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Módulo 01 - Professora Mary Del Priore1

Vídeo Aula 12 A Infância como Construção Histórica – Séc. XVI, XVII e XVIII O Estatuto da Criança e do Adolescente vai completar vinte anos e muitos professores, pensadores e educadores devem estar se perguntando, neste momento, para que serviu este Estatuto e qual é a situação da criança brasileira hoje. Eu, na qualidade de historiadora, gostaria de lembrar que esta situação que nós vivemos hoje, foi construída ao longo de mais de quinhentos anos de história. Assim, a nossa receptividade ou a nossa pouca simpatia ao Estatuto, passa, também, por estes quinhentos anos de história que nos ensinaram e que modelaram a maneira da gente ver a criança brasileira. Seria bom começar lembrando, por exemplo, que falar em criança ou falar em infância é assunto realmente muito atual. Durante quase 550 anos, a criança não foi preocupação nem das autoridades, nem dos médicos e muito menos dos professores. Se nós quiséssemos olhar realmente para trás, ao longo da nossa história, nos perguntando por que foi assim, eu começaria com as primeiras embarcações das carreiras das Índias, que traziam portugueses para o nosso litoral e passavam por aqui, antes de se dirigirem às Índias. Nestas embarcações, entre 10% a 20% da tripulação era formada por crianças abandonadas, que eram recolhidas nas cidades portuárias portuguesas e que trabalhavam de graça, ou seja, faziam um trabalho quase escravo no seio destas embarcações. É interessante que nós temos neste fato uma certa perspectiva de que esta dessensibilização nasce do entrelaçamento de algumas situações que percorrem a nossa história, e que são feitas de três fatores:
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Mary Del Priore é historiadora com doutorado em História Social e pós-doutorado em História da América e do Brasil. 2 Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto escrito.

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1. O trabalho infantil, 2. A ausência ou pouca valorização da educação (do professor ou da escola), 3. O abandono de crianças. Estas crianças vinham no bojo destas embarcações, porque eram abandonadas, e muitas delas foram recrutadas logo no início, pelos primeiros educadores que nós tivemos no Brasil que eram os padres jesuítas. Os jesuítas resolveram misturar a colonização do Brasil com o processo de catequização e para isso precisavam fundar escolas. Para cada igreja construída, uma escola, mesmo que fosse de palhoça e capim ao lado da igreja. Estas crianças portuguesas abandonadas, que vinha para cá, tinham que funcionar como os chamados “meninos língua”. Esta expressão vinha do fato de que estes meninos, por serem jovens, crianças pequenas, aprendiam muito rapidamente o falar Tupi, eram capazes de se comunicar com as crianças indígenas e atraíam estas crianças indígenas para as escolas jesuíticas. Uma escola que obviamente repetia um pouco toda a agenda educacional da Europa naquele momento, ou seja, uma alfabetização por “decoreba”, com uma profunda preocupação com a educação moral das crianças. Podemos ver que abandono e trabalho já marcam de forma emblemática a relação que se tinha com crianças. Some-se a isso outro problema muito importante que nós vamos ter, que é a questão da escravidão no Brasil. Poucos professores sabem, mas dos viajantes africanos que atravessavam o Atlântico e que desciam num porto importante como o do Rio de Janeiro, sendo vendidos no Mercado do Valongo, 4% eram população infantil. Eram crianças com menos de dez anos e ao longo de um ano estas crianças eram imediatamente separadas dos seus pais, e aos quatro ou cinco anos, tão logo elas se pusessem de pé, eram intimadas a fazer pequenos serviços, sendo rapidamente iniciadas no trabalho. Para se ter uma idéia de como a escravidão foi dura com as crianças escravas, aos oito, nove ou dez anos estas crianças já aparecem nos testamentos ou inventários que nós temos, do século XVIII ou XIX, com uma profissão definida. “Maria – costureira”, “João – Pastor”, “Benedito - Aprendiz de Alfaiate”... O próprio aprendizado da criança escrava para o trabalho também foi uma constante. Logo depois que a família real portuguesa vem para o Rio de Janeiro e ai se instala, nós temos uma proliferação da fundação de escolas para crianças de elite, e também a proliferação de escolas cuja finalidade era ensinar a criança escrava algum tipo de aprendizado ou profissão. Era uma espécie de embrião da escola técnica, que fizesse com que este escravo ganhasse mais dinheiro e remunerasse melhor o seu senhor. 2

Além das crianças escravas, das crianças que não tinham educação e vinham trabalhar em escolas jesuíticas, ou das que participaram de todas as viagens ultramarinas, junta-se à história de nossas crianças um outro fenômeno que nós temos também no período colonial, e que é muito impressionante, que é o de abandono ou disposição de crianças enjeitadas. As Santas Casas de Misericórdia tiveram um papel fundamental nesta questão e eu tenho certeza que muitos professores, sobretudo nas grandes capitais como Recife, Salvador, Rio de Janeiro ou São Paulo, conhecem as famosas rodas que ficavam nos muros das Santas Casas onde as crianças eram colocadas. Havia um sininho do lado de fora, que a mãe badalava, ela virava a roda para o interior da Santa Casa e as crianças eram recolhidas do outro lado. Dom Pedro I, numa das visitas que fez à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ficou absolutamente impressionado com o número de crianças enjeitadas, que eram ali colocadas, e com o nível de sobrevivência dessas crianças, que era baixíssimo. Eu diria que esta dessensibilização que nós temos em relação à criança brasileira nasce não só desse passado de muito trabalho, de muito abandono e de falta de educação, mas também de um fenômeno que muitos educadores que trabalham no interior conhecem bem, que são os altos índices de mortalidade infantil. Essa presunção de que a criança morrendo muito pequenina iria se transformar num anjo, e nós temos vários viajantes do século XIX, que mostram enterros de anjinhos, com as crianças todas paramentadas, deitadas em bandejas, adornadas com fitas e flores, essa presunção consolava as mulheres que tinham famílias muito grandes e que viam os seus filhos partirem em muito baixa idade, levados pela morte, ou muitas vezes levados pelo trabalho, pois as crianças eram deslocadas para trabalhar em outras regiões. O século XIX foi um século importante, porque foi um século onde a educação passou a ter alguma importância no Brasil, sobretudo entre as elites. A vinda da família real, volto a dizer, multiplicou o interesse pela educação, sobretudo pela educação feminina. Nós vamos ver que muitos estrangeiros, sobretudo imigrantes franceses e ingleses, fugindo das guerras européias, ou porque eram adeptos de Napoleão que havia caído, migram para o Brasil e tentam instalar aqui estabelecimentos que oferecessem uma agenda mais diversificada, para meninos e meninas brasileiros, mas era exclusivamente para as crianças da elite. Um viajante que passou pelo Rio de Janeiro em 1820, tem uma frase muito interessante sobre a educação feminina. Ele diz que “as meninas brasileiras iam para a escola aprender piano, a falar um pouquinho de francês, a fazer alguns passos das 3

danças inglesas que estavam na moda e para aprender a descascar gostosamente uma laranja”. Esta era a agenda educativa para as meninas, enquanto para os meninos era uma agenda que mirava mais aspectos matemáticos, que dessem aos meninos uma qualificação melhor do que aquela que seria dada para as meninas. Eu lembro que no Brasil sempre houve uma política brutal de controle da leitura dos jovens, e este é um fenômeno que também vai cobrar a sua conta um pouco adiante na nossa história de educação, uma vez que nós tínhamos a Santa Inquisição perseguindo as leituras proibidas, perseguindo uma série de autores importantes que na Europa eram corriqueiramente lidos. No início do século, na Argentina, com Sarmento, nós já vamos ter a proliferação de escolas públicas, o que aqui no Brasil vai chegar bem mais tarde. No século XVIII só para dar um exemplo, depois da expulsão dos padres jesuítas que eram, por assim dizer, os grandes educadores, nós vamos ter, a partir de 1772 a tentativa de formar a instrução pública para um maior número de crianças. Mas basta uma visita ao arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, por exemplo, para a gente se dar conta de como o professor de instrução pública era desvalorizado, Os salários não chegavam jamais, os professores eram pagos com sacos de farinha, sacos de mandioca, sacos de milho ou com frangos. Eles não tinham bibliotecas, educavam na mesma sala crianças de idades diferentes, sem nenhum suporte institucional e sem nenhum apoio da própria sociedade, que preferia ver as crianças trabalhando, porque achavam que o trabalho era melhor formador do caráter da criança do que a própria escola. A escola não vai ter um grande apoio no século XVIII e menos ainda no século XIX, em que a escola passa a ser sinônimo de uma escola de elite. Para terminar, vale lembrar que muitos dos nossos afro descendentes que foram escravos, tiveram oportunidade de ler, aprender a contar e ter familiaridade com os números, graças aos seus senhores. Era muito comum, no interior do Brasil, que numa grande mesa dentro das fazendas, as Iaiás, as Sinhás, aquelas velhas matronas que tocavam as suas fazendas, fizessem sentar à volta da mesa, escravas mulheres, as chamadas “Escravas de Dentro” e ensinassem estas escravas a ler e a escrever junto com suas filhas. Nós temos vários depoimentos deixados neste período, primeira metade do século XIX, virada da segunda metade, dando conta deste esforço de educação. Vamos ter bem claro que, pelo menos até o final do século XIX, o abandono de crianças, o trabalho infantil e a questão da falta de educação, ou seja, o pouco prestígio da escola, acabaram por criar uma enorme dessensibilização em torno da nossa infância. A criança era um trabalhador braçal como outro qualquer, e tinha que sobreviver graças a suas artes, à sua inventividade e à sua criatividade sem grande apoio da sociedade. 4

Vídeo Aula 2 A Infância como Construção Histórica – Séc. XIX O séc. XIX trouxe alguma transformação para a situação das nossas crianças no Brasil? Não! Eu lembro que se mantém a situação econômica no Brasil. Nós continuávamos sendo uma grande fazenda, que seremos até o final do século, se antes de cana, doravante de café. Vamos continuar recebendo um contingente importante de africanos que continuam desembarcando nos portos de Salvador e do Rio de Janeiro. É importante, porém, lembrar que, diferentemente do que se pensou no passado, estes africanos vão conseguir constituir as suas famílias, e que relações parentais vão se estabelecer dentro das senzalas, implicando em formas de transmissão de conhecimentos sobre suas etnias, sobre seu passado na África, informações sobre religião, práticas religiosas, alimentares, sobre conhecimentos fitoterápicos ou remédios. É interessante constatar que esta parentela dos africanos vai vicejar tanto nas senzalas, como também nas ruas das cidades litorâneas que começam a ganhar um movimento maior, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda. Nós vamos ter toda uma cultura afro que vai estar disseminada nestas cidades, permitindo que, através de laços de solidariedade que se faziam por meio de confrarias religiosas, que se faziam por meio de rituais africanos, passem a valorizar estas famílias africanas e dentro delas a valorizar a transmissão de determinados saberes e de determinados conhecimentos. A escravidão, portanto permanece, até o final do séc. XIX. A escola continua sendo o apanágio das elites brancas, e volto a dizê-lo, formada por professores estrangeiros. As meninas com pouquíssimos recursos intelectuais, os rapazes em busca de uma formação melhor, que depois vai ser completada na Europa, a partir da segunda metade do séc. XIX, com a grande facilidade de transportes que vai melhorando graças aos vapores que fazem as linhas entre Liverpool na Inglaterra e o Rio de Janeiro. Nós vamos vendo que os rapazes de elite, filhos dos barões do café vão complementando a sua educação na Europa e os frutos desse convívio com o universo europeu irá aparecer de maneira mais densa justamente no final do séc. XIX, momento dessa primeira industrialização brasileira. Uma industrialização que tem início no Nordeste e que começa a descer para o Sudeste. As primeiras grandes tecelagens são instaladas em Pernambuco, depois na Bahia e em São Paulo. Com a abolição, e sobretudo com a grande imigração que o Brasil vai receber a partir de 1860, 70, 80, o que acontece com estas nossa crianças? Elas vão para a 5

escola? Vão valorizar a educação, ou o colégio? Não! Elas continuam sendo drenadas para o mundo do trabalho. Só pra dar um exemplo, um quarto da população de trabalhadores nas tecelagens do final do século são crianças. Crianças que passavam de onze a doze horas diante de máquinas têxteis, máquinas que trabalhavam com muita velocidade. Crianças que estavam sujeitas a serem mutiladas, a perderem as mãos, os braços. A ficarem sufocadas, em ambientes absolutamente insalubres de trabalho. As fábricas raramente tinham ventilação e, em onze horas de trabalho, as crianças tinham apenas vinte minutos para se alimentar, ou ir ao banheiro. No final do séc. XIX, nós não só vamos encontrar nos jornais dessas grandes capitais anúncios recrutando crianças para o trabalho, notadamente os filhos dos imigrantes italianos ou espanhóis que vinham da Europa, já com algum conhecimento do funcionamento da indústria, como paralelamente, nós vamos começar a ver, nas mesmas páginas de jornal, uma incidência enorme de informações sobre violências cometidas contra as crianças. Crianças que eram, muitas vezes, mortas no ambiente de trabalho, que sofriam toda sorte de maus tratos por conta de mestres e contramestres. Isso começa a pipocar e fica mais interessante ainda com a instalação dos movimentos anarquistas nas grandes capitais e a circulação dos jornais anarquistas que denunciam, por sua vez, os maus tratos e a vida absolutamente sórdida e brutal que era a vida cotidiana destas pequenas crianças. É nesta situação que, talvez pela primeira vez, nós começamos a perceber a criança brasileira como vítima desse abandono institucional, da falta de escola, de família e de instituições que a preservassem da obrigatoriedade de trabalhar de maneira tão insana. Embora em 1891 nós tenhamos uma primeira lei que busca coibir o excesso de trabalho de crianças, e notadamente de crianças dentro de fábricas com máquinas muito rápidas, entre a criação dessa lei e a aplicação dessa lei, a gente sabe que “muita água vai passar por baixo da ponte” e, por incrível que pareça, os filhos desses barões de café que têm a sua educação complementada na Europa, é que começam a perceber que é preciso fazer alguma coisa para tirar estas crianças das fábricas ou lhes dar um futuro melhor. E por que esta preocupação da nossa elite? Porque os frutos desse abandono começam a ficar muito evidentes nas grandes cidades. No final do séc. XIX o Brasil, graças à proclamação da República, tem um sonho, tem a utopia de integrar enfim a modernidade, a contemporaneidade. E para isso era preciso transformar as nossas cidades que ainda eram cidades coloniais, em cidades modernas, em cidades onde a incidência de epidemias e doenças não fosse tão alta. Era preciso varrer os cortiços nos quais moravam o grosso dessa população de operários e de ex-escravos que haviam vindo do interior para as grandes cidades 6

em busca de trabalho e o resultado, digamos, dessa efervescência e desse empobrecimento da sociedade brasileira mais uma vez nós vamos ver no rostinho das nossas crianças. Nos jornais de época, vamos começar a ver uma verdadeira perseguição a elas por parte das autoridades, dos criminalistas, dos médicos higienistas e, sobretudo, da população. Eu volto a dizer que esta falta de sensibilidade em relação à criança pobre é alguma coisa que tem muitos séculos na nossa história. Pois é essa gente que vai escrever para os jornais, dizendo que haviam crianças vagabundas, crianças vadias que circulavam pelas ruas, que era preciso tirá-las das ruas, que era preciso dar um destino a estas crianças. Eu me lembro de um texto, se não me engano de Olavo Bilac, sobre a inauguração da famosa Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro era, então, a capital da República, e vai sofrer uma tremenda reforma urbana, e na pluma, do nosso grande poeta, nós temos um comentário muito desairoso sobre o dia da inauguração dessa avenida que, afinal de contas procurava imitar uma avenida francesa, com jardins a francesa, com lampiões a francesa, com calçadas e vitrines a francesa. O que sujou, o que ‘empanou’ o dia da inauguração? O fato de que o Presidente da República viu a sua comitiva acompanhada de um bando de crianças pobres que iam à frente, alegremente, dando vivas àquela iluminação elétrica, que era uma coisa absolutamente nova, e dando vivas ao Presidente da República. Mas aquilo sujava o quadro, era preciso tirar aquelas crianças desta cidade que se queria uma cidade francesa, que se queria uma cidade européia. Nós começamos a perceber que começa a haver por parte das autoridades uma preocupação grande com este contingente de crianças que habita as cidades. Não que elas não existissem antigamente, se nós olharmos, por exemplo, a história das cidades mineiras do ouro, quando há o declínio da mineração, as ruas também se enchem de crianças que prestam pequenos serviços, vivem de pequenos biscates, ajudam as mães no transporte, muitas vezes, das bandejas nas quais elas vendiam doces, frutas, enfim, vendiam o fruto do seu trabalho. É rara a gravura sobre Minas Gerais neste período, em que as mães, sobretudo as escravas ou ex-escravas, não tenham sempre pelas mãos, ou nas costas, naqueles panos africanos, a companhia dos seus filhos. Estas crianças que já eram, digamos, uma presença habitual nas cidades, começam a encher estas grandes cidades, que agora se querem francesas, querem viver uma vida como se vivia na França, e é por isso que aparece, em francês, o primeiro nome pejorativo que os nossos pequenos vadios e vagabundos vão receber: “pivete”. Pivete vem da palavra francesa “pivett” (escrita com dois “T”), e como na época os próprios jornais faziam muito gosto em escrever palavras francesas, os nossos pequenos vadios e vagabundos ganham este nome francês. 7

Era preciso, porém, tirá-los desse horizonte que agora se queria europeu. Tirálos também das fábricas porque o risco de mutilação, o risco de mortes sempre colocava em jogo o prestígio de determinados industriais. E nós sabemos que existiram industriais conscienciosos, que se incomodavam com a exploração do trabalho de crianças e também de mulheres. Nós começamos a perceber uma pequena mudança de mentalidade. As crianças começam a ganhar rosto, os adolescentes começam a aparecer também, porque os adolescentes, nesse universo fabril, passam de chão de fábrica para aprendizes mais qualificados, o que faz com que a adolescência comece a ganhar uma importância maior, uma envergadura maior. Tudo isso vai ficar mais preocupante no início do século XX , em 1902, quando são criadas as primeiras Casas de Correção para as crianças que cometiam pequenos delitos pela rua. Nós sabemos a partir de estudos que foram feitos, por exemplo, em São Paulo, que estes delitos eram de pequena monta. Estas crianças causavam pequenos furtos, se embebedavam, faziam arruaças, barulho, sujavam as ruas dessas cidades que se queriam européias. Estas Casas de Correção são criadas justamente para canalizar estas crianças, tirá-las das ruas e fazê-las, de alguma maneira, aprender algum tipo de atividade ou serem punidas pelas faltas que cometeram. Há um grande debate na época, sobretudo entre juízes e criminalistas, a respeito do discernimento que as crianças teriam a respeito das faltas cometidas. E é óbvio que as punições eram definidas a partir do discernimento ou da compreensão que a criança teria da falta cometida. Havia também uma preocupação grande, em não deixá-las, além dos dezessete anos dentro da mesma Casa Correcional. O quadro que nós temos no final do século XIX é um quadro de mudanças sociais importantes. É um quadro de industrialização, diferente daquele que nós temos no período colonial, em que a criança nas ruas, muitas vezes era canalizada para dentro de famílias, era adotada, para ser mais um braço na lavoura, se tornando o filho de criação, sendo inserida num ambiente familiar de alguma maneira. Aliás, a expressão “amor de criação”, nós encontramos em muitos documentos do período colonial, mas à medida que a urbanização começa a se adensar, em que valores como individualismo e produtividade começam a ganhar um tonos mais musculado na nossa sociedade, a criança também deixa de ser acolhida, para ser recolhida nestas instituições, e ai nós temos um momento de grande inflexão para as nossas crianças. Vídeo Aula 3 A Infância como Construção Histórica – Séc. XX Se o século XIX colocou muito à vista das autoridades este contingente enorme de crianças que trabalhavam, de crianças pelas ruas, de pivetes que enchiam as manchetes de jornal, e nós temos a partir de 1902 o início da criação de Casas de 8

Correção, que deveriam funcionar um pouco como lugares de drenagem, para limpar as grandes urbes, as grandes cidades afrancesadas dessa “sujeira” que estas crianças significavam, é a partir da República Velha que os nossos políticos vão fazer da criança uma espécie de bordão para os seus discursos. Isso que é muito comum hoje, de político prometer escola, prometer cuidar de crianças abandonas, ou dar um destino melhor às nossas fundações onde os menores criminalizados estão presos, este discurso vem lá de trás. Só pra dar um exemplo, em 1917, quando da campanha presidencial, tanto Rui Barbosa, quanto Washington Luiz se digladiaram em público, várias horas, tentando pensar uma solução para as crianças brasileiras. Mas, uma questão: onde é que estava a escola nesse momento? Fazendo um esforço danado para aparecer. É fundamental a presença de anarquistas italianos e espanhóis dentro das fábricas e na criação de jornais anarquistas e operários, que batiam tambores, chamando a atenção para a falta de escolas, para a falta de estruturas das escolas já existentes e, mais do que isso, os anarquistas criaram escolas. Edgar Leuenroth, por exemplo, em São Paulo criou uma escola justamente para proteger estas crianças de serem drenada para dentro da profissionalização precoce. Isto serve para mostrar que os políticos estavam preocupados com o destino da criança, mas não estavam preocupados com a escola. Graças ao trabalho de operários anarquistas e pessoas que estavam qualificadas intelectualmente, começouse a prestar atenção na escola pública e começou a se multiplicar a escola pública no Brasil. Nesse momento colocava-se um outro problema: se estava todo mundo na cidade, quem é que ia cuidar da vida rural, da vida no campo? Os políticos encontraram uma excelente solução: as crianças, os ‘novos imigrantes’. Os imigrantes estavam nas fábricas trabalhando, são adultos, temos uma legislação que de certa maneira proíbe que as crianças fiquem diante de grandes máquinas, “então vamos mandá-las para o campo”. A partir de 1920 são criados os primeiros estabelecimentos agrícolas para onde são encaminhadas estas crianças que são tiradas das ruas das grandes cidades, na tentativa de transformá-las em grandes lavradores, em pessoas que tivessem conhecimentos botânicos e de agricultura. É interessante que estas escolas, quando nascem, possuem uma agenda bem interessante, na tentativa realmente de aproximar as crianças de uma qualificação profissional adequada, da mesma maneira que os institutos penais procuravam, na época, qualificar as crianças para um trabalho posterior. Para a criança pobre, para a criança desfavorecida, sempre o trabalho profissionalizante, para a criança rica, uma educação que a permitisse se desenvolver. No caso destas instituições de guarda de menores infratores, o currículo era riquíssimo, ia desde língua portuguesa, literatura, gramática, matemática, biologia, 9

química, física, até uma coisa que para nós hoje seria praticamente impensável, que era o preparo para a criança fazer funcionar armas de fogo. Porque como nosso exército nesse momento estava procurando uma qualificação, estava dando os primeiros passos para a sua modernização, inclusive com, a presença de militares estrangeiros, caso, por exemplo dos franceses, que vieram para o Brasil tentando qualificar melhor o nosso exército, a idéia dos políticos era que estas crianças depois pudessem integrar as armas e servir a nação. Quer dizer, se eles não tinham mãe, não tinham pai, não tinham casa, a casa seria a nação, a mãe seria a pátria, e nós estaríamos formando bons soldados.

A Família ao Longo da História Brasileira É bom lembrar também que durante o governo do Getúlio Vargas, sobretudo na fase da ditadura houve uma preocupação grande não só com as crianças desfavorecidas, mas, sobretudo, com a família. Eu gostaria de encaminhar também a nossa conversa, um pouco para esta questão da família e do papel das relações entre pai, mãe e filhos. Getúlio Vargas tinha uma preocupação enorme em, de alguma maneira, consolidar a família burguesa, a família casada perante a Igreja. Ele vai fazer uma excepcional aliança com os bispos brasileiros nesse momento, inclusive promovendo uma campanha enorme contra concubinatos, contra amasiamentos, sobretudo entre operários e trabalhadores. A idéia é que o Brasil começasse a se destacar como um país educado, de famílias organizadas, uma sociedade organizada. O bordão desse movimento era “Casar ou Largar”, que era um bordão até bastante “sui generis”. Na preocupação de Getúlio com as crianças desgarradas, as crianças que não tinham família, ele resolve chamar para o Estado a responsabilização por estas crianças. Nasce o Serviço de Atendimento ao Menor - SAM, em 1946, que depois vai se transformar em FEBEM, em FUNABEM. Isso é assunto para especialistas dessa questão. Mas eu gostaria de voltar à questão da família no passado. Como é que uma criança podia ser abandonada, como é que uma criança podia ficar exposta, como é que uma criança podia ficar sem educação, e qual a sua relação com a família. Nós podemos imaginar que no passado não houvesse amor materno? Não. Nós temos testemunhos eloquentes desse amor paterno, em vários processos que nós podemos encontrar, do século XVII e XVIII, e mesmo em testamentos deixados por mães que, no momento da morte, manifestam aos seus parentes, aos seus compadres e comadres, a maior preocupação com o destino dos seus ‘filhinhos do coração’. Eu posso dizer para vocês que para um historiador é comovente encontrar estas expressões de amor e afeto. 10

Nós vemos também a luta de mães para resguardar os seus filhos em determinadas circunstâncias terríveis, como é o caso da Guerra do Paraguai, momento em que as crianças encontradas nas ruas eram drenadas pela marinha brasileira, para dentro dos seus quadros, para servir na Guerra do Paraguai, muitas vezes para ficar carregando munição de um lado para o outro, sendo ‘bucha de canhão’, e atuando como grumetes3 nas nossas embarcações durante a guerra. Pois nesse momento nós sabemos que existem cartas belíssimas de mães escravas, pedindo ao Imperador D. Pedro II que não deixasse seus filhos irem para a Guerra do Paraguai, porque aqueles filhos eram a última coisa que elas tinham, senão a única coisa que elas tinham. São muito comoventes também os bilhetes que foram encontrados na documentação das Santas Casas de Misericórdia, mostrando que muitas mães que abandonavam os seus filhos o faziam por absoluta indigência, pobreza, nenhuma condição de criá-los. São bilhetinhos amorosos, pedindo que aqueles funcionários cuidassem bem dos seus filhos. Muitas deixavam roupinhas tricotadas ou confeccionadas por elas, para abrigar aqueles filhinhos. Algumas, inclusive, davam nomes estranhos aos seus filhos, como por exemplo, Napoleão ou Marco Pólo, nomes diversos daqueles que nós tínhamos comumente no Brasil (João, Jose), na tentativa de que um dia, voltando a Santa Casa de Misericórdia, elas pudessem identificar no meio de dezenas de ‘Joãos’ ou de ‘Josés’, o seu Napoleão. Estas manifestações do amor materno são muito eloquentes e nós temos inúmeros testemunhos desse tipo. Podemos imaginar que as coisas mudaram nos dias de hoje e que estes laços familiares que foram uma grande preocupação dos políticos, dos religiosos, dos moralistas durante quinhentos anos, hoje estejam mais fluídos, inclusive fazendo com que nós ainda não olhemos as nossas crianças com o devido respeito. Há alguns dados que são importantes historicamente. A partir dos anos 80, uma grande migração campo-cidade ocorreu em todas as grandes cidades do Brasil. Esta é também a década em que a mulher brasileira vai passar a controlar a sua sexualidade graças à chegada da pílula anticoncepcional. É um momento em que um contingente importante de mulheres entra para o mercado de trabalho e as crianças vão ficando sozinhas em casa, na frente da televisão, e hoje na frente do computador. Devemos imaginar que nas camadas pobres o problema é mais grave e que ali haja mais desamor? Não. Nós sabemos, também a partir de trabalhos de sociólogos, que nas comunidades pobres existe um fenômeno que é interessante que é o da circulação de crianças entre a casa de mulheres que não vão trabalhar, e que olham os filhos de outras para que estas possam trabalhar. Assim, não vamos colocar a
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Categoria inferior de marinheiro. Aprendiz que faz trabalhos pesados nos navios.

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questão como uma falta de amor materno, mas talvez fosse interessante nós fecharmos este nosso bate-papo, nos perguntando qual é a situação das mulheres brasileiras hoje, qual é o papel que elas querem para elas. Durante mais de 500 anos o único papel das mulheres brasileiras foi ser mãe. A maternidade era a coisa mais importante na vida de qualquer mulher. Sobre a nossa conhecida Princesa Isabel, por exemplo, pairaram inúmeras histórias e anedotas porque durante mais de dez anos ela não conseguia engravidar e não conseguia dar um herdeiro ao trono brasileiro. Não ter filhos, não poder criar seus filhos era um verdadeiro castigo para as mulheres brasileiras. As coisas mudaram, e as mulheres perderam o enorme poder que tiveram de ter famílias numerosas, de cuidar individualmente de cada um de seus filhos, de administrar seus casamentos, fazê-los trabalhar aqui e ali. Isso ocorria em todos os níveis sociais, porque quando pegamos as listas nominativas, que são um documento importante para os historiadores do século XIX, percebe-se claramente que são as mães que vão definir a trajetória que cada um dos filhos vai ter, que vai fazê-los trabalhar em tal e qual atividade. A mulher no passado tinha, através da maternidade, um poder que era fantástico. Era ela que cuidava dos seus filhos, pois não havia pediatra e nem médico, era ela que dava formação oral e espiritual, pois naquela época não tinha catequese e não tinha iniciação na igreja. Elas, de alguma maneira, administravam os bens da família e hoje, por conta do individualismo, por conta das mudanças da vida moderna, mudanças que muitas vezes punem terrivelmente as mulheres que ficam à frente de suas famílias, muitas vezes sem companheiros, tendo que educar sozinhas os seus filhos, cansadas, chegando em casa muitas vezes depois de uma dupla jornada de trabalho. Estas questões todas que dizem respeito ao amor materno e a educação hoje merecem de todos nós, que somos educadores, que somos professores, uma profunda reflexão. Olhar para trás, para a história do Brasil, nos ajuda a entender por um lado que se não somos sensíveis ainda àquela criança que nos faróis, nos sinais se aproxima de mãozinha estendida, em busca de um auxílio, é porque nós conhecemos esta criança há mais de 550 anos. Foi ela que veio na caravela, foi ela que veio trabalhar com o Jesuíta, foi ela que veio como escrava, foi ela que veio como operária, ela está ai. Nós não temos nenhuma sensibilidade frente a esta criança, porque ela não nos apresenta nada de novo. Pensar qual é o papel que nós, como cidadãos, estamos fazendo não lutando por um apoio cada vez maior à educação, esta educação que deve ser de todos. Esta era a grande preocupação, por incrível que pareça, de Getúlio Vargas, lá atrás. Ele queria que todas as crianças estivessem na escola. Nós como cidadãos não termos um comportamento mais engajado em relação às crianças de rua, inclusive ouvindo estas crianças, porque elas têm uma história a 12

nos contar, têm o que nos dizer a respeito do que foi a sua infância, ou do que foi a sua adolescência, enfim, estes são temas que eu acho que devem ser trabalhados em sala de aula, devem ser trabalhados individualmente por cada um de nós, que somos educadores. Obviamente contando com o auxílio da história para entendermos que isso é uma tradição de longa duração, que é preciso mudar, para nós qualificarmos o nosso país, para nós conhecermos melhor as nossas crianças e, mais do que conhecer as nossas crianças, para que nós possamos amá-las mais e melhor.

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