eritrócitos / glóbulos vermelhos

Leucócitos /glóbulos brancos

Plaquetas / trombócitos

Eritrócitos

São células anucleadas e praticamente sem organelos. São responsáveis pelo

transporte de oxigénio e dióxidos de carbono. Têm um diâmetro de 7,8μm e a forma de um disco bicôncavo que maximiza a área de contacto da membrana com os gases e a hemoglobina. Os eritrócitos têm uma grande capacidade de deformação.

O seu tempo de vida é de aproximadamente 120 dias. Após este período a maioria é

fagocitada por macrófagos na medula, baço e fígado e os restantes são destruídos na corrente sanguínea e libertam hemoglobina. Coram uniformemente com eosina devido à presença de hemoglobina.

Constituição da membrana:

Lípidos

Proteínas de membrana (glicoforina C, banda 3)

Domínio extracelular glicolizado Expressam antigénios específicos A banda 3 liga-se ao citoesqueleto e à hemoglobina

Proteínas periféricas

(espectrina,

actina,

banda

Formam uma rede na face citoplasmática da membrana São principalmente proteínas do citoesqueleto

4.1 e 4.9, tropomiosina)

Conferem propriedades elásticas ao eritrócito e são responsáveis pela sua forma

Hemoglobina É a proteína que faz o transporte dos gases. É constituída por 4 cadeias polipéptidicas (α, β, γ, δ) cada uma delas ligada a um grupo heme com ferro. Existem vários tipos de hemoglobinas (Hb):

HbA

96%

α 2 β 2

HbA 2

1,5-3%

α 2 δ 2

HbF

Presente no feto Tem maior afinidade para o oxigénio

α 2 δ 2

Leucócitos

Os leucócitos apresentam uma linhagem mielóide (neutrófilos, eosinófilos, basófilos e monócitos) e uma linhagem linfóide (linfócitos).

Podem ser divididos em dois grupos:

Granulócitos: apresentam grânulos específicos e incluem neutrófilos, eosinófilos e basófilos.

Agranulócitos: linfócitos e monócitos.

Ambos os grupos de leucócitos apresentam grânulos azurófilos, inespecíficos ou primários, que representam lisossomas. São os primeiros a surgir no desenvolvimento (contêm mieloproteinases, hidrolases ácidas, proteínas catiónicas …) e têm uma cor púrpura.

Neutrófilos

São o tipo de leucócitos mais numeroso e são maiores do que os eritrócitos. Apresentam um núcleo multilobulado que é constituído por 2 ou 3 lobos unidos por pontes de cromatina. Esta está organizada de forma a que a heterocromatina esteja em contacto com o invólucro nuclear e a eucromatina esteja concentrada no centro do núcleo. Nas mulheres, geralmente apresentam o corpúsculo de Bahr, que é um apêndice num dos lóbulos que corresponde ao cromossoma x condensado.

Constituição dos grânulos:

Secundários/específicos

Mais pequenos e numerosos Têm fosfatase alcalina usada como marcador histoquímico (a sua actividade é marcada por um depósito granular acastanhado) Libertam mediadores de inflamação e activadores de complemento (resposta inflamatória)

Terciários

Podem ter fosfatases ou mateloproteínases

Os neutrófilos são móveis e são as primeiras células a aparecer nos tecidos danificados. A migração ocorre por interacção das selectinas da superfície dos neutrófilos com receptores específicos das células endoteliais. Após esta ligação, são activadas integrinas e moléculas da família das imunoglobulinas que permitem a emissão de pseudópodes que se estendem entre as células do endotélio. A histamina e heparina libertada no local fazem a abertura das junções intercelulares, permitindo a passagem do neutrófilo. Estas células apresentam uma grande variedade de receptores membranares que reconhecem organismos patogénicos e estranhos. Quando ocorre este reconhecimento, o neutrófilo emite pseudópodes que envolvem o organismo e este é posteriormente digerido pelas enzimas presentes nos grânulos. O material degradado é exocitado ou acumulado no interior dos neutrófilos, pelos que estes acabam por morrer e acumulam-se, formando pus.

Eosinófilos

Têm o memo tamanho dos neutrófilos. O núcleo é bilobulado.

Grânulos específicos

Numerosos, largos e alongados Têm um cristalóide constituído por proteína básica principal (MBP) que lhe confere acidez Proteína catiónica eosinófila, peroxidases, neurotoxinas, histaminases, aryl-sulfatase, colagenases … Coram a vermelho brilhante com eosina e vermelho-tijolo com o método de Romanowsky

Desenvolvem-se e maturam na medula e circulam no sangue. A migração para os tecidos é mediada por quimiotaxia em resposta a produtos bacterianos e a produtos libertados por linfócitos, basófilos e mastócitos (histamina, factor quimitático eosinófilo da anafilaxia).

Funções:

Envolvidos em reacções alérgicas e inflamatórias. São activados por interacção com IgG e IgA. A libertação da aryl-sulfatase e da histaminase neutraliza a histamina e circunscreve o processo inflamatório.

Eliminação de parasitas

Destruição dos complexos antigénio-anticorpo.

Basófilos

Grânulos secundários

Muito basófilos (cor muito escura) devido ao elevado teor de sulfato Grandes Cobrem o núcleo Contêm: heparina (anticoagulante), histamina (vasodilatador), condroitino sulfato, IL-4, IL-13 Quando corados com azul de toluidina o corante muda para vermelho

A membrana tem receptores F c para anticorpos IgE e CD40L que interage com os linfócitos B levando ao aumento da produção de IgE. Libertam heparina que causa edema, inchaço e vasodilatação. As suas funções são semelhantes às dos mastócitos: libertam agentes vasoactivos e estão envolvidos nas reacções alérgicas. Ambos derivam das mesmas células progenitoras. No entanto, os mastócitos são maiores e contêm serotonina e 5-hidroxitriptamina.

Agranulócitos Estas células apenas têm grânulos azurófilos (lisossomas) e o seu núcleo é redondo e não-lobulado.

Linfócitos

Constituem 20-30% do total de leucócitos. Estão presentes tanto no sangue como na

linfa e podem ser: pequenos, médios ou grandes (linfócitos activados e linfócitos NK).

Linfócitos inactivos

Tipos de linfócitos:

Linfócitos T

Pequenos Núcleo esférico, muito corado (pode ter incisuras) Poucos organelos Citoplasma pálido basófilo Razão núcleo/citoplasma elevada

Diferenciam-se no timo Têm TCRs (T-cell-receptors) compostos por duas cadeias: α e β Marcadores específicos: CD2, CD3, CD5 e CD7 São classificados de acordo com a presença ou ausência de CD4 e CD8:

CD4 + (de ajuda) - induzem a resposta imunitária, ligam- se a moléculas do MHC II apresentadas por macrófagos, afectam a função dos linfócitos B e produzem interleucinas que actuam de forma autócrina para produzir mais CD4 + .

CD8 + (citotóxicos) são os efectores primários; secretam linfocinas e perforinas que levam à lise das células infectadas.

Linfócitos B

Linfócitos NK

(natural killer)

Produção de anticorpos Expressem IgM, IgD e MHC II Marcadores específicos: CD9, CD19, CD20, CD24

Programados para matar certos vírus e células tumorais Secretam interferão γ São maiores Núcleo em forma de rim Muitos grânulos Marcadores: CD 16, CD56, CD94

Existem ainda mais dois tipos de linfócitos T:

Células T supressoras fazem a supressão da resposta imunitária.

Células T gama/delta (γδ) migram para os epitélios e constituem a primeira linha de defesa.

Os linfócitos T e B não se distinguem ao microscópio óptico. Os linfócitos NK podem ser identificados pelo tamanho, núcleo e presença de grânulos.

Monócitos

São os leucócitos de maior tamanho. Migram da medula para os tecidos e diferenciam-se em células fagocíticas (macrófagos, osteoclastos, células de Kupffer do fígado, microglia…). O núcleo tem incisuras onde se localizam os organelos, têm pequenos grânulos

azurófilos e possuem maior quantidade de citoplasma do que os linfócitos. O monócito-macrófago é uma célula apresentadora de antigénio com um importante papel na resposta imunitária.

Plaquetas/Trombócitos

São células derivadas de megacariócitos, células com vários conjuntos de cromossomas que desenvolvem projecções citoplasmáticas que vão fragmentando a célula e originam as plaquetas. O citoplasma é granular e tem uma cor púrpura.

São constituídas por 4 zonas:

Periférica

Membrana coberta por uma cama de glicocálix (glicoproteínas, glicosaminoglicanos, factores de coagulação…)

Estrutural

Microtúbulos, filamentos de actina, miosina (fazem o suporte da membrana) Mantêm a forma de disco da célula

De organelos

Zona central Mitocôndrias, peroxissomas, glicogénio, grânulos. Os grânulos podem ser de 3 tipos:

 

α – fibrinogénio, factores de coagulação, PDGF … importantes nas fases iniciais da reparação de vasos, na coagulação do sangue e na agregação plaquetária.

δ (densos) ATP, ADP, serotonina, histamina

γ (lisossomas) envolvidos na reabsorção dos coágulos.

De membrana

Apresenta dois tipos de canais importantes na regulação do Ca 2+ :

Sistema canicular da membrana

Sistema tubular denso

Apresente numerosas proteínas viradas para o meio extracelular

Processo de coagulação

Adesão plaquetária no local da lesão

Adesão plaquetária no local da lesão Libertação de serotonina (vasoconstritor), tromboxane A2 (agregação

Libertação de serotonina (vasoconstritor), tromboxane A2 (agregação plaquetária) e factores de coagulação

Retracção das plaquetas e restabelecimento da circulação

Retracção das plaquetas e restabelecimento da circulação Destruição do coágulo por plasmina (circula na forma

Destruição do coágulo por plasmina (circula na forma inactiva - plasminogénio)

Conversão do

fibrinogénio em

fibrina (coágulo

secundário)Conversão do fibrinogénio em fibrina (coágulo Libertação de PDGF que estimula a proliferação de

do fibrinogénio em fibrina (coágulo secundário) Libertação de PDGF que estimula a proliferação de

Libertação de PDGF que estimula a proliferação de fibroblastosdo fibrinogénio em fibrina (coágulo secundário) Formação do coágulo primário Hematopoiese É um processo

de PDGF que estimula a proliferação de fibroblastos Formação do coágulo primário Hematopoiese É um processo
de PDGF que estimula a proliferação de fibroblastos Formação do coágulo primário Hematopoiese É um processo

Formação do coágulo primário

Hematopoiese

É um processo contínuo que faz a manutenção do número de células em circulação no

sangue periférico. Ocorre na medula vermelha e nos órgãos linfóides (timo, baço).

No desenvolvimento fetal, a primeira fase da hematopoiese ocorre na terceira semana

de gestação com a formação de ilhotas hematopoiéticas no saco vitelino. No segundo

trimestre, desenvolve-se o fígado e o baço e, no 7º mês, é formada a medula óssea.

Células Estaminais Hematopoiéticas

Estas células diferenciam-se em todas as linhagens celulares do sangue, têm

capacidade de auto-renovação e contribuem para a regeneração de vários tecidos e órgãos.

Os marcadores específicos são: CD34 + , CD40 + , CD38 - e Lin - (não têm marcadores

específicos que uma linhagem).

Originam 2 tipos de células:

Progenitor mielóide comum (CPM)

Progenitor de megacariócitos/eritrócitos

Progenitor de granulócitos/monócitos

Progenitor de granulócitos/monócitos CPM Neutrófilos Eosinófilos Basófilos Monócitos
Progenitor de granulócitos/monócitos CPM Neutrófilos Eosinófilos Basófilos Monócitos

CPM

Neutrófilos

Eosinófilos

Basófilos

Monócitos

Células dendríticas

Progenitor mielóide comum - origina linfócitos e células dendríticas.

Eritropoiese

IL-3, IL-4

eritropoieitina

Progenitor de

megacariócitos/eritrócito

s

CPM

GATA-1

Pro-eritroblasto

Existem 5 precursores dos eritrócitos:

Pro-eritroblasto

Eritroblasto basófilo

Eritroblasto policromático

Grande

Núcleo esférico com nucléolo

Citoplasma basófilo devido aos ribossomas

Por mitoses origina eritoblastos basófilos

Citoplasma muito basófilo (escuro)

Núcleo ligeiramente mais pequeno

Síntese de hemoglobina

Citoplasma basófilo (ribossomas coram com

hematoxilina) e acidófilo (hemoglobina cora com eosina)

Núcleo mais pequeno e acompanhado de vários

58

fragmentos (corpos de Howell-Jolly)

Eritroblasto ortocromático ou

Núcleo pequeno e denso

normoblasto

Citoplasma eosinófilo (hemoglobina) com cor

semelhante aos eritrócitos

Não tem capacidade de divisão

Extrusão do núcleo e passagem para o sangue

Reticulócito

1-2% da contagem de eritrócitos no sangue

Ainda possuem algum material nuclear residual

O processo de eritropoiese dura uma semana e é regulado pela eritropoietina

(hormona sintetizada no fígado em resposta à hipoxia).

Após os 120 dias de vida, os eritrócitos tornam-se senescentes e são degradados no

fígado, baço e medula. O ferro é libertado e vai para o baço onde é armazinado na forma de

ferritina. O restante é degradado pela biliburrina e excretado pela vesícula biliar.

As unidades de eritropoiese na medula chamam-se ilhotas eritroblásticas e são

constituidas por 1 ou 2 macrófagos rodeados por células progenitoras.

Granulopoiese

Progenitor de

neutrófilos

Progenitor de

basófilos

Progenitor de

eosinófilos

Progenitor de basófilos Progenitor de eosinófilos Progenitor de granulócitos/monócito s CPM Fases :
Progenitor de basófilos Progenitor de eosinófilos Progenitor de granulócitos/monócito s CPM Fases :

Progenitor de granulócitos/monócito

s

CPM

Fases:

Mieloblasto

Núcleo grande e esférico com 3 a 5 nucléolos

Citoplasma agranular muito basófilo

Pró-mielócito

Grânulos azurófilos (é a única células onde ocorre a sua produção)

Mielócito

Produção dos grânulos específicos de cada linhagem

Metamielócito

Núcleo em forma de rim As fases seguintes são apenas observadas nos neutrófilos; o metamielócito diferencia-se directamente em basófilos ou eosinófilos maduros

Célula em bastão

Núcleo em forma de ferradura com 2 a 4 lóbulos (neutrófilo maduro)

Este processo dura cerca de duas semanas. São produzidos 10 11 neutrófilos por dia. Existe, na medula, uma reserva constante que permite a sua rápida libertação em resposta a inflamações, infecções e ao exercício. Existe uma outra reserva ao nível dos vasos (o grupo marginado) que adere ao endotélio através de selectinas e tem a mesma quantidade de neutrófilos que existe em circulação.

Monopoiese

Os monócitos derivam da unidade formadora de colónias de monócitos-granulócitos. A monopoiese é caracterizada por três fases:

Monoblasto

Volumoso Basófilo Desenvolvimento progressivo do RE e complexo de Golgi

Pró-monócito

Núcleo grande com cromatina descondensada Citoplasma basófilo (ribossomas) Grânulos primários

Monócito

Deixam a medula logo após a sua formação

Circulam durante 3 dias no sangue e migram por diapedese para os tecidos de modo aleatório.

Linfopoiese Dois estágios precursores: linfoblasto e pró-linfócito. Há uma diminuição progressiva do tamanho da célula. Os linfócitos B amadurecem na medula e os linfócitos T amadurecem no timo. Ambos se deslocam posteriormente para os órgãos/tecidos linfóides secundários.

Trombopoiese

Megacarioblasto

Pró-megacariócito

Megacariócito

Núcleo reniforme com vários nucléolos

Aumento do volume Citoplasma rico em grânulos azurófilos Núcleo irregular

Núcleo multilobulado Vários conjuntos de cromossomas

As plaquetas formam-se por invaginação e fragmentação do citoplasma. Na medula, os megacariócitos lançam pseudópodes (pró-plaquetas) nos sinusóides que representam conjuntos de plaquetas que se fragmentam na circulação. A regulação é feita pela trombopoietina que é produzida no fígado.

Medula Óssea

É constituída por vasos sanguíneos em unidades especializadas, os sinusóides, e por células hematopoiéticas. Os sinusóides são formados por endotélio simples pavimentoso, lâmina basal e uma camada incompleta de células adventícias que enviam prolongamentos e fazem o suporte das células sanguíneas.

As funções da medula são a hematopoiese, o armazenamento de ferro e a remoção dos eritrócitos senescentes.

O estroma é constituído por fibroblastos, células reticulares, macrófagos, adipócitos

(energia) e MEC (colagénio tipo I e III, fibronectina, laminina, proteoglicanos).

O parênquima é formado pelas células hematopoiéticas.

TECIDO MUSCULAR

As funções são a geração de movimento e mudanças de forma e tamanho dos órgãos

Classificação:

Músculo estriado:

o

Visceral presente nos tecidos moles (faringe, língua, esófago)

o

Esquelético está ligado ao osso; é responsável pelo movimento, manutenção da postura e movimentos oculares (músculos extra-oculares)

o

Cardíaco presente na parede do coração e base dos grandes vasos.

Músculo liso: presente nas vísceras, sistema vascular, músculos intrínsecos do olho e no musculus erector pili.

Músculo Esquelético

Cada célula muscular (fibra muscular) é um sincício multinucleado. As fibras musculares formam-se por fusão de pequenas células, os mioblastos, e têm forma de polígonos de tamanho muito variável. O núcleo localiza-se imediatamente abaixo da membrana celular (também chamada de sarcolema).

O tecido conjuntivo que rodeia as células é essencial na transmissão de formas e continua-se, no fim do músculo, com o tendão ou com as fibras de colagénio que fazem a ligação do músculo ao osso (fibras de Sharpey). É muito vascularizado e pode ser divido, de acordo com as suas relações com as fibras musculares, em:

Endomísio envolve as células individualmente; apresenta pouca vascularização e inervação.

Perimísio envolve feixes de fibras.

Epimísio envolve conjuntos de feixes; apresenta nervos e vasos de maiores dimensões.

Tipos de músculo esquelético O músculo é frequentemente classificado de acordo com a sua cor em fibras vermelhas, brancas e intermédias. Actualmente, a classificação é baseada na velocidade de contracção, na velocidade enzimática da ATPase da miosina e no perfil metabólico, através de reacções que detectam a actividade das enzimas NADH-TR e succinato desidrogenase.

Tipo I (fibras vermelhas/oxidativas lentas)

Grande quantidade de mitocôndrias, mioglobina e citocromo c (indica a realização de respiração oxidativa); Muito coradas na reacção para a actividade da NADH-TR e da succinato desidrogenase; Contracção lenta; Resistentes à fadiga; Menor tensão / força de contracção; Actividade da ATPase é a mais lenta; Presente nos músculos dos membros e do tronco (movimentos lentos e grosseiros).

Tipo II (fibras brancas/glicolíticas rápidas)

Cor-de-rosa (in vivo); Menos mioglobina e mitocôndrias; Poucas enzimas oxidativas; Grande actividade anaeróbia; Contracção rápida; Pouco resistentes à fadiga devido à produção de ácido láctico; Velocidade rápida da ATPase; Movimentos finos e precisos devido ao elevado número de junções neuromusculares que permitem um maior controlo por parte do sistema nervoso; Presentes nos músculos extra-oculares e dos dedos.

Miofibrilhas e miofilamentos

Miofilamentos Miofibrilhas  Miofilamentos
Miofilamentos
Miofibrilhas
Miofilamentos

Fibra

muscular

Miofibrilhas  Miofilamentos Fibra muscular Fascículo/ Feixe Músculo São polímeros de miosina II

Fascículo/

Feixe

 Miofilamentos Fibra muscular Fascículo/ Feixe Músculo São polímeros de miosina II e actina ,

Músculo

São polímeros de miosina II e actina, associados a proteínas. Estão rodeados pelo

retículo sarcoplasmático que está associado a glicogénio e mitocôndrias.

Numa preparação de hemalúmen-eosina, observam-se dois tipos de bandas: bandas A,

mais escuras e que representam o comprimento dos filamentos de miosina II; bandas I, mais

claras, que contêm apenas actina. Estas bandas são atravessadas por outras de grande

densidade, nomeadamente os discos Z (atravessam as bandas I - são o local de ancoragem dos

filamentos de actina) e as bandas H (atravessam as bandas A). Estas últimas são ainda

atravessadas pelas bandas M.

Na contracção, o sarcómero (região localizadas entre dois discos Z consecutivos) e as

bandas I e H diminuem de tamanho e a banda A mantém-se igual.

Filamentos de Actina

São constituídos por actina-G, tropomiosina e troponina.

A actina-G é um polímero de actina-F e tem uma estrutura em dupla-hélice. Apresenta

polaridade: tem uma extremidade positiva ligada aos discos Z e uma extremidade negativa que

se dirige à linha M.

A tropomiosina situa-se no espaço compreendido entre duas actinas-F.

Por último, a troponina é constituída por 3 subunidades globulares:

Troponina-C (TnC) liga-se ao Ca 2+

Troponina-T (TnT) liga-se à tropomiosina

Troponina-I (TnI) liga-se à actina.

Miosina II

É constituída por 4 cadeias leves, que incluem cadeias essenciais e reguladoras, e por 2

cadeias pesadas, cada uma das quais apresenta uma cabeça globular que se liga

simultaneamente à actina e ao ATP (apresenta uma ATPase).

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Proteínas acessórias:

Titina ancoragem da actina aos discos Z.

Alfa-actinina forma os feixes paralelos de actina e faz a ancoragem aos discos z.

Nebulina está ligada aos discos Z e auxilia a alfa-actinina; principal modelo que regula a forma e compriment dos filamentos de actina.

Tropomodulina está ligada à porção livre da actina e regula o seu tamanho.

Desmina liga os discos Z entre si e ao sarcolema.

Miomesmina e proteína C liga as miosinas entre si ao nível da linha M.

Ditrofina liga a laminina (presente no exterior da membrana) aos filamentos de actina.

Desenvolvimento e Renovação

Os mioblastos diferenciam-se a partir de células mesenquimais presentes em cada miótomo. Ao longo do desenvolvimento embrionário, os mioblastos expressam MioD, um factor de transcrição que, em conjunto com os factores de regulação miogénica (MRF), activam a transcrição dos genes necessários ao desenvolvimento muscular. Expressam ainda mioestatina, uma proteína com efeito inibidor. Defeitos nesta proteína estão associados a um desenvolvimento muscular excessivo. Existem dois tipos de mioblastos. Os mioblastos jovens fundem-se originam miotubos primários que têm uma forma tubular e apresentam vários núcleos centrais rodeados por miofilamentos. Estes miotubos originam, por sua vez, as fibras musculares (os núcleos centrais dos miotubos deslocam-se para a periferia, permitindo distinguir os dois tipos de células). Os mioblastos maduros, por outro lado, originam miotubos secundários, que se formam apenas nos locais onde há contacto directo destas células com terminações nervosas. Estes miotubos apresentam pequeno diâmetro e uma maior quantidade de miofilamentos.

Entre o sarcolema e a lâmina externa, existem células-satélite, mononucleadas e com uma grande densidade de cromatina. Apresentam uma função regenerativa, ainda que muito limitada. Estas células são activadas após ocorrer uma lesão e expressam MRFs, dando origem a mioblastos. No entanto, isto só ocorre caso a lâmina externa não seja danificada; caso contrário, haverá apenas reparação por parte de fibroblastos, com formação de tecido cicatrizado.

Músculo Cardíaco

O músculo cardíaco apresenta um arranjo semelhante ao esquelético. Quando visualizadas ao microscópio óptico, as células musculares cardíacas apresentam estruturas lineares muito densas perpendiculares às fibras os discos

intercalares. Estes são responsáveis pela ligação de células adjacentes, apresentando vários tipos de junções celulares:

Desmossomas impedem a separação das células durante a contracção.

Fascia adherens fazem a ancoragem dos filamentos de actina à membrana.

Gap junctions permitem a circulação de iões, sendo essenciais para a capacidade das células cardíacas se comportarem como um sincício; estão localizadas nas porções laterais dos discos Z.

Reparação No músculo cardíaco, as células danificadas são substituídas por tecido conjuntivo, havendo perda de tecido cardíaco. Apenas uma ínfima percentagem de células apresenta capacidade de se dividir.

Músculo Liso

As células musculares lisas são alongadas e fusiformes e apresentam extremidades afiladas. Estão presentes em várias estruturas viscerais como vasos sanguíneos, aparelho digestivo, útero, bexiga, músculo ciliar … As células estão ligadas entre si por gap junctions que permitem a passagem de pequenas moléculas que regulam a contracção das fibras. Em preparações de hemalúmen-eosina, o citoplasma fica corado devido à elevada concentração de actina e miosina. O núcleo é alongado e está presente no centro da célula. Os restantes organelos (mitocôndrias, REr, ribossomas, complexo de Golgi) estão localizados em cada extremidade do núcleo. Os miofilamentos do músculo liso estão ligados aos corpos densos. Estas estruturas são responsáveis pela ancoragem da actina e filamentos intermédios ao sarcolema e fazem a transmissão de forças do interior da célula para a sua superfície.

Os filamentos finos são constituídos por actina, tropomiosina e duas proteínas específicas do músculo liso dependentes de cálcio. Não existe troponina. Os filamentos espessos são constituídos por miosina II, que, ao contrário do que acontece no músculo estriado, apresenta as cabeças globulares orientadas para cada lado do filamento (“side polar”).

As proteínas acessórias são:

MLCK (myosin light chain kinase) inicia a contracção após activação do complexo Ca 2+ -calmodulina.

Calmodulina regula a concentração de Ca 2+ e activa a MLCK.

Alfa-actinina forma a estrutura dos corpos densos.

As células musculares lisas apresentam capacidade de secretar colagénio tipo IV e tipo III (reticular), elastina e proteoglicanos.

Renovação, Reparação e Diferenciação As células do músculo liso apresentam capacidade de divisão e diferenciação ao nível de diversos órgãos (útero, vasos sanguíneos, estômago, cólon). Estas células diferenciam-se de células mesenquimais e não apresentam factores de transcrição específicos que lhes estejam associados. Os fibroblastos podem desenvolver características de células musculares lisas (miofibroblastos). Este processo pode ainda ocorrer em células epiteliais (células mioepiteliais) ou ao nível de células do testículo que desenvolvem capacidade contráctil.

Contracção Muscular

Músculo esquelético

Envolve várias etapas:

1. A cabeça de miosina está ligada à actina e o ATP está ausente (rigor mortis)

2. O ATP liga-se à miosina, pelo que a afinidade desta para a actina diminui e a miosina “solta-se”.

3.

Ocorre a desfosforilação do ATP a ADP e Pi, que permanecem ligados à miosina. Este processo leva a uma torção da cabeça de miosina.

4.

A miosina liga-se de forma fraca à actina. O Pi liberta-se, pelo que a afinidade entre as duas moléculas aumenta. A cabeça de miosina, ao voltar à posição inicial, leva à geração da força responsável pela contracção.

O

retículo sarcoplasmático funciona como uma reserva de iões cálcio e a sua

membrana é rica em canais iónicos. O sarcolema apresenta várias invaginações, os túbulos T,

que possuem proteínas sensíveis à voltagem que afectam os canais de cálcio do retículo sarcoplasmático.

O

retículo sarcoplasmático e os túbulos T formam tríades.

O

processo de despolarização inicia-se através de um estímulo nervoso que leva à

libertação de acetilcolina na junção neuromuscular. A acetilcolina provoca a despolarização da

membrana celular pela abertura dos canais de sódio. A despolarização ao nível dos túbulos T activa as proteínas sensíveis à voltagem que, por sua vez, levam à abertura dos canais do retículo sarcoplasmático e à libertação do cálcio. Estes iões ligam-se à TnC do complexo de troponina, fazendo com que a TnI se dissocie. O local de ligação da miosina fica então descoberto e a actina pode ligar-se à miosina.

O cálcio é rapidamente transportado de volta ao retículo sarcoplasmático por bombas

de cálcio dependentes de ATP.

Músculo Cardíaco

O cálcio do lúmen dos túbulos T é transportado para o sarcoplasma (citoplasma), o que

provoca a abertura dos canais de cálcio das cisternas adjacentes do retículo sarcoplasmático,

levando a uma libertação mais rápida de cálcio que inicia os passos seguintes da contracção celular (semelhante ao que acontece no tecido muscular esquelético).

O início da contracção é ligeiramente mais lento do que no músculo esquelético devido

ao facto mencionado acima, mas também devido ao facto de a despolarização da membrana

durar mais tempo.

Os túbulos T e o retículo sarcoplasmático formam díades.

Músculo liso

A contracção pode ser activada por:

Impulsos mecânicos, nomeadamente o estiramento muscular (leva à abertura de canais iónicos)

Despolarização por acção da epinefrina/norepinefrina.

Estímulos químicos, através do uso de 2º mensageiros (como o IP3) que geram um potencial de acção. O estímulo químico pode ser dado pela angiotensina II e pela vasopressina, por exemplo.

As células do músculo liso possuem invaginações, as cavéolas, que têm uma função semelhante aos túbulos T.

O aumento da concentração de iões cálcio activa a MLCK que fosforila e cadeia leve da

miosina levando à contracção das fibras. É necessária a presença de ATP. No músculo liso, a hidrólise do ATP ocorre a 10% da velocidade a que ocorre no

músculo estriado, levando a uma contracção mais lenta, porque a cabeça de miosina fica ligada durante mais tempo à actina.

A contracção pode propagar-se como uma onda pelo tecido, como nos movimentos

peristálticos do tracto gastrointestinal, ou pode ocorrer simultaneamente em todo o tecido.

A contracção é regulada através do sistema nervoso autónomo (por estimulação simpática, parassimpática ou visceral) ou através de hormonas, nomeadamente a oxitocina e ADH (produzidas pela glândula pituitária). No músculo liso, as terminações nervosas e as fibras estão mais separadas e nem todas as fibras estão em contacto com nervos.

Identificação Histológica

Tecido muscular esquelético

Núcleo periférico

Num corte longitudinal, apresenta bandas claras (I) e escuras (A)

Num corte transversal:

o

Forma poliédrica

o

Núcleo periférico

o

O núcleo dos fibroblastos é mais pequeno e mais denso e é externo à célula muscular.

Tecido muscular cardíaco Num corte longitudinal:

Fibras horizontais

Discos intercalares mais densos

Binucleadas ou mononucleadas

Nucléolo visível

Num corte transversal:

Forma arredondada

Rodeadas por tecido conjuntivo

Núcleo central rodeado por miofibrilhas

Tecido muscular liso Num corte longitudinal:

Feixes alongados

Núcleo circular

O tecido conjuntivo envolvente é mais escasso em núcleos.

Num corte transversal:

Núcleo alongado e ondulado

TECIDO NERVOSO

O tecido é constituído por neurónios e por células da glia ou neuroglia (células de suporte).

Anatomicamente, o sistema nervoso pode ser dividido em:

Sistema nervoso central (SNC), que inclui o encéfalo e a medula;

Sistema nervoso periférico (SNP), constituído pelos nervos cranianos, espinhais e periféricos que conduzem impulsos para o SNC (nervos sensitivos ou aferentes) e do SNC para a periferia (nervos motores ou eferentes).

Funcionalmente, é divido em:

Sistema nervoso somático (SNS) responsável por controlar todas as acções voluntárias e por inervar sensorialmente de todo o organismo, excepto os músculos liso e cardíaco, as vísceras e as glândulas.

Sistema nervoso autónomo (SNA) responsável por controlar as funções involuntárias do organismo e por fazer a inervação das vísceras, glândulas e músculos liso e cardíaco. O SNA pode ainda ser subdivido em sistema nervoso simpático, parassimpáticos e entérico.

O Neurónio

Os neurónios podem ser classificados em:

Sensitivos ou Aferentes

Receptores SNC

Motores ou Eferentes

SNC ou gânglios células/órgãos efectores

Interneurónios

Comunicação entre os neurónios sensitivos e motores

Quanto ao número de prolongamentos, os neurónios podem ser:

Multipolares

1 axónio e 2 ou mais dendrites. O impulso é conduzido das dentrites para o corpo celular e desta para o axónio.

Ex: maioria dos neurónios motores e interneurónios

Bipolares

Pseudounipolares

1 axónio e 1 dendrite.

São muito raros. Estão localizados principalmente nos

receptores dos sentidos, nomeadamente na retina do olho e

no gânglio do nervo auditivo.

Possuem um prolongamento comum que se divide perto do

corpo celular em dois axónios.

São maioritariamente nervos sensitivos localizados perto do

SNC.

Corpo Celular ou Pericário Região do citoplasma que contém o núcleo e a maioria dos organelos. A porção de envolve o núcleo denomina-se citoplasma perinuclear. Entre os organelos presentes

encontram-se ribossomas abundantes, mitocôndrias, complexo de Golgi, lisossomas, etc. O REr

é bem desenvolvido e está agrupado nos corpúsculos de Nissl que são visíveis em microscopia

óptica usando corantes básicos. Podem existir alguns organelos nas dendrites mas não no

axónio.

Dendrites Recebem a informação de outros neurónios ou do meio envolvente e transportam-na

até ao corpo celular. São amielinizadas e têm maior diâmetro do que os axónios. Geralmente, terminam em várias ramificações a que se dá o nome de árvore dendrítica. O citoplasma é

semelhante ao perinuclear.

Axónio

Envia a informação do corpo celular para outros neurónios ou células efectoras.

Apenas um por neurónio. Tem origem ao nível do cone de implantação, que se situa perto do

corpo celular, e não possui corpúsculos de Nissl. Entre o cone a o início da bainha de mielina

existe uma porção do axónio denominada segmento inicial. O axónio termina numa dilatação,

o botão terminal. As moléculas são transportadas do corpo celular para o axónio através de transporte

axonal.

Quanto ao comprimento dos axónios relativamente à árvore dendritica, os neurónios

podem ser classificados em:

Golgi tipo I

O axónio é maior do que as dendrites

Gogi tipo II

O axónio termina perto do corpo celular, sendo menor do que as dendrites.

Sinapse

Junções especializadas entre neurónios que facilitam a transmissão de impulsos entre

um neurónio pré-sináptico e um neurónio pós-sináptico. Podem ser classificadas

morfologicamente em:

Axodendríticas

Axónio Dendrite

Axossomáticas

Axónio Corpo celular

Axoaxónicas

Axónio Axónio

As sinapses podem ser químicas, através neurotransmissores que fazem a transmissão

unidireccional do impulso, ou eléctricas, através de gap junctions que permitem a passagem

que iões entre células (comuns nos invertebrados).

Numa sinapse existe sempre um neurónio pré-sináptico, a fenda sináptica e um

neurónio pós-sináptico.

Neurónio pré-sináptico

Possui inúmeras vesículas sinápticas com neurotransmissores que se fundem com a

membrana, libertando do seu conteúdo na fenda sináptica. A membrana adicionada por esta

fusão é removida posteriormente por formação de vesículas revestidas por clatrina.

No microscópio electrónico, é possível visualizar uma densidade pré-sináptica que

corresponde ao local onde as vesículas estão ancoradas e onde são libertados os

neurotransmissores.

Fenda sináptica Espaço com 20-30 nm que separam os dois neurónios.

Neurónio pós-sináptico Tem receptores de membrana específicos para os neurotransmissores. No microscópio, é visível uma densidade pós-sináptica que representa proteínas com várias funções, nomeadamente a tradução da ligação receptor-neurotransmissor num sinal intracelular, a ancoragem de outras proteínas, etc.

Transmissão sináptica

A despolarização da membrana do neurónio leva à abertura dos canais de Ca 2+ do botão terminal do axónio. O fluxo destes iões provoca a fusão das vesículas sinápticas com a membrana e a consequente libertação dos neurotransmissores na fenda sináptica. Este libertação pode ocorrer também por porocitose (forma-se um canal ou poro entre a vesícula e a membrana). Os neurotransmissores atravessam a fenda sináptica ligam-se ao receptores pós- sinápticos levando, por exemplo, à despolarização da membrana por abertura de canais iónicos.

As acções pós-sinápticas geradas dependem dos receptores a que os neurotransmissores se ligam. Assim, as sinapses podem ser excitatórias se os neurotransmissores (ex: acetilcolina, serotonina, glutamina) provocam a abertura dos canais de Na + e a despolarização da membrana, ou inibitórias se os neurotransmissores (ex: glicina) abrem canais de Cl - que hiperpolarizam (tornam mais negativa) a membrana, o que dificulta a geração de um potencial de acção.

Neurotransmissores

Acetilcolina (Ach)

Neurotransmissor do SNA. Libertada por neurónios colinérgicos (simpáticos e parassimpáticos) Os receptores pós-sinápticos são colinérgicos e dividem-se em duas classes:

Receptores Ach muscaríneos presentes no coração, por exemplo

(estão associados à proteína G que leva a abertura de canais de K + que causam hiperpolarização das membranas e uma consequente diminuição da frequência cardíaca). Receptores Ach nicotínicos existem no músculo esquelético e estão associados a canais de Na + .

Substâncias inibidoras de Ach: curare (bloqueia os receptores nicotínicos e leva à paralisia muscular), atropina (actua sobre os receptores muscaríneos).

Catecolaminas

Norepinefrina, epinefrina (adrenalina) e dopamina Os neurónios são catecolaminérgicos. Os que usam epinefrina são adrenérgicos e conseguem converter norepinefrina em epinefrina. São libertadas por células dos SNC envolvidas na regulação do movimento, atenção e humor. A epinefrina pode ser libertada pela medula adrenal.

Serotonina

Presente no SNC e entérico

Aminoácidos

Ex: glutamato, aspartato, glicina

Óxido nítrico

Pequenos

Ex: substância P, hormonas libertadas pelo hipotálamo, neurotensina, …

péptidos

Após a sinapse, os neurotransmissores geralmente voltam a ser transportados para o neurónio pré-sináptico e são reutilizados. No entanto, alguns podem ser degradados por enzimas específicas, como a acetilcolinesterase que é libertada pelas células musculares e degrada a acetilcolina em ácido acético e colina. A colina é reutilizada. Alguns inibidores desta enzima são usados para tratar myasthenia gravis (uma doença neuromuscular degenerativa).

Transporte Axonal

A síntese proteica ocorre exclusivamente no corpo celular porque é o único local do neurónio onde se encontram as mitocôndrias necessárias para fornecer energia ao processo. Após a síntese, as proteínas (neurotransmissores, principalmente) são transportadas até ao axónio por transporte axonal.

Este transporte pode ser:

Anterógrado

Corpo celular Periferia Proteína motora: quinesina