Pós-graduação na área de Língua Portuguesa.

Disciplina: Gramática II
Tutora: Bernadete ar!al"o
Vozes verbais
As muitas vozes verbais
Voz é a forma com que o verbo se apresenta para indicar a relação entre ele e o
sujeito. Mas o assunto nem sempre é tratado nas salas de aula com a
profundidade que merece.
Por José Augusto Carvalho*

#s !o$es !er%ais constituem um assunto di&ícil 'ue nossas gramáticas nem sempre
analisam com a de!ida pro&undidade. # rigor( só os !er%os transiti!os diretos ou os
ade'uadamente c"amados %itransiti!os )na antiga nomenclatura* podem ter !o$ ati!a(
passi!a ou re&le+i!a( pela ,omenclatura Gramatical Brasileira ),GB*. -m &rases como
José saiu, Antônio foi ao Rio ou Preciso de dinheiro e 'ue.andas( os !er%os estariam
no 'ue se de!eria c"amar de !o$ medial( de 'ue tam%/m / e+emplo a !o$ re&le+i!a(
mas seria uma solução con!eniente para a análise de &rases como 0os/ morreu( em
'ue o su.eito( na !erdade( / paciente( e seria( como /( disparate &alar em !o$ ati!a.
1alar em 2passi!idade3 em casos como Carlos levou um tiro para .usti&icar 'ue se trata
de !o$ ati!a e não de outro tipo de !o$( como !eremos oportunamente( / escamotear
o pro%lema( e não resol!4-lo. 5ale di$er: Pela ,GB em !igor( uma &rase como -le caiu
não estaria em !o$ nen"uma.
A voz depoente
#s gramáticas 'ue estudam a diátese )!o$ !er%al* le!am em conta apenas as !o$es
ati!a( passi!a e re&le+i!a. 6as "á( ainda( a !o$ medial )de 'ue a re&le+i!a pode ser um(
em%ora não 7nico( e+emplo* e uma 'uinta esp/cie de !o$( 'ue os estudiosos de latim
con"ecem %em( posto 'ue nem sempre com essa classi&icação de !o$: a depoente.
8á autores 'ue( com alguma ra$ão( consideram depoentes construç9es portuguesas
com o particípio( como Ele chegou aqui almoçado; Ele é um homem lido; “Porém j
cinco !"is eram passados# ):s Lus. 5( ;<*.
-m portugu4s( "á um tipo di&erente de !er%o depoente )mel"or seria
di$er 2antidepoente3*( com &orma ati!a e signi&icado passi!o. =ão os
!er%os transiti!os diretos com o%.eto direto( mas com su.eito paciente(
como em 0os/ le!ou um tiro> arlos gan"ou um tapa> 0orge pegou
sarampo> #nt?nio rece%eu um soco etc. -m%ora teoricamente se
possa trans&ormar na !o$ passi!a os !er%os 'ue ten"am o%.eto direto(
o signi&icado passi!o das &rases acima impede esse tipo de
trans&ormação. 1alar em 2passi!idade3 não resol!e casos em 'ue(
em%ora o su.eito se.a agente( a ação !er%al recai so%re ele( como se a !o$ &osse
re&le+i!a )mas / !o$ medial* sem o pronome ade'uado( tornando impossí!el a
trans&ormação passi!a( como em José $esa a$enas trinta quilos :u como em Carlos
$erdeu o ôni%us. :u( ainda( em: &aria $ula corda'
# gramática gerati!a( na teoria padrão( considera!a a !o$ passi!a uma simples
trans&ormação &acultati!a da !o$ ati!a. :ra( a diátese / uma categoria gramatical(
reali$ada no !er%o( 'ue indica se o su.eito / ou não e+terior ao processo ou @ ação
!er%al. 8istoricamente( a !o$ passi!a se origina não da !o$ ati!a( mas da !o$ dita
medial. -ssa !o$ se reali$a de duas maneiras: ora com !er%o intransiti!o cu.o su.eito
não / necessariamente o agente da ação ou do processo )A montanha tremeu*> ora
com !er%o transiti!o 'ue ocorra com um pronome reflexivo
)Ele se feriu* ou com o%.eto duplo em 'ue o su.eito )agente* e+erce a ação so%re um
o%.eto distinto( mas em seu %ene&ício )Ele se deu esse lu(o*.
# ideia da !o$ depoente parece-me solução ade'uada para e+plicar( graças @s
suas características de uma !o$ di&erente( a impossi%ilidade de trans&ormação passi!a
de &rases como Antônio levou um soco( em 'ue o !er%o parece estar na !o$ ati!a( com
o%.eto direto( mas o su.eito / paciente. ,o ingl4s clássico( / possí!el !o$ passi!a com
o%.eto direto: ) *as stolen a $encil %+ him )literalmente: 2-u &ui rou%ado um lápis por
ele3*. -m redaç9es escolares( / possí!el encontrar !o$ passi!a construída
e'ui!ocadamente com o%.eto direto( como no e+emplo seguinte: “, $rofessor foi
indagado $elos alunos se $odia li%erar a turma mais cedo'#
Vozes ativa e passiva
A interessante lem%rar ou relem%rar 'ue a !o$ passi!a não / necessariamente
sin?nima da !o$ ati!a correspondente. 8á casos em 'ue a !o$ passi!a /
semanticamente distinta da !o$ ati!a( contrariando a ideia de 'ue a'uela / apenas
uma trans&ormação desta. Bma &rase como 2# cidade !iu Tancredo doente3 tem
sentido di&erente do da sua correspondente passi!a: 2Tancredo &oi !isto doente pela
cidade3( em 'ue o su.eito metonímico da ati!a se con&unde com um ad.unto ad!er%ial
de lugar( na passi!a. # &rase 2-u tirei esta &oto3 pode ser interpretada assim: 2Posei
para esta &otogra&ia3 ou 2-u &ui o &otógra&o responsá!el por esta &otogra&i a3. 6as a !o$
passi!a correspondente C -sta &oto &oi tirada por mim C só tem uma interpretação
possí!el: a de 'ue eu &ui o responsá!el pela &oto( isto /( a de 'ue &ui o &otógra&o. #
&rase 2Bm só aluno não &e$ o de!er3 não di$ o mesmo 'ue 2: de!er não &oi &eito por
um só aluno3.
# solução ideal seria considerar a !o$ passi!a não como uma trans&ormação da ati!a
)e ainda menos como uma esp/cie de ad!/r%io de modo da !o$ ati!a( e+plicação
tentada por gerati!istas*( mas como uma construção paralela mor&ologicamente
semel"ante @ !o$ ati!a. # semel"ança mor&ológica )mesmos itens le+icais* permite a
con!ersão de uma em outra( mesmo 'ue o sentido se.a di&erente. #ssim( seria
desnecessário( por não pertinente( e+plicar a não correspond4ncia semDntica 'ue @s
!e$es se o%ser!a entre as duas construç9es.
=ó e+istem dois tipos de !o$ passi!a: a analítica( construída com o !er%o ser au+iliar(
como em A rosa foi vista $or José( e a sint/tica( construída com o pronome
apassi!ador( como em -iu.se a rosa. Bns poucos gramáticos mais ousados(
con&undindo análise semDntica com análise sintática( apresentam( e'ui!ocadamente(
um terceiro tipo de !o$ passi!a: a de in&initi!o( como na &rase osso duro de roer(
pretensamente passi!a( por'ue pode ser para&raseada em osso duro de ser roído.
:ra( nos predicados ad.eti!ais desse tipo )dif/cil de fa0er, duro de roer, fcil de ler,
ruim de di0er etc.*( a !o$ / ati!a> pressup9e a e+ist4ncia de um su.eito ati!o: osso duro
de algu/m roer( li!ro &ácil de algu/m ler( tra%al"o di&ícil de algu/m &a$er( etc. Por isso /
possí!el di$er: coisas di&íceis de &a$er )!o$ ati!a*( coisas di&íceis de se &a$erem )!o$
passi!a sint/tica* e coisas di&íceis de serem &eitas )!o$ passi!a analítica*.
-m &rases como dar a m1o a %eijar( a ideia / ainda de !o$ ati!a: dar a mão para
algu/m %ei.ar( dar a mão a algu/m 'ue a %ei.e. Eaciocinar com comutaç9es sintáticas
/ dei+ar-se enganar pela semDntica. # comutação( isto /( a troca de um elemento por
outro para !eri&i car se o sentido permanece ou não o mesmo( &unciona
ade'uadamente na &onologia( mas &racassa na sinta+e. Por e+emplo: pode-se di$er
2de tarde3( 2de noite3( 2de man"ã3. 6as( se se pode di$er 2@ tarde3 e 2@ noite3( não se
pode di$er 2@ man"ã3. # comutação não &unciona.
Concordância verbal
omo a !o$ ati!a e a !o$ passi!a são 'uase sempre sin?nimas( / &ácil tomar uma pela
outra @s !e$es( como &a$ o usuário da língua( ao di$er Afina. se $ianos )por Afinam.se
$ianos* ou A fcil fa0er a li21o quando se a sa%e )por quando se sa%e ela*. Bma regra
de concordDncia &re'uentemente ignorada estipula 'ue( sempre 'ue numa oração
e+istir o pronome se( seu su.eito será normalmente o primeiro su%stanti!o ou pronome
'ue aparecer sem preposição. Por isso( / impossí!el a ocorr4ncia do pronome se com
os pronomes pessoais o ou a. A inadmissí!el di$er , dinheiro é %om quando se o tem:
o pronome sem preposição( de acordo com a regra acima( 'ue aparece na oração
com o se / o( 'ue não pode ser o su.eito( por'ue / pronome pessoal típico de o%.eto
direto. orri.a-se: : din"eiro / %om 'uando se tem )ele*. -m Alugam.se $ianos( o
su%stanti!o não preposicionado C pianos C / o su.eito. Por isso o !er%o !ai para o
plural. -m Precisa.se de em$regados( o su%stanti!o está preposicionado( por isso o
!er%o &ica no singular: o su.eito / indeterminado. Di$-se 'ue o su.eito / indeterminado
'uando não tem n7cleo( isto /( 'uando não e+iste pronome nem su%stanti!o 'ue
e+erça essa &unção e+plicitamente na oração.
,ão precisamos recorrer aos clássicos para pro!ar 'ue não / por &alsa concordDncia
'ue o !er%o concorda com o seu su.eito passi!o nas construç9es com o se
apassi!ador( mas pelo &ato de o se indeterminador e o se apassi!ador serem duas
realidades di&erentes. Eecorramos @ intuição( @ moda dos gerati!istas( e e+aminemos
as &rases seguintes:
l. Fuanto ao g4nero e ao se+o( trata-se de coisas di&erentes.
. Des&ol"ou-se a ár!ore com a ação do !ento.
,en"um &alante su%stituiria o se por a gente ou por algu/m( no e+emplo )G*( em%ora
se.a patente a indeterminação do su.eito> e ningu/m tampouco ac"aria 'ue( no
e+emplo )H*( a ár!ore se teria des&ol"ado( mas 'ue ela &oi des&ol"ada graças @ ação
do !ento. ,o e+emplo )H*( a signi&icação passi!a / ó%!ia demais.
Parece-me 'ue a &alta de concordDncia 'ue se o%ser!a em &rases como #lugam-se
casas( na &ala popular )#luga-se casas*( se de!e @ in!ersão da ordem. -m &rases
como : c"á e o ca&/ se derramaram so%re a mesa( o signi&icado passi!o
/ mais %em aceito pela intuição ou pela psicologia do &alante do 'ue em
&rases em 'ue o su.eito aparece depois do !er%o. ,ingu/m dei+aria de
recon"ecer o sentido passi!o em &rases como:
!. Tu te operaste de um tumor no c/re%ro.
". ,ós nos %ati$amos 'uando tín"amos dois meses de !ida.
#. 5ós !os c"amais Pedro.
Todos os estudos por mim e+aminados 'ue con&rontam o indeterminador e o
apassi!ante em portugu4s ou não le!am em conta o agente da passi!a e+presso( ou
só le!am em conta a ;I pessoa se )@ e+ceção do li!ro !inta(e clssica $ortuguesa( de
láudio Brandão C Belo 8ori$onte: Bni!. de 6inas Gerais( GJK;*. ,a !erdade( as
outras pessoas tam%/m t4m o seu pronome apassi!ador respecti!o( como
demonstram os e+emplos ;( L e M( .á transcritos. Pela própria de&inição de
indeterminação do su.eito( o pronome indeterminador só pode ser da ;I pessoa.
Parece-me pouco esclarecedor 'ue se atente de modo a%soluto para a
correspond4ncia semDntica das estruturas sintáticas. A !erdade 'ue entre Aluga.se
esta casa e Esta casa é alugada, e+istem di&erenças de signi&icado )o aspecto de
completitude( na construção com o !er%o ser*( cu.a causa reside %asicamente no
emprego do tempo !er%al. Fual'uer &alante da língua o%ser!a identidade semDntica
entre -enderam.se $oucos livros na feira e Poucos livros foram vendidos na feira.
Tal!e$ se de!a &alar em 2gradação semDntica3 dos tempos !er%ais na correspond4ncia
entre a !o$ passi!a analítica e a !o$ passi!a sint/tica( com o se apassi!ador( ou entre
as duas passi!as e a !o$ ati!a e'ui!alente.
N0os/ #ugusto ar!al"o / mestre em Linguística pela Bnicamp e doutor em Letras
pela B=P
)Disponí!el em "ttp:OOlinguaportuguesa.uol.com.%rOlinguaportuguesaOgramatica-
ortogra&iaOHLOartigoG<PHGL-;.asp. #cesso em HLOQPOHQGQ*

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful