C2 Caderno 2

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O ESTADO DE S. PAULO

SEGUNDA-FEIRA, 15 DE FEVEREIRO DE 2016

DIRETO DA FONTE
SONIA RACY

Colaboração
Gabriel Manzano gabriel.manzanofilho@estadao.com
Marília Neustein marilia.neustein@estadao.com
Marina Gama Cubas marina.cubas@estadao.com
Sofia Patsch sofia.patsch@estadao.com

Blog: estadão.com.br/diretodafonte Facebook: facebook.com/SoniaRacyEstadao Instagram: @colunadiretodafonte

Encontros Mario Sergio Cortella

‘Na educação, começamos a sair da
indigência, e a ruptura é para melhor’
Filósofo e educador se diz otimista com o futuro, mas avisa: não basta maior acesso ao
ensino, é preciso que os alunos permaneçam e isso ‘seja relevante para a vida coletiva’
Mario Sergio Cortella escreve total, não tem qualidade, tem
livros, faz comentários em rá- privilégio. Nesse sentido, há
dio e TV e dá pelo menos 60 uma ruptura nos últimos 30
palestras por mês. Mas garan- anos, para melhor. Além disso,
te: sua vida “não é corrida, é o Brasil não tinha quase instruorganizada”. Antigamente, mentos de avaliação das suas escompara, dava aula de ma- truturas educacionais. As ferranhã, à tarde e à noite. Filóso- mentas de hoje permitem uma
fo, educador e escritor, ele visão mais nítida do que estatem uma bagagem que vai mos fazendo. E também, claro,
além da sala de aula: foi tam- a Constituição de 1988 alterou
bém secretário municipal da a distribuição de recursos e auEducação da gestão da Luiza mentou a possibilidade de susErundina. Nesta entrevista a tentação da educação municiMarina Gama Cubas, ele vol- pal. Mas, repetindo Churchill,
ta o olhar para os últimos 30 estamos no fim do começo.
anos – um período em que o Não no começo do fim.
Brasil “começou a sair da inl Qual o grande
digência na ‘SEM QUANTIDADE problema da educaárea da educação brasileira hoje?
ção escolar” e TOTAL NÃO HÁ
Temos três granconstata “uma QUALIDADE, MAS
des problemas.
ruptura para SIM PRIVILÉGIO’
Um deles é a demelhor”. Mede
mocratização não
a temperatura da geração que só do acesso, mas também da
foi às ruas reivindicar seus so- permanência. Não basta colonhos, conclui que há muito o car crianças na escola em larga
que fazer, mas sua mensagem escala, é preciso que elas peré a de um otimista, inclusive maneçam e tenham uma educaquando o assunto é ética: “So- ção que seja relevante para a vimos um País na adolescência, da coletiva. Não só com capacicaminhando para a maturida- tação técnica, mas com base de
de”. A seguir, os principais tre- cidadania. Em segundo lugar,
chos da entrevista.
precisamos de uma nova qualidade de ensino, com uma estrutura mais voltada para o século
l O Brasil tem conseguido
21. Costumo brincar que temos
avançar na direção de ser a
um choque intersecular na espátria educadora?
Bastante. O lema adotado trutura educacional. Os alunos
veio num momento perturba- são do século 21. Nós, professodo, de restrições orçamentá- res, somos do século 20. E as
rias, mas deveria ser coloca- metodologias e a organização
do como um projeto de na- são do século 19. E essa necessição. O Brasil, nos últimos 30 dade de atualização exige uma
anos, começou a sair da indi- formação mais continuada da
gência na área da educação parte docente. O que significa,
escolar. Seja nos governos de também, ter maiores recursos.
FHC, de Lula, no primeiro
mandato da Dilma ou agora. l Como viu a ocupação de escoEvidentemente isso não nos las por estudantes no final do
acalma. Apenas traz a certeza ano passado?
de que é possível fazê-lo.
Um movimento belíssimo no
sentido pedagógico, porque
acabou fazendo com que se
l O que chama de indigência
desse uma atenção maior para
na educação?
Durante séculos tivemos um a questão que era decisiva na vinível de exclusão na educa- da das famílias e das comunidação básica muito forte, além des: a da reestruturação escode um nível de analfabetis- lar. Ela mostrou do que um grumo adulto que ainda é vergo- po de jovens, que não teve conhoso, mas que saiu dos pa- mo referência de ação política
tamares de tempos anterio- uma estrutura ditatorial, é cares. Havia ainda um ensino paz quando pode atuar em um
superior restrito a uma cama- contexto democrático e para
da menor da população sob aquilo que considera correto.
o argumento de que isso re- Houve um equívoco, no primeisultaria em maior qualidade ro momento, de chamar a atitu– o que, numa democracia, é de dos estudantes de invasão.
um argumento inaceitável. Quando o espaço é público, se
Se você não tem quantidade tem uma ocupação. E essa ocu-

RICARDO CHICARELLI/ESTADÃO

Nas democracias há o direito de insubordinação civil,
que é a recusa da população
ou de parte dela a algo que
considere inadequado, injusto ou violento. O filósofo
John Locke, no Tratado sobre o Governo Civil, fala do
equilíbrio entre os poderes,
e esse elemento é um dos
que influenciaram a independência dos Estados Unidos e a Constituição brasileira de 1988. A Constituição
não está além da própria vida em comunidade.
l Os atos nas ruas mostraram
também manifestações de intolerância. Como vê isso?

pação se dá em nome das
ideias defendidas. Essa ação pode se transformar em um esforço coletivo para que tanto a autoridade docente como os estudantes surfem em outras ondas – as necessárias para que a
educação não seja menos relevante do que deve ser.
l Pesquisa do Data Popular mostra que apenas 3% dos brasileiros afirmam ser corruptos, mas
que 70% admitem ter tomado
pelo menos uma vez na vida uma
atitude corrupta. Uma ação torna
alguém corrupto?

Nenhum e nenhuma de nós é
imune à degradação ética. Nenhum e nenhuma de nós é invulnerável. Por exemplo, se eu
considerar um ato corrupto eu
ter colado na prova, ou ter tentado passar à frente de alguém
na fila. Esses atos do cotidiano,
se reiterados, caminharão em
direção a uma corrupção mais
extensa. Esses delitos nossos,
que individualmente ou isoladamente têm uma ressonância
menor, se tornados hábitos
agregam uma negatividade. O
fato de se poder dizer que nenhum de nós é imune, no entanto, não significa que isso seja
obrigatório. Como costumo dizer sempre, a corrupção é uma
possibilidade, não é uma obriga-

toriedade. Apenas 3% admitirem isso é um índice que eu
olharia como reduzido se imaginarmos o quanto somos, de fato, capazes de qualificar a corrupção de vários modos.
l As pessoas não conseguem ver
a corrupção nos próprios atos?

mos um aprendizado de conduta em relação ao nosso modo
de vida privado e público. Isso
significa que há uma construção histórica em relação aos
nossos direitos e deveres. Por
que somos hoje mais propensos a desejar a honestidade?
Porque temos uma imprensa livre que pode tornar público
aquilo que é necessário. Também porque temos tecnologia
digital que nos coloca em estado de vigilância mais contínua.
E porque uma parte de nós já
entendeu que a fratura ética leva à derrota coletiva.

Não conseguimos. Temos uma
coisa chamada consciência que
trabalha muito fortemente o
que chamamos de “ética da conveniência”. Ela ocorre em vários casos. Por exemplo, quando a pessoa diz “eu faço, mas todo mundo faz”. Ou: “se não for
assim, eu não vou conseguir”. A
ética da convel Acha que o Brasil
niência é malévo- ‘A FRATURA
vai sair melhor da
la porque degrada
Lava Jato?
a nossa condição, ÉTICA NOS LEVA
Cada vez mais.
mas não é privati- À DERROTA
Há todo um amva da brasilidade. COLETIVA’
biente, hoje, que
Precisamos ter
é mais favorável
cautela ao falar em ética para a que a gente fique mais atennão esquecer que ética não é to em relação às condutas pricosmética, uma coisa de facha- vada e pública. Se nós formos
da. Vamos a um exemplo. No os mesmos daqui a 10 anos, isparâmetro em relação à corrup- so será um sinal de que a nosção do mundo, que saiu há algu- sa canalhice é superior à nosmas semanas, um dos países sa decência, e não acredito
menos corruptos, em nível de que assim seja.
governo, é a Suíça. Mas é um
dos países que mais acolhem di- l Você diz que a democracia é
nheiro corrupto do mundo. É aceitação coletiva das regras.
necessário ter cautela com essa A coletividade, então, pode quehipocrisia. Ao mesmo tempo, te- brar essas regras?

Há aí algo que Vladimir
Lênin chamava de teoria da
curvatura da vara. É uma
ideia fácil de entender: após
você pegar uma vareta que
está fincada no chão e envergá-la fortemente numa direção, ao soltá-la ela vai fortemente na direção oposta. As
manifestações dos últimos
tempos permitiram que viessem à tona não só pensamentos contrários e divergentes,
mas também as doenças. Isto é, as doenças mentais,
principalmente a da intolerância, que é sinônimo de covardia e de incapacidade de
ouvir aquilo que não pensa.
l Estamos mais intolerantes?

É maior, hoje, a possibilidade
de aclarar a intolerância. As
pessoas têm muito maior condição de ser intolerantes e repartir esse comportamento.
Não tínhamos, até algum tempo, qualquer plataforma em
que eu pudesse manifestar isso, exceto individualmente.
Em segundo lugar, eu nem poderia fazê-lo porque seria imediatamente submetido à pressão de alguém mais poderoso. Em terceiro, a violência
no mundo é muito mais reduzida, comparada ao que já foi.
Nós temos hoje capacidade
maior de produzir violência,
mas a rejeição a ela é maior.
l Você se considera um realista ou um otimista?

Eu acho que todo o otimista
é um realista compromissado. O pessimista é acima de
tudo um desistente, que se
senta e espera dar errado. O
otimista tem muito mais trabalho porque precisa ir
atrás. Prefiro ser otimista.

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