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Rousseau – o pensador da atualidade

por Camilla Medeiros

“Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” é


um livro bastante atual. Surpreende-me a quantidade de 'previsões' que Rousseau há
mais de dois séculos atrás fazia sobre o destino da sociedade baseada no liberalismo.
Para além disso, seu livro discute – como o nome já diz – a origem da desigualdade
e como ela se legitimou.
Nesse esforço o autor traça uma linha de 'desenvolvimento' do homem, que
inicialmente, em seu estado de natureza vive isolado e seguindo seus instintos naturais
básicos (comer, beber e reproduzir). Sendo assim, se torna muito mais fácil que esse
homem sinta-se realizado, pois sem preocupações com futuro, sua felicidade era
condicionada a elementos simples e de fácil aquisição.
Esse bom-selvagem, como ficou conhecido o homem em estado de natureza,
perdeu sua felicidade no momento em que percebeu que poderia facilitar sua vida,
fazendo as mesmas tarefas de modo mais rápido, menos trabalhoso e mais eficiente.
Essa capacidade de aperfeiçoar-se deu ao homem a chave de todas as mazelas que
estavam por vir.
Parece contraditório pensar que o potencial de aperfeiçoamento seria negativo,
mas pensemos num homem que precise diariamente subir em uma árvore para colher
suas frutas. Essa tarefa lhe exige grande esforço físico, tempo e habilidade. Quando num
momento, esse homem tem a ideia de construir uma escada, seu trabalho fica mais
fácil. Porém, a partir de então, o homem se viria escravo de suas criações, pois nunca
mais conseguiria tão facilmente subir em uma árvore, e sem a escada, colher frutas do
alto da árvore se torna quase impossível.
Vivemos hoje (e já há algumas décadas) em uma sociedade permeada por essas
invenções que facilitaram a vida do homem. Não as questiono, assim como Rousseau,
não propunha um retorno a vida selvagem. Porém, não se pode negar a montanha de
necessidades que nos são impostas diariamente. Sentimos falta de coisas que nunca
tivemos, e que nunca significaram necessidades vitais de fato.
Precisamos ser inteligentes, conquistar uma carreira de sucesso, uma família
estruturada (marido, filhos), carro do ano, casas (moradia, de campo, de praia), e
assim, sermos reconhecidos pelos outros como homem e mulheres de sucesso.
Eis então a grande diferença entre nós e o bom-selvagem: “o selvagem vive nele
mesmo, enquanto o homem sociável, sempre fora de si, só sabe viver na opinião dos
outros, e é somente do julgamento deles por assim dizer, que obtém o sentimento de
sua própria existência”.

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